Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

Archive for the tag “Demóstenes Torres”

Demóstenes Torres desperta constrangimento no MP

O constrangimento e, ao mesmo tempo, o corporativismo marcaram os primeiros dias de trabalho de Demóstenes Torres no Ministério Público (MP) de Goiás, depois de uma ausência de 13 anos. O ex-senador, que reassumiu o cargo de procurador de Justiça após a cassação no Senado há 15 dias, dá expediente na sede do MP em Goiânia desde a última sexta-feira, 20. Ele aparece para trabalhar, mas por poucas horas no dia.
Demóstenes prefere as manhãs, quase não é visto à tarde e sobe ao terceiro andar — onde está seu gabinete — por um elevador lateral e pouco usado, com acesso direto à garagem. Nesta quinta-feira, o ex-senador deixou seu gabinete às 12 horas e só retornou, quatro horas e meia mais tarde, para uma reunião com uma pessoa que o aguardava, já há uma hora. Por mês, ele ganha R$ 24 mil.
O constrangimento é tanto que promotores relatam ser alvo de piadas de réus em audiências na Justiça, pelo fato de o MP acolher o senador cassado por colocar o mandato a serviço do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Mesmo assim, a cúpula da instituição — comandada pelo irmão de Demóstenes, Benedito Torres Neto, procurador-geral de Justiça — até agora vem blindando o ex-senador nos procedimentos abertos para investigar as relações do agora procurador de Justiça com Cachoeira.

Beba na fonte: No MP, Demóstenes Torres desperta constrangimento – O Globo.

Juristas veem com perplexidade retorno de Demóstenes ao MP

Ao reassumir o cargo de procurador do Ministério Público de Goiás, o ex-senador Demóstenes Torres causou perplexidade entre alguns juristas e representantes da sociedade. A coordenadora do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), Jovita Rosa, lembrou que ele foi um importante articulador da aprovação da Lei da Ficha Limpa, motivo suficiente para constrangê-lo a assumir o papel de investigador, depois de perder o mandato pelo envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira.
— Ele foi um dos principais incentivadores na difícil tarefa de fazer a Ficha Limpa virar lei. Se ainda resta algum pingo de dignidade, Demóstenes deveria ser o primeiro a pedir licença da função de procurador — afirmou Jovita.
A coordenadora do MCCE considera que o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) tem o dever de adotar medidas que impeçam o exercício da função pelo ex-senador. E lembrou que, no caso do ex-procurador geral de Justiça do Distrito Federal, Leonardo Bandarra, acusado de envolvimento no escândalo do mensalão do DEM, em 2009, o CNMP agiu para tentar impedi-lo de atuar no MP do DF.
— Agora, o CNMP deve agir e reagir a esse tipo de coisa. É inadmissível que alguém que enganou tanta gente, durante tanto tempo, agora exerça a função de investigador.
O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio de Janeiro, Wadih Damous, avaliou que o processo disciplinar contra Demóstenes no MP será mais técnico que no Senado.
— No Ministério Público haverá uma predominância de questões técnico-jurídicas, mas a situação do senhor Demóstenes é muito complicada lá, porque as imputações contra ele são muito graves. Talvez mais difícil, porque como é que alguém com acusações contra si tão graves como o ex-senador Demóstenes vai exercer exatamente essas funções de investigação, de abertura de inquérito, de persecução criminal? — questionou.

Beba na fonte: Juristas veem com perplexidade retorno de Demóstenes ao MP – O Globo.

Demóstenes reassume cargo em Goiás

Cassado no Senado, Demóstenes Torres reassumiu ontem o cargo de procurador criminal no Ministério Público de Goiás, do qual estava licenciado desde 1999, início de sua carreira política.

O nome do agora ex-senador foi colocado na porta da 27ª Procuradoria de Justiça em Goiás.

Demóstenes dará expediente em uma sala no 3º andar do edifício-sede do Ministério Público e terá à sua disposição dois assessores diretos. Ontem, ele pediu um prazo de cinco dias úteis de folga para organizar sua volta.

Mas o reinício de sua carreira na Promotoria, que lhe pagará R$ 22 mil brutos mensais, já é contestada.

A Corregedoria do Ministério Público do Estado informou que abrirá um procedimento disciplinar para apurar “eventual falta funcional” por conta de seu relacionamento com o empresário Carlinhos Cachoeira -mesmo motivo que o levou à cassação anteontem.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Demóstenes reassume cargo em Goiás – 13/07/2012.

Demóstenes se foi. Mas ainda há 24 senadores que não veem mal no que ele fez.

Deu o previsto. Mas por um placar que preocupa pela licenciosidade de 24 senadores que, ou votaram contra a cassação (19), ou se abstiveram (5).

Quem são esses caras ? Ninguém jamais saberá. Até porque um sujeito que não vê motivos para condenar alguém tão sobejamente enrolado jamais teria a hombridade de declarar e sustentar publicamente seu voto.

Resta o consolo de saber que 56 senadores — 15 além do que o mínimo necessário — decidiram que Demóstenes não era mesmo digno de permanecer na Câmara Alta brasileira.

Esse placar, suficiente mas ainda assim raquiíico, dada a gravidade do que se comprovou, denota com assertividade que chegou mesmo a hora de acabar com o voto secreto. Vai longe o tempo em que essa prerrogativa tinha a justificativa de proteger parlamentares da pressão dos governos. Hoje, serve mesmo é para acobertar o corporativismo indecente que ainda assola o Congresso.

Com a decisão de hoje, somam dois os senadores afastados por quebra do decoro parlamentar. É um número pequeno, mas ainda assim infinitamente superior ao de condenações pelo Supremo Tribunal Federal, que até hoje não pôs na cadeia nenhum político.

O julgamento dos mensaleiros está aí. Com ele, a corte constitucional terá sua grande chance de sair do zero absoluto.

Julgamento vai se estender por mais uma hora

A pedido do senador Humberto, e com a concordância dos líderes dos partidos, os relatores do caso Demóstenes Torres no Conselho de Ética (o próprio Humberto Costa) e no plenário (Pedro Taques) terão mais 20 minutos cada um para expor seus argumentos.

O réu pediu o mesmo privilégio e foi atendido.

Por isso, é previsível que o julgamento tome uma hora a mais do que o previsto.

Neste momento, Humberto Costa apresenta seus argumentos da tribuna do Senado.

O Senado já ficou menor

Fernando Rodrigues

O Senado estará menor hoje ao fim do dia. Não importa se Demóstenes Torres perder ou não o seu mandato. Nas duas hipóteses, a instituição sai desgastada e com relevância reduzida.

O pior (e improvável, espera-se) cenário é aquele no qual o ex-líder do DEM é perdoado e mantém seu mandato. A Câmara Alta do Congresso brasileiro estaria dando um sinal de “liberou geral”.

A defesa do senador argumenta não haver provas materiais de ele ter estado a serviço de Carlinhos Cachoeira. As ligações telefônicas gravadas seriam ambíguas. Não houve dinheiro depositado em contas-correntes. São explicações controversas, mas vá lá. Só que há o telefone-rádio Nextel recebido por Demóstenes com outros integrantes do grupo de Cachoeira. Nesse caso houve quebra de decoro?

A resposta da defesa é que Demóstenes não teria como “adivinhar” que se tratava de instrumento para prática de crime e que o “custo de manutenção era irrisório”. Se for esse o entendimento na sessão de hoje, qualquer senador da República poderá ganhar um celular de um contraventor, usar à vontade e mandar a conta para a quadrilha. O argumento do senador é tão disparatado e reducionista que não merece grandes reflexões.

Mas o Senado pode resgatar em parte sua imagem se cassar Demóstenes na sessão de hoje. Isto é, se o senador não entregar os pontos e mantiver sua palavra de não renunciar até o “último segundo”, como afirmou em sua defesa ontem.

O problema é que a cassação é apenas o mínimo a ser entregue pelos senadores. Uma ação diminuta para reparar anos de reputação depauperada. No passado, era comum ouvir que a Câmara era o império do baixo clero. Agora, o Senado rivaliza em insignificância. Expulsar Demóstenes ajudará um pouco. Só que ainda demorará até o Poder Legislativo recuperar o seu prestígio.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – O Senado já ficou menor – 11/07/2012.

Começou o julgamento de Demóstenes. Assista ao vivo no Blog

Demóstenes Torres toma daqui a pouco o caminho aberto na história por Luiz Estêvão, o primeiro senador cassado República.

O Blog vai transmitir  a sessão de julgamento com imagens da TV Senado. Para assistir, clique sobre o video abaixo

Blog antecipa o discurso de despedida de Demóstenes

Blog antecipa o discurso de despedida de Demóstenes Torres

Senhoras e senhores, senadores e senadoras,

Transformei minha vida parlamentar numa aposta contra a corrupção. Não é possível extrair dos autos do processo nenhum prova de meu atrelamento com o jogo do bicho.

