Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

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Os bons meninos

Eliane Cantanhêde

João Paulo Cunha nasceu em Caraguatatuba (SP), de uma família como milhões de outras neste país afora, e foi um menino como milhões de outros neste país afora. Mas embicou na vida pública como muito poucos.

Já em Osasco, para onde foi com a família ainda criança, tornou-se metalúrgico e participou ativamente da Pastoral da Juventude, da mobilização de operários, da fundação do PT. Brandia a ética e a igualdade. Bom menino, bom rapaz.

Tudo mudou quando Lula subiu a rampa do Planalto, o PT deixou de ser oposição e se atirou de corpo e alma aos prazeres e às chances do poder. Sem lastro político nacional, sem verniz intelectual, sem liderança parlamentar, João Paulo deu um salto maior que as pernas: assumiu a presidência da Câmara dos Deputados já no primeiro ano de Lula.

O início do fim. Trocou o passado de lutas e o futuro promissor por um vício: a embriaguez do poder, em que “os fins justificam os meios”. Quis ser tudo, virou nada. Ontem, o Wikipédia já dizia que João Paulo Cunha “foi” um político brasileiro.

Sua condenação pelo Supremo Tribunal Federal, por contundentes 9 a 2, entra para a história como o fim de uma era. Vai-se a impunidade, vem a responsabilidade. A Câmara dos Deputados, o Banco do Brasil, a Petrobras, a Presidência da

República -as instituições, enfim- não têm donos, ou dono. São do Estado e servem à nação.

Isso vale para o Supremo, até mais do que para todas as demais. Lê-se que Lula está triste, acabrunhado, por sentir-se “traído”. Dos 11 ministros (incluindo Peluso), 8 foram colocados ali nos governos petistas e só 2 votaram pela absolvição de João Paulo -por extensão, do PT.

A corte suprema não vota mais com os poderosos, pelos poderosos. Julga com a lei, pela justiça. Inaugura, assim, um novo Brasil.

Bons meninos terão de se comportar sempre como bons cidadãos.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Os bons meninos – 02/09/2012.

Festival de condenações

Eliane Cantanhêde

Não houve surpresa em relação à coincidência de votos do ministro Dias Toffoli e do revisor Ricardo Lewandowski, mas os dos novatos Rosa Weber e Luiz Fux desenham um novo horizonte para o julgamento do mensalão pelo Supremo. A previsão passa a ser a de um festival de condenações.

Toffoli e Lewandowski condenam Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil, mas absolvem João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados. Os dois réus são acusados de praticamente a mesma coisa: favorecer os negócios do publicitário Marcos Valério e, simultaneamente, receber boladas de dinheiro não justificadas.

Já Rosa Weber e Luiz Fux, tidos até ontem como incógnitas, condenam tanto Pizzolato quanto João Paulo – deputado federal do PT e único candidato às eleições de outubro entre os 38 réus-, induzindo à impressão de uma condenação generalizada. Os “neutros” pesaram para o lado da condenação na balança do Supremo.

Cármen Lúcia também votou pela condenação, mas isso era previsível. Ela não era listada como “neutra” nem como “interrogação”. Apesar de muito discreta, a ministra é considerada técnica, concisa e dura. Foi exatamente assim que ela votou ontem.

Além de Cármen Lúcia, de Rosa Weber e de Luiz Fux, imagina-se, entre quem acompanha tudo de perto, que seguirão na mesma linha os ministros mais antigos, como Celso de Mello, Gilmar Mendes e Marco Aurélio, o presidente, Ayres Britto, e o seu antecessor, Cezar Peluso (que só vota até a próxima sexta-feira).

Com Joaquim Barbosa, são 9 dos 11 votos, e a própria declaração do advogado Márcio Thomaz Bastos -de que prisões, se houver, só no próximo ano- já foi compreendida como reconhecimento prévio de derrota.

A grande dúvida é se essa tendência será ou não mantida até o capítulo mais crucial: o julgamento do “núcleo político”, que ficará por último. Pelas manifestações de ontem, ninguém ali vai escapar.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Festival de condenações – 28/08/2012.

O sujo e o mal-lavado

Eliane Cantanhêde

Nessa velocidade, o julgamento do mensalão vai atravessar agosto e trafegar em setembro lado a lado com a CPI do Cachoeira e a campanha municipal, que entra num novo ritmo hoje, com o início da propaganda na TV.

Os três tendem a se chocar em outubro, com a reta final do julgamento, a eleição no dia 7 e o relatório da CPI entre o primeiro e o segundo turnos. Não será necessariamente um desastre. Dos escombros, pode surgir um país melhor.

No STF, o relator Joaquim Barbosa já condenou o petista João Paulo Cunha, o ex-diretor do BB Henrique Pizzolato e o publicitário Marcos Valério. Mostrou a que veio.

Na CPI, o relator Odair Cunha (PT) vai apresentar o seu voto entre o primeiro e o segundo turno das eleições, que tende a ser entre o tucano José Serra e o petista Fernando Haddad, em São Paulo. E, se o mensalão expõe os podres do PT, da campanha e do governo Lula, o troco pode vir da CPI, mostrando que os do PSDB não são diferentes.

O principal alvo político da CPI e, portanto, do relatório de Cunha, é o governador tucano Marconi Perillo (GO). O petista Agnelo Queiroz (DF)? Nem se fala mais nisso. A Delta nacional? Fica para uma outra CPI, se houver.

No mínimo, requentar e jogar na roda eleitoral tudo o que se atribui a Perillo na CPI servirá para calar os candidatos do PSDB que ousem recorrer ao mensalão na campanha, fingindo que o mensalão tucano de Minas não existiu. Se não calar, pode maneirar o tom da oposição.

