Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

Archive for the category “censura”

Conheça o site infantil do MPF que o censor-tareferiro do PT mensaleiro quer censurar

Cândido Vaccarezza, numa recaída de deixar os últimos stalinistas roxos de vergonha, decidiu censurar uma página eletrônica criada pelo Ministério Público Federal para crianças. A página, que pode ser lida abaixo, é parte do conteúdo de um site em que os procuradores federais criaram para explicar às crianças o que o MP faz. E ali há um post bastante sucinto cumprindo essa função. Não há aleivosias como as que Vaccarezza e outros defensores dos mensaleiros levantam contra o Procurador-Geral Roberto Gurgel, nem qualquer tipo de mentira ou assacação. Talvez por isso a página tenha virado alvo de uma ação  do deputado petista.

É mais uma tentativa de acólitos do PT de impedir a divulgação do fato que levou a cúpula do partido em 2004 a ocupar o banco dos réus. Na primeira, as mesmas vozes ameaçaram tentar impedir judicialmente o uso da palavra ‘Mensalão’ em referência ao maior escândalo político da história do País. A manobra fracassou, como fracassará qualquer outra tentativa semelhante de impor o método soviético de gerenciar a informação em uma República democrática como a nossa.

Vaccarezza poderia alegar que o assunto não é pertinente ao universo infantil porque o que está descrito nas peças sobre o que seus colegas de partido fizeram compõe material pornográfico, impróprio para pessoas decentes de qualquer faixa de idade. Estaria sendo verdadeiro. Mas ainda que a preocupação do parlamentar fosse esta, não lhe caberia estabelecer  o que alguém deve ou não escrever na internet ou nas mídias convencionais. E, convenhamos, chamar o Mensalão de AP-470, ou impedir que crianças saibam do assunto, como querem Vaccarezza e sua turma, não vai mudar a realidade nem amenizar o fardo que pesa sobre o partido.

Com sua iniciativa autoritária e despropositada, o censor Cândido Vaccarezza acabou fazendo o contrário do que desejava: chamou a atenção para a página, cuja íntegra reproduzo a seguir. Isso se chama burrice, o mesmo nome que têm todas as demais iniciativas do mesmo naipe dos partidários dos mensaleiros.

Leia agora o que a Turminha do MP tem a dizer sobre o Mensalão.

No próximo dia 2 de agosto o Supremo Tribunal Federal deverá iniciar o julgamento da ação penal 470, conhecida como Mensalão.  Em 2006, o procurador-geral da República narrou na denúncia que havia uma “sofisticada organização criminosa, dividida em setores de atuação, que se estruturou profissionalmente para a prática de crimes como peculato, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, gestão fraudulenta, além das mais diversas formas de fraude”. (confira no Glossário  e no quadro dos crimes o que é cada crime e as penas).

Segundo a denúncia, os crimes tiveram início com a vitória eleitoral de 2002 do Partido dos Trabalhadores no plano nacional e tinham por objetivo principal garantir a continuidade do projeto de poder do PT por meio da compra de suporte político de outros partidos e do financiamento das suas próprias campanhas eleitorais.

O que será julgado

No julgamento da ação penal 470 estão sendo analisados apenas os supostos desvios de recursos da Câmara dos Deputados e do Banco do Brasil. Há outros inquéritos e ações em que se investigam crimes praticados pelos mesmos réus integrantes das empresas publicitárias e financeira denunciados na AP 470 em contratos celebrados, naquele período, com os Correios, a Eletronorte, o Ministério dos Esportes e outros órgãos públicos.

Em suas alegações finais, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, requereu a condenação de todos os réus, à exceção de Luiz Gushiken e Antônio Lamas. Pediu também a absolvição de Emerson Palmieri em relação a um dos crimes de corrupção passiva* de que foi acusado.

*corrupção passiva: quando o funcionário público recebe ou pede dinheiro ou outra vantagem a que não tem direito para fazer ou deixar de fazer algo com o uso do cargo que ocupa.

 

Alegações finais do PGR

Segundo Gurgel “a instrução comprovou que foi engendrado um plano criminoso voltado para a compra de votos dentro do Congresso Nacional”. Em relação à suposta quadrilha, sustentou que os sócios das empresas de publicidade envolvidas no esquema (Marcos Valério, Rogério Tolentino, Cristiano Paz e Ramon Hollerbach) “já tinham um canal de diálogo com o PSDB desde 1998 e precisavam montar uma estratégia de ação para a hipótese do Partido dos Trabalhadores vencer as eleições”. Assim, os interesses deles teriam coincidido “com os propósitos de José Dirceu [ministro da Casa Civil] e o seu grupo – Delúbio Soares, Sílvio Pereira e José Genoíno – de angariar recursos para consolidar o projeto de poder recém vitorioso do Partido dos Trabalhadores, mediante a compra de suporte político de outros Partidos Políticos e do financiamento futuro e pretérito (pagamento de dívidas) das suas próprias campanhas eleitorais”.
De acordo com o procurador-geral, “as provas colhidas demonstraram que a atuação delituosa de Marcos Valério, Rogério Tolentino, Ramon Hollerbach e Cristiano Paz sempre esteve associada ao Banco Rural e a seus principais dirigentes, parceiros inseparáveis nas empreitadas criminosas desde 1998”. 

 

Fontes:

Decisões judiciais contra blogueiros pautam a discussão da blogosfera nacional

Por Guilherme Sardas
Em 2010, uma medida liminar da Justiça do Paraná proibiu o repórter e apresentador da Band, Fábio Pannunzio, de fazer qualquer referência a uma quadrilha de estelionatários, com  atuação internacional, que vinha denunciando em seu blog pessoal. Meses depois, com o grupo desbaratado pela mídia formal, e devidamente preso, a liminar seria revogada pelo TJ do estado e arquivada por unanimidade.
Durante o período de restrição, Pannunzio uniu-se à jornalista Adriana Vandoni, do blog “Prosa e Política”, que estava – e continua – impedida de comentar ou emitir opinião de juízo sobre as inúmeras ações de improbidade administrativa envolvendo o presidente da Assembleia do MT, José Riva. “Como nós dois estávamos censurados, passei a veicular as denúncias do Riva, e ela, as denúncias da quadrilha. Isso chama permuta de censura”, explica Pannunzio.

Segundo Adriana, as decisões judiciais que vêm legitimando sua mordaça, como a negativa de um agravo de instrumento no TJ de MT, teriam forte influência da atuação de Riva nos bastidores da Justiça local. “A Justiça do MT é absolutamente comprometida com ele. Para você ter ideia, a alegação de um dos desembargadores que me negou o agravo é que eu estava ferindo o direito de privacidade do político ao falar dos processos que ele responde.”
A situação é apenas um exemplo do quadro de crescente judicialização da censura a que a blogosfera brasileira vem sendo submetida e que levou figuras como o ministro Carlos Ayres Britto, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), a manifestar recentemente sua preocupação com o assunto, recorrendo ao pensador francês Alexis de Tocqueville, para defender que “os excessos da liberdade se corrigem com mais liberdade”.
Os fatos e os números mostram a facilidade de se remover conteúdos da internet brasileira. Segundo o Committee to Protect Journalists (CPJ), no primeiro semestre de 2011, o Brasil foi o campeão mundial de remoção de conteúdo, com 224 ordens da Justiça remetidas ao Google. Para Thiago Tavares, diretor-presidente da ONG SaferNet Brasil, a situação exige a criação de um observatório para as decisões judiciais da blogosfera. “Em alguns segmentos do Judiciário, me parece que há certa interpretação exacerbada da legislação em que se invertem um pouco o direito à informação e o ferimento da honra e imagem da pessoa. Em ano de eleição, a remoção de conteúdo cresce exponencialmente”, explica.

A experiência de Pannunzio é emblemática para a maior vulnerabilidade do blogueiro no país. “Em 31 anos de profissão na TV, fui processado uma única vez. Já no blog, foram seis processos. A figura do blogueiro é muito mais frágil do que a empresa de comunicação.”
Chapa-branca ou oposição?
Não são apenas os abusos jurídicos que têm aquecido a discussão. No final de maio, a cidade de Salvador recebeu o “3º Encontro dos Blogueiros Progressistas”, grupo de jornalistas e não jornalistas, que vêm reivindicando a liberdade de atuação na blogosfera como alternativa à atuação da grande mídia.
O evento contou com a gravação de um vídeo do ex-presidente Lula, que exaltou a atuação dos blogs como alternativa ao setor de comunicações do país, segundo ele, “concentrado em poucas empresas, poucas famílias e poucos lugares”. Entre os articuladores do evento, Franklin Martins, antigo ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo Lula e um dos principais defensores do marco regulatório da mídia no país. O grupo tem o apoio dos jornalistas Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna, Luiz Carlos Azenha, Altamiro Borges, entre outros.
Para Borges, que preside o Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, democratizar a rede é um dos principais desafios da blogosfera. “Há, sim, a judicialização da censura, processos que desgastam e levam o profissional à bancarrota, mas há também a dificuldade da democratização da comunicação no Brasil, porque hoje há uma monopolização da mídia brasileira, comandada por sete famílias. É uma aberração democrática”, diz.
Pannunzio rechaça a tese de que os blogs são alternativas essenciais a um suposto “monopólio da grande imprensa”. E ainda critica: “A maioria dos blogueiros que defendem essa tese é da imprensa formal. Começa por aí a contradição deles. Além disso, são parte de um grande projeto de comunicação de pessoas que integravam o governo Lula. Como é que um jornalista de qualquer mídia abre mão de fiscalizar para começar a bajular o poder, a defender a impunidade de gente envolvida com a corrupção, como vem acontecendo?”.
Para Ricardo Noblat, blogueiro político de O Globo, a cisão ideológica dos blogs não é problema – “Sempre vai existir quem é mais próximo do governo e quem é oposição”. A discussão mais delicada, segundo ele, é outra. “O que eu acho complicado é o titular de um blog receber por anúncio veiculado ali. É óbvio que a participação no faturamento publicitário vai implicar conflito de interesse”, afirma. Em meio à asfixia jurídica e às arestas ainda não aparadas da blogosfera brasileira, que a liberdade seja, de fato, a única solução para seus próprios excessos.

Pauteiro de toga: Juiz de Brasília não permite que Cachoeira dê entrevista

O juiz da Vara de Execuções Penais do DF, Bruno André Silva Ribeiro, negou na segunda-feira pedido da Folha para entrevistar Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, no presídio em Brasília.

O juiz diz que, apesar de Cachoeira ter aceitado dar a entrevista, a Lei de Execuções Penais prevê que ele só pode receber o advogado e familiares.

Segundo ele, seria preciso que ficasse “excepcionalmente” evidente o interesse público de uma entrevista: “Não se pode confundir o interesse público com interesse do público, consistente na mera curiosidade sobre o que o réu possa revelar, com exclusividade, para um meio de imprensa”.

Ele reconheceu que Cachoeira aceitou dar entrevista ao jornal ao lado de sua mulher, mas que “nada justifica a sua escolha pontual por um veículo específico da imprensa”.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Juiz de Brasília não permite que Cachoeira dê entrevista à Folha – 18/07/2012.

ANJ condena decisão de juíza de tirar do ar textos de site do ES

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) divulgou nota nesta quarta-feira na qual condena decisão da juíza Ana Cláudia Rodrigues de Faria Soares, da 6ª Vara Cível de Vitória (ES). Ela proibiu o jornal digital Século Diário de manter em seu site três notícias e dois editoriais sobre a atuação do promotor de Justiça Marcelo Barbosa de Castro Zenkner, publicadas originalmente entre maio de 2010 e março deste ano. A nota é assinada pelo vice-presidente da ANJ, Francisco Mesquita Neto.
Segundo a ANJ, a juíza ainda teria feito sugestões ao veículo, sobre a linha editorial que deveria ser adotada pela publicação. A entidade recomendou que o Século Diário recorra da decisão, “para que o mesmo Poder Judiciário que decidiu pela censura prévia e pela imposição das abusivas ‘recomendações’ restabeleça o primado constitucional”.
“A ANJ considera especialmente grave que a juíza Ana Cláudia Rodrigues de Faria Soares, não satisfeita em desobedecer o dispositivo constitucional que veda a censura à produção jornalística, tenha se arrogado o direito de determinar que o jornal digital Século Diário doravante siga ‘recomendações’ editoriais por ela estipuladas”, afirmou a entidade.

Beba na fonte: ANJ condena decisão de juíza de tirar do ar textos de site do ES – O Globo.

Uma história triste e duas versões conflitantes: a do jornalismo e a da História

Vi muitas coisas estranhas, tristes e constrangedoras lendo os Arquivos Digitais da Revista Veja dos anos 60 e 70. Mas nada parecido com o que vocês vão ler abaixo.

Aqui, não se trata de fulanizar a crítica, voltando a responsabilizar o editor da publicação na primeira metade dos anos 70, o jornalista Mino Carta, pelo alinhamento da publicação com o regime militar. Esse atrelamento ficou bem descrito e demonstrado nos posts anteriores que compõem a série Especial Ditadura. Como esses posts já foram igualmente objeto de critica e de uma explicação do editor, darei agora um passo adiante.

Passo a contar duas histórias muito diferentes acerca de um mesmo personagem que teve um fim trágico, o militante da VPR Massafumi Yoshinaga, jovem guerrilheiro que virou uma espécie de prenda involuntária do regime militar à custa de muita humilhação e torturas. Uma pertence ao campo do jornalismo. Outra, ao da História.

Em 15 de julho de 1970, o rosto desse jovem foi exibido na capa de Veja ao lado da manchete “Terror Renegado”, reproduzida no alto desta página.

A reportagem foi apresentada em editorial assinado por Mino com a seguinte justificativa: “alguns moços, ex-integrantes de bandos terroristas, descobriam e declaravam que o caminho da subversão não leva ninguém a nada”.

A reportagem, que começa na página 16, recebeu o título “Autocrítica do Terror”. Começa descrevendo a alegria do ditador Médici com as menções elogiosas do ex-militante da VPR à Transamazônica, a suas incursões pelo Nordeste e à extensão do mar territorial brasileiro para 200 milhas.

Detalhe da reportagem de capa: a prenda e o júbilo do regime

“À primeira vista, seria apenas a satisfação do comandante supremo da Revolução, e portanto o mais alto responsável pelo combate à subversão, pelo arrependimento de um jovem inimigo do regime, de repente ressurgido à razão pelos acertos do próprio governo que combatia”, diz o texto da crédula reportagem.

A revista não atentou para o fato de que não fazia sentido, naquele momento da história, que um ex-guerrilho, sob custódia dos militares, tecesse loas às obras do “Brasil Grande”. A exposição de seu rosto na capa era a foto de um troféu que a ditadura obteve com suas maquininhas de provocar arrependimento de alta voltagem — e os socos e pontapés com que os jagunços dos quartéis e da polícia costumavam brindar quem se insurgia contra o regime.

O curioso é que a semana anterior havia sido pródiga em arrependimentos públicos de presos políticos. Que o diga o jornalista Celso Lungaretti, outra prenda colocada na mesma cesta servida pela ditadura à opinião pública por intermédio de Veja. Traído pelos próprios companheiros, foi obrigado a exortar os jovens brasileiros a não se deixarem seduzir pela impaciência na luta em prol das reformas — e a apoiar os projetos do governo de então. “O Brasil ingressa num período durante o qual as conquistas nacionais vão, pouco a pouco, se afirmando, abrindo para a Nação um caminho de esperanças”. Ninguém desconfiou que essa frase soava estranho na boca de um ex-guerrilheiro.

