Politicamente, não há distinção entre o Distrito Federal e os grotões paleolíticos brasileiros. A cidade elegeu e relegeu Joaquim Roriz, mesmo sabendo tratar-se de...

Politicamente, não há distinção entre o Distrito Federal e os grotões paleolíticos brasileiros. A cidade elegeu e relegeu Joaquim Roriz, mesmo sabendo tratar-se de quem trata. Tem Gim Argello no Senado e Luiz Estevão ainda é um empresário convidado para todas as rodas. É governado por Arruda, o homem que jurou em falso pelo filho quando mandou fraudar o painel eletrônico do Senado. A Câmara Distrital é uma vergonha. Não por acaso, a capital da República chega à meia idade com os problemas de um ancião.

O patrimônio da humanidade representado pelo conjunto arquitetônico de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer é também uma cidade desumana, onde impera a violência e os pedestres ainda perdem o espaço para os carros, apesar da gentileza dos motoristas. Por tudo o que aconteceu ao longo dessas cinco décadas, Brasília também se transformou numa cidade de contradições. É o lugar onde primeiro os motoristas aprenderam a respeitar os pedestres que cruzavam suas extensas avenidas. Mas é também a metrópole com mais carros por habitante do país. É tanto carro que as guias são insuficientes para o estacionamento. Brasília foi construída para os carros, não para as pessoas. Em lugares a esquina do Eixo Monumental com a rua de acesso ao  Congresso (fica difícil dizer exatamente onde porque as ruas não têm nomes), os pedestres simplesmente não têm por onde seguir. A calçada termina. Quem quiser avançar tem que se arriscar na pista, disputando espaço com o trânsito. E não é o único  problema.

Na disputa entre a arquitetura e a funcionalidade, as pessoas quase sempre saem perdendo. A capital foi concebida para ser o maior espaço público do planeta. Mas o povo às vezes atrapalha a institucionalidade. Em função disso, a arquitetura vai se adequando. Um fosso foi construído no Palácio do Planalto.  O Congresso, a Casa do Povo, construiu outro por questões de segurança. E há outros menos visíveis, como o que separa o Varjão, o maior enclave de miséria do Distrito Federal, do Plano Piloto, a apenas cinco quilômetros de distância. Na pequena vila, os índices de desenvolvimento são compatíveis com os do interior do Piauí. Nos lagos e nas asas do avião de Juscelino assenta-se uma riqueza suíça, muitas vezes nutrida pela corrupção endêmica na cidade.

Apesar de todas essas contradições, a população de Brasília rejeita os estereótipos e afirma sua identidade. Hoje foi dia de festa e de manifestações de orgulho de todos os que vieram dar forma a essa metrópole multifacetada. A única coisa inaceitável é o lugar-comum segundo qual em Brasília só há bandido. Há muitos, mas também tem muita gente séria, honesta, correta. A essas pessoas, que constroem a verdadeira história da cidade, nossas homenagens.

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