Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

Archive for the category “Lei da Transparência”

Empresas estatais resistem e confrontam Lei de Acesso

Embora prometam lançar na próxima quarta-feira portais próprios de transparência, como determina a lei sancionada no fim do ano passado pela presidente Dilma Rousseff, na prática as estatais resistem a divulgar dados de interesse público que, de acordo com a propaganda oficial, já deveriam estar disponíveis. Links para acesso a informações de diárias e passagens, licitações, contratos e convênios estão há meses nos sites dos bancos oficiais, mas os dados não aparecem para o cidadão que tenta acessá-los.
As estatais admitem o problema e não garantem uma solução logo. A desculpa é sempre a mesma. Segundo o Banco do Brasil, “por problemas operacionais, os dados estão indisponíveis”. O BNDES alega que ainda “está trabalhando para viabilizar tecnicamente a colocação dos dados”. A Caixa Econômica Federal fala em necessidade de “adequações tecnológicas para gerar os arquivos com as informações”.
Nos próximos dias o governo publicará o decreto de regulamentação da Lei de Acesso e, internamente, as estatais pressionam para que o texto não comprometa a atuação das empresas no mercado ou dê vantagem a competidores. A preocupação é levada em conta pelo governo, que reconhece a importância de garantir a atuação competitiva das empresas de economia mista e também a preservação de sigilos bancários.
Mas o mesmo argumento já é usado pelas estatais para impedir a divulgação de dados simples, como a relação de patrocínios oferecidos pelas instituições, por exemplo. Atualmente essa informação é colocada de forma dispersa. O Banco do Brasil disse se tratar de “informação de cunho estratégico”. A Caixa disse que só divulgará se garantida a “preservação de estratégia empresarial” do banco.
O BNDES divulga uma relação de seus patrocínios, mas precisará readequar o seu site. A Lei de Acesso garante ao cidadão a consulta nos portais por meio de ferramentas de busca, o que não é possível no formato atual.
A Petrobras se recusou a dizer se disponibilizará a lista de patrocínios, sob o argumento de que aguarda a publicação da regulamentação da lei. A empresa não quis dizer também se divulgará o salário da direção, relatórios de viagens realizadas e os detalhes de seus contratos.
Sobre viagens de dirigentes, o Banco do Brasil informou que continuará disponibilizando relatórios de viagens internacionais de seus dirigentes apenas no Diário Oficial, o que também contraria a lei, que exige a divulgação em formato acessível para pesquisa dos interessados.
— A lei prevê que informações que comprometam a empresa na competição não sejam divulgadas. Mas você tem certos dados, como o patrocínio realizado por uma empresa pública, onde o risco da divulgação é mínimo, até porque a informação já existe — diz o especialista em transparência pública da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, Fabiano Angélico.
Ele lembra que outros países criaram leis com mecanismos de teste de danos às empresas públicas, onde um comitê se reúne para avaliar o grau de interesse público e o dado eventual em caso de divulgação .
— Infelizmente a lei brasileira não entrou nessa questão — lembra Angélico, que também critica a falta de criação de um órgão específico para tratar de informações públicas no governo, fato que dificulta a consolidação de jurisprudência do assunto e abre entendimentos conflitantes sobre o assunto.

viaEmpresas estatais resistem e confrontam Lei de Acesso – O Globo.

Governo corre para se adaptar a nova lei de Acesso à Informação

A três dias da entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação, ministérios, órgãos e estatais correm para colocar em funcionamento as salas de atendimento ao público, uma exigência legal.

A lei, sancionada em 18 de novembro do ano passado, regulamenta o acesso a informações públicas e sigilosas.

A partir de quarta, quando ela entra em vigor, os órgãos terão prazos definidos para responder aos pedidos, e o servidor que descumprir a lei poderá ser punido -pode até sofrer processo por improbidade administrativa.

Os efeitos da lei se estendem aos três Poderes da União, Estados e municípios.

Segundo a lei, os órgãos devem colocar em funcionamento os SICs (Serviços de Informações ao Cidadão), que devem ter “condições apropriadas” para acolher os pedidos e orientar o público sobre o acesso a informações.

