O previsto aconteceu. O recesso parlamentar não deu trégua ao presidente do Senado, José Sarney. O político fez de tudo para fugir dos holofotes...

O previsto aconteceu. O recesso parlamentar não deu trégua ao presidente do Senado, José Sarney.

O político fez de tudo para fugir dos holofotes e da imprensa. Chegou inclusive a se isolar em uma ilha no Maranhão. A ideia era aproveitar as férias de 15 dias para descansar e esquecer que vem sendo alvo do que definiu como “uma campanha da mídia contra ele”. Mas a tentativa foi em vão. Por vários motivos.

Neste período, os escândalos não pararam de surgir e afundaram Sarney num lamaçal ainda maior. Ao longo de quase 6 meses de crise, Sarney vem colecionando acusações que vão desde a prática de nepotismo até o uso de dinheiro público para benefício de empresas ligadas à família do parlamentar maranhense.

Agora, José Sarney também é apontado como editor de um dos mais de 500 atos secretos expedidos nos últimos 14 anos pelo Senado. Interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Federal indicam a participação do peemedebista na contratação de ninguém mais que o namorado da neta Maria Beatriz. O físico Henrique Bernardes conseguiu uma vaga na Casa sem muito esforço: bastaram alguns telefonemas do presidente e do filho, o empresário Fernando Sarney, ao manda-chuva do esquema fraudulento, o ex-diretor geral Agaciel Maia, que estava tudo certo.

Os grampos divulgados representaram o estopim para muitos senadores que, indignados, voltaram a pedir o afastamento de Sarney do cargo. O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), foi além e entrou com uma quarta denúncia individual por quebra de decoro contra o parlamentar. A mesma medida foi adotada pelo partido, que decidiu representar contra Sarney três vezes no colegiado.

E a corda deve ficar ainda mais bamba para o político que se orgulha da biografia de 50 anos de vida pública. É que a bancada dos democratas promete se reunir nos próximos dias para definir se abre processo contra o presidente, como já fez o PSOL. Outros partidos também podem entrar na jogada.

Na defesa, Sarney tem mudado de estratégia. O senador, que muitas vezes alegou não saber de nada, agora prefere o silêncio diante de novos fatos.

Às vésperas da volta das atividades legislativas, os parlamentares apostam num momento de reflexão por parte de Sarney. Ao que tudo indica, as denúncias não vão parar e as especulações só devem aumentar.

Um afastamento do mandato por motivos particulares não está descartado. Sarney teria justificativa de sobra para isso. A companheira, dona Marly Sarney, fraturou o ombro e está internada. A mulher de 77 anos é declaradamente prioridade na vida do senador.

Sarney não dá o braço a torcer e diz que fica. Mas, num caso como este, o regimento interno permite que o parlamentar se licencie por até 120 dias, podendo voltar a qualquer momento.

Neste período, entraria em ação o primeiro vice-presidente, senador Marconi Perillo (PSDB-GO). O parlamentar goiano é considerado um desafeto do presidente Lula e representaria uma ameaça aos governistas, que fogem de Perillo como o diabo corre da cruz. O motivo seriam os vários projetos de interesse do governo que estão na pauta de votações para este segundo semestre e que estariam nas mãos da oposição.

As demais opções também deixam Sarney entre a cruz e a caldeira. Se decidir pelo licenciamento da presidência, o afastamento pode ser por tempo indeterminado. Ele deixa de ser presidente da Casa, mas não perde o cargo de senador e nem precisa justificar o motivo da ausência. Uma decisão como essa é entendida como uma fuga, e representa, mais uma vez, a entrega do cargo a Perillo, que também comandaria por tempo indeterminado.

Já se renunciar, a vacância do cargo exige que o primeiro-vice convoque, em cinco dias úteis, uma nova eleição. O presidente escolhido ficaria no comando do Senado até o dia 1º de fevereiro de 2011, quando terminaria a presidência de Sarney. O problema aí é que o governo também não se contenta com essa hipótese.

Os próximos passos do parlamentar podem ser conferidos nos dias que se seguem. E você não pode perder o segundo semestre, que vai movimentar ainda mais o Senado e este blog. Por aqui, você vai acompanhar as reuniões do Conselho de Ética e os desdobramentos das denúncias, que nas mãos do presidente recém-eleito do Colegiado, Paulo Duque (PMDB-RJ), podem simplesmente ser arquivadas ou deixadas de lado. A possibilidade existe porque Duque é considerado um soldado do PMDB e de Renan Calheiros (AL), ex-presidente do Senado que renunciou ao cargo depois de se ver envolvido com denúncias de ter contas pessoais pagas por empresários. Duque também é considerado uma espécie de Sérgio Moraes do Senado. Para quem não se lembra, é aquele deputado que declarou estar “se lixando”para a opinião pública.

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