Com o julgamento do mensalão fragilizando o PT, e a CPI constrangendo o PSDB, a interrogação é como e se os dois, digamos, “acidentes de percurso” serão usados contra os adversários nos palanques e na TV. Os tucanos vão usar o julgamento contra os petistas? E os petistas vão usar a CPI contra os tucanos?

É improvável, mas não faltam sujos falando de mal-lavados.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – O sujo e o mal-lavado – 21/08/2012.

Guerra de novelas

Nada como um dia atrás do outro para repor as coisas nos seus devidos lugares.

Num dia, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, declarou que a população não está nem aí para o mensalão e para o julgamento no Supremo. “Está mais voltada para [a novela] ‘Avenida Brasil’ e Olimpíada”, decretou.

No dia seguinte, temos aí números que resgatam a realidade e relativizam a ficção. Segundo o Datafolha, 81% dos cidadãos e cidadãs pesquisados têm conhecimento do que significa mensalão, e 75%, de que o julgamento começou.

É verdade que todo mundo fala da novela e da Olimpíada, mas o mensalão também é bem popular.

A Olimpíada desvia a atenção do mensalão, ou o mensalão é que desvia a atenção da Olimpíada? No mínimo, os dois dividem olhares e emoções pelo país inteiro.

O julgamento mal começou, falta a defesa oral de boa parte dos réus e o ministro relator, Joaquim Barbosa, nem proferiu ainda o seu voto, mas o Datafolha mostra que as pessoas já até tiraram suas próprias conclusões.

Sobre o eixo central do debate, 82% se dizem convencidos de que o esquema era de compra de votos de parlamentares, como acusa a Procuradoria-Geral da República -e não apenas de caixa dois, como defendem os réus e seus advogados.

A maioria dos ouvidos, 73%, acha que os acusados devem ser condenados e presos. Poucos, 14%, que devem ser condenados, mas não presos. Só 5% defendem absolvição.

Os que não sabem responder são 8%. Pode ser desinformação, mas parece a resposta mais racional, já que dados e versões ainda estão sendo confrontados e processados pelos reais juízes.

Dado fundamental: se 73% defendem condenação e prisão, a maioria (43%) acha que todos serão absolvidos. Bem, aí já é um outro problema: a descrença nas instituições.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Guerra de novelas – 12/08/2012.

O crível e o incrível

Perfeito que o advogado José Luis Oliveira Lima repila veementemente a acusação da Procuradoria-Geral da República de que seu cliente, José Dirceu, era “chefe da quadrilha” ou “chefe da organização criminosa”.

Mas… só no admirável mundo dos advogados seria possível dizer, com toda a teatralidade cabível, que Dirceu, como chefe da Casa Civil, não mandava nada no PT, não articulava nada, não interferia sequer nas nomeações para cargos públicos.

Sinceramente, essa não dá para engolir, a não ser numa história romanceada do mensalão, em contraponto à que a Procuradoria criou para crianças e que irrita os petistas.

Quanto às audiências de Dirceu com banqueiros e empresários no Palácio do Planalto (“entre quatro paredes”…), Oliveira Lima disse que eram parte do trabalho do então ministro. Mas não explicou onde Delúbio Soares, Sílvio Pereira e Marcos Valério se encaixavam.

Chefes da Casa Civil, de fato, recebem em palácio representantes de bancos e de empresas, mas ao lado do tesoureiro do partido e do presidente? Com o secretário-geral desse partido? E o que fazia Marcos Valério no Planalto com as cúpulas de dois bancos diferentes?! É juntar alhos com bugalhos ou… ah, deixa prá lá.

Já o advogado de José Genoíno, Luiz Fernando Pacheco, lembrou, com propriedade, que seu cliente está longe de ser um homem rico e, ao contrário, tem uma vida até modesta. Mas caiu numa contradição: disse, primeiro, que o mensalão é “inventado e fantasioso” e, ao final, que Genoíno foi “arrastado pela irresponsabilidade de alguns”. “Irresponsabilidade” é tradução para mensalão?

Os quatro advogados de ontem contaram uma mesma história, com um mesmo enredo, variando apenas quanto à importância dos personagens -ou clientes. No fim, todos induziram à mesma conclusão: foi tudo caixa dois. E a culpa é do Delúbio? Os 11 ministros podem ou não acreditar.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – O crível e o incrível – 07/08/2012.

Quadrilhas e coautores

Eliane Cantanhêde

A estreia não deixa dúvidas: além dos réus do mensalão, estarão em julgamento também os onze ministros do Supremo. Sem falar no constrangimento da participação de Dias Toffoli.

Ao tentar “ressuscitar” (o verbo é do ex-presidente Cezar Peluso) a tese do desmembramento, talvez o advogado Márcio Thomaz Bastos não quisesse, de fato, que os três deputados federais fossem julgados pelo Supremo, e os demais 35 réus, pela primeira instância. Talvez sua intenção fosse protelar o processo e mostrar quem é quem na corte.

Por 9 a 2 os ministros decidiram o óbvio: a questão já havia sido votada pelo tribunal. Mas eles expuseram fragilidades. Rompantes e termos inadequados do relator Joaquim Barbosa não são novidade. O que surpreendeu foi o voto do revisor Ricardo Lewandowski, por escrito e longuíssimo, para corroborar a tese da defesa, pelo desmembramento.

Essa polaridade Joaquim-Lewandowski certamente permeará todo o julgamento -que vai longe.

Joaquim considerou “irresponsável” discutir o desmembramento mais uma vez, acusou Lewandowski de “deslealdade” e disse que tudo isso poderia afetar “a legitimidade do processo” e a própria “credibilidade da corte”. Destempero inútil.