Eu não sou burro (03). Tentaram me transformar em vaca (25) de piranha, misturar-me aos porcos (18) da contravenção, mas não  conseguiram. 

Esse processo é produto do enpavonamento (19) dos meus inimigos históricos. São pérfidos como cobras (09) e ardilosos como tigres (22). Mas não conseguirão me dar esse abraço de urso (23) porque eu sou esperto como um gato (14). Sei reagir com a sabedoria de uma águia (02) e tenho a paciência e a memória dos elefantes (12).

Espero de vossas excelências que não ajam como cachorros (05) adestrados desse governismo ardiloso que pretende me transformar em cordeiro (07) de Deus.

Não, colegas, não esperem de mim que enfie a cabeça na terra como um avestruz (01). Não sou macaco (17) de circo para animar essa plateia que quer me ver pelas costas. Lutarei como um leão (16) para demonstrar minha inocência. Não duvidem: eu sou um touro (21)!

E, se afinal não conseguir, se for abatido como um coelho (10), não vou balir como uma cabra (06).

Vou dizer altivo desta tribuna:

- Vossas Excelências não passam de um bando de veados (24)!

Mentir no plenário não é quebra de decoro, diz senador

Com o risco de ser cassado amanhã, o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) disse que mentir no plenário do Senado não é motivo para decretar a perda do mandato.

Como havia prometido na semana passada, ele tem feito discursos diários na tribuna da Casa em sua defesa.

Apesar de afirmar que não mentiu quando disse que só mantinha relações de amizade com o empresário Carlos Cachoeira, Demóstenes disse que a Constituição assegura liberdade para o congressista falar o que quiser da tribuna -mesmo que não seja algo verdadeiro.

“Se o parlamentar mentir, é um problema dele com sua consciência e sua audiência, não com o decoro. Aliás, nada do que o parlamentar diz da tribuna pode ser quebra de decoro”, afirmou.

Ao lembrar o ex-senador Luiz Estevão (PMDB-DF), único cassado pelo Senado até hoje, Demóstenes afirmou que na época criou-se o “mito” de que mentir em plenário é quebra de decoro.

“A tribuna é inviolável, segundo a própria Constituição. E tentaram colocar isso porque não conseguiram provar nada contra mim.”

O argumento de que faltou com a verdade no plenário foi um dos utilizados pelo Conselho de Ética do Senado para pedir a cassação do seu mandato.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Mentir no plenário não é quebra de decoro, diz senador – 10/07/2012.

Bye-bye, Demóstenes

Demóstenes Torres deve ser cassado amanhã.

Já vai tarde.

A única coisa a lamentar é que tanto tempo tenha sido necessário para cumprir o formalismo processual. Tivéssemos uma constituição paraguaia e o dublê de lobista da contravenção e senador da República não teria durado duas horas.

Que os colegas piedosos consigam ser, ao menos no momento de declinar o voto, tão implacáveis como ele foi com seus opositores. Que o mandem logo para o Hades da política.

Demóstenes Torres vai para o lixo da história. O “Guardião”, sistema que interceptou sua pornografia com a contravenção, serviu para revelar ao País como um homem pode ser hipócrita e mentiroso. Como alguém pode ser manipulador e farsante. Como pode alguém enganar a todos com sua empáfia moralista e sua vida canhestra.

Bye-bye, Demóstenes.

Espero sinceramente vê-lo no ostracismo. E desejo a você o que de melhor você puder extrair do seu círculo íntimo, das duas amizades criminosas, das suas conspirações contra a moral e a ética.

Que você tenha o que merece: o limbo e a vergonha, se é que lhe sobra alguma.

CCJ envia processo de cassação de Demóstenes ao plenário do Senado

A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado aprovou ontem, por unanimidade, a legalidade do processo de cassação de Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) pela suspeita de que o senador usou o mandato para defender os interesses do empresário Carlinhos Cachoeira.

Com a decisão, o processo segue para votação secreta no plenário do Senado, marcada para quarta-feira. Pelo regimento da Casa, a CCJ precisa analisar se houve vícios legais que impeçam a tramitação do processo no Senado.

Relator da matéria na comissão, o senador Pedro Taques (PDT-MT) disse que o Conselho de Ética do Senado respeitou os princípios de ampla defesa para Demóstenes, enquadrou corretamente as denúncias como configurando quebra de decoro parlamentar e respeitou a separação de Poderes, uma vez que tramita inquérito contra Demóstenes no STF (Supremo Tribunal Federal).

Senadores favoráveis à cassação fizeram críticas ao ex-líder do DEM. As mais duras foram de Marta Suplicy (PT-SP), para quem o senador faz um “teatro” e tem “dupla personalidade”, com a capacidade de “mentir, enganar e manipular” os seus pares.

Único a sair em defesa de Demóstenes na comissão, o senador Magno Malta (PR-ES) disse que os parlamentares não deveriam “tripudiar em cima” do colega. Antigos aliados de Demóstenes, como o presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), e sua suplente direta, Lúcia Vânia (PSDB-GO), não foram à sessão. Coube ao segundo suplente, senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), votar pela aprovação do relatório.

Mesmo fazendo discursos de defesa diários no plenário do Senado, Demóstenes não foi à comissão. Pediu a seu advogado, Antônio Carlos de Almeida Castro, fazer sua defesa. Castro fez um apelo pela absolvição do senador.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – CCJ envia processo de cassação de Demóstenes ao plenário do Senado – 05/07/2012.

Por 15 a 0, conselho aprova cassação de Demóstenes Torres

GABRIELA GUERREIRO

O Conselho de Ética do Senado aprovou ontem, por unanimidade, a cassação do mandato do senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) por quebra de decoro parlamentar. Os 15 membros do conselho aprovaram o relatório do senador Humberto Costa (PT-PE), que apontou “vantagens indevidas” e “irregularidades graves” cometidas pelo ex-líder do DEM.

O pedido segue agora para votação na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça). Em seguida, vai ao plenário, em votação secreta, onde ao menos 41 senadores precisam aprová-lo para Demóstenes perder o mandato em definitivo.

Com 79 páginas, a leitura do relatório de Costa durou três horas. Ele rebateu as versões apresentadas por Demóstenes de que desconhecia atividades ilícitas de Cachoeira. Costa disse que Demóstenes, suplente da extinta CPI dos Bingos, sabia que Cachoeira teve o indiciamento aprovado pela comissão por diversos crimes.

“É incrível que alguém com tanto conhecimento na área de informação e contrainformação simplesmente nada soubesse sobre uma pessoa que lhe era tão próxima.”

Costa afirmou que Demóstenes agia como uma espécie de “despachante de luxo” de Cachoeira ao defender seus interesses no governo. E que a vida política do senador “gravita em torno dos interesses” de Cachoeira desde 1999.

O relator classificou de “fantasiosa” a versão de Demóstenes quando afirmou que “jogou verde” para Cachoeira ao avisá-lo sobre uma operação da Polícia Federal que desmontaria jogos de azar. Disse que a relação também inclui doações de “caixa dois” para campanhas.

Para Costa, há fortes indícios de que o senador recebeu R$ 20 mil de Gleyb Ferreira da Cruz, integrante da suposta organização criminosa liderada por Cachoeira.

Sobre os presentes recebidos por Demóstenes, entre eles um rádio Nextel com as contas pagas pelo empresário, Costa disse que a prática fere a ética da Casa. “É falta de decoro de um parlamentar quando aceita que um terceiro assuma o pagamento de suas faturas telefônicas e outras despesas. Ainda mais quando esse terceiro é um delinquente.”

O advogado de Demóstenes, Antônio Carlos de Almeida Castro, discursou em nome do senador. Disse estar convicto de que o Supremo Tribunal Federal anulará as escutas que flagraram conversas do senador e pediu que o caso fosse julgado com independência. Kakay, como é conhecido, afirmou que Costa mencionou fatos inverídicos no relatório, como uma viagem que Demóstenes teria feito ao litoral do Rio de Janeiro em avião particular que pode ter sido pago por Cachoeira.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Por 15 a 0, conselho aprova cassação de Demóstenes Torres – 26/06/2012.

