Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

Archive for the category “Especial Ditadura”

Uma história triste e duas versões conflitantes: a do jornalismo e a da História

Vi muitas coisas estranhas, tristes e constrangedoras lendo os Arquivos Digitais da Revista Veja dos anos 60 e 70. Mas nada parecido com o que vocês vão ler abaixo.

Aqui, não se trata de fulanizar a crítica, voltando a responsabilizar o editor da publicação na primeira metade dos anos 70, o jornalista Mino Carta, pelo alinhamento da publicação com o regime militar. Esse atrelamento ficou bem descrito e demonstrado nos posts anteriores que compõem a série Especial Ditadura. Como esses posts já foram igualmente objeto de critica e de uma explicação do editor, darei agora um passo adiante.

Passo a contar duas histórias muito diferentes acerca de um mesmo personagem que teve um fim trágico, o militante da VPR Massafumi Yoshinaga, jovem guerrilheiro que virou uma espécie de prenda involuntária do regime militar à custa de muita humilhação e torturas. Uma pertence ao campo do jornalismo. Outra, ao da História.

Em 15 de julho de 1970, o rosto desse jovem foi exibido na capa de Veja ao lado da manchete “Terror Renegado”, reproduzida no alto desta página.

A reportagem foi apresentada em editorial assinado por Mino com a seguinte justificativa: “alguns moços, ex-integrantes de bandos terroristas, descobriam e declaravam que o caminho da subversão não leva ninguém a nada”.

A reportagem, que começa na página 16, recebeu o título “Autocrítica do Terror”. Começa descrevendo a alegria do ditador Médici com as menções elogiosas do ex-militante da VPR à Transamazônica, a suas incursões pelo Nordeste e à extensão do mar territorial brasileiro para 200 milhas.

Detalhe da reportagem de capa: a prenda e o júbilo do regime

“À primeira vista, seria apenas a satisfação do comandante supremo da Revolução, e portanto o mais alto responsável pelo combate à subversão, pelo arrependimento de um jovem inimigo do regime, de repente ressurgido à razão pelos acertos do próprio governo que combatia”, diz o texto da crédula reportagem.

A revista não atentou para o fato de que não fazia sentido, naquele momento da história, que um ex-guerrilho, sob custódia dos militares, tecesse loas às obras do “Brasil Grande”. A exposição de seu rosto na capa era a foto de um troféu que a ditadura obteve com suas maquininhas de provocar arrependimento de alta voltagem — e os socos e pontapés com que os jagunços dos quartéis e da polícia costumavam brindar quem se insurgia contra o regime.

O curioso é que a semana anterior havia sido pródiga em arrependimentos públicos de presos políticos. Que o diga o jornalista Celso Lungaretti, outra prenda colocada na mesma cesta servida pela ditadura à opinião pública por intermédio de Veja. Traído pelos próprios companheiros, foi obrigado a exortar os jovens brasileiros a não se deixarem seduzir pela impaciência na luta em prol das reformas — e a apoiar os projetos do governo de então. “O Brasil ingressa num período durante o qual as conquistas nacionais vão, pouco a pouco, se afirmando, abrindo para a Nação um caminho de esperanças”. Ninguém desconfiou que essa frase soava estranho na boca de um ex-guerrilheiro.

Lungaretti consumiu 34 anos de sua vida para se reabilitar. Só conseguiu isso em 2004, depois de lançar o livro “Náufragos da Utopia”. Logrou resistir ao patrulhamento e à perseguição implacável, primeiro do regime, depois dos ex-companheiros que falsamente lhe atribuíram a denúncia de um campo de treinamento da VAR-Palmares.

Um amigo seriíssimo, pautado por sua revista para a apresentação dos “arrependidos”, se lembra muito bem do dia em que os “terroristas” concederam a estranha entrevista na sede do Segundo Exército. “Minha impressão era a de que haviam feito uma lavagem cerebral com eles”, relembra o repórter 42 anos depois. “Eles pareciam dopados”.

Com sua morte precoce, ocorrida de maneira trágica seis anos depois, Massafumi entrou para o rol dos renegados e esquecidos até ser resgatado por Pérsio Arida. Ele escreveu um lindo artigo para a edição 55 da Revista Piauí contando o que, salvo dentro de seu ambiente familiar, pouca gente sabia: seu envolvimento com a VPR aos 18 anos de idade.

Arida revelou que participou de um único ato “revolucionário” — a colocação de uma faixa na boca do Tunel da Avenida 9 de Julho, em São Paulo, com um bordão contra os patrões e o capitalismo. Caçado como um terrorista de alta periculosidade, escondeu-se numa garçonnière que o pai mantinha em conjunto com um amigo.

Antes desse ato, por uma única noite, abrigou um militante a pedido de sua organização. Era Massafumi. Pérsio Arida descreve assim o encontro de ambos:

“Foi-me pedido que desse guarida, por uma noite apenas, a um homem da pesada, procurado. Era um revolucionário de verdade, que andava armado e fazia ações revolucionárias. Concordei relutantemente – uma noite apenas, ele tem que ir embora no dia seguinte pela manhã, bem cedo, antes das empregadas ou meus pais acordarem.

Ele chegou na hora combinada e entrou na casa rapidamente, como que fugindo de uma perseguição. Para minha surpresa, estava visivelmente amedrontado. Não largava a arma. Um nissei mirrado e com rosto de criança, nervoso e inseguro, completamente diferente dos revolucionários de verdade que imaginava existirem. Temeroso de qualquer envolvimento maior, expliquei onde eram o banheiro e a cozinha, dei boa-noite e foi só”.

O próximo encontro entre ambos ocorreu nas instalações da OBAN e é descrito desta forma na entrevista à Piauí:

Todos fomos reunidos sem aviso no pátio para ouvirmos a preleção de dois ex-terroristas. Por um instante sequer entendi a expressão – se haviam sido presos, eram ex-terroristas por definição. Outro, no entanto, era o significado – eram terroristas arrependidos.

Massafumi Yoshinaga, disse um dos militares. Um patriota que se arrependeu dos assaltos a bancos e da guerrilha. Ele, que conhece o terror por dentro, quer transmitir a vocês uma mensagem importantíssima. Ouçam e meditem. É um pregador que presta um serviço à pátria, alertando a juventude brasileira para os riscos do comunismo e as ilusões da luta revolucionária.

Fiquei branco. Era o nissei da pesada que se hospedara na minha casa. Estava exatamente na minha frente. Impossível que não me tivesse reconhecido”.

Pérsio Arida temia que o japonês arrependido o delatasse. Conseguira ler trechos de um relatório policial que estava sobre a mesa de um delegado. E conduzira suas respostas aos interrogatórios para a confirmação de informações que os militares já conheciam. Até então, havia sido bem-sucedido em sua estratégia de dissimulação . Diante da troca de olhares com Massafumi, passou a esperar o pior:

“Passei aquela noite em claro, esperando o momento em que fossem me chamar para uma sessão de torturas, de vingança. Havia escondido um terrorista em minha casa, portanto era cúmplice do terror, e não havia dito nada sobre o nissei no meu depoimento. Os caras iriam me bater para saber quem mais se escondera na minha casa.

O dia raiou, mais um dia inteiro se passou e outro e outro. Nada. Reinterpretei a situação: Massafumi Yoshinaga deve ter sido barbaramente torturado, pensei, faz esse papel de arrependido só para se livrar dos suplícios. É tudo fingimento. Por isso não me denunciou, por isso não nos permitiram conversar com ele a sós. Aquele discurso tinha sido um vexame público, vergüenza ajena, expressão concisa e intraduzível do espanhol, mas nada além de um vexame, uma estratégia de sobrevivência”.

Arida ainda se depararia com Massafumi duas outras vezes. Foram encontros indiretos, por intermédio das páginas de veíuclos da chamada grande imprensa.

“Um dia encontrei, largada num canto e amarelada pelo passar do tempo, uma Veja com Massafumi Yoshinaga na capa e o título “O terror renegado”. A reportagem contava que o presidente Emílio Garrastazu Médici expressara, em audiência com dirigentes da Ordem dos Advogados do Brasil, sua satisfação com o depoimento público e espontâneo do ex-terrorista. (…)

Li depois num jornal que terminou se suicidando. Suicídio de vergonha, de culpa e arrependimento, haraquiri de uma alma que não encontrava mais lugar neste mundo. Terrível como todo suicídio. Mas quem chora a morte de um traidor? Da minha parte, prefiro guardar dele apenas a memória daquele encontro furtivo de olhos no qual, mesmo tendo me reconhecido, nada revelou ao militar que com tanto orgulho o apresentou como um verdadeiro patriota”.

Eis o que aconteceu a Massafumi Yoshinaga. Seis anos depois, devastado pela vergonha e pela depressão, pôs fim à própria vida após duas tentativas de suicídio malsucedidas. As declarações públicas de arrependimento, que segundo Veja causaram tanto júbilo ao governo militar, foram obtidas mediante a utilização dos mais cruéis e abjetos métodos de tortura. Deixaram nele uma ferida profunda e mortal, algo como um cancer que vai fincando tentáculos em todos os tecidos e órgãos para, ao final, matar o hospedeiro. A vergonha pela falsa confissão do arrependimento que não lhe restituiu a vida — apenas adiou a morte por alguns anos de muito sofrimento.

É impossível saber quanto o relato de Veja, que mimetizava a grande conquista do regime, teve responsabilidade sobre o quadro mental que se instalou no ex-guerrilheiro arrependido. Mas pode-se imaginar o estrago que essa exposição provocava à época.  Afinal, que espaço vital teria restado ao militante Massafumi Yoshinaga depois de ser apresentado ao País como um dos trunfos do regime dos quartéis, um caso de conversão quase religiosa ?

Ao forjar um depoimento público para se livrar das sevícias e do suplício, não restou a Massafumi alternativa a não ser, como na letra de Cazuza, encontrar abrigo no peito de seu traidor. Apesar de ter tido sua pena anulada, o ex-guerrilheiro permaneceu em poder dos torturadores — não mais porque representasse uma ameaça ao regime, e sim para protegê-lo da sanha do justiçamento dos próprios ex-companheiros no tribunal sumário da insurreição.Apanhando da direita, perseguido pela esquerda, envergonhado pelo que fora forçado a fazer, o ex-militante buscou no suicídio a redenção de uma honra aviltada pelas sevícias morais e físicas que lhe haviam sido impostas.

Outros tiveram altivez para enfrentar o legado daquela execração. Aí está o combativo Celso Lungaretti como testemunha das dores provocadas primeiro pelas pancadas, depois pela estigmatização e patrulhamento, que entregou metade de sua vida à busca da reabilitação moral — porque delatar companheiros é uma acusação que se inscreve mais no campo da moral do que no pragmatismo da política e da ideologia, onde produz seus efeitos.

Entre o relato comprometido de Veja, o suicídio de Massafumi Yoshinaga e o testemunho de Pérsio Arida há uma larga zona de fronteira que separa o jornalismo da História. A visão míope do jornalista está conformada pelo pensamento hegemônico que determina a linha editorial. A História, muito mais ampla, repõe, com elementos de lucidez ausentes na interpretação parcial e apressada dos fatos transformados em notícia, algo que se aproxima da verdade. É o caso da desventura narrada neste post.

Como se vê, entre a verdade cristalizada num fotograma da factualidade política e o filme todo da História há uma distinção abissal. A profundidade desse abismo pode ser depreendida da releitura dos textos produzidos à época.  Este blog, que não descontextualiza declarações para construir a crítica, tem como política fornecer a íntegra dos  originais referidos para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões. Para os que quiserem se dar ao trabalho de fazer esse exercício de prospecção, reproduzo abaixo a íntegra da reportagem de Veja. O download do material em formato PDF pode ser feito aqui.

O artigo de Pérsio Arida pode ser lido diretamente no site da Revista Piauí. Para chegar a ele, basta clicar aqui.

 

 

 

 

Calúnia X Calúnia

Por Lúcio Flávio Pinto, em Cartas da Amazônia

“Em outro país, um jornalista com o meu passado não sofreria as calúnias”, lamenta-se Mino Carta na última edição da sua revista Carta Capital, respondendo aos ataques de que se declara vítima por parte dos jornalistas Fábio Pannunzio, Demétrio Magnolli e Reinaldo Azevedo.

A polêmica entre os três jornalistas e Mino está acesa e já tem bastante protagonista para dispensar minha participação. Mas esse lamento e o que Mino disse para justificar a invocação do seu nome como escudo motivam meu aparte na discussão.

Não há dúvida que o passado de Mino Carta garante sua inclusão na história do jornalismo brasileiro. Ele tem sido um dos melhores criadores de publicações da imprensa nacional. Há sua assinatura em produtos como a Edição de Esportes e o Jornal da Tarde, de O Estado de S. PauloVejaIstoé e a própria Carta Capital.

Excetuada a edição esportiva do Estadão, as outras criaturas forjadas em papel continuam em plena circulação. Atestam a capacidade do criador, apesar de seus eventuais escorregões, como no malfadado Jornal da República.

Nem por isso o seu passado é uma barragem intransponível pelas críticas ou um elemento mágico, capaz de transmudar de pronto restrições feitas a ele em calúnias prontas e acabadas. A história de Mino Carta o expõe e sujeita a essas críticas.

Ele é tão ciente desses flancos que uma de suas obsessivas preocupações é refazer e retocar a própria história, obra em permanente processo. Talvez acredite que tomando a iniciativa inibe os demais de se lançar sobre o seu passado. Confere-se direitos autorais plenipotenciários sobre si, sem contemplação, sem qualquer alternativa.

Mino Carta exige respeito ao seu passado enquanto viola o passado dos outros. Numa das suas frases mais infelizes, desafia seus caluniadores a se manifestarem “a respeito de quem na mídia brasileira se perfilava illo tempore ao lado da ditadura. Ou seja, quase todos”.

Enquanto quase todos se submetiam à ditadura, Mino Carta era o guerreiro quase solitário a enfrentar os censores e outros avatares, mantendo sua trincheira inexpugnável contra os ataques das feras. Mal informados sobre esse passado, as pessoas de hoje acham “que a censura foi ampla, geral e irrestrita”, quando, na verdade, foi facilitada pela subserviência de quase todos os jornalistas.

Muito menas verdade, doutor Mino.

Não é verdade que o retumbante fracasso da edição inaugural de Veja, datada de 11 de setembro de 1968, tenha derivado da sua capa, com a foice e o martelo do comunismo em negro sobre fundo vermelho, que “já irritou os fardados”. O subtítulo da matéria de capa foi “o grande duelo no mundo comunista”. Cabia como luva em qualquer publicação financiada nessa época pela CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos no embalo da guerra fria (para maiores informações, leia-se o livro “Quem pagou a conta?”).

