Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

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Chupa, PT!

O Partido dos Trabalhadores, em seu passado remoto, já encarnou a esperança de moralização da política. Quem não se lembra da CPI da Corrupção do governo FHC, das inúmeras denúncias contra governantes e partidos adversários, da atuação cidadã de gente como José Genoíno, dos vazamentos seletivos durante as CPIS ? Dava gosto ver aqueles jovens egressos do sindicalismo, dos movimentos sociais, atuando em Brasília.

Hoje, à luz do que jorra do STF, o que se percebe é um enorme logro. Da mesma natureza do que um certo Demóstenes Torres protagonizou recentemente. Mas em proporções gigantescas. O que o PT fez assim que assumiu o poder, que agora vai sendo assentado como sentença condenatória, foi criar um grupo com expertise em corromper, ser corrompido, tungar dinheiro de empresas públicas, aliciar malfeitores na iniciativa privada e subornar parlamentares. Uma máquina de desviar dinheiro público.

Metaforicamente, pode-se dizer sem compaixão que o PT é o Demóstenes Torres dos partidos.

Mas não foi só isso. O partido também tentou forjar uma nova cultura — aquela segundo a qual roubar do erário para alimentar seu voo político não é crime, é virtude.

No ambiente degenerado dessa nova cultura, parecia normal um presidente da Câmara Federal, terceiro na linha sucessória, receber propina para contratar fornecedores de serviços; mandar a mulher ao banco para botar a mão no bereré; apoderar-se do esforço coletivo traduzido em impostos para saciar a índole corrupta de congressistas safados; a privatização despudorada da atividade política em benefício dos aliados de ocasião amealhados no varejo da baixa política.

Foi o que se ouviu ao longo dos sete anos que transcorreram entre a denúncia e a sentença: o Mensalão não existiu, o Mensalão está por provar-se, o Mensalão é uma invenção da mídia golpista para derrubar Lula.

O produto dessa cultura está aí para quem quiser ver. Obras paradas, ameaçadas pelo que contêm de desvios. Escândalos recorrentes que paralisam a máquina. Gente doente sem médico e hospital. Estradas esburacadas que produzem meia centena de milhar de mortos a cada ano. Os tiriricas da vida, que desonram e desabonam a política. E eleitores venais, tanto quanto os políticos que elegem, que tentam se apropriar de um naco do butim em troca do voto consagrador.A reeleição de gente como o sentenciado João Paulo Cunha, que teve o desplante de aceitar a condição de candidato na iminência de ser condenado pela Corte Constitucional.

Vai levar duas gerações para que o estrago moral produzido por Lula e seus companheiros possa ser mitigado por práticas limpas. Ao desinformado que vota, o que acontece agora em Brasília só vai ser integralmente compreendido daqui a muito tempo — talvez por seu filho ou neto. E sempre haverá os asseclas dos ladrões que vão continuar bradando que tudo não passou de uma conspiração burguesa para criminalizar o primeiro governo realmente democrático da história deste país, uma miragem fruto da paranoia coletiva burguesa contra o projeto sacrossanto de apropriação do Brasil pelo crime organizado.

Tomem-se como exemplos as intervenções de um Cândido Vaccarezza e os coices da BESTA, os blogues pagos com dinheiro do contribuinte para disseminar a lassidão moral e ética do potentado de Lula.

Não se diga que o que está afirmado aqui é generalização. No corpo do processo, há centenas de testemunhas ilustres cuja função partidária era confundir os julgadores com argumentos que sabe-se falaciosos. Gente ilustre que assinou termo de depoimento jurando que José Genoíno não tratava das finanças do partido que presidia; que José Dirceu não mandava no PT depois de assumir a Casa Civil; e que não houve os tais ‘atos de ofício’, ou a prova inconteste do efeito da propina em atos com a assinatura dos gatunos.

O PT merece a sentença. Porque o saco de gatunos em que se transformou tentou legititimar o roubo, conspurcar a consciência do parlamento, fraudar a legitimidade da representação política. Não era apenas a atuação voluntariosa dos clandestinos da institucionalidade investidos de cargos no primeiro escalão da República. Era um esquema orgânico, hierarquizado, que abusou da máquina em nome de uma causa absolutamente reprovável, como agora se reconhece.

Por tudo isso, talvez não haja expressão mais adequada para comemorar as condenações do que a sugerida pelo leitor Pedro Paulo:

“Chupa, PT!”

A injusta queda do IBOPE de Dilma Rousseff

O IBOPE registrou, pela primeira vez desde o início do governo, uma queda expressiva nos índices de popularidade da presidente Dilma Rousseff em algumas metrópoles importantes. Em São Paulo e em Curitiba, a regressão  ficou  entre 10 e 14 por cento. Não se sabe o que contribuiu para isso — se as greves ou o pessimismo que se estabeleceu quando a crise econômica global começou a dar sinais de que o Brasil não está imune a seus efeitos.

Ninguém vai brigar com o eleitor ou sobrepujar sua soberania para avaliar o desempenho de governantes. Mas há uma flagrante injustiça na nota que a presidente recebeu.

Discreta, avessa ao palanque, Dilma tem se esforçado para acertar — e tem acertado muito, a despeito dos erros que também tem cometido. Graças a ela o governo federal conseguiu se desvincular do Mensalão, permanece equidistante das eleições municipais e vai tocando com competência a gestão da economia.

A presidente mandou para o lixo o ideário retrógrado antiprivatista do núcleo de poder de seu próprio partido ao anunciar um ambicioso programa de soerguimento da malha ferroviária e de recuperação das rodovias. Já não era sem tempo. E tem adotado uma postura democrática e realista, feito um exercício de paciência, ao enfrentar os sindicalistas oportunistas que o governo Lula engordou com benesses e verbas a rodo.

Tudo isso evidencia que houve um câmbio positivo entre o governo passado e este. Se fosse só por isso, para demolir os vícios da administração de Lula, sua performance já deveria receber uma menção positiva.

Pena que o eleitor, ao que indica o IBOPE, não encontre virtude nisso.

Se assim fosse, a presidente certamente não estaria experimentando esse momento de inflexão em sua avaliação.

O Aerotrem, a maconha e o primeiro golpe baixo da campanha

Soninha Francine foi a primeira vítima de um golpe baixo nesta campanha recém-começada. Foi desferido justamente pelo candidato profissional Levy Fidélix, aquele do Aerotrem. Ao defender com clareza a descriminalização da maconha, foi criticada por supostamente fazer “apologia” do uso de drogas.

Não houve apologia coisa nenhuma. O que a candidata do PPS fez foi manifestar sua opinião de maneira coerente e corajosa, dentro dos limites do que o Supremo Tribunal Federal estabeleceu ao entender as marchas da maconha como um direito afeto à cidadania, circunscrito à liberdade de manifestação.

O Blog do Pannunzio defende a mesma posição. É preciso parar a hipocrisia segundo a qual usuários de drogas precisam ser tratados com cadeia. Se esta fosse a solução, o problema já teria sido sido resolvido em países como os Estados Unidos, cuja bilionária máquina repressiva não consegue impedir a venda e o consumo de drogas em qualquer esquina.

O fato é que o ambiente da campanha não favorece a sinceridade e a coerência quando temas-tabus são colocados na pauta de discussão e se transformam em fatos eleitorais. Candidatos costumam mudar até sua crença ou descrença em Deus, prometer o que não pretendem cumprir e a afirmar o que não pensam. Aí estão exemplos recentes: Fernando Henrique Cardoso, ateu de carteirinha, passou a dizer que acredita em Deus para se salvar da fogueira dos carolas. Dilma Rousseff decidiu condenar o aborto. E Lula, nunca é tarde lembrar, se elegeu sob a promessa de moralizar a política e acabar com a corrupção. Na política, o relativismo e a plasticidade são impressionantes. E isso desfavorece gente que tem as qualidade de Soninha Francine.

A exploração desse tema pela má-fé e pelo preconceito pode realmente criar embaraços para a candidata do PPS. O País ainda prefere acreditar na retórica dos falastrões a encarar suas próprias mazelas. Apesar disso, Soninha já cumpriu um papel fudamental: o de trazer para a luz a discussão do assunto.

Passou da hora de descriminalizar  o uso, a produção para o consumo individual e a comercialização da maconha. O que não é possível é ficar impassível diante da fogueira inquisitória que se pretende armar por quem, superando a espiral do silêncio, contribuiu com suas opiniões para um debate necessário.

 

‘Quem matou foi Deus. Eu só dei o tiro’

No Tribunal do Juri, um réu acusado de latrocínio se defronta com o promotor. Tem que explicar a morte de um homem por uma arma encontrada em suas mãos segundos depois do assassinato da vítima. Geralmente ocorre da seguinte maneira:

- “Essa arma lhe pertence ?”, indaga o promtor.

- “Não senhor, eu nunca vi essa arma na vida”, responde o acusado.

- “Mas ela foi pega na sua mão. O que o senhor estava fazendo com ela ?”, retruca o acusador.

- “Eu ia passando e vi uma coisa qualquer na calçada. Quando eu peguei passou a polícia. Eu nem cheguei a ver que era um trezoitão”.

- “Mas e o homem que estava morto ao seu lado” ?

- “Pois é. Eu peguei a arma e ela disparou sozinha, dotô. Aí esse homem, que vinha vindo,  caiu na minha frente mortinho”.

- “Mas o tiro foi na nuca e a queima-roupa!”

- “Ele estava vindo de cotas. Eu também estranhei aquilo”, diz o bandido.

- “Então não foi o senhor quem o matou ?”

- “Quem matou foi Deus, dotô. Eu só dei o tiro!”

É mais ou menos o que acontece nesta fase do julgamento do Mensalão pelo STF. Pelos próximos dias, a exemplo do que aconteceu ontem, uma romaria composta pelos advogados mais bem pagos do País vai tentar desmontar a acusação e provar que tudo não passou de um equivoco de interpretação das evidências que brotaram do relatórios da CPI dos Correios e da investigação do Ministério Público. É o papel que lhes cabe. É para isso que ganham rios de dinheiro.

Mas a história que vai sendo contada no plenário do Supremo tem tantas fragilidades quanto o depoimento de qualquer bandido pé-de-chinelo numa vara criminal. Pelo que se viu no primeiro dia destinado à defesa, desenha-se um quadro que poderia até fazer sentido individualmente, mas padece, em seu todo, de verossimilhança.

Um admite caixa-2. O outro diz que não houve dinheiro público circulando nas hostes mensaleiras. Um argumenta que não fez nada além de receber empresários e banqueiros na presença do tesoureiro de um partido. Outro diz que não há relação de causa e efeito entre as benesses distribuídas aos protagonistas do esquema financeiro da organização; se elas existiram, foi por merecimento dos patriotas que ajudavam o governo num momento de dificuldade.

Não estranhe. São chorumelas que os juízes criminais estão acostumados a ouvir. Daí a dar-lhes a conotação de verdades, como se apressam em fazer as penas alugadas pelos mensaleiros, vai uma distância enorme. Nem com muito boa vontade as versões apresentadas pelos defensores constituem um discurso verossímil.

Que leitura os juízes farão do conjunto probatório é que importa. Do jeito que o problema está colocado, vai ser muito difícil absolver José Genoíno com os argumentos apresentados pela defesa de Delúbio. Assim como vai ser dificílimo absolver José Dirceu com base nos testemunhos apenas de pessoas diretamente interessadas ou implicadas no caso ou, de outro modo, na versão apresentada pela defesa de Genoíno. Por mais orquestrada que seja a ação e a retórica dos advogados, as versões que estão sendo conhecidas agora colocam em confronto os argumentos de cada um dos acusados.

E com a soma do todo não se forma uma parte íntegra sequer.

Se as contradições triunfarem sobre o óbvio ululante (sem trocadilho), é porque temos a corte constitucional mais crédula do planeta.

Haja boa vontade!

A semana mais importante da história deste País para Lula

A semana que começa hoje talvez seja a mais importante da história deste país para o STF, os mensaleiros e… especialmente para o ex-presidente Lula.

Na quinta-feira 2, o passado e o presente vão se se encontrar e se entrelaçar em dois eventos da maior importância: o julgamento do Mensalão em Brasília e o primeiro debate eleitoral em São Paulo.

O que vai acontecer em Brasília servirá para definir o patamar moral do governo Lula. Depois de se desculpar publicamente pela roubalheira de seus ministro, que amealhavam dinheiro na corrupção para assegurar uma maioria tranquila ao governo petista, Lula se engajou numa luta pessoal para desmoralizar as acusações e livrar os mensaleiros da cadeia.

O que vai acontecer nos estúdios da Rede Bandeirantes, em São Paulo, demarcará a real importância de Lula para o futuro e dará a dimensão de seu legado. Será a oportunidade de Haddad, a aposta de mais alto risco do chefe petista, começar finalmente a se justificar como candidato.

O desempenho eleitoral de Haddad até agora é pífio, colocando-o entre os nanicos que se apresentaram para o pleito. Como seu capital é composto quase que integralmente pela influência de seu tutor, está colocada a indagação sobre a capacidade de Lula de eleger postes, que funcionou como um relógio na última eleição presidencial.

Se os réus forem absolvidos e Haddad iniciar uma inflexão positiva nas pesquisas, Lula terá sacramentado e justificado seu rótulo de Midas da política.

Se perder em ambos os fronts, estará a caminho acelerado do limbo político, com seus poderes mágicos minados por suas próprias contradições.

Mas até que o processo de depuração histórica possa nos dizer qual afinal será o legado do até agora mais popular político contemporâneo brasileiro será preciso ter paciência.O julgamento vai durar um mês. As eleições só acontecerão em outubro.

Até lá, Lula continuará a ser o mesmo de sempre: um santo milagreiro à espera da justa canonização capaz de fazer milagres eleitorais dos quais até Deus duvida.

Segurança, eleições e ideologia

O Blog do Pannunzio tem veiculado uma série de matérias sobre a violência policial em São Paulo. A preocupação  com o tema começou em 18 de fevereiro do ano passado, quando uma equipe da Corregedoria da Polícia Civil despiu à força uma escrivã acusada de concussão. O blog veiculou as imagens da desastrada e arbitrária prisão em flagrante e cobrou das autoridades providências para punir os delegados que protagonizaram o escândalo.

