Especial Foragidos II: Quadrilha que roubou US$ 500 mil no Caribe aplica mesmo golpe no Paraná

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Os dias têm sido agitados no escritório da Attitude Internacional, empresa situada em um conjunto de três bem decoradas salas  no décimo-sexto andar de um edifício no Centro Cívico de Curitiba. Um jovem chamado William evita atender aos seguidos telefonemas de “clientes” que ligam para pedir de volta o dinheiro pago por serviços que jamais serão prestados. Numa única tarde foram mais de trinta telefonemas, todos eles de pessoas indignadas com a falta de cumprimento dos contratos de sua empresa.

A Attitude Internacional, nome pomposo para uma empresa de fachada, promete levar trabalhadores brasileiros para os Estados Unidos e outros quatro países em programas de intercâmbio profissional. O site da “empresa” (veja aqui) afirma que ela tem “alianças estratégicas e contratuais com várias companhias dos Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia Austrália e Irlanda” e promete “a possibilidade de estudar e trabalhar legalmente em todos estes países”.

É mentira. Por trás da Attitude International atua uma quadrilha procurada pela Interpol no mundo todo. Os mesmos brasileiros, que residem em Curitiba, aplicaram o golpe na República Dominicana, de onde estão foragidos, e há evidência de que também tenham agido no Equador. Para criar a fachada brasileira, os estelionatários a registraram como uma empresa de importação e exportação de ferramentas. O registro, muito recente, foi expedido em 17 de fevereiro passado. Ainda não há informações sobre os cotistas no banco de dados do SERASA. No site da “companhia”, no entanto, a Attitude International é apresentada como uma “agência de recrutamento” (veja na infografia à direita).

Pelos registros policiais sobre a atuação de seus donos, não é nem uma coisa, nem outra. É apenas a fachada construída para a replicação de um golpe que foi aplicado em duas cidades da República Dominicana a partir do começo de 2007, e que só terminou quando os quatro brasileiros que tocavam o negócio desapareceram para evitar o cumprimento da ordem de prisão expedida pela justiça local.

Os chefes dessa quadrilha são Antônio Clem, cuja ficha pode ser avistada no site de procurados pela Interpol, e Alexsandre (ou Alexandre) Fernandes, que é o gerente do escritório de Curitiba.

Há também duas mulheres que tiveram participação ativa na etapa “dominicana” dos golpes: Deise Zuqui e Luciana Fernandes. A primeira é esposa e a segunda, irmã de Alexsandre. Ambas tiveram a prisão pedida pela justiça da República Dominicana.

Os quatro criaram no Caribe uma empresa para atuar nos mesmos moldes com que vêm atuando agora com a Attitude International. A Intercâmbio Cultural Dominicano passou a existir formalmente em Junho de 2006. A sede ficava no centro da segunda maior cidade do país, San Francisco de Marcorís.

Para formalizar a empresa, os quatro se associaram a outros três acionistas dominicanos. “Era só para cumprir uma formalidade”, diz Wilton Antônio de Jesus, que se declara ex-empregado da quadrilha. Wilton foi um dos que mais perderam quando ficou claro que o objetivo dos brasileiros era apenas aplicar um golpe.

“Eles chegaram com uma proposta que parecia muito interessante. Assim que começamos a trabalhar, vendemos muitos contratos. Percebemos tarde demais que eles não seriam honrados”, conta o dominicano, que serviu como uma espécie de laranja involuntário do grupo. Ao final de um ano, Wilton já havia perdido mais de US$ 20 mil — e ainda amargou o desgosto de ir parar na cadeia por alguns dias.

O golpe consistia na oferta de oportunidades de trabalho nos EUA e na Europa. A empresa dizia representar empregadores americanos interessados na contratação de trabalhadores de baixa renda e qualificação para serviços de limpeza, manutenção e construção civil.

O negócio se assentava sobre uma empresa baseada nos Estados Unidos chamada Global Services Inc, presidida por Antônio Clem. Era a ponta da lança da quadrilha. A Global Service seria a correspondente norte-americana de uma rede de recrutadoras de mão-de-obra que se espalhou por vários países, entre eles o Brasil. Aqui, o “representante” era um site na Internet chamado JobUSA. O registro do domínio continua ativo nos arquivos da FAPESP, o “cartório” da internet no Brasil, embora o site tenha saído do ar.

As operações comerciais da Intercâmbio Cultural Dominicano começam no início de 2007.  Além da sede em San. Francisco de Marcorís, um segundo escritório foi aberto em La Romana. Os contratos oferecidos custavam entre US$ 1,5 mil e US$ 3 mil dependendo da localidade e do país escohido pelo candidato à emigração.

Maria Cepeda, contratada para atender os interessados em La Romana, assegura que foram vendidos pelo menos 350 pacotes. Ela conta que apenas um dos candidatos foi efetivamente enviado aos Estados Unidos. “Todos os outros foram logrados. E ninguém recebeu o dinheiro de volta”.

Maria Cepeda até hoje se emociona quando relembra a humilhação que passou quando os quatro brasileiros desapareceram. “Fui presa porque era eu quem atendia os clientes. Perdi tudo o que tinha porque tive que indenizar muita gente, embora eu não fosse mais do que uma humilde funcionária da empresa”, conta, com a voz embargada.

Wilton de Jesus, um dos dominicanos que foram usados como laranja, assegura que a quadrilha levou da República Dominicana pelo menos meio milhão de dólares durante o ano em que atuou em seu país.

Mas o que mais causa indignação a ambos é saber que Clem, Alexsandre, Deise e Luciana permencem livres e a salvo de qualquer tipo de processo só porque são brasileiros e voltaram ao Brasil. “De nada adiantaram os esforços da justiça do meu país para prender essas pessoas”, diz Wilton. “Enquanto estiverem aí eles vão continuar aplicando golpes e lesando gente pobre”.

“As pessoas de quem esses brasileiros roubaram todo o dinheiro são gente muito humilde”, diz Maria Cepeda. “Era gente desesperada que não tinha no que trabalhar aqui na República Dominicana e perdeu todas as economias. Muitas famílias estão passando fome por causa desse golpe”,  diz ela. emocionada.

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Comentários

One thought on “Especial Foragidos II: Quadrilha que roubou US$ 500 mil no Caribe aplica mesmo golpe no Paraná

  1. gostaria de saber mais sobre alex fernandes e deise zu qui pois conheço estas pessoas e inclusive trabalhei na empresa deles que hj e chamada wrc e fui enganado tb

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