Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

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A falha humana no voo da Air France

O laudo final do acidente que vitimou os passageiros e a tripulação do voo 447 choca por uma constatação: os pilotos que comandavam o Airbus não tinham a menor noção do que se passava com o equipamento a partir da perda dos tubos de Pitot, que estabelecem a velocidade e altitude de um avião a partir da medida das pressões dinâmica e estática do ar.

Na transcrição, pode-se ver que três tripulantes dialogam o tempo todo, divergindo sobre a atitude do aparelho ao longo de um intervalo de tempo enorme. Enquanto isso, não conseguiram tirar o avião da condição de STALL (Stop All Lift) em que ele se encontrava — sequer perceberam a falta de sustentação da aeronave até que ela se chocasse com superfície do mar.

O perda de sustentação e o STALL talvez sejam as condicões mais estudadas no curso básico de formação de pilotos. Logo nas primeiras lições práticas, treina-se exaustivamente o voo no limite mínimo de velocidade. O piloto deve saber controlar o aparelho porque é nessa condição que se dá o pouso, que nada mais é do que um estol controlado.

A velocidade de estol é aquela a partir da qual a força de arrasto se equipar a força de tração (que “empurra”o avião para a frente) e o peso se torna superior à sustentação, fazendo com que a aeronave perca altura rapidamente. O avião atinge essa condição quando tem seu nariz “empinado”até um ângulo de inclinação em que a potência dos motores e a dinâmica do voo impossilitam o ganho de velocidade necessário para solucionar o problema.

Também está nas cartilhas dos pilotos em treinamento a solução para esse tipo de condição: empurrar o nariz do avião para baixo, fazendo com que ele perca altura  até recuperar a velocidade de sustentação. Mas em momento nenhum os pilotos do 447 tentaram — sequer cogitaram — fazer o que ensinam os manuais mais elementares da aviação.

Tome-se a favor dos tripulantes o fato inquestionável de que a informação essencial havia sido suprimida pela falência dos sensores externos. Com os tubos de Pitot entupidos por gelo, eles não tinham a velocidade, o parâmetro mais importante para a manutenção do voo.

Ocorre que voar estolado, que foi o que aconteceu ao longo da lenta queda do 447, produz “sintomas” que podem ser percebidos por outros meios. O voo se torna instável. A aeronave fica “bamba”no ar. A resposta aos comandos  fica lenta e exige movimentos maiores e mais bruscos para corrigir a atitude do avião.  Tudo isso aconteceu enquanto o Aribus traçava a trajetória de sua lenta e suave queda fatal. E não foi percebido.

Além disso, havia outros meios de obter a informação precisa da velocidade. Desde a década de 40 a aviação vem sendo amparada pela eletrônica. Um equipamento GPS desses que custam 150 reais nas bancas de camelôs poderia ter fornecido o parâmetro correto aos pilotos. A informação tinha que estar disponível no painel de comando da aeronave, já que a orientação por satélite hoje é onipresente.

O relatório da autoridade francesa que periciou o acidente afirma, de maneira cabal, que foram os erros dos tripupantes os principais responsáveis pela tragédia que se seguiu, com a perda de quase 300 vidas. Mas deixa uma questão intrigante em aberto: por que três pilotos experientes erram ao mesmo tempo, e de forma tão elementar ?

Ainda que se considerem todas as dificuldades técnicas, fica evidente que há algo mal resolvido na formação dos pilotos.

Com o avanço da eletrônica embarcada, a autonomia dos comandantes ficou reduzida a uma fração do que era anos atrás. Hoje, pilotos são, na maior parte do tempo, meros supervisores dos equipamentos que monitoram o voo. Tudo é feito automaticamente — o controle da velocidade, da potência, da rota, da atitude, da altitude. A sofisticação e as redundâncias eletrônicas, a rigor, tornam o piloto quase desnecessário.

Um avião como o Airbus é capaz de decolar e aterrissar sozinho — desde que os parâmetros sejam estabelecidos crretamente. Se ainda há pilotos nas cabines de comando, é porque eles têm que atuar justamente onde a eletrônica e a automatização dos procedimentos ainda não conseguiram aposentar o cérebro humano. Em tese, eles estão ali justamente para enfrentar situações como a que abateu o Airbus da Air France.

E quando todos falham, quando nem a redundância e a capacidade de processamento do cérebro humano são capazes de corrigir uma situação elementar como a falta de velocidade, há algo muito mais grave do que a simples competência individual de cada um dos tripulantes.

Culpá-los pela tragédia equivale a desprezar uma oportunidade rara — e muito custosa, já que centenas de vidas se perderam — de questionar o que está acontecendo na formação e seleção de pilotos pelas companhias aéreas.

Ainda que se atribua o acidente à falta de acuidade individual para perceber o que se passava nos minutos em que o 447 da Air France cumpria sua trajetória fatal, não se pode atribuir apenas aos comandantes a incapacidade de sair da situação que o levou a mergulhar no Atlântico.

Por mais que tenham errado individualmente, induzidos que foram pela falha dos sistemas de orientação do voo, o erro coletivo coloca necessariamente algumas indagações: até que ponto a automatização do voo pode melhorar a segurança dos tripulantes e passageiros ? Até que ponto a segurança proporcionada pela eletrônica embarcada, e a consequente supressão da autonomia do homem sobre a máquina, pode tornar a viagem segura ?

Há pelo menos duas boas justificativas para uma reflexão profunda sobre esses temas. Infelizmente, ambas tiveram um alto custo para os brasileiros. A primeira foi o acidente com o avião da TAM no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Tal como no vôo 447, os pilotos não conseguiram resolver uma divergência entre o que era necessário fazer e o que os sistemas de bordo permitiram que eles fizessem.

Evidências de que, quando todos falham, quem falhou não foi o homem — foi o sistema do qual o ser humano é apenas uma das engrenagens.