O presidente Ayres Britto demorou a aprumar. Apesar de prometerem que seriam sucintos, Gilmar Mendes e Celso de Mello deram aula ao vivo. Marco Aurélio, como sempre, provocador. Rosa Weber, Cármen Lúcia e Luiz Fux, rápidos, despretensiosos.

Em bom português, Peluso argumentou que é impossível julgar coautorias e quadrilhas com os réus pulverizados em instâncias diferentes. Não estão em julgamento atos isolados de um Dirceu, de um Delúbio, mas, sim, todo um intrincado esquema em que cada um e todos tinham responsabilidade.

PS – Apesar de Padilha (Saúde) dizer que Marta Suplicy gravou para o programa de Haddad, ela nega.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Quadrilhas e coautores – 03/08/2012.

Sorrisos amarelos

Eliane Cantanhêde

Não se sabe se é para rir ou para chorar, mas o que os candidatos e os principais líderes e candidatos do PT vão fazer durante todo o mês de agosto, enquanto o julgamento do mensalão vai expor ao país os podres do partido? Aliás, quando se fala dos principais líderes, fala-se dos atuais. Os antigos encabeçam a lista de 38 réus.

Lula saiu da toca ontem, a três dias do início do julgamento, como quem não quer nada: não viu, não ouviu, não soube nem quer saber. Num hotel em São Paulo, tirou fotos com mais de cem candidatos de cidades consideradas prioritárias pelo PT. Depois do clique coletivo, os individuais -de 30 segundos a um minuto para cada um.

Enquanto isso, Dilma cuidava dos preparativos finais da cerimônia da entrada triunfal da Venezuela no Mercosul, que será hoje, em Brasília, com Hugo Chávez estrelando e com participações especiais de Cristina Kirchner e José Mujica. Foto para as primeiras páginas nos jornais da véspera do julgamento histórico. Aliás, como seria mensalão em espanhol? El mensalón? Chávez vai dizer que el mensalón nunca existiu?

E os candidatos, como é que vão se virar? Fernando Haddad, em São Paulo, precisa muito aparecer, para poder crescer e sair dos atuais 7% das pesquisas antes do início do horário eleitoral gratuito -que é sua grande chance, ou grande esperança.

Mas como vai aparecer, com o noticiário tomado por entrevistas e documentos de procuradores, advogados, réus? Difícil alguém se interessar por programa fajuto de candidato com um filmaço desses na TV, dia e noite. O mensalão é como um fantasma que paira não só sobre o governo Lula, mas, especialmente agora, sobre a foto de Lula com candidatos, das gentilezas de Dilma com Chávez, das pedaladas de Haddad, às voltas com “um chopes e dois pastel” num bairro onde ele nunca pisara antes.

Agosto começa com Lula, Dilma e Haddad se esforçando para sorrir. Mas sorrindo amarelo.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Sorrisos amarelos – 31/07/2012.

“Apareça e cresça”

Eliane Cantanhêde

Ao pinçar Fernando Haddad, Lula quer repetir Paulo Maluf com Celso Pitta, em 1996, e José Serra com Gilberto Kassab, em 2008, na eleição para a Prefeitura de São Paulo. Além de reviver a vitória de Dilma para o Planalto, em 2010.

Em junho de 1996, Luiza Erundina era a favorita, com 32%, seguida por Serra, com 20%. Mas quem se elegeu foi Pitta, que tinha então apenas 11%.

Em julho de 2008, Marta Suplicy liderava as pesquisas com 38%, seguida por Geraldo Alckmin, com 31%. Ganhou Kassab, então com 13%.

O que fez toda a diferença para a vitória de Dilma, de Pitta e de Kassab? Responde Mauro Paulino, do Datafolha: a combinação da propaganda eleitoral gratuita com a “descoberta”, pelo eleitor, de que Lula, Maluf e Serra, respectivamente, estavam por trás dos candidatos, eram seus padrinhos. Pitta disparou para 43%, Kassab venceu com 31%.

A história das eleições também registra fenômenos opostos, como Francisco Rossi em 1996 e Maluf em 2004. Os dois foram estrelas cadentes: brilharam muito, mas rápido, e chegaram ao final com metade do que tinham antes da TV.

Por enquanto, Haddad e Chalita pedalam pela cidade para fortalecer a imagem do “novo”, Russomanno cai, literal e sintomaticamente, da bicicleta e se arranha todo, Serra passa vexame ao dar uma de garotão num skate e Soninha reclama de falta de espaço. Em vez de “cresça e apareça”, os candidatos estão na fase de “apareça e cresça”.

Deveriam, porém, descer de suas bikes e skates para discutir o que realmente interessa. Exemplo: os dados de ontem da Secretaria da Segurança sobre homicídios no Estado e na capital, péssimos para Alckmin e Kassab. Logo, para Serra.

O debate não é sobre quem é novo ou velho, nem sobre quem é padrinho de quem, mas sobre o candidato com reais condições de combater esse quadro de calamidade. Se não é, deveria ser. Pitta e Kassab estão aí para contar essa história.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – “Apareça e cresça” – 26/07/2012.

PT desde criancinha

ELIANE CANTANHÊDE

Desde que a ministra Ideli Salvatti declarou que Dilma Rousseff não se meteria nas eleições municipais, a presidente não faz outra coisa. Com PT, PSB e PMDB disputando chapas e espaço a cotoveladas, ela entrou firmemente para preservar o equilíbrio do principal tripé de sustentação do governo.

Quando Dilma se reuniu com PT e PSB, dois de cada lado -os petistas Ideli e Paulo Bernardo e os socialistas Eduardo Campos e Cid Gomes-, as orelhas do PMDB arderam.

Mas, quando ela chamou em seguida PT e PMDB -Rui Falcão, presidente petista, e Michel Temer, o vice-presidente-, foram as orelhas do PSB que arderam. E muito.