Desde então, o atual secretário de Segurança Antônio Ferriera Pinto vem deixando claro seu apoio a atitudes como aquela, que extrapolam o limite legal de atuação de policiais sob comando de sua pasta. Ele chegou a cumprimentar os policiais que prenderam a escrivã e relutou em demitir a corregedora Maria Inês Trefiglio, que dias depois do episódio vir a público foi defenestrada do cargo de confiança que ocupava pelo governador Geraldo Alckmin.

No dia 29 de maio passado, um episódio trágico revelou que as arbitrariedades continuavam sendo cometidas com o propósito de promover uma “faxina” a partir da eliminação física de pessoas com ou sem passado criminal. O caso ficou conhecido como a chacina do Bar Barracuda, em que uma equipe da ROTA, após a matança de cinco supostos traficantes, sequestrou, torturou e assassinou covardemente, em local ermo e distante da ocorrência, um homem sobre quem pesava a suspeita de ter assassinado um policial.

Esse episódio desatou uma reação do crime organizado desde sempre negada pela Secretaria de Segurança Pública. A partir de então, nove policiais militares foram executados brutal e covardemente pelos criminosos, em ações pontuais caracterizadas por assassinatos seletivos adredemente planejados. Todos eles estavam descaracterizados e foram pegos em horário de folga.

Na sequência dos acontecimentos, chacinas e “caravanas da morte” viraram lugar-comum na crônica policial, fazendo com que os índices de criminalidade disparassem em São Paulo. O resultado do enfrentamento só fez produzir mais e mais crimes, fazendo com que a sociedade se sinta cada vez mais enclausurada em bunkers domésticos  para fugir à sanha da violência.

Com a agudização da crise, os posts sobre o assunto se tornaram mais frequentes e as cobranças, mais rigorosas. Isso fez com que a maior parte dos leitores manifestasse, na área de comentários, opiniões divergentes da do editor deste blog. A despeito disso, as opiniões e as críticas continuam sendo veiculadas, até agora praticamente sem a necessidade de tornar a moderação mais rigorosa. Até o momento, apenas dois comentários injuriosos foram vetados.

Ocorre que muitos leitores, inclusive alguns que acompanham o blog há muito tempo, têm suspeitado de que o foco nos problemas da segurança paulista tem razões ocultas, de natureza eleitoral ou ideológica, o que absolutamente não é verdade. Desde seu nascimento, o Blog do Pannunzio adota uma postura crítica em relação aos abusos de qualquer natureza — morais, éticos, legais, de autoridade. O alvo do blog não é um governador, um governo, um partido. O alvo é o arbítrio, venha ele de onde vier.

A vida humana é o maior bem jurídico sob tutela do Estado. Nos dias de hoje, em São Paulo, há uma clara inversão de valores. Em nome da eliminação do crime organizado, muitos são os que acham que a polícia pode se arvorar o direito de aplicar sumariamente a pena de morte em que lhe convém. Foi o caso inequívoco do publicitário Ricardo Prudente,  morto porque furou um blitz policial. Foi o caso também do adolescente Bruno Vianna, morto em Santos pelo mesmo motivo. No incidente, três outros jovens saíram feridos a bala.

Não há coincidência entre as postagens e o cronograma eleitoral. Há, sim, coincidência com o recrudescimento da violência, pelo qual as autoridades constituídas têm o dever de responder. Deixar para abordar o morticínio somente após as eleições, pleito reiterado pelos eleitores tucanos, equipara-se ao casuísmo defendido pelos mensaleiros que só admitem ver o maior escândalo político da história do País ser julgado depois que o  voto tiver sido depositado na urna.

Apesar de considerar a política de segurança pública do atual governo uma lástima, o blog reconhece que o governador Geraldo Alckmin tem méritos em outras áreas. E, quando for o caso, sinto-me à vontade para elogiar o que merecer elogios e continuar criticando o que entendo ser incompatível com o respeito humano e a democracia.

O blog não está sozinho nessas críticas. Há uma parte da sociedade que, mesmo acuada, consegue ainda discernir que menos truculência e mais inteligência sem dúvida levariam a um resultado melhor na gestão do confronto entre a violência legítima e o crime organizado. Observe-se a posição do Ministério Público Federal. O posicionamento de ontem, em sintonia com diversas entidades que defendem os direitos humanos, é a melhor prova de que o embate ultrapassou todos os limites do suportável — e que tem surtido apenas efeitos deletérios, sem que se possa vislumbrar nada a não ser mais sangue no horizonte da guerra entre PM e bandidos.

A reversão da curva da criminalidade e a intervenção no comando da PM

O Procurador Federal Mateus Magnani deve anunciar nesta quinta-feira que ingressará com uma ação civil pública para tentar forçar o governador Geraldo Alkcmin a trocar todo o comando da PM. A notícia surge num momento crítico para a segurança dos paulistas em geral e dos paulistanos em particular. Depois da vitoriosa redução dos índices de criminalidade conquistada nos governos anteriores, a política do extermínio do atual bota a perder todo o esforço despendido no passado.

É alarmante o aumento de 22% nos homicídios dolosos na cidade de São Paulo quando se cotejam os dados do segundo trimestre deste ano com o mesmo período do ano passado. O levantamento, feito pela própria Secretaria de Segurança Pública, apenas quantifica algo que se pode sentir nas ruas: o pavor de viver numa cidade em que só se distinguem algumas ações da polícia e do crime organizado pelo uniforme de quem dispara a arma.

A crítica não tem por objetivo generalizar o estigma de que todos os policiais são maus. Mas está calçada na observação da estatística e nas declarações desastrosas dos comandante que dão ordens para que seus soldados adotem a lógica do crime organizado com a justificativa de exterminá-lo.

Nesse sentido, vale a pena ouvir o que têm a dizem entidades como o Movimento Nacional dos Direitos Humanos. Segundo seu coordenador, Rildo Marques de Oliveira, “há uma quantidade injustificável e enorme de pessoas mortas pela PM em crimes com características claras de execução sumária — com tiros na nuca de vítimas imobilizadas e incapazes de se defender”.Segundo o MNDH, pelo menos 11 adolescentes foram assassinados desta forma nos últimos dois meses.  Na sequência das execuções, invariavelmente os documentos das vítimas desaparecem e seus corpos dão entrada nos IMLs como indigentes.

“Há claramente uma política higienista, política de extermínio. Temos informações de que em vários batalhões têm sido formados grupos de extermínio” afirma Rildo Oliveira, certo de que as ações são autorizadas e orientadas pelos comandos.

Essas são as evidências que, uma vez apresentadas em audiência pública na tarde de hoje, vão embasar o pedido de intervenção na segurança pública paulista.

A medida tem tudo para não prosperar. Sua drasticidade equivaleria a uma uma desautorização sem precedentes na história. Mas a denúncia, diante da gravidade do que se suspeita estar acontecendo, vem em boa hora.

É preciso que o governo do estado atente para as consequências deletérias desse retrocesso, que devolveu à ROTA os estigmas dos anos Maluf em plena gestão tucana.

De outro lado, como apontam os dados que brotam da SSP, autorizar o extermínio de supostos criminosos não fez senão acirrar o problema.A despeito da matança desumana, nunca, nos últimos 18 meses, São Paulo foi uma cidade tão perigosa, com pessoas tão acuadas — agora também por quem deveria proteger a sociedade.

Se os números de sua política não dizem nada ao governador Geraldo Alkcmin, talvez a justiça Federal possa obrigá-lo a entender que a Lei de Talião da SSP não pode e não deve suplantar a Constituição brasileira.

Segurança Pública e a política do extermínio em SP: chamem a Força Nacional!

Não se deve debitar o saldo trágico da atuação da PM exclusivamente aos policiais envolvidos nas operações de exetermínio, como tentou fazer o comando da corporação. A mortalidde, como deixa clara a múltipla ocorrência de eventos semelhantes, é produto de uma política de Estado — a política de extermínio que vem sendo levada a efeito pelo governo Geraldo Alkmin.

Nas últimas 48 horas, pelo menos três pessoas foram executadas de maneira covarde por policiais que confundem celulares com armas de fogo, fazem diligências fora de sua jurisdição e abusam do direito de exercer a violência legítima em nome da proteção da sociedade. Os crimes ocorridos nos últimos dias expõem de maneira clara e contundente que quem está na mira da PM não são apenas os bandidos — são também cidadãos sem passado criminal, de vida correta, sem nenhum envolvimento com bandidos.

A insegurança que assalta São Paulo há dois meses é produto do aumento da tensão provocado pelo uso da violência extrema pela polícia. Foi a execução de um suposto membro do PCC pela ROTA no bairro da Penha que iniciou a guerra no dia 29 de maio. O tráfico respondeu com ações típicas do terrorismo  sicário. Oito policiais foram mortos em horário de folga ou em bicos, longe do abrigo dos quartéis. Tensa e amedrontada, a corporação aderiu à lógica do crime organizado: passou a assassinar todos os que julga “suspeitos”. Mesmo que a suspeição seja motivada pelo porte de um telefone celular.

Está claro que o governo atual não tem competência e nem disposição para enfrentar suas próprias mazelas. Ao invés de disciplinar a tropa, libera o assassinato indiscriminado e o justifica como “tecnicamente correto”, cometido no “estrito cumprimento do dever”. E depois ainda tem o desplante de mandar um oficial subalterno pedir desculpas aos parentes dos mortos, como se fosse possíel obter o perdão pelo fim injustificado de uma vida.

O próprio governador aparece em público para prometer uma indenização, como se o luto, a orfandade e a viuvez admitissem uma compensação financiera oferecida pelo  chefe dos algozes. Não há reparação possível para isso.

O blog vem alertando para o descontrole e a política de extermínio da Secretaria de Segurança Pública há muito tempo. Como as arbitrariedades só fizeram aumentar nas últimas semanas, talvez seja o momento de começar a cogitar uma intervenção federal para repor a ordem pública.

Em outros rincões do crime organizado, o recurso à Força Nacional conseguiu repor a tranquilidade, ainda que momentaneamente, à população aflita. O Rio de Janeiro e o entorno do Distrito Federal bem sabem o que isso representa.

Agora talvez tenha chegado a vez de São Paulo experimentar a humilhação de decretar suas própria incompetência na lida com a segurança pública.

 

 

 

Por Perillo, PSDB se equipara ao PT

As enroladas transações envolvendo um imóvel, pagamentos triangulares e malas de dinheiro expuseram as entranhas de um sistema de corrupção introjetado na máquina goiana. O protagonismo do governador Marconi Perillo parece agora indelével. Quanto mais tenta explicar a transação envolvendo a venda de sua casa, mais complicado fica entender o negócio sem enveredar por suspeitas mais do que bem fundamentadas de que ali houve corrupcão.

A CPI do Cachoeira pegou Perillo. É evidente demais que os tucanos não percebam que perderam a primeira batalha na guerra de morte congressual. O bicheiro nomeava gente no governo, mantinha em seu bolso boa parte dos oficiais da PM, tinha influência inequívoca na corte goiana.

E fazia negócios com o próprio governador — dissimulados por uma teia de fantasmas e laranjas voluntariosos.

Ao invés de assumir a derrota e entregar os anéis de Perillo, o PSDB adotou a mesma estratégia que os petistas usam para defender o indefensável: negar o óbvio. Assim como o PT nega o Mensalão (negaria o Holocausto por José Dirceu se fosso preciso), agora é o PSDB, acuado, que aparece na cena para tentar salvaguardar uma posição perdida no tabuleiro da política nacional.

Ao espernear, o PSDB confere a Lula uma vitória com sabor de goleada. Primeiro porque a CPI parece ter cumprido uma de suas tarefas: a de rifar Marconi Perillo, a quem o chefão petista não perdoa por ter dito publicamente que o ex-presidente sabia do Mensalão.

Segundo, por igualar no fosso moral as duas legendas.

Para sempre, vai ficar a possibilidade do bordão ensaiado “Vossa Excelência não moral para falar de nós”.

E não tem mesmo!

Bye-bye, Demóstenes

Demóstenes Torres deve ser cassado amanhã.

Já vai tarde.

A única coisa a lamentar é que tanto tempo tenha sido necessário para cumprir o formalismo processual. Tivéssemos uma constituição paraguaia e o dublê de lobista da contravenção e senador da República não teria durado duas horas.

Que os colegas piedosos consigam ser, ao menos no momento de declinar o voto, tão implacáveis como ele foi com seus opositores. Que o mandem logo para o Hades da política.

Demóstenes Torres vai para o lixo da história. O “Guardião”, sistema que interceptou sua pornografia com a contravenção, serviu para revelar ao País como um homem pode ser hipócrita e mentiroso. Como alguém pode ser manipulador e farsante. Como pode alguém enganar a todos com sua empáfia moralista e sua vida canhestra.

Bye-bye, Demóstenes.

Espero sinceramente vê-lo no ostracismo. E desejo a você o que de melhor você puder extrair do seu círculo íntimo, das duas amizades criminosas, das suas conspirações contra a moral e a ética.

Que você tenha o que merece: o limbo e a vergonha, se é que lhe sobra alguma.

O lucro da selvageria

Bom, estive fora durante o fim-de-semana. Assisti à luta do UFC. Não mudei de opinião: aquilo é selvageria pura.

O arbítrio dos jovens que se lançam nessa vertigem de imitar os brutamontes bem-sucedidos não me parece ser maior do que o dos galos de briga. Na periferia das grandes cidades, há poucas escolhas possíveis para um garoto pobre: servir ao tráfico matando ou alistar-se como gladiador dessa nova modalidade esportiva.

Há também os virtuosos que conseguem se safar, encontram uma brecha na combalida educação e se tornam cidadão produtivos. Mas esse com certeza é um dos caminhos mais difíceis.

Agora, preciso confessar uma coisa: foi bom ver o Anderson Silva esbofeteando aquele xenófobo arrogante do Chael Sonnen. O cara é um lixo completo.