Futurologia: como será o resultado do julgamento do Mensalão ?

Este post é um exercício de reflexão. Se você quiser fazer uma leitura crítica, tenha em consideração que, a rigor, é um exercício de especulação e futurologia. Mas convém anotar o que vou dizer para depois, no começo de setembro, conferir a capacidade deste blogueiro de analisar e antecipar cenários.

É bem provável que o País viva dois momentos bem distintos — um de catarse, outro de grande frustração — ao término do julgamento mais importante da história do STF.

A catarse: quando os réus, pelo menos grande parte deles, forem condenados, o que fatalmente vai ocorrer.

A frustração: o arbitramento das penas. Não espere ver alguém purgando uma cadeia longa.  A corte constitucional tem aversão pelo cárcere e poderá permanecer fidelíssima à tradição secular de não trancafiar políticos.

A leitura da peça de acusação elaborada pelo Procurador-Geral Antônio Fernando de Souza não permite outra expectativa que não a de condenação dos réus. As provas são robustas e, por mais que os advogados tentem, não conseguirão consagrar a tese de que o escândalo inexistente é produto de um delírio coletivo antipetista.

A esta altura, dado o conjunto probatório e o ambiente político, o STF não tem nenhuma condição de simplesmente absolver os denunciados e mandar o caso para o lixo da história. Ninguém, nem o mais garantista dos juízes, se arricaria a chancelar a suspeita de que o guardião da Constituição é um trampolim para a impunidade.

Repare no comportamento dos julgadores. Antevejo surpresas incríveis. Por exemplo: como vai votar o ministro Gilmar Mendes ? Tóffoli vai se dar por impedido ou participará do julgamento ?

Os dois julgadores estão numa condição diametralmente oposta perante os olhos da opinião pública. Tóffoli é dado como voto certo contra a condenação dos mensaleiros não apenas por sua atuação profissional pretérita, mas também por vínculos pessoais com procuradores dos denunciados.

Gilmar Mendes, ao contrário, é tido como voto certo contra a turma de José Dirceu — principalmente graças à polêmica em que se envolveu com Lula, a quem acusou de tentar chantageá-lo.

Será mesmo ?

Tenha em mente que o embate Lula X Gilmar Mendes deu ao ministro a condição moral necessária, inclusive, para absolver todos os réus. Estou falando de condição moral, de condição política, não de fundamentação jurídica. O que acontecerá se Gilmar Mendes votar a favor de Dirceu e seus comparsas ? Nada!

No máximo, sua isenção será elogiada por quem hoje o critica. Assim, Gilmar ganha se votar contra o que se espera dele e nada ganha se votar conforme o esperado. Para todos os que viram no histrionismo do ministro um gesto de heroísmo, restarão a estupefação e o silêncio.

E Tóffoli ?

Tóffoli também ganha se fizer o contrário do que se espera: dar-se por impedido. Mas é altamente improvável que tome essa iniciativa porque ela não geraria nenhum outro ganho secundário. Ademais, ele já atuou no caso e produziu atos processuais. A hora de se afastar do julgamento, portanto, já passou.

Mas e se Tóffoli, ao participar, votar pela condenação — mesmo que seja de apenas alguns dos réus ? Aí ele ganha mais do que perde. Ganha o mesmo que Gilmar Mendes fazendo o oposto do que se espera: sai da condição de suspeito para a de julgador justo e correto.

Vamos agora ao cenário seguinte. Os ministro se reúnem e julgam. Condenam os mensaleiros. O próximo passo é o arbitramento das penas.É aí que, ao que tudo indica, pode haver uma solução salomônica.

É bem provável que José Dirceu, Delúbio, João Paulo Cunha e José Genoíno cheguem a essa etapa carimbados com o rótulo transitado em julgado de quadrilheiros que assaltaram os cofres do erário para nutrir seu esquema político.

Já seria um feito e tanto, uma pena que os condenaria ao ostracismo, a ganhar a vida como párias (ou consultores) longe dos negócios da política. Ficariam inelegíveis, estariam desmoralizados. Nem a condescendência de um partido lascivo como o PT seria suficiente para assegurar-lhes uma sobrevida.

Respingaria em Lula. Como ficaria a situação do maior advogado dos mensaleiros, justamente o ex-presidente que parece disposto a torrar todo o seu (ainda) enorme capital político numa aposta tão ruim ?

Condenados os mensaleiros, condenado Lula. Tanto no plano moral, que não parece preocupar muito o pragmático ex-presidente, quanto no político, este sim suscitador de uma enorme preocupação. O carimbo de ladrões calaria fundo na alma dos mensaleiros, mas seria corrosivo para a imagem pública de Lula, ainda hoje o único pilar consistente do petismo.

Depois disso, será de se indagar se ainda será preciso mandar alguém para a cadeia. É provável que sim. E aí está Delúbio Soares para assumir, como um bovino que se oferece às piranhas,  todo o sacrifício da roubalheira sacrossanta do lulopetismo.

Prepare-se para o mês de agosto.Promete ser muito mais do que o mês do cachorro louco.

E depois não diga que eu não avisei.

O louvável esforço de Lula para não dizer nada

Não foi uma entrevista, foi bajulação explícita. Ainda assim, foi louvável o esforço de Lula para aparecer no programa do Ratinho. Ele entrou no palco claudicante, mas dispensou a muleta. Teve que se amparar na mesa do cenário para que as pernas não lhe traíssem. E enfrentou o incômodo de uma garganta ainda doente que lhe conferiu um tom metálico à voz.

A julgar por tudo o que lhe foi perguntado e pelas respostas oferecidas, o objetivo da presença de Lula no Ratinho foi plenamente alcançado: apresentar às classes C e D o candidato que ele impôs ao PT para disputar a prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. Lula não estava ali para esclarecer nada, estava ali para fazer campanha.