Os leitores menos atentos imaginaram tratar-se de publicação ideológica inspirada pelo USIS (mas não abusis), o serviço de informação de Tio Sam, generoso e abundante. O texto da reportagem não ajudava a desfazer essa impressão. Resultado: encalhe de quase toda a edição. O mundo ainda vivia sob o halo da revolução dos joven. Foi preciso “refundar” a revista, conforme hoje se diz.

Prima dois anos mais velha do novo magazine, a mensal Realidade não conseguiu essa façanha. Lançada em 1966 pela mesma Editora Abril, a revista foi numa escalada de sucesso — de público e de crítica — quando baixou a tumba da liberdade, o AI-5, em 13 de dezembro de 1968. A cabeça deRealidade, esta, sim, muito irritante aos centuriões do poder, foi oferecida na bandeja ao regime.

Veja prosseguiu e sobreviveu: uma concessão ali, um avanço acolá, jeitinho num dia, sujeição no outro, conforme foi possível e permitiam as negociações de bastidores entre alguns personagens menos teratológicos do poder militar e atores mais hábeis do poder desarmado. Mas não só Mino, grande jornalista que nunca foi ao front, mantendo-se sempre na estratégica e lúcida retaguarda. Outros interlocutores também contornaram impasses que salvaram Veja e sacrificaram Realidade.

Ser personagem dessas tratativas ocultas em nada favoreceu Mino na reconstituição dos fatos, muito pelo contrário. Ele é o herói impoluto em todos os momentos, que podem ser traçados conforme um AM e DM (antes e depois de Mino). Após sua passagem, um território arrasado. Com ele, seguiram as joias da coroa para a nova empreitada. Depois dele, a desolação.

É com esse enredo que lega aos mais novos, que acorrem desinformados às suas brilhantes palestras, sua passagem pelo jornal que só não foi mais influente ao longo da república brasileira do que o carioca Correio da Manhã. Vítima dos facínoras do poder armado e de uma esquerda inconsequente, o Correio chegou melancolicamente, em 1974, ao fim da trajetória marcante iniciada em 1901,.

Mino Carta tem a coragem de afirmar no seu artigo que o Estadão, primeiro, e o Jornal da Tarde, em seguida (quase que por efeito gravitacional), foram punidos pelo governo militar com a censura na redação como resultado “de uma briga em família. O jornal apoiara o golpe, mas sonhava com a devolução do poder a um civil, desde que se chamasse Carlos Lacerda”.

Essa fantasia tem o propósito de revelar ao distinto público que resistência à censura — heroica e digna — foi a de Veja, sob a batuta de Mino; porque a do Estadão, de onde ele já saíra, por rompante de indignação, era motivada por interesses menores — e nada republicanos, como hoje também se diz.

Novamente não é verdade. O grande conspirador foi Júlio Mesquita Filho, que se tornou um autêntico revolucionário (ou contrarrevolucionário, as expressões são utilitárias no Brasil), impulsionado pelo ódio a Getúlio Vargas, sentimento partilhado por seu amigo e ídolo Carlos Lacerda. É bem provável que o “doutor Julinho” tenha escrito o editorial “Instituições em frangalhos”, através do qual reagiu com todo vigor ao AI-5, provocando a censura ao jornal, com esperanças ainda em Lacerda.

Mas logo depois ele morreu (em 12 de julho de 1969) e quem o substituiu foi o filho mais velho, Júlio Mesquita Neto, e não aquele que se achava mais preparado para assumir a condução editorial do porta-voz da plutocracia paulista. Foi Ruy Mesquita quem seguiu a filiação do pai a Lacerda, mesmo depois que o ex-governador carioca foi cassado, sua Frente Ampla não deu certo e ele só saiu do arquivo morto para dar um memorável Testemunho a repórteres do Jornal da Tarde, o vespertino que restou a Ruy (o livro, publicado em 1978, é lido com proveito mesmo por quem detesta Lacerda).

Júlio Neto não partilhou essas ideias. Ciente de que a sucessão, se tivesse que seguir a lógica da história e não a cronologia da família, caberia ao irmão mais novo, fopi atrás da própria biografia. Enfrentou a censura como nenhum outro dono de jornal a partir do AI-5. Com seu apoio e, às vezes, o seu estímulo, dezenas de jornalistas em todo país reagiram não só à censura na redação, mas ao próprio regime pelo país afora. Com coragem, alto espírito público e refinado profissionalismo. Sem nunca vergar a coluna. Sem salamaleques com os tiranos do dia ou do local. Sem papos de Settembrini com Naphta, como em A Montanha Mágica, de Thomas Mann

É a eles todos (em nome dos quais homenageio um dos maiores de todos, Raul Martins Bastos) que Mino Carta ofende com mais uma das suas frases espirituosas e falsas. Tão falsa quando ele intitular o primeiro Mesquita como o fundador do Estadão. Uma simples consulta o levaria a verificar que Júlio Mesquita só assumiu a direção do jornal, ao qual chegara dois anos antes, levado pelas mãos do sogro (e pelo capital do pai), 16 anos depois da fundação da então A Província de São Paulo, em 1875.

Calúnia paga com calúnia não é jornalismo, doutor Mino. Não é nada.

Agradecimento

Agradeço aos leitores Big Head e Jotavê, que prontamente atenderam ao desafio do Blog e produziram  resenhas sobre as edições de Veja nominadas por Mino Carta com o propósito de demonstrar que não houve atrelamento da revista sob sua supervisão ao governo Médici. Os texto estão disponíveis para a consulta e a crítica na página principal do blog.

As conclusões de ambos, como eu previa, divergem frontalmente. Nelas estão contidos elementos de crítica e informação que certamente irão contribuir para ampliar a abordagem do que se passou na imprensa no ambiente tenso dos anos 60/70.

Louvo a iniciativa e o trabalho que ambos tiveram. Certamente deram uma grande contribuição,ampliando o horizonte da disucssão.

A vocês dois, muito obrigado.

Desafio ao leitor II: A reencarnação do servilismo, pelo leitor Big Head

Resenha produzida pelo leitor Big Head sobre as edições de Veja que Mino Carta cita para provar que não houve atrelamento da revista aos governos militares.

Crescimento econômico alicerçado na explosão do consumo e na fartura do crédito.

 Copa do Mundo.

 Críticas virulentas à imprensa por parte do governo.Anestesia ufanista.

Pra frente, Brasil!

Quem reclama “se volta contra sua pátria, na estratégia do quanto pior melhor”, diz o presidente.

 “Mino, o chefe quer uma imprensa livre, mas com responsabilidade” – diz um assessor.

Não, não estou a falar sobre os tempos lulistas. Retrocedam, por favor. Mais precisamente até a década de 70. O chefe do proto-Franklin Martins que proferiu traiçoeira frase acima deu nome a um dos bois cantados pelos Titãs, quase vinte anos depois: Emílio Garrastazu Médici.

“Veja não receia cometer um grande engano ao acreditar que não se trata de limitação alguma, mas apenas justa referência, de oportuno lembrete, de um generoso pedido de colaboração – a imprensa não pode e não deve esquecer suas responsabilidades” – aquiesceu o editor de Veja.

Qualquer semelhança entre este diálogo e o discurso que hoje sai da boca dos apoiadores do controle “social” da imprensa não é mera coincidência.    

Corte para hoje.

Consumismo insuflado e crédito expandido são os pilares da economia.  

Copa do Mundo e Olimpíadas.

Ataques à imprensa, que teria se juntado à zelite para tramar um golpe contra o Governo Operário e seu projeto de Brasil Gigante.

Torpor patriótico.

Nunca-antes-na-história-deste-país!

Quem critica o governo é direitista, reacionário, entreguista, elitista, fascista, preconceituoso, anti-isso, anti-aquilo.

Mais uma vez, de que lado está o Mino?

Com a comprovação de que sua sabujice atual remonta ao século passado, vitimizando-se, aponta a capa da edição número 1 da revista como prova de não alinhamento. Por exibir uma foice e um martelo? Não julguemos um livro pela capa. Lá dentro apenas uma reportagem descrevendo as fissuras do monólito comunista, como se isso não fosse do conhecimento geral pelo menos desde Kruschev, mais de uma década atrás. A propósito, por que isso incomodaria os milicos?

Ah, mas tem a corajosa edição de nº 66, recheada de denúncias! Como é que é? Como bem reconhece a reportagem, os rumores sobre tortura no Governo Médici – talvez o mais emblemático representante da ditadura – já ultrapassavam o sussurro das alcovas e partiam de todos os lados, órgãos da imprensa e da sociedade civil. O servilismo altivo de Mino Carta entrou no debate mais para abrir as páginas da revista para a versão governista e, obliquamente, rebater a tese de que a prática estaria institucionalizada, não passando de desvios pontuais e indesejáveis, que seriam combatidos pelo Governo Revolucionário (sic).

“A tortura constitui uma prática intolerável pelos homens de bem do mundo moderno”, disse o chefe do 3º Governo da Revolução.

Médici queria construir e não reprimir, e teria iniciado uma campanha contra tais práticas condenáveis. O problema é que não poderia as extinguir por decreto, tendo que lutar contra campos férteis e contra sementes prontas para a tortura.

Sei…

Folheando a edição mais para frente, nais uma coincidência, topo com  uma reportagem sobre mais que emprestou o nome para os bois titânicos: Antônio Delfim Netto. Ministro da Fazenda de então, hoje guru do governo em temas econômicos, espécie de ministro sem pasta e, não pasmem!, atual colunista do panfleto minocartiano.

 Até a schadenfreude com os problemas econômicos dos Istêites está lá, igualzinha a de hoje?  Quanta coincidência, não?

 Aristóteles afirmou que alguns homens são escravos por natureza, pois nasceram com espírito servil e nada poderá curá-los.

 Marx, por sua vez, tem uma frase que já virou clichê: a história se repete como farsa.

 Só mesmo o Mino Carta, com sua epopeia de operador de países baixos de inúmeros governos, conseguiria juntar estes dois pensamentos, afinal sua trajetória de servilismo ao Governo Lula nada mais é do que a reencarnação farsesca de sua atuação como jornalista nos tempos de Médici.

 Brasil, ame-o ou deixe-o. 

Desafio ao leitor: não houve atrelamento de Veja à Ditadura, pelo leitor Jotavê

Contribuição do leitor Jotavê em resposta ao desafio do Blog, que solicitou a dois comentaristas muito ativos uma resenha das edições de Veja que Mino Carta evoca como prova de que não houve atrelamento da revista à ditadura militar brasileira.

O primeiro número da revista Veja tem um caráter emblemático. Sinaliza claramente — no tom, no estilo e no conteúdo de suas matérias — a linha editorial que Mino Carta pretendia imprimir ao semanário. A matéria de capa fala sobre o esfacelamento do bloco soviético e o fracasso da economia planificada. Na seção de política nacional, o foco recai sobre uma ação repressiva da polícia contra estudantes universitários em Brasília, alegando (ao menos na superfície do texto) que houve excessos “dos dois lados”. Se retiramos a revista de seu contexto original, a impressão que fica é a de uma revista conservadora, subserviente mesmo à orientação marcadamente anticomunista da ditadura e leniente diante da brutalidade cada vez maior e mais descontrolada do aparato militar de repressão. Inserida em seu contexto original, no entanto, o retrato que emerge é completamente diverso.

Uma parte da equação é tão óbvia que deveria dispensar apresentações. Como, no entanto, vivemos tempinhos ideologicamente difíceis, em que as obviedades são desafiadas com insistência, valerá a pena dar-lhes uma acolhida protocolar. Toda ditadura impõe às oposições um mínimo de disfarce. Em 1968, ninguém saía por aí falando abertamente contra o regime sem sofrer conseqüências imediatas. Isso afetava o cinema, o teatro, a literatura, a música popular — os artistas passaram a desenvolver técnicas de embalar suas críticas em metáforas cada vez mais abstrusas, na tentativa de driblar os zelos da censura. No caso de um periódico de grande porte e circulação nacional, o problema ficava muitíssimo mais agudo. Algum grau de transigência era condição sine qua non para a sustentação do projeto. É isso que explica, por exemplo, menções quase elogiosas ao general Medici no contexto de uma matéria que, do começo até o fim, pisava diretamente no principal calo do regime: a tortura de presos políticos. Leiam este trecho, publicado no número 66 da revista: “Como Garrastazu Medici é o presidente da Revolução que quer ‘construir e não reprimir’, como é o homem que pretende lançar as bases para o ‘Brasil Grande’, para uma pátria mais generosa no ano 2000, ele iniciou a inevitável campanha contra as torturas.” O que é isso? Bajulação do regime militar? Puxação de saco do general que comandava um aparelho de repressão responsável por inúmeros assassinatos e torturas? Fora do contexto original, sem dúvida. Quando lemos a reportagem toda, no entanto, a resultante é claramente desfavorável ao regime, e o “elogio” ao presidente Medici transforma-se numa cobrança de coerência: “O senhor não diz que a revolução quer construir e não reprimir? Por que então permite que ocorram no país os fatos relatados nesta reportagem? Não é o senhor que fala num Brasil mais generoso? Que generosidade é essa que se traduz no pau-de-arara e na cadeira-do-dragão?”

Até aqui, o óbvio — aquilo que, se você não percebe sozinho, não há quem possa fazê-lo perceber. Mas há outra camada a ser descoberta nesses textos antigos, e esta é talvez a mais importante. A revista Veja trazia para o centro da discussão política um modo alternativo de ver o mundo, que não se confundia com o conservadorismo brucutu de Medici, nem com as alternativas tradicionais da esquerda que, poucas semanas depois da publicação daquele número inaugural, vaiaria o “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, e aclamaria histericamente o hino extra-oficial da guerrilha urbana composto por Geraldo Vandré. É nesse contexto — no contexto dessas oposições radicais, que hoje estão mais ou menos perdidas — que a manchete de capa do primeiro número (“O Grande Duelo no Mundo Comunista”) deve ser entendida. O que Mino Carta sinaliza, numa longa e bem documentada reportagem, é um novo rumo para a esquerda, desvinculado dos tradicionais alinhamentos com o “socialismo real”, e de maneira especial com o socialismo soviético. Denunciando o imperialismo russo no contexto da “União” das “Repúblicas” “Socialistas” Soviéticas, e a gritante ineficiência da economia planificada, ele não estava simplesmente fazendo eco ao anticomunismo vigente no Brasil de então. Estava dando razões “de esquerda”, digamos assim, para ser contra aquele modelo. O texto não fala a partir da perspectiva da política externa norte-americana. Dá voz a líderes de esquerda no interior de repúblicas rebeladas, e também a teóricos italianos, como Palmiro Togliatti, mostrando que havia alternativas interessantes fora da oposição diametral entre Garrastazu Medici e Carlos Marighella.