De acordo com o governo, uma sala com cadeiras, recepcionista e identificação visual própria, onde a pessoa pode protocolar seus pedidos e receber as respostas.

De 52 órgãos do Executivo, Judiciário e Legislativo, bancos e empresas públicas consultados pela Folha na semana passada, apenas 12 (ou 23% do total) declararam que seus SICs já estavam abertos e em funcionamento.

Quatro deles, na verdade, são setores que já existem há anos, como a Ouvidoria do TCU (Tribunal de Contas da União) e a Central do Cidadão do Supremo Tribunal Federal, agora com novas funções.

RETA FINAL

A maior parte dos órgãos consultados (37), incluindo a Presidência da República, promete colocar em atividade seu SIC no dia em que a lei entrar em vigor. A Câmara dos Deputados e o Senado também prometem abrir as salas na quarta-feira.

O governo federal anuncia ainda que vai inaugurar um sistema informatizado que permitirá ao cidadão, pela internet, protocolar e acompanhar os pedidos e receber as respostas e os alertas sobre os prazos dos recursos dos pedidos indeferidos. O sistema, batizado de “e-SIC”, deverá entrar no ar no dia 16, hospedado no site da CGU (Controladoria Geral da União) na internet.

“SENSIBILIZAÇÃO”

Coube à diretora de Prevenção da Corrupção da CGU, Vânia Lúcia Ribeiro Vieira, o papel mais direto de acompanhar e orientar, no âmbito dos ministérios, fundações e autarquias federais, as medidas para cumprimento da lei.

O chefe da CGU, Jorge Hage, já afirmou em entrevistas considerar que a preparação de Estados e municípios para aplicar a lei é bem mais precária e preocupante.

Vânia reconhece que tudo será inútil se não houver uma “mudança de mentalidade”: da “cultura do segredo” para a “cultura da transparência”.

Se os pedidos começarem a ser indeferidos de forma indiscriminada, os órgãos serão arrastados a longas discussões judiciais.

“Não se faz da noite para o dia, é uma questão cultural”, disse Vânia, para quem o exemplo deve vir de cima. Em vários ministérios, os ministros compareceram às palestras. A CGU diz ter feito “workshops de sensibilização”. Segundo o órgão, todos os 38 ministérios estarão prontos para cumprir a lei a partir de quarta-feira.

Algumas manifestações dos órgãos consultados pela Folha permitem prever o que deve ocorrer a partir de quarta. No Executivo federal, até pelo treinamento oferecido pela CGU, espera-se comportamento padronizado. Mas há incógnitas em outros setores.

A Câmara dos Deputados, por exemplo, diz que a partir de quarta seu SIC receberá o cidadão e, “a depender da natureza” da solicitação, o “encaminhará” ao órgão adequado. A lei, contudo, não diz que a tarefa essencial do SIC seja fazer “encaminhamentos”, mas sim já protocolar e processar o pedido.

A divulgação ou não de algumas informações consideradas mais sensíveis, como a folha de pagamento detalhada dos servidores, também deverá gerar controvérsia.

Alguns órgãos dizem aguardar decreto da presidente Dilma Rousseff regulamentando os procedimentos, ainda sem data para ocorrer.

viaFolha de S.Paulo – Poder – Governo corre para se adaptar a nova lei – 13/05/2012.

Verdade e transparência

Fernando Rodrigues

Quando a política se une ao marketing é raro haver coincidências. A presidente Dilma Rousseff escolheu a próxima quarta-feira, dia 16, para dar posse aos integrantes da Comissão da Verdade. É nessa mesma data que entra em vigor a Lei de Acesso à Informação.

Não está claro se a Comissão da Verdade será capaz de cumprir sua missão. Há também mais dúvidas do que certezas sobre a Lei de Acesso. Mas, no dia 16, o governo baterá bumbo. Anunciará um Brasil novo, aberto e transparente.

Ontem, em Minas Gerais, Dilma desviou-se do cerco de sua segurança e foi cumprimentar manifestantes ambientalistas que pediam a ela o veto integral do Código Florestal aprovado pelo Congresso.

