CPI avança sobre Perillo e Agnelo, mas poupa Delta
ANDREZA MATAIS,
ANDREZA MATAIS,
O governo declarou ontem a Delta Construção inidônea, o que ameaça mais de R$ 1 bilhão em recursos que a empresa ainda tem a receber de contratos com órgãos públicos federais.
O decreto de inidoneidade será publicado hoje e impede que a Delta seja contratada por órgãos públicos em todo o país. A companhia ainda pode entrar com recursos administrativo e judicial.
A empreiteira, campeã em recebimento de recursos do Executivo federal desde 2007, disse ontem que só irá se pronunciar ao tomar conhecimento integral da decisão.
Segundo o ministro da CGU (Controladoria-Geral da União), Jorge Hage, a Delta violou princípio “da moralidade administrativa ao conceder vantagens injustificadas (propinas) a servidores do Dnit no Ceará”.
O governo analisará os contratos já existentes. Aqueles que estão próximos do fim podem continuar sendo tocados pela empresa.
Nos Estados, novos contratos também são vetados, mas a lei permite que negócios antigos sejam mantidos caso o governante avalie que a troca de empresa causará maior prejuízo aos cofres públicos.
O principal cliente da Delta no governo federal é o Dnit, responsável por obras rodoviárias federais. Os 99 contratos ativos têm valor de R$ 2,5 bilhões, sendo que R$ 1,4 bilhão já foi pago.
Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Delta é proibida de contratar novas obras – 13/06/2012.
Se por um lado a Delta Construções deixa de pagar seus ex-funcionários, a empresa não tem do que reclamar no que diz respeito aos pagamentos do governo federal. Só este ano a construtora embolsou quase R$ 240 milhões, sendo que no mês de maio, quando sofreu a quebra de sigilo bancário em todo o país, o total recebido foi de R$ 55,2 milhões, sendo que a maior parte veio dos cofres do Ministério dos Transportes. Em junho, apenas nos dois primeiros dias, os repasses já haviam chegado a R$ 8 milhões.
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No Rio de Janeiro, cerca de 800 ex-funcionários foram demitidos em maio das obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí. Eles reclamam que até agora não receberam o pagamento relativo à rescisão e que sequer podem dar entrada no FGTS ou no seguro-desemprego. Isso porque o consórcio não deu baixa na carteira de trabalho de nenhum deles e a documentação encontra-se toda bloqueada.
Por ora, um grupo de ex-funcionários do consórcio vem se mobilizando nas redes sociais e estão recolhendo documentos para dar entrada na Justiça na tentativa de resolver a situação. Contam apenas com a ajuda do sindicato, que tenta negociar uma solução para o impasse que, além da Delta, envolve a Petrobras.
Recentemente a empresa enviou nota à imprensa confirmando que possui muitos “ativos patrimoniais a receber”, e que obteve grande parte desses pagamentos em restos a pagar. Conforme números divulgados pelo site Contas Abertas, foram quase R$ 229 milhões desembolsados pelo governo federal para quitar despesas contraídas em anos anteriores com a Delta, o que representa 95,8% do total recebido em 2012.
Na última segunda-feira a construtora entrou com pedido de recuperação judicial, a antiga concordata, medida tomada para evitar a falência e apresentar formas de quitação das dívidas. Caso a decisão da Justiça seja favorável, suspenderá, por seis meses, todas as execuções judiciais contra o grupo. O pedido judicial foi feito após a saída da holding J&F, que há um mês assumira a gestão da empresa.
Enquanto a União não bloqueia os pagamentos à Delta, começam a surgir em algumas instituições públicas dúvidas na hora de honrar ou não os contratos com a empresa. O governo do Amazonas, que tem quatro contratos com a Delta para a locação de 518 viaturas policiais de diferentes modelos no valor de R$ 143,8 milhões, não fez pagamento algum até o momento, embora já existam nove empenhos que somam R$ 32,9 milhões.
Beba na fonte: Delta não honra compromissos mas continua recebendo da União – O Globo.
Pré-candidato à reeleição, o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PMDB) autorizou e publicou, no Diário Oficial do dia 28 de maio, um aditivo de R$ 16,6 milhões em contrato com a Delta Construções. A empreiteira é alvo da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) no Congresso que investiga as atividades do contraventor Carlinhos Cachoeira. Paes, no entanto, por meio da Secretaria municipal de Obras, não divulgou o nome da Delta e nem os motivos pelos quais os recursos seriam destinados.
No Diário Oficial, só é possível saber o número do contrato (06/370.909/2010). A autorização do aditivo dado à Delta foi despachada pelo secretário municipal de Obras, Alexandre Pinto da Silva. Questionada pelo GLOBO, a prefeitura informou que o repasse dos recursos será para a conclusão do Parque de Madureira, orçado inicialmente em R$ 66,8 milhões, prevista para o próximo mês.
Segundo a prefeitura, o aditivo foi autorizado porque a Delta precisou se adequar a questões ambientais. Além disso, algumas áreas do projeto foram redimensionadas, como a Praça do Samba, o complexo de skate e a construção de uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), entre outras ações. O Parque de Madureira, na Zona Norte do Rio, será uma área de lazer da cidade e terá o tamanho de doze campos de futebol.
Em relação à ausência do nome da Delta no Diário Oficial, a prefeitura informou nesta terça-feira em nota:
“Sobre a publicação da autorização do aditivo de quantidades no Diário Oficial do município, a Secretaria Municipal de Obras informa que é um ato administrativo. Sendo assim, só deve ser informado o número do contrato. O aditivo segue em análise na Procuradoria do Município e o termo ainda não foi celebrado. A formalização deste aditivo – caso aceito pela Procuradoria Geral do Município – é feita em forma de extrato contratual – e este é regido pela Lei 8666, com obrigação de publicação do nome das partes envolvidas, neste caso a prefeitura e a construtora. A secretaria ressalta que este ato ainda não foi publicado”.
O GLOBO, porém, constatatou que a prefeitura, em outros casos, como a contratação de uma empresa pelo Instituto Pereira Passos, cinco dias antes da divulgação do aditivo da Delta, informou no Diário Oficial o nome da firma, os valores do termo aditivo e o tipo de contrato de prestação de serviço realizado para o município.
Beba na fonte: Paes autoriza aditivo para Delta sem divulgar nome no DO – O Globo.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) não vai assinar contratos com a Delta Construções até que a Controladoria Geral da União (CGU) conclua o processo de avaliação da idoneidade da empresa, informou nesta terça-feira o ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos.
No último dia 17 foi publicada no Diário Oficial a homologação de edital da superintendência de Mato Grosso do Sul do Dnit, no valor de R$ 30,9 milhões, vencido pela Delta. Mas, segundo Passos, não há assinatura de novos contratos da Delta desde 24 de abril.
— Ganhar licitação não significa ganhar contrato. Estamos aguardando o posicionamento da CGU em relação à empresa — disse.
Passos afirmou que a possível recuperação judicial da empresa não preocupa o ministério, uma vez que 60% dos contratos da Delta com o Dnit vencem até o fim deste ano.
— Temos todas as condições de adotar o plano B, o plano C, por exemplo, contratando um segundo colocado nos certames licitatórios.
No Rio, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) autorizou, no Diário Oficial de 28 de maio, aditivo de R$ 16,6 milhões em contrato com a Delta. Não foram divulgados o nome da Delta, nem os motivos pelos quais os recursos seriam destinados. No DO só é possível saber o número do contrato (06/370.909/2010). A autorização do aditivo foi despachada pelo secretário municipal de Obras, Alexandre Pinto da Silva. Questionada pelo GLOBO, a prefeitura informou que o repasse dos recursos será para a conclusão do Parque de Madureira, orçado inicialmente em R$ 66,8 milhões, prevista. Segundo a prefeitura, o aditivo foi autorizado porque a Delta precisou se adequar a questões ambientais.