Essa talvez tenha sido a contribuição mais duradoura da revista para o debate nacional. Navegando como podia pelos mares procelosos da ditadura, Mino Carta arejou o debate político de um modo que só pode ser compreendido se não olhamos para o passado com os olhos do presente. Não estou dizendo que qualquer dessas idéias fosse nova. Nova era apenas a disposição de traçar novos limites ideológicos a partir de um órgão da grande imprensa com penetração nacional. E isso não foi pouco. Foi fundamental para formar toda uma geração que, anos mais tarde, formularia projetos políticos como os do PT e o do PSDB.

Encerro dizendo que é triste constatar que, hoje, voltamos a cultuar oposições diametrais superficialmente semelhantes àquelas que a revista Veja, em seus primeiros tempos, buscou superar. Digo que são apenas semelhantes na superfície porque as oposições de hoje, apesar de igualmente empobrecedoras, carecem até mesmo da base material sobre a qual floresceram suas antepassadas, durante a Guerra Fria. A diferença, hoje, entre o projeto político do PT e do PSDB diz respeito única e exclusivamente aos NOMES que deveriam ocupar o poder. Não há discordância significativa de fundo, ou, para ser mais exato, as discordâncias existentes entre um José Serra e um Pedro Malan são muitíssimo mais importantes e profundas do que as existentes entre José Serra e Dilma Rousseff, por exemplo. Como bem disse o ex-presidente Fernando Henrique, a briga não é ideológica; é pelo controle do Estado. Só isso. Nada mais. Nos idos de 68, a oposição era absolutamente real. Dizia respeito ao projeto de país que cada grupo tinha em mente. O controle do Estado era simplesmente o MEIO para derrotar o PROJETO adversário. Fazia todo sentido que, naquela época, as pessoas se xingarem, se ofenderem, atirarem pedras umas nas outras, lutarem pela destruição total do inimigo. Hoje, essa luta, reeditada por jornalistas que descem ao nível de animadores de auditório, tem um quê da história que se repete como farsa. É ridícula, pois é vazia. Por ser vazia, necessita de gritos cada vez mais altos, de palavras cada vez mais fortes, que mal disfarçam com a virulência sua própria falta de conteúdo. Pessoas inteligentes não se sujeitam a ser massa de manobra de chefes de torcida. Pensam. Refletem. Acima de tudo, DESPREZAM qualquer tentativa de manipulação ideológica. Quando você tem alguma coisa a dizer, diz em voz baixa. E quando você tem realmente capacidade de pensar, gosta de argumentos, e não de palavras de ordem.

Blog publica o inédito Diário de Luiz Carlos Prestes. Ou: o dia em que o Partidão decidiu expulsar Marighella

Dezembro de 1967. A um ano do recrudescimento do regime militar brasileiro, o Partido Comunista Brasileiro, então na clandestinidade, reuniu seus quadros no Sexto Congresso para aprovar uma série de medidas importantes. Cindido por uma luta interna fratricida, confrontado com a desarticulação no campo sindical, tangido pela decisão de alguns de seus membros de iniciar a luta armada contra o regime, o Partidão tinha diante de si uma das decisões mais importantes de sua história: referendar a expulsão de Carlos Marighella.

No ano anterior, Marighella conseguira controlar a secção paulista do Partido Comunista e, em oposição à política de alianças do Comitê Central, resolveu partir para a luta armada.

A iniciativa foi fortemente combatida por Luiz Prestes, que levou o PCB a definir a expulsão do grupo vinculado ao militante baiano com pesadas críticas ao culto à personalidade, vocação ao “direitismo” e insubordinação ao que havia sido decidido no Quinto Congresso.

O militante não participou da reunião. Estava em Cuba representando os comunistas brasileiros na conferência da OLAS — Organização Latino-Americana de Solidariedade — quando o PCB decidiu enviar uma carta desautorizando sua participação.

Dessa dissidência nasceu a Aliança Libertadora Nacional (ALN), que enfrentou de armas em punho a ditadura brasileira. Marighella morreu emboscado em São Paulo pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury dois anos mais tarde, em 4 de novembro de 1969.

Com a publicação do Diário de Luiz Carlos Prestes, o Blog do Pannunzio coloca à disposição dos leitores um documento obrigatório para quem pretende entender o contexto e as contradições internas do Partidão num momento crucial de sua história.

As anotações originais estão em poder do filho de Prestes, Yuri, que vive atualmente em Moscou. Foram obtidas pelo jornalista Francisco Câmpera, que gentilmente as cedeu ao Blog do Pannunzio.

http://www.pannunzio.com.br/wp-content/uploads/Diário-de-Carlos-Prestes.pdf

Uma história dos Anos de Chumbo

Vou contar o que fui fazer neste fim-de-semana — e uso a oportunidade como pretexto para contar um pouco da minha história. Há alguns leitores que pedem isso há muito tempo — uns por curiosidade sobre a minha biografia, outros buscando elementos para atacá-la. Vou saciar as duas partes.

Fui visitar minha família em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Meu irmão mais novo, Eduardo, comemorou um feito incrível: bodas de prata, 25 anos de casamento feliz com sua grande companheira Patrícia. Fizeram uma festa singela no meio de um campo de girassóis. Linda mesmo.

O lugar onde houve a festa é uma fazenda que está em com minha família desde 1902, 110 anos atrás. É uma propriedade  pequena onde Eduardo e a minha mãe  ganham a vida plantando todo tipo de coisa: soja, milho, ervilha, feijão… e girassóis, a lavoura mais linda que eu já vi. O  relevo é muito plano. Fica a mais de 800 metros de altitude. No outono o por-do-sol é espetacular.

A vegetação nativa é baixa e retorcida. Um cerrado ralo que, num primeiro momento, assusta quem está acostumado com a exuberância da Mata Atlântica. A beleza do cerrado só se descobre observado os detalhes. As flores, por exemplo, são minúsculas, mas são espetacularmente bonitas.

Foi observando detalhes assim que minha mãe, que se chama Martha Pannunzio, colheu material para compor uma linda e premiada obra literária infanto-juvenil. São dela ’Veludinho’, ‘Os Três Capetinhas’, ‘Bicho do Mato’, ‘Era Uma Vez Um Rio’, ‘Bruxa de Pano e ‘Você Já Viu Gata Parir’. Esses livros lhe valeram os prêmios mais prestigados do País: INL, APCA, Jabuti.

Ela e minha irmã caçula, Lavínia, tocam também um projeto teatral muito bacana. Fazem montagens adaptadas dos livros da Dona Martha. Concebem os espetáculos, conseguem patrocínio privado e fazem encenações profissionalíssimas. O público são os alunos de escolas públicas, que não pagam ingresso e têm o transporte garantido pelo projeto. Mais de 80 mil crianças tiveram assim seu primeiro contato com o teatro.

Hoje as coisas parecem ordeiras e harmônicas em Uberlândia. A vida é simples, alegre e produtiva. Mas houve uma data, 1º de abril de 1964, em que elas começaram a ficar bem difíceis.

Meu avô se chamava Afrânio Francisco Azevedo. Era comunista e espírita kardecista, uma coisa que muita gente não entende até hoje.  Mas nos anos 40 a 60 era perfeitamente possível. Tanto que ele era  amicíssimo de Chico Xavier e Luis Carlos Prestes — que foi padrinho de casamento da minha mãe.

O velho Afrânio era um sujeito notável. Dessa mescla de espiritismo e comunismo nasceu um grande filantropo. Teve uma passagem efêmera pela política — elegeu-se deputado estadual em Goiás pelo Partidão em 1946 e foi cassado em 1948. Nunca mais se candidatou a nada.

Em 1958, mandou os quatro filhos mais velhos (o caçula, Chico Humberto, era recém-nascido) à União Soviética para o Festival da Juventude daquele ano. Ficaram lá seis meses e se encantaram com a Revolução. A correspondência entre eles e meu avô foi compilada em um livro chamado “Cartas de Dois Mundos”, assinado em coautoria pelos quatro irmãos.

Bem, chega o dia 1º de abril de 1964. Todo mundo sabe o que aconteceu.

Quando o Banco do Brasil reabriu, meu avô correu até a agência para fazer um saque. Por precaução, era melhor ter algum dinheiro ao alcance da mão para enfrentar alguma eventualidade política.

A eventualidade surgiu ali mesmo. Apresentou-se como tenente do Exército e entregou uma lista de nomes ao gerente. Queria as fichas cadastrais de todos aqueles clientes. O nome do meu avô, Afrânio, era o primeiro da lista, organizada em ordem alfabética. Teve a sorte de estar entre amigos: foi um dos fundadores da agência de Uberlândia. Funcionário de carreira, trabalhou anos ali e deixou bons amigos.

Esse gerente era um deles. Ao ver seu nome na relação, chamou meu avô de lado e entregou-lhe todo o  saldo da conta. Dali, meu avô saiu direto para o exílio no Peru.

A notícia pulverizou a família. Meu pai, Gilberto, que a rigor não tinha nada a ver com aquilo, botou umas provisões num caminhão e ajeitou a família na boléia. Fomos viver na sede da fazenda onde agora meu irmão mais novo celebrou as bodas de prata. A casa devia ter dois séculos de idade. Um casarão colonial construído com adobe e umbrais de aroeira que desafiavam o tempo. Eu tinha três anos de idade. Adriana, minha outra irmã, ia fazer dois. Pedro Paulo, o terceiro da turma, nascera dois meses antes.

Um dia apareceu por lá meu tio Célio Borges. Tio-avô. Sabe essas pessoas de quem todo mundo gosta ? Pois esse era o Tio Célio. Sempre disponível, solidário, pronto para ajudar.

Chegou no meio da tarde e mandou chamar minha mãe. Tinha uma caixa cheia de latas de Leite Ninho. Disse:” Martha, pegue essa caixa, mande o Gilberto por na camionete, pegue os meninos e sumam daqui já. 

Como os milicos não encontraram ninguém — mas viram a comida no fogão, as roupas no varal, brinquedos no meio da sala — ficaram com muita raiva. Queimaram tudo o que havia ali. Documentos, roupas, camas… tudo! O casarão de dois séculos ardeu.

O leite do peito da minha mãe secou antes que as brasas do casarão virassem cinza. Bendito Tio Célio: salvou Pedro Paulo, o recém-nascido, da inanição.

Tenho algumas lembranças dessa época, mas elas não são confiáveis. Lembro-me com clareza que vivíamos de fazenda em fazenda de amigos e parentes que se dispunham a nos receber.

As coisas se acalmaram e a família voltou à cidade porque era preciso dar andamento à educação formal dos filhos. Meus pais decidiram correr o risco.

Tudo ia mais ou menos tranquilo até o começo de 1970. Foi quando a foto do meu tio Afrânio Marciliano começou a aparecer em cartazes ao lado das palavras “terrorista” e “procurado”. Vi aquilo uma única vez num show da Esquadrilha da fumaça.  O cartaz estava estampado no saguão do aeroporto. Havia outros na rodoviária e nas praças da cidade.Os pais dos colegas comentavam.

É estranho para uma criança de sete anos ver um tio querido rotulado como terrorista. Os adultos diziam apenas que aquilo era mentira, não revelavam o motivo. Por isso,  só vim a entender o problema muito mais tarde, quando fiquei sabendo que o tio Afrânio Marciliano foi o cirurgião-plástico que mudou o rosto de Carlos Lamarca. Ele amargou uma cadeia brava.

A vida, depois disso, virou um inferno para todo mundo. Negaram à minha mãe uma cópia do diploma que queimou no incêndio da fazenda. Por isso ela nunca pode lecionar em uma universidade. Virou professora de francês do que era o equivalente ao ciclo básico dos nossos dias. Formou uma legião de alunos.

Meu pai foi trabalhar como representante comercial de uma empresa que vendia peças de tratores. Ele viajava toda semana, entre terça e quinta-feira, percorrendo as barragens que estavam sendo construídas nos rios Paranaíba e Grande. Sempre trazia uns doces glassados na volta. Eu só conseguia dormir quando ele chegava em casa, o que acontecia sempre de madrugada, entre quinta e sexta-feira.

A atividade na fazenda — essa mesma dos girassóis do Edu e Patrícia — ficou paralisada. Não havia crédito. O cerrado era chamado de “deserto”. Servia apenas para a pecuária extensiva. A massa verde ficava calcinada na seca. Dava para criar um boi por alqueire mineiro, ou um boi para cada cinco hectares. Não havia tantos alqueires assim, consequentemente não havia bois suficientes para dar conta do sustento da família.

Meu avô mandou oferecer a terra ao governo para o programa de reforma agrária do general Castelo Branco. O governo mandou devolver, pois não aceitava terra de comunista.

Ainda bem!

Não fosse a recusa malcriada, não haveria um campo de girassóis para as bodas de prata do meu irmão.

 

Algumas poucas palavras sobre Mino Carta

Achei até elegante o texto de Mino Carta.

Elegante e vazio.

Faltou explicar por que  ele escreveu o que escreveu em Veja, permitiu que escrevessem o que coonestou como editor da revista, condição que o obrigava a responder por toda a publicação.

Faltou justificar os elogios à “tranquilizadora” OBAN, à demora da ditadura em registrar a prisão dos que iriam morrer e até o enaltecimento ao “Ame-o ou Deixe-o”.

Houve uma impropriedade no uso da palavra “calúnia”. Ela descreve um tipo penal. E o problema é de natureza ética e moral.

De outra forma, não se pode caluniar alguém revelando seus próprios textos. O nome disso é crítica, e não calúnia.

Também faltou coragem para assumir o que fez — preferiu fazer alusão a um bom nome de dupla de circo. Não teve coragem para me chamar literalmente de palhaço.

Não vou tecer comentários em relação à covardia aludida por ele. Porque fui eu quem publicou os textos.

Prova de que coragem, pelo menos para enfrentá-lo, não me falta.

Sugiro aos leitores a leitura da série que publiquei. Os textos se encontram aqui.

Mino Carta apresenta jusitificativas para o injustificável: a bajulação à ditadura

Mino Carta, em editorial da revista Carta Capital

“Mino Carta é um chato, se pudesse reescreveria os Evangelhos. Inimigo do regime, Geisel o detestava, mas não tinha rabo preso.” De um depoimento de João Baptista Figueiredo, gravado em 1988 durante um churrasco amigo e divulgado após a morte do último ditador da casta fardada.

