Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

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STF retoma julgamento e Peluso deve votar pela última vez

A sessão de julgamento do mensalão desta quarta-feira, 29, pode definir o futuro do deputado e candidato a prefeito de Osasco João Paulo Cunha (PT-SP) e deve marcar a última participação do ministro Cezar Peluso no caso. Por ter que se aposentar compulsoriamente na próxima segunda-feira, 3 de setembro, quando completa 70 anos, Peluso só deve ter tempo de votar sobre os cinco réus julgados até o momento. A sessão começa às 14h e será transmitida ao vivo pela TV Estadão.
É pouco provável que o ministro antecipe todo o seu voto, já que a prática iria de encontro ao rito adotado e a exceção poderia gerar reações contrárias na Corte. “Amanhã  [quarta] vocês verão”, disse, brincando, ao ser questionado sobre como seria seu voto. Se o regimento for mantido, Peluso lerá o voto apenas dos réus do núcleo publicitário, como Marcos Valérios e o deputado João Paulo Cunha, deixando de se posicionar sobre os crimes dos demais.
Depois de Peluso, votam Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello, Celso de Mello e o presidente do STF, Ayres Britto. A expectativa é de que nesta quarta seja definida a situação de João Paulo Cunha. O deputado está a dois votos da condenação e poderá já aguardar o cálculo de sua pena. Por ora, a pena mínima dos três crimes de que João Paulo é acusado e está mais próximo de ser condenado soma 7 anos de prisão – dois anos por peculato, dois por corrupção passiva e três por lavagem de dinheiro. Porém, se o tribunal aceitar a acusação contra João Paulo pelo segundo peculato – nesse item, o placar está empatado em três votos a três -, o ex-presidente da Câmara poderá ser condenado a pelo menos 9 anos de reclusão e terá, obrigatoriamente, de cumprir a pena em regime fechado.
Como é réu primário, João Paulo deve ser punido com as penas mínimas previstas no Código Penal para os crimes de peculato (apropriação de bem em razão do cargo, em cada uma das duas acusações), corrupção passiva (recebimento de vantagem indevida) e lavagem de dinheiro (ocultação da origem de recursos). Acredita-se de que Ayres Britto e Gilmar Mendes votem a favor da condenação.

Beba na fonte: Mensalão: STF retoma julgamento e Peluso deve votar pela última vez – Radar político – Estadao.com.br.

Dever de coerência

Dora Kramer

Barroco na forma, o ministro Luiz Fux foi de clássica simplicidade no conteúdo de seu voto notadamente ao abordar a questão do ônus da prova.

Em resumo e com outras palavras, considerou que o peso pró-réu do princípio da presunção da inocência é inquestionável, porém, não absoluto. Implica a existência de um grau razoável de coerência nos argumentos expostos pela defesa.

Ou seja, não basta a defesa apresentar uma história qualquer, é preciso que seja bem contada.

“Toda vez que as dúvidas sobre as alegações da defesa e das provas favoráveis à versão dos acusados não forem razoáveis, não forem críveis diante das demais provas, pode haver condenação”, disse e arrematou: “A presunção da não culpabilidade não transforma o critério de dúvida razoável em certeza absoluta”.

É um ponto essencial na divergência entre os ministros que enquadraram o deputado João Paulo Cunha no crime de corrupção passiva e os que não viram nada demais no fato de a mulher dele ter recebido R$ 50 mil em espécie no Banco Rural por ordem de pagamento feita pela agência de Marcos Valério.

Os ministros Ricardo Lewandowski e Antonio Dias Toffoli aceitaram passivamente a versão de que o dinheiro se destinava ao pagamento de pesquisas eleitorais realizadas dois anos antes e que o envio da mulher como portadora indicava boa-fé.

Já o relator e os ministros Rosa Weber, Luiz Fux e Carmen Lúcia levaram em consideração a coerência do relato em relação ao contexto: a alegação inicial de que a mulher de João Paulo havia ido à agência do Rural para pagar uma conta de TV a cabo, a mudança de versão só depois de descobertos documentos obtidos mediante operações de apreensão e o suspeito “passeio” do dinheiro pelo valerioduto.

Todos os seis ministros que votaram até agora demonstraram intolerância com a ausência de pé e a privação de cabeça na fantástica história do envelope que Henrique Pizzolato recebeu com R$ 326 mil alegando desconhecer o que continha, de quem vinha e qual serventia teria.

Nesse episódio, todos aplicaram o raciocínio desenvolvido por Luiz Fux sobre a necessária verossimilhança de versões contra as quais “a simples negativa genérica não é capaz de desconstruir o itinerário lógico que leva à condenação”.

Caso a maioria adote esse caminho, o cenário não se avizinha risonho para José Dirceu.

Além de tentar convencer o Supremo Tribunal Federal de que sua ex-mulher encontrou emprego, empréstimos e um comprador para seu apartamento por intermédio do esquema de Marcos Valério por mera coincidência, ainda precisará que os juízes considerem verossímil a hipótese de ter saído da presidência do PT para a Casa Civil para nunca mais tomar conhecimento do que se passava no partido.