O que gostei de ver não foi a superação física, que sigo condenando. Mas certamente Chael Sonnen nunca mais dirá que não gosta de Anderson Silva porque ele e as demais crianças brasileiras estavam brincando na lama do Terceiro Mundo enquanto ele jogava videogame com os amigos numa cadeira confortável do Primeiro Mundo.

Desta vez, as pancadas tiveram o condão de repor a ordem na bagunça fascista dessa grande rinha chamada MMA. E Anderson Silva mostrou que, depois de espancar um adversário, pode ser cordial a ponto de puxá-lo pelo braço e pedir o fim das vaias.

Valeu, Anderson Silva. Apesar de eu não gostar do que você faz, adorei o que você fez!

Cadê os 30% de petisas no eleitorado de SP ?

Fernando Haddad é um cara simpático. Parece bem-intencionado. É bonitão, causa furor entre as mulheres por onde passa. Mas não consegue transformar sua simpatia em votos. Está atolado no ridículo percentual de pouco mais de 5% desde que sua candidatura foi imposta pelo ex-presidente Lula.

Diz um dos bordões da política que o eleitorado petista representa 30% dos eleitores paulistanos. Pergunto: onde estão esses 30% que não aparecem nas pesquisas ?

Podem dizer que a pergunta é extemporânea. Deveria ser feita mais à frente, quando a campanha já tiver sido embalada pela propaganda na televisão. É verdade que só o início da propaganda eletrônica vai definir o cenáio. Mas o tabuleiro já está montado. E, ao contrário do que se passa com o postulante petista, os demais já começaram a ver suas curvas eleitorais sofrendo os efeitos da reflexão dos eleitores.

Não se pode atribuir a estagnação inicial de Haddad à falta de divulgação de sua candidatura. Embora seja ainda pouco conhecido da população, o ex-ministro já foi exposto em várias oportunidades criadas por seu patrono Lula. O Programa do Ratinho, por exemplo, foi mais do que uma peça de campanha — foi campanha desabrida endereçada ao público que se supõe cativo das peripécias de Lula, as classes D e E. Mas não se nota nenhum efeito de tradução desse esforço inicial em votos.

Há algumas possibilidades que devem ser consideradas nas especulações sobre os motivos. A primeira delas é a de que talvez Lula não seja mais o cabo eleitoral que se supunha. As bobagens que tem feito, o excesso de intromissão nas definições partidárias, o culto à sua própria personalidade podem ter provocado um estrago enorme nos poderes mágicos do Midas eleitoral que conseguiu transformar Dilma em Presidente da República.

O erro mais crasso com certeza foi o acordo com Maluf, algo que não se explica por um minuto e meio a mais na televisão. O simbolismo da fotografia conseguiu afastar Erundina da campanha depois que Marta Sulicy já havia abandonado os palanques petistas. Ambas foram apartadas de Haddad pelas intromissões de Lula, restando para a criatura a fatura decorrente dos erros do criador.

Mas é possível que o motivo que leva o eleitorado suposto do PT a evitar repetir uma declaração de voto diante do pesquisador seja outro: vai longe o tempo em que o PT era uma legenda democrática, que respeitava a decisão de suas bases antes que seus caciques conseguissem impor sua vontade.

Isso faz toda a diferença. Um partido é a soma de suas partes. O PT não é o PT por sua história — que foi rasgada muitas vezes –, mas é a soma da força de seus militantes. Desgastada pelo mandonismo, essa militância certamente não terá mais o ânimo dos pleitos passados.

O PT de hoje em nada se parece com o PT antes do Poder. A rigor, é um partido exatamente como o PMDB. Encontra-se matizado por denúncias de corrupção que se generalizam em todos os níveis. Há escândalos envolvendo petistas onde quer que o partido tenha chegado ao Poder. E há também a pressão e a expectativa pelo julgamento do Mensalão.

Nesse processo de transformação, chama a atenção o pragmatismo de posições defendidas por próceres partidários como o vereador Antônio Donato, presidente do PT no município de São Paulo. Ao justificar a aliança entre Lula e Maluf, ele disse simplesmente que esse é o jogo, e que suas regras devem ser aceitas por quem se dispõe a jogá-lo.

É preciso lembrar que a história do PT foi construída numa aguerrida luta anti-hegemônica. Uma luta contra o sistema, de confrontação às regras, que justificou sua criação e o suesso de sua proposta inicial. Foi essa a estratégia que terminou por levar o partido ao poder dez anos atrás.

O PT dos dias atuais nem de longe lembra o partido em seu período de amadurecimento. À promessa de uma revolução sobrepôs-se a adesão fisiológica. Ao foco na esquerda, o deslocamento para o centro. O PT hoje tem muito mais do PSD de Tancredo e Ulisses do que do partido operário forjado no sindicalismo dos anos 80. Está muito focado no Diário Oficial, com suas nomeações e liberações indecorosas, do que nos genuínos interesses da sociedade.

Talvez por isso o atoleiro estatístico em que se encontra a candidatura Haddad deva ser interpretado não como um o sintoma de uma dificuldade conjuntural, mas como sinal de um declínio estrutural.

É possível que a militância do PT não reconheça mais seu partido. Entre aqueles 30% que justificavam o bordão deve haver muitos que não se conformam com a degeneração moral da legenda, a fuga de seus quadros e o esvaziamento da pauta ética. É possível mesmo que não haja mais esses 30%.

Aferir quanto sobrou da militância autêntica só vai ser possível quando as urnas forem abertas. Mas uma coisa é certa a esta altura: mesmo que consiga suplantar as dificuldades do momento eleitoral, há algo estranho acontecendo nas hostes petistas.

Que sirva como alerta. Nenhum projeto de poder pode desprezar seus próprios fundamentos. Para quem tinha o PT como causa, talvez já não haja mais causa a defender.

Brazilians, go home!

21 de Setembro de 2009. Eu e uma porção de jornalistas brasileiros estávamos em Nova Iorque para cobrir a Assembléia Geral da ONU, que seria aberta no dia seguinte. No fim da tarde, um diplomata que coordenava a cobertura da imprensa brasileira pelo Itamaraty nos convocou para uma entrevista coletiva que o então chanceler Celso Amorim concederia em poucos minutos. “É uma informação importante”, avisou o assessor.

Antes de chegar à sala de imprensa montada na suíte de um hotel, pensávamos que a convocação se referia a algo envolvendo a polêmica posição do presidente Lula, que naquele momento se empenhava em defender o direito do Irã ao uso da energia nuclear. Lula havia se transformado numa espécie de embaixador informal de Ahmadinejad, posição que manteve até o último de seus dias no governo, e que terminou por ensejar um dos maiores micos que o Brasil já havia protagonizado ao longo de sua nobre história diplomática: a tentativa de acabar com a crise no Oriente Médio com uma conversa de pé-de-ouvido, um sanduíche de mortadela e uma caipirinha.

Ao chegar ao hotel, Celso Amorim comunicou que Manuel Zelaya, deposto dias antes da presidência de Honduras, acabara de entrar na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Havia sido acolhido de bom grado e permaneceria por ali o tempo que quisesse. Zelaya fora apeado do Poder porque tentou mudar a constituição para conseguir um novo mandato, uma manobra nos moldes do que Hugo Chavez já havia feito duas outras vezes na Venezuela.

Ocorre que a própria constituição hondurenha criminaliza esse tipo de iniciativa  para respaldar o pressuposto mais elementar de qualquer democracia: a definição do tempo do mandato. Além disso, Zelaya respondia a 18 processos em que era acusado de corrupção.

Encerrado o evento da ONU, a maior parte dos jornalistas que estavam em Nova Iorque tomou o rumo de Tegucigalpa. Cheguei lá três dias depois  do intróito do presidente deposto na embaixada brasileira. A capital estava convulsionada pela volta do degredado, que havia trocado a prisão por um exílio na vizinha Costa Rica e voltara pelas mãos de Chavez, numa operação coordenada pelo próprio Celso Amorim e pelo assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia. Tudo feito com consulta prévia e a bênção do governo Lula.

Nas ruas da capital, um grupo pequeno, de cerca de duas mil pessoas, promovia atos públicos que invariavelmente terminavam com bombas de efeito moral e tiros de bala de borracha disparados pelas tropas federais. Com o passar dos dias, os manifestantes pró-Zelaya foram minguando. Restaram cerca de 200 ao cabo de duas semanas — a maior parte composta por pelegos do sindicalismo local que, lá como aqui, o governo tratava de engordar com cargos, dinheiro e favores oficiais.

No dia 14 de outubro, Honduras parou, ficou em silêncio por duas horas e depois explodiu numa festa genuína. Milhares de pessoas foram para as ruas com suas camisetas azuis e brancas para cantar o hino nacional e reacender a chama do patriotismo num momento de catarse nacionalista. A festa foi provocada pela classificação da seleção de Honduras para o Copa do Mundo de Futebol do ano seguinte. Contrariando todas as previsões, o time havia conseguido derrotar El Salvador — e ainda contou com a ajuda da seleção da Costa Rica, que não conseguiu vencer os Estados Unidos e perdeu a vaga.

Estávamos hospedados num dos melhores hotéis de Honduras. Um telão foi montado num saguão para que os torcedores endinheirados de Tegucigalpa pudessem acompanhar a partida entre uma dose e outra de uísque. Nós, jornalistas estrangeiros, torcíamos desabridamente por Honduras. Quando a Costa Rica empatou com os EUA, aos 50 minutos do segundo tempo, pulamos e nos abraçamos, fizemos um brinde e comemoramos a classificação daquele pequeno país, que jamais havia disputado um mundial de futebol. “Somos mundialistas, somos mundialistas”, gritavam os hondurenhos com a autoestima lustrada.

Mas logo percebemos que nossa torcida provocava constrangimento aos torcedores locais. Nas mesas vizinhas, nossa alegria gerava olhares de reprovação. Inibia mesmo os torcedores locais. Até que um deles se levantou, caminhou até a nossa mesa e perguntou de onde éramos.

“A maior parte de nós é brasileira” respondi. “Então, por favor, respeitem o nosso momento e deixem que festejamos nós mesmo a nossa conquista”, disse o homem, de maneira rude e assertiva.

Logo o saguão estava vazio. Os hondurenhos se levantaram e saíram em silêncio levando suas bandeiras enroladas. O telão foi desligado. As luzes, apagadas. Contrastando com a festa que explodia nas ruas, o bar do hotel  se transformou numa caverna erma e soturna. Culpa nossa, exclusivamente nossa, que estávamos ali de penetras numa celebração para a qual não fôramos convidados.

Nos dias que se seguiram, as manifestações de hostilidade viraram rotina. O que mais ouvíamos na capital, sempre que abordávamos populares, eram pedidos agressivos para que deixássemos o país e voltássemos ao Brasil. E não foram poucas as vezes em que isso aconteceu. A hostilidade à nossa presença ia aumentando na mesma medida em que as declarações da diplomacia brasileira subiam de tom.

Havia boatos, muitos boatos dispersos no ar. Falava-se que o Brasil estaria enviando tropas para defender a soberania de sua embaixada, que aviões brasileiros foram vistos sobrevoando bases militares próximas à capital do país. O presidente Lula só se referia ao presidente recém-empossado pelo Congresso como “golpista”. Nem sei se chegou a mencionar alguma vez o nome de Roberto Micheletti. Era apenas “o golpista”. Aquilo foi irritando os brios da população de Honduras.

O Brasil não mandou aviões nem soldados, mas transformou a diplomacia num claro instrumento de intervenção na soberania hondurenha. Moveu batalhas enormes para tentar elevar o problema da pequena república centro-americana ao status de grande evento multilateral. Fracassou em todas as tentativas. A primeira delas representou o fracasso mais retumbante: a proposta de reunir o Conselho de Segurança da ONU para discutir uma intervenção mais drástica. A ONU deu uma banana a Celso Amorim.

Depois, no âmbito da OEA, houve resistências até à ida de uma comissão negociadora para mediar a discussão com os atores da crise. Mal-humorados, os representantes da OEA já sabiam que o povo de Honduras é que iria resolver seus problemas. Por isso não vingaram as propostas brasileiras de aplicar sanções comerciais e isolar diplomaticamente o país. Aos poucos, assim que conseguiram entender o que se passava, governos de todo o mundo — os Estados Unidos à frente — foram colocando água fria sobre a fogueira da crise . Só o Brasil insistiu no erro da posição intervencionista.

Mas o tempo seguiu seu curso saneador. E Zelaya, que não desistia do bunker armado na embaixada do Brasil, acabou se transformando num enorme problema. Quatro meses se passaram até que viesse  uma ordem de despejo para aquele inquilino incômodo e seu pequeno séquito. Em dezembro, o Itamaraty deu o ultimato, solicitando a Zelaya que desocupasse a sede diplomática. Foi cumprido no último dia, encerrando de maneira desastrosa a articulação intervencionista de Lula e Chavez para levar de volta ao coração de Tegucigalpa o homem que havia sido banido por abuso de suas prerrogativas constitucionais.

Enquanto Lula, Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim inventavam uma maneira de se livrar do imbroglio, o “golpista” Michelletti tratava de colocar a casa em ordem. Convocou eleições — às quais o partido de Zelaya concorreu — e restabeleceu a ordem pública. A democracia hondurenha deu uma prova inequívoca de maturidade. A institucionalidade seguiu incólume, em benefício da vontade legítima e soberana do povo daquele País.

Para nós, que de certa forma encarnávamos a presença indigesta do governo brasileiro diante da população humilhada e ultrajada de Honduras, restou a experiência amarga de vestir o estereótipo deletério do imperialismo caboclo. Sim, o Brasil, a potência emergente do Cone Sul, aposentava a isenção quase suíça da tradição diplomática e adotava uma postura arrogante e desrespeitosa.

A ponto de os populares nos hostilizarem nas poucas manifestações pró e contra Zelaya com o mesmo bordão, repetido sempre em inglês: “brazilians, go home!”. Éramos os yankees dos hondurenhos. E éramos mesmo. Por isso, a multidão inflava o peito pedindo que deixássemos, nós, brasileiros, seu território e seu desiderato. “Tirem suas patas do nosso destino”. Era isso o que eles nos diziam o tempo todo.