No final de 1969, esta capa foi o maior desafio de Veja à ditadura, mas já a da primeira edição dera problemas

É do conhecimento até do mundo mineral que nunca escrevi uma única, escassa linha para louvar os torturadores da ditadura, estivessem eles a serviço da Operação Bandeirantes ou do DOI-Codi. Ou no Rio, na Barão de Mesquita. E nunca suspeitei que a esta altura da minha longa carreira jornalística me colheria a traçar as linhas acima. Meu desempenho é conhecido, meus comportamentos também. Mesmo assim, há quem se abale a inventar histórias a meu respeito. Alguém que, obviamente, fica abaixo do mundo mineral.

Não me faltaram detratores vida adentro, ninguém, contudo, conseguiu provar coisa alguma que me desabonasse. Os atuais superam-se. Um deles se diz jornalista, outro acadêmico. Pannunzio & Magnoli, binômio perfeito para uma dupla do picadeiro, na hipótese mais generosa de uma farsa cinematográfica. Esmeram-se para demonstrar exatamente o que soletro há tempo: a mídia nativa prima tanto por sua mediocridade técnica quanto por sua invejável capacidade de inventar, omitir e mentir.

Afirmam que no meu tempo de diretor de redação de Veja defendi a pena de morte contra “terrorristas”, além de enaltecer o excelente trabalho da Oban. Outro inquisidor se associa, colunista e blogueiro, de sobrenome Azevedo. E me aponta, além do já dito, como um singular profissional que não aceita interferência do patrão. Incrível: arrogo-me mandar mais do que o próprio. Normal que ele me escale para o seu auto de fé. O Brasil é o único país do meu conhecimento onde os profissionais chamam de colega o dono da casa.

Não há nas calúnias que me alvejam o mais pálido resquício de verdade factual. Os textos que me atribuem para baseá-las nascem de uma mistificação. Pinçados ao acaso e fora do contexto, um somente é de minha autoria e nada diz que me incrimine. E pouparei os leitores de disquisições sobre minha repulsa visceral, antes ainda que moral, à prisão sem mandado, à tortura e à pena de morte. Quando o Estadão foi pioneiro na publicação de um artigo assinado Magnoli, limitei-me a escrever um breve texto para o site de CartaCapital, destinado a contar a história de outra peça de humorismo, escrita em 1970 por um certo Lenildo Tabosa Pessoa, redator, vejam só, do Estadão, e intitulada O Senhor Demetrio. Ou seja, eu mesmo, marcado no batismo por nome tão pesado.

A bem de minha honra, Geisel me detestava. Foto: AE

Lenildo pretendia publicar seu texto no jornal, os patrões, Julio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita, não deixaram. Surgiu em matéria paga o retrato de um hipócrita pretensamente refinado que, como Arlequim da política, servia ao mesmo tempo Máfia e Kremlin. O senhor Demetrio, de codinome Mino. Diga-se que Lenildo encontraria eco três anos depois no programa global de um facínora chamado Amaral Neto, também identificado como Amoral Nato, que repetia Lenildo no vídeo. Como se vê, tom e letra das calúnias estão sujeitos a mudanças ideológicas.

Ao negarem espaço nas páginas da sua responsabilidade à diatribe de Lenildo, os herdeiros do doutor Julinho quiseram respeitar a memória do meu pai, que trabalhou no Estadão por 16 anos, e meu honesto e leal desempenho na criação daEdição de Esporte e do Jornal da Tarde. O Estadão, evidentemente, não é mais o mesmo. Lenildo e Amaral Neto me tinham como perigoso subversivo de esquerda. Em compensação, hoje sou acusado de ter dirigido naquele mesmo 1970 uma Veja entregue “à bajulação, subserviência e propaganda da ditadura”. É espantoso, mas a semanal da Abril em 1970 era submetida à censura exercida na redação por militares. Eu gostaria de saber o que acham os senhores Pannunzio, Magnoli e Azevedo a respeito de quem na mídia brasileira se perfilava illo tempore ao lado da ditadura. Ou seja, quase todos.

E Arci, impávido, ofereceu a cabeça de Millôr Fernandes ao ministro Golbery. Fotos: Marcelo Carnaval e Manoel Amorim/Ag O Globo

Quem, de fato foi censurado? Os alternativos, então chamados nanicos, em peso, do Pasquim aOpinião, que depois se tornariaMovimento, sem exclusão de O São Paulo, o jornal da Cúria paulistana regida por dom Paulo Evaristo Arns. A Veja, primeiro por militares, depois por policiais civis no período Médici. Com Geisel, passou a ser censurada diariamente, de terça a sexta, nas dependências da Polícia Federal em São Paulo, e aos sábados, à época dia de fechamento, na própria residência de censores investidos do direito a um fim de semana aprazível. Enquanto isso, Geisel exigia que os alternativos submetessem seu material às tesouras censórias em Brasília, toda terça-feira.

Sim, o Estadão também foi censurado e com ele o Jornal da Tarde. A punição resultava de uma briga em família. O jornal apoiara o golpe, mas sonhava com a devolução do poder a um civil, desde que se chamasse Carlos Lacerda. Este não deixava por menos nas suas aventuras oníricas. O Estadão acabou sob censura, retirada contudo em janeiro de 1975, no quadro das celebrações do centenário do jornal. Carlos Lacerda foi cassado. Diga-se que ao Estadãopermitia-se preencher os espaços vagos deixados pelos cortes com versos de Camões, em geral bem escolhidos, e ao Jornal da Tarde com receitas de bolo, às vezes discutíveis. O resto da mídia não sofreu censura. Não era preciso.

Julio Neto e Ruy Mesquita não dariam espaço às calúnias de um tal de Magnoli. Fotos: Alfredo Fiaschi/AE e AE

Quando me chamam para fazer palestras em cursos de jornalismo, sempre me surpreendo ao verificar que o enredo que acabo de alinhavar é ignorado pelos alunos e por muitos professores. Acham que a censura foi ampla, geral e irrestrita. Meus críticos botões observam que me surpreendo à toa. Pois não se trata de futuros Pannunzios, Magnolis e Azevedos? No caso deste senhor Reinaldo, vale acentuar uma nossa específica diferença. Não me refiro ao fato de que eu reputo Antonio Gramsci um grande pensador, enquanto ele o define como terrorista. A questão é outra.

Ocorre que, ao trabalhar e ao fazer estágios na Europa, entendi de vez que patrão é patrão e empregado é empregado, e que para dirigir redações o profissional é chamado por causa de sua exclusiva competência. Ao contrário do que se dá no Brasil, por lá não há diretores por direito divino. Por isso, ao deixar o Jornal da Tarde para tomar o comando dos preparativos do lançamento de Veja, me senti em condições de exigir certas garantias.

No Estadão tivera um excelente relacionamento com a família Mesquita, fortalecido pela lembrança que cultivavam de meu pai, iniciador da reforma do jornal que Claudio Abramo aprofundou e completou. Gozei na casa então ainda do doutor Julinho, filho do fundador, de grande autonomia, aquela que facilitou a criação de um diário de estilo muito próprio, arrojado na diagramação, em busca de qualidade literária no texto. Estava claro, porém, que a linha política seria a da família. Com os Mesquita me dei muito bem, foram de longe meus melhores patrões, talvez os remanescentes não percebam que por eles tenho afeto, embora, saído doEstadão, não me preocupasse em mostrar que minhas ideias não coincidiam com as deles.

E Golbery, gélido, disse: “Eu não pedi a cabeça de ninguém, senhor Civita”. Foto: AE

Convidado finalmente pelos Civita para a empreitada de Veja, solicitei uma liberdade de ação diversa daquela de que gozara no Jornal da Tarde. Só aceitaria o convite se os donos da Abril, uma vez definida a fórmula da publicação, se portassem como leitores a cada edição, passível de discussão está claro, mas a posteriori, quer dizer, quando já nas bancas.

Pedido aceito. A primeira Veja, espécie de newsmagazine à brasileira, foi um fracasso. Além disso, já irritou os fardados por trazer na capa a foice e o martelo. A temperatura subiu com a segunda capa, a favor da Igreja politicamente engajada. A quinta, com a cobertura do congresso da UNE em Ibiúna, foi apreendida nas bancas. E também o foi aquela que celebrou a decretação do AI-5 no dia 13 de dezembro de 1968. Tempos difíceis. Mas a edição de mais nítido desafio aos algozes da ditadura é de mais ou menos um ano depois. A chamada de capa era simples e direta: “Torturas”, em letras de forma.

A história desta reportagem começou cerca de três meses antes, com uma investigação capilar conduzida por uma equipe de oito repórteres encabeçada por Raymundo Rodrigues Pereira. Foram levantados 150 casos, três deles nos detalhes mínimos. Emílio Garrastazu Médici acabava de ser escolhido para substituir a Junta Militar e pela pena do então coronel Octavio Costa acenava em discurso, pretensamente poético ao declinar a origem do novo ditador por dizê-lo vindo do Minuano, à necessidade do abrandamento da repressão. Raymundo e eu recorremos a um estratagema, e saímos com uma edição anódina para celebrar o vento gaúcho. Falávamos da posse, da composição do ministério, do discurso. Chamada de capa: “O Presidente Não Admite Torturas”.

Ofereço este número de Veja à aguda análise de Pannunzios, Magnolis, Azevedos e quejandos. (Nada a ver com queijo.) Bajulação e subserviência estão ali expostas da forma mais redonda. Naquele momento, a mídia foi atrás de Veja, e por três dias falou-se mais ou menos abertamente de tortura. Logo veio a proibição, que Veja ignorou. Na noite de sexta-feira a reportagem da equipe de Raymundo descia à gráfica para arrolar 150 irrefutáveis casos de tortura, dos quais três em detalhes. Ao mesmo tempo, eu mandava cortar os telefones da Abril para impedir ligações de quem pretendesse interferir, autoridades, patrões e intermediários. A edição foi apreendida nas bancas, e logo desembarcou na redação a censura dos militares.

Este sim, “nosso Trotski”, a Arci pediu minha cabeça e conseguiu. Foto: AE

Quando ouvi falar em distensão pela primeira vez, meados de 1972, pela boca do general Golbery, à época presidente da Dow Chemical no Brasil, pareceu-me possível alguma mudança na sucessão de Médici. De fato, Golbery, que vinha de conhecer, articulava na sombra a candidatura de Ernesto Geisel, títere sob medida para as suas artes de titereiro. Meados de 1973, assenta-se a candidatura obrigatória de Geisel. Alguns meses após, ministério em gestação, Golbery, futuro chefe da Casa Civil à revelia de Médici, me sugere uma conversa com o recém-convocado para a pasta da Justiça, Armando Falcão. Assunto: fim da censura em clima de distensão.

Conversei duas vezes com Falcão enquanto Roberto Civita entre janeiro e fevereiro de 1974 apontava em Hugh Hefner um notável filósofo da modernidade. Mal assumiu a pasta, dia 19 de março de 1974, Falcão chamou-me a Brasília para comunicar que a censura se ia naquele instante. Sublinhei: “Sem compromisso algum de nossa parte”. “Claro, claro”, proclamou, e me deu de presente seu livro de recente publicação, intitulado A Revolução Permanente. Mais tarde Golbery comentaria: “Falcão é o nosso Trotski”.

Três semanas após, a censura voltou, mais feroz do que antes. Duas reportagens causaram a costumeira irritação, fatal foi uma charge de Millôr Fernandes. Em revide, decretava-se que a censura seria executada em Brasília às terças-feiras. Fui visitar Golbery no dia seguinte, eu estava de veneta rebelde, levei meus dois filhos meninotes, e andei pela capital federal de limusine. No meu livro de próxima publicação, O Brasil, a sair pela Editora Record como O Castelo de Âmbar, descrevo assim a visita ao chefe da Casa Civil.

“A secretária do ministro, dona Lurdinha, senhora de modos caseiros, redonda rola sobre o carpete sem perder o sorriso, chega-se ao meu ouvido, murmura: “Veio também o senhor Roberto Civita, quer ser recebido mas não tem hora marcada”. Não deixo que o tempo se estique inutilmente, tomo a visão panorâmica da antessala e vejo Arci, entalado em uma poltrona com expressão perdida na paisagem da savana descortinada além das vidraças. “Que faz aqui?” E ouço meu próprio latido.
“Vici me contou que você viria, e eu gostaria…”
“Você não pediu audiência, não tem hora”, proclamo.

Ele insiste, à beira da imploração. O meu tom chama a atenção de Manuela e Gianni, encaram a cena sem entender o assunto, percebem porém que o pai está muito irritado, enquanto o outro tem jeito de pedinte. Lurdinha traz uma laranjada para as crianças e avisa que o general está à espera. Admito: “Você entra comigo, mas se compromete a não abrir a boca”. Ele promete.

Na conversa que se segue no gabinete da Casa Civil, o meu argumento é óbvio, Veja é uma revista semanal que encerra o trabalho na noite de sábado e vai às bancas às segundas-feiras, obrigá-la a submeter textos e fotos aos censores na terça significa inviabilizá-la. Pergunto a Golbery: “Os senhores pretendem que Veja simplesmente acabe?” Não, nada disso. “Então é preciso pôr em prática outro sistema.”

O chefe da Casa Civil entende e concorda. Diz: “Vá até o Ministério da Justiça, fale com Falcão, a Lurdinha já vai avisá-lo, diga a ele que vamos procurar uma saída até amanhã no máximo, a próxima edição tem de sair regularmente”.
Golbery fica de pé, hora da despedida. O general não conhecia o patrãozinho que até aquele momento cumpriu a promessa feita na antessala. E de supetão abre a boca: “General, se o senhor acha que devemos tomar alguma providência em relação ao Millôr Fernandes…”
Golbery fulminou-o: “Senhor Civita, não pedi a cabeça de ninguém”.

Poucos entenderam que o Minuano poderia despertar ciclones. Foto: Reprodução

Vici e Arci, ou seja, Victor Civita e Roberto Civita, assim se chamavam no castelo envidraçado à beira do Tietê, esgoto paulistano ao ar livre. Esse entrecho já o desenrolei em O Castelo de Âmbar sem merecer desmentido e o próprio Millôr o colocou no ar do seu blog logo após a publicação no final de 2000. Ao sair do gabinete de Golbery, eu disse a Roberto Civita “você é mesmo cretino”, como depois o definiria na conversa de despedida com o pai Victor, mas poderia dizer coisa muito pior. Quanto à minha saída da direção de Veja e de conselheiro board abriliano, descrevi o evento em editorial de poucas semanas atrás. Faço questão de salientar, apenas e ainda, que não fui demitido, e sim me demiti para não receber um único centavo das mãos de um Civita, nem que fosse a comissão pelo empréstimo de 50 milhões de dólares recebidos pela Abril da Caixa Econômica Federal, juntamente com o fim da censura, em troca da minha cabeça. A revista prontamente caiu nos braços do regime.