Beba na fonte: Dever de coerência – politica – versaoimpressa – Estadão.

O grande sofisma

Fernando Rodrigues

O julgamento do mensalão pode ajudar a sepultar a velha máxima maniqueísta sobre como funciona o poder: “Só existem dois tipos de políticos. Os que precisam da política para fazer dinheiro. E os que precisam de dinheiro para fazer política”.Esse sofisma reducionista é um truque. Pressupõe que é possível “roubar para o bem”. Os políticos sempre apresentam uma causa nobre ao usar o dinheiro alheio. Desculpam-se dizendo ser necessário construir seus partidos.O raciocínio é perverso. Está no DNA da tese de que o mensalão só foi caixa dois para pagar dívidas eleitorais. Afinal, roubar em nome do partido seria aceitável. Ninguém pegou dinheiro para passar um fim de semana nas ilhas Seychelles nem comprou um castelo no sul da França.Alguns votos até agora proferidos no Supremo Tribunal Federal não aceitam essa argumentação. Corrupção política é uma coisa só. Não importa se foi para pagar uma pesquisa eleitoral ou esquiar no Chile. Também é irrelevante se o agente público recebe dinheiro e não pratica em seguida um ato de ofício a favor do corruptor. O ponto é: será que o deputado, senador, ministro ou outro ocupante de função dentro do Estado receberia o benefício se não estivesse na cadeira que ocupa?Uma vez uma multinacional do petróleo me convidou para falar sobre conjuntura brasileira num encontro no qual estariam seus executivos de vários países. Pagavam bem. Respondi que não poderia cobrar. Haveria conflito de interesses. Mas aceitava o convite pela oportunidade de ter contato direto com os diretores da empresa. Ouvi então uma frase que jamais esquecerei: “Fernando, de graça eles não querem”.Políticos aceitam favores. Sabem que em algum momento terão de retribuir. Foi assim no mensalão. Se o STF considerar tal compadrio um crime, um passo decisivo terá sido dado para reduzir esse tipo de prática.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – O grande sofisma – 29/08/2012.

O mensalão até aqui

Marcelo Coelho

ATÉ A tarde de segunda-feira passada, quando começou a 15ª sessão do Supremo Tribunal Federal para o julgamento do mensalão, era arriscado fazer muitas apostas quanto ao resultado do caso.

Dos onze ministros da corte (na verdade dez, porque Cezar Peluso se aposenta na semana que vem), só havia razoável grau de certeza para dizer que Joaquim Barbosa, o relator, condenará o maior número possível de réus.

Já o revisor, Ricardo Lewandowski, deu todos os sinais de agir na direção inversa, devendo ser acompanhado por Antonio Dias Toffoli, antigo de assessor de José Dirceu na Casa Civil e namorado de Roberta Rangel, ex-defensora de um dos réus do processo.

Restavam sete ministros; agora são só quatro.

Mesmo os “absolvedores” não tiveram dúvida em condenar Henrique Pizzolato, diretor de marketing do Banco do Brasil, por ter desviado cerca de R$ 74 milhões para a DNA Propaganda, empresa de Marcos Valério. E por ter recebido R$ 326 mil, num pacote de papel pardo, em troca do serviço. Crimes de peculato, portanto (o desvio para Marcos Valério) e de corrupção passiva (o pacote recebido).

Com isso, no papel de corruptor ativo e de beneficiário do desvio, Marcos Valério também foi condenado, ao lado de seus ex-sócios Cristiano Paz e Ramon Hollerbach.

Houve pouca polêmica nesse ponto, apesar de algumas questões técnicas referentes à origem dos R$ 74 milhões. Seriam mesmo recursos públicos?

Acontece que o crime de peculato não existe apenas quando se trata de desvio de dinheiro público. Um carcereiro, encarregado de guardar os bens do preso, enfia-os no bolso: eis um caso de peculato, envolvendo propriedade particular.

Se a condenação de Pizzolato foi relativamente tranquila, o caso de João Paulo Cunha produz mais divergências.

Foi aí que Rosa Weber, Luiz Fux e Cármen Lúcia mostraram seu potencial para influenciar, provavelmente, os rumos de todo o julgamento. Marcaram posição com respeito a alguns pontos de doutrina, que podem ser estendidos aos outros réus do processo.

Acima de tudo, é o próprio conceito de “prova” que está em questão. Para os advogados, evidentemente, faltam provas concretas para todos os crimes de que os réus são acusados.

Tome-se João Paulo Cunha. Sim, sua mulher foi a uma agência do Banco Rural em Brasília e sacou R$ 50 mil, provenientes de um cheque emitido pela SMP e B, agência de Marcos Valério.

Sim, essa agência estava participando de uma licitação para prestar serviços de comunicação à Câmara dos Deputados, da qual sairia vencedora.

Mas não há “provas”, diz a defesa, de ligação entre uma coisa e outra. O argumento foi seguido pelo revisor, Ricardo Lewandowski. Era vaga, nesse raciocínio, a acusação de que João Paulo Cunha pegou esse dinheiro “para favorecer” Marcos Valério.

