Os bons meninos

Eliane Cantanhêde

João Paulo Cunha nasceu em Caraguatatuba (SP), de uma família como milhões de outras neste país afora, e foi um menino como milhões de outros neste país afora. Mas embicou na vida pública como muito poucos.

Já em Osasco, para onde foi com a família ainda criança, tornou-se metalúrgico e participou ativamente da Pastoral da Juventude, da mobilização de operários, da fundação do PT. Brandia a ética e a igualdade. Bom menino, bom rapaz.

Tudo mudou quando Lula subiu a rampa do Planalto, o PT deixou de ser oposição e se atirou de corpo e alma aos prazeres e às chances do poder. Sem lastro político nacional, sem verniz intelectual, sem liderança parlamentar, João Paulo deu um salto maior que as pernas: assumiu a presidência da Câmara dos Deputados já no primeiro ano de Lula.

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Festival de condenações

Eliane Cantanhêde

Não houve surpresa em relação à coincidência de votos do ministro Dias Toffoli e do revisor Ricardo Lewandowski, mas os dos novatos Rosa Weber e Luiz Fux desenham um novo horizonte para o julgamento do mensalão pelo Supremo. A previsão passa a ser a de um festival de condenações.

Toffoli e Lewandowski condenam Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil, mas absolvem João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados. Os dois réus são acusados de praticamente a mesma coisa: favorecer os negócios do publicitário Marcos Valério e, simultaneamente, receber boladas de dinheiro não justificadas.

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O sujo e o mal-lavado

Eliane Cantanhêde

Nessa velocidade, o julgamento do mensalão vai atravessar agosto e trafegar em setembro lado a lado com a CPI do Cachoeira e a campanha municipal, que entra num novo ritmo hoje, com o início da propaganda na TV.

Os três tendem a se chocar em outubro, com a reta final do julgamento, a eleição no dia 7 e o relatório da CPI entre o primeiro e o segundo turnos. Não será necessariamente um desastre. Dos escombros, pode surgir um país melhor.

No STF, o relator Joaquim Barbosa já condenou o petista João Paulo Cunha, o ex-diretor do BB Henrique Pizzolato e o publicitário Marcos Valério. Mostrou a que veio.

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Guerra de novelas

Nada como um dia atrás do outro para repor as coisas nos seus devidos lugares.

Num dia, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, declarou que a população não está nem aí para o mensalão e para o julgamento no Supremo. “Está mais voltada para [a novela] ‘Avenida Brasil’ e Olimpíada”, decretou.

No dia seguinte, temos aí números que resgatam a realidade e relativizam a ficção. Segundo o Datafolha, 81% dos cidadãos e cidadãs pesquisados têm conhecimento do que significa mensalão, e 75%, de que o julgamento começou.

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O crível e o incrível

Perfeito que o advogado José Luis Oliveira Lima repila veementemente a acusação da Procuradoria-Geral da República de que seu cliente, José Dirceu, era “chefe da quadrilha” ou “chefe da organização criminosa”.

Mas… só no admirável mundo dos advogados seria possível dizer, com toda a teatralidade cabível, que Dirceu, como chefe da Casa Civil, não mandava nada no PT, não articulava nada, não interferia sequer nas nomeações para cargos públicos.

Sinceramente, essa não dá para engolir, a não ser numa história romanceada do mensalão, em contraponto à que a Procuradoria criou para crianças e que irrita os petistas.

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Quadrilhas e coautores

Eliane Cantanhêde

A estreia não deixa dúvidas: além dos réus do mensalão, estarão em julgamento também os onze ministros do Supremo. Sem falar no constrangimento da participação de Dias Toffoli.

Ao tentar “ressuscitar” (o verbo é do ex-presidente Cezar Peluso) a tese do desmembramento, talvez o advogado Márcio Thomaz Bastos não quisesse, de fato, que os três deputados federais fossem julgados pelo Supremo, e os demais 35 réus, pela primeira instância. Talvez sua intenção fosse protelar o processo e mostrar quem é quem na corte.