A partir daí, tive de inventar meus empregos para viver. Ou por outra, para viver com um salário infinitamente menor (insisto, infinitamente) do que aquele dos importantes da imprensa, e nem se fale daqueles da televisão. Ganham mais que os europeus e de muitos americanos. Em outro país, um jornalista com o meu passado não sofreria as calúnias de Pannunzios, Magnolis e Azevedos, e de vários que os precederam. Muito representativos de uma mídia que manipula, inventa, omite e mente. Observem os fatos e as mentiras da atualidade imediata, o caso criado pelo protagonismo de Gilmar Mendes e pela ferocidade delirante dos chapa-branca da casa-grande. Além do mais, há em tudo isso um traço profundo de infantilidade, um rasgo abissal, a provar o estágio primitivo da sociedade do privilégio, certa de que a senzala aplaude Dilma e Lula e mesmo assim se conforma, resignada, dentro dos seus habituais limites.

Os caluniadores são, antes de mais nada, covardes. Sentem as costas protegidas pela falta generalizada de memória, ou pela pronta inclinação ao esquecimento. Pela impunidade tradicional garantida por uma Justiça que não pune o rico e poderoso. Pelo respaldo do patrão comprometido com a manutenção do atraso em um país onde somente 36% da população conta com saneamento básico, e 50 mil pessoas morrem assassinadas ano após outro. Confiam no naufrágio da verdade factual, pela enésima vez, e que tudo acabe em pizza, como outrora se dizia, a começar pela CPI do Cachoeira e pela pantomima encenada por Gilmar Mendes. E que o tempo, vertiginoso e fulminante como sempre, se feche sobre os fatos, sobre mais uma grande vergonha, como o mar sobre um barco furado.

Como a equipe de Mino Carta na Veja comemorou o 6º aniversário do golpe de 64

Reinaldo Azevedo

“Como é de conhecimento do mundo mineral, quem fez a VEJA, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) [Civita] lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

A afirmação acima é de Paulo Henrique Amorim, amigo de Mino Carta, e, surpreendentemente, trata-se de uma verdade. Mino, com efeito, fazia o que achava melhor. Seu patrão só ficava sabendo na segunda-feira. A sua ditadura unipessoal na revista acabou no começo de 1976. A ditadura no Brasil ainda duraria muito tempo.

Pois bem, as novas gerações, especialmente os jovens estudantes de jornalismo, que hoje eventualmente leem e ouvem Mino Carta conhecem pouco da história da profissão. Não raro, seus professores se ocupam de proselitismo ideológico raso e não incentivam a pesquisa. O material que destaco abaixo é público. Está no arquivo digital da VEJA.

Na revista de 1º de abril de 1970, Mino decidiu fazer um balanço dos seis anos de poder militar no Brasil. A longa reportagem, com texto final de Elio Gaspari e Luís Adolfo Pinheiro, era apresentada num editorial assinado pelo então diretor de redação. Outros podem ter cantado as glórias do regime militar, mas ninguém como Mino. Outros podem ter enxergado virtudes no poder de farda. Mas ninguém como Mino. Outros podem ter coberto os chamados “setores castrenses” de elogios e mimos. Mas ninguém como Mino. Segue o seu editorial na íntegra. Comento depois.

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Voltei
A essa altura, imagino muitos jovens “progressistas” mais irados que menino cagado, como se diz nos Pampas. Sim, este Robespierre da “imprensa nativa”, como ele costuma se referir aos demais veículos de imprensa, achava que os militares “surgiram como o único antídoto de seguro efeito contra a subversão e a corrupção, nascidas e criadas à sombra dos erros voluntários e involuntários dos líderes civis”. Como vocês sabem, o “direitista Reinaldo Azevedo”, o Judas pronto a ser malhado pela esquerdopatia de salão, jamais escreveu ou escreveria algo parecido. Como não sou demagogo nem estúpido e prezo o estado de direito, não tento enganar incautos pregando, por exemplo, a revisão da Lei de Anistia.

Quando publiquei um outro texto demonstrando a verdadeira pena de Mino Carta, alguns tentaram ensaiar uma defesa: “Não foi ele que escreveu! Era a revista!” Errado! O que vai acima é um texto assinado. Ele, sim! Aquele que mandava em VEJA e não permitia pitaco de patrão. Mino não precisava que ninguém o forçasse a lustrar as botas do quartel. Ele o fazia por conta própria, por gosto, por vocação,  pela vontade de servir.

Mino ia longe. Enxergava o que ninguém mais alto do que ele conseguia enxergar. Leiam lá o que diz sobre os governos de farda: “E, enquanto cuidavam de pôr a casa em ordem, tiveram de começar a preparar o país, a pátria amada, para sair de sua humilhante condição de subdesenvolvimento”.

Sabem o que é mais fabuloso? Mino continua fanaticamente governista hoje, como sabem. A razão supostamente nobre que pretexta para ter aderido ao lulo-petismo é justamente a dita luta do ApeDELTA para tirar o país do… subdesenvolvimento!!! Já naquele tempo, como se nota, ele tinha esse estilo que eu definiria como “contestação a favor do poder”.

A reportagem
A reportagem a que ele se refere, com texto final de Elio Gaspari e Luís Adolfo Pinheiro, também é um primor. Ali já se percebe a semente de um estilo que renderia muitas metáforas a um deles: assim como Lula é, nos dias hodiernos, o homem “do andar de baixo” que veio dar lições “ao andar de cima”, naqueles dias, esse papel era reservado aos militares. Querem ver?

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Entenderam? Era “a revolução que legitimava o Parlamento, não o Parlamento que legitimava a revolução”. Os militares perceberam, como se informa acima, que as intenções ideológicas dos políticos são sempre “escorregadias”. Huuummm… Não deixa de ter lá a sua verdade. Quando vejo alguns áulicos de hoje a demonizar a oposição, noto que o sestro é antigo. Este outro trecho da reportagem é de uma fabulosa eloquência.

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Ali se mostra o danado esforço dos militares para construir uma “nova estrutura política, econômica e social para o país”, sem transigir com os “antigos inimigos”, a saber: “a corrupção e a subversão”. Mino Carta e seus rapazes saúdam o fato de que, finalmente, existe uma política sem políticos — nem mesmo aqueles que apoiaram inicialmente o golpe. Não se trata apenas de uma reportagem exaltando o poder militar. Trata-se um texto em favor da linha dura. Mino, como se sabe, é sempre muito convicto. As ideias ficarão ainda mais claras no trecho que segue. Notem que a tarefa dos militares é criar o desenvolvimento. E não estão para brincadeira, não! Trata-se de gente séria, competente e trabalhadora — não aquela bagunça do governo civil.

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Mino, Gaspari e a turma estavam empenhados em demonstrar que, finalmente, havia gente de outra natureza no poder, muito distante da vigarice civil e da baderna protagonizada por reles políticos. Estes, parece, eram talhados para se servir do poder — os outros, ao contrário, eram educados para servir. Que falem por si. Não precisam do meu auxílio. As duas imagens devem ser lidas na sequência.

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É claro que há, sim, verdades no que vai acima quanto à formação e ao espírito dos militares. A questão é saber se seu lugar é o governo. E me parece certo que não. Assim como tenho a certeza de que também não é lugar de larápios, de aproveitadores e de candidatos a caudilho. E, se restou alguma dúvida quanto aos propósitos do editorial de Mino Carta e da matéria feita sob o seu comando e a sua inspiração, o último parágrafo é de um eloquência acachapante. Leiam. Volto para encerrar.

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Pois é… A gente nota os “velhos progressistas de esquerda de hoje” já em estado larvar naqueles entusiastas do regime, não é? Afinal, os militares eram “sensíveis aos problemas” nacionais porque oriundos das “camadas mais pobres da sociedade”. Isso deve explicar a paixão  pelo ApeDELTA. Golpe? Nada disso! A gente aprende lendo o texto que “a classe política se dividiu e naufragou por suas próprias limitações”. Quando os militares decidissem entregar o cargo, haveria de ser a uma “classe política renovada”.

Uau!!!

Encerrando
Os jornalistas, o jornalismo e as empresas de comunicação retratam o poder: noticiam, analisam, opinam… Mas têm de ter claro que não são — NEM DEVEM SER — o poder. É evidente que a imprensa estava sob severa censura em 1970, mas, já escrevi aqui, se era proibido criticar, não era obrigatório elogiar. Especialmente com essa ênfase e com argumentos saídos da mais profunda convicção antidemocrática.

Mino Carta se sentia a voz do poder em 1970 e se sente a voz do poder em 2012. No passado, ele desqualificava os políticos — consumidos por suas ambições e limitações. Nos dias de hoje, os adversários dos “representantes das camadas mais pobres” são as forças de oposição e, claro, a “imprensa nativa”, que ele adora satanizar. Sentia-se poder antes. Sente-se poder agora. Ocorre que, para vestir esse figurino, precisa inventar para si mesmo um passado de contestação, falso como nota de R$ 3. Alguém poderia dizer que não mudou tanto assim. Hoje como antes, sempre aos pés do poder. Hoje como antes, de braços dados com o autoritarismo.

Lamento desfazer as ilusões de alguns moços, pobres moços! Mas também eles têm o direito de saber o que eu sei. Sim, sim, há muitos outros “pogreçista” que cantaram as glórias do regime militar. O trabalho da minha Comissão Particular da Verdade mal começou.

Comissão da Verdade — Os arquivos demonstram o que Mino Carta fez em verões passados. Ou: O entusiasta da ditadura e da Oban

Reinaldo Azevedo

Paulo Henrique Amorim, o notório, de braços dados com Mino Carta, da mesma estatura, escreveu ao menos uma verdade na vida para exaltar o seu amigo, a saber:

“Como é de conhecimento do mundo mineral, quem fez a VEJA, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

De fato, nunca houve dúvidas de que era Mino quem mandava. Era Mino quem decidia. A função de patrão, para ele, era pagar as contas de seu brilho incomparável.

Hoje Mino é um “progressista”, um verdadeiro guia a orientar o jornalismo de esquerda. E odeia VEJA, como é sabido. Cumpre, então, deixar claro quais eram as escolhas do chefe inconteste enquanto esteve no comando da revista — aquela na qual ele não deixava Roberto Civita dar palpite. Enquanto escrevo, assobio mentalmente: “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei…”.

Na edição de 4 de fevereiro de 1970, a revista publicava uma reportagem, exaltada pelo diretor de Redação na Carta ao Leitor, devidamente assinada, sobre o famoso “roubo do cofre do Adhemar”. Na mesma edição, sob o pulso firme de Mino Carta, um outro texto detalhava os bastidores do desmantelamento dos grupos de esquerda.

Com o seu conhecido porte imperial e a notória intolerância com os que pensam de modo diferente — tanto é assim que não deixava nem mesmo o patrão dar pitaco na revista —, Mino cantou as glórias da Operação Bandeirantes, conhecida por torturar prisioneiros. Seguem alguns trechos verdadeiramente encantadores da obra deste que é hoje um oráculo do jornalismo que se quer “progressista” e de esquerda — desde que devidamente recompensado pelo estado, é claro.

Peço que vocês leiam atentamente estes dois trechos, um sequência do outro, em que Mino Carta exalta a eficiência da Oban. Volto em seguida:

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Voltei
Como este mundo pode ser pateticamente engraçado! Duas das organizações que estão no radar deste Colosso de Rhodes do jornalismo no texto acima são  o Colina e a VAR-Palmares, justamente os grupos a que pertenceu Dilma Rousseff, que havia sido presa 20 dias antes da publicação da reportagem — 16 de janeiro.Em 1970, com Dilma na cadeia, Mino vestia uniforme e batia continência para “tranquilizar a nação”. Quarenta e dois anos depois, com Dilma na cadeira presidencial, Mino põe no peito a estrela do PT e…, bem, continua a bater continência para o poder. Que talento inigualável para servir!

Grave
Não deve lhes escapar um detalhe: Mino elogia a decisão da Oban, conhecida por torturar prisioneiros, de esperar algum tempo para anunciar as detenções. Será que ele não se perguntava por quê? Enquanto as prisões eram mantidas na surdina, o que será que ofereciam aos detidos? Sorvete Chicabon? Vocês merecem ler mais algumas coisas, tudo absolutamente disponível no arquivo digital de VEJA. Era o tempo em que Mino mandava!

Mino ironiza os presos
Leiam estes dois fragmentos na sequência. Na legenda da segunda imagem, explico as circunstâncias.

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Como vocês leram, trata-se do relato de prisão por engano de um tenor. Teve de cantar para provar que falava a verdade. Mino achou a situação espirituosa e a usou como metáfora: afirmou que os presos pela Oban tiveram de “cantar música completamente diferente”. Como ele se acha dono de um humor sutilíssimo, deve ter achado um chiste engraçado. Está na edição de 17 de abril de 1969


Mino faz o elogio da Junta Militar

 

Sempre sem consultar ninguém, na mesma edição de abril de 1969, o hoje principal representante do “progressismo” elogia a Junta Militar e suas graves responsabilidades, inclusive a adoção da pena de morte.Sempre sem consultar ninguém, na mesma edição de abril de 1969, o hoje principal representante do “progressismo” elogia a Junta Militar e suas graves responsabilidades, inclusive a adoção da pena de morte.

Mino faz a apologia da democradura

Leiam os três textos em sequência. Na legenda do terceiro, explico as circunstâncias. Volto em seguida para encerrar.

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Notem que todo o encadeamento dado pelo maior gigante do jornalismo de todos os tempos flerta abertamente com a ideia de que a democracia, nos moldes tradicionais, não é muito adequada à realidade brasileira. Até porque o país tinha outra urgência: combater a subversão. Mino nunca foi partidário da ditamole. Ele gostava mesmo era de uma democradura.

 Voltei

A alguns desses trechos, o jornalista Fábio Pannunzio já deu destaque em seu blogue. A ditadura de Mino Carta em VEJA, felizmente, chegou ao fim nos primórdios de 1976, quando a revista, apesar da censura ainda vigente, inicia seu esforço para exercer a sua vocação original, penosamente distorcida pelo cesarismo cartiano. Refiro-me à defesa dos valores que a transformaram na maior revista do país e numa das maiores do mundo: a defesa da democracia e do estado democrático e de direito.