Favorecer como? A acusação não tem, por exemplo, nenhum telefonema gravado, nenhum e-mail, para mostrar contra João Paulo.

A concorrência foi feita por funcionários estáveis da própria Câmara; o Tribunal de Contas da União nada viu de errado no processo; quanto ao dinheiro, João Paulo o recebera não porque vinha de Marcos Valério, mas porque o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, orientara-o nesse sentido, para um fim nobre: a realização de pesquisas eleitorais na região de Osasco.

A famosa tese do “caixa dois”, voltada para inocentar muitos dos envolvidos, entrava em cena. O deputado não pega dinheiro por ser corrupto, vendendo votos ou favorecimentos, mas simplesmente porque tem gastos a fazer, e o PT providencia os recursos -sem que ninguém precise saber sua origem.

Se sabe da origem, e disfarça, estará fazendo lavagem de dinheiro. Se recebe para votar ou para ajudar numa licitação, estará sob a acusação de corrupção. Se contrata uma empresa e esta não faz o serviço, houve peculato.

Nesse sentido, os três ministros mais novos foram mais severos do que o próprio Joaquim Barbosa, que se esforçou por demonstrar, tintim por tintim, os serviços que os contratados de João Paulo Cunha (Marcos Valério e Luiz Costa Pinto, de outra empresa de assessoria) deveriam ter prestado e não prestaram.

Enquanto Lewandowski e Barbosa discutiam esses pontos, a convicção de Fux, Cármen Lúcia e Rosa Weber se baseou em indícios mais genéricos -pelo menos na exposição oral que fizeram.

“Não dá para acreditar”, este o resumo de suas decisões. João Paulo Cunha mudou as versões sobre o que sua mulher ia fazer no banco (no começo, dizia que ela fora apenas pagar a conta da TV a cabo). Ganhou uma caneta Montblanc de Marcos Valério. O cheque vinha de Marcos Valério. Que mais seria preciso para condená-lo?

Toffoli, seguindo a tese do “caixa dois”, argumenta que a mudança de versões é indício, sim, de que João Paulo sabia estar fazendo algo irregular, relativo a custeio de suas atividades políticas. Mas que isso não prova lavagem de dinheiro ou corrupção.

Desacreditando disso, é difícil que os ministros inocentem outros réus do processo que sustentam a mesma argumentação. Claro, cada caso é um caso. Mas a defesa tem razões de sobra para se preocupar mais a partir de agora.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – O mensalão até aqui – 29/08/2012.

Efeito detergente

Dora Kramer

Semana passada o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, e o presidente do partido em São Paulo, Edinho Silva, saíram de uma reunião com o ex-presidente Lula falando sobre a queda no volume de doações financeiras para a campanha municipal que, segundo eles, ocorre no País todo e atinge todos os partidos.

“A arrecadação está devagar, os empresários dizem que estão avaliando”, informou o tesoureiro. O presidente da seção paulista atribuiu essa redução à insegurança decorrente do julgamento do mensalão e da CPI do Cachoeira. “Não é um ambiente de tranquilidade na política”, disse.

De fato. Com uma comissão de inquérito mostrando ligações nebulosas entre máfia de jogatina, agentes públicos e empreiteira especializada em negócios governamentais, o Supremo Tribunal Federal pela primeira vez julgando réus amigos, aliados e correligionários de partido no poder e advogados sendo criticados por conferirem à prática do caixa 2 a condição de argumento de defesa, o ambiente é tudo menos tranquilizador.

Digamos que o mar não esteja para peixe.

Tranquilidade mesmo só quando as autoridades estão alheias aos ditames da lei e a opinião pública se curva ao lema do imperativo do uso de mãos sujas no exercício da política.

Em tempos de vigilância explícita, encolhem-se os potenciais infratores. De onde se pode fazer a seguinte reflexão: se é verdadeira a alegação de que o julgamento do mensalão resulta em queda de arrecadação, algo há de errado na avaliação sobre o efeito moralizador da instituição do financiamento público de campanhas.

Não é o aporte de mais verbas públicas – além do fundo partidário e da renúncia fiscal às emissoras pela veiculação da propaganda dita gratuita – o que inibe o crime, mas a sinalização de que os ilícitos não ficam impunes. Simples e óbvio assim.

Cada qual. A despeito da disposição de Ricardo Lewandowski de se contrapor às posições de Joaquim Barbosa, há uma definição regimental clara sobre os papéis de cada um.

Ao relator cabe lidar com os fatos e as pessoas do processo e ao revisor a confirmação, complementação ou retificação do relatório. Mal comparando, é relação semelhante à existente entre o autor e o revisor de um texto. Não é prerrogativa de quem revisa contestar o escrito.

Uma vez iniciado o julgamento do mérito, a única prerrogativa especial do revisor é votar antes dos demais, logo após o relator.

Dessa perspectiva é que o colegiado discorda do ponto de vista de Lewandowski.

Beba na fonte: Efeito detergente – politica – versaoimpressa – Estadão.