Quem assistiu do começo ao fim ficou sabendo algumas coisas fundamentais para entender Lula. Sabe-se agora que ele come rabada com apresentadores de TV, que arrumava sua casa e cozinhava quando ia a São Bernardo do Campo passar fins-de-semana com a esposa Marisa e que ele tomou dois tombos, e não apenas um. Onde ocorreu o segundo ele não revelou, talvez porque isso faça parte do rol de coisas das quais não convém falar.

Ratinho, que montou uma rede de emissoras de rádio e televisão ao tempo da gestão do amigo, criou um clima emocional para recebê-lo. Exibiu um trecho de ‘Lula, o Filho do Brasil’ e botou no ar uma matéria enaltecendo o PROUNI. A filha de um pedreiro que está estudando medicina ilustrou metonimicamente a abordagem.

Duas outras figuras públicas de grande prestígio foram utilizada como peças auxiliares para a promoção das virtudes do ex-presidente. Ronaldo Fenômeno cedeu-lhe a associação com sua imagem resiliente. Apareceu novamente como o personagem que não desiste nunca. E Zeca Pagodinho o convidou para um chope, aproveitando-se da oportunidade para reiterar o cervejeiro, fazendo uma espécie de merchandising de seu (dele, Zeca Pagodinho) alcoolismo lucrativo.

Luis Marinho, prefeito de São Bernardo do Campo, tem motivos para ficar enciumado. Mereceu apenas um cumprimento do apresentador e nenhuma palavra do entrevistado. Ficou na platéia enquanto seu companheiro paulistano foi convidado a se sentar em uma cadeira ao lado da ribalta, embora seja tão candidato quanto Haddad.

O affair com o ministro Gilmar Mendes só foi abordado no último minuto do programa, quando a entrevista já resvalava para as considerações finais – ainda que Ratinho tenha antecipado que não queria entrar no assunto porque o povo “não está entendendo” esse assunto. Lula passou ao largo do problema, disse apenas que já havia se maniffestado em uma nota. Não se manifestou. A nota não é dele, é do Instituto Lula, e nela não há nenhuma declaração de Lula de que a versão do encontro apresentada pelo ministro do STF não é verdadeira. O silêncio reiterado, a esta altura, parece deixar claro que o desmentido não é um problema estratégico — é uma impossibilidade concreta.

Mercado já espera um crescimento ainda menor

FERNANDO SAMPAIO

Nas divulgações semanais do boletim Focus do Banco Central (BC), em geral os números que mais chamam a atenção são as expectativas quanto aos índices de inflação e a taxa de juros básica (Selic).

Elas costumam variar, de uma semana para a outra, bem mais do que aquelas relativas a variáveis do lado “real” da economia -como o PIB (Produto Interno Bruto), a produção industrial e o saldo da balança comercial.

Essa maior volatilidade reflete sobretudo a importância das projeções de inflação e de juros nas operações no mercado financeiro -o que leva as instituições financeiras e as consultorias cujas expectativas são coletadas pelo Banco Central a revisarem essas projeções a todo momento.

Também contribui para que a revisão das projeções para as variáveis “reais” seja menos frequente o fato de que o maior acerto nessas projeções não é “premiado” pelo Banco Central: ele somente divulga listas das instituições com menor erro nas projeções para os índices de preços, o câmbio e a Selic.

À luz desses fatores, fica mais fácil compreender a importância do recuo da expansão esperada do PIB em 2012 relatado pelo boletim Focus de ontem.

Do dia 11 para o dia 18 deste mês, a mediana das projeções para a taxa de crescimento do PIB diminuiu de 3,20% para 3,09%.

Embora possa parecer modesta, é incomum uma mudança desta magnitude em apenas uma semana.

Ela sugere que, nas próximas semanas, o Focus vai relatar novos recuos do crescimento esperado.

O recrudescimento da instabilidade na Europa é o fator de fundo a realimentar a cautela de empresários e de consumidores.

ESTOPIM

Mas o principal estopim direto da piora de expectativas de crescimento captada pelo Focus deve ter sido a divulgação, na última sexta-feira (dia 18), do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica), a estimativa do desempenho mensal do PIB elaborada pelo próprio BC.

O índice caiu 0,35% do mês de fevereiro para março; em média, os analistas esperavam uma alta próxima de 0,5%.

Não por acaso, o grosso da piora das projeções para o PIB ocorreu de quinta-feira para sexta-feira.

O IBC-Br subiu apenas 0,15% do quarto trimestre de 2011 para o primeiro trimestre de 2012.

Mesmo a projeção feita pela LCA Consultores, de alta do PIB de 2,6% no ano, pode estar se tornando otimista.

FERNANDO SAMPAIO, economista, é sócio-diretor da LCA Consultores

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Mercado já espera um crescimento ainda menor – 22/05/2012.

Quanto custa uma eleição ?

Francisco Câmpera, especial para o Blog do Pannunzio

 

Você sabe quanto custa uma campanha eleitoral para Presidente da República? E governador de um Estado como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro? E deputado federal?

Difícil responder, mas vamos tentar. Nos bastidores alguns barões do PT confessam que a campanha de Lula em 2002 bateu os R$ 500 milhões. Da presidente Dilma em 2010 passou fácil de R$ 1 bilhão. O privilégio dessa fortuna não é do PT, o PSDB não ficou para trás, afinal, os custos são quase os mesmos, inclusive para “cooptar” aliados. Para se uma campanha se tornar vitoriosa é preciso ter candidatos fortes em todos os Estados.

Uma campanha competitiva para governador em São Paulo não sai por menos de R$ 150 mihões, podendo dobrar esse montante dependendo da concorrência. Deputado federal chega-se a 15 milhões ou mais, embora o nobre parlamentar não ganhe nem metade disso em quatro anos de mandato.