Demóstenes e Cachoeira viajaram juntos para os Estados Unidos

O senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), a mulher dele, Flávia Gonçalves Coelho, e o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, viajaram no mesmo voo, em 26 de janeiro do ano passado, uma quarta-feira, para Miami. O voo JJ8042, da TAM, partiu de Brasília. O trio retornou no domingo, dia 30, no voo JJ8043.
O motivo da viagem foi a festa de aniversário do empresário Marcelo Limírio, que tem uma casa na cidade da Flórida. Limírio foi sócio de Cachoeira e é sócio de Demóstenes em uma faculdade em Minas Gerais. Ele também comprou uma área em Pirenópolis (GO), com o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB) e a mulher dele, Valéria Peixoto Perillo, além de outros investidores.
A viagem está listada em documento que a Polícia Federal encaminhou nesta semana à CPI do Cachoeira. O relatório cita saídas e entradas do contraventor, do senador e da mulher dele no período de 2001 a 2012. Até 2004, Cachoeira faz poucas viagens ao exterior. Segundo os dados disponíveis, ele foi duas vezes aos Estados Unidos, três vezes à Argentina, uma vez para a Espanha e outra para a Inglaterra.
Em 2007, foram registradas três saídas para os Estados Unidos. Já em 2008, ele viajou oito vezes, sete das quais para os Estados Unidos, e uma vez para a França. Em 2009, das seis viagens, a maioria também foi para os EUA. Essa foi a média mantida no ano de 2010. No ano passado, dos sete voos, só um foi para o Panamá. Os demais também foram para os EUA.
Advogado confirma viagem aos EUA
De 2004 até o ano passado, Demóstenes fez 22 viagens. Além dos Estados Unidos, um dos destinos mais comuns é Portugal, partindo de Brasília — uma das principais rotas de quem mora no Distrito Federal e quer chegar à Europa. Há voos ainda para Argentina, Panamá, Peru, Uruguai, Inglaterra e França. A mulher do senador, Flávia, viajou uma vez a mais do que o marido. Na maioria das vezes, ela o acompanha.
O relatório da Polícia Federal anota que o sistema utilizado para registro de entradas e saídas de passageiros pelos aeroportos pode apresentar incongruências. Diz o documento: “Considerando que o STI (o sistema que registra o fluxo de passageiros entrando e saindo do país) encontra-se em fase de implementação em território nacional, seu banco pode apresentar incongruências. Em suma, mostra-se possível que as pessoas em questão tenham realizado viagens internacionais, as quais não se encontram registradas nos sistemas consultados.”
O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay, confirmou que Demóstenes viajou com Cachoeira para os Estados Unidos. O advogado diz que foi só uma viagem e outras pessoas também estavam juntas.
— Ficaram lá três ou quatro dias e depois voltaram — disse Kakay.
Em outro documento enviado à CPI, a Receita Federal aponta que a Delta Construções omitiu R$ 93,6 milhões em compras de matéria prima entre 2007 e 2010. “No período em análise, o contribuinte não declarou na DIPJ ter realizado compras de matéria-prima. Contudo, de acordo com a coleta de dados relativos ao ICMS realizado por esta secretaria junto aos estados do Piauí, Goiás, Sergipe, Rio Grande do Norte e Mato Grosso do Sul, a pessoa jurídica realizou compras”, informa auditoria enviada à CPI. Pelo documento, só entre 2009 e 2010 a empresa comprou nada menos que R$ 80 milhões e não informou ao fisco.

Beba na fonte: Demóstenes e Cachoeira viajaram juntos para os Estados Unidos – O Globo.

Conselho deve aprovar cassação de Demóstenes

A maioria dos integrantes do Conselho de Ética do Senado promete votar hoje pela cassação do senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), segundo enquete da Folha.

Dos 15 membros, 8 disseram que votariam pela perda do mandato do ex-líder do DEM, suspeito de ter usado seu mandato em favor do empresário Carlinhos Cachoeira.

O número é suficiente para cassar o mandato de Demóstenes no conselho. Mas, para que a cassação se concretize, ela ainda precisa passar pelo plenário do Senado, onde a votação é secreta.

O relator do caso, senador Humberto Costa (PT-PE), vai apresentar sua decisão hoje. Logo depois, o conselho deve votar o parecer.

A enquete, que ouviu 14 dos 15 membros do conselho, mostra que dois senadores dizem estar indecisos. Outros quatro não quiseram responder.

O número de votos favoráveis à cassação pode ser ainda maior, já que os dois indecisos avaliam que a situação de Demóstenes é “grave”.

Os integrantes do conselho aceitaram responder à consulta sem ser identificados, embora a votação seja aberta.

Ao colegiado Demóstenes negou ter feito lobby em favor de Cachoeira e disse que não mentiu ao afirmar, em março, que sua relação com o empresário era só de amizade.

Com a situação no conselho considerada perdida, Demóstenes aposta na votação secreta do plenário. Mas sua defesa ainda tenta protelar a votação para que o processo só seja analisado quando o Senado estiver esvaziado por causa das eleições.

(GABRIELA GUERREIRO E MÁRCIO FALCÃO)

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Conselho deve aprovar cassação de Demóstenes – 18/06/2012.

Demóstenes nega lobby para Cachoeira

GABRIELA GUERREIRO

Em depoimento ontem ao Conselho de Ética do Senado, o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) negou ter usado o mandato para fazer lobby para o empresário Carlinhos Cachoeira.

Ele disse ter informado o “amigo” com antecedência sobre operação da Polícia Federal para “testar” se Cachoeira tinha atividades ilegais.

O depoimento foi a primeira fala de Demóstenes no processo sobre quebra de decoro, que pode resultar na cassação de seu mandato. Para tanto, ele precisa ser condenado no conselho e em votação secreta no plenário. Não há prazo para isso.

Demóstenes chegou ao conselho de cabeça erguida e cumprimentou os membros da mesa. Disse estar em depressão, tomando remédios desde o início das denúncias.

Ele afirmou que vive o “pior momento” de sua vida, mas que tem “vergonha na cara” e, por isso, demorou um mês para voltar ao Senado e “ter coragem de olhar” os para colegas. Disse ainda ter redescoberto Deus.

Acompanhado de seu advogado, Antônio Carlos de Almeida Castro, o senador procurou rebater todas as suspeitas em duas horas de fala. Depois, por mais três horas, respondeu perguntas de colegas.

Demóstenes disse ser vítima de uma “operação orquestrada” por policiais e procuradores para prejudicá-lo. Afirmou que os investigadores adulteraram áudios e vazaram trechos das apurações de forma seletiva.

Ele também negou ter recebido dinheiro de Cachoeira ou feito lobby para ele ou pela legalização de jogos de azar. Mas admitiu ter atuado pela Vitaplan, indústria farmacêutica de Cachoeira, como fazia com “várias empresas” de Goiás.

TESTES

“Que lobista sou eu que nunca procurei nenhum colega senador para discutir sobre legalização de jogos? Eu peço que eu seja julgado pelo que eu fiz, não pelo que eu falei que iria fazer”, apelou.

Sobre a gravação em que foi flagrado avisando Cachoeira de uma operação policial, Demóstenes disse que fazia “testes” com o empresário para confirmar se ele havia deixado a ilegalidade.

“Eu joguei verde em cima dele. Eu disse que tem operação conjunta da PF com o Ministério Público que nunca se realizou e nunca foi cogitada. Ainda assim, eu fazia esses testes com ele.”

Para sustentar a versão de que não sabia da atuação de Cachoeira, de quem afirmou ser amigo, disse que tomou conhecimento só em março de “ilícitos” do empresário -preso por explorar esquema de jogo ilegal, lavagem de dinheiro e corrupção.

Um dos argumentos a favor da cassação de Demóstenes é a sua suposta mentira em plenário sobre o desconhecimento das atividades de Cachoeira.

No depoimento de ontem, Demóstenes confirmou que Cachoeira lhe deu um rádio Nextel citado como antigrampo. As contas, também pagas por Cachoeira, variavam de R$ 30 a R$ 50 por mês. O senador reconheceu que a atitude foi um “erro”.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Demóstenes nega lobby para Cachoeira – 30/05/2012.

Testemunhas listadas por Demóstenes se negam a defendê-lo

GABRIELA GUERREIRO

O senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) ficou sem o depoimento de suas duas testemunhas de defesa no processo a que responde no Conselho de Ética.

Além do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, a segunda testemunha recusou ontem convite do conselho para depor.

Em ofício, o advogado Ruy Cruvinel disse que, “em consideração à sua família”, não aceitaria o convite para “optar por sua privacidade”.

A defesa de Demóstenes arrolou Cruvinel para tentar enfraquecer as investigações da Procuradoria-Geral da República. O advogado de Demóstenes, Antônio Carlos de Almeida Castro, citou diálogo de Cruvinel, publicado na imprensa, feito quando o advogado teria sido preso, que confirmaria a sociedade entre o senador e o empresário nos negócios de Cachoeira.

O advogado afirma que a reportagem contribuiu na decisão da procuradoria de investigar Demóstenes no STF (Surpemo Tribunal Federal).

Kakay disse que Cruvinel nunca foi preso e não sabe das ligações do senador com Cachoeira. “Esse senhor que eu chamei ia dizer que a matéria era falsa e o procurador-geral da República errou ao usar isso como informação no inquérito. Uma palavra falsa, [e] a Procuradoria toma como verdade”, disse o advogado.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Testemunhas listadas por Demóstenes se negam a defendê-lo – 23/05/2012.

