Prometi ontem publicar a íntegra da edição da revista Veja nº 54. Ela chegou às bancas em 17 de abril de 1969, ao fim...

Prometi ontem publicar a íntegra da edição da revista Veja nº 54. Ela chegou às bancas em 17 de abril de 1969, ao fim de uma semana agitada pelo sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick e pela adoção da pena morte, que seria apicada contra os “terroristas” — termo usado para qualificar a guerrilha de esquerda. A edição constitui um importante documento histórico. Revela como jornalistas se dispunham a prestar apoio aos mais cruéis métodos de perseguição e constrangimento  na luta suja contra a subversão.

A revista era chefiada por Mino Carta. A autonomia do editor plenipotenciário é atestada por um homem que logo depois se integraria à equipe: Paulo Henrique Amorim. Segundo ele,  “como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

A revista não fazia questão de esconder seu engajamento ao governo que protagonizou o mais bárbaro período da ditadura militar. Chegou ao descalabro de publicar, nessa edição, um trecho do relatório de um repórter que deixa claro  a serviço de quem realmente estava . No texto, que reproduzo ao lado,o repórter diz o seguinte: “Se for outra semana como esta, meu velho, não sei onde vou parar, eu, guerreiro cansado de uma luta particular contra a subversão“. Numa alusão implícita à tortura, o jornalista se confessa assaltado por sonhos com “presos gritando em volta da minha cama”.

A publicação desse relatório explicita de que lado estavam Mino e seus áulicos da ditadura. A revista aceitava e propalava seu engajamento ao absorver a observação do repórter, endossá-la a publicá-la.

Os absurdos decorrentes desse engajamento produziram aquela que é talvez a página mais abjeta do jornalismo da imprensa golpista de então — goslpista porque se prestava não apenas a apoiar, mas também a funcionar como peça de propaganda da ditadura.

A releitura dos textos de Veja, disponíveis gratuitamente no Acervo Digital do site da revista, revela que o engajamento não se limitava à cobertura. Ele se expandia também para a propaganda da doutrina sobre a qual o regime se sustentava. “Os episódios [da semana anterior] se avolumam e empurram a junta militar para decisões inevitáveis mas, ao mesmo tempo, de altíssima responsabilidade: a pena de morte, o banimento e a prisão perpétua contra os subversivos”, é o que se pode ler no corpo da reportagem de capa.

Este Blog tem por política não descontextualizar declarações para construir a crítica política. Por esta razão, publico a íntegra das reportagens do número 54 de Veja, conforme havia prometido ontem.

No link abaixo você vai encontrar as doze páginas com três reportagens. Vale a pena lê-las do começo ao fim. Talvez, depois disso, seja possível entender outra manifestação do próprio Mino Carta, em entrevista ao programa Provocações, da TV Cultura no ano passado. A entrevista está publicada integralmente neste blog e pode ser acessada aqui.

Nela, Mino Carta assume que  “por um certo período eu agi como um mercenário (…). Quem me pagava, me tinha”. A frase, que poderia representar o epitáfio moral de qualquer  jornalista, talvez ajude a entender o comportamento de Mino Carta nos anos mais sangrentos da ditadura militar.

Comentários

  • JULIO COSTA

    26/05/2012 #1 Author

    Caro;

    Não sei se por “brigas” com meu linux velho de guerra, mas não encontrei referencias a MINO CARTA da publicação exposta. Nem como editor (chefe/sub/diretor) ou como assinante de artigos?!

    Poderia, por obséquio indicar a página que faz referência ao dito cujo?

    Cordialmente,

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  • Pedro

    24/05/2012 #2 Author

    Você é um descontextualizador. Não vi nada que desabonasse o Mino Carta. Que página mentirosa a sua. Assim só piora a sua, digamos, aparência profissional.

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    • Fábio Pannunzio

      24/05/2012 #3 Author

      Não viu porque não leu. Se tiver alguma dúvida honesta, e não esse lenga-lenga da BESTA, estou à disposição para esclarecer.

  • AlexRio

    02/05/2012 #4 Author

    Acho que o Mino Carta não tem o que dizer. A coisa toda é ‘fato’, como demonstrado. E contra o ‘fato, não há argumentos.

    Ou como diria De Gaulle, respeitosamente: “Sua Excelência, o Fato”.

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  • emerson

    21/03/2012 #5 Author

    Lendo as transcrições de Veja dou meu braço a torcer Fabio, realmente as matérias sao bajuladoras do regime militar, vergonha Mino Carta.Esse apoio de orgaos de imprensa ao regime militar vale um livro. A familia Mesquita por exemplo apoiou o golpe e se arrependeram sendo o jornal Estadao brutalmente censurado, a Folha da Manhã atual Folha de São Paulo apoiava e tinha contatos com a repressão militar chegando a guerrilha ate atacar os carros da Folha. Por outro lado o pessoal de esquerda pregava a implantação do comunismo no Brasil regime no qual certamente custaria a vida de milhares de pessoas. Muitos estudantes de direita fizeram parte do CCC, comando de caça aos comunistas, ate um amigo seu e apresentador de tv famoso, que chegaram a massacrar artistas de teatro.O maior jurista do direito administrativo braisleiro Dr Hely Lopes Meirelles era o secretario de segurança de São paulo no tempo da criação da Oban e Doi Codi.O que salvou o Brasil foram os moderados, os liberais democraticos que fizeram resistencia pacifica ao governo dentro do possivel e aproveitaram a oportunidade de chutar o regime militar já podre. Nunca acreditei em imprensa totalmente livre, isso não existe, a não ser em uma tv pública como a BBC que nao existe no Brasil.

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  • Ricardo Contadini

    21/03/2012 #6 Author

    Excelente Fabio, por favor traga mais e mais ! Tenho a certeza que varios leitores do blog racista (ah, blog nao, site, segundo a CEF) e da carta Capital estao silenciosamente quietinhos lendo tudinho….

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