Nas últimas semanas, depois de malhar sem dó (e com razão) os bancos privados pelos altos juros cobrados, Dilma anunciou uma mudança nas regras das cadernetas de poupança. Quebrou um tabu que persistia há décadas. A estratégia deve ter custo zero para sua popularidade.

Aos poucos, Dilma constrói uma imagem sólida sobre suas convicções. Amanhã, Dia das Mães, ela anunciará mais um programa social -destinado a famílias com filhos pequenos.

A oposição enxergará, com razão, marketing em todas essas ações presidenciais. O Planalto negará, sempre. Mas, e se houver marketing? O problema central não é este, até porque há anos o Brasil não tinha uma presidente que falasse tão pouco -basta lembrar de Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula.

Dilma está fazendo apostas relevantes. Será julgada pelos resultados de suas promessas. Se a Comissão da Verdade conseguir passar a limpo a história recente do Brasil, o ganho institucional será enorme. Se a Lei de Acesso entrar em vigor para valer, idem.

Por enquanto, apesar do marketing, só é possível dizer que Dilma opera com mais destreza do que a oposição desejaria.

via Folha de S.Paulo – Opinião – Verdade e transparência – 12/05/2012.

Falta uma semana para a Lei de Acesso à Informação começar a valer

A partir de 16 de maio, portanto dentro de sete dias, passa a vigorar plenamente a Lei de Acesso à Informação. É um instrumento democrático vital para o aprimoramento da democracia brasileira.

A nova lei prevê que todos os documentos que não contenham informações sobre pessoas naturais e não estejam chanceladas como secreta ou sigilosa deverão ser colocadas à disposição de qualquer pessoa que as solicite.

O Blog do Pannunzio está preparando uma série de requerimentos de informação a empresas estatais que patrocinam os chamados “blogues progressistas”, que esta página eletrônica trata como BESTA (Blogosfera Estatal). Pedidos semelhantes foram negados no passado pela PETROBRAS e Banco do Brasil. A Caixa Econômica Federal, os Correios e o Governo do Rio Grande do Sul, ao contrário, informaram corretamente, respeitando os princípios da transparência que se pretende implantar no País.

Havendo nova recusa, o Blog vai percorrer todas as instâncias administrativas para obter as informações. Se houver necessidade, um advogado já foi contratado para tratar do assunto na esfera judicial.

O segredo como patologia

Fernando Rodrigues

Às vésperas da entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação, no próximo dia 16, a CPI do Cachoeira protagonizou ontem uma cena que se encaixaria à perfeição num filme do grupo de humor britânico Monty Python: uma sessão secreta sic na qual estavam presentes cerca de 50 pessoas, entre congressistas e servidores.Em regra, não deve haver segredo no Congresso. É a “Casa do Povo”. Na prática, querer manter em sigilo uma reunião com 50 participantes é tarefa inglória, patética ou as duas coisas juntas. Em CPIs anteriores era comum um deputado ou um senador deixar seu celular ligado e captando tudo para repórteres que ficavam do lado de fora.Ontem, no início da sessão dita secreta, houve uma tentativa de obrigar todos os presentes a deixar seus celulares do lado de fora da sala. A exigência não vingou.O depoente foi o delegado da Polícia Federal Raul Alexandre Marques Souza. Ele comandou a chamada Operação Vegas, que precedeu e deu origem à Operação Monte Carlo. Ambas desvendaram o esquema de negócios comandado por Carlos Cachoeira, raiz da CPI.Antes de serem entregues ao Congresso, documentos dessas operações vazaram copiosamente para a mídia. O delegado Raul, por dever de ofício, já colocou tudo o que sabe em seu relatório. A CPI tem acesso a esses documentos -bem como qualquer cidadão com alguma habilidade em navegar pela internet.Nada além de uma obsessão patológica pelo sigilo justifica o depoimento secreto de ontem. Da mesma forma, é ilógico impedir cada integrante da CPI de ter uma cópia da documentação sobre o escândalo. Só assim todos teriam como formar convicção sobre o que se passou.Ao perder tempo sendo bedel de deputados e de senadores, o comando da CPI desacelera o ritmo da investigação. Por tabela, ajuda quem deveria ser punido com rapidez.

via Folha de S.Paulo – Opinião – O segredo como patologia – 09/05/2012.