Beba na fonte: Dnit resolve barrar novos contratos com a Delta Construções – O Globo.
Mariângela Galluc
Em sua primeira decisão individual sobre um tema polêmico, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), rejeitou na noite desta segunda-feira, 4, um pedido da Delta Construções para que fosse suspensa a quebra nacional dos sigilos bancário, fiscal e telefônico da empresa. A quebra dos sigilos havia sido decretada pela CPI do Cachoeira.
O despacho de Rosa Weber, negando uma liminar à Delta, é um péssima notícia para a empresa, que nesta segunda protocolou um pedido de recuperação judicial. A íntegra da decisão da ministra, que tomou posse no Supremo em dezembro do ano passado, não foi divulgada até o fechamento desta edição. Mas no sistema de acompanhamento processual do STF foi incluída a informação de que a liminar foi indeferida.
Na ação protocolada na semana passada no STF, a Delta argumentou que a decisão da CPI do Cachoeira não foi devidamente fundamentada. Segundo a defesa, a CPI investiga fatos relacionados à atuação da Delta na região Centro Oeste. Por esse motivo, de acordo com os advogados, a quebra de sigilo não deveria atingir toda a empresa, que atua em mais de 20 Estados. A defesa também alegou que a quebra de sigilos envolveu um período muito longo, de janeiro de 2002 a março deste ano.
Beba na fonte: STF confirma quebra nacional de sigilos bancário, fiscal e telefônico da Delta – politica – politica – Estadão.
CATIA SEABRA
Em uma tentativa de evitar sua falência, a construtora Delta -um dos principais alvos da CPI do Cachoeira- apresentou ontem à Justiça do Rio de Janeiro um pedido de recuperação judicial.
Com isso, a empreiteira, maior recebedora de recursos federais desde 2007 e a sexta maior construtora do país, reconhece oficialmente sua debilidade financeira.
Na recuperação judicial, a execução de dívidas fica suspensa por 60 dias. Até lá, a Delta terá que apresentar à Justiça um plano para pagamento a seus credores. Para dar continuidade às obras que toca, a construtora deverá fazer compras à vista.
Se reprovar a proposta -possibilidade considerada remota-, o juiz que receber o pedido decretará a falência da empresa. Se aprovar, o plano é submetido ainda a uma assembleia de credores.
‘BULLYING’
Em nota, a empresa disse que, apesar de seus ativos serem superiores às suas dívidas, a suspeita de envolvimento da Delta no esquema de Carlinhos Cachoeira fez com que ela sofresse “uma espécie de bullying empresarial” e “administrações públicas” pararam de “honrar os pagamentos” à construtora. “A situação financeira da Delta tornou-se insustentável.”
Desde que as investigações sobre Cachoeira indicaram que ele agia como um lobista da empresa -o que a empreiteira nega-, a Delta já saiu de grandes obras, como um complexo petroquímico e uma refinaria da Petrobras e a reforma do estádio do Maracanã, todas no Rio.
À Folha, em abril, o sócio majoritário Fernando Cavendish já afirmara que a Delta iria “quebrar”. “O cliente [governo], que é um cliente político, abre sindicâncias para mostrar isenção. Suspende pagamentos. Cria-se um clima péssimo na empresa. Os bancos vão suspender nossa linha de crédito”, completou ele.
A Folha apurou que, no mês passado, a Delta teve gastos de aproximadamente R$ 200 milhões para realização de suas obras. Mas entraram em caixa R$ 150 milhões.
A crise agravou-se após o governo admitir a possibilidade de declará-la inidônea, o que impediria contratos futuros com a União.
A situação piorou na sexta, quando a holding J&F anunciou a decisão de desistir da compra da construtora. Vinte dias após o grupo assumir a gestão da empreiteira, o contrato foi rescindido.
A quebra de sigilo da Delta pela CPI pesou para a decisão. Os bancos suspenderam o crédito da construtora.
A Delta tem R$ 1,1 bilhão a receber do governo, além de R$ 300 milhões em equipamentos. Segundo a CGU (Controladoria-Geral da União), os contratos federais não devem ser afetados pelo pedido de recuperação judicial.
Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Delta recorre à Justiça para evitar falência – 05/06/2012.
Alfredo Junqueira
Principal empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e protagonista do terremoto político provocado pela Operação Monte Carlo da Polícia Federal, a Delta Construções também faturou alto em contratos diretos com 18 administrações estaduais. Levantamento feito pelo Estado nos bancos de dados dos governos identificou pagamentos que somam R$ 718,24 milhões no ano passado.
O total arrecadado pela construtora nos Estados equivale a 83,3% dos R$ 862,43 milhões que a empresa faturou em obras e serviços prestados ao governo federal no mesmo período. Ou seja, somente em 2011 a Delta Construções recebeu R$ 1,58 bilhão em recursos públicos federais e estaduais.
A capilaridade da empresa, que está presente em quase todo o País, explica a reduzida disposição inicial da CPI instaurada no Congresso Nacional de investigar as atividades da empresa para além da Região Centro-Oeste – onde o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, se estabeleceu como uma espécie de sócio oculto da construtora. Na terça-feira, 22, no entanto, a comissão anunciou que pretende focar todos os negócios.
A revelação de que Cláudio Abreu e Heraldo Puccini Neto, diretores da empresa indiciados pela Operação Saint-Michel, do Ministério Público do Distrito Federal, tinham procuração para movimentar contas nacionais da construtora deve forçar a CPI a ampliar suas investigações. E os parlamentares terão farto material de análise nas administrações estaduais. Além de obras, reparos e manutenções, os tesouros estaduais também contrataram a empresa, que pertencia a Fernando Cavendish, para prestação de serviços de limpeza (R$ 92,45 milhões com o Distrito Federal) e locação de veículos para a área de segurança pública (R$ 16,54 milhões com Mato Grosso), por exemplo.
O maior faturamento da Delta nos Estados ocorreu no Rio de Janeiro, sede da matriz da empresa. Só em 2011, a empreiteira recebeu R$ 302,8 milhões da administração fluminense – a maior parte veio do Departamento de Estradas de Rodagem local (DER-RJ): R$ 98,7 milhões.
Amigo íntimo de Cavendish, o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) tornou-se um dos potenciais alvos da CPI depois que o ex-governador e deputado federal Anthony Garotinho (PR-RJ) publicou em seu blog fotos e vídeos de festas, shows e jantares com o peemedebista, o empresário e suas respectivas mulheres na França e em Mônaco.
Nos cinco anos e cinco meses de gestão de Cabral, Cavendish faturou R$ 1,49 bilhão no Rio. A relação de amizade colocou Cabral na berlinda e pode levá-lo a prestar esclarecimentos à CPI, apesar das manobras de integrantes da comissão para blindar os governadores.
Terra natal. Depois do Rio, o tesouro estadual que mais pagou à Delta foi o de Pernambuco, Estado de origem da empreiteira, fundada em 1961 por Inaldo Soares – pai de Cavendish. No ano passado, o governador Eduardo Campos (PSB) assinou pagamentos à construtora que totalizaram R$ 105 milhões. O Distrito Federal, de Agnelo Queiroz (PT), outro cotado para depor na CPI por causa das relações de ex-assessores com Cachoeira, aparece em terceiro na lista, com R$ 92,8 milhões. Logo após, com R$ 51,9 milhões, vem Goiás, do tucano Marconi Perillo – governador em situação delicada por causa de sua relação pessoal com o contraventor.
