O ano de 1996 ia terminando sob o calor infernal do sol equatorial em Boa Vista, Roraima. Na superintendência local da Polícia Federal, precariamente...

O ano de 1996 ia terminando sob o calor infernal do sol equatorial em Boa Vista, Roraima. Na superintendência local da Polícia Federal, precariamente instalada num prédio caindo aos pedaços, a então delegada Sueli Gorisch teve uma idéia que mudaria para sempre a sua vida: aproveitar recursos cedidos pela FUNAI para alugar outro prédio, reformá-lo, instalar divisórias e aparelhos de ar-condicionado que dariam conforto aos funcionários.

A oportunidade surgiu quando o empresário Paulo Roberto Francisco da Silva apresentou um galpão que poderia abrigar a estutura funcional do órgão. Ele era o sócio-gerente da Importadora Barrudada que, embora não fosse uma empresa legalmente habilitada para fernecer serviços de engenharia, acabaria contratada para a reforma do imóvel.

Tudo foi acertado muito rapidamente. A pressa se justificava pela aproximação do final do exercício fiscal daquele ano e em seu nome foi providenciada a dispensa de licitação. Apesar da ausência de um projeto técnico, a Barrudada foi contratada para tocar as obras antes mesmo que o prédio fosse alugado, o que só aconteceria no dia 14 de janeiro do ano seguinte.

A nota fiscal e o pagamento da reforma foram feito no apagar das luzes de 1996, no dia 31 de Dezembro. A Barrudada recebeu exatos R$ 200 mil pelos serviços. A reforma foi concluída dez dias depois. E o contrato de aluguel foi assinado apenas uma semana depois da conclusão da reforma. O serviço foi pago sem qualquer tipo de compensação à União pelo valor despendido nas melhorias do imóvel, que aumentaram seu valor patrimonial. Outros R$ 87 mil foram empenhados na compra de equipamentos de ar-condicionado.

A pressa na realização do negócio só foi esclarecida anos depois, quando uma sindicância da Polícia Federal apontou vícios insanáveis na locaçao do prédio. Notificado, o TCU investigou o caso. Dois delegados foram ouvidos — e condenados — no processo: Seuli Gorisch, a superintendente, e William Victor de Almeida Ramos, o superintendente interino que fez o pagamento e assinou o contrato.

O que se descobriu ensejaria o desligamento, a bem do seriço público, da chefe da PF de Roraima. Trinta por cento do que foi pago à Barrudada, R$ 60 mil, foram parar na conta-corrente do delegado William.  O dono da Importadora Barrudada apresentou recibos de depósito bancário comprovando as transferências. Ambos foram afastados da PF e responderam a um processo criminal.

Sueli Gorish, no entanto, decidiu não enfrentar a acusação. Durante o curso dos processos ela simplesmente desapareceu. Deixou de apresentar a defesa ao TCU e à Justiça Federal. Apesar de muitas vezes intimada, não compareceu às audiências. Virou réu revel. Com o desaparecimento, a justiça brasileira expediu uma ordem de prisão e comunicou a Interpol.

A esta altura, Sueli tentou se estabelecer em Londres, onde levava uma vida normal. Participava de redes de relacionamento e não escondia seu paradeiro de amigos e parentes. Mudou-se depois para Lisboa, onde passou a trabalhar com gerenciamento de redes hoteleiras. No começo do ano passado a Interpol bateu à sua porta. Sueli foi presa e ficou duas semanas na cadeia. Seu advogado brasileiro, o criminalista Antônio Andrade, de Brasília, identificou um vício de origem e conseguiu anular a sentença que a condenava na primeira instância da Justiça Federal.

Libertada, Sueli tomou um avião e seguiu para a Alemanha. Desde então está radicada em Allmersbach Im Tall, lugarejo 35 quilômetros a nordeste de Stuttgart, próximo à fronteira com a Suiça. Não tem planos de voltar ao Brasil nem quer contato com brasileiros. Vivem em companhia da família e continua trabalhando para redes de hotéis. Mas apagou todos os vestígios na internet que pudessem vinculá-la ao seu novo paradeiro.

Assim que chegou a Allmersbach, a ex-delegada federal foi novamente molestada pela Interpol. Chegou a ser detida em casa, mas logo foi liberada administrativamente. Nem foi preciso acionar os advogados brasileiros. Filha de pai alemão, está protegida pelos laços de consanguinidade. Para todos os efeitos, é considerada cidadã alemã — e os cidadãos alemães, como os brasileiros, não podem ser extraditados de seu próprio país.

O mesmo instituto que assegura a Sueli Gorisch imunidade perante a justiça brasileira mantém impunes, no Brasil, brasileiros que cometeram crimes em outros países. É graças a esse princípio, consagrado na Constituição, que os investigadores, promotores e procuradores de outros países  ficam impossibilitados de perseguir e punir brasileiros que cometem crimes no exterior (veja os outros posts da série foragidos).

Para a Interpol brasileira e a Polícia Federal, a vedação constitucional é causa de muitos constrangimentos. Os policiais dizem que não há como explicar a um  mundo globalizado que a nacionalidade seja sinônimo de impunidade. Querem mudar a Constituição. O problema é que a proibição à deportação de nacionais é uma das cláusulas pétreas. Só pode ser alterada por outra assembléia constituinte.

Até que isso ocorra, num futuro ainda muito distante, bandidos brasileiros que matam, roubam e fraudam em outros países vão continuar encontrando no Brasil o melhor porto para recomeçar a vida a salvo de qualquer possibilidade de punição. Assim como Sueli Gorisch, por ser tecnicamente alemã, jamais vai precisar se preocupar com o seu futuro na Europa.

Comentários

  • EU

    16/09/2010 #1 Author

    Fico indignado com isso……..o cara ainda vem pra minha cidade, consegue investir em um prédio semi abandonado…..em hotelária….e vai ficando por isso mesmo….gostaria de saber se é tbm é foagido da policia desta comarca.

    se for tenho o prazer de denuia-lo anonimamente é claro pois ele é capaz de sanar vidas por ambição.

    um forte abraço

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