Note-se que Dilma convocou o PT para as duas, mas não colocou juntos, lado a lado, olho no olho, o PSB e o PMDB. Isso sugere que: 1) Dilma tomou partido, literalmente, do PT; 2) o embate direto era entre PT e PSB, por conta de Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, mas Eduardo Campos desviou o alvo para o PMDB.

Campos só recuou por perceber que foi longe demais ao peitar o PT. Ao lançar candidato do PSB contra o petista Humberto Campos em Recife, irritou Lula. Ao fechar com o PSDB e empurrar o PT para a candidatura própria de Patrus Ananias em Belo Horizonte, pisou nos calos de Dilma.

Tão acusada de “não ser do ramo”, ela foi rápida e eficaz. Chamou Temer numa segunda-feira para pedir ajuda em Belo Horizonte e, na terça, tudo estava resolvido: o PMDB retirou seu candidato, apoiou o petista Patrus e tornou a campanha mais equilibrada no Estado que, afinal, é o Estado natal da presidente.

O principal resultado dos movimentos e da ambição precoce de Eduardo Campos é que o PSB desceu e o PMDB subiu na avaliação de Dilma. Campos se afastou e Temer se aproximou mais dela.

Mas o mais importante de tudo isso é registrar que Dilma nunca foi tão petista quanto agora, apesar de não se meter, aí sim, no PT de São Paulo.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – PT desde criancinha – 13/07/2012.

Central Única dos Aloprados?

Tem alguma coisa invertida nessa história: a maior central sindical do país não se mobilizou para protestar contra nenhum dos escândalos e escandalosos nacionais pós-2003 e agora fala em “ataque à democracia”, ameaçando “ir às ruas” para defender os réus do mensalão. Dá para entender?

Segundo o atual presidente da CUT, Artur Henrique, “o ataque à democracia” que ocorreu no Paraguai pode se repetir no Brasil: “Ou não foi isso que tentaram neste país em 2005? Ou não tentaram depor e derrubar o presidente Lula com o apoio da imprensa?”, disse ele ontem, no congresso da central. E decretou: “Não vamos permitir a volta dos tucanos, do PSDB”.

Seu sucessor, Vagner Freitas, avisou, antes mesmo de assumir, que está de olho no julgamento do mensalão: “Não pode ser um julgamento político. Se isso ocorrer, iremos às ruas”, disse, pronto para uma guerra, como se estivesse de dedo em riste na cara do Supremo Tribunal Federal.

São deveras curiosos esses arroubos democráticos, mas vamos ao que mais interessa: as greves. Sem falar no setor privado, os professores de universidades federais estão parados há um mês e meio e funcionários de 12 órgãos federais cruzaram os braços. Dilma acaba de mandar cortar o ponto dos faltosos. E isso não é nada, perto do que vem por aí.

A data-base de algumas das categorias mais poderosas, como metalúrgicos, químicos, petroleiros, bancários e carteiros, é no segundo semestre, a partir justamente de agosto -que vem a ser o mês do julgamento do mensalão. Vai ficar animado.

A dúvida, hoje, é se a CUT vai para as ruas a favor dos mensaleiros de Lula, contra o Supremo, ou se vai a favor dos trabalhadores, contra Dilma. Em última instância: a favor de Lula e contra Dilma?

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Central Única dos Aloprados? – 10/07/2012.

Inferno astral

Ao abandonar o PT depois de mais de 20 anos de militância, o deputado federal Maurício Rands, um dos bons quadros do Congresso, confirmou que o partido vive um inferno astral.

Rands saiu atirando contra a cúpula nacional, pela “pretensão de impor, a partir de São Paulo, um candidato à Frente Popular e ao povo de Recife”. E se aliou ao PSB.

Além de irritar petistas e socialistas, a fome do PT e a vontade de comer do governador Eduardo Campos explodiram a aliança do PT com o PSB em capitais importantes: Belo Horizonte, Recife e Fortaleza.

Campos anda caladão, mas o deputado e ex-ministro Ciro Gomes, também do PSB, disse em entrevista publicada ontem o que Roberto Jefferson já dizia ao denunciar o mensalão, e o PMDB, o PDT e o PC do B dizem em privado: “O PT quer vassalagem. Eles só querem o ‘vem a nós’”.

Luiza Erundina, do PSB, se rebelou e renunciou à vice na chapa do PT depois da foto do cafuné de Maluf no candidato de Lula em São Paulo, Fernando Haddad, já abandonado pela petista Marta Suplicy.

Dilma não gosta desse tipo de política, tem desprezo pelos políticos e mandou dizer que não vai participar da campanha. Acredite no recado quem quiser, porque ela será o grande trunfo de Haddad em São Paulo e já está metida até o pescoço na crise PT-PSB. Até porque é o pescoço dela em 2014 que está em jogo.

BH é um bom “case”: o PT lança Patrus Ananias; Aécio fica com a reeleição de Márcio Lacerda, do PSB; Kassab, que apoia Serra em São Paulo, negocia com Dilma a adesão do PSD a Patrus; o PSD local dá de ombros e fica com Aécio-Lacerda.

Nessa lambança governista, o PMDB fala pouco e age muito. Onde o PSB se afasta do PT, o PMDB se aproxima. Onde Eduardo Campos assusta, Michel Temer acalma. Política é para profissionais.

Ah! E o julgamento do mensalão no Supremo nem começou…

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Inferno astral – 06/07/2012.

Braços dados com o poder

Eliane Cantanhêde

O PSD do prefeito Gilberto Kassab passa, desde ontem, a ter direitos e prerrogativas e a pesar no tabuleiro partidário e eleitoral.