Valadares: processo contra Demóstenes será julgado antes do recesso

Teresa Cardoso, da Agência Senado

O presidente do Conselho de Ética, Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), estima que antes do recesso, previsto para 18 de julho, o Senado terá encerrado o processo aberto nesta terça-feira (08) para decidir se Demóstenes Torres (sem partido-GO) feriu o decoro parlamentar.
Valadares reconheceu que a defesa de Demóstenes vai utilizar-se de todos os meios para prorrogar esse processo, cabendo sobretudo ao relator, Humberto Costa (PT-PE), munir-se de argumentos contra manobras “procastinatórias”, ou seja destinadas a adiar o encerramento do caso.
Nesta quinta-feira (10), Valadares volta a reunir o Conselho de Ética para a deliberação de requerimentos, entre eles, um defendido por Humberto Costa para ouvir-se o contraventor Carlos Cachoeira no próximo dia 17 de maio. Será decidido também se o primeiro depoente dessa fase processual será Demóstenes Torres.
Ao advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, Valadares disse que lhe serão dados todos os meios jurídicos para defender seu cliente.
- Todos os meios de prova serão aceitos: depoimentos, documentos, testemunhas, perícias etc – explicou Valadares.
Kakai, como é conhecido o advogado, disse que pleiteará o direito de trazer um perito técnico para avaliar os áudios concernentes ao inquérito de Carlos Cachoeira. Ele arrolará também como testemunha de defesa o advogado goiano Ruy Cruvinel.
Ainda de acordo com Valadares, na hipótese de o conselho de Ética entender que o acusado feriu o decoro parlamentar, o processo será enviado ao exame da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). Ali, explicou ele, o exame será apenas do ponto de vista da constitucionalidade. De lá, o processo seguirá para o plenário do Senado.

via Valadares: processo contra Demóstenes será julgado antes do recesso — Senado Federal – Portal de Notícias.

Contardo Calligaris: O moralizador

Publico este post por sugestão do leitor Sandro Peixoto. Foi ele quem encontrou a pérola na edição de 20 de março de 2008 da Folha de São Paulo.

Neste artigo, Contardo Calligaris discorre sobre o perfil do protagonista da crise se abateu sobre o governo do estado de Nova York quando se descobriu que o governador Eliot Spitzer, cliente VIP de uma rede de prostituição, era um político hipócrita e farsante. Você certamente vai lembrá-lo por uma peculiaridade: A cafetina brasileira Andréia Schwartz teve participação efetiva no processo de investigação como testemunha de acusação beneficiada pela delação premiada.

O escândalo Spitzer, que levou o governador a renunciar em 17 de março de 2008, parece um déjà-vu do caso Demóstenes Torres, metido com uma rede de jogo ilegal aqui no Brasil .

Três dias depois da renúncia, a Folha de São Paulo publicou o artigo de Calligaris que reproduzo a seguir. A leitura vale a pena. Por ela, pode-se perceber mais do que analogia, os dois casos — e também o de Fernando Collor — têm o mesmo DNA moral.

O Moralizador

ELIOT SPITZER era governador do Estado de Nova York até sua resignação na semana passada.

Sua fortuna política e sua popularidade eram ligadas à sua atuação prévia como procurador agressivo e inflexível contra os crimes financeiros e contra as redes de prostituição e seus clientes.

Ora, descobriu-se que ele era freguês de uma rede de prostituição de luxo e que também recorria a artimanhas financeiras para que seus pagamentos -substanciais: US$ 80 mil (R$ 140 mil)- não fossem identificados.

Esse fato de crônica (no fundo, trivial) foi para a primeira página dos jornais do mundo inteiro -aparentemente, pela surpresa que causou: quem podia imaginar tamanha hipocrisia? Esse “espanto” geral foi, para mim, a verdadeira notícia da semana.

Começou no dia em que Spitzer deu sua primeira declaração pública, reconhecendo os fatos e a culpa, ao lado de sua mulher, impávida.

No programa “360″, da CNN, o âncora, Anderson Cooper, convocou dois comentaristas. Um deles, uma mulher, psicóloga ou psiquiatra, ofereceu imediatamente uma explicação correta e óbvia. Ela disse, mais ou menos: é muito freqüente que um moralizador raivoso castigue nos outros tendências e impulsos que são os seus e que ele não consegue dominar. Cooper (que já passeou pelos piores cenários de guerra e catástrofes naturais) quase levou um susto e cortou rapidamente, acrescentando que essas eram, “claramente”, suposições, hipóteses etc. Não é curioso?

Em regra, prefiro as idéias que são propostas, justamente, como hipóteses ou sugestões que cada um pode testar no seu foro íntimo.

Mas, hoje, considerar a dita declaração da especialista como uma suposição parece ser uma hipocrisia pior (e mais perigosa) do que a de Spitzer.

Afinal, depois de um bom século de psicologia e psiquiatria dinâmicas, estamos certos disto: o moralizador e o homem moral são figuras diferentes, se não opostas. 1) O homem moral se impõe padrões de conduta e tenta respeitá-los; 2) O moralizador quer impor ferozmente aos outros os padrões que ele não consegue respeitar.

Na mesma primeira declaração, Spitzer confessou, contrito, que ele não conseguira observar seus próprios padrões morais. Tudo bem: qualquer homem moral poderia confessar o mesmo. Mas ele acrescentou imediatamente que, a bem da verdade, esses eram os padrões morais de quem quer que seja.

Aqui está o problema: o padrão moral que ele se impõe, mas não consegue respeitar, é considerado por ele como um padrão que deveria valer para todos. Com que finalidade? Simples: uma vez estabelecido seu padrão como universal, ele pode, como promotor ou governador, impô-lo aos outros, ou seja, ele pode compensar suas próprias falhas com o rigor de suas exigências para com os outros.

Quem coloca ruidosamente a caça aos marajás no centro de sua vida está lidando (mal) com sua própria vontade de colocar a mão no pote de marmelada. Quem esbraveja raivosamente contra “veados” e travestis está lidando (mal) com suas fantasias homossexuais. Quem quer apedrejar adúlteros e adúlteras está lidando (mal) com seu desejo de pular a cerca ou (pior) com seu sadismo em relação a seu parceiro ou sua parceira.

O exemplo da adúltera, aliás, serve para lembrar que a psicologia dinâmica, no caso, confirma um legado da mensagem cristã: o apedrejador sempre quer apedrejar sua própria tentação ou sua culpa.

A distinção entre homem moral e moralizador tem alguns corolários relevantes. Primeiro, o moralizador é um homem moral falido: se soubesse respeitar o padrão moral que ele se impõe, ele não precisaria punir suas imperfeições nos outros. Segundo, é possível e compreensível que um homem moral tenha um espírito missionário: ele pode agir para levar os outros a adotar um padrão parecido com o seu. Mas a imposição forçada de um padrão moral não é nunca o ato de um homem moral, é sempre o ato de um moralizador.

Em geral, as sociedades em que as normas morais ganham força de lei (os Estados confessionais, por exemplo) não são regradas por uma moral comum, nem pelas aspirações de poucos e escolhidos homens exemplares, mas por moralizadores que tentam remir suas próprias falhas morais pela brutalidade do controle que eles exercem sobre os outros. A pior barbárie é isto: um mundo em que todos pagam pelos pecados de hipócritas que não se agüentam.

Contardo Calligaris na WikipediaFormou-se em Epistemologia Genética, na Suíça, numa faculdade em que Jean Piaget palestrava. Nesse momento, os estudos de Calligaris foram direcionados às ciências sociais. Ao mesmo tempo, fez graduação em Letras que o permitiu ensinar teoria da literatura. Mais tarde, em Paris, se dedicou ao doutorado em Semiologia, com Roland Barthes.Nesse momento, começou a fazer análise (como paciente), o que, a princípio, não tinha relação com sua formação.A partir dessa experiência passou a interessar-se por Psicanálise. Tornou-se membro da Escola Freudiana de Paris em 1975. Durante esse período, frequentava as apresentações de casos de pacientes feitas por Jacques Lacan. Doutor em Psicologia Clínica pela Universida da Provença (França), onde defendeu a tese “A Paixão de Ser Instrumento”, estudo sobre a personalidade burocrática. Professor de Antropologia na Universidade da Califórnia em Berkeley (Estados Unidos), e de Estudos culturais na New School of New York.

via Folha de S.Paulo – Contardo Calligaris: O moralizador – 20/03/2008.

Demóstenes e os ‘inocentes úteis’

Editorial do Jornal Cruzeiro do Sul de Sorocaba, SP

A desmoralização de Demóstenes Torres é também um atestado público da baixa eficiência da imprensa que, durante anos a fio, em miríades de reportagens, entrevistas, artigos e citações, transformou esse obscuro político goiano em arauto da moral e da ética no Congresso, sem ao menos desconfiar de suas relações com o mundo da contravenção ou, o que é mais perturbador, possivelmente desconfiando, mas optando por poupá-lo, por conivência ou conveniência.

