“O monarca escorregou, mas a monarquia continua firme”. Foi com essa assertiva que Dom Pedro Segundo se saiu de um escorregão ao chegar ao...

“O monarca escorregou, mas a monarquia continua firme”. Foi com essa assertiva que Dom Pedro Segundo se saiu de um escorregão ao chegar ao fatídico Baile da Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, seis dias antes da República ser proclamada.

“Estou firmíssimo no cargo”. Com essa frase, o monarca José Sarney encerrou o dia de ontem, que começou com notícias sobre sua renúncia iminente. Sarney e Pedro Segundo têm a mesma acuidade de observação do momento histórico que protagonizam. Decadentes e superados, fecham os olhos à realidade que se impõe e desconhecem a intempestividade dos personagens que encenam.

Nosso blog duvidou da sinceridade das informações prestadas por familiares de Sarney a alguns jornalistas e acertou ao desconfiar. Foram essas as fontes que criaram a sensação de que um desfecho estaria próximo. Mas o movimento foi muito semelhante àquele vivenciado um mês atrás, quando Sarney mandou os filhos dizerem aos mesmos jornalistas que o patriarca já havia decidido deixar a presdiência do Senado.

A reedição da chantagem política surtiu efeito. Pela segunda vez consecutiva, as ameaças de renúncia provocaram um apagão moral do governo, que ameaçava abandonar o político maranhense à própria sorte. Ressurgiram afirmações de apoio do Planalto, ainda que mais tímidas. E os peões da tropa de choque, como bons soldados de infantaria, saíram atirando nos que tentavam atingir Sarney. Foi um prenúncio do clima que vai tomar conta das sessões do Senado de agora em diante.

Sem autoridade moral para governar a Casa, Sarney vai embrulhando o parlamento na crise, com quem ele tentou dividir a responsabilidade pela cascata de ilegalidades e imoralidades admnistrativas ocorridas ao longo de seu reinado patrimonialista.

Se o constrangimento não funciona, se o peso da opinião pública não produz efeitos políticos, não há saída para a crise. Sarney tem a seu serviço a pior espécie de parlamentares que já houve no Senado da República. Eles são numerosos e poderosos. Têm votos suficientes para arquivar todas as representações e denúncias no Conselho de Ética. E não lhes falta disposição para a guerra suicida que será travada daqui por diante.

Sarney sabe que, no tabuleiro político, ainda pode ganhar as próximas batalhas — mesmo que já não exista como ganhar a guerra, perdida desde já  para ele mesmo. Mas, se quiser, pode encerrar o mandato como presidente do Senado.

A biografia já foi para o espaço. Sarney não tem mais o que perder. A não ser o Poder — que o transformou em um homem rico, influente, fez dele presidente da República e ao qual ele agora se agarra para não terminar como um farrapo. 

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