Obviamente os valores declarados são inúmeras, dezenas vezes menores. A lei eleitoral brasileira vem se tornando rígida nos últimos anos, e mais o “caixa não contabilizado” vai se sofisticando na mesma medida. Quando o esconderijo do rato é descoberto, ele procura outro.

A conta feita pelos probos líderes é simples. Se o PIB do Brasil chegou a R$ 3,6 Trilhões, portanto é fácil “levantar” um, dois ou três bilhões para pagar as contas. Como o PT não estava acostumado a lidar com tanto dinheiro, como os tucanos e demos já tinham intimidade com os bilhões, logo nos primeiros anos do mandato de Lula os escândalos proliferaram, chegando ao auge com o chamado Mensalão. Engraçado que ao se defender, muitos petistas afirmam que não houve mensalão; um conhecido operador do partido nos bastidores disse que existiu foi um Pingadão, um acerto de contas eleitorais, o chamado “caixa não contabilizado” na versão deles.

O PSDB não fica atrás nos escândalos, começando pelas privatizações, que foram necessárias, mas foram vendidas a preços camaradas a amigos da corte. O caso mais famoso é o setor de telecomunicações que, aliás, continua até hoje deitando e rolando na benevolência das regulamentação estatal. Na campanha nacional os tucanos ainda contam com a “força” do Estado mais rico da nação, São Paulo. Se o candidato fosse Aécio Neves, Minas Gerais também seria capaz que confrontar “democraticamente” com o PT na disputa dos Reais para se eleger.

Licitações

Tudo, como sempre aconteceu na história da humanidade, se resume em dinheiro e poder. Um dos pilares dos caixas de campanha são os gastos bilionários do Estado em obras, compras e serviços. As empresas e empreiteiras investem nos políticos com chances de ganhar para faturar depois. O meio legal disso acontecer é por meio da Lei das Licitações, a 8.666, criada ironicamente para coibir a corrupção. Uma licitação bilionária começa com um edital que, de tão complexo, é elaborado por escritórios altamente especializados ou pelas próprias empresas que vão disputar. Até mesmo porque são poucas as instituições onde há funcionários públicos qualificados para fazer um edital, digamos, de “alto nível”. Convoca-se, por exemplo, uma comissão de o cinco funcionários, dois santos e três diabretes seduzidos pelo ganho fácil. O critério que prevalece é o técnico, portanto, subjetivo, e o preço pode vir segundo lugar, ficando assim fácil escolher o vencedor. O resultado desta história é caos em série, onde apenas os contribuentes perdem. Começa com o superfaturamento dos preços, indústria de liminares, atraso de obras, aumento de custos para todos os lados, até mesmo para criar mais órgãos de fiscalização, mais burocracia e por aí vai. Quem fica feliz é o funcionário público que trabalha neste setor e quase nunca aparece nos escândalos. Os políticos até passam, mas ele ficam. Eles reinam em seus locais de trabalhos como se fossem feudos e não escondem os seus carros reluzentes nas garagens das instituições estatais. Basta passear pelas garagens dos ministérios da Esplanada em Brasília para ver o disparaste. Outros felizardos são as empresas mais competentes…em fazer lobby com os ilustres líderes, que por sua vezem gozam a felicidade de quem ganha na loteria milhares de vezes.

Diante deste quadro, o Estado passa a gastar mais e mais, portanto, cobrar mais impostos, economia crescendo menos, educação e saúde de quinta categoria…e os brasileiros que se virem com as esmolas das bolsas, que aliás deveriam ser mais eficientes para a prosperidade.

A CPI do Cachoeira é mais um capítulo dessa história triste do sistema eleitoral brasileiro. A discussão é se realmente os Poderes Constituídos serão capazes de mudar esta realidade. Este sistema coloca em xeque a nossa democracia e desenvolvimento econômico, político e ético da sociedade. Quem se coloca contra este sistema talvez nunca chegue ao Poder; e se chegar fica tão amarrado com os compromissos assumidos que dificilmente terá condições de mudar alguma coisa.

Quem sabe ainda exista em Dilma Rousseff o espírito guerreiro da garota que trocou o conforto e segurança de uma família da classe média mineira pelo sonho de uma revolução de um mundo melhor. A diferença que as armas agora são outras, mais legítimas, e a possibilidade de mudanças são reais. Mas para isto acontecer a sociedade precisa fazer a sua parte. É mais uma oportunidade para todos nós para avançarmos e não nos limitarmos à pequenez da disputa política.

Francisco Câmpera é jornalista da Rede Bandeirantes de Televisão

Um País para Manuela

Minha netinha Manuela nasceu anteontem, no mesmo dia em que a CPI do Cachoeira foi instalada. Tenho o pressentimento de que o futuro que ela encontrará quando tiver conquistado sua plena cidadania guarda uma estreita relação com os fatos que o Congresso vai apurar — ou não — no processo que se inicia agora.

Estou consciente de  que essa expectativa  não encontra amparo nem na minha experiência pessoal e pode parecer pueril. Pode-se considerar que ela seja fruto de um desmesurado otimismo em relação às Instituições brasileiras. Senti a mesma coisa anos atrás, no começo da década de 90, quando Bruna, a mãe da Manuela, era uma recém-nascida. E eu estava enganado, muito enganado.

Bruna nasceu junto com Constituição de 88. Ela materializava a esperança na reinstitucionalização do País. Criou ferramentas que permitiram aos brasileiros da idade da minha filha mais velha viverem desde então em uma democracia madura, a despeito de ser tão jovem quanto ela própria.

A primeira infância da Bruna correu paralela à agonia do governo Collor, que o Congresso Nacional teve a coragem de depor quando ela completou quatro anos de idade. Collor foi cassado por corrupção. Foi expulso do Palácio do Planalto por adolescentes com a cara pintada, metade de preto, metade com as cores da bandeira. Naquela época, eu queria que minha filha tivesse idade suficiente para também pintar o rosto e ir para a rua gritar que aquilo era inaceitável. Cheguei a levá-la no ombro a duas manifestações.