As regras do jornalismo ensinam que a reportagem deve responder a seis perguntas básicas: o que, quem, quando, onde, como e por quê. As ligações de Demóstenes com o bicheiro Carlinhos Cachoeira – com quem o senador, ao que tudo indica, mantinha uma intensa troca de favores -, mostra que a chamada grande imprensa, aquela que tem acesso direto aos parlamentares, fracassou ao informar o “quem” à sociedade. Levou a acreditar em uma armação, um personagem de fachada.

O “equívoco” – vamos tratar dessa forma – assumiu proporções apologéticas em algumas publicações. Em julho de 2007, a revista Veja dedicou quatro páginas de sua edição nº 2015 para enaltecer alguns parlamentares que, segundo a publicação, eram “quase tudo com que os brasileiros podem contar no Congresso para que os interesses particulares não dominem totalmente a política”. Título da reportagem: “Os mosqueteiros da ética”. Um deles, claro, era o “incansável” Demóstenes Torres.

Já a revista Época, em dezembro de 2009, incluiu Demóstenes entre os cem brasileiros mais influentes do ano. O texto de apresentação, assinado pelo sociólogo Demétrio Magnoli – que ainda pode ser lido no site da revista -, enfatiza: “Demóstenes não é mais um comerciante no mercado em que se trafica influência em troca de cargos e privilégios. Ele tem princípios e convicções.” A edição de Época colocou o ex-democrata, hoje sem partido, na categoria dos “Líderes & reformadores”.

Boa parte da notoriedade de Demóstenes foi construída quando ele, como líder do DEM e membro da Comissão de Ética, fustigava figuras da política acusadas (sabe-se agora) de erros semelhantes ao seu. O senador goiano foi um dos algozes do ex-presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), acusado em 2007 de receber favores de um lobista. “É intolerável sob qualquer critério que o presidente utilize a estrutura funcional do Congresso para cometer crimes”, disse na ocasião.

Tanta exposição na mídia levaram a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) a encarregar o justiceiro de prefaciar o livro “Ficha Limpa – A Vitória da Sociedade”, publicado em 2010 pela entidade. Hoje, a OAB pede sua cassação. Nos últimos dias, surgiram críticas à forma como a imprensa aceitou Demóstenes Torres como o que ele afirmava ser, sem jamais investigá-lo a fundo para checar se não era mais um lobo em pele de cordeiro. Coube à Polícia Federal demonstrar o que nenhum jornalista jamais verificou: a relação espúria entre o “mosqueteiro da ética” e um dos maiores contraventores do País.

Poucos jornalistas fizeram mea-culpa. Entre as honrosas exceções, está o comentarista político Fábio Pannunzio, que admitiu em seu blogue: “Éramos, e me incluo nesse rol de inocentes inúteis, incapazes de distinguir um falsário de um herói, todos crentes na santidade do fâmulo do crime organizado.” Demóstenes, escreveu Pannunzio, era “o inquisidor indestrutível, garantia de boas aspas, a própria encarnação do Bem contra o Mal que confrontava na figura de seus alvos.”

A imprensa estará no lucro se for julgada apenas por sua ingenuidade, já que há indícios de que pelo menos alguns editores tomaram parte na farsa, a fim de se abastecer com denúncias exclusivas e atingir objetivos políticos. Como ninguém jamais investigará isso, essa será uma nódoa indelével que o Quarto Poder terá de carregar, até ao menos que algum feito notável (coisa rara, ultimamente) venha desfazer o mal-estar.

via Jornal Cruzeiro do Sul – Demóstenes e os ‘inocentes úteis’ – EDITORIAL – EDITORIAL.

Carlinhos Cachoeira queria eleger Demóstenes Torres em Goiânia – O Globo

Gravações interceptadas pela Polícia Federal (PF) com autorização da Justiça mostram o bicheiro Carlinhos Cachoeira discutindo com o vereador de Goiânia Santana Gomes (PMDB) a candidatura do senador Demóstenes Torres (ex-DEM, sem partido-GO) à prefeitura de Goiânia. Na conversa, eles dizem que precisam de alguém com “poder na mão”. Até o início deste ano, Demóstenes era um dos pré-candidatos mais cotados à prefeitura da capital goiana. Mas desistiu publicamente da disputa.

O estouro do escândalo envolvendo Cachoeira sepultou as esperanças de quem ainda via no parlamentar um potencial candidato. Demóstenes Torres é considerado a ponte de Cachoeira com o mundo político em Brasília.

— Deixa eu te contar uma coisa: o Demóstenes vai ser nosso prefeito, não vai? Nós temos que ter alguém com o poder na mão, chefe — disse Santana Gomes, em telefonema feito no dia 13 de março do ano passado.

— Exatamente, exatamente — responde Cachoeira.

Os dois conversaram pelo telefone inicialmente para falar de Jorcelino Braga, secretário estadual da Fazenda na gestão anterior, do ex-governador Alcides Rodrigues (PP), de 2006 a 2010.

Alcides, que era vice do atual governador tucano Marconi Perillo (GO), assumiu o governo quando o titular renunciou ao mandato para disputar o Senado, em 2006. Mas eles terminaram por se afastar e Braga se desentendeu com Marconi Perillo, que em 2011 voltou a ser governador de Goiás.

Planos para o governo em 2018

O bicheiro diz acreditar que Jorcelino Braga quer uma aproximação com o grupo. Santana Gomes — que inicialmente fica com medo de entrar em contato com o ex-secretário e “se queimar” com o atual governador — concorda em fazer a aproximação e sugere que isso vai ajudar a fazer Demóstenes Torres prefeito de Goiânia.

— Então tá bom. Vamos tomar um café amanhã pra gente bater umas ideias e montar uma estratégia beleza pra gente começar. Eu vou começar. Eu já sei que cê tá pensando. O Demóstenes vai ser prefeito. É isso que cê tá querendo dizer, né? — indaga Santana.

Pouco depois, Cachoeira diz:

— Traz ele (Braga) pro nosso lado. Tenta trazer.

Santana então rasga elogios ao chefe:

— Você é certo demais, você é forte demais. Não, você fez perfeito. Com esse trem na mão, nós estamos bem na foto, né, amigo. Nós vamos fazer nosso prefeito, né?

— Ele tá com o c… na mão, rapaz. Traz o Braga pro lado. Tá bom? Procura ele amanhã (sic). Não tem problema, não. Não queima, não. Tem nada que queimar com Marconi — responde Cachoeira.

As pretensões políticas iam além. A Juventude do DEM chegou a lançar Demóstenes candidato a presidente para 2014, na sucessão de Dilma Rousseff. Os mesmos jovens, após o surgimento das denúncias e o envolvimento com Cachoeira, defenderam a expulsão do senador do partido.

via Carlinhos Cachoeira queria eleger Demóstenes Torres em Goiânia – O Globo.

Gravação indica que construtora tentou blindar peemedebista

BRENO COSTA

Telefonemas interceptados pela Polícia Federal mostram que a cúpula da empreiteira Delta Construções atuou para proteger o vice-líder do PMDB na Câmara, deputado Eduardo Cunha (RJ), em processo que o parlamentar movia contra uma jornalista.

É a primeira vez que Cunha, que é amigo do dono da empreiteira, Fernando Cavendish, é citado em grampos da Polícia Federal na Operação Monte Carlo, que originou a CPI do Cachoeira.

Em conversa gravada no dia 25 de março de 2011, o então diretor regional da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, conversa com o suspeito de contravenção Carlinhos Cachoeira a respeito de um depoimento que o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) daria quatro dias depois em um processo que Cunha move contra a jornalista Dora Kramer, de “O Estado de S. Paulo”.

A ação está trancada desde maio passado no Tribunal de Justiça de São Paulo. O processo questiona um artigo sobre a disputa pelo controle do fundo de pensão de Furnas, que citava Cunha.

Abreu relata a Cachoeira ter sido “incumbido” de convencer Demóstenes, arrolado como uma das três testemunhas de defesa da jornalista, a “não pegar pesado” com o vice-líder do PMDB.

Demóstenes e Cunha são adversários políticos. “Eu fui incumbido aqui para falar com você para falar lá com o Demóstenes, cara”, diz Abreu. “Ele vai depor a favor da Dora, só que estão pedindo para mim ir lá conversar com ele para não pegar pesado com o Eduardo.”

Cachoeira diz então que irá conversar sobre o pedido com o senador, e indica estar otimista com a receptividade do senador: “Vamos conversar. Pedido nosso é uma ordem”.

via Folha de S.Paulo – Poder – Gravação indica que construtora tentou blindar peemedebista – 02/05/2012.

Cachoeira repassou R$ 3 milhões a Demóstenes, diz procurador-geral da República

João Domingos e Mariângela Gallucci

No pedido de instauração de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar as ligações do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, diz que é “expressamente referido” que “R$ 1 milhão foi depositado na conta” do parlamentar. O documento aponta um valor total repassado para o parlamentar de R$ 3,1 milhões.

A afirmação do procurador está no item 36, página 40 do inquérito encaminhado ao Supremo. Toda essa documentação foi liberada ontem pelo ministro Ricardo Lewandowski para a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira, e para o Conselho de Ética do Senado, que está apreciando pedido de cassação do mandato do senador Demóstenes.