Festival de condenações

Eliane Cantanhêde

Não houve surpresa em relação à coincidência de votos do ministro Dias Toffoli e do revisor Ricardo Lewandowski, mas os dos novatos Rosa Weber e Luiz Fux desenham um novo horizonte para o julgamento do mensalão pelo Supremo. A previsão passa a ser a de um festival de condenações.

Toffoli e Lewandowski condenam Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil, mas absolvem João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados. Os dois réus são acusados de praticamente a mesma coisa: favorecer os negócios do publicitário Marcos Valério e, simultaneamente, receber boladas de dinheiro não justificadas.

Já Rosa Weber e Luiz Fux, tidos até ontem como incógnitas, condenam tanto Pizzolato quanto João Paulo – deputado federal do PT e único candidato às eleições de outubro entre os 38 réus-, induzindo à impressão de uma condenação generalizada. Os “neutros” pesaram para o lado da condenação na balança do Supremo.

Cármen Lúcia também votou pela condenação, mas isso era previsível. Ela não era listada como “neutra” nem como “interrogação”. Apesar de muito discreta, a ministra é considerada técnica, concisa e dura. Foi exatamente assim que ela votou ontem.

Além de Cármen Lúcia, de Rosa Weber e de Luiz Fux, imagina-se, entre quem acompanha tudo de perto, que seguirão na mesma linha os ministros mais antigos, como Celso de Mello, Gilmar Mendes e Marco Aurélio, o presidente, Ayres Britto, e o seu antecessor, Cezar Peluso (que só vota até a próxima sexta-feira).

Com Joaquim Barbosa, são 9 dos 11 votos, e a própria declaração do advogado Márcio Thomaz Bastos -de que prisões, se houver, só no próximo ano- já foi compreendida como reconhecimento prévio de derrota.

A grande dúvida é se essa tendência será ou não mantida até o capítulo mais crucial: o julgamento do “núcleo político”, que ficará por último. Pelas manifestações de ontem, ninguém ali vai escapar.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Festival de condenações – 28/08/2012.

BESTA relincha enquanto mensaleiros vão para o brejo

Está uma delícia acompanhar as reações da sub-imprensa contratada para melar o julgamento do mensalão. A “surpresa” com a condenação iminente dos principais quadrilheiros transformou a área de comentários dos sites da BESTA numa espécie de hospício virtual polvilhado de paranóicos e suas teorias da conspiração. Recomendo a leitura. Em um dos sites, leitores afirmam, por exemplo, que o STF se curvou ao império da velha mídia. Um dos comentaristas chega a sugerir que há dossiês contra os ministros da Corte que os estariam obrigando a condenar os inocentes comandados por Zé Dirceu.

Não se pode culpar os leitores por seus erros de avaliação. O erro é das fontes viciadas que os desinformam.

“O Mensalão está por provar-se”, repetiu, exaustivamente, o guru da submídia mensaleira ao longo dos últimos meses. Agora que o Mensalão está praticamente provado, resta a surpresa de quem foi enganado pelo engodo de que tudo não passou de uma armação golpista da imprensa contra o santo Lula.

“Quero ver o Supremo condenar o Dirceu”, escoiceava outro enganador pago pela viúva há semanas. Agora, viúvos estão os aficcionados pelo blá-blá-blá encomandado à BESTA, que não conseguem entender o que está acontecendo.

Luis Fux e Rosa Weber, julgadores que não tergiversaram no cumprimento do dever de condenar a cambada mensalista, causaram pasmo e estupor entre as vítimas da blogosfera estatal — como se esses juízes, cuja nomeação foi feita durante a gestão petista, tivessem a obrigação de retribuir com  impunidade à indicação para integrar o STF.

Resta saber como reagirão os penas-alugadas da quadrilha quando o chefe da organização criminosa e seus subordinados começarem a lotar o chiqueirinho do camburão.

Quatro já foram. João Paulo está a um passo.

A maioria dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) votou ontem pela condenação dos primeiros réus do mensalão, sete anos depois do início do escândalo, revelado pela Folha.

A votação também complicou a situação do ex-presidente da Câmara dos Deputados João Paulo Cunha (PT).

O julgamento é feito de forma fatiada e a análise do primeiro dos itens ainda não terminou, mas 6 dos 11 ministros votaram pela condenação do ex-diretor de marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, ligado ao PT, do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza e de dois ex-sócios, Cristiano Paz e Ramon Hollerbach.

Os ministros Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski, Rosa Weber, Luiz Fux, José Antonio Dias Toffoli e Cármen Lúcia entenderam que os quatro réus cometeram os crimes de corrupção e peculato (desvio de dinheiro por funcionário público).

O tamanho das penas será definido no final do julgamento. Restam ainda os votos de cinco ministros. Um ministro pode mudar seu voto, mas é raro isso acontecer.

As condenações só serão oficializadas com a publicação do acórdão, sem data para ocorrer. A partir daí, abre-se prazo aos recursos.

A maioria também votou pela absolvição do ex-ministro Luiz Gushiken (PT-SP).