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Sorrisos amarelos

Eliane Cantanhêde

Não se sabe se é para rir ou para chorar, mas o que os candidatos e os principais líderes e candidatos do PT vão fazer durante todo o mês de agosto, enquanto o julgamento do mensalão vai expor ao país os podres do partido? Aliás, quando se fala dos principais líderes, fala-se dos atuais. Os antigos encabeçam a lista de 38 réus.

Lula saiu da toca ontem, a três dias do início do julgamento, como quem não quer nada: não viu, não ouviu, não soube nem quer saber. Num hotel em São Paulo, tirou fotos com mais de cem candidatos de cidades consideradas prioritárias pelo PT. Depois do clique coletivo, os individuais -de 30 segundos a um minuto para cada um.

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“Apareça e cresça”

Eliane Cantanhêde

Ao pinçar Fernando Haddad, Lula quer repetir Paulo Maluf com Celso Pitta, em 1996, e José Serra com Gilberto Kassab, em 2008, na eleição para a Prefeitura de São Paulo. Além de reviver a vitória de Dilma para o Planalto, em 2010.

Em junho de 1996, Luiza Erundina era a favorita, com 32%, seguida por Serra, com 20%. Mas quem se elegeu foi Pitta, que tinha então apenas 11%.

Em julho de 2008, Marta Suplicy liderava as pesquisas com 38%, seguida por Geraldo Alckmin, com 31%. Ganhou Kassab, então com 13%.

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PT desde criancinha

ELIANE CANTANHÊDE

Desde que a ministra Ideli Salvatti declarou que Dilma Rousseff não se meteria nas eleições municipais, a presidente não faz outra coisa. Com PT, PSB e PMDB disputando chapas e espaço a cotoveladas, ela entrou firmemente para preservar o equilíbrio do principal tripé de sustentação do governo.

Quando Dilma se reuniu com PT e PSB, dois de cada lado -os petistas Ideli e Paulo Bernardo e os socialistas Eduardo Campos e Cid Gomes-, as orelhas do PMDB arderam.

Mas, quando ela chamou em seguida PT e PMDB -Rui Falcão, presidente petista, e Michel Temer, o vice-presidente-, foram as orelhas do PSB que arderam. E muito.

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Central Única dos Aloprados?

Tem alguma coisa invertida nessa história: a maior central sindical do país não se mobilizou para protestar contra nenhum dos escândalos e escandalosos nacionais pós-2003 e agora fala em “ataque à democracia”, ameaçando “ir às ruas” para defender os réus do mensalão. Dá para entender?

Segundo o atual presidente da CUT, Artur Henrique, “o ataque à democracia” que ocorreu no Paraguai pode se repetir no Brasil: “Ou não foi isso que tentaram neste país em 2005? Ou não tentaram depor e derrubar o presidente Lula com o apoio da imprensa?”, disse ele ontem, no congresso da central. E decretou: “Não vamos permitir a volta dos tucanos, do PSDB”.

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Inferno astral

Ao abandonar o PT depois de mais de 20 anos de militância, o deputado federal Maurício Rands, um dos bons quadros do Congresso, confirmou que o partido vive um inferno astral.

Rands saiu atirando contra a cúpula nacional, pela “pretensão de impor, a partir de São Paulo, um candidato à Frente Popular e ao povo de Recife”. E se aliou ao PSB.

Além de irritar petistas e socialistas, a fome do PT e a vontade de comer do governador Eduardo Campos explodiram a aliança do PT com o PSB em capitais importantes: Belo Horizonte, Recife e Fortaleza.

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Braços dados com o poder

Eliane Cantanhêde

O PSD do prefeito Gilberto Kassab passa, desde ontem, a ter direitos e prerrogativas e a pesar no tabuleiro partidário e eleitoral.

