Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

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A imprensa no banco dos réus: quem não deve, não teme

A Imprensa brasileira se transformou em protagonista da cena política assim que começaram a surgir os primeiros vazamentos que desaguaram na CPI do Cachoeira. Sob suspeita de atuar como partido desde que Lula começou uma campanha para melar o Mensalão, o jornalismo talvez nunca tenha sido alvo de tantos ataques em sua história.

As suspeitas ganharam espaço na internet quando o deputado Fernando Ferro, fazendo eco à paranóia lulista, criou o termo Partido da Imprensa Golpista, depois apropriado por agente da propaganda governamental financiados por estatais com rios de dinheiro do contribuinte. E se solidificaram a partir dos primeiros sinais de que o bicheiro Carlinhos Cachoeira havia se servido de jornalistas para provocar algumas das maiores crises da república lulopetista. O principal elemento dos detratores da “velha mídia” são os 200 telefonemas trocados entre o chefe do escritório da Revista Veja, Policarpo Jr., e o bicheiro goiano.

Até aqui, salvo as correlações indiretas — portanto suposições — nada ficou demonstrado sobre os desvios éticos aludidos pelos inimigos do jornalismo contemporâneo. Não se conhece ainda a transcrição dos diálogos. Policarpo goza do melhor prestígio entre os colegas e não apareceu nenhuma evidência de que, a despeito de ter se valido de informações emanadas do submundo da espionagem, tenha sido cooptado pelo esquema de Cacheira.

Veja sustenta que seus jornalistas podem manter relações éticas mesmo com fontes espúrias. Ao contrário do que afirma a banda de música governista em meia dúzia de blogs, a revista não deixou de noticiar nenhum dos fatos relacionados ao ambiente que precedeu a CPI do Cachoeira — aí incluída sua versão sobre o que se sabe dos grampos da Operação Monte Carlo. Mas falta um elemento de convicção para afastar a Imprensa do banco dos réus em que foi colocada, em boa medida, pelos jornalistas a serviço da turma do Mensalão.

Nesse sentido, a CPI do Cachoeira se apresenta como uma tribuna oportuna. O assunto inevitavelmente terá que ser abordado no âmbito da investigação parlamentar, a despeito das afirmações do relator Odair Cunha de que não moverá uma “caça às bruxas”. Há que se reconhecer que a sociedade, mesmo tangida por ânimos viciados que têm por objetivo destruir o jornalismo que não está a serviço do aparelhamento ideológico ou de conveniência, tem o direito de saber como as notícias que pautam a política são produzidas e a que fim realmente se prestam.

Quem não deve, não teme. Ao final desse processo, caso a natureza ética dessas relações fique comprovada, o processo que se iniciar agora terá o efeito de uma absolvição sumária. Ou, na pior das hipóteses, a se comprovarem os vícios imputados aos jornalistas, haverá uma depuração da qual poderá surgir um novo jornalismo. Com certeza ele não terá os brios nem a cara do autoproclamado “jornalismo progressista”, que nada mais é do que a atualizaçao do folhetim partidário dos anos 50, época em que repórteres e editores não tinham salário e viviam de extorquir suas fontes.

A sub-relatoria da imprensa na CPI do Cachoeira também deverá servir para outro debate: o das relações entre fontes de financiamento públicas e a abastança de meia dúzia de escribas de aluguel atavicamente vinculados ao governo.

Com acesso fácil ao dinheiro dos impostos, são remunerados regiamente por contratos que não se explicam pela audiência, importância, qualidade das informações, tampouco pelos princípios da impessoalidade e da moralidade. E ainda gozam da proteção das caixas-pretas armadas por entes públicos, cuja atuação deveria se pautar não pela obscuridade, mas pela transparência democrática.

Imprensa Golpista: Como os editores de Veja comemoram o sexto aniversário da “Revolução” de 64

Reprodução do livro "A Vida Quer é Coragem, de Ricardo Amaral

Dilma enfrenta seus algozes com dignidade...

