A sociedade que se acautele. A ameaça neonazista representada pelas promessas de ações violentas contra homossexuais, feministas, negros e judeus está longe de terminar....

A sociedade que se acautele. A ameaça neonazista representada pelas promessas de ações violentas contra homossexuais, feministas, negros e judeus está longe de terminar. A  prisão de Emerson Eduardo Rodrigues e Marcello Valle Silveira Mello, responsáveis pelo site que propalava o ódio racial e de gênero,  revela algo da maior gravidade: o novo terrorismo agora tem uma certa organicidade e ganha corpo na internet.

O domínio silviokoerich.org continua ativo e lá ainda se pode ler toda a documentação produzida pelos fanáticos arianos. É de arrepiar. Onze dias atrás, sintetizando seu ódio misógino, antissionista, homofóbico e racista, o ideólogo do novo nazismo virtual justificava previamente as razões do ataques que pretendia desferir.

“Quero deixar claro que não sou louco e estou tomando esta atitude em livre e espontanea (SIC) vontade. Esta é a minha vingança contra vocês. Quem tornou a minha vida um inferno foram os mesmos militantes que lutam pelo “direitos humanos” de marginais, negros e viados. Eu podia ter sido alguém para sociedade, mas acredito que D’EUS me deu esta missão. A cada dia que se passa fico mais ansioso, conto as balas, sonho com os gritos de vagabundas e esquerdistas chorando, implorando para viver”.

A imagem que os terroristas virtuais pretenderam construir é terrível, mas se situa no contexto de outras iniciativas do mesmo naipe — embora menos orgânicas –espalhadas por toda a rede. Nazistas enrustidos aparecem a todo momento nas seções de comentários de blogues políticos e fazem sua voz se misturar à opinião de outras estirpes de polemistas. Não é difícil identificá-los.

Há pouco mais de um ano, este blog denunciou o problema em um posto intitulado  “O caso Bóris Casoy: reações demonstram sociopatia neonazista“. O artigo tratava da odiosa campanha movida contra o apresentador Boris Casoy em função do vazamento de uma frase, no intervalo do Jornal da Band,  sobre a posição dos garis na hierarquia social.

O texto denunciava o seguinte:

A segregação racial, o preconceito religioso, o antissemitismo grassaram na internet. Num Blog do WordPress, alguém que assina Dr. Weissberg — provavelmente em alusão a Alexander Weissberg, judeu comunista que constestou o Holocausto — escreve, sobre Bóris: “Como todo judeu, desclassificam todos os que não são judeus”. Quer dizer: a religão e a ascendência étnica do âncora da Band seriam os motores ideológicos de seu comentário sobre os garis. “Sendo Boris Casoy um JUDEU, não vejo surpresa nesse ato de arrogância e insolência”, escreve alguém sob o pseudônimo de Ahmadinejad em outro blog .

Até quando parecem querer contemporizar os racistas, xenófobos e antissemitas se materializam. ”Não é pelo fato de ser judeu (tenho amigos desta religião), mas que isso ajuda ninguém pode negar”, diz um internauta no Yahoo Respostas .

O desrespeito não tem limite. “Boris Casoy [é] mais um judeu imundo e preconceituoso”, comenta alguém sob o codinome de Roberto no blog Bobagento. O mais grave é que nos comentários que se seguem ninguém o censura. No Twitter, um tal Toodoro teve a coragem de postar a seguinte mensagem: “Boris Casoy um judeu imundo e hipócrita. Fique uma semana longe desse jornalzinho que vai ver que NINGUÉM sente sua falta. SEU BOSTA!”.

A homofobia também forneceu armas para o ataque dos neonazistas de plantão. “VINDO DE UM VIADO ENRRUSTIDO O QUE SE PODE ESPERAR, ISSO SIM É UMA VERGONHA”. Foi o que disse alguém que assina João Souza no site 24horasnews.”Viado, velho filho da puta”, exclama outro (leia aqui).

O post a que os remeto vai além da simples constatação do problema. Ele enumera as fontes, fornece os links para os comentários e faz um alerta: ” A sociedade contemporânea está doente. Sobre nossas cabeças paira, sem nenhuma sombra de dúvida, uma ameaça neonazista que, em letargia, vive à espreita de qualquer pequena oportunidade para assombrar nosso futuro”. Menos de um ano e meio depois, a ameaça foi personificada na prisão dos terroristas virtuais de Curitiba.

O mais grave é perceber que as vozes da intolerância se misturam, sem nenhum tipo de censura, à gritaria geral que se arma quando algum assunto polêmico está em debate. E que os moderadores, os editores dos blogues polemistas, não se importam em ceder espaço a esse tipo de opinião quando ela coonesta a tese defendida.

Eis aí uma questão complicada a exigir que as pessoas sensatas reflitam. A internet, que supostamente iria universalizar o conhecimento, redimir os oprimidos, reforçar a democracia, foi transformada numa espécie de ribalta das ideologias segregacionistas. É nesse teatro de operações que se o novo terrorismo constrói e difunde sua base ideológica, torna públicas suas ameaças, antecipa suas ações.

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