O Supremo decidiu que os deputados federais de novos partidos valem para a contagem do tempo de TV e para o rateio do Fundo Partidário. Evita, assim, um estouro da boiada no PSD antes da eleição municipal e abre uma promissora janela para a formação de novas siglas -em tese, até para um novo quadro partidário.

O PSD é a quarta maior bancada da Câmara, com 48 deputados. Em vez de 54 segundos, passa a ter (ou a ceder aos candidatos aliados) dois minutos e dois segundos no rádio e na TV. E, em vez de R$ 43 mil, terá R$ 1,6 milhão mensais do Fundo Partidário. Tudo à custa das sete legendas que perderam quadros para ele, principalmente o DEM.

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Isolamento calculado

Eline Cantanhêde

A Argentina está na presidência do Mercosul, será a anfitriã da reunião do bloco com associados na próxima sexta e aproveita a crise no Paraguai para sair em desabalada carreira em busca de protagonismo regional.

Cristina Kirchner tem sido cada vez mais chavista e menos lulista (ou seja, mais radical, menos negociadora), e adere ao eixo Venezuela-Equador-Bolívia justamente quando ele parece mais vulnerável. Confronta a imprensa, bate de frente com a Espanha, assusta os já parcos investimentos internacionais. Mas Cristina não está com essa bola toda: a economia vai mal, as greves pipocam.

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Eliane Cantanhêde: O crime compensa?

Há uma enorme perplexidade, sobretudo em Brasília, diante dos sucessivos erros de Lula depois de sair da Presidência e assistir, da planície, ao sucesso de Dilma no Planalto e nas pesquisas.

A aliança de Lula com Paulo Maluf, porém, tem uma lógica eleitoral (certa ou errada) e combina perfeitamente com todos os movimentos de Lula durante seus oito anos na Presidência, resumidos numa frase: vale tudo pelo poder.

Ao juntar-se a Maluf e anunciar a aliança no ‘bunker’ malufista, diante de uma multidão de fotógrafos, Lula sobrepôs o que considera ganhos eleitorais (quantitativos) a inevitáveis perdas políticas (qualitativas).

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“Por amor a São Paulo”

Eliane Cantanhêde

Acabo de voltar de uma semana a Curaçao e leio, ouço, vejo as fotos de Maluf e Lula, com Fernando Haddad no meio, e me sinto como o personagem Sebá, o último exilado político, que ouvia pelo telefone as piores notícias sobre o Brasil e tascava para a mulher: “Tu não queres que eu volte!”.

O petista Haddad abraçado ao PSB, que, de socialista, cada dia tem menos, e, do outro lado, ao PP de Maluf, que foi o inimigo nº 1 da sociedade e tem uma folha corrida internacional. O tucano José Serra de braços dados com o PV, de discurso bonito e de prática nem tanto, e, do outro lado, com o PR de Alfredo Nascimento, que saiu escorraçado dos Transportes na tal “faxina ética”.

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É agora, mas logo agora?

Eliane Cantnhêde

Se Lula pretendia mesmo adiar o julgamento do mensalão, pode ter conseguido exatamente o oposto depois do vazamento de seu, digamos, curioso encontro com o ministro Gilmar Mendes.

Tomado em brios, o Supremo decidiu por unanimidade iniciar o julgamento em 1º de agosto e, assim, dar uma prensa no revisor Ricardo Lewandowski, que está sentado em cima do processo há meses. Queira ou não, vai ter de apresentar seu parecer até o fim deste mês.

Derrota de Lula e do PT, pois confirmou-se a pior previsão para o partido: a coincidência do julgamento do maior escândalo do governo Lula com a campanha eleitoral.

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Mão pesada

ELIANE CANTANHÊDE

Todos os prefeitos, governadores e presidentes em primeiro mandato têm, com raras exceções, o direito, ou o privilégio, de concorrer à reeleição. Menos o prefeito de Recife, João da Costa, do PT.

Parte do PT, parte da Frente Popular e a cúpula nacional petista alegam que sua gestão é mal avaliada e que ele, apesar do cargo, está praticamente empatado com o ex-governador Mendonça Filho, do DEM.