Mas os anos foram passando. Enquanto Bruna crescia, a reorganização dos agentes da corrupção que se acercaram do Estado acabou transformando Collor num emblema representativo da média dos políticos brasileiros — nem pior, nem melhor. PC Farias, à luz da quadrilha governamental que articulou o Mensalão e da organização criminosa de Carlinhos Cachoeira, parece hoje um punguista de quinta categoria. Collor está de volta, depois de cumprir seu degredo, agora no papel de guaridão altivo dos segredos que ele e sua turma querem manter longe dos olhos da opinião pública — daí sua acintosa presença no banco dos juízes que vão presidir a investigação parlamentar.

Muitos escândalos se sucederam enquanto Bruna crescia e caminhava rumo à gestação que nos deu agora Manuela. CPI do Orçamento, Três Porquinhos, emenda da Reeleição, as denúncias da privatização, Mensalão, Saguessugas, Carlinhos Cachoeira … A ninguém minimamente informado é permitida outra constatação a não ser a de que a qualidade da representação política — e suas imbricações com o crime organizado — só fez se agravar nos últimos 23 anos.

Tanto Lula quanto Fernando Henrique, diretamente ou por intermédio de seus áulicos, defenderam a tese de que não foi o País que piorou, foram as instituições que se fortaleceram a passaram a deslindar as engendrações criminosas dos que foram eleitos para exterminá-las. A afirmação não encontra amparo na realidade fática nem no discurso justificador dos governantes que poderiam, se quisessem, ter mudado definitivamente essa história.

O hiato de tempo que transcorreu do nascimento de Bruna ao nascimento de Manuela equivale, em número de anos, ao tempo que foi necessário para que a Coréia do Sul deixasse de ser um devastado produtor de cabelo para perucas para se transformar numa potência emergente; que a Nova Zelândia  fosse catapultada do vale  ao topo do ranking que lista os países menos corruptos do planeta; que a Costa Rica  levou para deixar ser um porto seguro para gangsters de todo o mundo.

Exemplos como esses três servem para ilustrar bem o que teria acontecido ao Brasil caso o Estado tivesse assumido um papel honesto na confrontação da corrupção e no saneamento das Instituições ao longo das últimas duas décadas. E são suficientes para acabar com a falácia de que mais escândalos são produto de mais apuração, mais justiça, quando na verdade a contumácia dos esquemas e sua perpetuidade apenas servem para denunciar a extensão do problema, que fez se agravar.

O Brasil da minha filha transformou a corrupção em meio de sobrevivência dos partidos e dos políticos. Generalizou a bandalheira para demonstrar que todos se equivalem na lama. Transformou a virtude em tolice e a esperteza indecente em vantagem. Alinhou biografias ilustres à folha corrida de bandidos notórios. Aliciou líderes carismáticos e os colocou a serviço dos milicianos antidemocráticos que tentam mudar a História para provar que o que existe nunca existiu. Anulou provas, invalidou processos que poderiam ter colocado um freio no processo de apropriação patrimonialista. E jamais condenou à a cadeia um político sequer acusado de corrupção.

É este o legado da minha geração para a geração da minha neta. Uma matéria-prima de péssima qualidade, um País corrompido até a medula. Apesar do advento de instrumentos como a Lei da Ficha Limpa e a Lei de Acesso à Informação, que logo estará em vigor. Mas estes, lamentavelmente, ainda não produziram resultados que os justificassem.

É nesse sentido que, a despeito de toda a expectativa que se arma, alimento a esperança de que o processo de mudança de paradigma moral deslanche a partir da CPI do Cachoeira. Em termos de importância história, ela se iguala à CPI do PC e à dos Correios. Devolve aos protagonistas dos Poderes a chance de estabelecer o marco zero de um novo tempo, o tempo da ação saneadora, da revalorização da política, da restauração da honra e da honestidade.

Era o que eu desejava também para o futuro de Bruna quando ela nasceu, em 1988. Infelizmente eu estava errado. Espero não chegar a essa mesma conclusão daqui a 23 anos, quando Manuela estará pronta para trazer à luz minha primeira bisneta.

Por que Dilma não se envolve mais com a CPI do Cachoeira? Porque não é burra!

Os últimos dias transcorreram sem que os observadores políticos recebessem um sinal claro do Palácio do Planalto sobre como seria a atuação do governo na CPI do Cacheira. O sinal, a despeitos da saraivada de palpites, não veio. Até aqui, os preparativos para a guerra congressual que se arma passam longe do gabinete da presidente Dilma Roussef.

A ausência de uma orientação mais evidente tem sido interpretada como sinal de apatia, falta de habilidade política ou de êxito em articulações engendradas nos sub-bastidores da política palaciana que transcorreriam longe dos olhos atentos da opinião pública. Talvez não seja nada disso.

Quando o tabuleiro começou a ser armado, o que se viu foram movimentos coordenados dos velhos atores de sempre. No ataque, Lula ressurgiu do leito hospitalar para uma posição proeminente. O PMDB, até agora aparentemente fora da seara dos negócios de Cachoeira, logo se posicionou como o grande mediador do processo de negociação que antecede esse tipo de evento político. Os partidos comprometidos foram para a defensiva. E o Palácio do Planalto ?

Nada. Nenhum sinal. Apenas uma declaração protocolar de que CPIs são problema do Congresso, e que a vontade dos congressistas deve ser respeitada.

Não é lícito supor que os desdobramentos dessa CPI não interessem ao Planalto. Eles interessam sim, e muito, na medida em que podem redefinir o papel das várias forças que compõem o arco de apoios ao governo. E também, talvez principalmente, o tamanho da oposição que restará ao governo  com a destruição de um de seus principais alicerces residuais — o DEM — e  o comprometimento de parte do PSDB, representada pelo governador Marconi Perillo.