Os contratos em vigor podem fazer com que os valores pagos à Delta por algumas administrações estaduais se multipliquem nos próximos anos.
Apesar de constar com apenas R$ 3,16 milhões em desembolsos no ano passado, o governo do Amazonas, administrado por Omar Aziz (PSD), por exemplo, assinou quatro contratos no valor total de R$ 143,8 milhões no último trimestre de 2011. O governo está auditando os processos e admite rescindi-los.
O mesmo ocorre no Espírito Santo, do governador Renato Casagrande (PSB), que pagou R$ 3,8 milhões à empresa no ano passado, mas que tem ainda outros contratos, que totalizam R$ 90 milhões com a construtora.
Gravações feitas pela PF na Operação Monte Carlo revelaram que Cachoeira e a Delta cobiçavam entrar em Estados como Santa Catarina e Paraná, cujos portais de transparência das administrações estaduais informam não terem feito nenhum pagamento à construtora no ano passado. A Região Sul ainda era um local inexplorado pelo esquema, pois no Rio Grande do Sul também não há registro de contratos com a empresa. As assessorias do Amapá, da Bahia, de Minas Gerais, da Paraíba e de Rondônia também afirmaram que não fizeram pagamentos à Delta.
Beba na fonte: Novo alvo da CPI, Delta nacional levou R$ 718,2 mi com negócios em 18 Estados – politica – politica – Estadão.
Eugênia Lopes
O PT e o PMDB estão em pé de guerra depois de o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), ter defendido a quebra do sigilo bancário da Delta Construções em nível nacional e de seu principal acionista, Fernando Cavendish.
Diante da crise, Cunha optou nesta quarta-feira, 23, pela cautela. Mas o deputado confidenciou a correligionários que fez uma reavaliação da blindagem da empreiteira e que, diante das evidências, não tem como evitar que as investigações recaiam sobre a Delta nacional e seu proprietário.
A decisão irritou o PMDB, em especial a ala ligada ao governador do Rio, Sérgio Cabral. Ele é amigo de Cavendish, com quem viajou para o exterior. Os peemedebistas alegam que a quebra de sigilo da Delta é uma reivindicação da oposição para tirar o foco do governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, que estaria envolvido com o esquema do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.
Com a provável aprovação da quebra dos sigilos da Delta, os peemedebistas estão certos de que a oposição terá munição para pedir a convocação de Cabral.
Em represália, o PMDB passou nesta quarta a trabalhar com a ideia de não se aliar ao PT para convocar Perillo. Dizem que é mais fácil, agora, não aprovar a convocação de nenhum dos governadores alvo de denúncias.
‘Não é nosso’. Por ora, a cúpula do PMDB tenta manter postura de distanciamento. A alegação é que Cabral nunca foi “nosso” – ou seja, do PMDB – e não haveria motivos para o partido se empenhar na sua defesa. O líder da sigla na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), avisou que não pretende trocar seus titulares na CPI – Luiz Pittman (DF) e Íris Araújo (GO). Eles prometem votar a favor da quebra do sigilo.
Segundo integrantes da CPI, Cunha cogitou tornar a sessão de hoje em administrativa, para aprovar a quebra dos sigilos da Delta nacional e de Cavendish. O relator teria sido demovido da ideia pelo próprio PT. “Não se pode fazer uma reunião administrativa nas coxas”, disse o ex-líder Cândido Vaccarezza (PT-SP), ao garantir que apoia a decisão de pedir a quebra dos sigilos.
Para os aliados, Cunha mudou sua postura e resolveu contrariar a blindagem à Delta porque está preocupado com sua imagem. O petista sonha em ser candidato ao governo de Minas, em 2014, e não quer “queimar” sua biografia. Ele estaria passando por processo semelhante ao que ocorreu na CPI dos Correios, quando o presidente Delcídio Amaral (PT-MS) e o relator Osmar Serraglio (PMDB-PR) também mudaram de comportamento ao longo das investigações e denunciaram a existência do “mensalão” no governo Lula.
Cunha decidiu ampliar a apuração após documentos da Operação Saint-Michel – deflagrada pelo Ministério Público do Distrito Federal após a Monte Carlo – apontaram que os ex-diretores da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, e no Sudeste, Heraldo Puccini, tinham procuração para movimentar dinheiro em contas nacionais da empreiteira.
Beba na fonte: Fim de sigilo bancário da Delta põe PT e PMDB em crise – politica – politica – Estadão.
Janio de Freitas
O teste não tarda: será na terça-feira, próxima reunião da CPI do Cachoeira. É quando se constatará ou se desmentirá um pretenso acordo do relator Odair Cunha, para adiar até esta semana a votação das convocações da Delta Construções (por um dirigente) e de seu “ex-dono” Fernando Cavendish.
Ambos foram excluídos das convocações de quinta passada, segundo o pretenso acordo, para facilitar o entendimento de PT-PMDB-PSDB que livrou de inquirição os governadores Agnelo Queiroz (PT), Sérgio Cabral (PMDB) e Marconi Perillo (PSDB).
Se a proteção for só por motivos partidários, que no fundo comprovam a culpa do protegido, até que sairá barato para os responsáveis pela imoralidade da CPI. Será outra de tantas repetições de uma ordinarice apelidada de política de partido.
Mas é impossível esquecer a afirmação de Cavendish, em seus recentes tempos de arrogâncias, segundo a qual “eu [ele lá] ponho 30 milhões na mão de qualquer um deles e tenho o que eu quiser”. (Houve transcrições da frase com diferenças de forma, mas todas iguais no valor, na razão do seu uso e no resultado produzido.)
O provável é que os protegidos da CPI venham a responder nos tribunais, por força do inquérito policial, o que estão dispensados de responder no Congresso. Mas a Delta e Fernando Cavendish compõem uma das chaves para se esclarecer o “sistema Cachoeira”. E, com isso, são chave de grande parte dos mecanismos e variedades de corrupção que minam o Congresso, corroem ministérios e deterioram governos com a gatunagem multibilionária nos cofres do dinheiro público.
Já estão expostas muitas indicações da ligação central da Delta com Cachoeira e sua rede. Indicações que vão desde o tráfico de influência na administração pública, com a finalidade de negócios mais do que suspeitos, à proteção contra tentativas de investigar as conquistas de contratos, adicionais e lucros formidáveis da Delta. Terça-feira a CPI chegará a uma encruzilhada.
Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – O dia dos 30 milhões – 20/05/2012.
A versão do Planalto de que o governo não incentivou ou sequer avalizou a compra da construtora Delta pelo grupo J&F Holding — reforçada nesta sexta-feira em nota do Palácio do Planalto à imprensa — não convence nem aliados governistas no Congresso. A avaliação feita por deputados e senadores da base, nos bastidores, é que o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles não tomaria a frente de uma operação delicada como esta sem o aval do governo.
Um membro da J&F Holding, ouvido pelo GLOBO, confirmou que houve uma consulta ao governo antes da costura do acordo para a compra da Delta. Em entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo”, Batista Junior afirmou que o governo federal tem interesse que a companhia atravesse esse momento de turbulência e dê continuidade às obras estratégicas, sobretudo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Nesta sexta-feira, o Palácio do Planalto negou que o governo tenha interferido nas negociações para venda da construtora Delta, alvo da CPI do caso Cachoeira, para a J&S Holding. Em nota lida pelo porta-voz da Presidência, Thomas Traumann, o Planalto diz que “são falsas as ilações de que a referida operação teve aval deste governo”. Segundo a nota, o governo federal não interfere em operações privadas.
O governo disse ainda que está em curso na Controladoria Geral da União (CGU) o processo de decretação de inidoneidade da construtora Delta. Se a empresa for considerada inidônea, estará impedida de fazer contratos com a administração pública, conforme prevê a Lei de Licitações (8666/93).