Agora, algo muito parecido se repete no Paraguai. O parceiro de primeiro hora, o País que sediou a primeira reunião do Mercosul, foi escanteado por uma jogada matreira do acordo regional porque resolveu, seguindo os ditames da constituição, demitir por justa causa um presidente incompetente e fraco. Como se viu, a indignação do vizinhos briosos foi apenas um pretexto. O que importa é que a esquerda sulamericana cravou mais um tento, afastando o sócio fundador do Mercosul para impor a presença plena da Venezuela no tratado.

Pagar um golpe com outro é moral ? É lícito ? É éticamente defensável ?

Não, não é. Mas no tabuleiro da política, o que conta mesmo é ocupar espaço e vencer sempre. É essa a lógica da retórica que condena a decisão do Congresso e do judiciário paraguaios, mas a utiliza como pretexto para enfiar Hugo Chavez goela abaixo a um sócio que, supostamente, afrontou a democracia. No plano moral, na pior hipótese, o golpe perpetrado contra Lugo só encontra paralelo no golpe perpetrado a favor de Chavez no âmbito do Mercosul.

Logo, logo vão aparecer nacionalistas nas ruas de Assunção bradando “brazilians, go home” — ou um bordão análogo em guarani ou espanhol. Pode até parecer folclórico em Tegucigalpa, mas com certeza não será sem consequências do lado de lá da fronteira, onde 350 mil brasileiros são hositilizados todos os dias como ladrões de terras paraguaias.

Apressada e determinadamente, vamos perdendo a candura conciliadora da diplomacia de Osvaldo Aranha para nos transformarmos no vizinho temido, atrevido e desrespeitoso — o País imperialista que, mais do que respeitado, é temido.

Três anos atrás, éramos os yankees de Honduras. Agora, somos os yankees do Paraguai.

Geraldo Alckmin, o nome da crise da segurança paulista

“Quem enfrentar a polícia vai levar a pior”.

A frase, em tom de ameaça, é do governador Geraldo Alckmin, em mais um exercício retórico para justificar o injustificável: a crise aberta na segurança de São Paulo pela política de execuções sumárias que equiparou a ROTA, o tal grupo de elite da PM paulista, a um grupo fardado de extermínio.

Comércio fechado, intranquilidade da população, escolas paradas, ônibus incendiados, policiais mortos. Índices que, apesar de descaradamente manipulados, já não conseguem mais ocultar o crescimento vigoroso das estatísticas da criminalidade. Esta é a realidade decorrente da opção do governo pela violência desmedida de seus policiais.

Por tudo isso, fica claro que quem está levando a pior não é a polícia, é a população. É ela que tem sido sacrificada em seus direitos fundamentais, suprimidos pelo pavor e pelo pânico que se espalham e ameaçam todos os segmentos da sociedade. Todos sofrem com isso. A classe média, enclausurada em casa pelos arrastões nos restaurantes, a periferia, sujeita à humilhação do toque de recolher.

Na origem do problema está a execução a sangue-frio de um bandido vinculado ao PCC, morto covardemente depois de torturado na beira erma de uma rodovia após cinco companheiros terem sido abatidos pela ROTA numa chacina que ficou conhecida como “crime do Bar Barracuda”. Foi essa execução sumária, ocorrida há um mês, que despertou a fúria adormecida do PCC, organização que despudoradamente, e a despeito de todas as evidências, o governo paulista nega existir.

É impressionante o esforço das autoridades para maquiar a origem da crise. Esforço que ficou evidente a partir do momento em que a máquina da segurança pública tentou de todas as maneiras “arredondar” o flagrante dos jagunços assassinos da ROTA para evitar a prisão dos pistoleiros fardados — o que só não ocorreu graças à ação determinada do Ministério Público, que impediu a fraude no registro da ocorrência.

É impressionante a desfaçatez com que o mesmo governo trata o sofrimento da população. Enquanto os bandidos matam policiais, incedeiam ônibus e cerceiam o direito de ir-e-vir das pessoas, o comandante do Exército de Brancaleone em que se transformou a polícia paulista se dá ao desplante de abandonar seu QG para ir assistir a um jogo de futebol em Buenos Aires. Mais do que como ironia, a ausência soa como escárnio.

Mas Antônio Ferreira Pinto, o secretário para quem o Corinthians é mais importante do que a guerra travada nas ruas de São Paulo, é apenas uma peça no tabuleiro montado por seu chefe, o governador Geraldo Alckmin. Se há um responsável pelo caos e pela violência disseminados pela truculência da polícia, é Geraldo Alckmin o nome a ser apontado. É ele quem mantém, coonesta e legitima a política do extermínio adotada pela SSP.

Sem ter como responder concretamente ao descontrole nas ruas, Alckmin recorre às bravatas. Com uma polícia acuada pelo crime organizado e vitimizada pela falta de limite ao emprego da força bruta, as bravatas ecoam como cinismo, estupidez em estado bruto.

Quem está levando a pior não são os bandidos. São as pessoas honestas. Alienar-se e perder a racionalidade, aderir incondicionalmente à truculência, não vai salvar São Paulo do crime. Persistir no erro só vai fazer com que a população fique cada vez mais refém de organizações como o PCC.

Mensalão: o que se quer é que o STF julgue, nada além disso

O Mensalão é um escândalo que ofende a honra, a dignidade e os brios dos brasileiros. Eleitos para governar conforme as regras da ética, da decência, da moralidade, da impessoalidade e da legalidade, dirigente petistas foram muito além nos primeiro anos Lula: construíram um esquema de amealhar votos congressuais e comprar consciências com dinheiro desviado de instituições como o Banco do Brasil, como ficou sobejamente demosntrado na peça de acusação assinada pelo então Procurador-Geral da República Antônio Fernando de Souza.

A despeito de todas as provas e indícios e da contundência da denúncia, foi preciso uma ação enérgica do atual presidente do STF, Carlos Ayres Britto, para que o processo saísse da gaveta do relator, ministro Ricardo Levandowski, que por suas ligações evidentes com o orquestrador do esquema estava sob suspeita de atuar em favor da procrastinação do julgamento.

Ora, sete anos depois é impossível a qualquer cidadão bem-intencionado afirmar que o tribunal constitucional está “com a faca no pescoço”, pressionado por parte da opinião pública para “condenar” José Dirce e seus quase 40 cúmplices mensaleiros.

Também não é lícito nem razoável que áulicos do pior petismo e penas-alugadas por estes venham publicamente desacreditar a ação para assegurar a impunidade aos criminosos. Da mesma forma, aferrar-se à peridiocidade dos pagamentos para afirmar que o Mensalão não existiu constitui má-fé e manipulação explícitas.

O suborno distribuído a parlamentares picaretas por articuladores igualmente picaretas é uma afronta à história da democracia brasileira. Burlar as regras da ética e da legislação para compor uma maioria parlamentar é conspurcar todos os limites da civilidade e da dignidade. Não se pode explicar ou justificar o uso do suborno nem em nome de um projeto de Poder sacrossanto, como se arroga o lulismo.

O que o País deseja — e há muito tempo — é que as Instituições cumpram seus pressupostos. Cabe ao STF julgar os acusados. Ponto. Tentar impedir que isso aconteça, quer pela via da chicana interminável, quer pela via da pressão política indecente, é golpe contra o último bastião da cidadania, o Poder Judiciário.

A partir do dia 2 de agosto, o STF começa a cumprir sua função. Não fará nada além disso.

Julgar é seu dever: condenar os culpados e absolver os inocentes, se houver.

Aos navegantes da BESTA: não adianta chorar, vocês perderam mais uma!

Anteontem, quando postei aqui que o ministro Gilmar Mendes decidiu revelar o assédio de Lula porque Lula estava espalhando boatos contra ele, fui trucidado pela claque da BESTA (BLogosfera Estatal). O Twitter do Blog do Pannunzio virou um lixo. Foi inundado por centenas de mensagens de pessoas que me chamavam de tudo o que há de ruim e nefasto. Mais uma vez tentaram manchar a minha reputação, arrasando com meus trinta anos de jornalismo.

A informação ficou apenas por aqui, virou uma espécie de privilégio dos leitores deste blog. Entendo a cautela dos que decidiram não repercuti-la. Afinal, afirmar que o que gerou o episódio foram boatos espalhados pelo próprio Lula parecia ser pesado demais. Os demais jornalistas agiram com responsabilidade e cautela.

Ocorre que a informação, como tudo o que veiculo neste espaço, foi checada à exaustão. E as 24 horas que se seguiram ao post serviram para confirmá-la integralmente.

Gostem ou não das minhas posições, os leitores do meu blog obtiveram as respostas para as dúvidas que restavam sobre o episódio. Pois é exatamente esse o papel que cabe a um jornalista: informar a sociedade. Ele foi cumprido, a despeito dos palavrões e infâmias que recebi até que Gilmar Mendes confirmasse o que eu afirmei.

Informação é direito do leitor e dever do jornalista. O meu papel foi cumprido. E mesmo os que vêm até estas páginas somente para tentar me associar ao golpismo propalado pela BESTA saíram no lucro. Lucro dobrado, aparentemente: ficaram sabendo o que queriam saber e ainda cravaram o besteirol costumeiro com seus palavrões e aleivosias de sempre.

Perderam duas vezes. A informação era correta e não havia nenhum motivo para colocar minha reputação em xeque. É o que importa.

Agora questionam minha crença nas palavras de Gilmar Mendes. Respondo: isso é irrelevante. Até o momento, o outro lado da contenda preferiu o silêncio a enfrentar o problema. Lula não disse nada ainda sobre o episódio. A nota do Instituto Lula é ridícula e não contém nenhum desmentido do ex-presidente petista. Portanto, há apenas uma versão sobre o fato: é a do ministro do STF.

Não há mais nada em que crer ou descrer.

Gurgel precisa se explicar

A despeito da excelente reputação de que goza entre os colegas — e até entre os magistrados da mais alta corte do País — o Procurador-Geral da República Roberto Gurgel precisa explicar a atuação do Ministério Público na operação Monte Carlo. A versão apresentada até aqui deixa lacunas enormes, incompreensíveis até, que abrem margem para as especulações em torno das razões que levaram o PGR e a mulher dele a engavetar o inquérito instaurado para investigar o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

O Código de Processo Penal não permite ao Ministério Público sobrestar o inquérito ou a ação penal dele decorrente. O Artigo 46 prescreve que “o prazo para oferecimento da denúncia, estando o réu preso, será de 5 dias, contado da data em que o órgão do Ministério Público receber os autos do inquérito policial, e de 15 dias, se o réu estiver solto ou afiançado“.

Caso o inquérito não contivesse provas robustas contra o investigado, a conduta do procurador responsável pelo caso deveria ser o arquivamento, e não o “engavetamento”, como efetivamente ocorreu.

No caso específico, segundo o que se conhece até agora, não foi isso que se passou. A Procuradora Cláudia Sampaio, mulher de Gurgel, teria determinado o envio do processo à justiça de primeiro grau, mas reteve consigo as peças por três anos, muito além do que permitem os prazos estabelecidos pelo CPP. Em função disso, as investigações, que poderiam ter prosseguido com um simples pedido de novas diligências, ficou efetivamente paralisada. O motivo da inação da representante do MP não está claro até o momento.

Nem a honorabilidade de Gurgel, nem o prestígio do Ministério Público, são suficientes para explicar os tropeços e as contradições na condução da Operação Monte Carlo. Algo aconteceu, e as informações conhecidas até agora não justificam ou sustentam a versão apresentada pela Procuradora Cláudia Sampaio.

Segundo ela, foi do delegado Raul Alexandre Marques de Souza o pedido para que não houvesse o arquivamento. Esse tipo de conduta não está previsto no CPP e, portanto, não poderia ter sido adotado. Não compete à autoridade policial fazer esse tipo de solicitação ao MP. Além disso, o próprio delegado já desautorizou duas vezes a versão apresentada pela Procuradora — enfaticamente. A PF, institucionalmente, apoiou as alegações do policial.

A justificativa de Roberto Gurgel, que politizou o problema, também não convence. Embora seja verdade que os defensores de José Dirceu movem uma campanha para tumultuar o julgamento do Mensalão, o argumento não pode ser aceito como explicação para o sobrestamento do caso Cachoeira ao longo dos três anos em que o inquérito permaneceu no fundo da gaveta da procuradora. Não foram os mensaleiros que obrigaram o MP a adotar uma postura defensiva. Foi o próprio MP que estabeleceu o rito anômalo aplicado a esse inquérito quando o julgamento do Mensalão ainda estava distante da agenda política.

É fato,também, que o mesmo código impede o depoimento do PGR à CPI do Cachoeira. Mas há outras tribunas — entre elas a da imprensa — das quais Gurgel poderia fazer uso para afastar as suspeitas de prevaricação que pesam sobre a atuação do Ministério Público. Seria saudável para ele e também para a opinião pública que os motivos que determinaram o sobrestamento do inquérito fossem claramente expostos.

Principalmente para que Roberto Gurgel possa enfrentar de maneira altiva o julgamento do Mensalão e desempenhar sem nenhum tipo de suspeita ética o papel que lhe compete neste momento delicado da história.

Aos comentaristas do blog: parabéns pelo nível do debate

Estou adorando a qualidade dos debates travados na área de comentários do blog. Depois de um período inicial de provocações e desconfianças, chegamos finalmente a um diálogo em que contam as ideias e os argumentos, discorridos com firmeza, mas sobretudo com inteligência e elegância.

Tem sido muito produtivo, especialmente para mim. Os elementos trazidos por vocês têm provocado reflexões saudáveis sobre os meus próprios pontos-de-vista. Acredito que o mesmo esteja se passando com os contendores.

Desta forma crescemos todos, não importa de que lado estejamos em relação aos problemas que pautam a política contemporânea.

Continuem assim. E muito obrigado pelo que têm agregado aos conteúdos do blog.