“Em diálogo no dia 22 de março de 2011, às 11:18:00, entre Carlos Cachoeira e Cláudio Abreu, não degravado pela autoridade policial, é expressamente referido que o valor de um milhão foi depositado na conta do Senador Demóstenes e que o valor total repassado para o Parlamentar foi de R$ 3.100.000,00 (três milhões e cem mil reais)”, escreveu o procurador da República no inquérito, após analisar documentos da Operação Monte Carlo, que desmontou o esquema de ocupação de poder por parte de Cachoeira em todas as esferas do Estado.

Sigilo. Em despacho assinado ontem à tarde, Lewandowski deixou claro que a CPI, o Conselho do Senado e a Comissão da Câmara devem preservar o segredo das informações do inquérito, em especial as interceptações telefônicas.

A publicação ontem da íntegra do inquérito relacionado ao senador pelo site 247 poderá gerar uma investigação no STF.

O ministro lembrou, neste caso, uma lei de 1996 que regulamentou as interceptações telefônicas, pela qual é crime quebrar segredo de Justiça sem autorização judicial. A pena inclui multa e reclusão de dois a quatro anos.

Para autorizar a liberação de cópias do inquérito, Lewandowski baseou-se em decisões anteriores do STF.

via Cachoeira repassou R$ 3 milhões a Demóstenes, diz procurador-geral da República – politica – versaoimpressa – Estadão.

Cachoeira deu dinheiro a assessor de senador, diz PF

FERNANDO MELLO, LEANDRO COLON e BRENO COSTA

Seis dias antes de sua prisão pela Polícia Federal, o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, entregou R$ 100 mil em dinheiro vivo a um assessor do senador Demóstenes Torres (ex-DEM), indicam relatórios da PF obtidos pela Folha.

Quem recebeu o montante foi o policial militar Hrillner Ananias, cedido pelo governo de Goiás para assessorar Demóstenes, a pedido do parlamentar -o que é permitido por lei. O policial deixou a função de assessor logo após a prisão de Cachoeira.

Os relatórios da PF e as escutas telefônicas em que são baseados oferecem os primeiros indícios de que Demóstenes recebeu dinheiro de Cachoeira, cujas relações com políticos e empresários são objeto de uma CPI instalada nesta semana no Congresso.

Por causa de sua ligação com Cachoeira, Demóstenes é alvo de uma investigação conduzida pela Procuradoria-Geral da República no Supremo Tribunal Federal e de um processo por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética do Senado, que pode levar à sua cassação.

A PF gravou quatro diálogos em que a entrega do dinheiro foi discutida, no dia 23 de fevereiro, das 12h39 às 13h18. As escutas, feitas com autorização judicial, indicam que Ananias foi à casa de Cachoeira buscar o dinheiro, entregue pela mulher do empresário, Andressa Mendonça.

“O Hrillner vai aí, dá 100, tá? Pra ele”, diz Cachoeira à mulher. Ao analisar o diálogo, o relatório da PF concluiu que “100″ são “R$ 100 mil”. Logo depois, Cachoeira fala com o assessor de Demóstenes: “Doutor Hrillner, vai lá com a Andressa lá, em casa, você vai lá? Fala com ela lá”.

O policial responde que estava resolvendo “um negócio pro chefe”, mas que depois pegaria o dinheiro.

Segundo resumo feito pela PF de outro diálogo ocorrido 15 minutos depois, “Cachoeira pede para Andressa contar o dinheiro na frente de Hillner” e “Andressa diz que vai dar a ele o dinheiro em notas de 50 que está embalado em plástico”. Na gravação, Cachoeira fala para a mulher contar as notas a serem entregues ao policial.

Logo depois, o policial liga para Cachoeira para dizer que estava a caminho. “Professor, só para informar, já estou a caminho tá?” O empresário responde a ele que “a Andressa já disponibilizou lá”.

O policial recebeu uma homenagem pública do ex-chefe em 2009, quando Demóstenes deu uma palestra a maçons de Goiânia num evento chamado “A Favor da Moralidade – contra a Corrupção”.

O site da loja maçônica onde ocorreu a palestra diz que Ananias, que é maçon, foi “muito bem referenciado” por Demóstenes no evento, em que o senador discursou sobre corrupção. “Temos que analisar a corrupção não só como o ato, que merece a pena, mas como aquele também que frusta o desejo de muitos.”

via Folha de S.Paulo – Poder – Cachoeira deu dinheiro a assessor de senador, diz PF – 27/04/2012.

Demóstenes afirma que PF adulterou as gravações

Gabriela Guerreiro

Em defesa enviada ontem ao Conselho de Ética do Senado, o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) pede o arquivamento do processo a que responde no órgão.

Ele argumenta que a Polícia Federal adulterou áudios de escutas telefônicas das operações que flagraram sua ligação com o empresário Carlinhos Cachoeira.

A defesa do senador contratou perito para analisar os áudios da PF e questiona uma conversa entre Demóstenes e Cachoeira, de junho de 2009, quando o senador teria pedido R$ 3.000 ao empresário para pagar um táxi aéreo.

Relatório da PF diz que ela durou um tempo maior do que o do aúdio citado.

“Houve manipulação, algo foi retirado ou foi colocado”, disse Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, advogado de Demóstenes.

A defesa admite o uso de aeronaves, mas nega que o senador tenha negociado o valor com o empresário.

via Folha de S.Paulo – Poder – Demóstenes afirma que PF adulterou as gravações – 26/04/2012.

Demóstenes negociou verba para beneficiar empreiteira do PAC

O senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) usou o cargo para negociar um projeto de R$ 8 milhões em favor da Delta Construções, apontam gravações telefônicas e relatório do Ministério Público Federal obtidos pela Folha.

De acordo com o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, há evidências de que Demóstenes atuava como “sócio oculto” da Delta, empresa que desde 2007 é a que mais recebe recursos do governo federal, principalmente por obras do Programa de Aceleração do Crescimento.

O procurador-geral se baseia principalmente em gravação em que o senador indica condicionar o envio de recursos para uma obra em Anápolis (GO) à escolha da Delta para tocar o projeto.

O negocio se daria por intermédio do empresário Carlinhos Cachoeira, que teria relações com a empresa e que está preso desde fevereiro sob acusação de comandar esquema de jogo ilegal.

No documento em que pediu ao Supremo Tribunal Federal autorização para investigar Demóstenes, Gurgel afirma haver fatos de “especial gravidade” que evidenciam “que o senador também dispunha da sua atividade parlamentar em proveito da empresa de que seria sócio oculto”.

via Folha de S.Paulo – Poder – Demóstenes negociou verba para beneficiar empreiteira do PAC – 18/04/2012.

Mino Pedrosa: Demóstenes é piaba; peixes grandes estão no PT e no governo

Por Mino Pedrosa, ex-assessor de Carlinhnos Cachoeira, no  Quid Novi

No dia 29 de fevereiro uma operação deflagrada pela Polícia Federal batizada de Monte Carlo levou para o presídio de Mossoró, no Rio Grande do Norte, Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Com ele, ficaram presos os segredos envolvendo políticos, empresários, funcionários públicos que sustentavam todo um esquema de corrupção.

Foi o Partido dos Trabalhadores que preparou a armadilha para flagrar Cachoeira e silenciar a oposição representada por Demóstenes Torres (DEM-GO) já que Aécio Neves (PSDB-MG) havia recuado por temer represálias. O tiro saiu pela culatra. A operação que se estendeu  por quatro Estados – Rio de Janeiro, Distrito Federal, Goiás e Mato Grosso do Sul – fugiu do controle do Planalto e flagrou a ligação do PT e partidos da base aliada do Governo Dilma com o contraventor.

Carlinhos tem um verdadeiro arsenal que acumulou nos últimos 15 anos. Tímido, porém simpático, além de muito generoso, Cachoeira envolveu pessoas do alto escalão da República. O PT, que empurra a espada sobre Demóstenes Torres, começa a se preocupar com o quintal da sua casa. E para salvar a pátria, entra em cena, mais uma vez, o conceituado defensor e jurista Márcio Thomaz Bastos.

Foi no episódio de Valdomiro Diniz, assessor direto do então ministro da Casa Civil José Dirceu, que Valdomiro foi filmado pedindo propina para campanhas petista. Márcio Thomaz Bastos, na época ministro da Justiça, atuou fortemente para evitar o primeiro grande escândalo do Governo Lula.

Ali ficava clara a afinidade do PT com o jogo e a contravenção. Thomaz Bastos escalou rapidamente o advogado de plantão  Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, para defender Valdomiro Diniz e silenciar Cachoeira evitando que o escândalo alcançasse e derrubasse o então chefe da Casa Civil e todo poderoso do Governo Lula José Dirceu.

Agora, mais uma vez, Thomaz Bastos é convocado, em caráter de urgência, para represar a enxurrada de denúncias que Cachoeira está prestes a soltar.