Mais cedo, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) criticou a venda da construtora Delta para o frigorífico JBS, controlado por uma holding que tem como sócio o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES).
– Esse negócio é vigarice pura. A presidente Dilma Rousseff deve vetar isso e declarar inidônea a construtora, cujo ex-presidente já anunciou que vai para os Estados Unidos, comprar rede de postos de gasolina – defendeu.
Na opinião do senador, “esse negócio é suspeito e espero que Dilma bloqueie”. O senador destacou ainda, como motivo para que a negociação seja interrompida, o fato de o ex-presidente do Banco Central no governo Lula, Henrique Meirelles, ser um dos executivos da JBS.A venda da Delta está em fase de negociação com o grupo J&F Holding, da JBS. Na quarta-feira, a holding confirmou que assinou acordo para assumir a gestão da Delta Construções S.A., a partir da próxima semana. E informou que o controle da gestão da Delta não envolve pagamento aos seus antigos controladores.
Nesta sexta foi anunciado o nome do presidente da nova empresa criada a partir da venda da Delta, Humberto Junqueira Farias. Ele já atuou no setor de construção civil e foi presidente da Camargo Corrêa Cimentos. A empresa tem atualmente um presidente-tampão, o engenheiro Carlos Alberto Verdini, que assumiu o comando da companhia após o afastamento do ex-presidente e acionista Fernando Cavendish.
No final da tarde de hoje, a J&F Participações enviou nota de esclarecimento à imprensa negando participação do governo nas negociações que envolveram a venda da Delta Construções.Leia abaixo a íntegra da nota:
A J&F Participações esclarece que as negociações para a aquisição da Delta Construções são privadas e de caráter empresarial, sendo descabida qualquer insinuação de interferência do Governo Federal no negócio.A participação do BNDESPar na JBS não o torna acionista direta ou indiretamente de nenhuma empresa da holding, nem dá o direito de qualquer interferência política na J&F.A J&F esclarece ainda que José Batista Junior, um dos acionistas da holding, não ocupa um cargo executivo no grupo há sete anos e, portanto, não participa das decisões estratégicas da J&F. Consequentemente, não foi envolvido na negociação com a Delta, tampouco consultado. Suas declarações refletem única e exclusivamente uma opinião pessoal, que está em completo desacordo com os fatos ocorridos. Toda a negociação foi e está sendo conduzida diretamente entre Joesley Batista, presidente da holding J&F, e os acionistas da Delta. A J&F vê com naturalidade os questionamentos relacionados à venda da Delta, e se coloca à disposição dos órgãos competentes para quaisquer esclarecimentos.
via Governo nega interferência em negociação na venda da Delta – O Globo.
Presidente-tampão da Delta, o engenheiro Carlos Alberto Verdini afirmou nesta quarta-feira que a construtora, envolvida no escândalo Cachoeira, tem “direito adquirido” sobre os contratos já assinados com o poder público. Ocupando o lugar de Fernando Cavendish, que se retirou do comando para negociar a transição, Verdini diz que, caso a Delta seja considerada inidônea pelo Tribunal de Contas da União, seria “legítimo” ajuizar uma ação judicial. Ele disse, no entanto, não acreditar que isso acontecerá. Segundo ele, a empresa, que tem hoje R$ 4,5 bilhões em 200 contratos com União, estados e municípios, é credora de R$ 900 milhões nesses contratos. Verdini relutou em falar sobre a operação de venda da Delta para a J&F Holding.
O GLOBO: Como os governos federal, estadual e municipais, que são clientes da Delta, estão se comportando diante das denúncias que pesam sobre a empreiteira?
CARLOS ALBERTO VERDINI: Alguns deram uma parada para fazer auditagem e já estão começando a pagar. Não temos medo de auditagem. Todos os contratos são fiscalizados. O cliente é obrigado a fiscalizar. E as concorrências foram feitas. Uma questão é que, como fizeram um estardalhaço, cria um certo receio na conjuntura atual; quem está com a caneta, na hora de dar a canetada final, fica com medo.
A CGU pode declarar a empresa inidônea. Como o senhor vê isso?
VERDINI: Estamos fazendo um trabalho para levar à Casa Civil, mostrando nossa defesa. Uma coisa é: uma estrada depois de feita ficou com um buraco. É preciso saber se foi mal executado ou se foi erro de projeto: 99% são erro de projeto. Porque tudo é feito em cima de projeto básico. Agora é que o Dnit, em função da troca de diretoria, declarou que todos os projetos serão feitos em cima de projetos executivos. O projeto executivo leva um ano, no mínimo, para ser feito. E a responsabilidade é do gestor. Quando a gente entra na concorrência, executa o projeto que é oferecido ali.
O senhor teme que a CGU decida pela inidoneidade da Delta?
VERDINI: Essa hipótese não passa na minha cabeça. Primeiro, porque somos muito grandes. Você não pode tirar da Delta e dar a qualquer um. É direito adquirido. Primeiro, tem de gerar um momento para rescisão. Tem de fazer o encontro de contas. E depois vai ter de licitar. Esse processo é demorado. Tenho certeza de que, ao licitar, você vai contratar por um preço mais alto do que é praticado hoje. E as obras vão ficar paradas. Vai atrasar todos os cronogramas. Não é uma coisa fácil de ser executada. É direito adquirido da Delta. Nós ganhamos as licitações. Você vai ter de provar que estou errado para rescindir meu contrato. Eu posso ir para a Justiça e dizer: “eu não concordo”. E vai ficar uma discussão até chegar a um determinado fim, para então licitar aquela licitação específica.
via Delta Construções quer receber quase R$ 1 bilhão de governos – O Globo.
CATIA SEABRA, NATUZA NERY E DIMMI AMORA
A venda da construtora Delta para a J&F, holding do grupo JBS, está prevista para ser anunciada hoje.
Apesar da negociação avançada, a Folha apurou que governo federal está disposto a declarar a empreiteira Delta inidônea, o que esvaziaria ainda mais o atrativo comercial da construtora.
Um ex-diretor da Delta na região Centro-Oeste é apontado por investigações da Polícia Federal como participante do esquema do empresário Carlos Cachoeira.
A PF também indica que dinheiro da construtora foi colocado em empresas fantasmas de Cachoeira. A empreiteira nega envolvimento.
Segundo pessoas envolvidas na negociação, já está montada a arquitetura da venda da construtora. O ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles é um dos cotados para assumir o conselho de administração da empresa.
O governo, porém, não vê a operação de venda com bons olhos. Avalia que o JBS não tem expertise na área de construção e preferiria uma empreiteira no comando.
Pelo acerto, o valor total da operação só será fixado depois que os compradores entrarem na empreiteira para avaliar o patrimônio.
Há duas semanas, o governo iniciou um processo administrativo que pode fazer com que a empresa fique até cinco anos sem realizar contratos com órgãos federais.
A declaração de inidoneidade ameaça um ativo de R$ 1,1 bilhão que a Delta tem a receber somente nos contratos com o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), principal contratador da Delta.
São 99 contratos ainda ativos no órgão. Na prática, a maior parte desses negócios pode ser rompida antes do fim caso o governo considera a construtora inidônea.
A avaliação no mercado é a de que, além do risco do rompimento, esses contratos estariam “micados” devido à estratégia da empresa de ofertar, nas licitações, preço muito abaixo dos concorrentes.
A construtora já deixou o consórcio responsável pelo projeto da Transcarioca (corredor expresso de ônibus) e o da reforma do Maracanã.
As dificuldades de obter crédito junto a bancos para se financiar também foram decisivas para a venda.