Como entender, então, o aparente absenteísmo do governo neste momento crucial?

Talvez a resposta seja mais simples do que a complexidade do assunto sugere. Dilma Rousseff  emite sinais de que atua positivamente com uma atitude passiva. Ela já demonstrou que não tem dificuldade em se livrar de assessores comprometidos em escândalos de corrupção. Em seu primeiro ano de governo, defenestrou seis ministros e vários detenterores de posições importantes no segundo escalão. Ao contrário de Lula, defensor empedernido de todos os anjos caídos da República, Dilma não foi além das declarações protocolares em todos os casos que se apresentaram — à exceção de um deles, o que envolve seu amigo Fernando Pimentel.

Desta forma, operando com o passivo, conseguiu algo que em outros tempos (recentes) soaria impossível: se não promoveu uma faxina ética, ao menos logrou sanear sua equipe em (quase) todas as oportunidade que se apresentaram. Não pode ser “acusada” de ter movido uma caça às bruxas, mas efetivamente cortou a cabeça de algumas feiticeiras que a ocasião desnudou. Ao final, lucrou com isso — ou em parte por isso — um patamar de popularidade inédito na história, o que não é pouca coisa.

Quanto custaria ao Planalto assumir uma atitude de interferência ativa nesse processo? Embora não exista uma resposta clara, basta recorrer ao passado recente para se ter uma ideia do que poderia estar acontecendo neste momento de preparação para a guerra que se avizinha. O PMDB, para citar um único caso, jamais se prestou a qualquer tarefa por patriotismo ou altruísmo. As faturas são elevadíssimas e só fazem retroalimentar a máquina de produzir denúncias e ilegalidades.

De acordo com a cultura política contemporânea, quanto pior a situação do governo, melhor a de seu principal aliado. O PMDB sempre aproveitou bem todas as ocasiões que lhe permitiram atuar como um advogado criminalista diante de um réu preso: quanto mais grave o crime e mais sólidas as provas, maiores os honorários, mais drásticas as condições de pagamento.

Desta vez, a persistir o aparente absenteísmo, Dilma vai obrigar os mercenários do PMDB a agir por voluntarismo. Sem honorários, sem conta a pagar.  Quanto vale isso? Que o diga o governador Jaques Wagner: “não tem preço”!

Por último, há uma vantagem residual que pode antecipar uma luta interna do Partido dos Trabalhadores tendo em vista o pleito de 2014. Luta que, diga-se de passagem, foi deflagrada pelo ódio visceral com que Lula tem se movimentado como protagonista da cena da CPI do Cachoeira. Na iminência de ter sua versão sobre a inexistência do Mensalão desmascarada pelo STF, vendo seu mito ser implodido pelas ações silenciosas de sua própria criatura, antevendo o momento em que terá de confrontar a possibilidade de Dilma reivindicar para si o direito de disputar com ele a legenda para a próxima eleição presidencial, mais do que incomodado, Lula parece colérico e estabanado. Foi-se a racionalidade. O ex-presidente hoje merece a imagem caricata de um hipopótamos em loja de louça. Os cacos já estão visíveis: que o diga Agnelo Queiroz, obrigado a purgar solitariamente o inferno de suas próprias contradições.

Muitos dirão que esta é uma análise simplista e reducionista porque o governo simplesmente não atua desta forma. Mas parece evidente que, ao adotar uma postura passiva, Dilma Rousseff  não está abdicando do direito ou do dever de interagir com o processo político. Ao contrário: o lucro pode ser enorme. Deixar a cachoeira correr, evitar o represamento do dique dos negócios da jogatina e de suas implicações políticas deletérias, mais do que proveitoso, pode ser sinal de inteligência.

Déjà-vu: Como será o Brasil da CPI do Cachoeira daqui a cinco anos

O Senador Demóstenes Torres, cassado pelo Senado em 2012 por suas evidentes ligações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, disse, em seu blog, que  o STF não deve ter pressa para julgar os crimes a ele imputados. Atuando como consultor de empresas, Demótenes mantém um escritório na suíte de um hotel em Brasília onde recebe todos os dias ministros de Estado, presidentes de estatais e líderes de partidos da base aliada.

Demóstenes mantém um blog na internet cujos artigos são reproduzidos por vários sites de notícias e análises políticas. Na semana passada, foi recepcionado por um blogueiro para um jantar num apartamento em Higienópolis, bairro que no passado ficou conhecido por ter “gente diferenciada”, que recusa estações do metrô para evitar o afluxo de pobres. Discutiu-se de que maneira a chamada “blogosfera progressista”, que atua na defesa aguerrida do “aecismo”, movimento popular de cunho personalista criado em torno da figura do Presidente Aécio Neves, deve se engajar na luta para melar o Cachoeirão.

O blogueiro que recebeu Demóstenes no último domingo é patrocinado por empresas estatais como a Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e PETROBRAS. Depois de cinco anos da vigência da Lei de Acesso à Informação, o Blog do Pannunzio ainda não conseguiu saber qual o valor dos contratos do Conversa Afiada. A lei foi assinada em novembro de 2011 pela então presidente Dilma Rousseff.

No Congresso, o PT, principal legenda da oposição, tenta articular um CPI para investigar a relação de Demóstenes Torres  com a empreiteira Delta, que o contratou para uma consultoria por R$ 20 mil. Depois disso, os negócios de Fernando Cavendish com o governo tucano se multiplicaram por 20. Hoje, ele é o principal empreiteiro do CAP, o Conjunto de Ações Propostas, sucessor do PAC dos tempos do lulopetismo. Como seu antecessor, o CAP é um aglomerado de propostas eleitoreiras, que engatinham e se arrastam, sem outro efeito que não o de cabalar votos.