Lungaretti consumiu 34 anos de sua vida para se reabilitar. Só conseguiu isso em 2004, depois de lançar o livro “Náufragos da Utopia”. Logrou resistir ao patrulhamento e à perseguição implacável, primeiro do regime, depois dos ex-companheiros que falsamente lhe atribuíram a denúncia de um campo de treinamento da VAR-Palmares.

Um amigo seriíssimo, pautado por sua revista para a apresentação dos “arrependidos”, se lembra muito bem do dia em que os “terroristas” concederam a estranha entrevista na sede do Segundo Exército. “Minha impressão era a de que haviam feito uma lavagem cerebral com eles”, relembra o repórter 42 anos depois. “Eles pareciam dopados”.

Com sua morte precoce, ocorrida de maneira trágica seis anos depois, Massafumi entrou para o rol dos renegados e esquecidos até ser resgatado por Pérsio Arida. Ele escreveu um lindo artigo para a edição 55 da Revista Piauí contando o que, salvo dentro de seu ambiente familiar, pouca gente sabia: seu envolvimento com a VPR aos 18 anos de idade.

Arida revelou que participou de um único ato “revolucionário” — a colocação de uma faixa na boca do Tunel da Avenida 9 de Julho, em São Paulo, com um bordão contra os patrões e o capitalismo. Caçado como um terrorista de alta periculosidade, escondeu-se numa garçonnière que o pai mantinha em conjunto com um amigo.

Antes desse ato, por uma única noite, abrigou um militante a pedido de sua organização. Era Massafumi. Pérsio Arida descreve assim o encontro de ambos:

“Foi-me pedido que desse guarida, por uma noite apenas, a um homem da pesada, procurado. Era um revolucionário de verdade, que andava armado e fazia ações revolucionárias. Concordei relutantemente – uma noite apenas, ele tem que ir embora no dia seguinte pela manhã, bem cedo, antes das empregadas ou meus pais acordarem.

Ele chegou na hora combinada e entrou na casa rapidamente, como que fugindo de uma perseguição. Para minha surpresa, estava visivelmente amedrontado. Não largava a arma. Um nissei mirrado e com rosto de criança, nervoso e inseguro, completamente diferente dos revolucionários de verdade que imaginava existirem. Temeroso de qualquer envolvimento maior, expliquei onde eram o banheiro e a cozinha, dei boa-noite e foi só”.

O próximo encontro entre ambos ocorreu nas instalações da OBAN e é descrito desta forma na entrevista à Piauí:

Todos fomos reunidos sem aviso no pátio para ouvirmos a preleção de dois ex-terroristas. Por um instante sequer entendi a expressão – se haviam sido presos, eram ex-terroristas por definição. Outro, no entanto, era o significado – eram terroristas arrependidos.

Massafumi Yoshinaga, disse um dos militares. Um patriota que se arrependeu dos assaltos a bancos e da guerrilha. Ele, que conhece o terror por dentro, quer transmitir a vocês uma mensagem importantíssima. Ouçam e meditem. É um pregador que presta um serviço à pátria, alertando a juventude brasileira para os riscos do comunismo e as ilusões da luta revolucionária.

Fiquei branco. Era o nissei da pesada que se hospedara na minha casa. Estava exatamente na minha frente. Impossível que não me tivesse reconhecido”.

Pérsio Arida temia que o japonês arrependido o delatasse. Conseguira ler trechos de um relatório policial que estava sobre a mesa de um delegado. E conduzira suas respostas aos interrogatórios para a confirmação de informações que os militares já conheciam. Até então, havia sido bem-sucedido em sua estratégia de dissimulação . Diante da troca de olhares com Massafumi, passou a esperar o pior:

“Passei aquela noite em claro, esperando o momento em que fossem me chamar para uma sessão de torturas, de vingança. Havia escondido um terrorista em minha casa, portanto era cúmplice do terror, e não havia dito nada sobre o nissei no meu depoimento. Os caras iriam me bater para saber quem mais se escondera na minha casa.

O dia raiou, mais um dia inteiro se passou e outro e outro. Nada. Reinterpretei a situação: Massafumi Yoshinaga deve ter sido barbaramente torturado, pensei, faz esse papel de arrependido só para se livrar dos suplícios. É tudo fingimento. Por isso não me denunciou, por isso não nos permitiram conversar com ele a sós. Aquele discurso tinha sido um vexame público, vergüenza ajena, expressão concisa e intraduzível do espanhol, mas nada além de um vexame, uma estratégia de sobrevivência”.

Arida ainda se depararia com Massafumi duas outras vezes. Foram encontros indiretos, por intermédio das páginas de veíuclos da chamada grande imprensa.

“Um dia encontrei, largada num canto e amarelada pelo passar do tempo, uma Veja com Massafumi Yoshinaga na capa e o título “O terror renegado”. A reportagem contava que o presidente Emílio Garrastazu Médici expressara, em audiência com dirigentes da Ordem dos Advogados do Brasil, sua satisfação com o depoimento público e espontâneo do ex-terrorista. (…)

Li depois num jornal que terminou se suicidando. Suicídio de vergonha, de culpa e arrependimento, haraquiri de uma alma que não encontrava mais lugar neste mundo. Terrível como todo suicídio. Mas quem chora a morte de um traidor? Da minha parte, prefiro guardar dele apenas a memória daquele encontro furtivo de olhos no qual, mesmo tendo me reconhecido, nada revelou ao militar que com tanto orgulho o apresentou como um verdadeiro patriota”.

Eis o que aconteceu a Massafumi Yoshinaga. Seis anos depois, devastado pela vergonha e pela depressão, pôs fim à própria vida após duas tentativas de suicídio malsucedidas. As declarações públicas de arrependimento, que segundo Veja causaram tanto júbilo ao governo militar, foram obtidas mediante a utilização dos mais cruéis e abjetos métodos de tortura. Deixaram nele uma ferida profunda e mortal, algo como um cancer que vai fincando tentáculos em todos os tecidos e órgãos para, ao final, matar o hospedeiro. A vergonha pela falsa confissão do arrependimento que não lhe restituiu a vida — apenas adiou a morte por alguns anos de muito sofrimento.

É impossível saber quanto o relato de Veja, que mimetizava a grande conquista do regime, teve responsabilidade sobre o quadro mental que se instalou no ex-guerrilheiro arrependido. Mas pode-se imaginar o estrago que essa exposição provocava à época.  Afinal, que espaço vital teria restado ao militante Massafumi Yoshinaga depois de ser apresentado ao País como um dos trunfos do regime dos quartéis, um caso de conversão quase religiosa ?

Ao forjar um depoimento público para se livrar das sevícias e do suplício, não restou a Massafumi alternativa a não ser, como na letra de Cazuza, encontrar abrigo no peito de seu traidor. Apesar de ter tido sua pena anulada, o ex-guerrilheiro permaneceu em poder dos torturadores — não mais porque representasse uma ameaça ao regime, e sim para protegê-lo da sanha do justiçamento dos próprios ex-companheiros no tribunal sumário da insurreição.Apanhando da direita, perseguido pela esquerda, envergonhado pelo que fora forçado a fazer, o ex-militante buscou no suicídio a redenção de uma honra aviltada pelas sevícias morais e físicas que lhe haviam sido impostas.

Outros tiveram altivez para enfrentar o legado daquela execração. Aí está o combativo Celso Lungaretti como testemunha das dores provocadas primeiro pelas pancadas, depois pela estigmatização e patrulhamento, que entregou metade de sua vida à busca da reabilitação moral — porque delatar companheiros é uma acusação que se inscreve mais no campo da moral do que no pragmatismo da política e da ideologia, onde produz seus efeitos.

Entre o relato comprometido de Veja, o suicídio de Massafumi Yoshinaga e o testemunho de Pérsio Arida há uma larga zona de fronteira que separa o jornalismo da História. A visão míope do jornalista está conformada pelo pensamento hegemônico que determina a linha editorial. A História, muito mais ampla, repõe, com elementos de lucidez ausentes na interpretação parcial e apressada dos fatos transformados em notícia, algo que se aproxima da verdade. É o caso da desventura narrada neste post.

Como se vê, entre a verdade cristalizada num fotograma da factualidade política e o filme todo da História há uma distinção abissal. A profundidade desse abismo pode ser depreendida da releitura dos textos produzidos à época.  Este blog, que não descontextualiza declarações para construir a crítica, tem como política fornecer a íntegra dos  originais referidos para que o leitor possa tirar suas próprias conclusões. Para os que quiserem se dar ao trabalho de fazer esse exercício de prospecção, reproduzo abaixo a íntegra da reportagem de Veja. O download do material em formato PDF pode ser feito aqui.

O artigo de Pérsio Arida pode ser lido diretamente no site da Revista Piauí. Para chegar a ele, basta clicar aqui.

 

 

 

 

Calúnia X Calúnia

Por Lúcio Flávio Pinto, em Cartas da Amazônia

“Em outro país, um jornalista com o meu passado não sofreria as calúnias”, lamenta-se Mino Carta na última edição da sua revista Carta Capital, respondendo aos ataques de que se declara vítima por parte dos jornalistas Fábio Pannunzio, Demétrio Magnolli e Reinaldo Azevedo.

A polêmica entre os três jornalistas e Mino está acesa e já tem bastante protagonista para dispensar minha participação. Mas esse lamento e o que Mino disse para justificar a invocação do seu nome como escudo motivam meu aparte na discussão.

Não há dúvida que o passado de Mino Carta garante sua inclusão na história do jornalismo brasileiro. Ele tem sido um dos melhores criadores de publicações da imprensa nacional. Há sua assinatura em produtos como a Edição de Esportes e o Jornal da Tarde, de O Estado de S. PauloVejaIstoé e a própria Carta Capital.

Excetuada a edição esportiva do Estadão, as outras criaturas forjadas em papel continuam em plena circulação. Atestam a capacidade do criador, apesar de seus eventuais escorregões, como no malfadado Jornal da República.

Nem por isso o seu passado é uma barragem intransponível pelas críticas ou um elemento mágico, capaz de transmudar de pronto restrições feitas a ele em calúnias prontas e acabadas. A história de Mino Carta o expõe e sujeita a essas críticas.

Ele é tão ciente desses flancos que uma de suas obsessivas preocupações é refazer e retocar a própria história, obra em permanente processo. Talvez acredite que tomando a iniciativa inibe os demais de se lançar sobre o seu passado. Confere-se direitos autorais plenipotenciários sobre si, sem contemplação, sem qualquer alternativa.

Mino Carta exige respeito ao seu passado enquanto viola o passado dos outros. Numa das suas frases mais infelizes, desafia seus caluniadores a se manifestarem “a respeito de quem na mídia brasileira se perfilava illo tempore ao lado da ditadura. Ou seja, quase todos”.

Enquanto quase todos se submetiam à ditadura, Mino Carta era o guerreiro quase solitário a enfrentar os censores e outros avatares, mantendo sua trincheira inexpugnável contra os ataques das feras. Mal informados sobre esse passado, as pessoas de hoje acham “que a censura foi ampla, geral e irrestrita”, quando, na verdade, foi facilitada pela subserviência de quase todos os jornalistas.

Muito menas verdade, doutor Mino.

Não é verdade que o retumbante fracasso da edição inaugural de Veja, datada de 11 de setembro de 1968, tenha derivado da sua capa, com a foice e o martelo do comunismo em negro sobre fundo vermelho, que “já irritou os fardados”. O subtítulo da matéria de capa foi “o grande duelo no mundo comunista”. Cabia como luva em qualquer publicação financiada nessa época pela CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos no embalo da guerra fria (para maiores informações, leia-se o livro “Quem pagou a conta?”).

Os leitores menos atentos imaginaram tratar-se de publicação ideológica inspirada pelo USIS (mas não abusis), o serviço de informação de Tio Sam, generoso e abundante. O texto da reportagem não ajudava a desfazer essa impressão. Resultado: encalhe de quase toda a edição. O mundo ainda vivia sob o halo da revolução dos joven. Foi preciso “refundar” a revista, conforme hoje se diz.

Prima dois anos mais velha do novo magazine, a mensal Realidade não conseguiu essa façanha. Lançada em 1966 pela mesma Editora Abril, a revista foi numa escalada de sucesso — de público e de crítica — quando baixou a tumba da liberdade, o AI-5, em 13 de dezembro de 1968. A cabeça deRealidade, esta, sim, muito irritante aos centuriões do poder, foi oferecida na bandeja ao regime.

Veja prosseguiu e sobreviveu: uma concessão ali, um avanço acolá, jeitinho num dia, sujeição no outro, conforme foi possível e permitiam as negociações de bastidores entre alguns personagens menos teratológicos do poder militar e atores mais hábeis do poder desarmado. Mas não só Mino, grande jornalista que nunca foi ao front, mantendo-se sempre na estratégica e lúcida retaguarda. Outros interlocutores também contornaram impasses que salvaram Veja e sacrificaram Realidade.

Ser personagem dessas tratativas ocultas em nada favoreceu Mino na reconstituição dos fatos, muito pelo contrário. Ele é o herói impoluto em todos os momentos, que podem ser traçados conforme um AM e DM (antes e depois de Mino). Após sua passagem, um território arrasado. Com ele, seguiram as joias da coroa para a nova empreitada. Depois dele, a desolação.

É com esse enredo que lega aos mais novos, que acorrem desinformados às suas brilhantes palestras, sua passagem pelo jornal que só não foi mais influente ao longo da república brasileira do que o carioca Correio da Manhã. Vítima dos facínoras do poder armado e de uma esquerda inconsequente, o Correio chegou melancolicamente, em 1974, ao fim da trajetória marcante iniciada em 1901,.

Mino Carta tem a coragem de afirmar no seu artigo que o Estadão, primeiro, e o Jornal da Tarde, em seguida (quase que por efeito gravitacional), foram punidos pelo governo militar com a censura na redação como resultado “de uma briga em família. O jornal apoiara o golpe, mas sonhava com a devolução do poder a um civil, desde que se chamasse Carlos Lacerda”.

Essa fantasia tem o propósito de revelar ao distinto público que resistência à censura — heroica e digna — foi a de Veja, sob a batuta de Mino; porque a do Estadão, de onde ele já saíra, por rompante de indignação, era motivada por interesses menores — e nada republicanos, como hoje também se diz.

Novamente não é verdade. O grande conspirador foi Júlio Mesquita Filho, que se tornou um autêntico revolucionário (ou contrarrevolucionário, as expressões são utilitárias no Brasil), impulsionado pelo ódio a Getúlio Vargas, sentimento partilhado por seu amigo e ídolo Carlos Lacerda. É bem provável que o “doutor Julinho” tenha escrito o editorial “Instituições em frangalhos”, através do qual reagiu com todo vigor ao AI-5, provocando a censura ao jornal, com esperanças ainda em Lacerda.