A dolorida e imperiosa prática da liberdade de expressão

O Blog do Pannunzio tem sido instado a exercer com mais rigor a moderação dos comentários para evitar ataques de antagonistas das posições que defendo nestas páginas. Reconheço que permitir o contraditório é uma tarefa espinhosa e muitas vezes dolorida. Não é fácil para ninguém ser contrariado.  E quem age assim está permanentemente ameaçado de se ver desautorizado por argumentos mais sólidos — ou menos equivocados — do que os que orientam suas próprias convicções.

Em suma, é preciso ter coragem para admitir, assumir e expor erros de apuração. É preciso ter estômago para ler, dentro dos domínios de seu espaço pessoal de manifestação, contestações que muitas vezes beiram a afronta. É preciso ter discernimento para separar a injúria da lógica argumentativa genuína. É preciso ter sabedoria para mudar de ideia, quando for o caso. E, mais importante do que tudo, é preciso entender e respeitar a diferença, o que só é possível dentro de um ambiente verdadeiramente democrático.

Em suma, não é fácil resistir à tentação de encerrar uma conversa e apertar a tecla “trash”, enviando para o lixo os comentários que não reverberam a minha maneira de ver o mundo.

Não é fácil, mas é absolutamente necessário.

O jornalista, mesmo que muitas vezes não o saiba, é portador de um mandato outorgado pela sociedade para que o sujeito possa, por seu intermédio, aceder à plena cidadania, tornando-se efetivamente cidadão . Esse mandato está expresso no décimo-quarto inciso do Artigo 5º da Constituição de 88. Ele prescreve que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”.

Não é necessário fazer a exegese do texto constitucional para entender que, se alguém tem um direito, outrem tem uma obrigação. A obrigação de informar cabe à Imprensa, instituição basilar em qualquer democracia que se preze. Tão fundamental quanto qualquer um dos Poderes sobre os quais o Estado se alicerça – Legislativo, Executivo, Judiciário.

Ao criar a obrigação institucional, a Constituição alinhava salvaguardas para que a Imprensa exerça seu papel sem entraves decorrentes das tentações autoritárias. Aí estão a proibição à censura prévia, à discriminação por raça ou orientação ideológica, o postulado da livre manifestação do pensamento.

As salvaguardas, no entanto, não se prestam apenas para assegurar a incolumidade do jornalismo. São, e esse é com certeza seu mais importante papel, armas que o Estado oferece ao cidadão para garantir-lhe o direito de se informar.

O estatuto que permite a qualquer um expressar livremente o pensamento confere ao jornalista o direito à crítica, que vem sendo sobejamente reconhecido pela jurisprudência e pela doutrina sempre que o Poder Judiciário é chamado a opinar sobre o assunto. Mas não apenas a ele. O leitor, que a mudança de paradigma tecnológico transformou em sujeito ativo na dinâmica da comunicação social, também está assistido pelos mesmos direitos.

É esta a orientação que imprimi aos conteúdos produzidos pelos comentaristas. O objetivo é criar um espaço realmente democrático para a discussão de temas políticos que conformam o escopo temático do Blog do Pannunzio. O que inclui a necessidade, muitas vezes dolorida, de admitir o contraditório.

O blog vai além disso. Sempre que posso, dialogo com o leitor no espaço de comentários. Sei que não é algo usual entre blogueiros, que preferem o corpo da página principal de seus sites para se manifestar, criando assim um desnível na relação com o universo de leitores. Em contrapartida, muitas vezes os comentaristas ocupam a página central dos artigos, numa inversão que considero salutar e desejável.  Mesmo quando a polifonia das críticas supera o sussurro laudatório.

Quem acompanha o meu blog há mais tempo sabe que essa orientação nunca mudou. Ele existe desde 2009 e não deixou de noticiar e assumir posições sobre os temas mais polêmicos que eclodiram nesse período. Houve casos em que a maioria esmagadora dos leitores discordou da minha argumentação. Para ilustrar essa situação, cito especificamente a defesa que fiz do meu colega Boris Casoy quando do vazamento da frase infeliz sobre os lixeiros. Quem se der ao trabalho de perscrutar os comentários a dois posts em que tratei do assunto vai entender exatamente o que digo. Basta clicar sobre o link aí atrás.

Tenho um grande apreço pelos comentários também por razões mais egoísticas. Boa parte do prestígio obtido por esta página eletrônica decorre justamente da participação democrática dos comentaristas. A confrontação no plano das idéias cria um debate lúcido — embora algumas vezes áspero — que contribui para expor não apenas a opinião do blogueiro, mas toda a gama de opiniões suscitada por temas de grande repercussão .  Desta forma, meus leitores não ficam obrigados a concordar com o que expresso, pois podem eles mesmos formar juízos de valor muito mais ricos, sólidos e menos erráticos.

Por esta razão, preciso de apenas cinco palavras para explicar o que define o critério que me faz distinguir entre o que vai para o lixo e o que é estampado na área de comentários: injúria, difamação, calúnia, desqualificação do oponente. Para todo o restante, ficam meus agradecimentos pelo trabalho ativo dos leitores que  recusam a passividade contemplativa e se transformam em comentaristas.

Tenho muito respeito pelo que eles escrevem, mesmo quando o fazem para discordar do que é escrito por mim. Para estes, o espaço na área de comentários estará sempre aberto.

Relembrando o passado: Feliz Natal, Sean

A disputa envolvendo a guarda do menino Sean Goldman foi o pior e mais crasso caso de alienação parental registrado nas páginas do Blog do Pannunzio em seus quase quatro anos de existência. O desfecho se deu na véspera do Natal de 2009, quando, depois de mais de 4 anos de uma guerra judicial, o pai, o norte-americano David Goldman, conseguiu levar o garoto para os Estados Unidos, de onde havia sido abduzido pela mãe, Bruna Bianchi, sem aviso nem consentimento.

De volta ao Brasil, a mãe se casou com o descendente de uma aristocrática família de advogados cariocas. Eles utilizaram todos os meios para impedir que a criança convivesse com o pai e moveram uma campanha que beirou a patriotada. A mesquinhez com que agiam os parentes brasileiros se tornou evidente a partir do momento em que Bruna Bianchi, a mãe de Sean, morreu ao dar à luz seu segundo filho , e a avó materna Silvana Bianchi, assumiu a guarda do garoto.

O Blog do Pannunzio condenou com veemência a atitude da família ao longo do processo. Para relembrar o desfecho do caso, republico abaixo o  post sobre a ida de Sean para os Estados Unidos, ressaltando minha alegria pela constatação de que Sean encontrou seu lugar e caminha tranquilo para o futuro ao lado de quem deveria estar desde o princípio, o pai David Goldman.

Feliz Natal, Sean.

Este provavelmente vai ser o pior natal da curta e conturbada existência do menino Sean Goldman. O menino-chicana, que durante quatro anos foi objeto de uma das mais cruéis disputadas judiciais que a história registra, está a caminho de recomeçar uma vida que foi interrompida muito antes do tempo mais remoto que sua memória consegue registrar.

Sean Goldman foi subtraído do convívio do pai por decisão unilateral da mãe, que o trouxe para o Brasil sem dar conhecimento a David Goldman de que jamais voltaria a Nova Jérsey, Estados Unidos, onde o menino nasceu e a família vivia.

Desde o início, o pai lutou como um leão para reaver o direito de conviver com a criança, que a família brasileira lhe negava de maneira acintosa e arrogante. Depois da morte trágica da mãe, Sean teve sua guarda entregue pela justiça brasileira ao padrasto. Mas quem o criava era a avó materna, em nome de quem foi movida a cruzada que terminou na manhã de hoje.

O egoísmo da família brasileira, que justificava seus movimentos protelatórios em nome de um afeto sem limite, deixou indignada a opinião pública internacional.

Curiosamente, enquanto jornais de todo o mundo tratavam o caso como “sequestro” ou “abdução”, a imprensa brasileira adotou o lado errado para fixar seu ponto-de-vista. David Goldman, o pai do garoto, passou a ser chamado de “pai biológico” nas reportagens, especialmente as veiculadas por órgãos da imprensa carioca.

O afeto transbordante da avó quase sempre dava o tom das matéria. David foi exposto como pobre, vagabundo, desocupado, pernicioso, um homem sem coração que usava o pretexto de seu sofrimento pessoal para vender bugigangas com ícones de seu elemento de promoção pessoal — o próprio filho.

Enquanto a família brasileira de Sean o transformava em objeto de chicana nos tribunais, a imprensa vendia ao público uma patriotada construída sobre estereótipos de valores de nacionalidade, família e afeto.

Agora, no entanto, é que vai começar o problema de verdade. A entrevista que os Lins e SIlva encomendaram a uma psicóloga caiorca deixa claro que o psiquismo do garoto não guarda espaço para a figura do pai. Especialistas asseguram que ele é vítima de um quadro severo de privação parental.

Pela vigilância exercida nos parcos encontros entre pai e filho, pela imagem negativa que cuidadosamente se construiu na cabeça do menino, pelos esforços para desqualificar Dadvid Goldman, por tudo que os avós, tios e o padrasto devem ter dito a Sean sobre seu genitor, é provável que ele experimente um período longo e profundo de infelicidade e tristeza.

Embora esteja agora sob a guarda de quem deveria tê-la, Sean foi ensinado a detestar o pai. E vai ter que reconstruir a imagem destruída por essa campanha insana movida no Brasil contra a volta do menino ao lugar de onde ele jamais deveria ter saído.

Imagino o que se passa agora na cabeça dessa cruança. O menino abduzido pela mãe e pela família da mãe deve estar se sentindo sequestrado pelo pai. Está a caminho de um local “frio” no pico do inverno. Não vai mais ter as praias, o haras e o luxo dos Lins e Silva. Teve seu natal furtado por decisão de alguém que ele não alcança — um tal ministro do Supremo — em plena véspera de natal

Talvez seu maior presente seja a possibilidade de descobrir no afeto do pai o sentido do amor paternal. Em meio a essa guerra em que ele foi usado como munição, talvez não tenha sobrado a nenhum dos parentes brasileiros a energia necessária para que ele soubesse o que é, de verdade, o amor de um pai pelo filho.

Um País para Manuela

Minha netinha Manuela nasceu anteontem, no mesmo dia em que a CPI do Cachoeira foi instalada. Tenho o pressentimento de que o futuro que ela encontrará quando tiver conquistado sua plena cidadania guarda uma estreita relação com os fatos que o Congresso vai apurar — ou não — no processo que se inicia agora.

Estou consciente de  que essa expectativa  não encontra amparo nem na minha experiência pessoal e pode parecer pueril. Pode-se considerar que ela seja fruto de um desmesurado otimismo em relação às Instituições brasileiras. Senti a mesma coisa anos atrás, no começo da década de 90, quando Bruna, a mãe da Manuela, era uma recém-nascida. E eu estava enganado, muito enganado.

Bruna nasceu junto com Constituição de 88. Ela materializava a esperança na reinstitucionalização do País. Criou ferramentas que permitiram aos brasileiros da idade da minha filha mais velha viverem desde então em uma democracia madura, a despeito de ser tão jovem quanto ela própria.

A primeira infância da Bruna correu paralela à agonia do governo Collor, que o Congresso Nacional teve a coragem de depor quando ela completou quatro anos de idade. Collor foi cassado por corrupção. Foi expulso do Palácio do Planalto por adolescentes com a cara pintada, metade de preto, metade com as cores da bandeira. Naquela época, eu queria que minha filha tivesse idade suficiente para também pintar o rosto e ir para a rua gritar que aquilo era inaceitável. Cheguei a levá-la no ombro a duas manifestações.

Mas os anos foram passando. Enquanto Bruna crescia, a reorganização dos agentes da corrupção que se acercaram do Estado acabou transformando Collor num emblema representativo da média dos políticos brasileiros — nem pior, nem melhor. PC Farias, à luz da quadrilha governamental que articulou o Mensalão e da organização criminosa de Carlinhos Cachoeira, parece hoje um punguista de quinta categoria. Collor está de volta, depois de cumprir seu degredo, agora no papel de guaridão altivo dos segredos que ele e sua turma querem manter longe dos olhos da opinião pública — daí sua acintosa presença no banco dos juízes que vão presidir a investigação parlamentar.

Muitos escândalos se sucederam enquanto Bruna crescia e caminhava rumo à gestação que nos deu agora Manuela. CPI do Orçamento, Três Porquinhos, emenda da Reeleição, as denúncias da privatização, Mensalão, Saguessugas, Carlinhos Cachoeira … A ninguém minimamente informado é permitida outra constatação a não ser a de que a qualidade da representação política — e suas imbricações com o crime organizado — só fez se agravar nos últimos 23 anos.

Tanto Lula quanto Fernando Henrique, diretamente ou por intermédio de seus áulicos, defenderam a tese de que não foi o País que piorou, foram as instituições que se fortaleceram a passaram a deslindar as engendrações criminosas dos que foram eleitos para exterminá-las. A afirmação não encontra amparo na realidade fática nem no discurso justificador dos governantes que poderiam, se quisessem, ter mudado definitivamente essa história.

O hiato de tempo que transcorreu do nascimento de Bruna ao nascimento de Manuela equivale, em número de anos, ao tempo que foi necessário para que a Coréia do Sul deixasse de ser um devastado produtor de cabelo para perucas para se transformar numa potência emergente; que a Nova Zelândia  fosse catapultada do vale  ao topo do ranking que lista os países menos corruptos do planeta; que a Costa Rica  levou para deixar ser um porto seguro para gangsters de todo o mundo.

Exemplos como esses três servem para ilustrar bem o que teria acontecido ao Brasil caso o Estado tivesse assumido um papel honesto na confrontação da corrupção e no saneamento das Instituições ao longo das últimas duas décadas. E são suficientes para acabar com a falácia de que mais escândalos são produto de mais apuração, mais justiça, quando na verdade a contumácia dos esquemas e sua perpetuidade apenas servem para denunciar a extensão do problema, que fez se agravar.