Pizzolato foi acusado de receber R$ 326 mil de Valério para antecipar, de forma ilegal, recursos de cotas de um fundo financeiro sob controle do Banco do Brasil.

Hoje candidato a prefeito de Osasco, João Paulo Cunha está a apenas dois votos da sua condenação por corrupção passiva e peculato.

Ele é acusado de receber R$ 50 mil para beneficiar agência de Valério em contrato com a Câmara. Votaram pela condenação Barbosa, Weber (de forma parcial), Fux e Cármen Lúcia. Toffoli seguiu a decisão do revisor, Ricardo Lewandowski, pela absolvição.

“Novatos” no Supremo, Weber e Fux indicaram que podem ser duros em relação às demais acusações.

Ao comentar a afirmação de João Paulo de que usou os R$ 50 mil para gasto pré-eleitoral, Weber disse que não importa o fim dado ao recurso. “Qualquer hipótese não deixa de ser vantagem indevida.”

Ela apontou ainda que as três notas fiscais de uma empresa de pesquisas eleitorais apresentadas por João Paulo têm números sequenciais, embora datadas de setembro e dezembro de 2003.

Fux defendeu as provas obtidas em CPI -alguns acham válidas apenas as reunidas no decorrer do processo.

Weber e Fux também colocaram em xeque a noção de que é necessária comprovação de um ato praticado pelo funcionário público para caracterizar a corrupção.

Em seu voto, Cármen Lúcia disse que o Brasil mudou e comentou o fato de a mulher de João Paulo ter ido sacar o dinheiro. “Isso se deve a uma singeleza extremamente melancólica para nós brasileiros, que é uma certa certeza de impunidade. (…) Mande-se lá alguém, um parente, e nada será descoberto”.

Barbosa e Lewandowski cancelaram um debate que haveria no início da sessão. Barbosa disse a interlocutores que tomou a decisão para acelerar o julgamento.

O advogado Alberto Toron, que defende João Paulo, afirmou ter “muita esperança” na absolvição de seu cliente. O advogado de Pizzolato, Marthius Lobato, disse que “o resultado só virá ao fim de todos os votos”. Os advogados de Valério não comentaram. (FELIPE SELIGMAN, FLÁVIO FERREIRA, MÁRCIO FALCÃO, NÁDIA GUERLENDA CABRAL E RUBENS VALENTE)

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Supremo reúne maioria para condenar os 4 primeiros réus – 28/08/2012.

Ministros debatem hoje no STF caso João Paulo Cunha

RUBENS VALENTE

O julgamento do mensalão entra hoje na sua 15ª sessão no Supremo Tribunal Federal (STF) com um debate entre o relator, Joaquim Barbosa, e o revisor, Ricardo Lewandowski. Eles divergiram sobre o ponto da acusação que trata do deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP).

No capítulo que aborda uma suposta propina paga a João Paulo (leia no quadro ao lado), Barbosa votou pela condenação do deputado, do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza e de dois sócios pelos crimes de corrupção e peculato. Lewandowski decidiu pela absolvição.

Hoje Barbosa faz sua “réplica” e Lewandowski, sua “tréplica”, expressões típicas de debate eleitoral, mas que têm sido usadas pelos próprios ministros.

Barbosa deve apontar deficiências no voto do colega e vice-versa. Na sequência, os outros nove ministros devem votam as acusações contra o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato -parte em que Barbosa e Lewandowski concordaram pela condenação.

EQUÍVOCO

Lewandowski cometeu pelo menos um erro no voto que leu na quinta-feira passada. Ele atribuiu a um ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) uma conclusão que não é dele nem do tribunal, mas de um personagem que foi alvo de uma auditoria do órgão, o ex-diretor-geral da Câmara Sérgio Sampaio.

Lewandowski disse que o ministro do TCU relator da apuração sobre o contrato de Valério com a Câmara afirmara que uma apuração da Secretaria de Controle Interno da Câmara (que apontou problemas no contrato) fora “maculada por vícios que a nulificam [anulam]“.

Ele mencionou a página e o volume do processo do mensalão em que estaria a conclusão do TCU. No documento, contudo, vê-se que a afirmação sobre “mácula”, “vícios” e “inimizade” não partiu do TCU, mas do próprio Sampaio.

Segundo Sampaio, a reprovação da auditoria interna da Câmara seria decorrente de uma suposta “notória inimizade” entre o então secretário de Controle Interno, Alexis Paula Souza, com o diretor de comunicação da Câmara, Márcio Araújo, e ele.

Apesar de ter aprovado os gastos do contrato, o TCU não avalizou essa versão.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Ministros debatem hoje no STF caso João Paulo Cunha – 27/08/2012.

Internet mostra poder do cidadão na divulgação de informações sobre o mensalão

IVAR HARTMANN

Os brasileiros estão usando a internet para se informar sobre o mensalão -e também para produzir informação sobre o julgamento. Já influenciam a pauta.

É do usuário @ahvalentino, desconhecido para a imprensa, a mensagem sobre o mensalão com o maior número de referências no Twitter.