Sócio majoritário da Delta, Fernando Cavendish admitiu em entrevista à Folha em abril o risco de a empresa ir à falência após a deflagração da Monte Carlo, que levou Carlos Cachoeira à prisão.
via Folha de S.Paulo – Poder – Venda da Delta para grupo JBS deve ser anunciada hoje – 09/05/2012.
BRENO COSTA, FERNANDO MELLO E LEANDRO COLON
Escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal sugerem que o grupo do empresário Carlinhos Cachoeira também manteve contato com o executivo que passou a dirigir a Delta Construções depois que vieram à tona as ligações da empresa com Cachoeira.
Carlos Alberto Verdini assumiu a presidência do conselho de administração da Delta há duas semanas, depois que o dono da empresa, Fernando Cavendish, se afastou junto com um de seus principais executivos, Carlos Duque Pacheco.
As investigações da PF indicam que Cachoeira atuou nos últimos anos como representante da Delta em vários Estados, ajudando a negociar contratos obtidos pela construtora.
No dia 12 de abril de 2011, o sargento da reserva da Aeronáutica Idalberto Araújo, o Dadá, disse ter proximidade com Verdini, numa conversa com o policial Marcello de Oliveira Lopes, o Marcelão.
Segundo a PF, Dadá é um araponga que tinha papel central no grupo de Cachoeira: ele atuava em benefício da Delta no Centro-Oeste e trocava telefonemas frequentes com o então diretor regional da empresa, Cláudio Abreu.
“Eu estou ligando pro Verdini, e o Verdini também é outro cara que fala a verdade. Eu não estou conseguindo falar com o Verdini. Verdini é a coroa lá do comercial, entendeu? Ele foi sargento da FAB, a gente criou uma amizadezinha com ele”, diz Dadá a Marcelão, que buscava ajuda para que a Delta contratasse sua empresa de publicidade.
“Ele está abaixo do Cláudio [Abreu], mas ele mora no Rio, conhece todo mundo, tem uma força. Mas tem menos força de que o Cláudio”, diz Dadá. Um dia antes desse diálogo, Dadá já havia contatado o advogado Gustavo Henrique Caputo Bastos, que atuava para a Delta, para saber onde estava Verdini.
“Sabe se o Verdini tá na área, cara?”, perguntou Dadá. Caputo diz que não sabia.
A Delta nega que Verdini tenha amizade com Dadá. Cavendish, o dono da empresa, tem procurado transferir para Cláudio Abreu a responsabilidade pelo envolvimento da Delta com Cachoeira.
Mas as gravações da PF sugerem que Cavendish e Pacheco sabiam da relação entre Abreu e Cachoeira.
No caso de Pacheco, as escutas revelam que ele teve encontros com Cachoeira, com a participação de outras pessoas. Numa dessas ocasiões, também esteve presente o diretor da Delta para a região Sul e São Paulo, Heraldo Puccini Neto.
No caso de Cavendish, há indícios de que o executivo tinha ciência da atuação de Cachoeira em favor da Delta. Um almoço entre ele e Cachoeira foi marcado em Brasília, mas Cachoeira não pôde ir.
via Folha de S.Paulo – Poder – Escutas sugerem contato com novo presidente da Delta – 06/05/2012.
CRISTINA GRILLO
As denúncias envolvendo a empreiteira Delta e suas ligações com políticos ganharam no Rio contornos de um reality show, um BBB das altas rodas.
O motivo: as imagens que o ex-governador e atual deputado federal Anthony Garotinho (PR) vem postando em seu blog. Nelas se acompanha o tour do governador Sérgio Cabral (PMDB), do seu amigo Fernando Cavendish (dono da Delta), de suas mulheres e de alguns secretários de Estado por Paris e Montecarlo.
Em um jantar na casa de um empresário carioca, na semana passada, o computador ficou ligado para que os convidados acompanhassem o blog. A diversão do grupo era identificar quem aparecia nas fotos e lembrar os nomes daqueles convidados para a farra que levou a Paris 150 empresários para o lançamento do “Guia Michelin Rio” e que tinham “escapado” -pelo menos até agora- de ter suas imagens divulgadas.
A grande pergunta era: quem vazou o material para Garotinho? Algumas imagens parecem ter sido gravadas pela primeira-dama; outras, por Jordana Kfuri, mulher de Cavendish morta num acidente aéreo.
Como num romance policial de Agatha Christie, todos são suspeitos. Se Hercule Poirot estivesse entre nós, com certeza investigaria quem teve acesso às imagens feitas por Jordana.
Um colunista social do passado escreveria: não se fala em outra coisa nos salões do high society carioca.
via Folha de S.Paulo – Opinião – O BBB da Delta – 06/05/2012.

Daniel Pereira, Otávio Cabral e Rodrigo Rangel
A CPI para investigar as relações do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlos Cachoeira, com políticos e empresas que têm contratos com a administração pública saiu do papel em alta velocidade. A gravidade dos fatos levantados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público — o pagamento de propina a autoridades, a troca de favores entre a máfia do jogo e parlamentares e a assinatura de contratos públicos azeitados à base de tráfico de influência — produziu um fato raríssimo: a instalação da CPI contou com o apoio de governistas e oposicionistas. O Congresso deu mostras de disposição para fiscalizar a aplicação dos recursos públicos, uma de suas mais nobres missões. Se nasceu sem dores, a CPI começou a caminhar com dificuldades. Aprovado na quarta-feira passada, o plano de trabalho da comissão apenas tangencia o epicentro das irregularidades apontadas pelos policiais federais e pelos procuradores. A CPI decidiu ouvir os coadjuvantes das malfeitorias, mas, por enquanto, vacila em chamar para depor deputados e governadores suspeitos de manter relações promíscuas com Cachoeira e a empreiteira Delta, um colosso da construção civil com obras contratadas por governos do PT, do PSDB e do PMDB.
A desenvoltura multipartidária da Delta explica o começo claudicante da CPI que nasceu com o potencial de fazer uma faxina pública como não se via desde que o escândalo do mensalão foi destrinchado, em 2005, com o indiciamento de cerca de uma centena de pessoas. O deputado petista Odair Cunha, relator da CPI, tentou limitar geograficamente as investigações sobre a Delta e suas obras no Centro-Oeste. O ex-diretor da empreiteira para aquela região, Cláudio Abreu, está preso. O plenário da comissão, no entanto, arrancou do relator a promessa de investigar a atuação da Delta em todo o território nacional. Está pronto para votação o requerimento de convocação do dono da Delta, Fernando Cavendish, e de diretores regionais da empresa.
“A base governista foi derrotada. Vamos investigar os aditivos nos contratos da Delta com o Dnit, principalmente aqueles assinados em períodos eleitorais”, avisa o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS). Quando isso será feito — e se realmente será feito, devido às ligações também multipartidárias de Cavendish — ainda não está definido. A comissão ouvirá neste mês os depoimentos de delegados e procuradores envolvidos na investigação, seguidos de Cachoeira e seus comparsas presos. O único político com depoimento marcado é o senador goiano Demóstenes Torres, o, por enquanto, mais notório membro do esquema de Cachoeira. O Senado abriu um processo por quebra de decoro contra ele, que pode comparecer à comissão já na condição de parlamentar cassado (leia a reportagem aqui). Ou seja: tem-se definida apenas a primeira fase da investigação, que tratará de temas e personagens cujos feitos e malfeitos são de conhecimento público. Nada além disso. Segundo o presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), a segunda fase aumentará a temperatura dos trabalhos. Nela, será travada a “grande batalha” pela convocação das autoridades de maior calibre. “O vazamento das informações impede a costura de acordões para abafar a investigação ou poupar autoridades”, diz Vital.