O Brasil da minha filha transformou a corrupção em meio de sobrevivência dos partidos e dos políticos. Generalizou a bandalheira para demonstrar que todos se equivalem na lama. Transformou a virtude em tolice e a esperteza indecente em vantagem. Alinhou biografias ilustres à folha corrida de bandidos notórios. Aliciou líderes carismáticos e os colocou a serviço dos milicianos antidemocráticos que tentam mudar a História para provar que o que existe nunca existiu. Anulou provas, invalidou processos que poderiam ter colocado um freio no processo de apropriação patrimonialista. E jamais condenou à a cadeia um político sequer acusado de corrupção.

É este o legado da minha geração para a geração da minha neta. Uma matéria-prima de péssima qualidade, um País corrompido até a medula. Apesar do advento de instrumentos como a Lei da Ficha Limpa e a Lei de Acesso à Informação, que logo estará em vigor. Mas estes, lamentavelmente, ainda não produziram resultados que os justificassem.

É nesse sentido que, a despeito de toda a expectativa que se arma, alimento a esperança de que o processo de mudança de paradigma moral deslanche a partir da CPI do Cachoeira. Em termos de importância história, ela se iguala à CPI do PC e à dos Correios. Devolve aos protagonistas dos Poderes a chance de estabelecer o marco zero de um novo tempo, o tempo da ação saneadora, da revalorização da política, da restauração da honra e da honestidade.

Era o que eu desejava também para o futuro de Bruna quando ela nasceu, em 1988. Infelizmente eu estava errado. Espero não chegar a essa mesma conclusão daqui a 23 anos, quando Manuela estará pronta para trazer à luz minha primeira bisneta.

Por que a CPI do Cachoeira é urgente e necessária

A semana que começa hoje abre na seara política a discussão sobre a conveniência da instalação da CPI do Cacheira. Incentivada no princípio por Lula e Rui Falcão, presidente do PT, há agora o risco concreto de que o governo e o próprio PT tentem abortar o processo por temerem que os prejuízos sejam maiores do que o lucro.

A preocupação se justifica pela dinâmica que o processo ganhou antes mesmo da criação da CPI. Para atingir Marconi Perillo, os primeiros áulicos da investigação patrocinaram a consolidação de suspeitas mais do que bem fundamentadas contra o governador petista Agnelo Queiroz, do Distrito Federal. E colocaram em evidência a natureza espúria das relações entre o petismo e a empreiteira Delta, a queridinha do PAC. De quebra, serviram para expor o deputado Protógenes Queiroz, que igualmente mantinha relações “profissionais” com o núcleo da arapongagem a serviço do jogo do bicho.

Os sobressaltos que assombram o governo e o PT se somam ao que já se sabe sobre o envolvimento de tucanos notórios como o governador de Goiás nas justificativas para a instalação urgente e inadiável desta Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Capitular diante da bandidagem encastelada no Poder a título de poupar aliados equivaleria a estabelecer um pacto em favor do crime organizado que ameaça as instituições do País.

A CPMI dos Correios, instalada pela oposição, teve o condão de deslindar o maior esquema de corrupção  nutrido pela oficialidade petista na administração federal. Foi um processo dolorido, que culminou com a condenação política do principal auxiliar de Lula, o então ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu. Junto com ele, outros políticos de péssima qualidade moral foram banidos da vida pública. Expostos, os mecanismos de corromper parlamentares sem-vergonha foram neutralizados quando seus operadores — bancos, agência de publicidade, empresas estatais — ficaram moralmente inabilitados para as tarefas sujas a que se prestavam.

A CPMI dos Correios não acabou com a corrupção, mas ajudou a sanear a representação política ao banir da vida pública o que havia de pior no Executivo e Legislativo. E forneceu subsídios à Justiça para punir severamente os que, de dentro da máquina governamental, trabalhavam arduamente para conspurcá-la, etapa que ainda não se cumpriu pela morosidade quase dolosa do STF. Mas até para isso a discussão que antecede a criação da CPMI do Cachoeira foi positiva, uma vez que trouxe à baila a necessidade de julgar os crimes imputados aos mensaleiros chefiados por José Dirceu e Roberto Jefferson antes que prescrevam.

Os efeitos saneadores e o processo de depuração decorrentes de uma investigação parlamentar são enormes e importantes. No caso presente, o revelação da farsa engendrada por Demóstenes Torres e o envolvimento de deputados de seis outras legendas com a contravenção já justificariam, por si só, a criação dessa CPI. Mas haverá muitos outros ganhos para a sociedade. Ela pode ajudar a compreender como são criados e operados os vínculos que transformam governadores, deputados, senadores e funcionários públicos em estafetas de quadrilhas criminosas como a organização de Carlinhos Cachoeira.

E não é só isso. Sob suspeita, a Imprensa tem muito a ganhar em legitimidade. Caso a CPMI prospere, o jornalismo terá que explicar a natureza de suas relações com fontes contaminadas. O público leitor poderá, enfim, saber como é feito o agendamento dos temas sobre os quais os jornalistas levam o País a refletir. Abre-se também a possibilidade também de trazer à luz os vínculos pornográficos entre fontes públicas de financiamento e canais alternativos de propaganda como a chamada BESTA (Blogosfera Estatal) que, à custa de milhões pagos pelo contribuinte, se prestam ao jogo sujo do achincalhe e da injúria continuada.

Por tudo isso, o Brasil só tem a ganhar com a CPMI do Cachoeira, que tem potencial para se tornar tão profunda, extensa e importante quando a própria CPMI dos Correios.  A história recente demonstra de maneira cabal que , em processos de depuração da atividade política, quando o governo, os partidos e os Poderes perdem, a sociedade lucra, a democracia amadurece e a cidadania se consolida.

Cutucando a BESTA (Blogosfera Estatal): Coerência, pelo menos, aqui não falta

Tenho sido “acusado” nos últimos dias de coisas que eu realmente fiz. Portanto, as acusações não me machucam nem irritam. Eu realmente defendi o Bóris Casoy diante do bullying que os patrulheiros da BESTA (Blogosfera Estatal) armaram contra ele. Casoy, que é meu colega de emissora, nunca escondeu de ninguém que é um conservador. Eu não sou conservador, mas tenho respeito por ele, mesmo discordando de muito do que pensa.

A frase infeliz dita por ele foi interpretada com um sentido ideológico que realmente não tinha. Foi produto de um vazamento de áudio na passagem de bloco do jornal. Não foi um raciocínio tramado, como se ele tivesse deliberadamente , dolosamente, lançado mão de preconceitos ideológicos para ofender os garis. No campo da motivação e das intenções, o episódio não pode ser comparado ao texto em que Paulo Henrique Amorim ofende, dolosa e deliberadamente, o colega Heraldo Pereira com o bordão escravocrata “negro de alma branca”.  Mas isso os fundamentalistas da BESTA não discutem.

Também me “acusam” de ser sobrinho do ex-deputado Antônio Carlos Pannunzio. Já expliquei que ele é meu primo em primeiro grau. Imagino que a única ofensa aí e ao Antônio Carlos Pannunzio, porque a relação de parentesco que nos foi atribuída faz com que ele pareça necessariamente muito mais velho do que realmente é. Também já disse que tenho o maior orgulho desse primo, que foi e é um emblema de retidão de conduta e honestidade em sua vida pessoal.  Como nunca o entrevistei nem nem o usei como fonte de nenhuma reportagem em toda a minha vida, não vou  tecer considerações sobre as posições políticas dele. Isso simplesmente não vem ao caso. E olhem que ele era líder do PSDB e eu, repórter político em Brasília.

Para os que me cobram coerência, reafirmo que coerência não me falta. Eu não escrevi uma coisa ontem e desdisse hoje. Eu não enalteci ditadores no passado, assim como não deitei falação pela Comissão da Verdade no presente (que eu apoio, não como instrumento de revanche, mas porque representa uma oportunidade histórica de esclarecer o destino dos desaparecidos e o que permanece oculto nos arquivos do próprio Estado). Eu nunca fui obrigado a me retratar de nada.

Como quero deixar isso muito claro, reproduzo abaixo o texto em que fiz a defesa do meu colega, que mantenho integralmente. Divirtam-se, comentaristas pagos da BESTA!

O caso Bóris Casoy: reações demonstram sociopatia neonazista

Três dias atrás postei um artigo intitulado Em Defesa de Bóris Casoy. Afirmei que o apresentador do Jornal da Noite era vítima de uma campanha hedionda de cyberbullying por causa de um comentário infeliz sobre os garis. Argumentei que o áudio que vazou durante um intervalo do Jornal da Band permitia diversas interpretações e que talvez não fosse sua intenção deliberada — ou sequer inconsciente — discriminar os garis.

Mas o cerne da minha argumentação nem era esse. O que me motivou a escrever foi a reação absurdamente desproporcional de algumas pessoas. Gente que foi além do insulto, que lançou mão de argumentos fascistas para tentar desqualifcar o apresentador.

O texto recebeu milhares de comentários. A maioria esmagadora discordava de mim quanto à motivação da frase que indignou a opinião pública. Todos os comentários que não tinham conteúdo homofóbico, antissemita, de segregação religiosa, não eram injuriosos ou caluniosos foram publicados. O blog assegurou, desta forma, a manifestação de todos os que quiseram participar do debate — mesmo os que, de maneira enfática e veemente, contestavam o que eu havia escrito.

Volto ao assunto agora porque o material que chegou às minhas mãos, especialmente o que não foi publicado, me levou à triste constatação de que nossa sociedade está doente. Há uma horda de sociopatas neonazistas esperando oportunidade para se manifestar. E vou demonstrar o que estou dizendo.

No site do Yoahoo, ao responder a uma pergunta sobre o que acha de Bóris Casoy, um internauta identificado como Marcos1427 diz o seguinte: “é um judeu (nada contra) foragido da Rússia (c certeza passava fome) contraiu a poliomielite(q deve ter subido ao cérebro)”. você acha razoável que alguém se utilize das sequelas de uma doença como a poliomielite para atacar um contendor ?

Alguém com a apelido TheMiseravel escreve, no Youtube, que “NEM PRA GARÍ ELE SERVE, COMO TRABALHARIA COM SUAS LIMITAÇÕES? “. A indagação neonazista não atinge apenas o jornalista que se pretendia atacar. Atinge todos os deficientes que, de acordo com o raciocínio por trás dessa pergunta capciosa, não servem para nada, não têm utilidade social. E houve também internautas que chegaram ao cúmulo de afirmar que Bóris deveria ter morrido com um ano de idade, quando contraiu poliomielite.

A segregação racial, o preconceito religioso, o antissemitismo grassaram na internet. Num Blog do WordPress, alguém que assina Dr. Weissberg — provavelmente em alusão a Alexander Weissberg, judeu comunista que constestou o Holocausto — escreve, sobre Bóris: “Como todo judeu, desclassificam todos os que não são judeus”. Quer dizer: a religão e a ascendência étnica do âncora da Band seriam os motores ideológicos de seu comentário sobre os garis. “Sendo Boris Casoy um JUDEU, não vejo surpresa nesse ato de arrogância e insolência”, escreve alguém sob o pseudônimo de Ahmadinejad em outro blog .

Até quando parecem querer contemporizar os racistas, xenófobos e antissemitas se materializam. ”Não é pelo fato de ser judeu (tenho amigos desta religião), mas que isso ajuda ninguém pode negar”, diz um internauta no Yahoo Respostas .

O desrespeito não tem limite. “Boris Casoy [é] mais um judeu imundo e preconceituoso”, comenta alguém sob o codinome de Roberto no blog Bobagento. O mais grave é que nos comentários que se seguem ninguém o censura. No Twitter, um tal Toodoro teve a coragem de postar a seguinte mensagem: “Boris Casoy um judeu imundo e hipócrita. Fique uma semana longe desse jornalzinho que vai ver que NINGUÉM sente sua falta. SEU BOSTA!”.

A homofobia também forneceu armas para o ataque dos neonazistas de plantão. “VINDO DE UM VIADO ENRRUSTIDO O QUE SE PODE ESPERAR, ISSO SIM É UMA VERGONHA”. Foi o que disse alguém que assina João Souza no site 24horasnews.”Viado, velho filho da puta”, exclama outro (leia aqui). E por aí vai.

Também me causa espanto que sites com comentários moderados permitam esse tipo de manifestação. Cada uma dessas afirmações constitui crime hediondo, inafiançavel. A responsabilidade ultrapassa a figura do agressor e chega ao editor responsável pelas páginas eletrônicas que permite a publicação desse lixo ideológico.

Alguns dos meus críticos dizem que o suposto preconceito de Bóris contra os garis justificaria essa espécie de Lei de Talião no ambiente da internet. Seria o preconceito contra o preconceito. Não aceito essa justificativa em nenhuma hipótese. Os comentários não ferem apenas um jornalista; ferem judeus, gays, idosos, deficientes. Ferem a dignidade humana.

É por estas razões que este blog reitera o que foi dito no primeiro artigo. A sociedade contemporânea está doente. Sobre nossas cabeças paira, sem nenhuma sombra de dúvida, uma ameaça neonazista que, em letargia, vive à espreita de qualquer pequena oportunidade para assombrar nosso futuro.

Aviso aos navegantes da BESTA (Blogosfera Estatal): não percam tempo escrevendo atrocidades no meu blog

Meu blog foi atacado por hackers e retirado do ar durante algumas horas do último sábado. Atribuo os ataques (foram várias tentativas) à BESTA, Blogosfera Estatal, sigla com a qual a partir de agora passo a me referir a todos os sociopatas que não sabem se comportar em sociedade.

Em função desse episódio, algumas rotinas foram alteradas. Desde o último fim-de-semana todos os comentários são mediados e moderados. Os que contiverem ataques a mim não serão publicados. Ideias que contraditem com argumentos as opiniões expressas no blog serão bem-vindas. Mas agressões gratuitas irão para o local de onde não deveriam ter saído: o lixo. Portanto, não percam seu tempo escrevendo estultícies como as que tenho recebido aos montes.

Se quiserem injuriar, lembrem-se que a internet é democrática e que há vários blogs da rede da BESTA onde seus insultos certamente serão bem aceitos. Aqui, não.