Enquanto tuítes de órgãos da imprensa são repassados por, em média, uma dezena de outros usuários, a frase de @ahvalentino obteve mais de 600 retuítes: “Julgamento do mensalao, greve nas federais, guerras civis no mundo arabe e o q o fantástico mostra é um quadro retardado sobre fantasmas.”

Segundo o medidor imparcial Twitalyzer, esse anônimo brasileiro é mais influente na rede social que órgãos da imprensa, o STF ou mesmo José Dirceu.

Esse é um indicador de que a discussão não é ditada apenas pela mídia tradicional ou pelo governo: cidadãos comuns são muito influentes, organizam a produção de informações e ativamente influenciam os rumos da opinião pública nacional.

O Google e a Wikipédia são dois indicadores do interesse dos internautas. Se um brasileiro digita “mensalão” no buscador, antes que ele aperte a tecla Enter, são oferecidas quatro sugestões: “mensalão mineiro”, “mensalão prescreve”, “mensalão julgamento” e “mensalãopt”. A função autocompletar do Google oferece essas opções porque essas pesquisas foram realizadas com maior frequência no país. Isso mostra, por exemplo, que o brasileiro está atento à possibilidade de prescrição.

Nos próximos anos, quando centenas de milhares de adolescentes brasileiros quiserem saber o que foi o mensalão, sua fonte provavelmente será a Wikipédia. O verbete “escândalo do mensalão” na enciclopédia on-line foi produzido e é atualizado, desde 2005, por mais de 400 editores.

Neste mês, os colaboradores mais experientes coibiram alterações inapropriadas no verbete feitas por alguns usuários com histórico de contribuições duvidosas e políticas. A Wikipédia tornou-se campo relevante de disputas de interesse -campo esse aberto à participação de todos.

Uma montagem usando a capa da edição da revista “Veja” na semana após o início do julgamento está circulando muito no Facebook. A capa, que destaca a novela “Avenida Brasil”, é guarnecida dos dizeres: “No mês em que o país passa pelo maior julgamento político da sua história… Essa é a capa da revista ‘Veja’. Acorda Brasil”.

Na internet, os brasileiros estão acordados -para o mensalão e todo o resto.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Internet mostra poder do cidadão na divulgação de informações sobre o caso – 13/08/2012.

Supremo já usou depoimentos para condenar políticos

FERNANDO MELLO

Atacado por advogados de réus do mensalão e apontado como fragilidade da acusação, o uso de depoimentos pela Procuradoria-Geral serviu de prova para condenar dois políticos no STF.

O primeiro caso é de 2011. A defesa do deputado Asdrúbal Bentes (PMDB-PA) alegou inexistir “prova documental, por mais tênue que seja”, mas “meras alegações, conjecturas e contradições, produzidas em depoimentos direcionados, desprovidos, por si só, de suporte probatório”.

O STF não aceitou as alegações e Bentes foi condenado a três anos em regime aberto, acusado de oferecer, em 2004, cirurgias de esterilização em troca de votos de mulheres. Só Marco Aurélio Mello votou pela absolvição.

O procurador-geral, Roberto Gurgel, reconheceu que não havia “prova direta” da participação de Bentes. “É que crimes dessa natureza são tramados entre quatro paredes. Ninguém dá recibo das fraudes perpetradas.”

Porém, a Procuradoria argumentou ser impossível que Bentes não soubesse de nada, pois as cirurgias haviam sido ofertadas na ONG administrada por sua mulher e feitas por amigos dele.

Para a Procuradoria, ele “coordenou a ação criminosa, embora não tenha executado diretamente”.

Relator do caso, o ministro Dias Toffoli concordou.

“Formo minha convicção no sentido de que o conjunto dos depoimentos aponta nesse sentido, indicando que o réu foi o principal articulador desse estratagema”, afirmou.

Testemunhos também serviram para a condenação do ex-deputado Natan Donadon (PMDB-RO) a 13 anos de prisão, acusado de desvios de R$ 8 milhões da Assembleia.

Segundo a Procuradoria, o dinheiro foi repassado a uma agência de publicidade que não prestou serviços e sacado na boca do caixa.

A defesa de Donadon atacou um testemunho colhido no inquérito e não confirmado à Justiça, dizendo que isso impediu o contraditório, mesmo argumento usado, no caso do mensalão, em referência à CPI dos Correios.

Gurgel defendeu o depoimento. “A ele me refiro porque se harmoniza à perfeição com os demais elementos.”

Para o procurador, a jurisprudência do Supremo é a de que elementos do inquérito podem ser usados “quando complementam outros indícios e provas que passam pelo crivo do contraditório”.

Naquele caso, Gurgel apontou “particular dificuldade de apuração”, pois investigados destruíram documentos. Os ministros, contudo, consideraram suficientes as testemunhas, além de cheques assinados por Donadon.

“A defesa tenta desqualificar as testemunhas”, disse a relatora Cármen Lúcia. “Contudo, na instrução, não foi arguido impedimento.”

No mensalão, as defesas criticam depoimentos de outros réus ou colhidos em fases anteriores ao processo, o que seria ilegal.