Juiz manda BNDES liberar documentos sobre empréstimos

O juiz Dario Ribeiro Machado Junior, da 5ª Vara Federal do Rio de Janeiro, determinou que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) autorize o acesso da Folha a relatórios internos sobre empréstimos feitos pela instituição.

A decisão foi proferida em mandado de segurança impetrado pelo jornal contra o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que se nega a fornecer cópias dos relatórios alegando que eles estão protegidos por sigilo bancário.

A ação faz parte do projeto Folha Transparência, conjunto de iniciativas do jornal para tornar públicos documentos sob controle do Estado. O BNDES deve recorrer contra a sentença, mas ontem ainda estudava o caso.

No ano passado, a Folha solicitou ao banco cópias dos relatórios internos que justificaram 432 operações com valor superior a R$ 100 milhões aprovadas entre janeiro de 2008 e março de 2011.

Todas as operações aprovadas no BNDES são examinadas antes pela burocracia do banco, que expõe suas conclusões em documentos conhecidos internamente como “relatórios de análise”.

Os relatórios descrevem a situação das empresas que pedem recursos ao BNDES, discutem as razões que justificariam o apoio do banco e os riscos de cada operação.

Na ação, a Folha sustentou que a recusa do BNDES em divulgar esses relatórios viola o direito à informação, garantido pela Constituição, e argumentou que os documentos deveriam ser divulgados porque o banco é financiado com recursos públicos.

O juiz Machado Junior atendeu parcialmente o pedido do jornal, autorizando apenas a liberação de documentos sobre operações com empresas públicas. Nas operações com empresas privadas, “deve prevalecer o sigilo bancário”, escreveu o juiz.

“A decisão é inédita e abre um precedente que vai guiar outros mandados”, disse o advogado Alexandre Fidalgo, que representou a Folha. O jornal vai recorrer da decisão, para tentar obter acesso também a dados sobre as operações com empresas privadas.

via Folha de S.Paulo – Poder – Juiz manda BNDES liberar documentos sobre empréstimos – 05/05/2012.

CGU, sobre a Lei de Acesso à Informação: Faça o que eu digo, não o que eu faço.

Faltam 27 dias para a Lei 12.527/11 passar a vigorar. Mas nem Controladoria-Geral da União, órgão encarregado de comandar o processo de adaptação da máquina pública à realidade ditada pela Lei de Acesso à Informação (ou Lei da Transparência), consegue se adequar às novas normas.

A lei estabelece prazo máximo de 20 dias para que órgãos da administração direta, indireta, estatais, fundações, sociedades de economia mista, empresas e entidades conveniadas com o Poder Púbico liberem informações sobre qualquer assunto que não tenha caráter pessoal ou seja qualificada formalmente como sigilosa.

No último dia 2 — 23 dias atrás, portanto — o Blog do Pannunzio encaminhou uma consulta à assessoria de imprensa da CGU questionando se sociedades de economia mista também estão obrigadas a abrir informações sobre os contratos de publicidade mantidos com blogues e sites na internet. Até agora, apesar de diversas reiterações, não houve resposta.

A partir do dia 16 de maio, quando a nova lei estará vigorando plenamente, os funcionários encarregados de responder ao questionamento estarão sujeitos a uma série de sanções se não cumprirem o prazo de 20 dias para finalizar a resposta — desde uma advertência formal até a demissão e a proibição de contratar com o serviço público.

No caso da CGU, o absenteísmo não é provocado pelos jornalistas da assessoria de comunicação. Eles próprios têm reiterado aos consultores  a necessidade de responder ao questionamento. Mas a área jurídica do órgão tem repetido que, até o momento, não houve tempo para isso, dados os inúmeros compromissos da equipe para disseminar os princípio emanados pela Lei da Transparência.

Ou seja: para fazer o proselitismo da nova realidade, a CGU descuida da prática e não consegue ela mesma cumprir prazos estabelecidos pela nova norma.