Algumas pantomimas só prosperam hoje em dia porque o passado de certos gigantes morais fica debaixo do tapete. O arquivo digital de VEJA já está há tempos no ar. O Estadão acaba de lançar o seu. É chegada a hora de revermos o passado de certos “progressistas” que andam por aí. Vocês nem imaginam quantas são as supostas “referências morais do jornalismo” que serviram de escribas entusiasmados do golpe militar de 1964. Alguns deles, ora, ora, pediriam mais tarde indenização ao estado porque supostamente “perseguidos”. E hoje, curiosamente, tentam esconder esse passado defendedo a revisão da Lei da Anistia. Eu, por exemplo, sou diferente: levei borrachada, fui fichado e sou contra a revisão. Mundo engraçado, né?

E para que não reste a menor dúvida: a censura impedia, sim, a publicação de muita coisa, mas não obrigava a publicar elogios. Os feitos por Mino Carta eram coisa de coração, de vocação, de gosto, de adesão a uma causa. E, como ele sempre fez questão de deixar claro, nunca deixou ninguém “dar palpite”. Foi obra de autor, como não cansa de se autoelogiar.

Como os “cães de guarda” da imprensa ladravam para a caravana da ditadura passar em 1970

Do nada, um certo site da nova, novíssima esquerda, começa a derramar posts em série sobre a ditadura brasileira. Chama de “cães de guarda” dos milicos os jornalistas que apoiaram descaradamente a ditadura militar brasileira. O nome desse site é Conversa Afiada. Poderia se chamar mesmo Conversa Fiada, uma vez que seu editor, Paulo Henrique Amorim, foi um dos mais dóceis cãezinhos de guarda da ditadura nos anos 70. Para o desespero dele, não é difícil demonstrar.

Alguns leitores bem-intencionados têm se mostrado surpresos com a série de revelações. Acreditavam, de bom coração, na sinceridade de PHA em sua defesa do governo Lula, do governo da Dilma, do governo FHC, … até de gente como o Zé ‘empate’ Dirceu, na sua retórica a favor dos pobres e oprimidos. Acreditavam até que PHA nasceu na esquerda. Até que ele agora é líder do movimento negro.

Aos fatos.

Muito jovem, quando todos costumam ser de esquerda, PHA já era uma espécie de poodle dos homens de farda. Naquele tempo, a revista Veja não assinava a maior parte das reportagens e, por isso, não é fácil encontrar o nome de PHA em muitas delas. De  70 a 74, foi o editor de economia da revista, segundo atesta o próprio currículo que ele publica em seu site.

Nessa condição, pode-se dizer, com segurança, que todas as reportagens econômicas ufanistas, de apoio á ditadura, têm o dedo dele. Convido o leitor a passear pelas páginas de economia da revista naquele período, consultando o arquivo digital, aberto a todos na internet (mas se preparem para o enjoo, diante de tanta propaganda pró-ditadura). Alguma vezes, porém, o editor da revista, Mino Carta,  na seção “Carta ao Leitor”, denunciava a autoria das reportagens. E, quando isso acontece, não há como se esconder.

Foi o caso da edição de 26/08/70. Mino Carta escreve na Carta ao Leitor: “O anúncio do Programa de Integração Social [o PIS], o assunto da reportagem de capa daquela edição (página 28, texto final de Paulo Henrique Amorim e Emilio Matsumoto), confirma uma antecipação de Veja.”

O enjôo, caro leitor, começa pelo título: “Um programa à brasileira”.  Assim mesmo, com esse ufanismo patriótico de conveniência a serviço da farda e do coturno. A ânsia de vômito aparece no subtítulo grandiloqüente: “ A integração social através de um fundo sem igual”.

Poucos leitores não passarão mal com o texto em si. Começa com uma rematada mentira: “Quem ganhar pelo menos dois salários mínimos por mês receberá, na pior das hipóteses, seu ordenado multiplicado por 36, ao se aposentar depois de trinta anos de serviços.”

Prossegue com um delíro fascista, o do fim das tensões, naturais, entre patrões e empregados, algo que a ditadura perseguia a ferro, fogo e pau-de-arara. Eis aí o fulcro da questão, o que francamente interessava ao regime — e a seu lulu adestrado — na época: afastar as discussões sobre a participação nos lucros, esta sim, a verdadeira reivindicação dos operários.   “Estão evitadas na mensagem presidencial todas as possibilidades de tensão entre patrões e empregados. Não se fala em participação nos lucros. Ao contrário, criou-se uma fórmula original, retirada da famosa inventividade brasileira. Os empregados participarão, através de um fundo, do faturamento (ou seja, das receitas) das empresas e não de seus lucros (o que significa tecnicamente o resultado da diferença entre receita e despesa).”

E, claro, acaba por bajular o ditador Médici, mentindo para os brasileiros ao dizer que o general tinha como objetivo uma sociedade próspera e aberta, tudo o que o Brasil não era à época:  “‘O segredo mais bem guardado é o que todos imaginam’. A frase de Bernard Shaw, sábio dramaturgo irlandês, aplica-se inteiramente ao PIS. A notícia explodiu na semana passada com o impacto das grandes revelações. No entanto, analistas mais observadores já podiam prevê-la desde o dia 7 de outubro do ano passado, quando o Presidente Médici, pela televisão, comunicou que aceitava sua indicação para presidente da República. Naquele dia, mencionou seu desejo e promover uma revisão da distribuição da riqueza numa sociedade próspera e aberta. Na primeira reunião ministerial pediu aos seus auxiliares imediatos que estudassem medidas que viessem a marcar seu governo com as intenções reformistas a que se propunha.”

Não é segredo para ninguém que o lulu da economia de Veja se empenhava — e como! — em sua função de propagandista dos feitos homéricos do pior presidente que o País já teve. Pior no sentido de mais cruel, desumano. Aqui mesmo, neste espaço, publiquei outro dia um post revelando que PHA certa vez, nos idos dos 70, ganhou um prêmio Esso ao contestar o Censo, que acabara sair com algo que não convinha ao comando da quartelada. O IBGE, que não era propriamente um bunker do PIG de então, constatou que havia, como a história provou, uma enorme concentração de renda no tal Milagre Econômico. PHA, no entanto, se fiou a um estudo assinado por Carlos Langoni para desqualificar o censo e provar que o Brasil Grande era maior e mais justo do que realmente era. Maior e mais justo. Au-au!

Volto ao assunto anterior. Na descrição do PIS, PHA não poupa adjetivos para vender aos brasileiros a falsa imagem de que o programa era uma coisa genial. Para isso, adula todos os czares da ditadura da época, para que nenhum deles se sentisse enciumado:  “Acabou surgindo a fórmula do PIS, árvore de muitas sementes, depositadas com cuidado por Delfim, Barata, Leitão de Abreu, chefe do gabinete civil, e poucos assessores. (…) Fecha-se assim o círculo desse engenhoso mecanismo”. Engenhoso, diga-se de passagem, a ponto de ser anunciada desta forma: “Afastada a solução da participação nos lucros, o presidente apelou para a imaginação criativa de seus ministros“. Só elogios!

Não se esqueçam, ele estava falando do PIS, que vocês conhecem tão bem.

Para não haver dúvidas sobre a grandiloquência do projeto do recém-empossado ditador Médici, fecha com uma declaração de Delfim, com o objetivo de anestesiar os trabalhadores de então, vítimas do que, na época, chamavam de arrocho salarial: “‘O fundo demonstra claramente a preocupação do governo com os trabalhadores. Além disso, significa também uma verdadeira abertura política, já que as lideranças parlamentares foram convocadas pelo Presidente Médici para conhecerem com antecedência o conteúdo do programa’, disse Delfim. Para o ministro, porém, o PIS tem uma inestimável vantagem adicional, não fosse ele um de seus idealizadores: ‘Essa fórmula é brasileira. Não há no mundo sistema idêntico ou semelhante.’”

Verdadeira abertura política no governo Médici, cara pálida? Au-au!

Ora, em 1970, o Brasil vivia o auge da ditadura militar, com Dilma presa, torturada, assim como milhares de outros. Não havia sociedade próspera e aberta coisa nenhuma. E também nenhuma integração entre patrões e empregados. A reportagem, na verdade, é uma peça de propaganda da ditadura. Escrita pelo PHA.

Por que relembro todos esses casos? Porque acho que os jornalistas devem viver da verdade. Não à toa, conheço poucas pessoas que sejam contra a Comissão da Verdade. Os brasileiros, sem prejuízo da Lei da Anistia, devem conhecer a sua história. Mas esse conhecimento tem de ser completo. Se devemos conhecer quem eram os torturadores e golpistas, devemos saber quem eram os jornalistas que os apoiaram — a verdadeira imprensa golpista, que propagandeou sem nenhum constrangimento o golpe militar. A Comissão da Verdade pode começar por aí.

Para que você não se perca nesse emaranhado diáfano da história, publico na íntegra a reportagem ufanista que Paulo Henrique Amorim produziu. Reiterando que o Blog do Pannunzio não descontextualiza declarações para construir a crítica política, prática comum em certos canis virtuais contemporâneos.

Repassando a história: Veja de Mino Carta enalteceu a famigerada OBAN em 1970

OBAN: ação "tranquilizadora" e "eficiente".

Para quem quer desvendar o comportamento dos jornalistas nos piores anos da ditadura militar brasileira, a edição de Veja do dia 4/2/1970 é esclarecedora. Nela, Mino Carta, ao assinar a Carta ao Leitor,  anuncia uma reportagem “difícil e perigosa” sobre o famoso roubo do cofre da Mansão dos Schiller, no Rio de Janeiro. O caso ficou conhecido como o roubo do Cofre do Ademar. Na apresentação, Carta qualifica os guerrilheiros com o adjetivo da moda: ” um grupo de terroristas”.

No corpo da reportagem, lê-se o seguinte:

“Como foram os terroristas descobrir que era exatamente aquele o cofre do dinheiro de Ana Capriglione ? (…) Por intermédio de um sobrinho de Ana, o estudante Gustavo Buarque Schiller, na época com 22 anos (…) Um rapaz de boa família, considerado o mais inteligente de sua casa e que soube esconder de todos os parentes suas ligações com os terroristas, principalmente com Juarez Guimarães Brito, um dos organizadores da COLINA, grupo subversivo de Minas”. A COLINA, como todos sabem, era uma das organizações a que pertenceu a presidente Dilma, na sua luta contra a ditadura.

Na mesma edição, a reportagem seguinte à do cofre leva o nome de “Os rachas do Terror”, e dá conta do esfacelamento dos grupos que pegaram em armas para combater a ditadura. É preciso recordar o que Paulo Henrique Amorim sempre faz questão de dizer: “Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

Pois bem, a revista que Mino editava, diante da desgraça que se abateu sobre os jovens que pegaram em armas, comemora: “Cresce contra as tentativas de reorganização a bem montada máquina antiterrorismo em funcionamento perfeito em Belo Horizonte (onde o COLINA foi inteiramente desfeito), em São Paulo e no Rio. Hoje, em todo o país, as forças do governo aprimoram uma mentalidade de combate à guerra revolucionária. E, se os terroristas reveem as falhas cometidas, policiais e militares sabem agora evitar melhor os erros. As notícias de prisões e confissões de terroristas não são mais anunciadas com tanta pressa, como antes.”

Como vêem, Veja, orientada por Mino, comemorava como acertada a tática não democrática de esconder do público que prisões tinham sido feitas, o que era o desespero das famílias e dos presos. Todos sabem que os democratas daquela época, na imprensa, faziam todo o esforço para noticiar prisões, porque, com elas divulgadas, diminuíam muito as chances de a ditadura simplesmente sumir para sempre com os presos. E todos também sabem como eram conseguidas as “confissões”: com torturas. Era o que acontecia com os presos políticos no intervalo entre a captura, via de regra ilegal, e a revelação da prisão. Defender esse hiato é rigorosamente coonestar a tortura, conhecida por todos.

Mas a reportagem vai mais longe em seu exercício de louvação aos métodos dos porões da ditadura. Pode parecer inacreditável à luz da democracia dos dias de hoje, mas Veja se prestou a enaltecer a famigerada OBAN (Operação Bandeirante).

“Na semana passada, a Organização Bandeirante, que coordena o combate ao terror em São Paulo, divulgou todo o trabalho feito para desarticular no Estado a Var-Palmares, a Aliança Nacional Libertadora (a ALN, de Marighela) e outros grupos terroristas. Foi uma notícia dada em momento oportuno, tranqüilizando o povo e, ao mesmo tempo, evitando prestar serviço ao terrorismo. Pelo contrário, só pode ter servido para mostrar a eficiência adquirida pelas forças policiais e militares.

As “conquistas” da OBAN, a casa dos piores horrores promovidos pela ditadura, são então traduzidas em números. “Em cinco meses, de setembro de 1969 a janeiro de 1970, 320 terroristas foram presos, 66 ‘aparelhos’ foram vasculhados, e foram apreendidos setenta fuzis , 33 metralhadoras, 170 bombas, 68 revólveres, dois morteiros e outras armas e grande número de munição.Para alguns policiais e militares, o terrorismo está totalmente desbaratado. Lamarca, Nóbrega, Câmara Ferreira, Marise Farhi, Juarez, Fujimori e outros nomes maiores e menores ainda continuam em ação. Mas as forças legais também agem, com métodos cada dia mais aperfeiçoados – e apertam cada vez mais o cerco”.

Ninguém que viveu essa período triste pode alegar desconhecimento do que se passava nos calabouços do regime. A história, de há muito, registra que os “métodos aperfeiçoados” eram os sequestros, as prisões ilegais, os desaparecimentos, assassinatos e a tortura. Mas, à época, Mino e sua revista eram só elogios à perfeição do combate desigual movidos pela força de um Estado com instituições caladas por atos de exceção.

Com certeza estudantes de jornalismo e historiadores poderão fazer bom proveito da publicação. Além da repulsa que provoca, o texto certamente conduzirá a um questionamento saudável e democrático. Serve, principalmente, para estabelecer uma clara distinção entre o que é jornalismo e o que é história. Como se vê, são duas coisas distintas. Escrever o que se lê ali é entender como se fazia o jornalismo no Brasil Grande dos Anos de Chumbo. Reler, hoje, é compreender a história.

Este blog tem como política não descontextualizar informações para promover a crítica política. por esta razão, publico abaixo a íntegra das reportagens, que também podem ser lidas no Acervo Digital de Veja.

Paulo Henrique Amorim esconde entrevista em que Mino diz que agiu como mercenário

Cadê o vídeo ? O pato comeu!...

Paulo Henrique Amorim não deve ter gostado de ver Mino Carta dizendo que agiu como mercenário em dado período de sua vida profissional. Ninguém gosta mesmo. No ano passado, ele foi um dos poucos blogueiros que escreveram a respeito da entrevista que Mino concedeu a Antônio Abujamra.  E foi certamente e único que suprimiu a gravação do programa Provocações, da TV Cultura, de sua página na internet.

