O historiador Marco Antônio Villa, mestre em Sociologia, Doutor em História Social, professor titular da UFSCAR,  é hoje uma das principais interfaces entre o...

O historiador Marco Antônio Villa, mestre em Sociologia, Doutor em História Social, professor titular da UFSCAR,  é hoje uma das principais interfaces entre o mundo acadêmico e o público. Instado a interpretar o processo eleitoral, não esconde sua opinião: desconfia que Lula não tem poder suficiente para convencer o eleitor a votar em Dilma Roussef e vai além, enxergando sinais claros que que o mito Lula está em processo de desconstrução. Neste domingo, em sua casa, em São Paulo, ele recebeu o editor deste Blog para uma entrevista, que trasncrevo a seguir.

BP: Qual foi, na sua opinião, a importância do debate da Band no contexto das campanhas ?

Villa: Eu estava meio descrente de debates. Os debates do primeiro turno acabaram sendo muito monótonos. Na verdade, não havia debate. Acho que esse primeiro debate foi fundamental . Primeiro, porque recolocou o debate como algo importante na política brasileira. Segundo, porque desenhou um novo cenário. As estratégias foram radicalmente mudadas – tanto do candidato Serra quanto da candidata Dilma. Ela, partindo para um ataque frontal, algo que eu sinceramente não esperava. Desde a primeira intervenção no debate ela já foi para o enfrentamento. Sinalizou que nós teremos duas semanas e meia até as eleições marcadas por um confronto direto entre as duas candidaturas. O debate deixou isso muito nítido, muito claro.

BP: Nesse caso, quem ataca é quem supostamente está em vantagem. Não parece estrannho ?

Villa: Eu sinceramente não entendi porque ela partiu para o enfrentamento direto na primeira intervenção no debate. Ela podia fazer isso no decorrer do debate, mais à frente, no final, [quando estivesse] mais indignada com alguma questão. Acho que é uma jogada muito arriscada e com possibilidade de fracassar. Ela jogou fora o figurino de Dilminha  Paz e Amor. Era um figurino que o Lula  tinha construído em 2002 graças aos conselhos do Duda Mendonça. Ao jogar esse figurino, numa campanha tão curta, não se pode recolocá-lo mais  à frente. Você agora tem uma nova personalidade eleitoral que você acabou construindo – e agora você tem que seguir com ela nos próximos debates. Isso vai provavelmente desgastar muito a candidata Dilma.

BP: O objetivo declarado dos marquteiros era empolgar novamente uma militância que estava  abatida pelo resultado do primeiro turno. Essa empolgação corre algum risco de beirar a irracionalidade nos próximos dias ?

Villa: Eu acho que não cabe a uma candidata, em um segundo turno tão disputado — o Datafolha já havia demonstrado isso no último domingo – você partir para o enfrentamento direto  num primeiro debate só pra empolgar a militância. Acho que foi um equívoco de estratégia. Sinalizou que teremos uma campanha muito tensa, a mais tensa desde 1989. Poderemos ter até enfrentamentos nos debates, ou entre militantes, em passeatas, mobilizações e atos públicos porque ficou muito claro o divisor de águas entre duas propostas para o Brasil. Propostas que são antagônicas. E uma guerra como eu nunca vi – e que pela primeira vez acontece em larga escala  — na internet, com acusações pesadas de parte a parte.

BP: O Sr. Acha que José Serra ganha com essa estratégia da campanha adversária ?

Villa: Eu acho que repercute de forma positiva [para José Serra] porque criou uma situação difícil. Primeiro, como responder a ataques tão violentos ? Segundo, Dilma é mulher. Isso não pode ser esquecido. Sem querer entrar na questão de gênero,  teria uma repercussão eleitoral negativa se a resposta de Serra tivesse o mesmo tom das críticas que ela estava fazendo, que tinham passado do fio [de equilíbrio]. Nesse sentido, ele acaba ganhando. Porque tem os próximos debates para que ele mantenha o figurino mais light. E ela vai ter que manter o tom da agressividade. Como ela adotou esse figurino no primeiro debate, não dá pra mudar numa campanha tão curta. Em resumo, eu acho que ela fez uma jogada muito arriscada, que tende ao fracasso, e o Serra fez o jogo mais correto para este momento da campanha, que é manter uma campanha mais  mais light, mais tranqüila e tentar, tanto quanto possível, ser ao mesmo tempo mais propositivo e colocar o dedo nas feridas do que ela não gostaria de responder.

BP: Os candidatos apenas tangenciaram a discussão de outros temas e propostas de governo. O que o Sr. Acha disso ?