O Presidente Aécio afirmou que não vai se meter com o problema. “CPI é assunto do Congresso e eu respeito o Parlamento brasileiro”, disse ele ao regressar da Cúpula das Américas, que aconteceu em Havana, capital de Cuba. Aécio também não quis se manifestar sobre as pressões populares para que o Supremo ponha em pauta o Mensalão. A maior parte das penas já está prescrita. Apesar disso, os ministro Levandowski e Marco Aurélio de Mello dizem que só vão entregar seus votos quando tiverem concluído o trabalho de análise da documentação, que soma mais de 50 mil páginas.

Dilma, que domesticou os bancos, ainda precisa dizer a que veio ao Congresso

Parecia uma dessas promessas que todo político faz quando Dilma Rousseff defendeu , ao longo da campanha que a elegeu Presidente da República, que iria reduzir os juros. Não apenas consegui reduzí-los, como ainda logrou dobrar o ânimo recalcitrante da banca privada, com seus históricos spreads de agiota.

A atuação do Banco Central e a disposição reiterada da Presidente colocaram fim a uma era em que tudo o que se dizia sobre o preço do dinheiro no Brasil era balela. Os anos Lula foram pródigos em demonstrar a ausência de disposição do governo para enfrentar o problema. Havia uma dicotomia clara entre o discurso do vice-presidente José Alencar, crítico contumaz da agiotagem, a retórica do Planalto e a prática do governo. Os bancos venciam sempre. E o governo tergiversava, transformando a causa de Alencar em uma romântica e solitária batalha quixotesca.

Ao cumprir o que prometeu, Dilma Rousseff, antes criticada pelos porta-vozes do sistema financeiro pela instrumentalização “política” do Banco Central, demonstra que o governo tem poder efetivo para transformar a conjuntura, a despeito da reatividade de agentes que sempre encontraram nos gabinetes de Brasília governantes dóceis em excesso, amáveis demais e, muitas vezes, servis. A Presidente fez um golaço ao retirar o Brasil do topo do ranking internacional dos juros pornográficos.

Falta agora atuar de maneira mais enfática no que diz respeito à moralização das relações entre o governo e o Congresso. É aí, como reiteram os escândalos políticos que têm assomado às manchetes, que reside a gênese dos principais problemas brasileiros, ameaçando inclusive a governabilidade. Para quem domesticou os bancos privados, esta não parece ser uma tarefa impossível.

O Palácio do Planalto dá sinais de que atua com foco nessa questão. É notável, por exemplo, a diferença entre as práticas de cooptação do governo Lula e a atuação pontual saneadora que vem sendo efetivada diante dos descalabros que à opinião pública são dados a conhecer. Sempre que surgia um novo escândalo, Lula vociferava contra a “imprensa golpista” que insistia em solapar sua obra messiânica. Proteger anjos caídos, blindá-los de todas as formas, consumiu muita energia nos últimos oito anos.

Logo no início do governo, Lula deixou claro como agiria quando um auxiliar aparecesse enredado em problemas com a Justiça. Para blindar Henrique Meirelles, por exemplo, o então presidente não titubeou em editar uma medida provisória elevando o status do presidente do Banco Central ao de ministro de Estado. Livrou-o de ter que responder a um processo na justiça comum e permitiu que ele governasse a economia e defendesse a moeda sem ter que se incomodar com juízes de primeira instância.

Para defender as hordas de aloprados que se sucederam nas manchetes escandalosas, Lula optou  por meter-se na trincheira dos denunciados. Quando teve a chance de livrar o País da ascendência deletéria de José Saney, na chamada crise dos Atos Secretos, preferiu destroçar Aloysio Mercadante, o líder do governo que, desmoralizado pelo Planalto,  até hoje paga por uma renúncia que não teve coragem de honrar. E comandou pessoalmente uma árdua batalha para salvar Renan Calheiros da degola no arrasto da crise aberta com a revelação de que utilizava um lobista para pagar a pensão alimentícia da jornalista Mônica Velloso.

Com Dilma Rousseff, é notória a guinada no enfrentamento desse tipo de situação. Ela já se livrou de sete auxiliares que tiveram seus pecados expostos nas páginas dos jornais. Enfrentou — ainda enfrenta — a insurreição do pernicioso fisiologismo parlamentar, que até aqui era visto com naturalidade na cena política brasileira. Foi criticada como inábil, inexperiente, avessa à “negociação” política quando tentava disciplinar minimamente a seara em que a articulação parlamentar acontece.

Idiossincraticamente, manteve intacta a máquina poderosa das nomeações de apadrinhados dos partidos da base congressual, as “fábricas de dinheiro” nominadas por Roberto Jefferson ao denunciar o Mensalão. E protegeu — ainda protege — amigos como Fernando Pimentel, acossado por denúncias de que recebeu muito dinheiro sem prestar qualquer tipo de serviço como contrapartida. Contra ela, pode-se de dizer também que menosprezou recomendações da Comissão de Ética Pública na crise que envolveu Carlos Luppi. Mas deve-se lembrar que o então ministro do Trabalho acabou defenestrado pelo governo semanas mais tarde.

É preciso ainda ressaltar que a Presidente Dilma Rousseff criou um instrumento ímpar na história da democracia brasileira, capaz de lançar luz sobre aquilo que a burocracia e as conveniências pretendem manter longe dos olhos da opinião pública: a Lei da Transparência, que passa a vigorar a partir de 16 de maio. Ela obriga o governo a prestar todo tipo de informação não catalogada como secreta ou sigilosa mediante simples requerimento de qualquer cidadão. É verdade que há uma enorme má-vontade de empresas como o Banco do Brasil e a PETROBRAS, cujas caixas-pretas ainda inexpugnáveis resistem incólumes aos novos princípios irradiados pela Lei 12.527/11.

