Jânio de Freitas, da Folha de  São Paulo As sequelas da permanência humana em cápsulas espaciais, por tanto tempo consideradas inexistentes ou imperceptíveis, não...

Estamos condenados a viver pacificamente nessa bolinha insignificante ?

Jânio de Freitas, da Folha de  São Paulo

As sequelas da permanência humana em cápsulas espaciais, por tanto tempo consideradas inexistentes ou imperceptíveis, não são uma coisa nem outra. Estão confirmadas. E, em princípio, com efeito muito negativo para os novos saltos na exploração humana do espaço.

O acompanhamento das condições físicas de 27 astronautas americanos demonstrou à Nasa que a permanência em cápsulas espaciais por 30 dias deixou-os, ao menos, com duas ordens de consequências. Uma, são decorrências de aumento da pressão ocular; outra, são alterações crânio-encefálicas. A presunção é de que as sequelas resultem da pressão a que os astronautas ficam submetidos no espaço.

A dedução imediata, feita a comprovação, foi de que a projetada ida do homem a Marte recebeu um golpe fatal. Mas não só os americanos e a Nasa são atingidos. Além de possíveis projetos da Rússia, a China se lança em intenso programa espacial com o propósito, referido publicamente, de alcançar precedência na ida humana a Marte.

Os astronautas com sequelas retribuem com este ônus a sorte de viver a aventura fantástica. Cobrança a lamentar-se. Mas se os seus males servirem para deter ou provocar longos adiamentos de projetos espaciais ainda mais grandiosos, o que se lamenta também merece ser saudado.

O lado científico civil dos projetos espaciais nem sequer disfarça o propósito original e sempre decisivo da conquista do espaço: a capacitação para a eventualidade de guerras. A contenção de projetos espaciais quase inimagináveis não significaria a redução do ímpeto belicista das potências. Mas tenderia a evitar gastos de proporções também quase inimagináveis.

Não se tem ideia do que custaram as conquistas espaciais já realizadas. Não há dúvida, porém, de que nenhum plano, em qualquer tempo, custou proporcionalmente tanto à humanidade. Se consideradas as necessidades ainda existentes na Terra, o gasto imensurável das conquistas espaciais é incompreensível.

Uma parcela desse gasto, se aplicada à pesquisa biomédica, há muito teria eliminado a crescente razia feita pelo câncer e por tantas doenças mais. O fim da fome que mata, e maltrata antes de matar, cerca de um quarto da humanidade, não depende de mais do que uma gorjeta do gasto com as conquistas espaciais.

O homem gasta no espaço o justo bem-estar que espera na Terra.

via Folha de S.Paulo – Poder – Uma boa má notícia – 15/03/2012.

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