O Supremo decidiu que os deputados federais de novos partidos valem para a contagem do tempo de TV e para o rateio do Fundo Partidário. Evita, assim, um estouro da boiada no PSD antes da eleição municipal e abre uma promissora janela para a formação de novas siglas -em tese, até para um novo quadro partidário.

O PSD é a quarta maior bancada da Câmara, com 48 deputados. Em vez de 54 segundos, passa a ter (ou a ceder aos candidatos aliados) dois minutos e dois segundos no rádio e na TV. E, em vez de R$ 43 mil, terá R$ 1,6 milhão mensais do Fundo Partidário. Tudo à custa das sete legendas que perderam quadros para ele, principalmente o DEM.

Em São Paulo, não há mudança objetiva para José Serra (PSDB), pois ele ganha do PSD, basicamente, o tempo de TV que perde do DEM. Mas há efeitos políticos: Kassab e o PSD têm agora armas para guerrear contra a chapa puro-sangue (tucano-tucano) e disputar a vice.

A aliança Serra-Kassab parece uma soma de rejeições, mas é também de interesses. Nos 45 dias de TV, o PT será algoz de Kassab, e Serra, o seu grande advogado. Kassab espera sair da eleição com mais popularidade do que entrou, dê no que dê. A ver.

Mas os efeitos mais diretos do PSD continuam sendo sobre o minguado DEM, e quem mais perde são os candidatos Rodrigo Maia e ACM Neto. O PSD apoia o PMDB de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, no Rio, e o PT de Jaques Wagner e Nelson Pellegrino, em Salvador. Qual o critério? A ideologia do poder: o bebê PSD vem ao mundo de olho vivo, só se alia com quem tem mais chances de ganhar.

Aliás, Jorge Bornhausen se encontrou ontem com Eduardo Paes, e a senadora Kátia Abreu (TO) desceu a rampa no Planalto de braços dados com Dilma. Bornhausen é mentor e Kátia é a cara do PSD.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Braços dados com o poder – 29/06/2012.

Isolamento calculado

Eline Cantanhêde

A Argentina está na presidência do Mercosul, será a anfitriã da reunião do bloco com associados na próxima sexta e aproveita a crise no Paraguai para sair em desabalada carreira em busca de protagonismo regional.

Cristina Kirchner tem sido cada vez mais chavista e menos lulista (ou seja, mais radical, menos negociadora), e adere ao eixo Venezuela-Equador-Bolívia justamente quando ele parece mais vulnerável. Confronta a imprensa, bate de frente com a Espanha, assusta os já parcos investimentos internacionais. Mas Cristina não está com essa bola toda: a economia vai mal, as greves pipocam.

O Brasil corre atrás na crise do Paraguai, tentando uma “ação pedagógica”, não uma declaração de guerra: nem deixar a deposição de Lugo passar em branco, até para não estimular golpismos por aí afora, nem asfixiar o país vizinho, já tão sofrido.

Enquanto os chavistas retiram seus embaixadores de Assunção, e Chávez já corta o fornecimento de petróleo, o Brasil chama o embaixador Eduardo Santos para consultas e adia qualquer sanção prática para a reunião de sexta. Defende soluções conjuntas, não isoladas e afoitas, como as venezuelanas.

Dilma não irá a Mendoza com ganas de jogar o novo governo Federico Franco na lona, mas disposta a aplicar, além da “ação pedagógica”, um “isolamento calculado” até as eleições de abril de 2013. Leia-se: ela quer um Paraguai isolado politicamente, mas funcionando economicamente. Não só para preservar os paraguaios, mas principalmente para garantir os interesses brasileiros no país -que não são poucos.

Também pesa na cautela brasileira o fato de as instituições paraguaias terem aprovado a deposição: o Congresso votou de forma acachapante, Lugo aceitou no primeiro momento, a Suprema Corte avalizou e a igreja abençoou. Quem, no Paraguai, está pedindo ingerência externa para manter sua democracia?

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Isolamento calculado – 26/06/2012.

Eliane Cantanhêde: O crime compensa?

Há uma enorme perplexidade, sobretudo em Brasília, diante dos sucessivos erros de Lula depois de sair da Presidência e assistir, da planície, ao sucesso de Dilma no Planalto e nas pesquisas.

A aliança de Lula com Paulo Maluf, porém, tem uma lógica eleitoral (certa ou errada) e combina perfeitamente com todos os movimentos de Lula durante seus oito anos na Presidência, resumidos numa frase: vale tudo pelo poder.

Ao juntar-se a Maluf e anunciar a aliança no ‘bunker’ malufista, diante de uma multidão de fotógrafos, Lula sobrepôs o que considera ganhos eleitorais (quantitativos) a inevitáveis perdas políticas (qualitativas).

Explico: ele vendeu o PT a Maluf por um minuto e meio e pelo ainda forte capital de votos de Maluf em setores conservadores e na periferia da capital paulista. E deu de ombros para a evidente reação de petistas, tucanos ou marcianos.

Fazendo o cálculo, Lula concluiu que valia a pena prestar-se ao que Luiza Erundina chamou ontem de “higienização” de Maluf. A imagem do PT? Já não anda lá essas coisas mesmo desde o mensalão…

Pragmatismo em puríssimo estado, tão ao gosto de quem se atirou com tanto prazer nos braços de Collor, de Sarney, de tantos outros inimigos históricos do PT. E, quando se fala de Maluf, a questão não é ideológica, programática, política. A questão é visceralmente ética.

Registre-se, de quebra, o protagonismo de Lula e a inexpressividade do próprio candidato Fernando Haddad. Em todos os episódios, com Marta, Kassab, Maluf, Erundina, ele parece um mero figurante, de cabelo novo, roupa nova, sorriso novo e completamente dispensável -seria deselegante falar em marionete.