Mas logo depois ele morreu (em 12 de julho de 1969) e quem o substituiu foi o filho mais velho, Júlio Mesquita Neto, e não aquele que se achava mais preparado para assumir a condução editorial do porta-voz da plutocracia paulista. Foi Ruy Mesquita quem seguiu a filiação do pai a Lacerda, mesmo depois que o ex-governador carioca foi cassado, sua Frente Ampla não deu certo e ele só saiu do arquivo morto para dar um memorável Testemunho a repórteres do Jornal da Tarde, o vespertino que restou a Ruy (o livro, publicado em 1978, é lido com proveito mesmo por quem detesta Lacerda).

Júlio Neto não partilhou essas ideias. Ciente de que a sucessão, se tivesse que seguir a lógica da história e não a cronologia da família, caberia ao irmão mais novo, fopi atrás da própria biografia. Enfrentou a censura como nenhum outro dono de jornal a partir do AI-5. Com seu apoio e, às vezes, o seu estímulo, dezenas de jornalistas em todo país reagiram não só à censura na redação, mas ao próprio regime pelo país afora. Com coragem, alto espírito público e refinado profissionalismo. Sem nunca vergar a coluna. Sem salamaleques com os tiranos do dia ou do local. Sem papos de Settembrini com Naphta, como em A Montanha Mágica, de Thomas Mann

É a eles todos (em nome dos quais homenageio um dos maiores de todos, Raul Martins Bastos) que Mino Carta ofende com mais uma das suas frases espirituosas e falsas. Tão falsa quando ele intitular o primeiro Mesquita como o fundador do Estadão. Uma simples consulta o levaria a verificar que Júlio Mesquita só assumiu a direção do jornal, ao qual chegara dois anos antes, levado pelas mãos do sogro (e pelo capital do pai), 16 anos depois da fundação da então A Província de São Paulo, em 1875.

Calúnia paga com calúnia não é jornalismo, doutor Mino. Não é nada.

Gilmar questiona uso de dinheiro público para atacar instituições

Jorge Bastos Moreno

O ministro Gilmar Mendes acaba de informar à Rádio do Moreno que vai entrar com uma ação na Procuradoria Geral da República, solicitando o substrato das empresas estatais que usam o dinheiro público para o financiar blogs que atacam as instituições.

— É inadmissível que esses blogueiros sujos recebam dinheiro público para atacar as instituições e seus representantes. Num caso específico de um desses, eu já ponderei ao ministro da Fazenda que a Caixa Econômica Federal, que subsidia o blog, não pode patrocinar ataques às instituições.

( Eu sei bem de quem o ministro está falando, mas, como me disse Jobim sobre essa confusão toda, “eles que são branco é que se entendam” . Jobim, Heraldo, FH e eu vamos ficar na nossa. No caso, Heraldo, não é pra menos, quer distância desse blogueiro. Eu só não sabia que a Caixa Econômica patrocinava esse tipo de blog )

O ministro explicou que, nem de longe, sua decisão visa atingir a liberdade de expressão. Pelo contrário, é em defesa que se luta contra as pessoas que não se acostumaram a viver dentro de um regime democrático.

— O direito de crítica, de opinião, deve ser respeitado. Mas o ataque às instituições é intolerável — acrescentou o ministro Gilmar Mendes.

Beba na fonte: Gilmar questiona uso de dinheiro público para atacar instituições – Jorge Bastos Moreno: O Globo.

Na hora errada – um flagrante de manipulação

Por DORRIT HARAZIM, no site da Revista Piauí

Em si, o pecado cometido por Cirilo I, patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, fundada há mais de um milênio, foi venial e poderia ter passado despercebido. Uma banal foto sua, em audiência com o ministro da Justiça da Rússia, ficara exposta no site oficial da instituição durante três anos sem levantar uma só sobrancelha no seu rebanho de cerca de 150 milhões de fiéis.

E talvez permanecesse anódina para sempre não fosse Sua Eminência – ou o servidor que levará a culpa por excesso de zelo – decidir operar um milagre: fazer sumir da foto o Breguet modelo Le Réveil du Tsar, de ouro branco, 38 rubis e preço em torno de 27 mil euros (ou 67 mil reais) que o primaz ostentava no pulso.

O pecado capital foi detectado por blogueiros russos no mês passado e cometido justamente no campo artístico que mais floresceu na União Soviética de Joseph Stálin: a manipulação de imagens. O luxuoso artefato da Maison Breguet foi lindamente “desaparecido” de cena. Mas, por uma imperícia que noutros tempos despacharia o infrator para a Sibéria, o reflexo do objeto na mesa polida permaneceu esquecido – algo imperdoável nesses tempos de Photoshop e similares.

“O episódio representa uma grave violação de nossa ética e será investigado até as últimas consequências”, prometeu o Patriarcado de Moscou quando a trapaça se tornou viral na blogosfera. Não tardou para que a culpa recaísse sobre uma jovem funcionária da assessoria de imprensa da Igreja. “Infelizmente”, informou o porta-voz de Cirilo I, “essa pessoa tomou a infeliz iniciativa por conta própria, sem consentimento de seus superiores.” E garantiu: “Claramente isto é um absurdo, um mal-entendido. Não há do que se envergonhar. Não queremos esconder nada.”

Na verdade, Sua Eminência quis esconder tudo. De início, declarou que jamais usara o Breguet com que fora presenteado – não lembrava quando nem por quem – e que qualquer foto sugerindo o contrário só poderia ser obra de algum manipulador de imagem, com o intuito de comprometê-lo. Quando a verdade veio à tona, a Igreja Russa achou prudente reconhecer a fraude, classificada como “erro técnico”. Apresentou também um pedido formal de desculpas e reintroduziu a foto original no site da entidade com o Breguet no devido lugar.

Tarde demais. A essa altura uma comunidade de blogueiros já se divertia criando múltiplas versões da imagem adulterada. Uma das mais apreciadas eliminou por completo o patriarca, deixando apenas o relógio, e seu incômodo reflexo, na reluzente mesa. Uma outra derreteu a imagem do Breguet sobre o conhecido quadro de Salvador Dalí, A Persistência da Memória.  tentativa de camuflar a realidade reacendeu o desconforto dos russos ortodoxos com o apreço da alta cúpula do Patriarcado por objetos de luxo.

Um dos bispos locados na cidade de Kazan, por exemplo, revelou-se apegado a uma BMW, uma Mercedes, três apartamentos e uma casa de campo. O próprio primaz, que seria dono de dois Cadillacs, havia se encalacrado quando vazaram elogios que fez a roupas de costureiros italianos e exaltações às qualidades de um Breguet. Nisso, não terá sido o primeiro.

As peças que começaram a ser produzidas no ateliê do francês A.L. Breguet, no século XVIII, ornaram os coletes do rei Luís XVI, encantaram Maria Antonieta e inspiraram a literatura de Stendhal, Balzac e Victor Hugo. Winston Churchill e Arthur Rubinstein também foram apreciadores da marca.É pouco provável que a admissão de culpa do Patriarcado abafe o debate em torno do papel atual da Igreja Ortodoxa na sociedade da Rússia.

No decorrer das últimas décadas a relação da instituição com o Kremlin tem se estreitado e o endosso oficial dado por Cirilo I à candidatura de Vladimir Putin nas eleições de março passado não agradou a todos.Os detratores do mais alto hierarca da Igreja Russa aproveitam o momento para desenterrar uma acusação surgida no início dos anos 90, pouco após a queda do regime comunista.

Antes de se tornar primaz, Cirilo I teria mantido vínculos amigáveis com a KGB durante o período soviético. Atendia então pelo codinome de Mikhailov” (seu nome de batismo é Vladimir Mikhailovich Gundyayev).Agora, com o caso Breguet, internautas pós-comunistas podem brincar à vontade com a arte da manipulação que moldou o seu passado. Um dos mais completos registros da história soviética sob o prisma da alteração de imagens está compilado no Newseum, de Washington. Intitulada The Commissar Vanishes (O Sumiço do Comissário, em tradução livre), uma exposição montada pelo pioneiro museu americano da notícia  explorou o uso de falsidades fotográficas na urssentre 1929 e 1953.

Pelo menos nesse ramo, a Igreja Ortodoxa Russa ainda tem bastante a aprender.

via Na hora errada | piauí_68 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais.

Rui Falcão: mídia tem que ser regulada porque “contrasta com o nosso governo desde a subida de Lula”

Guilherme Waltenberg e Daiene Cardoso, da Agência Estado

SÃO PAULO – Depois de deflagrar a cruzada contra o sistema financeiro privado e a cobrança de juros elevados no País, o governo da presidente Dilma Rousseff poderá colocar em discussão o polêmico tema do marco regulatório da comunicação. A informação foi dada nesta sexta-feira, 4, pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, durante discurso em evento sobre estratégia eleitoral do PT nesta campanha municipal, em Embu das Artes, São Paulo.

“Este é um governo que tem compromisso com o povo e que tem coragem para peitar um dos maiores conglomerados, dos mais poderosos do País, que é o sistema financeiro e bancário. E se prepara agora para um segundo grande desafio, que iremos nos deparar na campanha eleitoral, que é a apresentação para consulta pública do marco regulatório da comunicação”, disse o dirigente petista em seu pronunciamento.

Segundo Falcão, “a mídia é um poder que está conjugado ao sistema bancário e financeiro”. No discurso, ele frisou: “(A mídia) É um poder que contrasta com o nosso governo desde a subida do (ex-presidente) Lula, e não contrasta só com o projeto político e econômico. Contrasta com o atual preconceito, ao fazer uma campanha fundamentalista como foi a campanha contra a companheira Dilma (nas eleições presidenciais de 2010) que saiu dos temas que interessavam ao país para recuar no obscurantismo, na campanha de reforço da direita que hoje está sendo exposta aí, inclusive agora, provavelmente nas próximas duas semanas com a nomeação dos sete nomes da Comissão da Verdade que vai passar a limpo essa chaga histórica que nós vivemos.” E continuou: “(A mídia) produz matérias e comentários não para polarizar o País, mas para atacar o PT e nossas lideranças.” “O poder da mídia, esse poder nós temos de enfrentar.”

A presidente Dilma Rousseff herdou do governo Lula o anteprojeto de criação do marco regulatório das comunicações, elaborado pelo então ministro da Secretaria de Comunicação Social Franklin Martins, e apresentado durante a Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM), em 2010, determinando “criação de instrumentos de controle público e social” da mídia. Em razão da polêmica que o tema gerou, Dilma determinou que o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, fizesse um pente-fino no texto para evitar tópicos que possam indicar censura ou controle de conteúdo.

Cachoeira. O dirigente petista afirmou que a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Cachoeira deverá ter também como alvo paralelo (de investigação) o trabalho da imprensa. “Essa CPI vai desvendar também quais são os caminhos de ligação com esses contraventores nos setores da mídia brasileira”, disse. Ao falar das relações entre o contraventor Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), apontadas no vazamento da investigação da Operação Monte Carlo, Falcão criticou: “Esse fariseu, que é o senador Demóstenes Torres, é apresentado pela imprensa como sem partido, mas vamos nos lembrar sempre que até um mês atrás ele era senador do DEM.”

Segundo Falcão, a redução no rendimento da poupança, anunciado na quinta-feira, 3, pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e a declaração da presidente Dilma em rede nacional no feriado do Dia do Trabalho, na última terça-feira, afirmando ser “inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com os juros mais altos do mundo”, mostram o estilo do governo. “É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros

mais sólidos e lucrativos, continue com os juros mais altos do mundo”, disse o presidente nacional do PT.

via Marco regulatório da comunicação deve entrar em pauta, diz Rui Falcão – politica – politica – Estadão.

Especialistas relatam riscos à liberdade de expressão

Bandeira do PT, o controle social da mídia foi criticado ontem por especialistas e políticos no primeiro dia do Seminário Internacional de Liberdade de Expressão, organizado pelo ICSS (Instituto Internacional de Ciências Sociais).

“No Brasil, o [ex-presidente] Lula tentou fazer um controle da comunicação social com diversos nomes eufêmicos. Na verdade é controle na dura, está no programa do PT”, afirmou Nelson Nery Jr., advogado e professor da Unesp e da PUC.

Para Gustavo Binenbojn, professor de direito da Uerj, o discurso de controle social da mídia é “ambíguo e populista”. “Ninguém pode imaginar que o Estado seja essa agência capaz de julgar o que merece ou não ser dito.”

Os discursos foram similares ao do governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), na abertura do evento. “As ameaças à liberdade de expressão persistem. Atualmente se sucedem sob disfarce de nomes pomposos”, disse.

Tanto Binenbojn quanto Daniel Sarmento – procurador da República no Rio, que também falou no evento- defenderam, no entanto, que liberdade de expressão não significa ausência de regulação.

“Eu veria com reserva uma macrorregulação. Mas há casos em que a atuação do Estado é necessária para que a liberdade de expressão exista”, afirmou Sarmento.

O seminário segue com mais dois debates hoje. O encerramento terá o presidente do STF, ministro Ayres Britto.

via Folha de S.Paulo – Poder – Especialistas relatam riscos à liberdade de expressão – 04/05/2012.

Constrangido por Paulo Henrique Amorim, Ayres Britto recusa convite para abrir encontro da BESTA

Miro, PHA, e Klouri com Ayres Britto: jornalista precisa de advogado para ir ao STF?

Na noite da última terça-feira, o STF foi palco de uma cena de constrangimento como há muito não se via. O protagnosita — vítima — dessa cena foi o festejado ministro Carlos Ayres Britto, que abriu uma brecha em sua tumultuada agenda para receber uma entidade que supostamente atuaria em defesa da liberdade de imprensa. A tal entidade solicitara o encontro para entregar-lhe pessoalmente um “honroso” convite para participar da abertura de um evento que acontecerá em Salvador, no dia 25 de Maio. É o terceiro encontro dos autoproclamados “blogueiros progressistas”.

A solicitação foi encaminhada por um nome conhecido entre os jornalistas brasileiros: Paulo Henrique Amorim.  Consultada, a assessoria de imprensa do STF aquiesceu. A defesa da liberdade de expressão e de imprensa tem sido a pedra angular a orientar as posições de Ayres Britto no curso de processos históricos. Portanto, pelo menos em tese, não haveria nenhum inconveniente em ceder 30 minutos do tempo do magistrado ao presidente da tal entidade.

As surpresas começaram quando, às sete e meia da noite, a porta do gabinete se abriu para a entrada dos solicitantes da audiência. Além de  Miro Borges, presidente do Instituto Barão de Itararé (o braço institucional da BESTA [Blogosfera Estatal]), estavam com ele o próprio Paulo Henrique Amorim e seu advogado, Marcos Cesar Klouri. O encontro foi registrado por um fotógrafo. A foto, que reproduzo acima, foi estampada na capa do Conversa Afiada, o blog de PHA.

A primeira pergunta que ocorreu a alguém que testemunhou a cena: por que um jornalista, ao se encontrar com um ministro do STF, se faria acompanhar por um advogado ?

Não é difícil saber a resposta. Ela pode ser encontrada no post escrito por Paulo Henrique Amorim sobre a reunião (no pé desta página. Se quiser ampliar, clique sobre a imagem). “No encontro , (…) Miro foi acompanhado deste ansioso blogueiro e seu advogado para causas cíveis – são umas 40 – Cesar Marcos Klouri”. Ou seja: PHA levou seu advogado para fazer lobby junto a Ayres Britto, antecipando teses que serão discutidas durante o julgamento de questões envolvendo seu notório cliente.

