A semana promete. Sarney estaria a um passo de finalmente se afastar da presidência do Senado, a exemplo do que aconteceu com outros aligarcas...

A semana promete. Sarney estaria a um passo de finalmente se afastar da presidência do Senado, a exemplo do que aconteceu com outros aligarcas caídos no passado recente. Exausto pelo “linchamento moral” perpetrado pela imprensa, ele finalmente teria se conformado com a única alternativa que lhe resta: renunciar para sair do foco.

Mas a gente só acredita vendo. Um mês atrás, quando a crise que o envolve se tornou mais aguda, Sarney usou o argumento da renúncia para assustar o governo. Pelo menos cinco senadores crédulos que estiveram com ele em sua casa diziam que a renúncia era uma questão de tempo — aguardava apenas a volta do presidente Lula de uma viagem ao exterior para ser sacramentada.

Como se viu, não era nada disso. Sarney levantou a hipótese da renúncia apenas para assustar o governo. Foi uma estratégia brilhante. Lula, encantoado, assumiu descaradamente a defesa do senador e tentou subordinar o PT. A chantagem deu certo. E Sarney, a despeito de tudo o que o bom-senso recomendava, ficou.

Quando os mesmos parentes voltam a falar em jogar a toalha, o mínimo que se espera de um observador atento é cautela. O que está por trás desse pretenso movimento? Outra chantagem? A exaustão provocada pelo embate público contra todas as evidências de mau comportamento ético e moral?

Quando usou sua biografia para refutar as acusações, Sarney parecia efetivamente preocupado com as manchas que se sobreporiam ao seu papel mais importante — o de condutor da redemocratização do país. Hoje, como é notório, não há mais como usar o argumento. O pragmatismo e o oportunismo colocaram as manchas no prefácio. E Sarney será lido, no futuro, como o personagem que encarnou o último coronel patrimonialista a entrar em decadência.

Se não há mais uma biografia a defender, do que vai se valer Sarney para alimentar sua simbiose com o Poder? Talvez, com a falta de uma referência com algum status de nobreza para justificar sua guerra pessoal, Sarney tenha mesmo perdido o mote para resistir. Mas, para que funcionasse assim, seria necessário acreditar que a questão moral provoca algum constrangimento a ele, o que parece improvável a esta altura do campeonato.

Resta o tabuleiro de político. Até aqui, o bispo de Sarney era defendido pelo rei de Lula. Uma inversão clássica da estratégia segundo a qual todas as peças dispostas no tabuleiro devem defender o rei. Colocado em xeque pela opinião pública, Lula recuou e saiu da ofensiva.

Mas ainda restam ao decadente político maranhense cinco peões. Renan Calheiros, Paulo Duque, Gim Argello, Wellington Salgado e Almeida Lima. Pode ser que Sarney, num delírio, veja em seu pequeno exército força suficiente para derrotar o adversário.

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