Cláudia, que tem sintomas de desequilíbrio emocional, premeditou o crime e cuidou de todos os detalhes minuciosamente. Dois dias antes do assassinato, comprou um...

Cláudia, que tem sintomas de desequilíbrio emocional, premeditou o crime e cuidou de todos os detalhes minuciosamente. Dois dias antes do assassinato, comprou um revólver Magnum .765 numa loja chamada Slugmasters, na localidade de Livitsbourg, a oito milhas de distância da casa onde vivia com o marido.

A dona da loja ainda se lembra com clareza das muitas indagações da brasileira, que parecia tranqüila. “Ela me perguntou onde havia um stand de tiro. Queria aprender rapidamente a atirar”, diz a comerciante, que ainda a veria uma vez mais na manhã seguinte, logo depois da primeira sessão de tiro-ao-alvo.

Cláudia voltou à loja interessada em comprar uma outra arma, com uma coronha menor, mais adequada para o tamanho de suas mãos. Como não tinha dinheiro “cash” nem limite disponível no cartão de crédito, levou um suporte equipado com mira a laser.

“A intenção dela era se matar, e não matar o marido”, diz o advogado Antônio Andrade, criminalista brasiliense contratado por ela para a eventualidade de ter que enfrentar um processo. Mas as explicações do advogado são insuficientes para explicar o comportamento, e têm mais verossimilhança como estratégia de defesa do que como justificativa para o que realmente deve ter ocorrido.

Karl Horig era piloto de aviação comercial. Estava em missão fora de casa até o dia em que foi morto. Na última escala que cumpriu, chegou a comentar com seu co-piloto que iria se separar da mulher, com quem tinha uma convivência muito difícil.

Ninguém sabe o que aconteceu antes dos disparos. A casa fica num local ermo e sequer os tiros foram ouvidos. O corpo do ex-combatente foi encontrado enrolado em um tapete velho três dias depois do homicídio. Estava no pé da escada que levava ao pavimento superior da residência. O chão de madeira estava perfurado por um projétil.

Cláudia seguiu com o carro do casal até um aeroporto próximo, tomou um avião com passagens de cortesia a que o marido tinha direto e desembarcou em Nova Iorque na mesma tarde. Sacou todo o dinheiro que estava depositado na conta-corrente do casal. Ligou para um ex-namorado pedindo que ele a levasse até o aeroporto JFK, de onde embarcou para o Brasil.

Quando chegou, foi direto para Brasília, onde passou algumas semanas no apartamento do pai, na cidade satélite do Cruzeiro. Depois disso, seguiu para o Rio de Janeiro para se fixar na residência de Lumiar. Há meses o apartamento de Brasília se encontra fechado.

Sobre sua rotina pouco se sabe. Segundo seu advogado, ela está em tratamento psiquiátrico, vítima de uma depressão crônica que provocou seu quase isolamento.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, a família Hoerig e o promotor de condado de Thrumbull se debatem contra os obstáculos oferecidos pela legislação brasileira. Dennis Watkins, o promotor encarregado do caso,move uma cruzada junto ao governo Obama para que este pressione o Brasil a mudar a Constituição para tornar possível a extradição de nacionais.

“Ela optou pela cidadania americana. Para nós, é americana e precisa ser julgada por uma corte americana. É impossível levar ao Brasil todas as testemunhas, pagar a tradução dos laudos periciais, submeter a interrogatório americanos que só falam inglês perante um juri que só entende português”, diz Mr. Watkins.

O caso Hoerig é apenas um em cerca de 20 que permanecem sem solução a cada ano. Não por acaso a condição de paraíso de refugiados internacionais—entre eles muitos brasileiros — está valendo ao Brasil uma série de constrangimentos perante outras nações. Nosso país, ao contrário do que acontece em praticamente todo o restante do planeta, não extradita brasileiros. Nem em face das acusações mais graves, como seqüestro, estupro ou homicídio, como a que pesa sobre Cláudia Hoerig.

Isso ocorre em função de uma vedação constitucional, cláusula pétrea inserida no inciso LI  do Capítulo sobre os Direitos e Garantias Fundamentais, que prescreve o seguinte: “ nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins”.

Para que Cláudia e outros criminosos sejam julgados seria necessário mudar a Constitução, o que parece bastante improvável. A Secretária de Estado Hillary Clinton deverá tratar do assunto brevemente cm o Ministro Celso Amorim. O governo dos Estados Unidos não costuma brincar com os interesses do sistema judicial daquele país. Mas ao que tudo indica, Cláudia não tem nenhuma razão para se preocupar com a perspectiva de um dia vir a ser presa. Para todos os efeitos, é uma cidadã totalmente a salvo de qualquer punição, apesar da gravidade do crime que premeditou.

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