Aproveito para esclarecer que sou primo em primeiro grau e não filho, nem sobrinho, do ex-deputado federal Antônio Carlos Pannunzio. E que esse vínculo de parentesco me enche de orgulho porque ele é, sem dúvida alguma, o oposto completo dos mensaleiros que transformaram o Poder numa “sinecura de boa prebenda”, como é notório. Ao longo de toda a sua trajetória política, Antônio Carlos Pannunzio foi um político de comportamento exemplar. Digno, honesto e decente, valores que a BESTA desconhece.

Já que não têm o que fazer, os blogueiros e mujahidins da BESTA poderiam se dar ao trabalho de fazer uma pesquisa no Google (nem dá tanto trabalho assim) para saber como esse vínculo atua sobre a minha prática profissional. Asseguro-lhes que jamais, nem uma única vez sequer, entrevistei meu primo ou fiz qualquer espécie de menção ao trabalho que ele desenvolvia no Congresso e, mais recentemente, no Memorial da América Latina.

Isso se chama honestidade de princípios, outra expressão cujo significado a BESTA desconhece.

Quem, então, é o verdadeiro PIG, PHA ?

PIG, de acordo com a Wikipedia, significa “Partido da Imprensa Golpista (comumente abreviado para PIG ou PiG) . É uma expressão usada por órgãos de imprensa e blogs políticos de orientação de esquerda para se referir a órgãos de imprensa e jornalistas por eles considerados tendenciosos, que se utilizariam do que chamam grande mídia como meio de propagar suas ideias e tentar desestabilizar governos de orientação política contrária”.

PIG, na minha modesta maneira de ver as coisas, é uma expressão negativa, pejorativa, estigmatizante, com a qual o blogueiro Paulo Henrique e seus mujahidins achincalham todos os que não concordam com as bobagens que ele escreve. PIG, porco, é aquele que não se enquadra no maniqueísmo das categorias e das conveniências comerciais do blogueiro. É quem não se alinha ao neobolcheviquismo de araque de PHA.

O bordão popularizado por ele, as mentiras reiteradas, a arrogância — falta-lhe hombridade até para pedir desculpas! — transformaram Paulo Henrique Amorim numa espécie de ídolo de uma pequena turba de fanáticos religiosos — composta, em parte, pelos fanáticos da igreja universal, em parte pelos desocupados que conseguem uma sinecura no serviço público, em parte — acho que em grande parte — por pessoas bem-intencionadas, simplesmente equivocadas, porque é fácil aderir ao discurso de ocasião.

Tenho chamado o site dele de Der Angriff (O Ataque). Era o nome do periódico em que Joseph Goebbels, valendo-se das mesmas técnicas,  vociferava contra os “canalhas” que ousavam se opor ao nazismo. Quem se der ao trabalho de fazer uma análise dos textos de ambos os Der Angriffs vai notar uma incômoda semelhança.

PHA é um cara estranho, que não admite críticas, de quem não se pode discordar. A imprensa independente deste País seria, na deformação da estranha paralaxe paulenriqueamoriniana, a trincheira do PIG porque não admite o contraditório, estaria fechada numa conspiração antipetista permanente. Estranho, no entanto, que seu Der Angfriff não publique comentários que contrariam a opinião férrea de seu editor.

Onde está a democracia ? Seria necessário fazer uma Ley de Medios para democratizar a opinião na “blogosfera”, o espaço virtual em que o primeiro dos jacobinos da internet trama contra a nobreza francesa, a “Chuiça” em que ele transformou o Estado de São Paulo ? Seus mujahidins parecem não se importar com o fato inquestionável de que a tal democracia da “nova mídia” é igualzinha às mais canhestras degenerações da “velha mídia”.

O mundo de PHA é necessariamente bipolar. Ele próprio incorpora a “velha mídia” na Record e a “nova mídia” na internet. É o bem (encarnado por ele) contra o mal (todos os que discordam do que ele pensa ou manifesta). O opróbrio do PIG contra a magnanimidade do JEG. O petismo e o antipetismo. É necessariamente contraditório.  Senão, vejamos.

PHA denuncia a roubalheira da “direita” brasileira. Transformou a Privataria Tucana numa espécie de Livro Verde que deve, mais do que lido, ser cultuado,  tomado como única expressão da verdade absoluta. Mas a roubalheira no governo que agora ele venera, essa fica bem longe de seus pitacos, de sua pena ferina e de seu vocabulário xucro. Ele não se importa, por exemplo, de recorrer ao “chefe de quadrilha” do mensalão para decretar que houve um “empate” com Heraldo Pereira, que está lhe dando uma surra judicial, moral, ética, e de compostura.

PHA diz que não é racista. Mas não hesita em lançar mão do léxico escravocrata para ofender quase todos os negros deste País majoritariamente negro.  Não é racista — pelo menos é o que ele diz –, mas acha que todo negro que não é militante do movimento negro é “negro de alma branca”. Seríamos, portanto, um País de negros de alma ariana (ou branca, como ele gosta de dizer).

Paulo Henrique Amorim anuncia, no corpo de uma retratação,  que vai processar todo mundo que fala que ele injuria, ou que afirma que ele foi condenado por injúrias, inclusive injúrias raciais reincidentes (ele foi condenado sim, por Paulo Preto, “até as pedras sabem”!…). Este blogueiro tem a sorte de estar entre as dezenas de jornalistas que ele já antecipou que vai mesmo processar, o que me confere uma espécie de imunidade para continuar dizendo o que eu bem entender sobre ele. Assim, posso dizer que o sentenciado Paulo Henrique Amorim, que não acata decisões judiciais, não cumpre com acordos judiciais, vai à Justiça que ele desmoraliza para buscar reparação pelo que não pode ser mais reparado no plano de sua reputação.

O estigmatizador-geral da República adora tachar colegas, mas dá pitis  até em retratações públicas que a Justiça lhe obriga a fazer. Ele é capaz de admitir o erro no recôndito de uma sentença acordada– para levar alguma vantagem — mas não tem a honradez necessária para admitir publicamente que errou. Para ele, retratar-se não equivale a admitir culpa. Ora, o que é, então ?

Ele diz que querem pegá-lo, armam uma arapuca para sufocá-lo financeiramente com os mais de 40 processos que ostenta como troféus. Mas, de uma tacada só, antecipa que lançará mão do mesmo estratagema adotado por seu patrão, o “bispo” Edir Macedo, e vai processar em massa. Transforma, assim, o Judiciário em tacape, borduna, zarabatana de sua sanha irracional contra a Globo. Eu também trabalhei lá durante 12 anos. Lendo os disparates que sua ira lhe inspira, fico muito contente de não ter sido contaminado pelo virus desse ódio mortal que hoje parece ser a razão de sua vida.

Hoje, passando pelo Blog do Reinaldo Azevedo, assisti ao video do direito de Resposta concedido a Lula contra os disparates do âncora de antanho. Lembro-me da campanha que ele inventou para injuriar Lula por causa da venda de um carro velho, mas não me lembrava em que termos isso tinha acontecido. Reinaldo refrescou-me a memória. O contraditório PHA, na época, estava plenamente alinhado com o pensamento neoliberal-tucano, que dele só recebia elogios. O homem que popularizou e universalizou o Partido da Imprensa Golpista é o mesmo que tentou golpear a candidatura de Lula 13 anos atrás. PHA, portanto, é o verdeiro PIG.

O que mudou entre o PHA de 1998 e o PHA de 2012 ? Nada! Não se pode acusá-lo de ser incoerente. Na lógica estranha de seu universo de valores, PHA continua o mesmo injuriador compulsivo, arrogante, idólatra do Poder, sabujo do patrão (veja isso aqui, se duvidar), ferino com opositores, absoluto em seus espaços de manifestação profissional.

Tivesse ele a capacidade de pedir desculpas sinceras, pelo menos isso, talvez não estivesse passando pelo evidente pavor doloroso das perspectivas que lhe aguardam no fim da fila de seus 40 processos.

A energia nuclear é mesmo perigosa ?

O acidente nuclear de Fukushima, consequência do terremoto e do tsunami que atingiram a costa leste do Japão, reacendeu a discussão sobre os riscos representados pela utilização de isótopos radioativos como combustível para a geração de energia elétrica. Governos de países europeus se anteciparam em anunciar o fechamento de usinas mais antigas e os ambientalistas, que nos últimos anos transitaram da rejeição absoluta à aceitação entusiasmada da energia termonuclear, voltaram a rever posições.

Em meio à comoção e à sensação de impotência diante dos reatores que soltam nuvens de fumaça radioativa, parece ter-se consolidado a certeza (leiga) de que essa forma de energia precisa ser banida do planeta. O que ninguém fez, até o momento, foi contextualizar o sentido da ameaça.

Diante da catástrofe japonesa, o Brasil aparece novamente como referência em geração de energia limpa, com 80% de sua matriz assentada sobre grandes hidrelétricas, o que o tornaria praticamente imune a tragédias como as que maracaram Cherbonil e Three Miles Island. Mas será que isso é verdade ?

Imagine o que teria acontecido se o epicentro de um terremoto de 9 graus Richter estivesse localizado em Araguari, no Triângulo Mineiro.  A região, como se sabe, concentra a maior parte das hidrelétricas brasileiras. São quinze barragens somente na Bacia do Rio Paranaíba. Os rios Grande e Paranaíba, com seu potencial hídrico totalmente aproveitado, são verdadeiras escadas de usinas geradoras. Ambos se fundem no rio Paraná, outra enorme escada de hidrolétricas. O último degrau é gigantersco: o Lago de Itaipú, a segunda maior hidrelétrica do planeta.

Voltemos ao terremoto mineiro. Com um sismo da mesma magnitude do terremoto no Japão, é provável que as barragens dessas represas não resistissem. Bastaria o rompimenjto de uma delss para criar um “tsunami fluvial” de consequências imprevisíveis. A onda que se seguiria varreria os diques à jusante, num monstruoso efeito dominó.

O pior aconteceria quando o tsunami fluvial chegasse aos diques de Itaipu. O lago da hidrtelétrica tem quasw 1,5 mil quilômetros quadrados de espelho d’água. A barragem principal tem a altura de um prédio de 65 andares.

O rompimento dos diques de Itaipu geraria uma onda tão devastadora quanto o tsunami que destruiu Sendai e outras cidades japoneses. Duas capitais sucumbiriam integralmente a ela — Buenos Aires e Montevideo, metrópoles que concentram praticamente metade da população do Uruguai e da Argentina. São aproximadamente 20 milhões de pessoas somente nessas duas cidades.

Os consensos que se formam a partir de Fukushima — e as evocações do temor provocado pelos demais acidentes — criam terreno fértil para o renascimento de um debate estéril sobre o uso da energia nuclear e desatam um pavor histérico, produto do milenarismo segundo o qual uma hecatombe nuclear fará cessar a vida humana na Terra.E o mais interessante é que a maior parte das pessoas sequer sabe diferenciar radioatividade (ondas de radiação) de material radioativo (matéria composta por isótopos radioativos).

A radiação é como as ondas de luz. Produz efeitos apenas no momento em que algo ou alguém é exposto a ela. Não é preciso ir longe para se perceber que o material radioativo é que representa um grande perigo para a humanidade. Basta lembrar do que aconteceu em Goiânia, em 1987, quando o roubo de um equipamento de radiologia abandonado em uma clínica pôs o mundo em alerta. Não foi necessário uma pane num grande reator para dar causa ao maior acidente radiológico do planeta. Bastaram 17 gramas de césio-137.

Os ambientalistas tendem a supertestimar a possibilidade de ocorrência de erros operacionais que poderia provocar um colapso nas centrais termonucleares. Erros de operação e a ocorrência de fatores políticos não apenas determinaram, mas também ajudaram a amplificar as consequências dos dois maiores desastres do tipo.

No primeiro, ocorrido em setembro de 1979, gases radioativos foram liberados para atmosfera quando a usina de Three Miles Island, nos EUA, sofreu uma pane no sistema de geração de vapor. Sete anos dpeois, em 1986, uma experiência mal-sucedida em Chernobil produziu a pior catástrofe da história. Os técnicos da usina tentavam saber se a inércia das turbinas seria capaz de gerar energia suficiente para alimentar os condensadores de vapor até a entrada em operação dos geradores elétricos. Deu no que deu.

Os críticos da energia nuclear argumentam que a presença de um reator próximo de grandes núcleos populacionais representa um perigo permanente, o que é verdade. Mas usinas nucleares têm trabalhado com margens mais do que razoáveis de segurança nos últimos 60 anos, pruzindo energia com baixíssimas quantidades de rejeitos.

Os que insistem em comparar os impactos potenciais dos sistemas hidrelétrico e convencional se esquecem das alterações provocadas nos terrenos alagados pelos lagos das represas, que alteram todo o ecossistema das bacias hidrográficas. A energia elétrica gerada pela água só é limpa depois que as centrais geradoras são instaladas.

Quem conhece a usina de Serra da Mesa, construída a partir de 1993 próximo à nascente do Rio Tocantins, sabe o quanto a região lindeira ainda sofre com os impactos decorrentes da formação do lago. Muitas espécies de peixes foram extintas. Outras, mais adaptáveis a ambientes de menor oxigenação, se proliferaram e passaram a eliminar a fauna. É o caso do Tutunaré, um dos predadores mais vorazes dos rios da Bacia Amazônica. A vegetação que ficou sob o espelho d’água continua se decompondo lentamente, processo que libera CO² na atmosfera.  Suspeita-se que o microclima também foi alterado, provocando um aumento nos índices de pluviosidade.

Isso sem falar nos reflexos fundiários decorrentes da desapropriação de vastas áreas que serão alagadas. Passadas praticametne quatro décadas do início das obras de Itaipu, Brasil e Paraguai ainda não resolveram o problema dos Brasiguaios, agricultores que tiveram suas sterras confiscadas pelo Estado, emigraram para o outro ladro da fronteira e até hoje formam uma malta de apátridas rejeitados pelos dois países.

A imagem tétrica já povoou os mais tenebrosos calafrios dos ditadores que na década de 70 governavam os países que poderiam ser afetados — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Nos anos que antecederam a construção da usina, Brasil e Argentina quase foram à guerra por causa dos riscos estratégicos representados por esse reservatório.