A despeito de todos os problemas residuais, a presidente já percebeu as vantagens que decorrem do enfrentamento da questão moral. Não é por acaso que sua popularidade suplantou o patamar do mito Lula em fase análoga de seu primeiro governo, mesmo com a economia estagnada. Parece uma tarefa perfeitamente factível para quem conseguiu enfrentar a banca, que há 40 anos não encontrava obstáculos no governo.

Mas uma coisa é corrigir vícios alheios com instrumentos poderosos como os dos gestores da política monetária. Outra, muito mais complexa, é vencer vícios internos tão  arraigados —  a ponto de terem criado uma cultura que admite a corrupção não apenas como meio e fim, mas sobretudo  como estratégia de sobrevivência política.

O grande teste começa agora, com a abertura da Caixa de Pandora da CPI do Cachoeira.

Pobre Brasília. O grotão é logo ali.

Não há nada mais irritante para um brasiliense, nativo ou por adoção, do que a afirmação de que a Capital da República é um covil de  ladrões. A cidade hoje tem quase dois milhões de habitantes, em sua esmagadora maioria constituídos por gente honesta, trabalhadora e indignada com os desvãos da política.

O estigma da ladroagem começou a “pegar” em Brasília — e a ser transportado indevidamente para a população em geral — ainda na construção da nova capital. Desde então, tem-se Brasília como um reduto da bandidagem de colarinho branco. Ampliou-se durante o curto governo Collor. Mas nunca chegou a se justificar tanto quanto na Era Lula, cujas práticas de cooptação de apoios contaminaram  20% dos congressistas que os eleitores brasileiros mandam para lá.

Enquanto a qualidade das relações entre o Executivo e o Legislativo federais se degradava por práticas como o Mensalão, degradava-se igualmente a qualidade da representação local. Os dois processos de desqualificação da política — nos âmbitos local e da representação federal — não têm relação imediata de causa e efeito, mas têm determinantes culturais análogos. Ou seja: um não determina o outro, mas ambos partem dos mesmos paradigmas.

A máquina administrativa do Distrito Federal começou a se transformar num ninho de predadores assim que Cristovam Buarque (PT) deixou o Palácio das Águas Claras. Joaquim Roriz, o último governador biônico do DF, voltou a governar Brasília pelo voto popular. Foi ele quem criou os esquemas de amealhar propina que perduram até hoje no primeiro escalão do Governo do Distrito Federal.

Roriz passou pelo vexame de ter que renunciar para não ser cassado dias depois de ter sido empossado senador. Foi impedido de disputar a última eleição estadual por estar incurso na Lei da Ficha Limpa. Nomeou a mulher para representá-lo. Felizmente, a manobra não deu certo. A capital acabava de viver a agonia traumática do governo José Roberto Arruda, expelido de seu gabinete diretamente para  uma cela na Polícia Federal.

A Câmara Distrital aderiu em massa ao balcão em que se transformaram os negócios da administração pública. O show de horrores da corrupção foi para o horário nobre da televisão e se materializou nas cenas pornográficas da distribuição de suborno pelo ex-secretário Durval Barbosa.

Agnelo Queiroz, o atual governador, se apresentou para a população como um contraponto à desmoralização da administração local. Ganhou a eleição prometendo nomear apenas “fichas limpas”. O discurso, no entanto, não guardava coerência com o comportamento do hoje governador, que já vinha sendo denunciado por descalabros no primeiro escalão da República. Dois anos mais tarde, em outubro passado, eles determinariam a demissão de Orlando Silva do Ministério do Esporte, órgão do qual foi secretário-executivo durante a gestão Agnelo.

A passagem de Agnelo pela ANVISA também não o recomendava. No rastro de sua história, começaram a surgir denúncias cabeludas, como a do pagamento de propina pelo lobista de um laboratório farmacêutico. O governador construiu uma versão na qual nem ele mesmo acredita: teria emprestado R$ 5 mil ao lobista, que antes negara conhecer.

O eleitor consciente da Capital da República ficou em um autêntico beco sem saída no segundo turno das últimas eleições. Era Agnelo ou Weslian Roriz. A ausência de alternativa foi abordada por este blog em artigo intitulado Em Brasília, é melhor anular o voto do que coonestar o baixo nível da campanha, pubicado em 23 de outubro de 2010. O post propunha ao eleitor votar nulo por absoluta falta de perspectivas entre os candidatos disponíveis.

O texto trazia uma predição lógica. Afirmava que “quando o pesadelo recomeçar, porque é certo que recomece, o eleitor que tenha anulado seu voto poderá ao menos dizer com orgulho que não delegou a ninguém o direito de lhe roubarem”.  Dito e feito. Aí está Agnelo novamente enredado na ribalta dos escândalos políticos, agora por supostas ligações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e a empreiteira Delta, que cuida do lixo na cidade.

Não se conhecem ainda a profundidade nem a extensão dos comprometimentos do governo Agnelo Queirós com a máquina de corromper da jogatina goiana. Mas os elos estão aí — e as negativas novamente começam a soar como desculpas esfarrapadas de um governo acuado por suas próprias contradições. Já chegaram à antessala do governador. É possível que logo atravessem  a porta de seu gabinete.

A saga dos brasilienses não aconteceu por acaso. As hordas que se sucederam no GDF foram eleitas diretamente pelo voto livre da maioria da população. Mas muito do que está acontecendo deve ser debitado ao escopo reduzido de alternativas eleitorais eticamente  sustentáveis apresentado pelos partidos políticos. Foram eles, mais do que os eleitores, que transformaram a Capital da República num dos grotões mais atrasados e retrógrados da política brasileira.

Para quem seguiu o conselho do blog, resta sempre a justificativa moral de dizer que, ao anular o voto, não delegou a ninguém o direito de lhe roubar.

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