O post,  publicado no dia 31 de março de 2011, continua lá. Mas não faz nenhuma referência aos desatinos do entrevistado. Se quiser conferir, o endereço é http://www.conversaafiada.com.br/video/2011/03/31/mino-pig-implorou-pelo-golpe-militar/ . Tente clicar sobre o vídeo. Tudo o que você vai conseguir ver é a mensagem “este vídeo foi removido pelo usuário” que aparece na reprodução acima.

Mas não se desespere. Há dezenas de cópias no Youtube. Se quiser assistir, basta clicar aqui.

O dia em que Paulo Henrique Amorim confrontou a ditadura para… Enaltecer a ditadura!

Paulo Henrique Amorim esconde o seu passado. Até mesmo quando ele tenta revelá-lo. Por exemplo, em seu site, Conversa Afiada, ele faz um longo retrospecto de seus empregos e feitos passados. A certa altura, ele conta que entre 1970 e 1974, foi editor de Economia da Revista Veja. E acrescenta, orgulhoso, referindo-se a si próprio na terceira pessoa: “Recebe o ‘Prêmio Esso’ de reportagem Econômica por um trabalho na Veja sobre a distribuição de renda.” Bonito. O site do Prêmio Esso confirma. Ganhou CR$ 5 mil (para os mais jovens, cinco mil cruzeiros, a moeda de então) pela reportagem “A renda dos brasileiros”, publicada na edição de 7/6/1972.

O Prêmio Esso não mente: a reportagem é mesmo de PHA. Isso pode ser comprovado pela leitura da “Carta ao leitor”, assinada por Mino Carta, que editava a revista, segundo o próprio PHA, com total independência, sem dar ciência aos patrões sobre o que publicava. Na carta, está dito que PHA “conseguiu a mais autorizada análise dos dados essenciais do estudo do professor Langoni e, em geral, das questões mais importantes da renda dos brasileiros”. A reportagem é dele mesmo. E, como não poderia deixar de ser, é vergonhosamente uma reportagem chapa branca. Uma tristeza.

Apesar de ter conseguido destroçar aqueles que pegaram em armas para combatê-la e de se orgulhar de um crescimento econômico de dois dígitos, a ditadura sentia um desconforto enorme: números do Censo de 1970 mostravam uma brutal concentração de renda. A oposição, quando podia, não deixava de apontar para essa ferida. O que fez então a ditadura, com o apoio de jornalistas como PHA? Encomendou um estudo para desmentir os números do Censo, que havia sido divulgado no início daquele ano.

E PHA escreveu uma reportagem como que a indagar: “Concentração de renda? Dores do parto de nossa grandeza!” São nove páginas para provar que a concentração existia, mas era transitória e até um bom sinal. Quando a ditadura, pela primeira vez, se sentia no corner, acusada de enriquecer os ricos e empobrecer os pobres, Paulo Henrique Amorim lançou uma tábua de salvação. Fez, não uma reportagem, mas uma peça de propaganda da ditadura, como se verá.

PHA, como sempre, começa tortuoso:

“A expressão ‘distribuição de renda’ adquiriu mágicos poderes de persuasão. Bastava enunciá-la para subitamente surgir um poderoso arsenal de dúvidas e suspeitas sobre os sucessos da economia brasileira. Principalmente depois da divulgação dos dados preliminares do Censo de 1970, no início deste ano, quando, sem sofismas ou malabarismos estatísticos, ficou possível localizar uma desagradável concentração.  (…) Um economia que atribui a 28% de sua população uma renda inferior a 99 cruzeiros, como mostra a tabela acima, seria certamente uma economia frágil. Porém, um recente estudo encomendado pelo Ministério da Fazenda e que se utiliza, inclusive, de dados do Censo, mostra que o adjetivo frágil no caso é impróprio.” (…)

Ou seja, de cara, PHA já repudia a tese de que a economia do Brasil era frágil. A seguir, já parte para acuar a oposição de então:

(…) “Também no Brasil, a questão da distribuição da renda deixou, inevitavelmente, de ser um tema apenas econômico para engrossar os cáusticos argumentos dos que alimentam insatisfações políticas. No caso, o argumento era ainda mais contundente porque se sustentava em números insuspeitos do Censo – um trabalho do Instituto Brasileiro de Estatística, vinculado ao Ministério do Planejamento. Há pouco tempo, Roberto de Oliveira Campos, ex-ministro do Planejamento,escreveu um artigo sobre distribuição de renda e utilizou como epígrafe um frase que ele mesmo já recorrera em vários artigos: ‘As estatísticas são como biquíni: o que revelam é importante; o que ocultam, essencial’. O economista Mario Henrique Simonsen, em discurso recente, inventariou, então, os motivos por que as estatísticas do Censo sobre a distribuição de renda poderiam estar ocultando o essencial. Os censos distribuem a população remunerada – explica Simonsen – em apenas oito classes de renda. As duas extremas, as do que ganham menos e mais, são abertas, isto é, indicam o número de indivíduos com renda menor do que x e maior do que y. Para estimar a renda média dessas classes, costuma-se apelar para o ajustamento de certas curvas estatísticas, o que provoca muitas vezes erros graves.”
E, então, a reportagem nos traz um momento curioso. Há pouco tempo PHA tripudiou do conceito de renda não monetária, e disse que é um absurdo supor que um pobre é um pouco menos pobre por ter uns porcos no quintal, um roçado. Em 1972, quando adulava a Ditadura, ele não pensava assim. Veja o que PHA escreveu para explicar os erros a que Simonsen se referia:

“Simonsen mostra ainda que os dados dos censos se referem à renda monetária recebida pelos indivíduos, e isso, de alguma forma, distorce as comparações, pois não são computados os serviços gratuitos prestados pelo governo, as diferenças regionais de renda e, ainda, a renda não monetária derivada do autoconsumo – as roças do fundo do quintal, onde algumas famílias plantam o mínimo necessário para a subsistência.”

E PHA prossegue:

“Finalmente, Mário Henrique Simonsem fornece outro argumento para se desconfiar de que o Censo está ocultando demais: os dados classificam as rendas por indivíduos Se classificassem as rendas por famílias, os resultados nas camadas mais pobres seria provavelmente melhores, pois exatamente entre os mais pobres há um número maior de pessoas trabalhando numa mesma família. Já que o Censo era muito sovina com suas informações, o governo decidiu patrocinar estudos mais completos. O Ministério da Fazenda financiou o Instituto de Pesquisas Econômicas da Faculdade de Economia e Administração da USP, que incumbiu Carlos Geraldo Langoni, 27 anos, um de seus mais jovens e talentosos professores, de realizar a tarefa.” (…)

E quem divulgou na capa de uma grande revista esse estudo contra o Censo, acolhendo-o como verdadeiro? Paulo Henrique Amorim! Ele enumera os achados do estudo do Governo:

“Foi bastante expressiva a redução da população economicamente ativa (os que trabalham e têm algum tipo de renda) que vive no campo e, paralelamente, houve um aumento dos que foram para as cidades; em nenhuma das categorias chegou a haver diminuição dos rendimentos – ou seja, todos, com exceção dos analfabetos, que ficaram praticamente onde estavam em 1960, melhoraram de renda; aumentou drasticamente a proporção dos que na população economicamente ativa têm um nível de instrução superior ao primário (além da diminuição do número de analfabetos); quanto mais alto o nível de instrução, maiores os ganhos em renda;e, finalmente, uma descoberta de valor inestimável – a renda é pior distribuída na cidades que no campo e vai ficando mais concentrada à medida que se passa dos analfabetos para melhores níveis de instrução. (…) Porém, parece sintomático que nenhum dos setores da população tenha perdido dinheiro na década.”

E para confirmar o estudo da ditadura, PHA foi buscar, distorcendo-o, um estudo de um economista que, anos depois, se tornaria um de seus maiores desafetos: José Serra. Seria engraçado, se não causasse enjôo (mas mostra, pelo menos nesse ponto, coerência, com PHA no campo oposto de Serra):

“Aliás, até um estudo, ‘Além da Estagnação” de autoria de M.C.Tavares e J. Serra [isso mesmo, José Serra], economistas da Cepal, com sede em Santiago do Chile, tradicional opositora da política econômica brasileira, admite: ‘O esquema de distribuição de renda em 1970 mostraria uma maior taxa global de desigualdade, uma maior concentração na cúpula, se comparado com 1960; em compensação, tanto os grupos médios alto quanto os médios em seu conjunto aumentaram significativamente sua participação na renda.’”

E, então, PHA dá a grande notícia: se houve concentração de renda, ela era apenas transitória. Por quê? Porque a educação oferecida ao povo pela ditadura não parava de melhorar. Querem piada melhor? Pois leiam:

“Outro dado revelador é que aumentou brutalmente a oferta de educação para os níveis ginasial, colegial e superior. (…) Conclui-se daí que a concentração de renda é maior nas cidades e entre os universitários porque a agricultura não faz grandes distinções entre os qualificados e não qualificados; e porque a rápida evolução da economia exigiu uma mão de obra qualificada. Como não havia suficiente oferta para essa demanda no primeiro momento, ocorreu uma valorização brusca dos que tinham diploma universitário, colegial ou ginasial. A educação parece ser, portanto, a maior causa da diferenciação da renda e do aumento da desigualdade na década de 60. (…) A situação brasileira seria grave se a concentração da renda estivesse aumentando ao mesmo tempo que diminuíssem as possibilidades de acesso à educação. O que acontece é exatamente o contrário. Parece estar havendo uma ampliação das oportunidades, pois a base de lançamento – o acesso á educação – é cada vez mais ampla. (…) No momento em que a oferta [de educação] for se ajustando à demanda, haverá ma redução das desigualdades – o país será mais qualificado e a renda melhor distribuída.”

E PHA termina triunfante, para a alegria da ditadura:

“Os números sobre a distribuição de renda indicam que o Brasil está apenas pagando o preço do seu desenvolvimento.(…)”

A reportagem, para cumprir tabela, traz também um artigo de Albert Fishlow, já na época, aos 36 anos, um especialista em Brasil (hoje ele é diretor do Instituto de Estudos Latinos Americanos e do Centro para Estudos Brasileiros da Universidade de Columbia). Fishlow era dos maiores críticos da política econômica dos militares, pondo o dedo na ferida: ela era desgraçadamente concentradora de renda. Mas Paulo Henrique Amorim, ao introduzir o artigo, trata de antecipar que não concorda com ele: “Veja considera poucos realistas muitas teses de Fishlow – mas encomendou o seguinte artigo para permitir uma visão mais completa dos argumentos que alimentam o debate em torno da distribuição da renda dos brasileiros.” Argumentos, evidentemente, desmentidos pela reportagem de PHA.

Aquela edição traz também uma entrevista de PHA com Delfim Netto, o todo-poderoso ministro da Fazenda da ditadura. Para um desavisado, a entrevista pode parecer correta, com perguntas que vocalizam os argumentos da oposição de então. Mas, na verdade, para usar uma metáfora inspirada no vôlei, PHA levanta para que Delfim cortar. E, o mais importante, Delfim convenceu PHA de cabo a rabo, pois todas as teses do então czar da Fazenda foram acolhidas na reportagem que ele publicou. Basta verificar que o fecho da reportagem de PHA é quase integralmente uma cópia de uma das respostas de Delfim:

PHA: “(…) Não seria justo exigir uma distribuição melhor de uma economia que cresce tanto?”

Delfim: “Não creio. O que se pode exigir é o seguinte: um processo de rápido crescimento tende a gerar um processo de melhor distribuição. Essa experiência é universal. O que eu acho é que não é possível colocar essa distribuição como objetivo superior ao da produção. Se não, você acaba querendo distribuir o que não existe.”

Em outra resposta, Delfim disse:

“Os dados agora levantados [por Langoni] não dão ao Brasil nenhuma grandeza maior. É apenas um caso típico de desenvolvimento econômico. Mas os dados também não deixam o Brasil numa posição incômoda quanto à dua distribuição de renda.”

Ou como disse PHA no fim de sua reportagem, acolhendo integralmente as teses de Delfim:

“Os números sobre a distribuição de renda indicam que o Brasil está apenas pagando o preço do seu desenvolvimento.(…)”

Taí um Prêmio Esso que não dá orgulho a ninguém. Em vez de deixar a ditadura acuada, com os inequívocos dados do Censo, PHA preferiu dar guarida a um estudo cujo objetivo foi servir de bóia de salvação. Só PHA mesmo.

Abaixo, a íntegra da reportagem, reproduzida do Acervo Digital da revista Veja

A edição em que Mino Carta pugnou pela pena de morte para os “terroristas”

Prometi ontem publicar a íntegra da edição da revista Veja nº 54. Ela chegou às bancas em 17 de abril de 1969, ao fim de uma semana agitada pelo sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick e pela adoção da pena morte, que seria apicada contra os “terroristas” — termo usado para qualificar a guerrilha de esquerda. A edição constitui um importante documento histórico. Revela como jornalistas se dispunham a prestar apoio aos mais cruéis métodos de perseguição e constrangimento  na luta suja contra a subversão.

A revista era chefiada por Mino Carta. A autonomia do editor plenipotenciário é atestada por um homem que logo depois se integraria à equipe: Paulo Henrique Amorim. Segundo ele,  “como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

A revista não fazia questão de esconder seu engajamento ao governo que protagonizou o mais bárbaro período da ditadura militar. Chegou ao descalabro de publicar, nessa edição, um trecho do relatório de um repórter que deixa claro  a serviço de quem realmente estava . No texto, que reproduzo ao lado,o repórter diz o seguinte: ”Se for outra semana como esta, meu velho, não sei onde vou parar, eu, guerreiro cansado de uma luta particular contra a subversão“. Numa alusão implícita à tortura, o jornalista se confessa assaltado por sonhos com “presos gritando em volta da minha cama”.

A publicação desse relatório explicita de que lado estavam Mino e seus áulicos da ditadura. A revista aceitava e propalava seu engajamento ao absorver a observação do repórter, endossá-la a publicá-la.

Os absurdos decorrentes desse engajamento produziram aquela que é talvez a página mais abjeta do jornalismo da imprensa golpista de então — goslpista porque se prestava não apenas a apoiar, mas também a funcionar como peça de propaganda da ditadura.

A releitura dos textos de Veja, disponíveis gratuitamente no Acervo Digital do site da revista, revela que o engajamento não se limitava à cobertura. Ele se expandia também para a propaganda da doutrina sobre a qual o regime se sustentava. “Os episódios [da semana anterior] se avolumam e empurram a junta militar para decisões inevitáveis mas, ao mesmo tempo, de altíssima responsabilidade: a pena de morte, o banimento e a prisão perpétua contra os subversivos”, é o que se pode ler no corpo da reportagem de capa.