Na semana passada, Dilma Rousseff saudou o instrumento como uma das ferramentas legais mais importantes para o aprimoramento da democracia brasileira. E foi elogiada pela Secretária de Estados norte-americana Hillary Clinton como exemplo de combate à corrupção a ser seguido em todo o planeta.

Até o momento, portanto, a transparência imposta pela lei que Dilma sancionou em novembro passado teve apenas um efeito: o de produzir uma retórica para alimentar a agenda positiva da presidente, sem nenhum outro efeito visível até o momento.

A consulta do Blog nasceu de reiteradas negativas do Banco do Brasil e da PETROBRAS de tornar público o valor das verbas de propaganda injetadas no blog Conversa Afiada, o chefe da claque dos mensaleiros na internet. A Caixa Econômica Federal,os Correios e o governo do Rio Grande do Sul, ao contrário da CGU e das duas estatais, informaram célere e corretamente os valores, que alcançam quase R$ 1 milhão.

 

Dilma, que domesticou os bancos, ainda precisa dizer a que veio ao Congresso

Parecia uma dessas promessas que todo político faz quando Dilma Rousseff defendeu , ao longo da campanha que a elegeu Presidente da República, que iria reduzir os juros. Não apenas consegui reduzí-los, como ainda logrou dobrar o ânimo recalcitrante da banca privada, com seus históricos spreads de agiota.

A atuação do Banco Central e a disposição reiterada da Presidente colocaram fim a uma era em que tudo o que se dizia sobre o preço do dinheiro no Brasil era balela. Os anos Lula foram pródigos em demonstrar a ausência de disposição do governo para enfrentar o problema. Havia uma dicotomia clara entre o discurso do vice-presidente José Alencar, crítico contumaz da agiotagem, a retórica do Planalto e a prática do governo. Os bancos venciam sempre. E o governo tergiversava, transformando a causa de Alencar em uma romântica e solitária batalha quixotesca.

Ao cumprir o que prometeu, Dilma Rousseff, antes criticada pelos porta-vozes do sistema financeiro pela instrumentalização “política” do Banco Central, demonstra que o governo tem poder efetivo para transformar a conjuntura, a despeito da reatividade de agentes que sempre encontraram nos gabinetes de Brasília governantes dóceis em excesso, amáveis demais e, muitas vezes, servis. A Presidente fez um golaço ao retirar o Brasil do topo do ranking internacional dos juros pornográficos.

Falta agora atuar de maneira mais enfática no que diz respeito à moralização das relações entre o governo e o Congresso. É aí, como reiteram os escândalos políticos que têm assomado às manchetes, que reside a gênese dos principais problemas brasileiros, ameaçando inclusive a governabilidade. Para quem domesticou os bancos privados, esta não parece ser uma tarefa impossível.

O Palácio do Planalto dá sinais de que atua com foco nessa questão. É notável, por exemplo, a diferença entre as práticas de cooptação do governo Lula e a atuação pontual saneadora que vem sendo efetivada diante dos descalabros que à opinião pública são dados a conhecer. Sempre que surgia um novo escândalo, Lula vociferava contra a “imprensa golpista” que insistia em solapar sua obra messiânica. Proteger anjos caídos, blindá-los de todas as formas, consumiu muita energia nos últimos oito anos.

Logo no início do governo, Lula deixou claro como agiria quando um auxiliar aparecesse enredado em problemas com a Justiça. Para blindar Henrique Meirelles, por exemplo, o então presidente não titubeou em editar uma medida provisória elevando o status do presidente do Banco Central ao de ministro de Estado. Livrou-o de ter que responder a um processo na justiça comum e permitiu que ele governasse a economia e defendesse a moeda sem ter que se incomodar com juízes de primeira instância.

Para defender as hordas de aloprados que se sucederam nas manchetes escandalosas, Lula optou  por meter-se na trincheira dos denunciados. Quando teve a chance de livrar o País da ascendência deletéria de José Saney, na chamada crise dos Atos Secretos, preferiu destroçar Aloysio Mercadante, o líder do governo que, desmoralizado pelo Planalto,  até hoje paga por uma renúncia que não teve coragem de honrar. E comandou pessoalmente uma árdua batalha para salvar Renan Calheiros da degola no arrasto da crise aberta com a revelação de que utilizava um lobista para pagar a pensão alimentícia da jornalista Mônica Velloso.