Além de Fernando Cavendish, os governadores Sérgio Cabral (PMDB-RJ), Marconi Perillo (PSDB-GO) e Agnelo Queiroz (PT-DF) e pelo menos cinco deputados federais ainda não foram convocados para prestar esclarecimentos. Sobre muitos deles há uma fartura de indícios de envolvimento com o esquema. Por enquanto, a CPI vai se concentrar no que já foi revelado. Mas não há garantia de que o universo da apuração fique restrito. O plano de trabalho de Odair Cunha deixa brechas para investir sobre qualquer tema: políticos, procuradores, empreiteiras e até a imprensa. Não está fechada, portanto, a porta aberta pelo PT para desqualificar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, defensor da condenação dos mensaleiros no Supremo Tribunal Federal, e a parte da imprensa que, segundo o ex-presidente Lula, ajudou a montar a “farsa do mensalão”. “Todas as pessoas que foram corrompidas ou cooptadas pela organização criminosa têm de ser investigadas. Não haverá blindagem nem proteção a quem quer que seja”, disse Odair.
Hoje, há pelo menos duas ofensivas em marcha para pôr cabresto na CPI. A presidente Dilma Rousseff não quer que a comissão seja usada com os fins estritamente políticos planejados pela falconaria petista. Ela tem dito que teme que a comissão domine a agenda política, paralise o Congresso e prejudique ações do governo. Além disso, afirma não ter receio de que as investigações atinjam seu governo e lembra que, se atingirem, não se furtará a demitir os envolvidos com culpa provada — aliás, como vem agindo desde o início do mandato, o que é um dos motivos de sua expressiva aprovação popular.
A Delta tem contratos com governos de todas as cores. Algumas dessas relações já foram reveladas, o que deixou na berlinda políticos de primeira grandeza do PT, PMDB, PSDB e DEM. O campo já era fértil para um acordo velado, que vinha sendo costurado às sombras. Mas a entrada de Sérgio Cabral no palco das investigações tornou as negociações para abafar o escândalo político mais explícitas. Há dez dias, o blog do deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), adversário político de Cabral, publica fotos e vídeos de viagens do governador, sua mulher e seus secretários mais próximos com Fernando Cavendish a Paris e Mônaco. Em hotéis e restaurantes de luxo, o grupo comemora aniversários, noivados, casamentos e conquistas políticas e comerciais. Cabral, considerado um estranho no ninho do PMDB, teve de procurar a cúpula do partido na semana passada para pedir socorro. Em conversas com o presidente do Senado, José Sarney, e com os líderes Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves, ele disse não estar preocupado com uma investigação policial, pois os vídeos não comprovam irregularidades. Mas deixou claro que teme o estrago político que uma exibição desse material, seguida de um depoimento à CPI, possa provocar. “Preciso da ajuda do partido. Se eu tiver de depor na CPI, não será bom para ninguém”, ponderou Cabral. A cúpula do PMDB aproveitou o pedido do governador para tentar negociar um armistício com o PT e o PSDB.
Nas conversas, já surgiu até uma manobra jurídica para empastelar as investigações. A tese que será levantada é a de que uma CPI do Congresso não tem poder legal para investigar governadores. Os foros para esse tipo de apuração seriam as assembleias legislativas, não por acaso controladas pelos governadores. É pouco provável que uma argumentação tão frágil prospere se a CPI tiver mesmo disposição de elucidar os fatos denunciados. Muito provavelmente, o fator de diminuição do escopo da CPI virá não da Justiça, mas da política. O senador José Sarney já recomendou ao PT que “controle os radicais”, argumentando que “ninguém tem a ganhar se essa CPI começar a sair do controle”. O recado tem endereço certo: a turma que vê na CPI uma chance única de desmoralizar o julgamento do mensalão. A primeira ofensiva desse grupo foi dada na sessão da semana passada, com a tentativa de convocação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, para depor na CPI. Sob o argumento de que ele deve explicar por que retardou a abertura de uma investigação contra Demóstenes Torres, os petistas querem colocá-lo no banco dos réus da CPI para tentar desmoralizá-lo. A imprensa é outro alvo que, na estratégia dos radicais, precisa sair chamuscada da CPI. O presidente do PT, Rui Falcão, deixou mais uma vez clara essa convicção na sexta-feira quando, em discurso feito em São Paulo, voltou a defender o projeto de regulamentação dos meios de comunicação, um eufemismo para a tentativa de controlar a imprensa idealizado pelo ex-ministro da Comunicação Social Franklin Martins. Para Falcão, “a mídia é um poder que está conjugado ao sistema bancário e financeiro” e “produz matérias e comentários não para polarizar o país, mas para atacar o PT e nossas lideranças”.
O cenário inicial da CPI do Cachoeira é muito semelhante ao da CPI dos Correios, instalada em 2005 a partir da gravação na qual Maurício Marinho, diretor da estatal, cobrava 3 000 reais de propina, o que deu origem à descoberta de novos fatos envolvendo dinheiro público e compra de apoios pelo governo. Aquela CPI nasceu com o intuito de blindar os aliados do governo e era controlada por parlamentares fiéis ao Palácio do Planalto. Exatamente como agora. Também tinha o mesmo prazo de atuação: 180 dias. Mas, logo no início dos trabalhos, depoimentos bombásticos, como o do deputado Roberto Jefferson e o do marqueteiro Duda Mendonça, incendiaram a comissão e provocaram uma indignação popular que impediu qualquer tipo de acordo. A atual comissão também tem fios desencapados e personagens que podem contar muita coisa. Cachoeira e Cavendish, por exemplo. Com uma matéria-prima mais modesta do que a produzida pelas operações da PF, a CPI dos Correios produziu a denúncia do mensalão, a cassação de José Dirceu e Roberto Jefferson e a renúncia de meia dúzia de políticos, além de tisnar a imagem imaculada de virgem ética do PT. A CPI do Cachoeira, com seu farto material, tem potencial ainda maior. Basta que não se torne refém de arranjos políticos.
Leia a íntegra no site de Veja
O ex-diretor da construtora Delta Cláudio Abreu foi preso ontem sob a suspeita de participar de um esquema de pagamento de propina para direcionar uma licitação para a empreiteira no governo Agnelo Queiroz (PT-DF).
Segundo as investigações, a Delta tinha interesse na prestação de serviços de bilhetagem do transporte público no Distrito Federal.
O plano era comprar equipamentos de uma empresa coreana, ou fazer parceria com ela, já que a Delta não tinha tecnologia nessa área.
Outro diretor da empresa que teve a prisão decretada, Heraldo Puccini, não havia sido localizado pela polícia até a conclusão desta edição.
A ação foi um desdobramento da Operação Monte Carlo, deflagrada pela Polícia Federal em 29 de fevereiro e que prendeu o empresário Carlinhos Cachoeira.
Em conversa gravada em junho do ano passado, Cachoeira fala com Claudio Abreu sobre a bilhetagem.
“É um negócio de sessenta paus por mês, e dá pra aumentar trinta por cento. Quer dizer, se a gente pegar um percentual do aumento na licitação é bom demais, então é bom você sentar com o cara e falar em nome da Delta porque aí pesa mais”, diz Cachoeira.
Abreu já foi afastado da Delta. O DF diz que o negócio não se concretizou.
A Operação Saint-Michel, executada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do DF, prendeu mais dois lobistas (o termo foi usado pela polícia), um vereador do PT de Anápolis (GO) e um ex-servidor do DF.
AFASTAMENTO
O empresário Fernando Cavendish anunciou ontem seu afastamento da administração da Delta, numa tentativa de preservar seus negócios com o setor público em meio às investigações sobre suas relações com Cachoeira.