Recorro uma vez mais ao texto do Conversa Afiada para demonstrar como isso aconteceu. “Sobre a crescente judicialização da censura à liberdade de expressão, Britto acredita que o próprio STF já se pronunciou em diferentes decisões – inclusive dele, Britto – de forma a assegurar a liberdade”. E quem apresentou o problema da “judicialização” (eufemismo para introduzir a discussão das “mais de 40 ações” contra o blogueiro) ao ministro ?

Ao post:

“Klouri lembrou que, em recente vitória do ansioso blogueiro na Justiça do Rio contra Daniel Dantas, corajosa decisão da Juiza se baseou em muitos pontos em decisões de Britto. O Judiciário progressivamente entenderá inclusive a linguagem irreverente – à la Itararé – e crítica da Internet, observou Klouri: que precisa ser diferente da linguagem da mídia tradicional, inclusive por seu caráter interativo”. O ministro desconversou: “É uma questão de tempo”, disse ele, que não estava disposto a debater a tese do advogado de defesa de um réu contumaz.

É possível que Ayres Britto tenha ficado confuso com o paradoxo dos argumentos que seus visitantes foram defender. Por um lado, o convite tinha como objetivo conseguir que o ministro levasse sua credibilidade para abrilhantar o evento da BESTA em Salvador. O foco do evento, no entanto, estava centrado na “luta pelo Marco Regulatório da Comunicação e a crescente censura a blogueiros pela Justiça”.

Traduzindo: ao mesmo tempo em que pugna pela nova censura para a imprensa convencional, rotulada agora como “Ley de Medios”, PHA pretende obter da Justiça o reconhecimento de que a internet pode ser utilizada como um octágono de vale-tudo, selva sem normas em que até injúrias raciais, como as de que ele lançou mão para ofender o colega Heraldo Pereira, da Globo, poderiam ficar imunes a qualquer sanção.

Não é demais lembrar que o “ansioso” blogueiro, quando acuado por seus contendores, ameaça processar em série quem o critica, “judicializando” as contendas sempre que está em desvantagem — como estava quando foi obrigado a se retratar diante de Heraldo Pereira e a indenizá-lo com R$ 30 mil por tê-lo qualificado como “negro de alma branca”. O próprio editor deste Blog está na relação de 15 veículos, blogues e jornalista que ele anunciou que irá processar. Assim, PHA reivindica para si algo que quer suprimir dos outros: o direito à crítica.

Voltemos à reunião com Ayres Britto.

Lá pelas tantas, o ministro tentou explicar cordialmente por que não iria ao encontro da BESTA. “Ayres Britto informou que aceitará o convite, desde que não haja um impedimento técnico: assunto correlato estar em julgamento no Supremo”, diz o post do Conversa. Ou seja:  recusou o convite.

O “assunto correlato em julgamento no Supremo” atende pelo número AI 770191 (clique para consultar) no protocolo do STF. Trata-se de um Agravo de Instrumento em processo de indenização por danos morais movido por PHA contra Diogo Mainardi e a Editora Abril.

Paulo Henrique e Miro fingiram que não entenderam a recusa. Pediram ao ministro pelo menos para  ”enviar mensagem que possa ser lida como abertura oficial do evento” que discutiria a nova censura proposta dentro do cavalo-de Tróia da “Ley de Medios”, a despeito de o juiz da corte suprema ter afirmado que “não vê necessidade de qualquer lei que regule a liberdade na Comunicação, porque a Constituição regula tudo”.

E foram além. Diante da resistência de Ayres Britto,  ”Miro informou que o Encontro reproduzirá o que fez no I Encontro Nacional de Blogueiros Sujos, em São Paulo, dois anos atrás: colocar um banner acima da mesa de abertura, com uma frase do Ministro”.

Ayres Britto reagiu sugerindo duas frases, ambas filosoficamente contrárias ao tal controle social da mídia que a BESTA pretender ver implantado no País: “’A liberdade de expressão é a maior expressão da liberdade’;  e  ’os excessos da liberdade se corrigem com mais liberdade “, assinaladas no post de PHA .

Para o fim a que se propunha, o resultado da reunião foi catastrófico. Ayres Britto decidiu que não vai ao encontro da BESTA. Desta forma, os blogueiros “sujos”, como eles se autodefinem, vão ter que encontrar outro patrono para abrilhantar sua festa. Não vai ser fácil, a julgar pelo que promete o próprio Paulo Henrique Amorim em seu blog para a abertura do evento: “um ato solene na Praça Castro Alves, em que este  ansioso blogueiro, com voz de locutor de baile de debutante, lerá trechos do poema ‘O livro e a América’”.

Como os “cães de guarda” da imprensa ladravam para a caravana da ditadura passar em 1970

Do nada, um certo site da nova, novíssima esquerda, começa a derramar posts em série sobre a ditadura brasileira. Chama de “cães de guarda” dos milicos os jornalistas que apoiaram descaradamente a ditadura militar brasileira. O nome desse site é Conversa Afiada. Poderia se chamar mesmo Conversa Fiada, uma vez que seu editor, Paulo Henrique Amorim, foi um dos mais dóceis cãezinhos de guarda da ditadura nos anos 70. Para o desespero dele, não é difícil demonstrar.

Alguns leitores bem-intencionados têm se mostrado surpresos com a série de revelações. Acreditavam, de bom coração, na sinceridade de PHA em sua defesa do governo Lula, do governo da Dilma, do governo FHC, … até de gente como o Zé ‘empate’ Dirceu, na sua retórica a favor dos pobres e oprimidos. Acreditavam até que PHA nasceu na esquerda. Até que ele agora é líder do movimento negro.

Aos fatos.

Muito jovem, quando todos costumam ser de esquerda, PHA já era uma espécie de poodle dos homens de farda. Naquele tempo, a revista Veja não assinava a maior parte das reportagens e, por isso, não é fácil encontrar o nome de PHA em muitas delas. De  70 a 74, foi o editor de economia da revista, segundo atesta o próprio currículo que ele publica em seu site.

Nessa condição, pode-se dizer, com segurança, que todas as reportagens econômicas ufanistas, de apoio á ditadura, têm o dedo dele. Convido o leitor a passear pelas páginas de economia da revista naquele período, consultando o arquivo digital, aberto a todos na internet (mas se preparem para o enjoo, diante de tanta propaganda pró-ditadura). Alguma vezes, porém, o editor da revista, Mino Carta,  na seção “Carta ao Leitor”, denunciava a autoria das reportagens. E, quando isso acontece, não há como se esconder.

Foi o caso da edição de 26/08/70. Mino Carta escreve na Carta ao Leitor: “O anúncio do Programa de Integração Social [o PIS], o assunto da reportagem de capa daquela edição (página 28, texto final de Paulo Henrique Amorim e Emilio Matsumoto), confirma uma antecipação de Veja.”

O enjôo, caro leitor, começa pelo título: “Um programa à brasileira”.  Assim mesmo, com esse ufanismo patriótico de conveniência a serviço da farda e do coturno. A ânsia de vômito aparece no subtítulo grandiloqüente: “ A integração social através de um fundo sem igual”.

Poucos leitores não passarão mal com o texto em si. Começa com uma rematada mentira: “Quem ganhar pelo menos dois salários mínimos por mês receberá, na pior das hipóteses, seu ordenado multiplicado por 36, ao se aposentar depois de trinta anos de serviços.”

Prossegue com um delíro fascista, o do fim das tensões, naturais, entre patrões e empregados, algo que a ditadura perseguia a ferro, fogo e pau-de-arara. Eis aí o fulcro da questão, o que francamente interessava ao regime — e a seu lulu adestrado — na época: afastar as discussões sobre a participação nos lucros, esta sim, a verdadeira reivindicação dos operários.   “Estão evitadas na mensagem presidencial todas as possibilidades de tensão entre patrões e empregados. Não se fala em participação nos lucros. Ao contrário, criou-se uma fórmula original, retirada da famosa inventividade brasileira. Os empregados participarão, através de um fundo, do faturamento (ou seja, das receitas) das empresas e não de seus lucros (o que significa tecnicamente o resultado da diferença entre receita e despesa).”

E, claro, acaba por bajular o ditador Médici, mentindo para os brasileiros ao dizer que o general tinha como objetivo uma sociedade próspera e aberta, tudo o que o Brasil não era à época:  “‘O segredo mais bem guardado é o que todos imaginam’. A frase de Bernard Shaw, sábio dramaturgo irlandês, aplica-se inteiramente ao PIS. A notícia explodiu na semana passada com o impacto das grandes revelações. No entanto, analistas mais observadores já podiam prevê-la desde o dia 7 de outubro do ano passado, quando o Presidente Médici, pela televisão, comunicou que aceitava sua indicação para presidente da República. Naquele dia, mencionou seu desejo e promover uma revisão da distribuição da riqueza numa sociedade próspera e aberta. Na primeira reunião ministerial pediu aos seus auxiliares imediatos que estudassem medidas que viessem a marcar seu governo com as intenções reformistas a que se propunha.”

Não é segredo para ninguém que o lulu da economia de Veja se empenhava — e como! — em sua função de propagandista dos feitos homéricos do pior presidente que o País já teve. Pior no sentido de mais cruel, desumano. Aqui mesmo, neste espaço, publiquei outro dia um post revelando que PHA certa vez, nos idos dos 70, ganhou um prêmio Esso ao contestar o Censo, que acabara sair com algo que não convinha ao comando da quartelada. O IBGE, que não era propriamente um bunker do PIG de então, constatou que havia, como a história provou, uma enorme concentração de renda no tal Milagre Econômico. PHA, no entanto, se fiou a um estudo assinado por Carlos Langoni para desqualificar o censo e provar que o Brasil Grande era maior e mais justo do que realmente era. Maior e mais justo. Au-au!

Volto ao assunto anterior. Na descrição do PIS, PHA não poupa adjetivos para vender aos brasileiros a falsa imagem de que o programa era uma coisa genial. Para isso, adula todos os czares da ditadura da época, para que nenhum deles se sentisse enciumado:  “Acabou surgindo a fórmula do PIS, árvore de muitas sementes, depositadas com cuidado por Delfim, Barata, Leitão de Abreu, chefe do gabinete civil, e poucos assessores. (…) Fecha-se assim o círculo desse engenhoso mecanismo”. Engenhoso, diga-se de passagem, a ponto de ser anunciada desta forma: “Afastada a solução da participação nos lucros, o presidente apelou para a imaginação criativa de seus ministros“. Só elogios!

Não se esqueçam, ele estava falando do PIS, que vocês conhecem tão bem.

Para não haver dúvidas sobre a grandiloquência do projeto do recém-empossado ditador Médici, fecha com uma declaração de Delfim, com o objetivo de anestesiar os trabalhadores de então, vítimas do que, na época, chamavam de arrocho salarial: “‘O fundo demonstra claramente a preocupação do governo com os trabalhadores. Além disso, significa também uma verdadeira abertura política, já que as lideranças parlamentares foram convocadas pelo Presidente Médici para conhecerem com antecedência o conteúdo do programa’, disse Delfim. Para o ministro, porém, o PIS tem uma inestimável vantagem adicional, não fosse ele um de seus idealizadores: ‘Essa fórmula é brasileira. Não há no mundo sistema idêntico ou semelhante.’”

Verdadeira abertura política no governo Médici, cara pálida? Au-au!

Ora, em 1970, o Brasil vivia o auge da ditadura militar, com Dilma presa, torturada, assim como milhares de outros. Não havia sociedade próspera e aberta coisa nenhuma. E também nenhuma integração entre patrões e empregados. A reportagem, na verdade, é uma peça de propaganda da ditadura. Escrita pelo PHA.

Por que relembro todos esses casos? Porque acho que os jornalistas devem viver da verdade. Não à toa, conheço poucas pessoas que sejam contra a Comissão da Verdade. Os brasileiros, sem prejuízo da Lei da Anistia, devem conhecer a sua história. Mas esse conhecimento tem de ser completo. Se devemos conhecer quem eram os torturadores e golpistas, devemos saber quem eram os jornalistas que os apoiaram — a verdadeira imprensa golpista, que propagandeou sem nenhum constrangimento o golpe militar. A Comissão da Verdade pode começar por aí.

Para que você não se perca nesse emaranhado diáfano da história, publico na íntegra a reportagem ufanista que Paulo Henrique Amorim produziu. Reiterando que o Blog do Pannunzio não descontextualiza declarações para construir a crítica política, prática comum em certos canis virtuais contemporâneos.

Os nazistas e suas manifestações – o caso de uma patológica lorraine

Peço desculpas antecipadamente pelo baixíssimo nível do conteúdo que reproduzo abaixo. O comentário, assinado por uma nazista que se apresenta apenas como lorraine, foi publicado ao final de um post meu replicado no Brasil_247. A destemperada atua sempre na defesa escrachada dos blogs da BESTA.

Na ausência de argumentos para confrontar minhas posições no debate sobre o papel de jornalistas que aderiram à ditadura militar, os comentaristas pagos da BESTA funcionam como elementos propagadores do achincalhe, jagunços a serviço da vilania verbal que pretende substituir a censura do anos 70, que eles idolatravam.

 

A edição em que Mino Carta pugnou pela pena de morte para os “terroristas”

Prometi ontem publicar a íntegra da edição da revista Veja nº 54. Ela chegou às bancas em 17 de abril de 1969, ao fim de uma semana agitada pelo sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick e pela adoção da pena morte, que seria apicada contra os “terroristas” — termo usado para qualificar a guerrilha de esquerda. A edição constitui um importante documento histórico. Revela como jornalistas se dispunham a prestar apoio aos mais cruéis métodos de perseguição e constrangimento  na luta suja contra a subversão.

A revista era chefiada por Mino Carta. A autonomia do editor plenipotenciário é atestada por um homem que logo depois se integraria à equipe: Paulo Henrique Amorim. Segundo ele,  “como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

A revista não fazia questão de esconder seu engajamento ao governo que protagonizou o mais bárbaro período da ditadura militar. Chegou ao descalabro de publicar, nessa edição, um trecho do relatório de um repórter que deixa claro  a serviço de quem realmente estava . No texto, que reproduzo ao lado,o repórter diz o seguinte: ”Se for outra semana como esta, meu velho, não sei onde vou parar, eu, guerreiro cansado de uma luta particular contra a subversão“. Numa alusão implícita à tortura, o jornalista se confessa assaltado por sonhos com “presos gritando em volta da minha cama”.

A publicação desse relatório explicita de que lado estavam Mino e seus áulicos da ditadura. A revista aceitava e propalava seu engajamento ao absorver a observação do repórter, endossá-la a publicá-la.

Os absurdos decorrentes desse engajamento produziram aquela que é talvez a página mais abjeta do jornalismo da imprensa golpista de então — goslpista porque se prestava não apenas a apoiar, mas também a funcionar como peça de propaganda da ditadura.

A releitura dos textos de Veja, disponíveis gratuitamente no Acervo Digital do site da revista, revela que o engajamento não se limitava à cobertura. Ele se expandia também para a propaganda da doutrina sobre a qual o regime se sustentava. “Os episódios [da semana anterior] se avolumam e empurram a junta militar para decisões inevitáveis mas, ao mesmo tempo, de altíssima responsabilidade: a pena de morte, o banimento e a prisão perpétua contra os subversivos”, é o que se pode ler no corpo da reportagem de capa.

