Maria Antonieta resistiu a todos os apelos. Acenou com a cabeça, provocou os colegas que tentavam persuadi-lo e chegou a afirmar aos deputados...

 

Maria Antonieta resistiu a todos os apelos. Acenou com a cabeça, provocou os colegas que tentavam persuadi-lo e chegou a afirmar aos deputados Roberto Magalhães e Solange Amaral, que propunham seu afastamento, que eram eles que estavam gerando constrangimeto para o Congresso.

Os deputados que tentavam advogar em favor de sua permanência argumentavam com uma falácia: a de que o que estava em curso era uma disputa de poder com a imprensa. Dirigindo-se diretamente aos jornalistas, desfiaram um corolário de bobagens tão grande que provocaram risos entre os repórteres.

Sérgio Moraes chegou a admitir que a frase “estou me lixando para a opinião pública” foi infeliz. Mas fez questão de manter o que disse. Logo depois, afirmou que Edmar Moreira era o “boi de piranha” do Congresso, sepultando todas as chances de construir um discurso de isenção e equilíbrio digno de qualquer relator.

Um dos mais entusiasmados foi Abelardo Camarinha, para quem está em curso uma cruzada moralista movida pela imprensa. “Eu não usei passagem nenhuma, mas não posso mais andar na rua”, disse, indignado, aludindo à chamada farra das passagens. “A opinião pública elegeu Hitler, Mussolini e Collor. E absorveu (SIC) Barrabás”, completou.

Pelo que se ouviu no plenário número 5, muitos deputados não sabem a diferença entre os verbos “absolver” e “absorver”. Um dos mais “absorventes” foi o petebista Sabino Castelo Branco. “Vossa Excelência já foi acusado de absorver o deputado Paulinho da Força. (…) Tenho certeza de que no seu estado Vossa Excelência já está absorvido” disse ele, exortando Sérgio Moraes a resistir.

Para o líder do PTB, Jovair Arantes, que confundiu o deputado Roberto Magalhães com senador Jarbas Vasconcelos, tudo não passa de um regionalismo. Segundo ele, os gaúchos “têm uma eloquência diferenciada dos brasileiros”, como se o Rio Grando do Sul não fizesse parte do Brasil e o tom das declarações de Sérgio Moraes pudesse justificar seus arroubos. “Já vi gente subir na tribuna e dizer que ia dar de cinto em jornalista”, disse o parlamentar, concluindo que “tá errado, mas eu respeito a opinião dele”.

Para coroar sua brilhante intervenção, Arantes vaticinou contra o DEM: “Hoje, Democratas, é um (parlamentar) do PTB. Amanhã, Democratas, será um de vocês”, profetizou, olhando severamente no rosto dos dois deputados do DEM que estavam presentes à sessão.

O mais drástico foi Fernandes Amorim. Ele chegou ao cúmulo de afirmar que “esses conselhos de ética só servem pra acabar com a vida das pessoas. Muita gente morrem (…) por causa dos tais conselhos de ética e das injustiças da imprensa”, falou, sem no entanto declinar quem havia morrido ao enfrentar um processo por quebra do decoro parlamentar.

Um dos presentes chegou a dizer que “o pior dos crimes é roubar sem poder carregar”. A platéia foi ao delírio. Assessores riam sem graça e os alguns parlamentares ruborizavam.

Mas o protagonista do dia não ficou muito atrás. Desafiando o presidente do Conselho a encontrar um artigo do regimento interno que permitisse sua destituição, asseverou: “Nós vamos levar um bafo na nuca da imprensa e vamos sair correndo? Seria a grande festa da imprensa hoje à noite (a minha destituição). Nós todos de joelhos em frente à imprensa. O Conselho de ética ajoelhado”.

E ainda reclamam quando a gente conta piada de gaúcho.

Dois minutos depois, o Robespierre José Carlos Araújo pronunciou uma única frase e acionou a guilhotina que tirou Maria Antonieta da relatoria.

O novo relator, o deputado Nazareno Fonteles, aceitou de bom grado o cargo e o encargo. Será a chance de mostrar que é um parlamentar ético. Recentemente, uma assessora do gabinente dele foi flagrada vendendo bilhetes de sua cota de passagens. Envolvido pelo escândalo, quer provar que é parte do trigo, e não do joio congressual. Na primeira entrevista após a nomeação, marcou uma drástica diferença de estilo com seu antecessor. “Eu respeito a opinião pública”, disse ele, inaugurando a fase jacobina do Conselho de Ética da Câmara.

Comentários


Sem comentários ainda.

Comente!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *