Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

Archive for the tag “Erundina”

Janio de Freitas: Sorte de Haddad

FERNANDO HADDAD ganhou, e não foi pouco, com a renúncia de Luiza Erundina a vice em sua candidatura a prefeito paulistano. Não tardaria a que o problema para Haddad, e não pequeno, fosse superar os previsíveis embaraços provocados pela maneira irascível, grosseira e individualista que Erundina se permite a pretexto de política.

Luiza Erundina é inconvivível politicamente. Já em seus últimos tempos no PT, a recusa rígida que manteve, diante de dirigentes do partido, ao exame das divergências, deixou mais do que frustração. Há ressentimentos pessoais inapagados até hoje. E motivadores de muitas das reações negativas, nos quadros mais altos do PT, à entrega da vice a Erundina.

Ao menos desde o governo Itamar Franco, que a homenageou com um cargo no governo por escolha sua, de presidente, ficou claro o que significa a proximidade política com Erundina. Do início ao fim de seu breve trânsito pelo governo, Erundina mais pareceu da oposição dura. Até o rompante final em que exibiu arrogância e presunção incapazes de poupar mesmo a quem a homenageara.

Fernando Haddad não teria a esperar senão problemas de convivência com a vice, da vice com a campanha e, bem provável, com segmentos do eleitorado. Mas no PT e no PSB isso não era -não poderia ser- ignorado por nenhum dos que produziram a “ideia” de dar a vice a Luiza Erundina.

A ansiedade de Lula de impor o seu plano para Recife, cassando ao prefeito João Costa o direito à possível reeleição, pode explicar parte da escolha. Mas nada explica que ao ato autoritário, com que atendeu o governador Eduardo Campos, Lula sobrepusesse falta de lucidez a ponto de aceitar Erundina, tão bem conhecida por ele, para representar o PSB junto a Haddad.

O desgaste maior recai sobre Lula, ainda mais por ser o caso Erundina caudatário do acordo com Paulo Maluf. Mas Fernando Haddad também recebe a sua quota. Por mais sorte sua, o episódio se dá quando nem campanha há ainda. É daqueles que tendem a evaporar sozinhos, se os planos estaduais de Lula permitirem.

Ao esquentar da campanha, também o acordo com Paulo Maluf não será o prato saboroso que o PSDB de José Serra espera.

Há muito noticiário impresso e gravado, muitas declarações e evidências de que o acerto com Maluf era buscado também pelos peessedebistas. E negociado pelo próprio governador Geraldo Alckmin, cuja administração conta com um afilhado de Maluf. Matéria-prima abundante para respostas (senão ataques) contundentes.

Fernando Haddad é o único que nada perdeu com a renúncia de Luiza Erundina. E ganhou, no mínimo, a oportunidade de uma companhia na chapa mais ao seu estilo.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – A sorte de Haddad – 21/06/2012.

Eliane Cantanhêde: O crime compensa?

Há uma enorme perplexidade, sobretudo em Brasília, diante dos sucessivos erros de Lula depois de sair da Presidência e assistir, da planície, ao sucesso de Dilma no Planalto e nas pesquisas.

A aliança de Lula com Paulo Maluf, porém, tem uma lógica eleitoral (certa ou errada) e combina perfeitamente com todos os movimentos de Lula durante seus oito anos na Presidência, resumidos numa frase: vale tudo pelo poder.

Ao juntar-se a Maluf e anunciar a aliança no ‘bunker’ malufista, diante de uma multidão de fotógrafos, Lula sobrepôs o que considera ganhos eleitorais (quantitativos) a inevitáveis perdas políticas (qualitativas).

Explico: ele vendeu o PT a Maluf por um minuto e meio e pelo ainda forte capital de votos de Maluf em setores conservadores e na periferia da capital paulista. E deu de ombros para a evidente reação de petistas, tucanos ou marcianos.

Fazendo o cálculo, Lula concluiu que valia a pena prestar-se ao que Luiza Erundina chamou ontem de “higienização” de Maluf. A imagem do PT? Já não anda lá essas coisas mesmo desde o mensalão…

Pragmatismo em puríssimo estado, tão ao gosto de quem se atirou com tanto prazer nos braços de Collor, de Sarney, de tantos outros inimigos históricos do PT. E, quando se fala de Maluf, a questão não é ideológica, programática, política. A questão é visceralmente ética.

Registre-se, de quebra, o protagonismo de Lula e a inexpressividade do próprio candidato Fernando Haddad. Em todos os episódios, com Marta, Kassab, Maluf, Erundina, ele parece um mero figurante, de cabelo novo, roupa nova, sorriso novo e completamente dispensável -seria deselegante falar em marionete.

Um efeito prático no grave erro político do abraço a Maluf, portanto, é que Haddad vai aumentar e Lula vai reduzir a presença em cena. Nos bastidores, porém, continuará ensinando ao pupilo que o crime compensa.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – O crime compensa? – 21/06/2012.

Erundina diz não acreditar que Maluf ficará em 2º plano na campanha

“Invasivo” e “expansivo”, o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) não ficará em segundo plano na campanha de Fernando Haddad (PT) à Prefeitura de SP. A afirmação é da deputada Luiza Erundina (PSB-SP), ex-candidada a vice-prefeita na chapa do petista, em entrevista à rádio EstadãoESPN na manhã desta quinta-feira, 21.

Apesar disso, a ex-prefeita de São Paulo (1989-1993) garante quer vai apoiar Haddad, “o melhor candidato”. Ela considera que, fora da vice, terá mais condições de participar da promoção do petista. “Se eu continuasse na chapa, ia ter que passar a campanha inteira explicando porque estava com Maluf”.

Erundina deixou a chapa após o anúncio de que o malufista PP  faria parte da aliança de legendas que apoia Haddad. “Ter uma figura nefasta como Paulo Maluf em qualquer ambiente constrange”, disse Erundina, que é colega do ex-prefeito na Câmara dos Deputados.

À rádio EstadãoESPN, ela voltou a criticar o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, que, para selar o acordo, foi com o apadrinhado Haddad à casa de pepista, onde posaram para fotos. “A ida do Lula à casa do Maluf por exigência dele [Maluf] é absolutamente incompreensível do ponto de vista da coerência; me deixou sem condição de compor essa chapa”, argumentou Erundina. “A sociedade entendeu meu gesto e aprovou.”

Barganha. Para Erundina, o tempo de TV que a adesão do PP adicionou à propaganda de Haddad – 1 minuto e 35 segundos, que devem fazer dele o aspirante à Prefeitura com mais tempo na televisão – não justifica a aliança.

Ela criticou ainda a “barganha” feita por Maluf na negociação do apoio. Lembrou que o Governo Federal nomeou um indicado do deputado a um cargo no Ministério das Cidades em troca da adesão. “Isso não é bom”, destacou.

Beba na fonte: O Estado de S. Paulo | politica – Erundina diz não acreditar que Maluf ficará em 2º plano na campanha.

Rudá Ricci: Erundina, a última petista

Erundina deixou todos petistas constrangidos. Fez o que qualquer petista histórico faria. O PT dos anos 1980, não este pragmático, sem cor, sem cheiro, sem forma. Praticamente matou a candidatura de Haddad. Só uma reviravolta para colocar a militância engajada (da zona leste e sul) na rua.
Os pragmáticos, do PT e PSB, estão furiosos e jogam a culpa na escolha do nome da ex-prefeita. Não se importam com programa ou ideologia. Se importam com vitória, com cálculo de votos. Assim, pautados pela popularidade, se tornam conservadores, fiéis escudeiros do status quo, justamente porque não querem mudanças fundamentais, mas apenas se tornarem populares. Um atalho para a construção da hegemonia gramsciana. Em Gramsci, havia diálogo e costura de múltiplos interesses. Mas o pragmatismo petista de hoje é rebaixado. Não procura costurar interesses a partir de um programa. Faz o contrário: constrói seu programa a partir do cálculo de força eleitoral. Cede. Se rebaixa. Na verdade, não se preocupa com programa algum. Eleito, administra e sai a cata de programas que tenham algum sentido estatal-desenvolvimentista, o que sobrou do modo petista de governar. Aquele modo petista, mesmo difuso e confuso, tinha uma inspiração de transformação social, plasmada no slogan “inversão de prioridades”. O participacionismo, outra marca do início dos governos petistas, foi abruptamente abandonado. O motivo parece óbvio: não há como abrir a participação dos de baixo se os cálculos eleitorais exigem acordos com as elites coronelistas de sempre.
Erundina é a última petista. O que deve incomodar profundamente os caciques do PSB e do PT.

Beba na fonte: RUDÁ RICCI: Erundina, a última petista.

Fé cega, língua afiada

Como a BESTA reagiu à notícia de que Erundina havia desembarcado da campanha lulo-malufista para a Prefeitura de São Paulo. Ou: quando o fundamentalismo político ofusca e embota a lucidez de certos crentes.

A exceção Erundina

José Roberto de Toledo, no site do Estadão

A política brasileira, segundo Paulo Maluf (PP-SP): “Não há mais direita e esquerda, o que há são segundos de TV”. Há uma inegável verdade na frase do deputado predileto da Interpol. Mas ao não engolir a aliança do PT de Lula com o PP de Maluf e renunciar a ser vice de Fernando Haddad (PT) à Prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina (PSB-SP) mostrou que nem sempre a Realpolitik conta mais do que aversões pessoais e escrúpulos morais.

Se não tivesse abandonado a chapa de Haddad, Erundina teria provado que Maluf está certo. Como esperneou e saiu, acabou lhe tirando a razão -ao menos no seu caso pessoal. A deputada é a menos governista dos parlamentares do PSB. Vota com o governo Dilma apenas quando concorda com as propostas. Vota contra quando discorda. É anocronicamente “ideológica” no exercício do mandato. Mas é também uma exceção. Vai ter fila para ocupar o lugar que ela deixou.

Se o adágio malufista vale para a imensa maioria dos políticos, e são os segundos de propaganda que contam, então vamos contá-los.

A tendência de polarização PSDB-PT ficou mais evidente na mais recente pesquisa Datafolha. Mas José Serra e Haddad estão em situações opostas. Os segundos de exposição na TV a partir de agosto têm utilidade e peso muito diferentes para cada um deles.

Praticamente todos os eleitores paulistanos conhecem Serra. Nos últimos dez anos, ele se elegeu prefeito e governador, além de ter ficado em segundo lugar em duas eleições presidenciais. Seu problema é ser conhecido demais: 32% dizem que não votariam nele de jeito nenhum. O tucano precisa de propaganda para se manter na cabeça do eleitor, mas não pode abusar da superexposição na TV, ou pode se queimar.

O que importa mais para Serra é impedir que o desconhecido Haddad apareça tanto na propaganda televisiva que acabe se tornando tão conhecido quanto o tucano. Foi o que aconteceu com Dilma Rousseff na campanha de 2010. Embora ela tivesse uma velocidade inicial maior do que Haddad, graças à propaganda desabrida de Lula em palanques oficiais desde 2009, foi a partir da propaganda de TV que Dilma deixou Serra para trás.

Por isso, os segundos malufistas são um problema para Serra não pelo tempo de vídeo que ele “perdeu”, mas pelas inserções que Haddad ganhou. Pouco importa se Serra cooptar o PTB e somar seus minutos. Não vai com isso compensar o que Maluf deu a Lula e seu pupilo. Do mesmo modo, o desgaste provocado pela foto de Maluf com Lula e Haddad é muito menor do que o potencial ganho que os segundos malufistas trarão para o petista.

Diante de tantos ganhos, nem Lula nem Haddad pensaram -nem uma, muito menos duas vezes. Quando a Realpolitik é tão avassaladora que abarca todo o espectro partidário -com raras Erundinas-, caciques como Maluf, Valdemar Costa Neto (PR), José Sarney (PMDB) e quetais só têm a ganhar -especialmente quando não são candidatos e podem negociar o tempo de TV de seus partidos com aliados de ocasião. Os preços são cada vez mais inflacionados.

Não há alternativa à vista, fora uma reforma política que jamais será feita enquanto os principais interessados forem os donos do processo decisório. Não reformarão nada relevante. Não importa quem esteja no governo, pois o sistema ajuda a manter no poder quem já chegou lá. Foi desenhado para isso. Restam medidas paliativas.

Uma delas seria mudar as regras de distribuição do tempo de propaganda eleitoral na TV. Se um partido não tiver candidato, ele não deveria ter direito a somar tempo para a coligação majoritária. Sem essa moeda de troca, as siglas que aderem ao princípio malufista perderiam valor de mercado.

A mudança de uma pequena regra não muda a essência do sistema, como o gesto de Erundina não transforma a Realpolitik. Mas, mesmo fugazmente, é divertido atrapalhar os poderosos.

Foto de Lula e Maluf provocou repulsa, afirma Erundina

A deputada Luiza Erundina (PSB) afirmou nessa terça-feira, 19, que a foto em que Lula e Fernando Haddad aparecem ao lado de Paulo Maluf nos jardins da casa do deputado do PP em São Paulo “provocou repulsa”. “Fui bombardeada nas redes sociais”, afirmou a deputada federal, ao comentar decisão de não aceitar mais ser vice do petista na disputa pela Prefeitura de São Paulo.

Mesmo fora da chapa, deputada prometeu se dedicar à campanha petista
Erundina, 77 anos, recebeu a reportagem do Estado na noite dessa terça no hotel Lake Side, em Brasília, onde concedeu a seguinte entrevista:

A foto do ex-presidente Lula com o deputado Paulo Maluf nos jardins pesou na decisão?
A aliança com esse quadro sistema político exaurido que está aí é norma mesmo quando não há identidade ideológica. Mas a foto provocou repulsa, uma reação em cadeia. Fui bombardeada nas redes sociais.

Lula agiu mal ao fazer o gesto de visitar o ex-prefeito Maluf em sua casa?
O gesto de Lula foi ruim. Nós que temos história de militância temos responsabilidade de qualificar o processo eleitoral, temos que ter um cuidado para não estragarmos a prática política.

O que a senhora quis sinalizar com a sua saída da chapa?
Engrandecer este homem no momento em que queremos passar a limpo o regime militar, o regime da ditadura, não dá, não dá. O Maluf atuou na ditadura e quando eu fui prefeita, 22 anos atrás, encontrei uma vala clandestina no cemitério de Perus, com 1049 corpos, sendo cinco corpos de desaparecidos políticos… Subir no palanque com ele, não vou.

Não dava para permanecer na chapa…
Não permanecer na chapa é não aceitar a lógica política do vale-tudo que predomina no país todo. Isso só se resolve com reforma política, mas política tem um simbolismo. Eu faço política com uma preocupação de ordem pedagógica. Tanto podemos educar como deseducar. Nós da geração que está passando não podemos aceitar práticas políticas condenáveis que afastem a juventude do processo político.

A senhora acha que o PT trocou sua presença na vice-prefeitura por um 1m35s de tempo de TV na eleição municipal?
O Haddad vinha me procurando, me ligou, fez apelos para eu ficar na chapa. Mas atualmente há de fato uma supervalorização do marketing político eleitoral, do tempo de TV. Isso é desproporcional. O marketing é um fator importante, mas não é determinante. O Maluf traz 1m35s de tempo de TV, mas não tem contribuição a dar.

Fora da chapa, a senhora vai ter uma atuação de mesmo peso na campanha do petista?
Claro que não. Não terei a mesma presença, mas vou me dedicar a campanha. Eu aderi ao projeto, porque o Haddad é o melhor candidato e a proposta dele é viável para termos um governo interessante na cidade de São Paulo.

Beba na fonte: O Estado de S. Paulo | politica – Foto de Lula e Maluf provocou repulsa, afirma Erundina.

Maluf levou cargo, diz Gilberto Carvalho

FERNANDO RODRIGUES

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse ontem que o cargo entregue pelo governo a um aliado de Paulo Maluf fez mesmo parte da negociação pelo apoio do PP à candidatura de Fernando Haddad (PT) a prefeito de São Paulo.

Osvaldo Garcia foi nomeado para a Secretaria de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, já comandado pelo PP, com o deputado Aguinaldo Ribeiro (PB).

“Houve uma troca [de cargos], como tem havido em qualquer negociação. Não houve dinheiro”, disse Carvalho. “Assim como nós aceitamos o apoio do PP no governo federal, é natural que houvesse uma aproximação com o PP paulista”.

A aliança do PT com o PP em São Paulo foi fechada anteontem na casa de Maluf, com a presença do ex-presidente Lula e do presidente do PT, Rui Falcão, além de malufistas históricos, como o vereador Wadih Mutran (PP).

Sobre a proximidade com Maluf, Carvalho declarou: “Não acho que seja uma catástrofe. Se o PP assina a proposta [de governo do PT], não vejo problema”.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Maluf levou cargo, não dinheiro, diz Gilberto Carvalho – 20/06/2012.

‘Micos’ ofuscam as boas notícias recentes para o candidato petista

O pragmatismo político de Lula acabou impondo ao “homem novo para um tempo novo”, Fernando Haddad, um desgaste desnecessário numa semana que deveria ser coroada de boas notícias.

Alheio às negociações da própria campanha, justamente por ser neófito, Haddad pouco opinou sobre as tratativas que o levaram a aparecer visivelmente constrangido em fotos ao lado do nada novo Paulo Maluf (PP).

Também ficou vendido na reviravolta que, em cinco dias, lhe tirou a vice dos sonhos, Luiza Erundina. O comando da campanha chegou a tranquilizá-lo de que o mal-estar com a deputada seria contornado e ela ficaria.

Se tivesse mais voz ativa na própria campanha, Haddad teria preferido Erundina ao aperto de mão a Maluf. Mais: se fosse levado a sério, o próprio slogan criado por João Santana levaria o PT a repensar a foto desde já histórica.

Assim, os micos da semana acabaram sobrepujando as boas notícias para o petista: o fato de ter mais que dobrado sua intenção de votos na pesquisa Datafolha, chegando a 8%, e de ter conseguido o apoio de três partidos depois de meses de voo solo.

É verdade que o 1min30s de televisão do PP pode ajudar a tornar conhecido esse “homem novo”. Resta saber se o símbolo do aperto de mão a Maluf e o controle de Lula sobre sua criatura não vão criar um ruído entre a imagem de renovação e aquela que Haddad transmitirá ao eleitorado.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – ‘Micos’ ofuscam as boas notícias recentes para o candidato petista – 20/06/2012.

Erundina sai e agrava crise na campanha de Haddad

Um dia depois da feijoada que selou o apoio do deputado Paulo Maluf (PP-SP), o pré-candidato do PT a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, perdeu a sua vice. A deputada Luiza Erundina (PSB-SP), 77, abandonou ontem a chapa em protesto contra a aliança com o ex-rival.

A decisão agrava a crise na campanha petista, que passou a enfrentar cobranças de sua própria militância e terá que correr em busca de um substituto para a ex-prefeita.

Em reunião com a cúpula do PSB em Brasília, Erundina disse que não aceitava a ligação com Maluf, a quem acusou de corrupto e aliado da ditadura militar.

Ela reclamou das fotos do ex-prefeito ao lado de Haddad e do ex-presidente Lula, que articulou o acordo para ampliar o tempo de TV de seu afilhado em 1min35s.

Lula e o presidente do PSB, Eduardo Campos, deram aval ao rompimento. Disseram a aliados que a permanência da vice causaria mais problemas a Haddad que sua saída.

“Se ela permanecesse, seria crise todo dia. Ela seria sempre questionada sobre a presença de Maluf. Seria um ponto permanente de instabilidade”, afirmou Campos.

A ex-prefeita disse ao portal G1 que deixa a chapa, mas vai “continuar apoiando a candidatura” de Haddad.

O petista acompanhou o encontro à distância e soube do desfecho por telefone. Ele lamentou a saída de Erundina, mas disse que ela já sabia da negociação com Maluf ao ser anunciada como sua candidata a vice, na sexta-feira.

“Estou muito confortável com o telefonema do Eduardo [Campos], embora lamente a decisão da companheira Erundina”, afirmou Haddad. “Eu não gostei. Gostaria que ela permanecesse.”

Ele disse não se arrepender da aliança com o ex-prefeito e repetiu o argumento de que o PP integra a base de apoio ao governo Dilma Rousseff.

“Como um partido que apoia o governo federal pode não servir para nos apoiar no plano municipal? Não faz o menor sentido do ponto da democracia moderna.”

Antes de se reunir com Erundina, Campos consultou Haddad sobre a hipótese de retirar a indicação da vice. O petista disse que desejava a permanência dela e pediu ao aliado que a convencesse de aceitar o acordo com o PP.

A ex-prefeita ficou irredutível e reconheceu que sua permanência causaria novos problemas à campanha.

Haddad disse não ter um “plano B” para substituir a socialista. Só descartou um vice do PP de Maluf. À noite, eram cotados o advogado Pedro Dallari e a deputada Keiko Ota, ambos do PSB. Corria por fora o ex-jogador Marcelinho Carioca, suplente de deputado pela sigla.

O PC do B, que indicou a deputada estadual Leci Brandão, será consultado.

O vereador Juscelino Gadelha (PSB) lamentou a saída de Erundina, mas disse que a posição dela foi minoritária no partido. “Vamos fazer campanha com o Maluf, sem problema nenhum.”

(BERNARDO MELLO FRANCO, DIÓGENES CAMPANHA, MÁRCIO FALCÃO E CATIA SEABRA)

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Erundina sai e agrava crise na campanha de Haddad – 20/06/2012.

A foto que pode custar a derrota de Haddad

A foto acima bem poderia servir como o epitáfio da política brasileira. Nem tanto por Haddad, um jovem cheio de qualidades e ainda idealista que apenas agora se apresenta ao eleitorado. Na cena, ele ocupa uma posição secundária. Análoga, aliás, à sua condição na campanha que se inicia. Os dois protagonistas são mesmo Lula e Maluf.

“Donde qualquer coisa se espera, daí é que sai tudo mesmo!”, teria dito o Barão de Itararé. A despeito da incredulidade dos que, até a semana passada, juravam que Lula e Maluf eram como água e óleo.

Pois Lula conseguiu o prodígio de unir-se ao seu anverso, tangido pela conveniência de consolidar a candidatura da qual é padrinho, artífice e tutor. Era só o que faltava.

Ontem, no Band Eleições, Haddad estava com o semblante carregado, não sorria como sorri sempre. E tinha motivos para estar alegre: finalmente sua curva de popularidade fletiu,  saiu do traço para iniciar uma previsível ascensão, catapultando sua candidatura para um lugar onde se espera que ela esteja. Mas não: havia mais motivos para preocupação do que para qualquer tipo de comemoração.

No estúdio ele nos contou que o mote da campanha vai ser construído em cima da palavra “novo”, um bordão que se encaixa bem com sua figura. Mas o que dizer do “novo”que é avalizado por Paulo Maluf ? Que novidade é essa ?