Um efeito prático no grave erro político do abraço a Maluf, portanto, é que Haddad vai aumentar e Lula vai reduzir a presença em cena. Nos bastidores, porém, continuará ensinando ao pupilo que o crime compensa.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – O crime compensa? – 21/06/2012.

“Por amor a São Paulo”

Eliane Cantanhêde

Acabo de voltar de uma semana a Curaçao e leio, ouço, vejo as fotos de Maluf e Lula, com Fernando Haddad no meio, e me sinto como o personagem Sebá, o último exilado político, que ouvia pelo telefone as piores notícias sobre o Brasil e tascava para a mulher: “Tu não queres que eu volte!”.

O petista Haddad abraçado ao PSB, que, de socialista, cada dia tem menos, e, do outro lado, ao PP de Maluf, que foi o inimigo nº 1 da sociedade e tem uma folha corrida internacional. O tucano José Serra de braços dados com o PV, de discurso bonito e de prática nem tanto, e, do outro lado, com o PR de Alfredo Nascimento, que saiu escorraçado dos Transportes na tal “faxina ética”.

Onde o PSDB e o PT foram parar? Será que 1min35 a mais na TV e no rádio justifica que se engalfinhem por Maluf? Será que vale um cargo federal seja lá em que ministério for? Será que vale as décadas de lutas dos petistas e a história da cúpula tucana?

Lula passou por cima de Marta Suplicy e do PT para impor Haddad, tentou a jogada com Gilberto Kassab e levou uma rasteira fenomenal, entregou a cabeça de petistas pelo Brasil afora para atrair o PSB e, agora, vende a alma ao diabo por Maluf.

Bem, depois de anistiar Fernando Collor e convencer os antigos caras-pintadas de que as rixas eram só oportunismo político, Lula usa seu peso, sua história, seu carisma e o seu partido para reduzir tudo o que Maluf representa a algo banal, sem importância. O importante, ensina Lula do alto de seus 80% de popularidade, é vencer.

Coitado de Haddad, o novo que já entra velho. Sorte de Marta, que escapou dessa. E juízo de Erundina, para quem, segundo a “Veja”, “não é preciso ser vice para fazer política”.

Mas a melhor frase é a do próprio Maluf, que exigiu que Lula e Haddad fossem à casa dele e disse que selava a aliança “por amor a São Paulo”. O único ganhador de toda essa história é ele. Quem ri por último ri melhor.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – “Por amor a São Paulo” – 19/06/2012.

É agora, mas logo agora?

Eliane Cantnhêde

Se Lula pretendia mesmo adiar o julgamento do mensalão, pode ter conseguido exatamente o oposto depois do vazamento de seu, digamos, curioso encontro com o ministro Gilmar Mendes.

Tomado em brios, o Supremo decidiu por unanimidade iniciar o julgamento em 1º de agosto e, assim, dar uma prensa no revisor Ricardo Lewandowski, que está sentado em cima do processo há meses. Queira ou não, vai ter de apresentar seu parecer até o fim deste mês.

Derrota de Lula e do PT, pois confirmou-se a pior previsão para o partido: a coincidência do julgamento do maior escândalo do governo Lula com a campanha eleitoral.

Será um longo processo, com 38 réus, voto do relator, voto do revisor e 11 juízes -se Dias Toffoli não se considerar impedido. E tem data para começar, não para terminar. Esse não é um detalhe e tem imensas implicações práticas e políticas.

Uma delas é que dois ministros, o atual e o ex-presidente, Carlos Ayres Britto e Cezar Peluso, têm tempo de validade. Um completa a idade-limite de permanência no tribunal, 70 anos, em novembro. O outro, já no início de setembro. Ninguém acha que seria conveniente julgar um caso dessa magnitude, num complexo ambiente político, com dois novatos na corte.

A outra é o possível impacto das acusações e dos votos do STF nos resultados das eleições. Imagine a situação: as mesmas TVs que vão mostrar Lula fazendo campanha e os candidatos do PT vendendo seu peixe no horário eleitoral vão, simultaneamente, transmitir as longas acusações no STF contra a cúpula histórica do partido, José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares…

Sem contar que eles correm o sério risco de serem traumaticamente condenados às vésperas da eleição.

Ou seja: o julgamento tem de ser agora, mas parece injusto com um dos mais importantes partidos do país que seja justamente agora.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – É agora, mas logo agora? – 08/06/2012.

Mão pesada

ELIANE CANTANHÊDE

Todos os prefeitos, governadores e presidentes em primeiro mandato têm, com raras exceções, o direito, ou o privilégio, de concorrer à reeleição. Menos o prefeito de Recife, João da Costa, do PT.

Parte do PT, parte da Frente Popular e a cúpula nacional petista alegam que sua gestão é mal avaliada e que ele, apesar do cargo, está praticamente empatado com o ex-governador Mendonça Filho, do DEM.

Esquecem-se de que João da Costa lidera, na prática, as pesquisas e que, nas últimas eleições, Mendonça sempre largou bem, mas não levou.

Criado o impasse, o PT usa sua mão pesada para intervir no diretório, na eleição e no destino de João da Costa, que ganhou a consulta interna petista, entrou na Justiça para tentar garantir o processo e esperneia o quanto pode para simplesmente manter o que chama de “direito natural” de disputar a reeleição.

Maurício Rands, derrotado na consulta, saiu do páreo e abriu a porta para que a Executiva Nacional fizesse o que queria fazer desde o início: lançar o senador e ex-ministro Humberto Costa, relator do caso Demóstenes Torres no Conselho de Ética.