Para Alexandre Camanho, da Associação Nacional dos Procuradores da República, “a prova testemunhal é a amálgama da acusação e cimenta outras provas”.

O presidente da Associação dos Juízes Federais, Nino Toldo, diz que juiz não deve se basear somente em testemunhas, mas que elas apontam participação no crime.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Supremo já usou depoimentos para condenar políticos – 13/08/2012.

Revisão de cálculo

DORA KRAMER

O governo ontem pelo visto deu-se conta do quanto soava inverossímil a versão de que ninguém no Palácio do Planalto e Esplanada dos Ministérios estava dando a menor pelota para o julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal.

Dois ministros, Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, e José Eduardo Cardozo, da Justiça, manifestaram-se depois de dias de ineficaz imposição de toque de silêncio forçado. Ambos disseram que qualquer que seja o resultado não haverá desgaste para a presidente Dilma Rousseff nem prejuízo eleitoral para o PT.

Note-se, não são quaisquer ministros, mas dois auxiliares muito próximos do cotidiano da presidente, sendo um deles, Gilberto Carvalho, ligadíssimo ao ex-presidente Lula. Um indicativo de que a mudança possa ter a concordância dele.

Não se imagina que Lula vá passar a tratar do assunto em público com desenvoltura, mas ao menos é de se esperar que agora cesse a embromação.

Uma atitude bastante mais condizente com o bom senso, a lógica e o respeito ao discernimento alheio que a decisão anterior de tentar manter distância do caso mediante um artifício sem pé nem cabeça.

Pode ser até que o restante do País não dê a devida atenção às sessões do STF, mas na capital da República não se fala de outra coisa nas rodas de alguma forma relacionadas ao poder.

De onde a simulada indiferença já se transformara em piada de todos os salões.

Em boa hora se impôs o recuo, de resto inevitável. Basicamente por dois motivos. Um, a óbvia impossibilidade de estabelecer artificialmente uma dissociação, vez que o próprio advogado de José Dirceu levou Lula e Dilma para o centro do tribunal ao citá-los como testemunhas de defesa da conduta proba de Dirceu quando na Casa Civil.

Outra razão, a inverossimilhança da história. O caso envolve o PT, o partido do governo que nas eleições municipais estará na televisão defendendo seus candidatos.

Acrescente-se à revisão de cálculo político feita pelo Planalto ainda o fator efeito condenação ou absolvição. Na hora de anunciado o resultado, o governo inevitavelmente precisará dizer alguma coisa, precisa estar livre para tal.

Se a conclusão for desfavorável aos réus, poderá comentar com a autoridade de quem não se escondeu do tema. Se continuasse no terreno da negação, aos olhos do público pareceria derrotado, situação desconfortável diante de decisão da Corte Suprema institucionalmente indiscutível.

A opção por posição mais madura dá ao governo uma aparência de neutralidade e lhe abre até a possibilidade de comemorar. Discretamente, renovando votos de confiança na Justiça e feliz da vida por ter mais uma vez dado a volta por cima.

Beba na fonte: Revisão de cálculo – politica – versaoimpressa – Estadão.

STF ouve hoje defesa de ex-diretor do BB e de políticos do PP

No terceiro dia de defesa dos réus do mensalão, os advogados do ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato e de políticos ligados ao Partido Progressista (PP) apresentam, nesta quinta-feita, a sustentação oral no Supremo Tribunal Federal. Pizzolato foi quem autorizou a liberação de R$ 73 milhões da Visanet para a DNA Propaganda, empresa de Marcos Valério, sem nenhuma garantia dos serviços contratados. Segundo o Ministério Público, ele teria recebido mais de R$ 300 mil do esquema. O advogado dele será o primeiro a falar.

Também se apresenta hoje a defesa de Enivaldo Quadrado, um dos donos da corretora Bônus-Banval. De acordo com a denúncia, a empresa era responsável pela lavagem do dinheiro recebido pelo PP. Quadrado confessou à CPI dos Correios que o publicitário Marcos Valério movimentou cerca de R$ 6,5 milhões pela Bônus-Banval.
Falarão ainda os advogados do deputado Pedro Henry (PP-MT), do ex-deputado Pedro Corrêa (PP-PE), e de João Cláudio Genu, assessor do deputado José Janene, líder do PP na época do escândalo morto em 2010. Genu é acusado de pegar pessoalmente dinheiro do esquema para o partido. Diz que cumpria ordens e que não sabia que o dinheiro era ilegal.
Pedro Corrêa foi cassado em 2006 por quebra de decoro parlamentar por ter ordenado um assessor a sacar R$ 700 mil das contas do publicitário Marcos Valério. Já Pedro Henry é acusado de ser um dos beneficiário do esquema. Foi absolvido pela Câmara no processo por quebra de decoro. Nas eleições de 2010, apesar de considerado ficha-suja, teve o registro de sua candidatura à reeleição aceito pelo TSE.
Na quarta-feira, o STF começou a ouvir a defesa do chamado núcleo político do mensalão. O advogado do deputado federal João Paulo Cunha (PT) argumentou que o saque de R$ 50 mil feito pela mulher dele nas contas de Valério não é irregular. Segundo a defesa, se fosse irregular o deputado não mandaria a própria mulher à agência do Banco Rural em Brasília.
A defesa de Luiz Gushiken, ex-ministro de Comunicação, atacou o Ministério Público Federal e pediu retratação. Por falta de provas, o MP pediu a absolvição de Gushiken em suas alegações finais no STF.