Com Dilma Rousseff, é notória a guinada no enfrentamento desse tipo de situação. Ela já se livrou de sete auxiliares que tiveram seus pecados expostos nas páginas dos jornais. Enfrentou — ainda enfrenta — a insurreição do pernicioso fisiologismo parlamentar, que até aqui era visto com naturalidade na cena política brasileira. Foi criticada como inábil, inexperiente, avessa à “negociação” política quando tentava disciplinar minimamente a seara em que a articulação parlamentar acontece.

Idiossincraticamente, manteve intacta a máquina poderosa das nomeações de apadrinhados dos partidos da base congressual, as “fábricas de dinheiro” nominadas por Roberto Jefferson ao denunciar o Mensalão. E protegeu — ainda protege — amigos como Fernando Pimentel, acossado por denúncias de que recebeu muito dinheiro sem prestar qualquer tipo de serviço como contrapartida. Contra ela, pode-se de dizer também que menosprezou recomendações da Comissão de Ética Pública na crise que envolveu Carlos Luppi. Mas deve-se lembrar que o então ministro do Trabalho acabou defenestrado pelo governo semanas mais tarde.

É preciso ainda ressaltar que a Presidente Dilma Rousseff criou um instrumento ímpar na história da democracia brasileira, capaz de lançar luz sobre aquilo que a burocracia e as conveniências pretendem manter longe dos olhos da opinião pública: a Lei da Transparência, que passa a vigorar a partir de 16 de maio. Ela obriga o governo a prestar todo tipo de informação não catalogada como secreta ou sigilosa mediante simples requerimento de qualquer cidadão. É verdade que há uma enorme má-vontade de empresas como o Banco do Brasil e a PETROBRAS, cujas caixas-pretas ainda inexpugnáveis resistem incólumes aos novos princípios irradiados pela Lei 12.527/11.

A despeito de todos os problemas residuais, a presidente já percebeu as vantagens que decorrem do enfrentamento da questão moral. Não é por acaso que sua popularidade suplantou o patamar do mito Lula em fase análoga de seu primeiro governo, mesmo com a economia estagnada. Parece uma tarefa perfeitamente factível para quem conseguiu enfrentar a banca, que há 40 anos não encontrava obstáculos no governo.

Mas uma coisa é corrigir vícios alheios com instrumentos poderosos como os dos gestores da política monetária. Outra, muito mais complexa, é vencer vícios internos tão  arraigados —  a ponto de terem criado uma cultura que admite a corrupção não apenas como meio e fim, mas sobretudo  como estratégia de sobrevivência política.

O grande teste começa agora, com a abertura da Caixa de Pandora da CPI do Cachoeira.

Lei da Transparência: Acesso ainda sem regra

FERNANDO RODRIGUES

Falta menos de um mês para o dia 16 de maio. É quando entra em vigor a Lei de Acesso a Informações Públicas. Por força constitucional, a legislação deve ser regulamentada por meio de um decreto da presidente da República.

Dilma Rousseff deixou para cuidar do assunto na última hora. Há duas razões possíveis. A primeira é porque o tema não é a prioridade de fato do governo, apesar do discurso público. A segunda, ou também, porque há muitas divergências sobre como organizar e colocar à vista todas as informações produzidas dentro da administração pública.

Uma polêmica pendente é a respeito de salários. Os cerca de 500 mil servidores públicos federais terão seus nomes divulgados com o valor exato da remuneração que cada um recebe, mês a mês? Ninguém sabe. Dilma Rousseff arbitrará -apesar de o tema já ter sido analisado preliminarmente pelo Supremo Tribunal Federal, que decidiu a favor da transparência.

Outra dúvida importante foi pacificada, mas para pior. As empresas estatais, embora submetidas à Lei de Acesso, continuarão sem oferecer a transparência devida. A desculpa é a de sempre: por estarem competindo no mercado, não divulgarão certos dados sob risco de ajudar concorrentes privadas.