Esquecem-se de que João da Costa lidera, na prática, as pesquisas e que, nas últimas eleições, Mendonça sempre largou bem, mas não levou.

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Marta

ELIANE CANTANHÊDE

Linda, rica, inteligente, cheia de sobrenomes próprios e adquiridos, Marta Suplicy emprestou por 30 anos esse pacote paulistano quatrocentão para ajudar a edificar o PT e a ascensão de Lula.

Mas, se Marta sempre gostou de Lula e foi fiel a ele, não se pode dizer que a recíproca seja totalmente verdadeira. Lula nunca morreu de amores por esta mulher tão poderosa, cheia de si, que empurrou para o Turismo no seu governo.

Essa diferença explodiu na eleição para a Prefeitura de São Paulo. Com 29% a 30% em setembro, Marta liderava todas as pesquisas, em todos os segmentos, mas Lula estava inebriado com a vitória de sua criatura Dilma e decidiu que era hora do “novo” também na principal capital do país.

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Tchutchucas e tigrões

ELIANE CANTANHÊDE

Além de demonstrar fina cultura geral, o deputado Fernando Francischini (PSDB) resumiu bem a CPI do Cachoeira ao dizer que o relator Odair Cunha (PT) é “tchutchuca” quando fala do governador do DF, o petista Agnelo Queiroz, e vira “tigrão” quando os alvos são a construtora Delta e o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo.

Gostei dessa. Só não acho justo discriminar o relator, porque esta é a regra na CPI: os petistas são todos “tchutchucas” com os envolvidos do PT e “tigrões” contra os da oposição, enquanto os tucanos são “tchutchucas” com o cada vez mais enrolado Perillo e “tigrões” com Agnelo.

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A verdadeira CPI

Eliane Cantanhêde

Enquanto a CPI do Cachoeira é (seria) para investigar um esquema mafioso de um empresário-bicheiro, a Lei de Acesso à Informação pode se transformar numa imensa CPI sobre os três Poderes e todos os últimos governos -o de Fernando Henrique, o de Lula e este início de Dilma. O que pode sair de “surpresas” não é fácil!

Lula até tentou, mas não colou a ideia de criar a CPI do Cachoeira para jogar as já tontas e frágeis oposições nas cordas. A comissão se transformou num espetáculo de mau gosto não só para o PSDB e o DEM, mas também para o PT, o aliado PMDB e governadores aliados ao Planalto. Um aborrecimento para Dilma.

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A ferida

Eliane Cantanhêde

O depoimento de Xuxa ao “Fantástico” é uma das peças mais contundentes da TV brasileira, porque ela é quem é e cutucou profundas feridas para tratar de um problema gravíssimo e bem mais comum do que se pensa: o abuso sexual de crianças e adolescentes. E onde deveriam estar mais protegidas: em casa e na escola.

“Eu tinha vergonha, me calava, me sentia mal, me sentia suja, me sentia errada”, disse Xuxa, ao relatar que sofreu abusos do melhor amigo do pai, do homem que casaria com a sua avó e de um professor. Eles tinham a aura da autoridade, o acesso à casa e a confiança da família. Aproveitaram-se disso e da vulnerabilidade da menina Xuxa. Como enfrentá-los? Como desmascará-los?

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Fatos e fitas

ELIANE CANTANHÊDE

Se alguém está entendendo a aliança entre Fernando Collor e o PT para transformar a CPI do Cachoeira em CPI da imprensa, por favor, explique. “Se a mídia quer guerra, vai ter guerra”, ameaça um senador petista, segundo o Painel. Afinal, quem quer guerra?

O impeachment de Collor foi por causa da imprensa, do PT ou dos dois? Será que ele não tinha culpa no cartório nem ficou isolado no Congresso e na sociedade?

O mensalão foi fruto da imaginação coletiva da imprensa? Ninguém estava comprando e vendendo votos no Congresso e nos partidos? E nunca houve “aloprados”?

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