Villa: Acho que esse debate foi um marco por colocar claramente o enfrentamento entre os dois projetos, meio que de forma meio tosca. Os próximos tendem a ampliar o leque, apesar de a campanha ser muito curta. Eles discutiram apenas a questão do aborto e da privatização – só eventualmente entrava um outro tema, como a questão da segurança, mas o centro voltava a ser outra vez a privatização e a questão do aborto. Acho que os próximos debates – e aí vem o papel dos jornalistas – vão ter que tocar nos outros temas. [A discussão] envolve a questão da política externa, as questões econômicas, de infraestrtutura, os problema da educação, gravíssimos no País. Basta ver os 30 milhões de analfabetos funcionais que ainda restam. Portanto ,são questões vitais para a agenda política do Brasil do Século 21. Agora, no que resta da campanha, esse temas devem entrar, essas discussões têm que entrar. Senão nossas escolhas serão feitas simplesmente no campo emocional. Claro que a escolha tem que ser emocional. Mas ela tem que também ser uma escolha racional, feita com base em algumas idéias-chaves de cada um dos candidatos.

BP: O percentual de votos que Dilma tem hoje é bem menor do que os índices de aprovação do governo Lula. Não há mais transferência de prestígio ?

Villa: Eu desconfio um pouco desses índices de popularidade do presidente Lula. Evidentemente eu sei que ele á um presidente popular, mas não é possível acreditar que apenas 4% da população acham o governo dele ruim ou péssimo ou tenham sérias divergências em relação ao governo dele. É muita unanimidade para um presidente só. Nunca vi em regimes democráticos um caso desses. Transferir popularidade para um candidato de seu próprio partido é muito difícil. O caso do [Leonel] Brizola em 89 foi muito particular. Ele acabou transferindo para o candidato que estava em segundo lugar, que era o Lula, quando ele mesmo era o terceiro colocado. Fez com muita eficácia no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Mas quando em 86, no Rio de Janeiro, ele quis transferir popularidade para seu candidato Darcy Ribeiro, na campanha para o governo do estado, ele não conseguiu. E o Darcy Ribeiro foi derrotado pelo Moreira Franco. O presidente que é popular imagina que pode tudo, que ele pode  o tempo todo transferir o seu prestígio à sua candidata ou ao seu candidato. Há outros componentes nisso. Um que me parece relevante é que o eleitor faz a distinção entre o presidente, quem ele apoia e os outros candidatos. O eleitor não age como se fosse simplesmente uma correia de transmissão de um presidente popular. Não é porque o presidente popular manda  votar em A ou em B que ele vai votar em A ou em B. O eleitor pensa, vê a história dos candidatos. Muitas vezes, sem dispensar o presidente de quem ele gosta, pode escolher um candidato que não seja apoiado por esse presidente. Há exemplo recentes na América do Sul. No caso da Colômbia, o presidente Santos, eleito agora, tinha uma história política própria. Foi apoiado por Uribe, mas ele e a família tinham uma longa história na Colômbia. No caso do Chile, a presidente Bachelet, super popular, acabou perdendo a eleição para o candidato Eduardo Frey. Esta eleição está muito boa para que nós possamos discutir algumas teses que acabaram se consagrando no período pré-eleitoral. Uma delas  é essa, a de que a popularidade é tão grande que basta o presidente indicar um candidato para que ele vença.

BP: O mito Lula estaria em processo de desconstrução ?

Villa: Está. Eu acho que, na política como na vida pessoal, há um período de grande encantamento. No caso da política, o encantamento com a candidata Dilma é difícil de explicar. Foi muito rápido, aconteceu em apenas dois meses – apesar da longa construção de sua candidatura como a “Mãe do PAC” e tudo aquilo que nós já sabemos. Pode ser que esse encantamento tenha terminado nos dez dias que antecederam o primeiro turno ou  esteja em processo de término agora no segundo turno. O caso do presidente Lula é interessante. Já começaram a aparecer algumas críticas  agora no segundo turno envolvendo questões econômicas, de investimentos, de infraestrutura, a questão moral, as questões éticas, tudo isso já começou a aparecer. No dia Primeiro de Janeiro vai começar um balanço mais sereno dos últimos anos. E pode ser que seja uma balanço muito mais severo do que foi até agora. Por outro lado, é importante observar que as pesquisas e essa popularidade pareciam ser tão dominantes que a oposição, durante um certo momento da campanha, não sabia se atacava ou não atacava o presidente. Tentava inclusive distinguir Dilma de Lula.Viu-se que essa popularidade não deve ser tão grande. 53% da população votou com a oposição. 46,7 votaram com o governo. Portanto ,aquela maioria avassaladora não existiu na principal pesquisa que existe em qualquer eleição, que são as urnas.

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