Este Blog tem por política não descontextualizar declarações para construir a crítica política. Por esta razão, publico a íntegra das reportagens do número 54 de Veja, conforme havia prometido ontem.

No link abaixo você vai encontrar as doze páginas com três reportagens. Vale a pena lê-las do começo ao fim. Talvez, depois disso, seja possível entender outra manifestação do próprio Mino Carta, em entrevista ao programa Provocações, da TV Cultura no ano passado. A entrevista está publicada integralmente neste blog e pode ser acessada aqui.

Nela, Mino Carta assume que  ”por um certo período eu agi como um mercenário (…). Quem me pagava, me tinha”. A frase, que poderia representar o epitáfio moral de qualquer  jornalista, talvez ajude a entender o comportamento de Mino Carta nos anos mais sangrentos da ditadura militar.

Sob Mino,Veja defendeu em editorial a pena de morte, o banimento e a prisão perpétua dos “subversivos” em 1969

“Syzeno Sarmento, Jarbas Passarinho, Garrastazu Médici, Orlando Geisel, Albuquerque Lima, Lyra Tavares – entre meia dúzia de personalidades que aparecem na capa desta edição pode estar um novo presidente da República. Além destes, há muitos outros nomes de prestígio e responsabilidade que, por sua própria projeção, ganham condições de candidatos a candidato.”

Era assim, de forma elogiosa e subserviente, que Mino Cara assinava (literalmente) a Carta de Leitores como editor da revista Veja, em 17/9/1969, quando especulava sobre quem substituiria Artur da Costa e Silva, o marechal abatido por uma trombose em agosto daquele ano e, desde então, substituído no poder por uma junta militar. Na reportagem, intitulada “Discute-se a sucessão”, Mino defendia medidas horripilantes. Não, não era a revista que ele editava que defendia os atos que serão narrados a seguir. A confiar no seu admirador, que com ele trabalhava à época, Mino escondia a revista dos patrões, para poder escrever nela o que bem entendesse. Paulo Henrique Amorim escreveu solene em seu blog: “Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.” Acreditamos nele. E o que Mino escreveu ou mandou escrever na reportagem? Leiam a seguir:

“ A Junta, além de desde o início se ter qualificado como solução temporária, tem outros problemas.. De acordo com os propósitos  do Ato Institucional nº 12, reafirmados no comunicado de quarta-feira passada, a Junta se comprometeu a aplicar os planos de governo de Costa e Silva, que previam a reabertura do Congresso e uma nova Constituição. Mas desde o seqüestro do embaixador americano o combate à subversão ficou sendo o primeiro objetivo da Revolução. Os três ministros não se sentem autorizados a ordenar meia-volta no caminho traçado e percorrido pelo Presidente. Como ministros militares, têm de tomar providências contra a subversão, as mais drásticas, como as que marcaram a semana passada. Os acontecimentos, até por obra de coincidências, se avolumam e empurram a Junta para decisões inevitáveis, mas, ao mesmo tempo, de altíssima responsabilidade: a pena de morte, o banimento e prisão perpétua contra subversivos, confisco de bens contra corruptos e cassações contra políticos, sem poupar até mesmo um ex-ministro de João Goulart, Oliveira Brito, secretário de Minas do Governador Luís Viana Filho. Tão inevitável como essas decisões é a necessidade de ao país um governo normal, não temporário.”

É Mino Carta, e seus escribas, por ordem sua, defendendo a pena de morte, o banimento e a prisão perpétua de brasileiros. Atos horripilantes. Repulsivos. Mas que saíram da pena dele, sem dó nem piedade, porque, para ele, eram inevitáveis, soluções as mais drásticas, que precisavam ser tomadas. Esse é o Mino que posa agora de democrata. Na entrevista à Antônio Abujamra, no programa Provocações, de março do ano passado, na TV Cultura, Mino disse que não chega perto de um computador, porque teme ser comido por aquela ‘bocarra’. Hoje, sabemos por quê. Ele temia ser comido pelos arquivos digitais de Veja, abertos ao público, que denunciam o seu passado trevoso (um adjetivo que ele gosta muito de usar).

Nota do blogueiro: vou publicar a íntegra da reportagem mencionada mais tarde. Ela está disponível no Acervo Digital da revista Veja.

Eles por eles: Mino Carta por Mino Carta

Não vou tecer nenhum comentário. Você assiste, você analisa, você conclui, depois você comenta, se quiser. A entrevista, concedida a Antônio Abujamra no ano passado, está dividida em três partes. Quando uma acaba, começa a  outra automaticamente.

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Imprensa Golpista: Como os editores de Veja comemoram o sexto aniversário da “Revolução” de 64

Reprodução do livro "A Vida Quer é Coragem, de Ricardo Amaral

Dilma enfrenta seus algozes com dignidade...

A foto acima, descoberta pelo jornalista Ricardo Amaral e publicada em seu livro “A Vida Quer é Coragem”, é o emblema de um dos período mais tristes da história brasileira. Aos 22 anos de idade, a militante Dilma Rousseff enfrenta a corte militar com altivez  e dignidade — enquanto seus algozes, envergonhados, escondem o rosto. Os signos aí expostos denotam de maneira contundente o embaraço moral reservado aos que tinham, por ofício, o dever de defender (ainda que no contexto das instituições golpeadas) a ditadura brutal que se instalara no País seis anos antes.

Reprodução do Acervo Digital de Veja

... enquanto o editor de Veja enaltecia o "único antídoto de seguro efeito contra a subversão".

Mas nem todos os brasileiros se sentiam constrangidos em apoiar enfaticamente o regime dos quartéis que aposentou a política, calou a imprensa e perseguiu de maneira atroz e determinada os que a ele se opunham. Naquele momento da história , a revista Veja, a exemplo de vários outros órgãos da imprensa brasileira, apoiava declaradamente o golpe de 64. Alguns jornalistas que lá trabalhavam faziam uma defesa entusiasmada do regime. O texto que reproduzo ao lado é parte da Carta ao leitor da edição número 82, de 1º de abril de 1970. Foi escrito e assinado pelo jornalista Mino Carta.

Deve-se reconhecer que, anos depois, Mino se lançou de corpo e alma nas várias campanhas pela reinstitucionalização do Brasil. Mas, naquele momento complicado da vida institucional de País, ele e a revista que dirigia estavam em outra condição — a de áulicos do regime militar. Não é necessário mais do que uma releitura dos arquivos do Acervo Digital de Veja, que podem ser consultados gratuitamente por qualquer um, para a checagem da veracidade desta afirmação.

Pode-se argumentar que os jornalistas eram acossados pelos censores. Eram mesmo. Quando Vladimir Herzog foi morto, anos depois, Veja saiu sem a seção Brasil. Imagino que todo o material que se pretendia publicar tenha sido  censurado. Porque era exatamente isso o que  censura oficial fazia: suprimir.

Não obstante, não há registro de que a vigilância do Estado sobre a imprensa tenha feito com que um jornalista escrevesse, contra suas convicções e o universo fático,  elogios ao regime.

Nas páginas da edição 82, os militares (como os que escondem a cara na foto que antecede este post) são descritos desta forma: “Esses homens saídos dos quartéis destrincharam aos poucos as sutis malhas da crise brasileira. Para enfrentá-la dispunham da formação idealista e combativa que receberam nas escolas e unidades e da unidade de objetivos que cultivaram na vida da tropa”. Longe dos olhos da opinião pública, outra ala de “idealistas combativos” submetia a atual Presidente às mais abjetas formas de tortura durante 22 dias consecutivos.

A matéria descreve os milicos dos anos 70 como homens que, “entre o apego às origens [humildes] e o fascínio pela pompa que revestia o poder, preferiram desmistificar a importância dos cargos” . E segue enaltecendo os hábitos austeros da nova burocracia de farda. Homens que “perceberam que havia outras tarefas, além do combate à subversão e à corrupção — e pensaram no futuro”, como se pode ler na Carta ao Leitor.

A linha-dura do regime mereceu menções elogiosas à parte.  Veja afirma que “o militar que em 1964 lutava contra a subversão e a corrupção, hoje, sem transigir com nenhum dos seus antigos inimigos, está empenhado ao mesmo tempo na construção de uma nova política social e econômica para o País”. Seria uma referência velada ao militar de 68 em diante, quando o monstro da ditadura se apresentou com sua pior face após o fechamento do Congresso,  a edição do AI-5 e a supressão do habeas-corpus?

Sem esboçar a mais dócil crítica ao governo, a reportagem foi prodigiosa em apontar as conquistas do regime. “A ação dos militares em cargos técnicos deu resultados surpreendentes em muitos casos”, pontifica o texto. Um dos personagens enaltecidos é o então Coronel Cesar Cals Filho, que “mora em casa alugada, não tira férias de 1958 e só janta em restaurantes aos domingos, em companhia de toda a família”.

Ao final da reportagem, Veja assevera que “para alguns setores, os militares representam uma intromissão estranha, que modifica radicalmente o jogo social, econômico e político; para outros, ao contrário, a intervenção dos militares é recebida como a última — e única — alternativa à preservação do regime”. Para concluir que, até a chegada do momento de devolver o Poder aos civis, “os militares continuarão a exercer o poder político com o mesmo sentido de missão a cumprir que um jovem oficial cultiva, comandando uma companhia de fronteira, ou que um velho general aplica no último posto de comando”.

Imagino o que teria sentido aquela menina de 22 anos da foto ao ler essa reportagem entre um choque elétrico e uma sessão no pau-de-arara. Imagino também que a farsa engendrada pela Imprensa Golpista de então — aquela que idolatrava o golpe — tenha relação com a altivez dos olhos da prisioneira Dilma Rousseff. E que o o contraste entre o mundo dourado  da oficialidade, projetado por reportagens como essa, e o mundo real dos porões, seja a causa da vergonha que deve ter levado os juízes da ditadura a esconder o rosto do fotógrafo. Os homens sem rosto sabiam o que estavam fazendo.

Os editores de vejam, também.

abaixo, a íntegra do texto, que pode ser lido também no Acervo Digital da Revista Veja.

Cutucando a BESTA (Blogosfera Estatal): Coerência, pelo menos, aqui não falta

Tenho sido “acusado” nos últimos dias de coisas que eu realmente fiz. Portanto, as acusações não me machucam nem irritam. Eu realmente defendi o Bóris Casoy diante do bullying que os patrulheiros da BESTA (Blogosfera Estatal) armaram contra ele. Casoy, que é meu colega de emissora, nunca escondeu de ninguém que é um conservador. Eu não sou conservador, mas tenho respeito por ele, mesmo discordando de muito do que pensa.

A frase infeliz dita por ele foi interpretada com um sentido ideológico que realmente não tinha. Foi produto de um vazamento de áudio na passagem de bloco do jornal. Não foi um raciocínio tramado, como se ele tivesse deliberadamente , dolosamente, lançado mão de preconceitos ideológicos para ofender os garis. No campo da motivação e das intenções, o episódio não pode ser comparado ao texto em que Paulo Henrique Amorim ofende, dolosa e deliberadamente, o colega Heraldo Pereira com o bordão escravocrata “negro de alma branca”.  Mas isso os fundamentalistas da BESTA não discutem.

Também me “acusam” de ser sobrinho do ex-deputado Antônio Carlos Pannunzio. Já expliquei que ele é meu primo em primeiro grau. Imagino que a única ofensa aí e ao Antônio Carlos Pannunzio, porque a relação de parentesco que nos foi atribuída faz com que ele pareça necessariamente muito mais velho do que realmente é. Também já disse que tenho o maior orgulho desse primo, que foi e é um emblema de retidão de conduta e honestidade em sua vida pessoal.  Como nunca o entrevistei nem nem o usei como fonte de nenhuma reportagem em toda a minha vida, não vou  tecer considerações sobre as posições políticas dele. Isso simplesmente não vem ao caso. E olhem que ele era líder do PSDB e eu, repórter político em Brasília.

Para os que me cobram coerência, reafirmo que coerência não me falta. Eu não escrevi uma coisa ontem e desdisse hoje. Eu não enalteci ditadores no passado, assim como não deitei falação pela Comissão da Verdade no presente (que eu apoio, não como instrumento de revanche, mas porque representa uma oportunidade histórica de esclarecer o destino dos desaparecidos e o que permanece oculto nos arquivos do próprio Estado). Eu nunca fui obrigado a me retratar de nada.

Como quero deixar isso muito claro, reproduzo abaixo o texto em que fiz a defesa do meu colega, que mantenho integralmente. Divirtam-se, comentaristas pagos da BESTA!

O caso Bóris Casoy: reações demonstram sociopatia neonazista

Três dias atrás postei um artigo intitulado Em Defesa de Bóris Casoy. Afirmei que o apresentador do Jornal da Noite era vítima de uma campanha hedionda de cyberbullying por causa de um comentário infeliz sobre os garis. Argumentei que o áudio que vazou durante um intervalo do Jornal da Band permitia diversas interpretações e que talvez não fosse sua intenção deliberada — ou sequer inconsciente — discriminar os garis.

Mas o cerne da minha argumentação nem era esse. O que me motivou a escrever foi a reação absurdamente desproporcional de algumas pessoas. Gente que foi além do insulto, que lançou mão de argumentos fascistas para tentar desqualifcar o apresentador.

O texto recebeu milhares de comentários. A maioria esmagadora discordava de mim quanto à motivação da frase que indignou a opinião pública. Todos os comentários que não tinham conteúdo homofóbico, antissemita, de segregação religiosa, não eram injuriosos ou caluniosos foram publicados. O blog assegurou, desta forma, a manifestação de todos os que quiseram participar do debate — mesmo os que, de maneira enfática e veemente, contestavam o que eu havia escrito.

Volto ao assunto agora porque o material que chegou às minhas mãos, especialmente o que não foi publicado, me levou à triste constatação de que nossa sociedade está doente. Há uma horda de sociopatas neonazistas esperando oportunidade para se manifestar. E vou demonstrar o que estou dizendo.

No site do Yoahoo, ao responder a uma pergunta sobre o que acha de Bóris Casoy, um internauta identificado como Marcos1427 diz o seguinte: “é um judeu (nada contra) foragido da Rússia (c certeza passava fome) contraiu a poliomielite(q deve ter subido ao cérebro)”. você acha razoável que alguém se utilize das sequelas de uma doença como a poliomielite para atacar um contendor ?

Alguém com a apelido TheMiseravel escreve, no Youtube, que “NEM PRA GARÍ ELE SERVE, COMO TRABALHARIA COM SUAS LIMITAÇÕES? “. A indagação neonazista não atinge apenas o jornalista que se pretendia atacar. Atinge todos os deficientes que, de acordo com o raciocínio por trás dessa pergunta capciosa, não servem para nada, não têm utilidade social. E houve também internautas que chegaram ao cúmulo de afirmar que Bóris deveria ter morrido com um ano de idade, quando contraiu poliomielite.

