AUGUSTA MARIA era dona de casa competente, animada, corajosa, trabalhadeira, solidária com a família, com os vizinhos, com as obras assistenciais, com a cidade...

AUGUSTA MARIA era dona de casa competente, animada, corajosa, trabalhadeira, solidária com a família, com os vizinhos, com as obras assistenciais, com a cidade que crescia precisada de tudo. Era católica apostólica romana romeira da Água Suja, e o enfeite do seu quarto era o oratório de imbuia aparelhado com os móveis, repleto de imagens, recamado de veludo e filó. Uma mulher de grande sabedoria que recebeu com respeito e carinho noras, genros, visitantes que professavam outros cultos, netos com idéias revolucionárias, sempre com porcelana inglesa sobre toalhas de linho, e sempre um cafezinho moído e coado na hora, servido em bandeja de prata. Todo mundo era gente importante para ela, até os netos e bisnetos pequenos, que adoravam a casa da avó.

Ela, que nasceu muito pobre, aprendeu e assumiu os negócios do marido. Sabia tudo: quantas cabeças de gado, quantos alqueires de chão, onde estavam as notas promissórias, as “letras”, as escrituras e as anotações dos acertos. OLYMPIO mal desenhava o nome, nunca soube ler nem escrever. Era ela, com apenas dois anos de escolaridade, quem “assentava no papel” o registro de tudo.

Quando Olympio construiu a casa grande, toda pintada a óleo, com cachos de uva, anjos e paisagens por todas as paredes, a única exigência dele foi que se pintasse na parede do alpendre o retrato da vaca indubrasil chamada CUTUBA, a mais bonita e perfeita do seu rebanho. Uma vaca? Uma vaca pintada no alpendre daquele palacete assobradado na principal rua de São Pedro de Uberabinha? Uma vaca? Por mais bizarro que pudesse ser aquele desejo de Olympio, AUGUSTA o aplaudiu vivamente porque a casa era dele e ele ali era um rei. CUTUBA veio tangida da fazenda para a cidade, modelo vivo para o pintor japonês. Nunca ninguém censurou a pintura porque para filhos, netos, bisnetos, aquele chefe de família exemplar e sua vida inteiramente dedicada à terra foram sempre motivo de orgulho. A vaca ficou ali, símbolo da paixão de um homem por suas escolhas, pelo seu pedaço de terra, por suas criações..

AUGUSTA MARIA era uma doce pessoa. Os fuxicos morriam quando chegavam aos seus ouvidos. Só dava conselhos se alguém lhe pedisse. Para ela a vida tinha sempre razão.

As compoteiras cheias de doces, as tulhas abarrotadas de mantimento, os carneiros aguardando a hora da tosquia para virar cobertas de lã e aquecer quem chegasse, quem nascesse. Quase todos os netos nasceram na casa grande, pelas mãos abençoadas daquela avó parteira, tão determinada, tão querida.

Ela parecia uma lançadeira, sempre correndo para lá e para cá. Dela nunca se soube que tivesse cólica, enxaqueca, taquicardia, pressão alta, reumatismo, nada. Nem cansaço ela nunca sentiu. Junto com cada filho ela amamentou também o filho de mais alguém e, apesar da censura dos padres, foi benzedeira, uma benzedeira de mão cheia.

A escola e a educação das crianças sob sua responsabilidade estiveram sempre em primeiro lugar na casa de AUGUSTA e OLYMPIO. Quando uma tarde um filho voltou da escola com as mãos inchadas pelos “bolos” da palmatória, ela nem perguntou por quê. Conhecia o filho. Ismael era um menino levado, curioso, alegre, dispersivo, interessado na lida do campo, na liberdade e na largueza da fazenda. Para ele a professora solteirona, brava e a disciplina férrea da escola eram uma tortura permanente. Se a mãe consentisse, ele não estudaria. A mãe guardou o sermão e as chineladas para outro dia. Cuidou como pode das mãos inchadas do filho. Calada. Com o coração mortificado, com certeza, ela, que foi toda vida apaixonada pelos filhos homens. No dia seguinte a irmã menor, Mariinha, foi a portadora de um presente para a professora, uma compoteira de doce de figo, com um bilhete curtinho: “Dona Leodegária, obrigada por me ajudar a educar meu filho”. Esta compoteira nunca chegou ao destino. Mariinha quebrou-a a caminho da escola.

O cheiro bom da goiabada pulando no tacho, da geleia de mocotó, do sabão preto embolado ainda quente, do lombo de porco no espeto, assando na brasa, no rabo do fogão… a memória destas pequeninas lembranças ficou para sempre. O fogo crepitou dia e noite, durante sessenta e cinco anos naquele enorme fogão de lenha da enorme cozinha do palacete da Rua Tiradentes nº 77.

AUGUSTA MARIA foi mãe exemplar, mãe dos próprios filhos e dos filhos de todos. Acalmou todas as contendas familiares, apaziguou todos os casais, acolheu filhos, netos, sobrinhos, amigos da família em situação de risco.

Viu São Pedro de Uberabinha se desabrochar em Uberlândia. Participou de todas as campanhas, de todos os movimentos de cidadania que marcaram este crescimento e este progresso com os quais ela vibrava. Escolas, Colégio de Freitas, Asilo de velhas, Santa Casa de Misericórdia, Penátio, Igreja, Lar de Meninas, Dispensário, Patronato de Menores, Escola de Medicina, tudo foi assunto do seu interesse. Tinha carta branca do marido. Se a cidade ia dar um passo adiante, ela estava lá, na retaguarda, discreta, solidária, aplaudindo, contribuindo.

Na noite de 15 de maio de l963, aos 78 anos, ela se deitou, rezou e dormiu. Para sempre.

 

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