Nos Estados e nas cidades, a situação é pior. Embora a Lei de Acesso seja clara, vários governadores consideram que a regra não é autoaplicável. Ou seja, as Assembleias Legislativas teriam de aprovar legislações locais. A prevalecer essa lógica, o país demorará uma vida até a transparência pública disseminar-se em todos os níveis de governo.

Com tantos obstáculos à frente, o atraso de Dilma Rousseff em baixar uma regulamentação é apenas o mais visível. O que já está evidente era também algo fácil de prever: há um longo caminho pela frente, sem certeza de sucesso, até que a Lei de Acesso pegue no Brasil.

fernando.rodrigues@grupofolha.com.br

via Folha de S.Paulo – Opinião – Acesso ainda sem regra – 18/04/2012.

Para Hillary, Dilma criou ‘padrão global’ contra a corrupção

FLÁVIA FOREQUE, MÁRCIO FALCÃO e NÁDIA GUERLENDA

A atuação da presidente Dilma Rousseff no combate à corrupção foi elogiada ontem pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton.

Ao encerrar sua visita de dois dias ao Brasil, Hillary fez um afago na presidente e afirmou que ela está “estabelecendo um padrão mundial”.

“O compromisso dela [Dilma] com a abertura e com a transparência e a luta dela contra corrupção estão estabelecendo um padrão global”, afirmou a secretária.

A americana esteve em Brasília para lançar um protocolo de intenções em defesa de maior transparência de agentes públicos -55 países já aderiram ao compromisso. Brasil e Estados Unidos são copresidentes da iniciativa.

“Não há melhor parceiro para começar esse esforço e liderar [essa iniciativa] do que o Brasil, e em particular a presidente Rousseff”, disse ela.

Segundo ela, a corrupção “mata o potencial dos países” e tira a motivação da própria população por melhorias.

O discurso foi feito num momento em que partidos da base de apoio de Dilma discutem a instalação de uma CPI com potencial de apontar relações entre políticos do governo e da oposição com o empresário de jogos ilegais Carlinhos Cachoeira.

Em sua fala, Dilma voltou a dizer que seu governo não pactua com irregularidades.

“Não teremos tolerância com nenhum malfeito. O dinheiro público vem do diário esforço do povo, que paga tributos e constrói a riqueza do nosso país.”

Ela ainda cobrou transparência de agentes privados com bens públicos e citou a importância da regulação do sistema financeiro.

“Obrigatória para o Estado, a transparência e o compromisso com o bem público também devem ser exigidos dos agentes privados cujas condutas afetam diretamente a vida dos cidadãos.”

Dilma destacou o papel da inteligência da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário, “instituições cada vez mais preparadas para evitar desvios e punir”.

LEI DE ACESSO

A presidente lembrou a aprovação da Lei de Acesso à Informação, que entra em vigor no dia 16 de maio.

O próprio governo, porém, reconhece atraso no cronograma das ações previstas.

“Eu não tenho a mínima dúvida de que não estará tudo funcionando 100%. O que for possível estará funcionando”, afirmou o ministro Jorge Hage, da CGU (Controladoria-Geral da União).

A lei que regulamenta o acesso aos dados públicos foi sancionada em novembro do ano passado.

O texto estabelece que qualquer pessoa poderá ter acesso a informações não sigilosas sem precisar explicar o motivo, e que os entes de todos os Poderes, inclusive ONGs que recebem verba pública, estarão obrigados a prestar as informações.

Segundo dados da CGU, dos 38 ministérios, somente 10 já implantaram -parcial ou totalmente -o que a nova lei determina.

via Folha de S.Paulo – Poder – Para Hillary, Dilma criou ‘padrão global’ contra a corrupção – 18/04/2012.

Lei da Transparência: discurso é um, prática é outra

O Blog do Pannunzio vem saudando o advento da Lei de Acesso à Informação — ou Lei da Transparência — como uma das ferramentas mais importantes para o aprimoramento da democracia brasileira. Ocorre que entre o discurso e a prática há um fosso enorme. A 35 dias de passar a vigorar plenamente, a nova lei ainda é desconhecida e, em alguns casos, flagrantemente desrespeitada pelo próprio governo.