No cenário pintado por Cachoeira, Demóstenes não passa de uma piaba, ou melhor, um peixe pequeno, que o Ministério Público tenta sevar com denúncias inconsistentes para não ser obrigado a pescar os peixes grandes do PT e da base aliada do Governo.

Enquanto isso, em Mossoró, num calor de 43 graus, Carlinhos arde dentro da cela e prepara seu próximo torpedo em direção ao Planalto. São interlocutores das campanhas presidenciais do PT de Lula e Dilma, que receberam doações de Caixa 2 de Carlinhos que garante que registrou tudo.

via.

Até onde vai o ânimo da CPI do Cachoeira ?

O Congresso deve formalizar hoje a CPI Mista para investigar as ramificações do crime organizado nos vários níveis de governo a partir do esquema de contravenção do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Até agora, as investigações da Polícia Federal já revelaram a contaminação de praticamente todo o governo tucano de Goiás, apontaram para a antessala do gabinete do petista Agnelo Queiróz e destroçaram a carreira política de Demóstenes Torres, um dos principais pilares da oposição no Senado da República.Também há vínculos de suspeição dentro da Casa Civil da Presidência da República e rastros que levam a outras esferas da administração de outras unidades da federação. Por todos esses fatores, a instalação da comissão que vai promover a investigação parlamentar era um dever ao qual a Câmara e o Senado não poderiam se furtar, pois o absenteísmo congressual beiraria a prevaricação.

Como em todo processo político, sabe-se o início mas não se conhecem o enredo e, principalmente, o final dessa trama. As incógnitas que se apresentam não são um privilégio brasileiro. Na década de 80, a greve de fome de uma determinada deputada do Partido Liberal colombiano desatou um processo que culminou com a prisão dos principais chefes dos cartéis de drogas no país vizinho. A deputada ficaria mundialmente conhecida quando, anos depois, foi sequestrada pelas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) enquanto disputava a presidência da república. Seu nome: Ingrid Bettancourt.

A campanha de Ingrid pela moralização da política colombiana teve como efeito desatar um processo ao final do qual restou comprovado que 100 dos 166 deputados federais estavam de alguma forma comprometidos com o narcotráfico. A greve foi um protesto vigoroso contra a absolvição sumária do então presidente Ernesto Samper, cuja campanha havia sido financiada pelos irmãos Orejuela, os chefões do Cartel de Cali.

Entre a Colômbia dos anos 1990 e o Brasil de hoje há muitas semelhanças. Como as investigações da PF evidenciaram, aqui, como lá, as instituições estão vulneráveis ao assédio do crime organizado. Os instrumentos de correição, que deveriam proteger o sistema da atuação deletéria de criminosos organizados, são calados pelo corporativismo. Acuados, os políticos, sobre quem pairam suspeitas que beiram a generalização, muitas vezes atuam defensivamente no afã de ocultar suas mazelas e manter longe da ribalta ligações espúrias com patrocinadores escusos.

A dinâmica da CPI dos negócios de Carlinhos Cachoeira vai determinar até que ponto o parlamento brasileiro está disposto a olhar criticamente para os tentáculos da contravenção  e de suas conexões com o mundo da política. Em 2006 e 2007, quando as CPIs do Mensalão e dos Sanguessugas foram instaladas, o Congresso contribuiu para deslindar a atuação de uma máfia do colarinho branco que tinha como fim a compra de votos sobre a qual Lula assentou sua “governança” a partir dos esquemas subterrâneos engendrados por seu ministro da Casa Civil, José Dirceu. Naquele momento da história, um em cada cinco parlamentares estava, de alguma forma, comprometido com quadrilhas que transacionavam almas congressuais no varejo e no atacado da baixa política.

Com a oposição esfacelada e o PT animado por um espírito de revanche para vingar o mensalão, a CPI que será instalada esta semana tem todos os ingredientes para revelar até que ponto Poder e crime se misturam no Brasil. A julgar pelo que se conhece até agora, a investigação parlamentar tem tudo para fulminar dois governadores (Goiás e DF) e pelo menos meia dúzia de deputados e senadores, do PT ao DEM, passando pelo PSDB, PTB e PPS. Além disso, terá o condão de decifrar quais são os mecanismos que permitem a associação criminosa entre contraventores e políticos corruptos, bem como trazer à luz os efeitos gerados por essas quadrilhas nas Instituições brasileiras. Mas também pode enveredar para o nada, que é o que geralmente ocorre quando o processo de depuração passa a incomodar os próprios investigadores.

Com relação à situação de Demóstenes Torres no Conselho de Ética, vale a pena prestar atenção à atuação do senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), que preside o colegiado. O passado o recomenda. Menos pelo que fez do que pelo que foi impedido de fazer. Em agosto de 2009, indicado para presidir a investigação do escândalo dos Atos Secretos, foi defenestrado por uma articulação levada a efeito por José Sarney, supostamente seu aliado, e Renan Calheiros, que o substituíram no Conselho de Ética pelos servis Ideli Salvatti e Paulo Duque.

Por que o Senado de Demóstenes se transformou no avesso do Senado do Mensalão.

2006 foi um ano dolorido para o Legislativo brasileiro. Com a eclosão dos escândalos do Mensalão e dos Sanguessugas, a Câmara Federal chegou a ter 20% de seus parlamentares envolvidos em denúncias de corrupção. A atuação dos meliantes com mandato colocava em cheque a legitimidade do Congresso Nacional, transformado em catapulta para o achaque disfarçado sob o rótulo do fisiologismo, que no Brasil justifica quase tudo.

O Senado, no entanto, formava um contraponto institucional aparentemente redentor aos desvios dos deputados. A Câmara Alta, que onde tempos em tempos tinha sua própria existência questionada, acabava se justificando perante a opinião pública pelo papel correicional que teve a coragem de assumir.

Era uma outra época. Da tribuna, homens dignos como Jefferson Perez, o saudoso senador pedetista, pontificavam com autoridade moral contra a bandalheira e a corrupção generalizada que prosperavam na política a partir do gene das relações de conveniência inoculado pelo governo Lula.

Para os jornalistas que cobriam o Congresso, os senadores eram fontes a serem necessariamente compulsadas para demonstrar ao País que as instituições, a despeito do amortecimento das consciências no varejo da baixa política, eram ainda capazes de corrigir seus próprios vícios.

Vozes tonitruantes bradavam discursos éticos que, em um determinado momento, pareciam ter acuado definitivamente a elite corrupta que se acercara do Poder. Podia-se ouvi-las vindo  de quase todos os grotões partidários. Entre elas estavam as de Cristovam Buarque, Heloísa Helena e Eduardo Suplicy (PT);  César Borges e Demóstenes Torres (PFL);  Arthur Virgílio, Alvaro Dias , Sérgio Guerra e Tasso Jereissati (PSDB); e Pedro Simon (PMDB) .

Nos seis anos que se seguiram, a morte silenciou o amazonense Jefferson Peres, os eleitores calaram Arthur Virgílio e Tasso. Uma opção malsucedida afastou Heloísa Helena do parlamento. César Borges mudou partido e serenou sua verve oposicionista. Suplicy foi suplantado por suas próprias esquisitices. Para sobreviver politicamente, Sérgio Guerra teve que se abrigar em um mandato de deputado federal e trocou de tribuna. Pedro Simon parece ter perdido a motivação — ele já anunciava há três anos que deixaria a vida pública por estar decepcionado, com seu ânimo esmorecido pela degradação do ambiente político. Com relação a Demóstenes Torres, deu-se o que agora se sabe: era um farsante travestido de moralista para ocultar seus próprios vícios.

Poucas, pouquíssimas vozes restaram para sustentar o discurso do soerguimento da moralidade na gestão da coisa pública. E tão fracas que mal podem ser percebidas como sussurros misturados ao ruído ensurdecedor gerado pelas crises que o Senado atravessa. Entre elas ainda se consegue ouvir um ou outro gemido de Alvaro Dias, Jarbas Vasconcelos, Cristovam e do novato Pedro Taques.

O Senado, Instituição que deveria se nutrir da experiência de políticos já testados, está perdido e sem rumo. Ou melhor: acolhe como rumo, ao que indica a tibieza com que enfrenta suas próprias mazelas, o silêncio. Até agora, nada indica que a conformação do gigantesco esquema de corrupção tramado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira vá merecer uma investigação parlamentar da Câmara Alta. E não é por acaso.

A força avassaladora do governo, e sua frouxidão moral, transformaram a luta pela ética na política em uma guerrilha quixotesca movida individualmente por alguns poucos parlamentares. Os que resistem na trincheira são sufocados por seus partidos — estes sim, quase integralmente comprometidos no escopo amplo de legendas abrigadas sob o caixa da contravenção.