A foto acima, descoberta pelo jornalista Ricardo Amaral e publicada em seu livro “A Vida Quer é Coragem”, é o emblema de um dos período mais tristes da história brasileira. Aos 22 anos de idade, a militante Dilma Rousseff enfrenta a corte militar com altivez  e dignidade — enquanto seus algozes, envergonhados, escondem o rosto. Os signos aí expostos denotam de maneira contundente o embaraço moral reservado aos que tinham, por ofício, o dever de defender (ainda que no contexto das instituições golpeadas) a ditadura brutal que se instalara no País seis anos antes.

Reprodução do Acervo Digital de Veja

... enquanto o editor de Veja enaltecia o "único antídoto de seguro efeito contra a subversão".

Mas nem todos os brasileiros se sentiam constrangidos em apoiar enfaticamente o regime dos quartéis que aposentou a política, calou a imprensa e perseguiu de maneira atroz e determinada os que a ele se opunham. Naquele momento da história , a revista Veja, a exemplo de vários outros órgãos da imprensa brasileira, apoiava declaradamente o golpe de 64. Alguns jornalistas que lá trabalhavam faziam uma defesa entusiasmada do regime. O texto que reproduzo ao lado é parte da Carta ao leitor da edição número 82, de 1º de abril de 1970. Foi escrito e assinado pelo jornalista Mino Carta.

Deve-se reconhecer que, anos depois, Mino se lançou de corpo e alma nas várias campanhas pela reinstitucionalização do Brasil. Mas, naquele momento complicado da vida institucional de País, ele e a revista que dirigia estavam em outra condição — a de áulicos do regime militar. Não é necessário mais do que uma releitura dos arquivos do Acervo Digital de Veja, que podem ser consultados gratuitamente por qualquer um, para a checagem da veracidade desta afirmação.

Pode-se argumentar que os jornalistas eram acossados pelos censores. Eram mesmo. Quando Vladimir Herzog foi morto, anos depois, Veja saiu sem a seção Brasil. Imagino que todo o material que se pretendia publicar tenha sido  censurado. Porque era exatamente isso o que  censura oficial fazia: suprimir.

Não obstante, não há registro de que a vigilância do Estado sobre a imprensa tenha feito com que um jornalista escrevesse, contra suas convicções e o universo fático,  elogios ao regime.

Nas páginas da edição 82, os militares (como os que escondem a cara na foto que antecede este post) são descritos desta forma: “Esses homens saídos dos quartéis destrincharam aos poucos as sutis malhas da crise brasileira. Para enfrentá-la dispunham da formação idealista e combativa que receberam nas escolas e unidades e da unidade de objetivos que cultivaram na vida da tropa”. Longe dos olhos da opinião pública, outra ala de “idealistas combativos” submetia a atual Presidente às mais abjetas formas de tortura durante 22 dias consecutivos.

A matéria descreve os milicos dos anos 70 como homens que, “entre o apego às origens [humildes] e o fascínio pela pompa que revestia o poder, preferiram desmistificar a importância dos cargos” . E segue enaltecendo os hábitos austeros da nova burocracia de farda. Homens que “perceberam que havia outras tarefas, além do combate à subversão e à corrupção — e pensaram no futuro”, como se pode ler na Carta ao Leitor.

A linha-dura do regime mereceu menções elogiosas à parte.  Veja afirma que “o militar que em 1964 lutava contra a subversão e a corrupção, hoje, sem transigir com nenhum dos seus antigos inimigos, está empenhado ao mesmo tempo na construção de uma nova política social e econômica para o País”. Seria uma referência velada ao militar de 68 em diante, quando o monstro da ditadura se apresentou com sua pior face após o fechamento do Congresso,  a edição do AI-5 e a supressão do habeas-corpus?

