Márcio Peixoto, do Blog Oraite nos Steits Fui pego de surpresa. Abro a secadora de roupas e dou de cara com um sutiã. Normal, eu...

Márcio Peixoto, do Blog Oraite nos Steits

Fui pego de surpresa.

Abro a secadora de roupas e dou de cara com um sutiã. Normal, eu sou o encarregado oficial de toda a roupa suja e a Isinha as produz aos montes. Pelamordedeus, quem usa calça jeans só uma vez além da minha esposa? Eu uso duas, três, quatro, cinco, até o dia em que fica difícil tirar do corpo porque ela adquiriu uma consistência meio que sólida. É o famoso ponto de andar sozinha. As minhas só não andam sozinhas porque não conhecem as redondezas e muito menos falam inglês. São todas (duas) brasileiras, brasileiríssimas, da C&A.

Consulte a história do jeans e você vai descobrir que ele foi desenvolvido para trabalhadores braçais, portanto, são resistentes. Esse hábito de usar calça jeans só uma vez me revolta, um puta desperdício de água, eletricidade, sabão, amaciante. É, ainda tem de pôr amaciante, um líquidozinho azul inútil que foi criado para tirar dinheiro dos pais de família. Tudo bem, aqui é uma mãe de família, mas como eu sou o dono-de-casa-com-hífen-para-dar-importância, eu prefiro o termo do lar (eu ainda vou ter a chance de responder ‘do lar’ em um censo), deixo registrada a minha discordância da despesa. Se é por causa da cor, vamos de verde, compra absinto. Lavar calça jeans a cada usada é quase um crime ambiental, deviam mandar o Ibama atrás da minha esposa. Me passa o 0800 para denúncia anônima?

Abro a secadora de roupas e dou de cara com um sutiã. Embora seja normal, não é tão rotineiro. E vou entregar mesmo, não estou nem aí: embora ela ponha o jeans para lavagem após vesti-lo por apenas cinco, seis horas e olhe lá, o mesmo zelo não acontece com o sutiã. “Pode usar duas, três vezes sim”. Eu fiquei chocado. Sabe aquelas coisas que podem acabar com o relacionamento, tipo apertar pasta de dente no meio ou deixar camisinha usada na pia? Para mim, é repetir sutiã. E olha que eu inventei a meia descartável quando morava sozinho num quartinho-de-fundos-com-teto-de-eternit-mais-baixo-que-eu: comprava um pacotão no supermercado das mais vagabundas e usava por usa semana de um lado, outra semana pelo avesso e jogava fora (cada pacote dava seis meses). Mas meia a gente usa no pé e nem chulé eu tenho. Repetir sutiã? Ele fica lá em contato direto com uma zona sensível, de alto interesse anatômico e recreativo. É o fim.

Abro a secadora de roupas e dou de cara com um sutiã. Dou de cara não, ele pula da máquina. A secadora é um tremendo chupa-energia e tento ao máximo reduzir o consumo, mas é impossível não ligá-la porque não temos varal aqui. Então, encho a máquina até o tampo. A expressão certa era até o cu fazer bico, mas como o Fábio Pannunzio reproduz alguns texto do Oraite em seu blog (vá lá, aqui. Aproveite e veja a entrevista com o dr. Hosmany Ramos, o cara que, com um século de atraso, inspirou Stevenson), que é coisa de jornalista gente grande, tenho de me vigiar para não escrever palavrão. Esse cu de agora não conta, porque foi necessário. Foi, digamos, um cu explicativo. Fábio, não fique acanhado, como é no seu, se quiser pode mexer no cu antes de liberar para todo mundo, viu?

Agora vai. 

Abri a secadora aborrotada até o tampo e pula uma peça branca. Com reflexo digno de goleiro do Fluminense de Feira consegui imprensá-la com o joelho. Ficou, o paninho, entre o joelho e a lavadoura de roupas, que fica debaixo da secadora, que por sua vez está acomodada sob o sabão em pó (que aqui é líquido), o amaciante e a folhinha de papel desmagnetizadora (essa eu explico na próxima roupa suja). Mas o joelho titubeou e lá foi a roupa para o chão. Bati o olho em cheio, com ele estirado por inteiro no chão: um sutiã. E não é da Isa. Como eu (ainda) não estou lavando para fora, ficou o óbvio: é da Marisa. Sou pai de alguém que usa sutiã. 

Não que eu não soubesse, foi inclusive minha a idéia da compra. Se não foram abelhas, está na hora de comprar um sutiã. Eu só não estava pronto para lavá-lo.

Márcio era editor e professor universitário em Brasília. Mas decidiu abandonar tudo para viver como marido e dono de casa em  Asheboro, Carolina do Norte, EUA, onde a mulher dele, Isa, dá aulas e paga as contas da família. Atualmente, embora faça um freela fixo numa loja da Wal-Mart, a função de Márcio é cuidar da casa e da filhinha Marisa. E é sobre essa nova vida de “homem do lar” que ele costuma escrever em seu blog.

Nota da Redação: Márcio, como você viu, não mexi no seu cu, não.

Thank you!

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