Apesar disso tudo, é a imagem do núcleo fundente de um reator nuclear descontrolado provoca  temores e calafrios. Diante da fumaça que emana de Fukushima, a perspectiva de rompimento de um dique parece uma premonição pessimista e distante. Estamos tão acostumados à hidreletricidade que não sentimos os perigos, embora eles existam.

Assim como numa central termonuclear, há sempre o risco de a manutençao deficiente, a falta de investimentos e os erros na operação provocarem tragédias terríveis numa usina hidrelétridca. Mas ninguém se dá conta de que basta um operador de Furnas esquecer de abrir uma comporta para que uma cheia eventual se transforme numa catástrofe. Felizmente elas não têm acontecido na nossa vizinhança.

O fato inquestionável é que praticamente todas as formas de produção de energia deixam algum resíduo, provocam alterações ambientais, expõem a algum tipo de risco a vizinhança. A única exceção talvez seja a energia eólica, que representa hoje 3% da matriz energética brasileira. O problema é que sua instalação depende de condições climáticas ideais, que não se encontram em todos os grotões do planeta.

Outra questão cuja discussão sequer foi iniciada: como substituir as centrais nucleares ? Hoje, a maior parte da energia consumida na Terra é oriunda de usinas termelétricas. O carvão e o diesel que as alimentam saturam a atmosfera de gás carbônico e enxofre. O potencial de geração hídrica está alcançando o limite do possível. Por enquanto, não há tecnologia disponível para o aproveitamento em larga escala dos ventos, movimento das marés e luz solar na escala necessária para suplantar os malefícios causados pelas outras formas de gerção de energia.

A despeito da comoção e dos pavores despertados pelo “meltdown” de Fukushima, o mundo ainda vai ter que conviver por muito tempo com as usinas nucleares. Melhor fariam os especialistas e todos os outros chamados a dar opiniões sobre a energia atômica se colocassem claramente o problema — e ajudassem o público a entender que, apesar de todos os perigos, talvez ainda não haja nenhuma alternativa a não ser o aprimoramento da segurança em instalações, a adoção de medidas concretas de redução de danos em face de acidentes e a transparência das informações quando ocorre alguma emergência.

Fechando o caso: A opinião do Blog sobre a Operação Pelada

Dez dias se passaram desde que o Blog do Pannunzio e a Rede Bandeirantes denunciaram as atrocidades perpetradas por uma equipe de delegados-corregedores contra uma escrivã acusada de concussão. Até agora, todo o material jornalístico publicado nesta página eletrônica foi orientado pela objetividade. Apesar da gravidade da denúncia, tentei ao máximo não permitir a contaminação dos conteúdos pela minha própria indignação. Agora chegou o momento de expressar o que pensamos.

As atrocidades contidas no video gravado pela Corregedoria chocaram o País, provocaram comoção e produziram uma série de repercussões políticas e institucionais. No ambiente do Blog, despertaram uma discussão saudável entre leitores horrorizados com os múltiplos desrespeitos evidenciados pelas cenas. A discussão se materializou na forma de centenas de comentários, em sua maioria serenos e bem embasados. Quero dar os parabéns aos leitores pela lucidez na abordagem madura do problema e agradecê-los pela maneira correta com que divergiram, somaram, acrescentaram elementos de análise ao conteúdo do Blog.

No universo maior, naquele que se costuma chamar de “vida real”, os post que desvelaram o caso provocaram um eco saneador. Quatro delegados foram afastados de suas funções na Corregedoria. A própria Corregedora-Geral foi transferida para outro posto depois de cometer um erro fatal: apoiar a truculência de seus sobordinados.

Sobre a queda de Maria Inês Trefiglio Valente, um parágrafo à parte, que talvez venha a causar algum espanto entre os leitores. Fiquei compadecido com o que lhe aconteceu, embora eu tenha a convicção de que contribuí ativamente para que isso acontecesse. Goste-se ou não de seus métodos, é preciso reconhecer que a delegada realizou um grande trabalho à frente da Corregedoria, onde atuou com firmeza para extirpar da Polícia Civil o cancer da corrupção, que já fizera metástases e ameaçava tomar todo o organismo. Não por acaso, Maria Inês amealhou inimigos viscerais e soube resistir a  eles. Caiu vítima da soberba institucional da qual se investiu a Corregedoria.

Para os futuros chefes da polícia da polícia paulista, fica a lição de que não se pode pretender justicar o mal como uma necessidade para a imposição do bem. Numa democracia como a nossa, o respeito à lei é um imperativo inalienável. E a sociedade grita quando percebe que está sendo ameaçada.

Nesse caso, a ameaça era ainda mais grave. Os abusos denunciados certamente iriam formar novos padrões de comportamento abusivo. A pergunta que os policiais que foram alvo de ações dessa natureza se fazem é: se quem tem por dever de ofício coibir o desrespeito pode agir assim, por que todos os demais policiais que integram a corporação teriam que se comportar de maneira distinta ?

A partir de agora é possível antecipar que nunca mais a Corregedoria, ou a polícia como um todo, irá submeter alguém a tamanha humilhação. Se isso de fato acontecer, terá sido uma grande mudança. Nunca mais se verão cenas como a da escrivã sendo despida na marra por delegados prepotentes, em completa dessitonia com o que está prescrito no Artigo 249 do Código de Processo Penal. E, caso isso venha novamente a acontecer, os chefes dos tiranos não estarão tão à vontade para defender o mau comportamento.

Quero ressaltar que ainda há muito o que investigar. Mas essa é uma tarefa que deve ser compartilhada por todos os agentes que atuam em defesa da manuteção dos direitos e na fiscalização do Estado. As instituições têm que cumprir sua parte. Cabe ao Ministério Público explicar o parecer esdrúxulo do promotor de justiça que pediu o arquivamento do caso. A decisão do juiz que acatou esse parecer também precisa ser analisada pelo Conselho Nacional de Justiça. As dezenas de denúncias de procedimentos arbitrários que se seguiram à revelação das sevícias contra a escrivã igualmente precisam ser consideradas, investigadas e punidas. É necessário puxar o fio do novelo desatado pelo Blog e pela Band, tarefa que é, por definição, uma construção coletiva.

Ao Estado, por delegação constitucional, cabe o exercício da violência legítima. Quando não encontra limites, esse mesmo Estado se transforma em uma ameaça permanente contra os cidadãos que lhe delegaram tanto poder. Daí a importância de abrir espaço para o desvelar de situações aviltantes, vexatórias e humilhantes como o que se viu nas páginas deste Blog.

As múltiplas repercussões que a denúncia gerou reafirmam a percepção de que a cidadania ganhou muito com o advento da internet. Não é exagero afirmar que, aliada ao bom exercício do jornalismo nos veículos da imprensa formal, a internet se transformou num novo locus para a realização da cidadania.

Fábio Pannunzio, editor do Blog do Pannunzio.

Saudade de Dona Marisa, que faz muita falta em Brasília

Dolley Madison: Primeira-dama antes de ser mulher de um Presidente

Desde que a saudosa Ruth Cardoso transferiu seu domicílio do Palácio da Alvorada para o bairro de Higienópolis, em São Paulo, o Brasil não tem uma Primeira-Dama à altura do status que essa designação inspira. A imagem atuante da esposa de Fernando Henrtique Cardoso contrasta de maneira cabal com o acanhamento e a inexpressividade de Marisa Letícia Lula da Silva, que passou oito anos no mesmo endereço de Brasília sem se deixar notar minimamente — e quase sem deixar vestígios.

Ruth Cardoso ajudou o marido a construir o núcleo estrutural dos programas sociais que viriam a se transformar no embrião do Fome Zero e seus sucedâneos. Sempre deixou claro que não gostava do rótulo de Primeira-dama. Muitas vezes, a condição de esposa de um presidente sedutor causou-lhe embaraços na vida pessoal. A despeito disso, os efeitos de sua passagem pelo núcleo de Poder em Brasília geraram consequências que todo o País reconhece.

Apesar de não gostar do rótulo, Ruth Cardoso talvez tenha sido a Primeira-dama brasileira que mais fez jus a ele.  Reconhecida como primeira Primeira-dama da história, Dolley Madison, filha de uma família agricultores do interior dos Estados Unidos, ganhou o título antes que seu segundo marido, James Madison, fosse eleito presidente dos EUA  em 1809. Ela era a anfitriã da Casa Branca durante o governo do viúvo Thomas Jefferson. Além de organizar festas e recepções, Dolley teve um papel político proeminente na Washington do Século XIX.

Dona Marisa Letícia, ao contrário de Ruth Cardoso, sempre gostou da condição de Primeira-dama. Mas jamais passou da fruição à ação. Nos primeiros anos do governo Lula, suspeitava-se de maneira jocosa que fosse muda. Não era. Mas sua voz foi ouvida pouquíssimas vezes fora do círculo íntimo dos frequentadores da Ala Residencial do Alvorada.

Marisa Letícia deixou, como marca indelével, apenas a imagem de um canteiro que reproduzia a estrela-símbolo do Partido dos Trabalhadores no jardim interno do Palácio — talvez motivada por lembranças de sua efêmera militância nos anos 80, quando ela bordou e costurou uma bandeira do PT para que o marido sindicalista conduzisse sua primeira passeata em direção à Presidência da República, onde chegaria anos depois. O canteiro foi destruído quando uma foto do Jardim de Marisa veio a público.

Críticos da estóica discrição de Dona Marisa dizem que sua maior obra foi seu próprio lay-out. É verdade que ela foi se transmutando fisicamente em uma espécie de clone brejeiro de Marta Suplicy — a ponto de, em eventos oficiais, sua presença ser confundida com a da então ministra do Turismo, comensal habitual da família Lula da Silva na cozinha (metaforicamente falando) do Palácio da Alvorada.

Com o advento do governo Dilma, por razões óbvias, o Brasil continua sem Primeira-dama. Lá se vão mais de oito anos assim, o que, para todos os efeitos, demonstra a inutilidade desse despiciendo formalismo institucional em torno do cônjuge do primeiro-mandatário . Também não temos um Primeiro-cavalheiro, o que é bom (pelo menos para nós, que pagamos as contas).  Parece bom também para a nossa Presidente, que está bem à vontade em sua condição de solteira. Com isso, desmonta o sofisma e prova que nem sempre é necessário haver um grande homem por trás de toda grande mulher.

Nem de um grande homem, como Lula.

Hora de depor as armas

Dois anos atrás tive o privilégio de ser escalado pela Band para cobrir as eleições presidenciais norte-americanas. Foi uma experiência incrível. O momento mais surpreendente foi aquele em que o republicano John McCain, adversário de Obama, reconheceu a vitória do candidato democrata e declarou que, a partir dali, Obama seria seu presidente.

O acirramento dos ânimos durante a campanha do segundo turno no Brasil torna difícil esperar das forças envolvidas uma atitude magnânima como aquela. Mas a hora é de depor as armas e torcer para que Dilma Rousseff faça um bom governo. Se ela errar, perdemos todos.

Desarmar os espíritos não significa capitular diante do vitorioso. Os republicanos dos Estados Unidos jamais arrefeceram as críticas e nunca deram mole para Obama. Agora mesmo estão impondo ao presidente do EUA uma derrota preocupante no parlamento. Antes, fizeram o que era possível para dificultar a criação de um seguro de saúde público, uma das pedras basilares da campanha democrata.

Vai ser positivo para o País se a oposição, exercendo seu papel de consciência crítica do Poder, conseguir distinguir o que é essencial para o Brasil, colaborando para mudar a nossa ainda drástica realidade, daquilo que é acessório, do que faz bem apenas para a saúde eleitoral dos governantes.

Talvez assim a minoria parlamentar consiga também consolidar melhor uma plataforma eleitoral para o pleito de 2014. Como se viu, apesar de surrados e gastos, temas como a privatização pegaram os tucanos de calças curtas, embora eles tenham tido quatro longos anos para trabalhar um estratégia com vista a anular os efeitos do proselitismo e os derivados do uso da máquina.

Até para que, no próximo pleito, o PSDB não tenha que exibir a imagem de Dilma junto de Aécio Neves na propaganda eleitoral para provar que ambos, embora inimigos, são amigos.

Primeiras entrevistas de Dilma: só blá-blá-blá

As duas primeiras entrevistas de Dilma Rousseff não passaram de manifestações explícitas de babação de ovo. Com um país cindido ao meio, ao final de uma campanha eleitoral fratricida, Dilma sequer foi instada a falar sobre o que realmente importa.

Na primeira delas, Ana Paula Padrão parecia deslumbrada demais com o fato de DIlma ser a primeira mulher a ocupar a Presidência da República. A ótima Adriana Araújo mal conseguiu entabular perguntas, o que é uma pena. Padrão ainda se esforçou nos temas econômicos, mas dali também não saiu nada. Chama a atenção a falta de profundidade em relação ao ajuste fiscal e ao gerenciamento do câmbio. Dilma saiu do set montado no Hotel Imperial sem ser molestada.

Logo depois de aparecer na Record — primazia conquistada graças a um declarado engajamento da rede do Bispo Edir Macedo na campanha eleitoral — Dilma repetiu Lula em 2002 e foi se sentar ao lado de William Bonner, no estúdio da Globo de Brasília. O privilégio, que o apresentador chamou de “deferência”, na verdade foi produto de uma negociação que excluiu todas as demais emissoras para proteger a reserva de mercado com a qual o governo — os governos — sempre bridou a maior rede de TV do País.

E para que tanto esforço, no que concerne à “exclusividade” concedida à Rede Globo ? Para nada. A entrevista fez várias remissões à biografia da recém-eleita. Não fosse uma última pergunta, sobre o regime cambial, e nada teria sido dito sobre o Brasil que vem aí. Nem de longe os entrevistadores ousaram perscrutar o que virá a ser o futuro governo Dilma Rousseff.

Para quem está interessado em saber algo mais sobre o que vai pela cabeça da “Presidenta” resta a entrevisa desta noite ao Jornal da Band. Não será a primeira, nem a segunda, mas com certeza terá menos babação de ovo e blá-blá-blá.

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