Além dos esforços da Controladoria-Geral da União, encarregada da implementação da norma, pouco ou nenhum movimento se vê em órgãos públicos para se adequar à nova realidade. E a julgar pela demora em fornecer a resposta a uma simples consulta, nem mesmo a CGU está ainda adaptada à realidade criada pela Lei 12.527/11.

Há dois meses o Blog do Pannunzio tenta obter do Banco do Brasil e da PETROBRAS informações sobre os contratos de publicidade firmados com o blog Conversa Afiada. As estatais, juridicamente enquadradas como sociedades de economia mista, se recusam a fornecer a informação alegando sigilo contratual. A negativa não encontra amparo na lei, que obriga essas empresas a dar transparência a todas as informações que não tenham caráter pessoal ou estejam formalmente qualificadas como sigilosas ou secretas. A Caixa Econômica Federal, os Correios e o Governo do Rio Grande do  Sul, ao contrário, responderam prontamente aos questionamentos do Blog.

Diante das negativas reiteradas, o Blog consultou a CGU há exatos 15 dias sobre o assunto. Apesar das várias reiterações, até o momento ainda não houve resposta. Ressalte-se que a Lei de Acesso à Informação estabelece prazo máximo de 20 dias para as respostas.

Nesta terça-feira, em discurso perante a Secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, a Presidente Dilma Rousseff afirmou que a Lei da Transparência “é de uma das leis mais avançadas , adotando padrões de dados abertos para divulgação de informações. As informações devem ser abertas por Executivo, Legislativo e Judiciário e todos os níveis de governo. Todos os brasileiros poderão consultar documentos produzidos pela administração pública que deverão ser produzidos com linguagem simples”

Como se vê, por enquanto, a nova lei se presta apenas para a construção retórica — e bem pouco para os fins a que se destina.

 

Dilma: Brasil deu passo decisivo ao aprovar Lei de Acesso à Informação

Yara Aquino, Repórter da Agência Brasil

A presidenta Dilma Rousseff disse hoje (17) que o Brasil deu um passo decisivo ao aprovar a Lei de Acesso à Informação que entra em vigor no dia 16 de maio.

“Trata-se de uma das leis mais avançadas de transparência ativa e passiva adotando padrões de dados abertos para divulgação de informações. As informações devem ser abertas por Executivo, Legislativo e Judiciário e todos os níveis de governo. Todos os brasileiros poderão consultar documentos produzidos pela administração pública que deverão ser produzidos com linguagem simples”, disse a presidenta durante discurso na abertura da 1ª Conferência Anual de Alto Nível da Parceria para um Governo Aberto (cujo nome, em inglês, é Open Government Partnership).

Dilma defendeu ainda a gestão qualificada dos gastos públicos e a transparência da informação como forma de reduzir a corrupção. “Queremos também aprimorar a qualidade do gasto público, reduzir gastos e racionalizar processos.”

“O bom uso dos recursos públicos, a eficiência e combate à corrupção são duas faces da mesma moeda que devem caminhar juntas”, completou.

A presidenta cobrou também a transparência e regulação do setor financeiro. “Quando não há monitoramento e regulação adequados os fluxos financeiros são passíveis de manipulação com prejuízos para toda a economia mundial e para as conquistas sociais dos países”, disse. A parceria para o governo aberto reúne apenas governos e organizações da sociedade civil.

Diante de representantes de mais de 50 países e da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, a presidenta Dilma Rousseff citou alguns dos mecanismos do governo brasileiro que permitem aos cidadãos o monitoramento, via internet, dos gastos públicos, como o Portal da Transparência.

A 1ª Conferência Anual de Alto Nível da Parceria para um Governo Aberto tem o objetivo de alcançar avanços concretos nos compromissos assumidos pelos governos para garantir maior acesso às informações públicas, aumentar a participação cívica, combater a corrupção e aproveitar novas tecnologias para tornar os governos mais transparentes e eficazes.

* Colaborou Renata Giraldi     //    Edição: Lílian Beraldo

via Dilma: Brasil deu passo decisivo ao aprovar Lei de Acesso à Informação | Agência Brasil.

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