Sem esboçar a mais dócil crítica ao governo, a reportagem foi prodigiosa em apontar as conquistas do regime. “A ação dos militares em cargos técnicos deu resultados surpreendentes em muitos casos”, pontifica o texto. Um dos personagens enaltecidos é o então Coronel Cesar Cals Filho, que “mora em casa alugada, não tira férias de 1958 e só janta em restaurantes aos domingos, em companhia de toda a família”.

Ao final da reportagem, Veja assevera que “para alguns setores, os militares representam uma intromissão estranha, que modifica radicalmente o jogo social, econômico e político; para outros, ao contrário, a intervenção dos militares é recebida como a última — e única — alternativa à preservação do regime”. Para concluir que, até a chegada do momento de devolver o Poder aos civis, “os militares continuarão a exercer o poder político com o mesmo sentido de missão a cumprir que um jovem oficial cultiva, comandando uma companhia de fronteira, ou que um velho general aplica no último posto de comando”.

Imagino o que teria sentido aquela menina de 22 anos da foto ao ler essa reportagem entre um choque elétrico e uma sessão no pau-de-arara. Imagino também que a farsa engendrada pela Imprensa Golpista de então — aquela que idolatrava o golpe — tenha relação com a altivez dos olhos da prisioneira Dilma Rousseff. E que o o contraste entre o mundo dourado  da oficialidade, projetado por reportagens como essa, e o mundo real dos porões, seja a causa da vergonha que deve ter levado os juízes da ditadura a esconder o rosto do fotógrafo. Os homens sem rosto sabiam o que estavam fazendo.

Os editores de vejam, também.

abaixo, a íntegra do texto, que pode ser lido também no Acervo Digital da Revista Veja.

Imprensa Golpista: quem, afinal, apoiou a ditadura militar brasileira ?

Em 1970 o País estava em convulsão. O regime era conduzido com mão de ferro pelo general Emílio Garrastazu Médici. Foi o mais severo dos ditadores. Ele movimentou uma máquina repressiva sem precedentes na história da República. Seu governo será lembrado para sempre pelas crueldades contra quem ousasse divergir, criticar ou combate-lo. Prisões, assassinatos, desaparecimentos e tortura aconteciam diante de uma sociedade anestesiada pelo crescimento da economia e emudecida pela censura.

A imprensa brasileira se dividia em duas alas: a que apoiava descaradamente a ditadura, outra que decidiu se insurgir contra os horrores protagonizados pelos milicos e seus algozes civis. E não foram poucos. No DOPS da polícia Paulista, por exemplo, uma jovem militante de um grupo guerrilheiro chegou a ser torturada durante 22 longos dias consecutivos com todo tipo de instrumento que pudesse provocar dor extrema e sofrimento psicológico. Seu nome: Dilma Rousseff.

Entre os veículos que apoiavam explicitamente a ditadura militar e se calavam obsequiosamente sobre a tortura, a revista Veja foi talvez o mais assanhado e prestativo. Na edição de 1º de julho de 1970, Veja dedicou sua capa ao fenômeno que catapultava para o alto a popularidade do ditador. A revista se desdobrava em elogios aos generais. Havia a Copa do Mundo, a conquista do tricampeonato, e pouco importava o que se passava nos porões.

Reproduzo, abaixo, a seção “Carta ao Leitor” da edição de número 95 de Veja. Lê-la é quase como cumprir um dever cívico de reparação histórica.  É um documento público de valor inestimável, assim como outros textos da revista do mesmo período. Serve para demonstrar como jornalistas engajados se transformaram em áulicos da ditadura militar brasileira.

O mais chocante, no entanto, é perceber que esses áulicos, hoje, travestem-se de democratas aguerridos. Incumbem-se do papel de defensores do governo diante de uma conspiração atroz da “mídia golpista” contra o governante de plantão. E se colocam lado a lado com aquela que, em outros tempos, não mereceria outro rótulo que não o de terrorista nas páginas produzidas por suas penas sempre dóceis a qualquer regime, qualquer governo.

Ganha um doce aquele que adivinhar quem foi o autor do texto. Palpites podem ser enviados para a área de comentários do blog.

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