A medida é parte da estratégia traçada por Cavendish para enfrentar sua provável convocação pela CPI instalada nesta semana para investigar as ligações de Cachoeira com o meio político.
Segundo interlocutores de Cavendish, ele acredita que ajudará a preservar os interesses da Delta se sair da linha de frente da empresa, o que permitiria que se apresentasse à CPI apenas como seu controlador, sem responsabilidade por suas decisões.
O empresário também estuda a possibilidade de reivindicar o direito de ficar calado na comissão para não correr o risco de produzir provas que o incriminem, se for convocado para depor.
Cavendish é o principal acionista da Delta, com 42% das ações da empresa, que foi fundada por seu pai há 51 anos. A companhia tem 195 obras em andamento no país, em contratos estimados entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões, e vinha encontrando dificuldade de conseguir crédito no mercado para dar continuidade a seu trabalho.
Em entrevista à Folha na semana passada, Cavendish disse que poderia “quebrar” por causa das acusações.
A empresa abandonou a reforma do Maracanã, obra em que era sócia da Odebrecht e da Andrade Gutierrez. A Petrobras negocia também, a pedido da própria empreiteira, a sua saída das obras do Complexo Petroquímico do Rio e da Refinaria Duque de Caxias.
via Folha de S.Paulo – Poder – Ex-diretor de empreiteira é preso, e presidente se afasta – 26/04/2012.
Mônica Bérgamo, da Folha de São Paulo
Acusado de abastecer empresas do esquema de Carlos Cachoeira, o empreiteiro Fernando Cavendish nega qualquer irregularidade. Ele concedeu ontem entrevista exclusiva à Folha.
Em uma conversa gravada, o senhor disse que, se colocar R$ 30 milhões na mão de político, ganha negócio. O senhor já pagou suborno?
Nesta conversa, eu debatia com sócios da Sygma, empresa [da área de petróleo e gás] que adquirimos por R$ 30 milhões. Eles não performavam. Eu os chamei para renegociar o preço. E me gravaram clandestinamente. Eu queria dizer: ‘Olha, R$ 30 milhões, se eu fosse fazer projetos políticos, doações de campanha…’ Ganho qualquer negócio. A expressão foi muito ruim. Ficou horrível, horrível. E agora vou encarar uma CPI da pior forma possível.
Já pediram propina ao senhor? E o senhor pagou?
Olha só, o que se pede são apoios políticos, para campanhas, que é uma coisa legitimada, oficializada e que várias empresas fazem.
Se apoio projetos, faço doações, não é que depois vá ganhar [licitações para obras]. Mas posso estar pelo menos bem representado, tenho a oportunidade de ter informação dos futuros investimentos, das prioridades políticas.
Por que megaempresas fazem doações a campanhas? Vão ter informação. Não é normal? Não é toma lá dá cá. Tem licitação.
A relação de empreiteiras e políticos no Brasil são historicamente promíscuas.
Toda relação entre seres humanos que buscam a intimidade do dia a dia, de trabalho, gera às vezes alguns desvios. Essa intimidade, essa promiscuidade, não são só as construtoras que fazem isso. Só que tem um problema: a gente mexe com dinheiro público. E aí não podemos errar, não podemos pecar.
O senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) é sócio oculto da Delta, como diz o Ministério Público?
Não. Nunca vi o Demóstenes. Ninguém é sócio da Delta. Põe isso na sua cabeça. Já inventaram dezenas de sócios para a Delta. [O ex-governador do Rio Anthony] Garotinho foi sócio da Delta, o [ex-prefeito do Rio] Cesar Maia foi sócio. Esquece isso. Não existe. É factóide.
A Delta teria abastecido empresas fantasmas de Cachoeira em Goiás e, através delas, pago propina.
A empresa tinha um diretor no Centro-Oeste, Claudio Abreu. Sou presidente do conselho, no Rio. Não sei o que está acontecendo em Goiás, no Nordeste, no Norte.
O Claudio conheceu o Carlos Augusto Ramos [Carlinhos Cachoeira]. Eu sei quem cada um tá conhecendo? O que me importa são os resultados, os números, que me enviam em relatórios semestrais. Eu não pouso em Goiânia há cinco anos.
Eu sabia por alto que ele conhecia [ Cachoeira]. Para mim, era um empresário, era um cara bem visto no Estado. Eu não conheço os caras do Rio, vou conhecer de Goiás?
Nesse período todo de escuta, não tem uma única conversa que dê um indício de que eu tinha um conhecimento dessa movimentação.
O Claudio, nessa amizade, extrapolou os limites da atuação dele na Delta.
Conheceu Cachoeira?
Tive um encontro casual no bar de um hotel, o Claudio estava lá e me apresentou, muito rápido.
O Claudio Abreu nunca informou que dava dinheiro para o esquema do Cachoeira?
Nunca. Ele era sócio de terceiros, ia comentar comigo? A gente abriu uma auditoria para investigar essa movimentação.
Foram R$ 39 milhões. Não deu para perceber?
A empresa rodou nesses dois anos, 2010 e 2011, R$ 5 bilhões. Tem 46 mil fornecedores. Esse dinheiro nesse universo, é imperceptível.
A Delta é acusada também de favorecimento no Distrito Federal. O senhor conhece o governador Agnelo Queiroz?
Nunca vi. Eu tenho um crédito lá de R$ 30 milhões para receber, no contrato do lixo. A gente lá só apanha. Se eu tivesse ajudado na campanha dele, precisava de Dadá [araponga do esquema Demóstenes], de fulaninho, de beltraninho, contando história lá embaixo?
E o governador de Goiás, Marconi Perilo?
Não conheço, nunca vi.
Por que a Delta contratou o ex-ministro José Dirceu como consultor?
Um diretor nosso conheceu um assessor do José Dirceu. E falou pra mim: ‘Quer conhecer o José Dirceu?’ Só que fizeram um contrato de R$ 20 mil. Até hoje não consegui entender. Mas o imbecil lá resolveu fazer isso. Tanto é que, quando soube, eu disse: ‘Pode parar essa porra!’ Eu estive com José Dirceu uma vez só. Ele falou sobre a Índia, outros países. E foram dizer que a Delta é o que é por causa dele. Isso é esdrúxulo.
Como a Delta conseguiu tanta obra no PAC?
Mas essa é uma sacanagem. Quando o PAC foi proposto, anunciaram R$ 250 bilhões de investimentos em quatro anos. Quando fizeram um levantamento aí em um site, houve a indicação de que a Delta estava liderando o PAC. A gente tinha faturado uns R$ 400 milhões em 2009. Mas isso era em investimentos dos ministérios. Virei líder do PAC.
Sabe quanto vão custar [as hidrelétricas de] Santo Antonio, Belo Monte, Jirau? Só Santo Antonio corresponde ao faturamento de dez anos da Delta. Como posso, com essa minha conta de retalho, de ‘trocentos’ contratinhos que, somados, dão R$ 800 milhões, liderar o PAC? Estou liderando p. nenhuma. Mas fica bonito, na hora de bater no PT, dizer que o líder do PAC está cheio de problemas. Esquece. Eu devo estar em décimo no ranking do PAC.
O senhor é amigo do governador do Rio, Sergio Cabral. E, no governo dele, ganhou R$ 1,4 bilhão em contratos.
Não é justo falarem isso, não é decente. Eu cresci muito mais no governo do Rio antes de ele assumir. Em 2001, 80% da carteira da Delta era do Estado do Rio.