Costa tem excelentes chances de vitória, como teria qualquer candidato do PT com apoio do governador Eduardo Campos (PSB), do ex-prefeito João Paulo (PT), de Dilma e, “last but not least”, de Lula. Mas deixando um rastro de descontentes no PT.

João da Costa está sendo jogado da janela como já foram Marta Suplicy em São Paulo, Vladimir Palmeira no Rio, Raul Pont em Porto Alegre, Olívio Dutra no Rio Grande do Sul e Domingos Dutra no Maranhão -humilhado para que o PT jogasse fora as bandeiras vermelhas que brandiu por décadas contra os Sarney para cumprir um capricho de Lula e apoiar Roseana.

Se é que Costa não vá se guiar pela brava Luizianne Lins, que peitou o PT nacional, disputou e venceu as eleições em Fortaleza. Difícil. Não há muitas Luiziannes por aí.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Mão pesada – 07/06/2012.

Marta

ELIANE CANTANHÊDE

Linda, rica, inteligente, cheia de sobrenomes próprios e adquiridos, Marta Suplicy emprestou por 30 anos esse pacote paulistano quatrocentão para ajudar a edificar o PT e a ascensão de Lula.

Mas, se Marta sempre gostou de Lula e foi fiel a ele, não se pode dizer que a recíproca seja totalmente verdadeira. Lula nunca morreu de amores por esta mulher tão poderosa, cheia de si, que empurrou para o Turismo no seu governo.

Essa diferença explodiu na eleição para a Prefeitura de São Paulo. Com 29% a 30% em setembro, Marta liderava todas as pesquisas, em todos os segmentos, mas Lula estava inebriado com a vitória de sua criatura Dilma e decidiu que era hora do “novo” também na principal capital do país.

Marta tinha um trabalho bem avaliado na periferia quando prefeita e acabara de se eleger para o Senado. Haddad nunca tinha sido candidato a nada, andava enrolado com os erros do Enem e era capaz, como foi, de confundir Itaim Bibi com Itaim Paulista. Estava com 2% (hoje, tem 3%).

Lula não quis saber de conversa. Tirou a “companheira Marta” da frente, impôs Haddad goela abaixo da direção do PT, cooptou todo o grupo “martista”. O rei sou eu.

Ok. Lula tem instinto e Haddad é, de fato, um bom produto eleitoral, mas dá para Marta ficar feliz com o processo, com o jeito, com a imposição? Ponha-se no lugar dela. Não dá.

Criado o problema, os líderes petistas voltaram-se contra Marta. Avaliam que, se ela vier com Haddad, ajuda muito; se não, não atrapalha tanto quanto pensa. Até porque, com ou sem Marta, o PT tem o seu capital eleitoral consolidado e Lula cobre, de sobra, a força dela na periferia.

Conclusão: o PT vai usar e abusar da gestão Marta como vitrine, mas sem Marta. E ainda tripudia: ela não tem para onde correr. Primeiro, porque é inimiga quase pessoal de Serra e Kassab e, segundo, porque todo mundo que saiu do PT se deu mal.

Lula isolou Marta Suplicy.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Marta – 05/06/2012.

Tchutchucas e tigrões

ELIANE CANTANHÊDE

Além de demonstrar fina cultura geral, o deputado Fernando Francischini (PSDB) resumiu bem a CPI do Cachoeira ao dizer que o relator Odair Cunha (PT) é “tchutchuca” quando fala do governador do DF, o petista Agnelo Queiroz, e vira “tigrão” quando os alvos são a construtora Delta e o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo.

Gostei dessa. Só não acho justo discriminar o relator, porque esta é a regra na CPI: os petistas são todos “tchutchucas” com os envolvidos do PT e “tigrões” contra os da oposição, enquanto os tucanos são “tchutchucas” com o cada vez mais enrolado Perillo e “tigrões” com Agnelo.

Na verdade, todos eles, petistas e tucanos, se reúnem num dia travestidos de “tchutchucas” para selar acordões e, no dia seguinte, surgem na TV Senado e na internet interpretando verdadeiros “tigrões”.

Como “tchutchucas”, livram a cara uns dos outros. Como “tigrões”, estão prontos a desbaratar o esquema Cachoeira e todos os seus tigres, macacos e cobras. Além de, eventualmente, como ontem, tentarem trocar socos -Francischini partiu para cima do petista Dr. Rosinha.

É assim que a CPI vai oscilando entre a pizza e o pastelão, o ridículo e o dramático, a música sertaneja e o funk e o “Ai, se eu te pego” -de, dizem, uma funcionária-fantasma do gabinete do presidente, Vital do Rêgo (PMDB)- e o Bonde do Tigrão. Ambos bem populares não só no país, mas, aparentemente, também na comissão parlamentar.

A melhor imagem da semana da CPI, porém, não é nada disso. É a do próprio Cachoeira, com sua “cara cínica” ou de “múmia”, na definição da senadora Kátia Abreu (PSD), sorrindo para seu advogado Márcio Thomaz Bastos e fugindo das perguntas durante duas horas e meia.

A síntese de tudo, aliás, foi dada pela mesma Kátia Abreu ao implorar o fim da sessão e da agonia inútil: “Senhores, estamos aqui fazendo papel de bobos”. Tem absoluta razão.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Tchutchucas e tigrões – 25/05/2012.

A verdadeira CPI

Eliane Cantanhêde

Enquanto a CPI do Cachoeira é (seria) para investigar um esquema mafioso de um empresário-bicheiro, a Lei de Acesso à Informação pode se transformar numa imensa CPI sobre os três Poderes e todos os últimos governos -o de Fernando Henrique, o de Lula e este início de Dilma. O que pode sair de “surpresas” não é fácil!