Este Blog tem por política não descontextualizar declarações para construir a crítica política. Por esta razão, publico a íntegra das reportagens do número 54 de Veja, conforme havia prometido ontem.

No link abaixo você vai encontrar as doze páginas com três reportagens. Vale a pena lê-las do começo ao fim. Talvez, depois disso, seja possível entender outra manifestação do próprio Mino Carta, em entrevista ao programa Provocações, da TV Cultura no ano passado. A entrevista está publicada integralmente neste blog e pode ser acessada aqui.

Nela, Mino Carta assume que  ”por um certo período eu agi como um mercenário (…). Quem me pagava, me tinha”. A frase, que poderia representar o epitáfio moral de qualquer  jornalista, talvez ajude a entender o comportamento de Mino Carta nos anos mais sangrentos da ditadura militar.

Sob Mino,Veja defendeu em editorial a pena de morte, o banimento e a prisão perpétua dos “subversivos” em 1969

“Syzeno Sarmento, Jarbas Passarinho, Garrastazu Médici, Orlando Geisel, Albuquerque Lima, Lyra Tavares – entre meia dúzia de personalidades que aparecem na capa desta edição pode estar um novo presidente da República. Além destes, há muitos outros nomes de prestígio e responsabilidade que, por sua própria projeção, ganham condições de candidatos a candidato.”

Era assim, de forma elogiosa e subserviente, que Mino Cara assinava (literalmente) a Carta de Leitores como editor da revista Veja, em 17/9/1969, quando especulava sobre quem substituiria Artur da Costa e Silva, o marechal abatido por uma trombose em agosto daquele ano e, desde então, substituído no poder por uma junta militar. Na reportagem, intitulada “Discute-se a sucessão”, Mino defendia medidas horripilantes. Não, não era a revista que ele editava que defendia os atos que serão narrados a seguir. A confiar no seu admirador, que com ele trabalhava à época, Mino escondia a revista dos patrões, para poder escrever nela o que bem entendesse. Paulo Henrique Amorim escreveu solene em seu blog: “Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.” Acreditamos nele. E o que Mino escreveu ou mandou escrever na reportagem? Leiam a seguir:

“ A Junta, além de desde o início se ter qualificado como solução temporária, tem outros problemas.. De acordo com os propósitos  do Ato Institucional nº 12, reafirmados no comunicado de quarta-feira passada, a Junta se comprometeu a aplicar os planos de governo de Costa e Silva, que previam a reabertura do Congresso e uma nova Constituição. Mas desde o seqüestro do embaixador americano o combate à subversão ficou sendo o primeiro objetivo da Revolução. Os três ministros não se sentem autorizados a ordenar meia-volta no caminho traçado e percorrido pelo Presidente. Como ministros militares, têm de tomar providências contra a subversão, as mais drásticas, como as que marcaram a semana passada. Os acontecimentos, até por obra de coincidências, se avolumam e empurram a Junta para decisões inevitáveis, mas, ao mesmo tempo, de altíssima responsabilidade: a pena de morte, o banimento e prisão perpétua contra subversivos, confisco de bens contra corruptos e cassações contra políticos, sem poupar até mesmo um ex-ministro de João Goulart, Oliveira Brito, secretário de Minas do Governador Luís Viana Filho. Tão inevitável como essas decisões é a necessidade de ao país um governo normal, não temporário.”

É Mino Carta, e seus escribas, por ordem sua, defendendo a pena de morte, o banimento e a prisão perpétua de brasileiros. Atos horripilantes. Repulsivos. Mas que saíram da pena dele, sem dó nem piedade, porque, para ele, eram inevitáveis, soluções as mais drásticas, que precisavam ser tomadas. Esse é o Mino que posa agora de democrata. Na entrevista à Antônio Abujamra, no programa Provocações, de março do ano passado, na TV Cultura, Mino disse que não chega perto de um computador, porque teme ser comido por aquela ‘bocarra’. Hoje, sabemos por quê. Ele temia ser comido pelos arquivos digitais de Veja, abertos ao público, que denunciam o seu passado trevoso (um adjetivo que ele gosta muito de usar).

Nota do blogueiro: vou publicar a íntegra da reportagem mencionada mais tarde. Ela está disponível no Acervo Digital da revista Veja.

Eles por eles: Mino Carta por Mino Carta

Não vou tecer nenhum comentário. Você assiste, você analisa, você conclui, depois você comenta, se quiser. A entrevista, concedida a Antônio Abujamra no ano passado, está dividida em três partes. Quando uma acaba, começa a  outra automaticamente.

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Imprensa Golpista: Como os editores de Veja comemoram o sexto aniversário da “Revolução” de 64

Reprodução do livro "A Vida Quer é Coragem, de Ricardo Amaral

Dilma enfrenta seus algozes com dignidade...

A foto acima, descoberta pelo jornalista Ricardo Amaral e publicada em seu livro “A Vida Quer é Coragem”, é o emblema de um dos período mais tristes da história brasileira. Aos 22 anos de idade, a militante Dilma Rousseff enfrenta a corte militar com altivez  e dignidade — enquanto seus algozes, envergonhados, escondem o rosto. Os signos aí expostos denotam de maneira contundente o embaraço moral reservado aos que tinham, por ofício, o dever de defender (ainda que no contexto das instituições golpeadas) a ditadura brutal que se instalara no País seis anos antes.

Reprodução do Acervo Digital de Veja

... enquanto o editor de Veja enaltecia o "único antídoto de seguro efeito contra a subversão".

Mas nem todos os brasileiros se sentiam constrangidos em apoiar enfaticamente o regime dos quartéis que aposentou a política, calou a imprensa e perseguiu de maneira atroz e determinada os que a ele se opunham. Naquele momento da história , a revista Veja, a exemplo de vários outros órgãos da imprensa brasileira, apoiava declaradamente o golpe de 64. Alguns jornalistas que lá trabalhavam faziam uma defesa entusiasmada do regime. O texto que reproduzo ao lado é parte da Carta ao leitor da edição número 82, de 1º de abril de 1970. Foi escrito e assinado pelo jornalista Mino Carta.

Deve-se reconhecer que, anos depois, Mino se lançou de corpo e alma nas várias campanhas pela reinstitucionalização do Brasil. Mas, naquele momento complicado da vida institucional de País, ele e a revista que dirigia estavam em outra condição — a de áulicos do regime militar. Não é necessário mais do que uma releitura dos arquivos do Acervo Digital de Veja, que podem ser consultados gratuitamente por qualquer um, para a checagem da veracidade desta afirmação.

Pode-se argumentar que os jornalistas eram acossados pelos censores. Eram mesmo. Quando Vladimir Herzog foi morto, anos depois, Veja saiu sem a seção Brasil. Imagino que todo o material que se pretendia publicar tenha sido  censurado. Porque era exatamente isso o que  censura oficial fazia: suprimir.

Não obstante, não há registro de que a vigilância do Estado sobre a imprensa tenha feito com que um jornalista escrevesse, contra suas convicções e o universo fático,  elogios ao regime.

Nas páginas da edição 82, os militares (como os que escondem a cara na foto que antecede este post) são descritos desta forma: “Esses homens saídos dos quartéis destrincharam aos poucos as sutis malhas da crise brasileira. Para enfrentá-la dispunham da formação idealista e combativa que receberam nas escolas e unidades e da unidade de objetivos que cultivaram na vida da tropa”. Longe dos olhos da opinião pública, outra ala de “idealistas combativos” submetia a atual Presidente às mais abjetas formas de tortura durante 22 dias consecutivos.

A matéria descreve os milicos dos anos 70 como homens que, “entre o apego às origens [humildes] e o fascínio pela pompa que revestia o poder, preferiram desmistificar a importância dos cargos” . E segue enaltecendo os hábitos austeros da nova burocracia de farda. Homens que “perceberam que havia outras tarefas, além do combate à subversão e à corrupção — e pensaram no futuro”, como se pode ler na Carta ao Leitor.

A linha-dura do regime mereceu menções elogiosas à parte.  Veja afirma que “o militar que em 1964 lutava contra a subversão e a corrupção, hoje, sem transigir com nenhum dos seus antigos inimigos, está empenhado ao mesmo tempo na construção de uma nova política social e econômica para o País”. Seria uma referência velada ao militar de 68 em diante, quando o monstro da ditadura se apresentou com sua pior face após o fechamento do Congresso,  a edição do AI-5 e a supressão do habeas-corpus?

Sem esboçar a mais dócil crítica ao governo, a reportagem foi prodigiosa em apontar as conquistas do regime. “A ação dos militares em cargos técnicos deu resultados surpreendentes em muitos casos”, pontifica o texto. Um dos personagens enaltecidos é o então Coronel Cesar Cals Filho, que “mora em casa alugada, não tira férias de 1958 e só janta em restaurantes aos domingos, em companhia de toda a família”.

Ao final da reportagem, Veja assevera que “para alguns setores, os militares representam uma intromissão estranha, que modifica radicalmente o jogo social, econômico e político; para outros, ao contrário, a intervenção dos militares é recebida como a última — e única — alternativa à preservação do regime”. Para concluir que, até a chegada do momento de devolver o Poder aos civis, “os militares continuarão a exercer o poder político com o mesmo sentido de missão a cumprir que um jovem oficial cultiva, comandando uma companhia de fronteira, ou que um velho general aplica no último posto de comando”.

Imagino o que teria sentido aquela menina de 22 anos da foto ao ler essa reportagem entre um choque elétrico e uma sessão no pau-de-arara. Imagino também que a farsa engendrada pela Imprensa Golpista de então — aquela que idolatrava o golpe — tenha relação com a altivez dos olhos da prisioneira Dilma Rousseff. E que o o contraste entre o mundo dourado  da oficialidade, projetado por reportagens como essa, e o mundo real dos porões, seja a causa da vergonha que deve ter levado os juízes da ditadura a esconder o rosto do fotógrafo. Os homens sem rosto sabiam o que estavam fazendo.

Os editores de vejam, também.

abaixo, a íntegra do texto, que pode ser lido também no Acervo Digital da Revista Veja.

Bajulação, ausência de crítica, subserviência e propaganda da ditadura. Era assim a Veja de Mino Carta e PHA em 1970

1º de julho de 1970. Naquele dia, quando chegou às bancas a edição de número 95 da Revista Veja, o País ainda purgava o delírio coletivo produzido pela conquista da Taça Jules Rimet na Copa do México. Em 12 página recheadas de fotos ufanistas, Veja pintou um quadro magnífico da situação política do País, enalteceu o patriotismo do presidente de então, o General Emílio Garrastazu Médici, e teceu loas à propaganda oficial.

Nas três reportagens publicadas sobre o assunto,  nenhuma menção à tortura, às prisões arbitrárias e aos desaparecimentos. O objetivo implícito do material editado não poderia ser outro que não o de promover a ditadura, o ditador e seus ditames.

A primeira das três retrancas tinha como título “A Imagem do Sucesso”, manchete da reportagem principal. Ela dava conta da generosidade do general que, contraiando conselhos de seus assessores, decidiu abrir o Palácio do Planalto aos torcedores em vez de receber os jogadores no Alvorada.

No texto há elogios em profusão. E também demonstrações ostensivas de subordinação e submissão ao regime. Começa descrevendo a “solenidade” da chegada de Médici ao Planalto na terça-feira anterior. “70.000 pessoas estavam concentradas desde cedo” quando o general chegou “erguendo os braços num gesto largo e instintivo para agradecer os aplausos que vinham da multidão”. ”Quando o General Médici entrou, foi recebido por outra salva de palmas. ‘Ele estava alegre e descontraído’, comentou um ministro”, prossegue a reportagem, para concluir que “surgia naquele momento uma evidente demonstração de simpatia popular ao governo”. Puxa-saquismo explícito.

Para a Veja de Mino Carta, a concessão feita por Emílio Médici ao abrir o Palácio para o povão era produto de vários fatores. Principalmente de sua identificação como torcedor sincero, mas também por atitudes  como as que ele protagonizara em face do problema da seca do Nordeste, que o ditador fora conhecer pessoalmente na semana anterior, oportunidade em que teria atuado “com a sensibilidade de um político interessado na conquista da opinião pública”. A isso, Mino Carta e seus editores chamaram de “feliz associação”.

A propaganda da ditadura foi qualificada como um “trabalho cuidadoso e aparentemente econômico” para a construção de uma imagem positiva. Não mereceu nenhuma ressalva o fato de que os filmetes produzidos para o cinema e a televisão tinham como alvo as crianças em idade escolar.

Veja engoliu do Coronel Otávio Costa, que chefiava a Assessoria de Relações Públicas da Presidência, a afirmação de que as peças não poderiam ser encaradas como propaganda convencional, e sim como “uma tentativa de de criação de um clima de otimismo, (…) colaborando com a educação moral e cívica do povo e sobretudo dos jovens”.

A terceira reportagem aparece sob o título “A Maioria Silenciosa”. Ela tenta explicar o surgimento daquele que se transformaria no mais cruento bordão produzido pela ditadura militar: “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”. A edição 95 dedica uma página inteira à gênese da campanha odiosa. Atribui a origem do slogan a uma iniciativa análoga do Governo Nixon para enfrentar o movimento pacifista que se opunha à Guerra do Vietnã. O dístico “passou a ser visto com frequência em para-choques e para-brisas de carros e ônibus” dirigidos pelos operariado urbano e pela classe média, cansados “das agitações estudantis, das rebeliões dos negros e das críticas à posição do governo em relação à guerra”.

Reproduzo, abaixo, a íntegra das reportagens. Sua releitura atenta pode não ajudar a enterder o que de fato se passava no Brasil de 1970 pelo simples fato de que a revista havia adotado um lado — o lado da farda. Mas constitui uma ferramenta fundamental para explicar como jornalistas engajados trabalharam como peças auxiliares para a conformação da imagem positiva do governo na pior fase da longa ditadura brasileira, transformando-se em áulicos do regime de exceção.

As responsabilidades pelas posições equivocadas, pelas posições evidentemente engajadas, neste caso não podem ser reputadas nem à censura oficial, nem à censura patronal. Recorro à afirmação que encontrei hoje no site de Paulo Henrique Amorim para embasar essa afirmação. Segundo ele, “Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) [Civita, dono da Editora Abril] lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar”.

O mais incrível é que esses mesmos áulicos se arvoram em defensores de governos contra uma paranoica conspiração da imprensa indepentente, por eles batizada de PIG — Partido da Imprensa Golpista.

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