Conheci Sergio Cabral há dez anos, por meio das nossas esposas. Eu admiro ele como governante, amigo, pai, filho, irmão. É um puta sujeito. No acidente de helicóptero em que morreram as pessoas que eu mais amo [sua mulher e filho, em 2011], eu estava com ele [Cavendish e Cabral iam a uma festa na Bahia]. Tá bom. Mas não comecei a estar com ele depois de ser governador. Nós eramos a maior empreiteira do Rio antes do governo Cabral, com Cesar Maia e Garotinho. Eu era chamado o rei do Rio. Hoje a maior é a Odebrecht.
A Delta cresceu no Rio?
Quando assumi a Delta, em 1995, levando a empresa de Recife, onde foi fundada, para o Rio, tínhamos 200 funcionários. O DNER era praticamente nosso único cliente. Nossas primeiras obras foram na prefeitura do Rio, na gestão do Cesar Maia.
Ele abriu o mercado. Não exigia qualificação técnica mais restritiva que exigisse empresas maiores. Para nós foi ótimo. A gente sabia trabalhar com custo baixo, produtividade e ter um preço muito competitivo. Só existe uma forma, pelo menos para a Delta, que era uma empresa nova, de ganhar as concorrências: disputando preço.
Isso foi dito pelo filho do Cesar Maia [Rodrigo Maia, do DEM]: “Graças à Delta, nós tivemos essa economia de orçamento”. Em todas as áreas em que atuamos, quem oferece preço baixo é a Delta.
Eu não sou mais querido por isso, não. Eu sou mais odiado. Esse nível de agressividade sempre foi na contramão da cultura do mercado.
Muitos se enganam, dizem que eu sou um cara muito articulado politicamente. Mentira! Eu sou o grande articulador, lobista profissional? Isso é uma mentira.
De que estados vêm seus maiores faturamentos?
Do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde fazemos obras de conjuntos habitacionais, urbanização. Fizemos também a ampliação da Marginal [Tietê].
O escândalo prejudica os negócios?
Vou quebrar.
Será?
Vou quebrar. Quando a mídia vem com essa intensidade, existe uma reação imediata de órgãos de controle. Agora virei leproso, né? Agora eu só tenho defeitos, eu sou bandido.
O cliente [governo], que é um cliente político, abre sindicâncias para mostrar isenção. Suspende pagamentos.
Cria-se um clima péssimo na empresa. Os bancos vão suspender toda a nossa linha de crédito. Aí vem a Receita Federal. Todos precisam mostrar que a empresa tem que ser fiscalizada em todos os níveis. Não tenho caixa. Se eu não receber antes de acabar meu dinheiro, eu quebrei.
Dyelle Menezes, Paulo Victor Chagas e Yuri Freitas, do site Contas Abertas
A empresa Delta Construções S/A, citada em diversas gravações da Operação Monte Castelo (caso Cachoeira), recebeu R$ 4 bilhões do governo federal desde 2001, em valores correntes. Naquele ano, a construtora recebeu R$ 41,4 milhões da União. Em 2011, o valor chegou a R$ 884,5 milhões. Se considerarmos, os contratos da instituição com a administração federal direta (excluídas as empresas estatais) desde 1996 os valores cresceram em 193 vezes.
O grande salto ocorreu com a criação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em 2007. De lá pra cá, a construtora de propriedade de Fernando Cavendish só não ocupou o primeiro lugar entre as empreiteiras do PAC em 2008, quando recebeu R$ 324,2 milhões, cerca de R$ 2,3 milhões a menos que a Construtora Queiroz Galvão. Em 2009, embolsou R$ 675 milhões, atingindo o valor recorde do ano passado, o maior desembolsado para uma empreiteira na história do PAC. Este ano, a construtora já recebeu R$ 156,9 milhões. (veja tabela)
Tomando em conta as empreiteiras do PAC, o principal “cliente” da Delta dentro do governo federal é o Ministério dos Transportes. Em 2011, por exemplo, dos R$ 884,5 milhões recebidos pela construtora, R$ 796,8 milhões foram pagos pela Pasta. No exercício anterior a relação não foi diferente. Do total de R$ 769,1 milhões embolsados, cerca de R$ 674,4 milhões foram dos Transportes.
Criada em 1961, a empresa conta com mais de 22 mil funcionários em todo o país e atua em segmentos diversificados como rodovias, saneamento, engenharia ambiental, energia e montagem industrial. De acordo com o portal da instituição, o grupo Delta possui quatro empresas: Delta Construção, Delta Energia, Delta Incorporação e Delta Montagem Industrial.
Ao longo dos últimos anos, a construtora atuou em empreendimentos importantes, como os que deram estrutura aos Jogos Panamericanos de 2007. A construção do Estádio Olímpico João Havelange e do Parque Aquático Maria Lenk, foram realizadas pela empresa em parceria com outras empreiteiras.
Além disso, a Delta foi responsável pela construção da nova pista do Aeroporto Internacional de Cabo Frio, em 2006, e por obras de reurbanização no Complexo do Alemão em 2008. Atualmente, além de cuidar da limpeza pública do Distrito Federal e de Anápolis-GO, a empresa também é uma das construtoras que estão reformando o Estádio Maracanã.
Ao todo, a Delta possui 300 contratos em 23 Estados e no Distrito Federal. Só em Brasília, R$ 88,9 milhões foram pagos em 2011 à empresa pelo Serviço de Limpeza Urbana (SLU) do governo distrital. O estado do Rio de Janeiro foi responsável por contratos que repassaram cerca de R$ 55 milhões à Delta no mesmo ano, em obras de urbanização e de implantação do Parque Madureira. Ao todo, o volume de contratos do estado com a empresa desde 2002 já chega à cifra de R$ 450 milhões.
O governo de São Paulo também chegou a celebrar contratos com a Delta no ano passado, quando R$ 12,9 milhões foram liquidados para pagar serviços que vão de conservação de estradas às execuções de obras e instalações.
Segundo matéria do jornalista Hugo Marques no final de 2009, a Controladoria Geral da União (CGU) enumerou irregularidades em 14 obras da empresa de Cavendish no PAC, em contratos que somavam R$ 200 milhões com o DNIT. Na lista da CGU estavam pagamentos por serviços não executados, alteração contratual com acréscimos financeiros não previstos em lei e serviços duplicados realizados no mesmo trecho.
Com tantos contratos, a Delta tem se envolvido em assuntos no mínimo polêmicos por todo o país. Em Minas Gerais, por exemplo, a construtora foi investigada por usar documentos com informações falsas para participar da licitação da via Linha Verde, que liga o aeroporto de Confins à cidade de Belo Horizonte.
Outras denúncias ligadas às licitações foram feitas no Ceará e no Paraná. No estado do sul, a Delta foi uma das empresas caçadas pela Operação Empreitada, que identificou envolvimento de construtoras em fraudes. Cavendish negou as acusações. No Rio de Janeiro, por sua vez, foram encontrados indícios de irregularidades na obra do Arco Metropolitano.
Por outro lado, segundo levantamento realizado pelo Contas Abertas, do total de recursos pagos à Delta em 2011 (R$ 884,5 milhões), R$ 824,3 milhões foram decorrentes de contratações na modalidade de licitação “concorrência”. Com dispensa de licitação, foram contratados R$ 53,9 milhões. (veja tabela)
A Delta também é responsável por doações eleitorais no valor de R$ 2,3 milhões à direção nacional do PT e PMDB, referentes às últimas eleições de 2010. Os repasses foram de R$ 1,15 milhão a cada partido, com datas de 17 e 21 de setembro e 27 de outubro de 2010 – segundo dados do TSE. Nas eleições anteriores, em 2008, a empresa desembolsou R$ 100 mil para auxílio ao “comitê financeiro municipal para prefeito” do PMDB, em Ji-Paraná, RO.