A segregação racial, o preconceito religioso, o antissemitismo grassaram na internet. Num Blog do WordPress, alguém que assina Dr. Weissberg — provavelmente em alusão a Alexander Weissberg, judeu comunista que constestou o Holocausto — escreve, sobre Bóris: “Como todo judeu, desclassificam todos os que não são judeus”. Quer dizer: a religão e a ascendência étnica do âncora da Band seriam os motores ideológicos de seu comentário sobre os garis. “Sendo Boris Casoy um JUDEU, não vejo surpresa nesse ato de arrogância e insolência”, escreve alguém sob o pseudônimo de Ahmadinejad em outro blog .

Até quando parecem querer contemporizar os racistas, xenófobos e antissemitas se materializam. ”Não é pelo fato de ser judeu (tenho amigos desta religião), mas que isso ajuda ninguém pode negar”, diz um internauta no Yahoo Respostas .

O desrespeito não tem limite. “Boris Casoy [é] mais um judeu imundo e preconceituoso”, comenta alguém sob o codinome de Roberto no blog Bobagento. O mais grave é que nos comentários que se seguem ninguém o censura. No Twitter, um tal Toodoro teve a coragem de postar a seguinte mensagem: “Boris Casoy um judeu imundo e hipócrita. Fique uma semana longe desse jornalzinho que vai ver que NINGUÉM sente sua falta. SEU BOSTA!”.

A homofobia também forneceu armas para o ataque dos neonazistas de plantão. “VINDO DE UM VIADO ENRRUSTIDO O QUE SE PODE ESPERAR, ISSO SIM É UMA VERGONHA”. Foi o que disse alguém que assina João Souza no site 24horasnews.”Viado, velho filho da puta”, exclama outro (leia aqui). E por aí vai.

Também me causa espanto que sites com comentários moderados permitam esse tipo de manifestação. Cada uma dessas afirmações constitui crime hediondo, inafiançavel. A responsabilidade ultrapassa a figura do agressor e chega ao editor responsável pelas páginas eletrônicas que permite a publicação desse lixo ideológico.

Alguns dos meus críticos dizem que o suposto preconceito de Bóris contra os garis justificaria essa espécie de Lei de Talião no ambiente da internet. Seria o preconceito contra o preconceito. Não aceito essa justificativa em nenhuma hipótese. Os comentários não ferem apenas um jornalista; ferem judeus, gays, idosos, deficientes. Ferem a dignidade humana.

É por estas razões que este blog reitera o que foi dito no primeiro artigo. A sociedade contemporânea está doente. Sobre nossas cabeças paira, sem nenhuma sombra de dúvida, uma ameaça neonazista que, em letargia, vive à espreita de qualquer pequena oportunidade para assombrar nosso futuro.

Bajulação, ausência de crítica, subserviência e propaganda da ditadura. Era assim a Veja de Mino Carta e PHA em 1970

1º de julho de 1970. Naquele dia, quando chegou às bancas a edição de número 95 da Revista Veja, o País ainda purgava o delírio coletivo produzido pela conquista da Taça Jules Rimet na Copa do México. Em 12 página recheadas de fotos ufanistas, Veja pintou um quadro magnífico da situação política do País, enalteceu o patriotismo do presidente de então, o General Emílio Garrastazu Médici, e teceu loas à propaganda oficial.

Nas três reportagens publicadas sobre o assunto,  nenhuma menção à tortura, às prisões arbitrárias e aos desaparecimentos. O objetivo implícito do material editado não poderia ser outro que não o de promover a ditadura, o ditador e seus ditames.

A primeira das três retrancas tinha como título “A Imagem do Sucesso”, manchete da reportagem principal. Ela dava conta da generosidade do general que, contraiando conselhos de seus assessores, decidiu abrir o Palácio do Planalto aos torcedores em vez de receber os jogadores no Alvorada.

No texto há elogios em profusão. E também demonstrações ostensivas de subordinação e submissão ao regime. Começa descrevendo a “solenidade” da chegada de Médici ao Planalto na terça-feira anterior. “70.000 pessoas estavam concentradas desde cedo” quando o general chegou “erguendo os braços num gesto largo e instintivo para agradecer os aplausos que vinham da multidão”. ”Quando o General Médici entrou, foi recebido por outra salva de palmas. ‘Ele estava alegre e descontraído’, comentou um ministro”, prossegue a reportagem, para concluir que “surgia naquele momento uma evidente demonstração de simpatia popular ao governo”. Puxa-saquismo explícito.

Para a Veja de Mino Carta, a concessão feita por Emílio Médici ao abrir o Palácio para o povão era produto de vários fatores. Principalmente de sua identificação como torcedor sincero, mas também por atitudes  como as que ele protagonizara em face do problema da seca do Nordeste, que o ditador fora conhecer pessoalmente na semana anterior, oportunidade em que teria atuado “com a sensibilidade de um político interessado na conquista da opinião pública”. A isso, Mino Carta e seus editores chamaram de “feliz associação”.

A propaganda da ditadura foi qualificada como um “trabalho cuidadoso e aparentemente econômico” para a construção de uma imagem positiva. Não mereceu nenhuma ressalva o fato de que os filmetes produzidos para o cinema e a televisão tinham como alvo as crianças em idade escolar.

Veja engoliu do Coronel Otávio Costa, que chefiava a Assessoria de Relações Públicas da Presidência, a afirmação de que as peças não poderiam ser encaradas como propaganda convencional, e sim como “uma tentativa de de criação de um clima de otimismo, (…) colaborando com a educação moral e cívica do povo e sobretudo dos jovens”.

A terceira reportagem aparece sob o título “A Maioria Silenciosa”. Ela tenta explicar o surgimento daquele que se transformaria no mais cruento bordão produzido pela ditadura militar: “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”. A edição 95 dedica uma página inteira à gênese da campanha odiosa. Atribui a origem do slogan a uma iniciativa análoga do Governo Nixon para enfrentar o movimento pacifista que se opunha à Guerra do Vietnã. O dístico “passou a ser visto com frequência em para-choques e para-brisas de carros e ônibus” dirigidos pelos operariado urbano e pela classe média, cansados “das agitações estudantis, das rebeliões dos negros e das críticas à posição do governo em relação à guerra”.

Reproduzo, abaixo, a íntegra das reportagens. Sua releitura atenta pode não ajudar a enterder o que de fato se passava no Brasil de 1970 pelo simples fato de que a revista havia adotado um lado — o lado da farda. Mas constitui uma ferramenta fundamental para explicar como jornalistas engajados trabalharam como peças auxiliares para a conformação da imagem positiva do governo na pior fase da longa ditadura brasileira, transformando-se em áulicos do regime de exceção.

As responsabilidades pelas posições equivocadas, pelas posições evidentemente engajadas, neste caso não podem ser reputadas nem à censura oficial, nem à censura patronal. Recorro à afirmação que encontrei hoje no site de Paulo Henrique Amorim para embasar essa afirmação. Segundo ele, “Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) [Civita, dono da Editora Abril] lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar”.

O mais incrível é que esses mesmos áulicos se arvoram em defensores de governos contra uma paranoica conspiração da imprensa indepentente, por eles batizada de PIG — Partido da Imprensa Golpista.

O doce vai para Paulo Henrique Amorim. Acertou em cheio o nome do autor do texto de Veja que só não chamou Médici de bonito

Vários leitores do Blog acertaram o nome do autor da “Carta ao Leitor” da edição 95 de Veja. Oliveira Neto, Cláudio e Álvaro foram os primeiros. Mas o doce prometido no post “Imprensa Golpista: quem, afinal, apoiou a ditadura militar brasileira ?” vai para o ínclito Paulo Henrique Amorim. Em seu blog, o apresentador do bispo Edir Macedo afirmou hoje (clique aqui e aumente a audiência do site dele se quiser beber na fonte):

“Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) [Civita, dono daEditora Abril] lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar”.

Com a assertividade habitual, Paulo Henrique Amorim cumpre um importante papel histórico: o de estabelecer de quem era a responsabilidade pela linha editorial da revista nos Anos de Chumbo. O testemunho do blogueiro não pode ser desprezado. Na época, ele era um dos editores de Veja. Portanto, pelo menos desta vez, PHA fala sobre o que viu e viveu.

Publico daqui a pouco a reportagem à qual a Carta de Mino remete. E um texto histórico. Só não chama o general Emílio Garrastazu Médici de bonito. Mas enaltece sua obra — e até o emblema fascista “Ame-o ou Deixe-o”, que acabava de se transformar no mantra dos milicos, torturadores e sabujos do pior ditador brasileiro.

Blogs brasileiros fizeram “permuta” para driblar censura

Censurados por razões diversas, dois blogs brasileiros fizeram uma inusitada “permuta de censura”  para impedir que seus leitores fossem privados da publicação de notícias de interesse público cuja veiculação foi proibida por juízes estaduais.

O Blog do Pannunzio foi proibido de denunciar uma quadrilha de traficantes de pessoas que  atuava no Paraná e em países como a República Dominicana, Equador e Estados Unidos.

O Prosa e Política foi impedido de noticiar a escandalosa gestão do deputado estadual matogrossense José Geraldo Riva à frente da Assembléia Legislativa daquele Estado. Os editores das páginas eletrônicas decidiram, então, trocar o material censurado, e cada qual passou a publicar aquilo que o outro estava impedido. A experiência, inédita como tática de enfrentamento da censura de natureza judicial, repercutiu no mundo todo.

As restrições contra o Blog do Pannunzio foram levantadas meses depois pelo Tribunal de Justiça do Paraná. Mas o Prosa e Política permanece até hoje privado de  publicar posts sobre o deputado Riva, embora este tenha sido impedido de assinar cheques e assumir outras responsabilidades inerentes ao cargo de presidente do parlamento de MT.

Riva  não pode concluir seu último mandato porque foi duas vezes cassado pela justiçca eleitoral por compra de votos e fraude eleitoral. Ainda assim, a censura permaneceu. Posteriormente, foi reeleito com a maior votação a alcançada por um deputado estadual na história de Mato Grosso — a despeito de sua enorme folha corrida, adornada por quase 170 ações civis públicas e processos criminais.

Mas a estratégia de coação judicial não cessou. O deputado ficha-suja processa cicil e criminalmente os editores de ambos os blogs, pedindo a aplicação de penas que chegam a 26 anos de prisão, no caso do blogueiro Fábio Pannunzio, do Blog do Pannunzio, e 11 anos para Adriana Vandoni, do Prosa e Política.

A íntegra da decisão judicial que liberou o blog da censura

Trata-se de agravo de instrumento, com pedido de efeito suspensivo, interposto por Fábio Azevedo Pannuzio em face da decisão que deferiu a liminar nos autos da medida cautelar inominada proposta por Deise Zuqui, determinando que o ora agravante retirasse de seu “blog” as notícias relativas à ora agravada e que se abstivesse de publicar novos fatos que a envolvessem, estabelecendo multa diária por atraso no cumprimento da decisão (fls. 18/21).
Alega o agravante que noticiou em seu “blog” que a agravada era procurada pela INTERPOL, apenas com o intuito de encontrar pessoas procuradas pela polícia, esclarecendo que apurou tal fato através do site da própria INTERPOL.
Afirma que a decisão impugnada foi extra petita, eis que determinou que o agravante se abstivesse de publicar novas notícias em seu “blog” envolvendo o nome da agravada, pleito este que sequer foi feito na inicial, e que seu teor representa censura prévia e fere a liberdade de informação.
Assim, requer a concessão de efeito suspensivo, nos moldes dos artigos 527, inciso II, e 528, ambos do Código de Processo Civil, e, ao final, a reforma da decisão agravada.
De fato, ainda que em sede de cognição sumária, entendo que razão assiste ao agravante, pois a decisão recorrida concedeu provimento judicial diverso daquele pedido pela agravada.
Da leitura da inicial da medida cautelar, proposta em 15 de julho de 2009, fica evidente que a ora agravada somente pleiteou que fosse determinado que o agravante se retratasse em seu “blog”:
“4. Para que se impeça a continuação da depreciação da moral da autora, o réu deverá imediatamente se retratar, assentando em sua coluna jornalística.
(…)
15. O artigo 804 do CPC, outorga ao magistrado a possibilidade de conceder inaudita altera pars a liminar pleiteada, e é o caso em mesa, pois a cada dia que o nome da autora aparece vinculado, prejuízos irreversíveis vem sendo causados.
Assim, requer a V. Exa. que acolha a presente medida cautelar, por estarem presentes os requisitos extrínsecos e intrínsecos, determinando liminarmente e inaudita altera pars que o réu apresente efetivamente seu equívoco em sua coluna, deixando vinculada o seu erro em relação a chamar a autora de ‘fraudadora’ internacional, por A.R..
(…)” (fls. 34/35)
No entanto, a decisão agravada não foi no sentido de acolher o pedido feito por Deise Zuqui, e impôs ao agravante obrigação completamente diversa daquela que fora pedida na cautelar:
“Posto isso, presentes os pressupostos para o provimento cautelar, DEFIRO a liminar requerida, para o fim de determinar que o requerido retire as notícias veiculadas em seu ‘blog’ com relação à autora, bem como se abstenha de veicular novas notícias envolvendo a autora, em cinco dias, sob pena de multa diária de R$500,00 (quinhentos reais), por dia de atraso” (fl. 20)
Assim, está evidente que a decisão agravada foi extra petita, eis que concedeu à agravada provimento judicial que não foi por ela pedido.
Por tal motivo, entendo que, no momento, deve ser suspensa a decisão agravada, a fim de que não se obrigue o agravante a suportar os ônus de uma decisão judicial que contraria o artigo 460, do Código de Processo Civil.
Certamente, a manutenção da obrigação imposta ao agravante ensejaria lesão aos seus direitos constitucionais de livre manifestação do pensamento, livre expressão da atividade intelectual, livre exercício do trabalho e de acesso à informação, ficando demonstrada a existência do fumus boni iuris e do periculum in mora, necessários para a concessão do efeito suspensivo em sede de liminar.
Destarte, após a análise da documentação trazida aos autos, defiro o pedido de atribuição de efeito suspensivo à decisão agravada, ao menos até o julgamento final do recurso.
Comunique-se ao Juízo da causa, solicitando-lhe as informações de estilo, a serem prestadas no prazo legal, inclusive quanto ao cumprimento do artigo 526, do Código de Processo Civil.
Intime-se a agravada para, querendo, responder nos termos do artigo 527, inciso V, do Código de Processo Civil.
Por motivo de celeridade processual, autorizo a divisão Cível a assinar os expedientes necessários ao cumprimento desta decisão.
Intimem-se.


Curitiba, 15 de janeiro de 2010.


Desª. ÂNGELA KHURY MUNHOZ DA ROCHA


Relatora

Censura ao blog: decisão da juiza censora foi além do pedido da autora

A decisão de impor censura prévia ao blog, exarada pela titular da Segunda Vara Cível de Curitiba, foi muito além do que pedia a autora ação cautelar, Deise Zuqui. Foi o que afirmou, em sua decisão, a desembargadora Ângela Khury Munhoz da Rocha, que determinou a suspensão da censura.

“Está evidente que a decisão agravada foi extra petita, eis que concedeu à agravada provimento judicial que não foi por ela pedido”, sentenciou a desembargadora. “Por tal motivo, entendo que, no momento, deve ser suspensa a decisão agravada, a fim de que não se obrigue o agravante a suportar os ônus de uma decisão judicial que contraria o artigo 460, do Código de Processo Civil”.