Lula até tentou, mas não colou a ideia de criar a CPI do Cachoeira para jogar as já tontas e frágeis oposições nas cordas. A comissão se transformou num espetáculo de mau gosto não só para o PSDB e o DEM, mas também para o PT, o aliado PMDB e governadores aliados ao Planalto. Um aborrecimento para Dilma.

A CPI patina em disputas partidárias, em falta de vocação (e de vontade) para a investigação e na disposição de Cachoeira de não contar os podres que ele com toda certeza sabe e só vai contar se e quando bem entender. Sem isso, dessa cartola não sai mais coelho -com a ressalva de que nunca se pode descartar um “fato novo” que ponha fogo em tudo, mas depende menos da CPI e mais da Polícia Federal e da imprensa. A sensação, portanto, é a de que é melhor deixar o esquema com a Justiça, virar a página e ir adiante.

Como? Desviando o foco e as energias da CPI para o julgamento do mensalão, as tão esperadas revelações da Comissão da Verdade, os tabuleiros das eleições municipais e, particularmente, para a Lei de Acesso à Informação, que pode ser uma “super-CPI” sem limites para investigação e sem tempo para terminar.

Se o zoológico do Cachoeira comportava um punhado de governadores, deputados, delegados, arapongas, agentes da Receita, o foco da “super-CPI” vai do funcionário miúdo a todas as instâncias hierárquicas, até os presidentes. E não se fala aqui só de desvios financeiros, mas de decisões, conchavos, interesses.

A CPI do Cachoeira faz água, mas a CPI do acesso à informação é uma torrente de possibilidades.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – A verdadeira CPI – 24/05/2012.

A ferida

Eliane Cantanhêde

O depoimento de Xuxa ao “Fantástico” é uma das peças mais contundentes da TV brasileira, porque ela é quem é e cutucou profundas feridas para tratar de um problema gravíssimo e bem mais comum do que se pensa: o abuso sexual de crianças e adolescentes. E onde deveriam estar mais protegidas: em casa e na escola.

“Eu tinha vergonha, me calava, me sentia mal, me sentia suja, me sentia errada”, disse Xuxa, ao relatar que sofreu abusos do melhor amigo do pai, do homem que casaria com a sua avó e de um professor. Eles tinham a aura da autoridade, o acesso à casa e a confiança da família. Aproveitaram-se disso e da vulnerabilidade da menina Xuxa. Como enfrentá-los? Como desmascará-los?

Quem conviveu com pessoas que passaram por isso, em menor ou maior grau, sabe a explosão emocional que significa expor para uma irmã, uma amiga, uma psicóloga -imagine para milhões de pessoas- uma ferida que jamais cicatriza. E que, curiosa e invariavelmente, vem acompanhada desse sentimento desolador: o de culpa. Por que eu? Por que deixei? Por que não contei?

Porque era uma criança e, ainda por cima linda, à mercê de adultos aparentemente respeitáveis (um professor?!). E foi punida múltiplas vezes por esse “erro”: pela violência, pelo pânico, pela vergonha, pela culpa e pelas consequências vida afora.

Xuxa talvez tenha aberto o coração em público para elaborar a própria dor e tentar entender, como disse, por que jamais teve um relacionamento estável e não conseguiu, ou não quis, se casar.

Mas talvez tenha feito também para que milhares, sabe-se lá se milhões, de meninas e meninos, de mulheres e homens, possam se livrar de um confuso sentimento de culpa embolado com a dolorosa sensação de solidão, de abandono.

Toda minha solidariedade, Xuxa, e meu respeito pelo seu ato de profunda coragem. O Brasil agradece.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – A ferida – 22/05/2012.

Fatos e fitas

ELIANE CANTANHÊDE

Se alguém está entendendo a aliança entre Fernando Collor e o PT para transformar a CPI do Cachoeira em CPI da imprensa, por favor, explique. “Se a mídia quer guerra, vai ter guerra”, ameaça um senador petista, segundo o Painel. Afinal, quem quer guerra?

O impeachment de Collor foi por causa da imprensa, do PT ou dos dois? Será que ele não tinha culpa no cartório nem ficou isolado no Congresso e na sociedade?

O mensalão foi fruto da imaginação coletiva da imprensa? Ninguém estava comprando e vendendo votos no Congresso e nos partidos? E nunca houve “aloprados”?

Waldomiro Diniz, então braço direito do braço direito de Lula, José Dirceu, foi ou não foi filmado pedindo propina justamente para o agora famoso Carlinhos Cachoeira?

Antonio Palocci dividia ou não uma casa esquisitona com uma gente mais esquisitona ainda no bairro mais nobre de Brasília? Usou ou não o seu poder de governo para violentar o sigilo bancário de um caseiro?

Palocci multiplicou ou não o seu patrimônio muitas vezes no ano em que era coordenador da candidatura de Dilma? E comprou ou não um apartamento de quase R$ 7 milhões em São Paulo?

E a Erenice? E os ministros todos que ruíram como num castelo de cartas? Foi culpa da imprensa? Eles não fizeram nada de errado? Então por que Dilma acatou a demissão e ainda capitalizou a imagem da “faxina”?

Afinal, Collor e o PT estão guerreando contra que mídia, e por quê? A não ser que tentem descontar nos outros as próprias culpas. Vá saber.

Se jornalistas ganharam dinheiro, vantagens e favores de Cachoeira, que sejam investigados e punidos. Mas, se usaram fitas verdadeiras do esquema, por exemplo, mostrando Waldomiro com a boca na botija, apenas fizeram jornalismo.

Contra fatos -e fitas- não há argumentos. O resto é chiadeira, retaliação e guerra, com mensalão e morte de Celso Daniel em julgamento…

via Folha de S.Paulo – Opinião – Fatos e fitas – 10/05/2012.

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