A novidade, ontem, era a sapituca de Luiza Erundina, que de “novo” também não tem nada — além do fato de ter aceitado reconciliar-se com o partido que a expulsou quando ela decidiu apoiar Itamar Franco. Depois de declarar ao jornal O Globo que não aceitaria ser vice de uma chapa apoiada por Maluf, Erundina desligou o telefone e desapareceu. Até o fim da gravação do programa da Band, Haddad ainda não havia conseguido falar com sua vice.

“Não se pode fulanizar essa questão”, disse o candidato do PT durante a entrevista. Para ser lembrado em seguida por Fernando Mitre de que quem fulanizou o problema foi Luiza Erundina. Para o candidato do PT à prefeitura paulistana, a companhia indigesta de Maluf se justifica pela necessidade de ampliar o arco de alianças que irá sustentar a candidatura do PT. Mas ele repetia isso como quem pede desculpa, não com a ênfase de quem ganhou um aliado importante.

Esta é a primeira eleição que o ex-ministro da Educação disputa. Inexperiente, tem sido guindado a uma série intermivável de erros por seu padrinho. É de Lula, e não de Haddad, que a militância crédula precisa cobrar coerência. É a Lula que devem ser debitados todos os problemas da estratégia petista, uma vez que ele se arroga maior que o  o partido e decidiu tomar as rédeas do processo.

Pode-se afirmar sem medo de errar que a própria candidatura Haddad é produto da onipotência de Lula. O candidato natural, Marta Suplicy, ficou na estrada quando ele interveio na disputa interna e sacou da cartola o ex-ministro, repetindo a estratégia que adotara para inventar Dilma Rousseff.  Ao criar a “novidade”, o ex-presidente enfiou a ex-prefeita no saco das velharias das quais convém dispor em nome de uma suspeita renovação.

O que aconteceu a partir de então ? Marta Suplicy não aceitou o desaforo. Desapareceu dos compromissos públicos de uma campanha que deveria ser sua. Humilhada, não permitiu até hoje um registro como a foto estampada no alto deste post.

Lula não esteve no ato em que foi selada a aliança com o PSB, mas fez questão de ir à casa de Maluf para marcar a entrada do PP na Arca de Noé petista. A ausência, confrontada com o entusiasmo evidente ao final da conversa com o ex-prefeito e ex-governador paulista, ajuda a criar um conjunto de símbolos muito representativo da decadência do PT como partido ideológico.

Se já não há mais um ideal a defender, restou aos petistas como alento um projeto de poder. Isso fica evidente nos últimos movimentos de seu líder máximo. Para defendê-lo, Lula tem feito ginásticas inimagináveis para um político experiente.  A julgar pelas críticas que vem recebendo da própria militância, pode-se bem traduzir esses malabarismos por bobagens inexplicáveis.

As manobras de Lula têm funcionado como um forte elemento de dispersão dentro e fora de seu partido. São desagregadoras, uma vez que tiveram o condão de afastar uma militante da importância de Marta Suplicy e uma aliada de última hora do quilate de Luiza Erundina. Ou seja: provocaram perdas muito maiores do que o ganhou residual, que se reduz a um tempo maior de exposição de seu candidato no horário eleitoral.

Se vai dar certo ou não, o tempo e os eleitores dirão. A julgar pelos humores do próprio Haddad e de seus assessores na noite de ontem, tudo indica que o prejuízo é enorme. E significativo a ponto de impedir que a primeira boa notícia da temporada — a saída do fosso das pesquisas eleitorais — fosse abafada pela repercussão negativa do encontro Lula-Maluf.Por enquanto, a cada movimento estabanado do ex-presidente cria-se uma frustração entre próprios petistas. Só quem teve algo a comemorar até agora foram seus adversários.

Pelo que se viu até aqui, teria sido melhor se Lula se conformasse com seu papel de ex-presidente. Pelo menos estaria a salvo da chacota e das críticas suscitadas pela evidente falta de racionalidade e limites. E da responsabilidade de ter que explicar, no futuro, por que decidiu tão enfaticamente sepultar as chances de vitória do candidato que ele mesmo inventou.

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