A decisão é, também, um libelo à liberdade de expressão. “Certamente, a manutenção da obrigação imposta ao agravante ensejaria lesão aos seus direitos constitucionais de livre manifestação do pensamento, livre expressão da atividade intelectual, livre exercício do trabalho e de acesso à informação”.

Leia aqui a íntegra da decisão da desembargadora Ângela Khury Munhoz da Rocha.



Acabou a censura ao blog.

Acabou o pesadelo. A Desembargadora Ângela Khury Munhoz da Rocha concedeu efeito suspensivo à censura determinada pela Segunda Vara Cível de Curitiba, que obrigava que o blog se abstivesse de fazer matérias a respeito de Deise Zuqui, esposa do Alexsandre Fernandes, chefe da maior quadrilha de estelionatários internacionais que agia no país.

Só fiquei sabendo da decisão agora, por intermédio do Senador Alvaro Dias, que acaba de me avisar pelo Twitter. Tenho muito a agradecer a ele, que me indicou um escritório de advocacia em Curitiba e protestou firmemente contra a censura.

A primeira providência que estou tomando é republicar os arquivos sobre Deise Zuqui e a quadrilha de seu marido. com a ressalva de que não se pode tratá-la apenas como a esposa do capo, uma vez que ela teve participação ativa na organização de fachada que o grupo de estelionatários montou na república Dominicana.

Tenho que agradecer a muitas pessoas. Especialmente à advogada Maria Francisca Acciolli, que me representou; ao escritório Breda Advogados Associados, de Curitiba, que patrocinou a causa; à blogueira Adriana Vandoni, editora do Prosa e Política, que foi minha parceira num processo que decidimos chamar de Permuta de Censura; e aos leitores que se indignaram com a proibição inconstitucional imposta pela juíza de primeira instância do Paraná.

Não foi o blog que venceu essa batalha. Foi a liberdade de informar num país cada vez ameaçado pela vontade de magistrados que não respeitam o artigo 221 da Constituição de 1988.

Se você quiser saber o que levou o blog a ser censurado, leia os links abaixo.

Quem é Deise Zuqui, procurada pela Interpol Dominicana?

Deise Zuqui: Erro da Interpol?

Especial Foragidos I: Cláudia Hoerig, que assassinou marido a sangue frio, vive impune no Rio de Janeiro

Especial Foragidos II: Quadrilha que roubou US$ 500 mil no Caribe aplica mesmo golpe no Paraná

Especial Foragidos III: O caso da delegada federal que virou alemã para escapar da Justiça Brasileira

Especial Foragidos IV: Quem é Deise Zuqui – A resposta

Especial Foragidos IV: Quem é Deise Zuqui – A resposta


Quando o Estado é hipócrita e transgressor (ou o abismo entre teoria e prática)

Por Heitor Diniz, do site Crônica Política

 

Peço desculpas a você, leitor deste blog, ao insistir no assunto abaixo, mas tenho que fazê-lo, porque ainda sou livre. Ainda.

Então, vejamos o abismo entre fragmentos jurídicos que regem o Estado brasileiro e as práticas nefastas que teimam em desconstituí-lo (ou em revelar a sua real essência por trás de uma utópica ou cínica aparência):

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS:

Art. XIX – Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988:

Art. 220 A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

Parágrafo 1º – Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XV.

Parágrafo 2º – É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

PROGRAMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS (o “tal”, que está provocando tanto rebuliço):

Ao assinar o decreto presidencial que institui o terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3, reafirmo que o Brasil fez uma opção definitiva pelo fortalecimento da democracia.

Não haverá paz no Brasil e no mundo enquanto persistirem injustiças, exclusões, preconceitos e opressão de qualquer tipo. A equidade e o respeito à diversidade são elementos basilares para que se alcance uma convivência social solidária e para que os Direitos Humanos não sejam letra morta da lei.

Luiz Inácio Lula da Silva

Agora, falemos realmente a sério (ou falemos sobre como as coisas, de fato, funcionam).

PRÁTICA NEFASTA 1:

“Estado” está sob censura há 162 dias*

O empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney, apresentou no dia 18 de dezembro, véspera do recesso forense, pedido de desistência da ação contra o Estado, mas a censura ao jornal permanece em vigor.

Desde o dia 7, com o término do recesso, o jornal aguarda para ser intimado a decidir se concorda com a extinção ou prefere que a Justiça aprecie o mérito.

* Extraído do site do Estadão em 9 de janeiro de 2010. Ou seja, agora já são 163 dias de mordaça

PRÁTICA NEFASTA 2:

Blog Prosa e Política, da jornalista Adriana Vandoni, completa hoje, dia 10 de janeiro, 59 dias de censura, graças à sensacional decisão proferida pelo juiz Pedro Sakamoto, da 13ª Vara Cível de Cuiabá. Na obra-prima de Sakamoto, a ordem de fazer inveja aos censores dos tempos de chumbo da ditadura: Que a ré se abstenha de emitir opinião pessoal pela qual atribua a José Riva a prática de crime, sem que haja decisão judicial com trânsito em julgado que confirme a acusação.

Se a moda pega, o termo Nardoni, por exemplo, vai se tornar provisoriamente proibido.

PRÁTICA NEFASTA 3:

Blog do Pannunzio completa hoje, dia 10 de janeiro, 41 dias de censura, graças à brilhante decisão da Segunda Vara Cível de Curitiba, que proíbe o jornalista de sequer citar o nome de Deise Zuqui. Esta brasileira de 22 anos é esposa do chefe de uma quadrilha internacional. A agremiação foi presa em vários países numa grande operação da Interpol. Segundo Pannunzio, Deise teve papel ativo na organização montada pela quadrilha na República Dominicana.

Resumindo: um Estado como o brasileiro, que tem a habilidade de se mostrar tão grosseiramente incoerente (entre o que é de direito e o que é de fato), pode tornar-se, aos poucos, ícone da insegurança jurídica frente à comunidade internacional. Além de péssimo exemplo, passa a ser também um péssimo parceiro para qualquer outro país que zele, minimamente, pelo menos, pela Carta que o constitui.

Clique aqui e conheça o site Crônica Política

 

 

www.twitter.com/heitordiniz

Blogs fazem ‘permuta’ para driblar censura

Ricardo Brandt
Dois blogueiros censurados pela Justiça de publicar informações sobre casos de escândalos decidiram trocar informações, publicando um a notícia do outro. Dessa forma, conseguiram furar a mordaça imposta por tribunais estaduais sem que fossem executados judicialmente. Os autores da ideia são o jornalista Fábio Pannunzio e a economista Adriana Vandoni.
Desde que foi criada no dia 14 de dezembro, a “permuta de censura” – como foi batizada – já ganhou duas adesões. A última da jornalista Alcinéia Cavalcanti, proibida pela Justiça do Amapá de publicar notícias sobre a família Sarney.
Segundo Pannunzio, jornalista da Rede Bandeirantes que mantém o Blog do Pannunzio, a proposta tem o “objetivo de preservar o interesse público e a liberdade de imprensa”. “Ao mesmo tempo em que respeitamos a decisão dos juízes que nos censuraram, cujas decisões alcançam apenas o que é veiculado em cada um dos blogs, e não de terceiros”, explica.
O Blog do Pannunzio está proibido pela Segunda Vara Cível de Curitiba de veicular notícias sobre Deise Zuqui, uma brasileira investigada pela Polícia Federal por suposto envolvimento com uma quadrilha de traficantes de trabalhadores.
Adriana Vandoni, que mantém o blog Prosa e Política, está proibida pela Justiça de Mato Grosso de publicar informações a respeito do presidente da Assembleia Legislativa local, José Riva, que responde a mais de 100 ações por improbidade administrativa.
No caso do Amapá, os blogueiros lembraram que “ao processar Alcinéa mais de vinte vezes, Sarney, que da tribuna do Senado afirmou que jamais processara um jornalista, transformou-se em pioneiro desse novo tipo de censura, agora decretada por juízes togados”.
Também integra a rede de “permutada de censura” o blog Página do E, mantido pelo jornalista Enock Cavalcanti, também alvo de ação judicial no Mato Grosso.
Clique aqui para ler a íntegra no site do Estadão

PF e Interpol prendem quadrilha internacional denunciada pelo Blog

Uma operação policial deflagrada simultaneamente em vários países levou à prisão de uma quadrilha internacional que o Blog vinha denunciando desde o dia 16 de Abril deste ano. A quadrilha, especializada em aplicar o chamado “golpe do emprego”, começou a atuar na República Dominicana, onde quatro brasileiros que a comandavam estabeleceram um escritório na cidade de São Francisco de Marcoris.

O interesse do Blog pela quadrilha foi despertado quando a Interpol colocou na chamada Dispersão Vermelha o nome de uma brasileira de apenas 22 de idade, acusada de fraude na República Dominicana, com mandado de captura expedido em todo o planeta.

Advogados da brasileira entraram com ação cautelar na Segunda Vara Cível de Curitiba e colocaram o Blog sob censura. Assim, este espaço ficou impedido de citar seu nome e veicular novas matérias, determinação que está sendo seguida. Mas os posts anteriores ainda podem ser lidos nos nossos arquivos. Basta clicar aqui, aqui e aqui .

Essa brasileira não está entre os presos na operação policial deflagrada anteontem. Mas o marido dela, AlexsandreFernandes, foi indicado como chefe da organização.

Se você quiser ler a matéria especial produzida pelo Blog, saber como a quadrilha atuava e ver como foi feita a apuração, clique aqui .

A série Especial Foragidos pode ser acessada aqui, aqui, aqui, aqui e aqui . Vale a pena ler.

Transcrevo, abaixo, o posto da Folha Online noticiando as prisões.

 

Quadrilha cobrava até US$ 15 mil por emprego nos Estados Unidos, diz MP-SP

Do UOL Notícias
Em São Paulo

Autoridades brasileiras e norte-americanas prenderam onze pessoas nesta segunda-feira (7) acusadas de pertencer a uma quadrilha internacional que fraudava o sistema de concessão de vistos para trabalho temporário nos EUA desde 2002. Pelo menos 4.500 brasileiros teriam sido vítimas do esquema de fraude.

A Operação Anarquia prendeu onze pessoas em quatro Estados brasileiros: quatro em São Paulo, duas em Minas Gerais (Uberlândia), quatro no Paraná (Curitiba) e uma em Santa Catarina (Palhoça). Outras sete estão foragidas.

Segundo o consulado dos EUA, a quadrilha prometia colocação no mercado de trabalho americano mediante o pagamento de até US$ 15 mil. A estimativa é de que o grupo tenha arrecadado R$ 90 milhões em sete anos, em um dos maiores casos de fraude de vistos da história dos EUA. O número de vítimas pode chegar a 9.000, segundo estimativa do Ministério Público de São Paulo.

“O sucesso desta operação foi possível graças ao trabalho integrado com as autoridades norte-americanas, para quem o MP de São Paulo forneceu centenas de documentos que servirão como prova para a Justiça norte-americana”, afirmou a promotora de Justiça Aline Jurca Zavaglia Vicente Alves, do Gaeco – Núcleo Guarulhos, que coordenou as investigações e ofereceu a denúncia à Justiça.

O esquema
De acordo com o Ministério Público, a quadrilha trocava constantemente o nome das empresas utilizadas para o golpe, assim como as sedes das empresas. O grupo tinha ramificações em vários Estados norte-americanos, entre eles Flórida, Oklahoma, Georgia e Maryland.

As empresas da quadrilha atuariam como intermediários de mão-de-obra para empresas dos Estados Unidos. Para cada vaga no mercado norte-americano, a quadrilha incrementava vagas para encaminhamento ao departamento de imigração dos EUA e vendia um número de contratos maior, com oferta de vagas que sabia não existir. A maior parte dos que tinham pagado pelo visto, nem chegava a embarcar porque o pedido era negado. Dos que chegavam aos Estados Unidos, uma minoria conseguia efetivamente o trabalho.

Ainda conforme o MP, muitas das pessoas enganadas, sem dinheiro e sem o trabalho prometido, permaneciam nos Estados Unidos como imigrantes ilegais e ainda eram ameaçados de delação à imigração pela quadrilha.

Os presos
Segundo o MP-SP, a apuração começou em 2003, quando o setor antifraude do Consulado dos EUA em São Paulo detectou irregularidades. Em 2008, o consulado acionou o MP, que passou a coordenar a investigação. No mesmo ano, foi criada uma força-tarefa também com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Poder Judiciário, Consulado dos EUA, Receita Federal e Secretaria da Fazenda.

Com base nas informações captadas por um agente infiltrado no esquema, além da quebra de sigilos bancário e fiscal, de interceptações telefônicas e de cooperação jurídica internacional, o MP-SP ofereceu denúncia contra os acusados, que agora já são réus. Por isso, foram decretadas as prisões preventivas e expedidos de mandados de busca e apreensão e bloqueio de bens.

Márcio de Castro Ferreira, Alexandre Fernandes e Valquíria Dozi Batalha são apontados como líderes da quadrilha. Os dois primeiros foram presos. Valquíria está nos Estados Unidos, junto com a irmã Valéria, que também fazia parte da quadrilha. As duas estão foragidas.

Também foram presos Gregório Moreira dos Santos, Abimael Fernandes, Wiliam da Silva Santos, Anderson Marcelo Gomes, José Gilmar Rios Carneiro, Eliot Lee Ferreira, Márcia de Morais, Samantha Isabelli Scafi e Edmir Torres de Oliveira. Com Anderson Gomes foi encontrada uma pistola 9 mm, de uso restrito do Exército.

Estão foragidos, Antonio Elso Clem, nos Estados Unidos, Rodrigo DozziCalza, Carlos Roberto Silveira e Sean Michael Michele.

Os detidos são acusados de formação de quadrilha e estelionato. Há ainda indícios de lavagem de dinheiro. No Mato Grosso, foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão.

O crime também foi detectado em países como Rússia, República Dominicana, Filipinas, Romênia e Emirados Árabes, mas a fraude nesses países não foi alvo desta investigação.

 

Especial Foragidos IV: Quem é Deise Zuqui – A resposta

A apuração da série de matérias deste este Blog começou seis meses atrás. Com base em informações tornadas públicas pela Interpol, busquei saber que razões determinavam a certeza de impunidade de brasileiros que cometeram crimes no exterior. Encontrei uma série de casos. O mais intrgante deles dizia respeito a uma mulher de apenas 22 anos de idade chamada Deise Zuqui.

A única informação disponível dava conta de que a justiça da República Dominicana havia expedido uma ordem internacional de captura que jamais chegou a ser cumprida. No escritório da Interpol em San Francisco de Marcorís, cidade que deu origem ao processo que pesa contra ela, nenhum dos funcionários se dispunha a perscrutar o arquivo e resgatar o caso.

A apuração demorou meses. Cheguei a postar um artigo no Blog (que pode ser lido aqui) perguntando se alguém sabia do que se tratava essa intrigante e grave anotação contra uma moça de apenas 22 anos de idade. Mas quem primeiro encontrou o site foi a própria Deise Zuqui. No dia 12 de maio um homem, se dizendo advogado dela, me ligou e ameaçou processar o Blog caso o post não fosse retirado do ar (aqui está o artigo sobre isso).

