Com fotos de Dida Sampaio – Agência Estado As cenas de selvageria protagonizadas nesta quarta-feira pelos seguranças do futuro ex-presidente do Senado, José Sarney,...

Com fotos de Dida Sampaio – Agência Estado

As cenas de selvageria protagonizadas nesta quarta-feira pelos seguranças do futuro ex-presidente do Senado, José Sarney, são emblemáticas tanto pelo que contêm de agressividade quanto pelo momento em que acontecem. Vi as imagens brutas e não resta dúvida de que havia a intenção deliberada de atingir a equipe do mais irreverente e inteligente programa humorístico brasileiro. A indisposição para com o estilo do programa não é novidade. Basta relembrar a dificuldade que eles tiveram para poder circular no Congresso.

Danilo Gentili, como bom repórter que é, estava no lugar certo na hora certa. Ia chegando ao Congresso, por volta das 14 horas, quando viu a movimentação que antecede o desembarque de Sarney. Como fazem todos os jornalistas, preparou-se para abordá-lo. Antes disso, um dos seguranças tapou o microfone.

O bolo de jornalistas avançava, tendo o presidente do Senado bem no meio. Danilo tentou segui-lo, mas logo apareceu outro segurança que o agarrou pelo braço e se pôs a empurrá-lo para longe.

O repórter conseguiu se desvencilhar. Correu em direção ao elevador dos parlamentares. Foi agarrado pelas costas e jogado no chão. O fotógrafo Dida Sampaio, da Agência Estado,  acompanhou toda a cena com sua lente esperta. Nas imagens, não resta dúvida de que o segurança selvagem teve a intenção deliberada de derrubar Danilo Gentili.

Não restou a ele mais do que a chance de fazer um protesto isolado enquanto a porta do elevador se fechava. “Presidente, fizeram comigo o que estão tentando fazer com o senhor. Me derrubaram!”, disse ele. Dentro do elevador, na condição de espectador privilegiado, estava Pedro Araújo Carvalho, que desde 2007 é o diretor da Polícia Legislativa do Senado.

Uma hora depois, quando ia saindo do Senado, Sarney foi novamente rodeado pela horda de jornalistas no mesmo local. Danilo Gentili não estava bem posicionado. Seguiu o bolo que se formou em torno de Sarney. Quando o futuro ex-presidente do Senado ia entrando no carro, Danilo estava bem distante, acenando para ele. Foi quando começou a levar chutes e cotoveladas de outro assecla de Sarney.

Pelo que pude apurar, o agressor, nesse segundo round, não é policial legislativo. O homem tentou mais uma vez retirar o microfone da mão do repórter. Deu um murro no peito de Danilo, depois chutes e empurrões. Rodeou o carro oficial e entrou no banco de trás, ao lado de Sarney. Nennhuma das perguntas que Gentili fez foi ofensiva, injuriosa ou deselegante. Diante do que os próprios parlamentares têm falado sobre Sarney, ele foi um cavalheiro.

É notório que o CQC não representa uma ameaça à integridade do Congresso ou de seu quase ex-presidente. Assim como é notório que Sarney não virou tema de piada e motivo de chacota por outra coisa senão sua própria conduta ao longo dos últimos 15 anos. Não foi o CQC que transformou Sarney no que é hoje. Ao contrário. Sarney só é alvo de interesse do programa porque ele próprio se transformou no que é.

Mas o mais incrível foi a reação do companheiro de elevador do futuro “ex” do Senado. Liguei para a Polícia Legislativa para saber quem eram os agressores, que não costumo ver nos corredores do Senado. E sabe o que Pedro disse? “Que agressão? O que aconteceu foi que o repórter se jogou no chão”.

Pedro é um cara sizudo e mal-humorado. Tenho a impressão de que ele detesta jornalistas. Costuma criar todo tipo de dificuldade para o nosso trabalho. Sofre do mal crônico da síndrome da pequena autoridade.Vou contar uma passagem recente para ilustrar o que estou falando.

No dia em que Jéferson Peres morreu, eu precisava fazer uma gravação dentro do plenário do Senado, que estava vazio por causa do luto oficial. Dirigi-me à Secretaria da Mesa, que é o órgão encarregado de autorizar esse procedimento. Uma funcionária muito gentil logo emitiu a autorização por escrito. Levei o papel até o segurança que estava de plantão no plenário. Comunicado por rádio, Pedro simplesmente desconheceu a permissão. “Ela não manda nada”, me disse ele por telefone. “Você não vai poder gravar aí”.

Argumentei, contra-argumentei e fui buscar uma solução. Levei o problema ao então presidente do Senado, Garbaldi Alves Filho. Fui atendido prontamente. Só então a porta do plenário se abriu para mim. Quase duas horas de muita contrariedade se consumiram no vai e vem. Foi uma maratona de procedimentos desnecessários só porque o rei da polícia legislativa cismou que não iria permitir o trabalho de um repórter, a despeito de todas as autorizações necessárias terem sido cencedidas.

O diretor da polícia trata sua jurisdição como se fosse o quintal da sua casa. Ali ele é o xerife e faz a lei. Enquanto legitima a ação violenta da tropa contra pessoas que deveriam estar sob sua proteção, vai ajudando a ilustrar momentos delicados da história com clichês que se repetem crise após crise. Esta é a razão da primeira afirmação deste texto — a de que a pancadaria é carregada de simbolismo também pelo momento em que acontece.

Brutalidades contra repórteres são típicas de situações em que velhos emblemas como Sarney vivem seu ocaso. A última cena parecida foi registrada na renúncia de Joaquim Roriz. No centro do bolo formado pelos repórteres estava o inexpugnável Gim Argello, que chegou para a sua posse cercado de jagunços privados que distribuíram sopapos entre o reportariado, agredindo inclusive uma jornalista que estava grávida.

Pelo que se sabe, a pancadaria não teve a menor consequência para os agressores. Esta de agora também não terá. Para começar, a equipe do CQC sequer conseguiu registrar uma ocorrência. Eles estiveram em duas delegacias de Brasília, mas não encontrararam um delegado que se dispusesse a fazer o B.O. Vão ter que confiar a “investigação” do caso à polícia legislativa, cujo chefe, testemunha ocular do que se passou, já disse o que pensa a respeito.

Quero registrar que sou amigo de vários policiais do Senado. São muito diferentes do chefe. Gentis e amáveis, muitas vezes tornam o dia-a-dia dos repórteres mais leve e tranquilo.

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