Este é o resultado de uma mudança conceitual claramente alimentada pela lassidão moral dos anos de Lula. O ex-presidente atuou deliberadamente para desenhar um complô da imprensa contra o País representado por ele, abençoou as manobras salvacionistas do Sarney dos Atos Secretos e do Renan Calheiros das pensões suspeitas. O Senado de Demóstenes, quase a antítese perfeita do Senado do Mensalão, é produto de uma obra de engenharia cuidadosamente urdida para desacreditar a política. E não é um projeto isolado.

Logo que chegaram ao Palácio do Planalto, os artífices da primeira administração petista botaram em funcionamento uma engrenagem que iria, em quase todas as suas ações, desacreditar a institucionalidade. A estratégia consistia em desconhecer os canais tradicionais de negociação com o Parlamento, mas não apenas isso.

Em vez de conversar com os líderes dos partidos, José Dirceu preferiu comprar votos no varejão das almas congressuais. O sindicalismo brasileiro, que outrora funcionava como uma espécie de alter-ego da sociedade, se rendeu ao dinheiro fácil que escorria dos cofres públicos e reabilitou o peleguismo da Era Vargas. O movimento social, que na entrada da pós-modernidade era saudado como a alternativa ao Estado moderno, acabou se transformando em sinecura da ladroagem.

A imprensa foi demonizada. Em contraposição a ela, criou-se uma falsa “nova mídia”, composta por jornalistas decadentes e publicitários salafrários arregimentados entre a mão-de-obra que se oferecia para locação. Criou-se uma malha de blogues para  assassinar a notícia e os critérios de noticiabilidade. Ao pior estilo goebbeliano,  essa rede passou a transformar mentiras inteiras em meias-verdades palatáveis. Não precisamos chegar ao desplante criminoso de uma Marcos Valério para relembrar como a estratégia foi tramada. Basta puxar pela memória o papel abjeto a que se dispôs a PETROBRAS, que criou um blog para afrontar a cobertura da CPI instalada para investigá-la.

Os novos tempos inaugurados por Lula deixaram cicatrizes indeléveis na institucionalidade e na moralidade. Tiveram o condão de reabilitar condenados (lembre-se da ressurreição de Arruda e Palocci, que afundaram de novo no inferno de suas vidas paralelas) e criar a condição necessária para a que os ratos tomassem conta do navio da República. Aí estão novamente Sarney, Renan, Jim Argello mandando desabusadamente no País, disputando posições nobres e verdadeirmente dirigindo o destino de todos nós.

É apenas nesse contexto que a farsa encarnada pelo personagem parlamentar criado por Demóstenes Torres faz sentido neste momento da história. Demóstenes é um produto perfeito da hipocrisia que domina a política brasileira nos primeiros anos do Século XXI. E o Senado da República, refém da moralidade de bordel que anima o Poder Legislativo, não consegue esboçar uma reação para redimir a política.

Nada disso aconteceu por acaso. Os que planejaram a decadência das Instituições comemoram abertamente. Mas só vão se sentir satisfeitos de verdade quando conseguirem comprovar que estão a salvo também da ação saneadora do Poder Judiciário. Não está longe de acontecer.

Basta que o Supremo Tribunal Federal deixe o Mensalão prescrever.

Saia, Demóstenes, saia!…

A presença de Demóstenes Torres no Senado é uma afronta à dignidade que, embora sofregamente, ainda se esperava que sobrevivesse no Parlamento brasileiro. A pusilanimidade desse senhor só tem paralelo em figuras como José Dirceu, o mentor do Mensalão, o colega de partido José Roberto Arruda e seu conterrâneo Delúbio Soares. Não há outra analogia possível — e ainda assim com muita benevolência.

É enojante ver a decomposição da da aura de candura que ele sustentava ao irradiar as virtudes de vestal enquanto acertava o jabaculê com a contravenção. Durante anos, manteve intacta sua aura pudica, armadura e escudo dos negócios tenebrosos que fazia com seu chefe e corruptor.

Demóstenes Torres bradava a catilinária moralista ao mesmo tempo em que conspirava contra as instituição em favor do jogo do bicho. E ninguém foi capaz de perceber. Talvez porque sua honorabilidade de fachada tenha sido construída a partir de sua origem no Ministério Público.

Foi essa credencial que o ergueu ao pedestal reservado às mais nobres fontes compulsadas pelos jornalistas. Éramos, e me incluo nesse rol de inocentes inúteis, incapazes de distinguir um falsário de um herói,  todos crentes na santidade do fâmulo do crime organizado. Demóstenes, enquanto o ardil durou, era o cara inquestionável, o inquisidor indestrutível, garantia de boas aspas, a própria encarnação do Bem contra o Mal que confrontava na figura de seus alvos.

Jornalistas, quando não são desonestos, são necessariamente iconoclastas e contestadores. O personagem com o qual o impoluto parlamentar se fantasiava servia como uma luva a esse mister. Hoje, à luz de tudo o que já se sabe sobre esse farsante contumaz, posso afirma sem medo de errar que o senador do jogo do bicho e do bingo entendeu melhor os jornalistas do que nós conseguimos entendê-lo.

A despeito dos crimes que perpetrava entre um e outro discurso patriótico, nunca ninguém jamais suspeitou da existência das relações espúrias que, afinal, hoje parecem ter sido sua verdadeira razão de existir. Agora que a Polícia Federal nos apresentou ao verdadeiro Demóstenes Torres, está na hora de fazer-lhe um último pedido: Saia logo, senador.

Sua carreira política morreu junto com a honorabilidade de araque que lhe dava sustentação. Enquanto não renunciar a esse mandato imerecido, questão de horas ou dias, sua presença continuará provocando nos que conviveram com ele uma náusea profunda. Especialmente aos que mantinham com ele uma relação supostamente honesta de fonte de informações.

Para os jornalista, a derrocada moral de Demóstenes não é apenas um problema afeto à cidadania e ao interesse público. É um espelho da nossa própria incompetência, da nossa miserável falta de acuidade para distinguir o que é joio e o que é trigo nesse canteiro de ervas-daninhas em que ele e seus iguais transformaram a política brasileira.

247: Cachoeira e Demóstenes podem ter armado gravação que deu origem ao Mensalão

Marco Damiani, do Brasil 247 – O Mensalão, maior escândalo político dos últimos anos, que pode ser julgado ainda este ano pelo Supremo Tribunal Federal, acaba de receber novas luzes. Elas partem do empresário Ernani de Paula, ex-prefeito de Anápolis, cidade natal do contraventor Carlinhos Cachoeira e base eleitoral do senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

“Estou convicto que Cachoeira e Demóstenes fabricaram a primeira denúncia do mensalão”, disse o ex-prefeito em entrevista ao 247. Para quem não se lembra, trata-se da fita em que um funcionário dos Correios, Maurício Marinho, aparece recebendo uma propina de R$ 5 mil dentro da estatal. A fita foi gravada pelo araponga Jairo Martins e divulgada numa reportagem assinada pelo jornalista Policarpo Júnior. Hoje, sabe-se que Jairo, além de fonte habitual da revista Veja, era remunerado por Cachoeira – ambos estão presos pela Operação Monte Carlo. “O Policarpo vivia lá na Vitapan”, disse Ernani de Paula ao 247.

O ingrediente novo na história é a trama que unia três personagens: Cachoeira, Demóstenes e o próprio Ernani. No início do governo Lula, em 2003, o senador Demóstenes era cotado para se tornar Secretário Nacional de Segurança Pública. Teria apenas que mudar de partido, ingressando no PMDB. “Eu era o maior interessado, porque minha ex-mulher se tornaria senadora da República”, diz Ernani de Paula. Cachoeira também era um entusiasta da ideia, porque pretendia nacionalizar o jogo no País – atividade que já explorava livremente em Goiás.

Segundo o ex-prefeito, houve um veto à indicação de Demóstenes. “Acho que partiu do Zé Dirceu”, diz o ex-prefeito. A partir daí, segundo ele, o senador goiano e seu amigo Carlos Cachoeira começaram a articular o troco.

O primeiro disparo foi a fita que derrubou Waldomiro Diniz, ex-assessor de Dirceu, da Casa Civil. A fita também foi gravada por Cachoeira. O segundo, muito mais forte, foi a fita dos Correios, na reportagem de Policarpo Júnior, que desencadeou todo o enredo do Mensalão, em 2005.

Agora, sete anos depois, na operação Monte Carlo, o jornalista de Veja aparece gravado em 200 conversas com o bicheiro Cachoeira, nas quais, supostamente, anteciparia matérias publicadas na revista de maior circulação do País.

Até o presente momento, Veja não se pronunciou sobre as relações de seu redator-chefe com o bicheiro. E, agora, as informações prestadas ao 247 pelo ex-prefeito Ernani de Paula contribuem para completar o quadro a respeito da proximidade entre um bicheiro, um senador e a maior revista do País. Demonstram que o pano de fundo para essa relação frequente era o interesse de Cachoeira e Demóstenes em colocar um governo contra a parede. Veja foi usada ou fez parte da trama?

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