Respondi que a ameaça não teria o menor efeito. Mantive o post no ar e disse a ele que, se sua cliente quisesse, poderíamos agendar uma entrevista, que foi efetivamente marcada para dois dias depois. Deise, no entanto, mandou desmarcar o compromisso alegando que passaria por uma pequena cirurgia na orelha e desapareceu. Assim que soube que um jornalista estava interessado na história, deletou seu perfil no Orkut e passou a não atender telefonemas. Hoje, vive cercada por funcionários da empresa da família e só se comunica com amigos e parentes pelo Skype, em mensagens de texto.

Dois meses atrás a ordem de captura expedida contra ela desapareceu da Dispersão Vermelha da Interpol. Segundo Ricardo, o homem que se apresentou como advogado, houve uma vitória no processo criminal que corre contra a quadrilha na República Dominicana. Ele, no entanto, se recusou a dar detalhes sobre os procedimetos da defesa.

Enquanto tudo isso acontecia Deise mudava seu endereço profissional e o ramo de atividade. A empresa da família, que representava uma marca de fitas pega-mosca, passou a representar um fabricante chinês de ferramentas. É nessa loja que Deise trabalha com o marido, Alexsandre. Alexsandre, no entanto, continua tocando o mesmo negócio que o levou a ser processado no Caribe. Embora não apareça há alguns dias no escritório, montou uma empresa em Curitiba com o objetivo de captar incautos para aplicar o golpe do recrutamento profissional para serviços no exterior (veja o artigo sobre a atuação da quadilha aqui).

De acordo com informações prestada à polícia e à justiça dominicanas por dois ex-funcionários da empresa que os brasileiros mantinham em S. Fco. de Marcorís, Deise Zuqui cuidava da tesouraria do negócio. Estava subordinada aos dois chefes, o marido Alexsandre e ao sócio dele, Antônio Clem. Tinha, portanto, participação efetiva na estrutura da organização

Hoje, Deise administra o negócio legal da família — a loja de furadeiras. Não há nenhuma informação de que ela esteja vinculada às atividades da Attitude International, que segue arregimentando trabalhadores candidatos à emigração par aplicar o golpe de estelionato.

O marido dela pode ser considerado um tipo boquirroto. A amigos, não cansa de repetir a história de que há três anos foi preso no Equador por tentavia de sequestro. A história é confirmada por três fontes. Alexsandre diz que teria ido até lá cobrar uma dívida de US$ 1 milhão. Empregou métodos pouco ortodoxos na “cobrança” e purgou a única cadeia de sua vida. Até agora.

Especial Foragidos II: Quadrilha que roubou US$ 500 mil no Caribe aplica mesmo golpe no Paraná

* Antes de reproduzir observe informações de copyright no rodapé deste artigo

Os dias têm sido agitados no escritório da Attitude Internacional, empresa situada em um conjunto de três bem decoradas salas  no décimo-sexto andar de um edifício no Centro Cívico de Curitiba. Um jovem chamado William evita atender aos seguidos telefonemas de “clientes” que ligam para pedir de volta o dinheiro pago por serviços que jamais serão prestados. Numa única tarde foram mais de trinta telefonemas, todos eles de pessoas indignadas com a falta de cumprimento dos contratos de sua empresa.

A Attitude Internacional, nome pomposo para uma empresa de fachada, promete levar trabalhadores brasileiros para os Estados Unidos e outros quatro países em programas de intercâmbio profissional. O site da “empresa” (veja aqui) afirma que ela tem “alianças estratégicas e contratuais com várias companhias dos Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia Austrália e Irlanda” e promete “a possibilidade de estudar e trabalhar legalmente em todos estes países”.

É mentira. Por trás da Attitude International atua uma quadrilha procurada pela Interpol no mundo todo. Os mesmos brasileiros, que residem em Curitiba, aplicaram o golpe na República Dominicana, de onde estão foragidos, e há evidência de que também tenham agido no Equador. Para criar a fachada brasileira, os estelionatários a registraram como uma empresa de importação e exportação de ferramentas. O registro, muito recente, foi expedido em 17 de fevereiro passado. Ainda não há informações sobre os cotistas no banco de dados do SERASA. No site da “companhia”, no entanto, a Attitude International é apresentada como uma “agência de recrutamento” (veja na infografia à direita).

Pelos registros policiais sobre a atuação de seus donos, não é nem uma coisa, nem outra. É apenas a fachada construída para a replicação de um golpe que foi aplicado em duas cidades da República Dominicana a partir do começo de 2007, e que só terminou quando os quatro brasileiros que tocavam o negócio desapareceram para evitar o cumprimento da ordem de prisão expedida pela justiça local.

Os chefes dessa quadrilha são Antônio Clem, cuja ficha pode ser avistada no site de procurados pela Interpol, e Alexsandre (ou Alexandre) Fernandes, que é o gerente do escritório de Curitiba.

Há também duas mulheres que tiveram participação ativa na etapa “dominicana” dos golpes: Deise Zuqui e Luciana Fernandes. A primeira é esposa e a segunda, irmã de Alexsandre. Ambas tiveram a prisão pedida pela justiça da República Dominicana.

Os quatro criaram no Caribe uma empresa para atuar nos mesmos moldes com que vêm atuando agora com a Attitude International. A Intercâmbio Cultural Dominicano passou a existir formalmente em Junho de 2006. A sede ficava no centro da segunda maior cidade do país, San Francisco de Marcorís.

Para formalizar a empresa, os quatro se associaram a outros três acionistas dominicanos. “Era só para cumprir uma formalidade”, diz Wilton Antônio de Jesus, que se declara ex-empregado da quadrilha. Wilton foi um dos que mais perderam quando ficou claro que o objetivo dos brasileiros era apenas aplicar um golpe.

“Eles chegaram com uma proposta que parecia muito interessante. Assim que começamos a trabalhar, vendemos muitos contratos. Percebemos tarde demais que eles não seriam honrados”, conta o dominicano, que serviu como uma espécie de laranja involuntário do grupo. Ao final de um ano, Wilton já havia perdido mais de US$ 20 mil — e ainda amargou o desgosto de ir parar na cadeia por alguns dias.

O golpe consistia na oferta de oportunidades de trabalho nos EUA e na Europa. A empresa dizia representar empregadores americanos interessados na contratação de trabalhadores de baixa renda e qualificação para serviços de limpeza, manutenção e construção civil.

O negócio se assentava sobre uma empresa baseada nos Estados Unidos chamada Global Services Inc, presidida por Antônio Clem. Era a ponta da lança da quadrilha. A Global Service seria a correspondente norte-americana de uma rede de recrutadoras de mão-de-obra que se espalhou por vários países, entre eles o Brasil. Aqui, o “representante” era um site na Internet chamado JobUSA. O registro do domínio continua ativo nos arquivos da FAPESP, o “cartório” da internet no Brasil, embora o site tenha saído do ar.

As operações comerciais da Intercâmbio Cultural Dominicano começam no início de 2007.  Além da sede em San. Francisco de Marcorís, um segundo escritório foi aberto em La Romana. Os contratos oferecidos custavam entre US$ 1,5 mil e US$ 3 mil dependendo da localidade e do país escohido pelo candidato à emigração.

Maria Cepeda, contratada para atender os interessados em La Romana, assegura que foram vendidos pelo menos 350 pacotes. Ela conta que apenas um dos candidatos foi efetivamente enviado aos Estados Unidos. “Todos os outros foram logrados. E ninguém recebeu o dinheiro de volta”.

Maria Cepeda até hoje se emociona quando relembra a humilhação que passou quando os quatro brasileiros desapareceram. “Fui presa porque era eu quem atendia os clientes. Perdi tudo o que tinha porque tive que indenizar muita gente, embora eu não fosse mais do que uma humilde funcionária da empresa”, conta, com a voz embargada.

Wilton de Jesus, um dos dominicanos que foram usados como laranja, assegura que a quadrilha levou da República Dominicana pelo menos meio milhão de dólares durante o ano em que atuou em seu país.

Mas o que mais causa indignação a ambos é saber que Clem, Alexsandre, Deise e Luciana permencem livres e a salvo de qualquer tipo de processo só porque são brasileiros e voltaram ao Brasil. “De nada adiantaram os esforços da justiça do meu país para prender essas pessoas”, diz Wilton. “Enquanto estiverem aí eles vão continuar aplicando golpes e lesando gente pobre”.

“As pessoas de quem esses brasileiros roubaram todo o dinheiro são gente muito humilde”, diz Maria Cepeda. “Era gente desesperada que não tinha no que trabalhar aqui na República Dominicana e perdeu todas as economias. Muitas famílias estão passando fome por causa desse golpe”,  diz ela. emocionada.

* A reprodução do material gráfico e dos documentos constantes deste artigo está proibida para TVs. Jornais e revistas devem solicitar autorização pelo e-mail fabio@pannunzio.com.br. Sites podem reproduzir integralmente o conteúdo desde que este aviso seja incluído e que a fonte seja citada (Blog do Pannunzio) e um hiperlink seja introduzido para o site do autor (http://www.pannunzio.com.br)

Especial Foragidos I: Cláudia Hoerig, que assassinou marido a sangue frio, vive impune no Rio de Janeiro

O index chamado Dispersão Vermelha da INTERPOL lista os nomes de 39 brasileiros procurados internacionalmente, com mandados de prisão expedidos por vários países. A relação está disponível no site do organismo policial e pode ser acessada aqui. A única mulher que figura na lista desonrosa é Cláudia Hoerig. Até dois meses atrás, ela tinha a companhia de duas outras brasileiras — Deise Zuqui e Sueli Gorisch, sobre as quais falaremos no próximo artigo.

Pouca gente no Brasil sabe quem é essa pessoa e que tipo de crime cometeu para justificar um status tão grave. Nos Estados Unidos, no entanto, a brasileira é o alvo de uma campanha que envolve não apenas pessoas da comunidade onde ela vivia, próxima à fronteira Leste com o Canadá, mas também congressistas, procuradores e até integrantes do primeiro escalão do governo Obama.

Cláudia Cristina Hoerig assassinou com três tiros pelas costas o marido, o herói de guerra Karl Hoerig, há pouco mais de dois anos, numa pequena cidade a 80 quilômetros ao sul de Clevaland, nos Estados Unidos. Logo depois do crime abandonou a pequena Newton Falls, em Ohio, no nordeste dos Estados Unidos, tomou um avião e veio parar no Brasil.

Não há nenhuma acusação formal contra ela em qualquer instância do Poder Judiciário Brasileiro. Apesar da gravidade do crime, pelo qual deveria responder perante a justiça americana, Cláudia tem uma vida tranquila na pequena Lumiar, próxima a Friburgo, numa casa da família.

Cláudia, que tem sintomas de desequilíbrio emocional, premeditou o crime e cuidou de todos os detalhes minuciosamente. Dois dias antes do assassinato, comprou um revólver Magnum .765 numa loja chamada Slugmasters, na localidade de Livitsbourg, a oito milhas de distância da casa onde vivia com o marido.

A dona da loja ainda se lembra com clareza das muitas indagações da brasileira, que parecia tranquila. “Ela me perguntou onde havia um stand de tiro. Queria aprender rapidamente a atirar”, diz a comerciante, que ainda a veria uma vez mais na manhã seguinte, logo depois da primeira sessão de tiro-ao-alvo.

Cláudia voltou à loja interessada em comprar uma outra arma, com uma coronha menor, mais adequada para  o tamanho de suas mãos. Como não tinha dinheiro “cash” nem limite disponível no cartão de crédito, levou um suporte equipado com mira a laser.

“A intenção dela era se matar, e não matar o marido”, diz o advogado Antônio Andrade, criminalista brasiliense contratado por ela para a eventualidade de ter que enfrentar um processo. Mas as explicações do advogado são insuficientes para explicar o comportamento, e têm mais verossimilhança como estratégia de defesa do que como justificativa para o que realmente deve ter ocorrido.

Karl Horig era piloto de aviação comercial. Estava em missão fora de casa até o dia em que foi morto. Na última escala que cumpriu, chegou a comentar com seu co-piloto que iria se separar da mulher, com quem tinha uma convivência muito difícil.

Ninguém sabe o que aconteceu antes dos disparos. A casa fica num local ermo e sequer os tiros foram ouvidos. O corpo do ex-combatente foi encontrado enrolado em um tapete velho três dias depois do homicídio. Estava no pé da escada que levava ao pavimento superior da residência. O chão de madeira estava perfurado por um projétil.

Cláudia seguiu com o carro do casal até um aeroporto próximo, tomou um avião com passagens de cortesia a que o marido tinha direto e desembarcou em Nova Iorque na mesma tarde. Sacou todo o dinheiro que estava depositado na conta-corrente do casal. Ligou para um ex-namorado pedindo que ele a levasse até o aeroporto JFK, de onde embarcou para o Brasil.

Quando chegou, foi direto para Brasília, onde passou algumas semanas no apartamento do pai, na cidade satélite do Cruzeiro. Depois disso, seguiu para o Rio de Janeiro para se fixar  na residência de Lumiar. Há meses, o apartamento de Brasília se encontra fechado.

Sobre sua rotina pouco se sabe. Segundo seu advogado, ela está em tratamento psiquiátrico, vítima de uma depressão crônica que provocou seu quase isolamento.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, a família Hoerig e o promotor de condado de Thrumbull se debatem contra os obstáculos oferecidos pela legislação brasileira. Dennis Watkins, o promotor encarregado do caso move uma cruzada junto ao governo Obama para que este pressione o Brasil a mudar a Constituição para tornar possível a extradição de nacionais.

“Ela optou pela cidadania americana. Para nós, é americana e precisa ser julgada por uma corte americana. É impossível levar ao Brasil todas as testemunhas, pagar a tradução dos laudos periciais, submeter a interrogatório americanos que só falam inglês perante um juri que só entende português”, diz Mr. Watkins.

O caso Hoerig é apenas um em cerca de 20 que permanecem sem solução a cada ano. Não por acaso a condição de paraíso de refugiados internacionais — entre eles muitos brasileiros –  está valendo ao Brasil uma série de constrangimentos perante outras nações. Nosso país, ao contrário do que acontece em praticamente todo o restante do planeta, não extradita brasileiros. Nem em face das acusações mais graves, como seqüestro, estupro ou homicídio, como a que pesa sobre Cláudia Hoerig.

Isso ocorre em função de uma vedação constitucional, cláusula pétrea inserida no inciso LI  do Capítulo sobre os Direitos e Garantias Fundamentais, que prescreve o seguinte: “nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins”.

Para que Cláudia e outros criminosos sejam julgados seria necessário mudar a Constitução, o que parece bastante improvável. A Secretária de Estado Hillary Clinton deverá tratar do assunto brevemente com o Ministro Celso Amorim. O governo dos Estados Unidos não costuma brincar com os interesses do sistema judicial daquele país.  Mas ao que tudo indica, Cláudia não tem nenhuma razão para se preocupar com a perspectiva de um dia vir a ser presa. Para todos os efeitos, é uma cidadã totalmente a salvo de qualquer punição, apesar da gravidade do crime que premeditou.

Se você quiser saber mais sobre Cláudia Hoerig, assista a reportagem que eu produzi para a TV Bandeirantes no vídeo abaixo.

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