Beba na fonte: STF ouve hoje defesa de ex-diretor do BB e de políticos do PP – O Globo.

Acusados de operar mensalão tentam se desvincular de Valério

Quatro acusados de integrar o núcleo operacional do mensalão buscaram ontem, no quarto dia de julgamento, se desvincular do empresário Marcos Valério de Souza.

A linha da defesa foi atribuir a ele a responsabilidade pelas operações consideradas ilícitas pela Procuradoria-Geral da República.

Os advogados argumentaram que seus clientes ou agiam a mando de Marcos Valério ou não tinham conhecimento de irregularidades.

Ontem se manifestaram as defesas de Cristiano Paz e Rogério Tolentino, apontados como sócios de Valério, de Simone Vasconcelos e Geiza Dias, respectivamente diretora e gerente financeiras da agência do publicitário.

Eles foram acusados pelo procurador-geral Roberto Gurgel de, sob o comando de Valério, fazer parte de uma quadrilha responsável por negociar os empréstimos nos bancos Rural e BMG e montar o esquema de distribuição dos recursos a partidos e parlamentares. Todos negam as acusações.

O advogado de Paz, Castellar Modesto Guimarães Filho, diz que seu cliente, na época, era responsável pela criação, sem ingerência na parte financeira da SMPB, da qual era sócio de Valério.

Já o advogado de Rogério Tolentino, Paulo Sérgio Abreu e Silva, argumentou que seu cliente nunca foi sócio de Valério, tendo sido apenas seu advogado.

Tolentino foi acusado de ter tomado empréstimo de R$ 10 milhões do BMG, recursos que teriam sido repassados a parlamentares do PP.

Seu advogado, no entanto, afirmou que o empréstimo foi entregue a Valério, sem saber o destino do dinheiro.

Os advogados de Simone Vasconcelos e Geiza Dias argumentaram que elas obedeciam ordens de Valério.

“Ela era uma funcionária mequetrefe, Geiza cumpria ordens, trabalhava no terceiro ou quarto escalão”, disse Abreu e Silva, que também fez a defesa da ex-gerente.

Já o advogado de Simone, Leonardo Yarochewsky, argumentou que ela trabalhava num andar conhecido como “porão” e que ser diretora não tem grande relevância numa agência.

Outro a falar ontem foi o defensor da dona do Banco Rural, Kátia Rabello, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias. Ele negou que o banco tinha responsabilidade sobre operações de Valério e afirmou que a instituição foi vítima de sua transparência.

Kátia era presidente do banco na época e hoje é sua principal acionista. Segundo a defesa, ela é “injustiçada”, “está vivendo um inferno” e não pode ser responsabilizada por atos que não praticou.

O advogado disse que o Rural seguiu todas as normas e que os contatos com Valério eram feitos com José Augusto Dumont, ex-vice-presidente do banco, já morto. Rabello teria apenas assinado a renegociação contratual. Dias disse ainda que os saques feitos pelas empresas de Valério foram informados ao Coaf.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Acusados de operar mensalão tentam se desvincular de Valério – 08/08/2012.

O crível e o incrível

Perfeito que o advogado José Luis Oliveira Lima repila veementemente a acusação da Procuradoria-Geral da República de que seu cliente, José Dirceu, era “chefe da quadrilha” ou “chefe da organização criminosa”.

Mas… só no admirável mundo dos advogados seria possível dizer, com toda a teatralidade cabível, que Dirceu, como chefe da Casa Civil, não mandava nada no PT, não articulava nada, não interferia sequer nas nomeações para cargos públicos.

Sinceramente, essa não dá para engolir, a não ser numa história romanceada do mensalão, em contraponto à que a Procuradoria criou para crianças e que irrita os petistas.

Quanto às audiências de Dirceu com banqueiros e empresários no Palácio do Planalto (“entre quatro paredes”…), Oliveira Lima disse que eram parte do trabalho do então ministro. Mas não explicou onde Delúbio Soares, Sílvio Pereira e Marcos Valério se encaixavam.

Chefes da Casa Civil, de fato, recebem em palácio representantes de bancos e de empresas, mas ao lado do tesoureiro do partido e do presidente? Com o secretário-geral desse partido? E o que fazia Marcos Valério no Planalto com as cúpulas de dois bancos diferentes?! É juntar alhos com bugalhos ou… ah, deixa prá lá.

Já o advogado de José Genoíno, Luiz Fernando Pacheco, lembrou, com propriedade, que seu cliente está longe de ser um homem rico e, ao contrário, tem uma vida até modesta. Mas caiu numa contradição: disse, primeiro, que o mensalão é “inventado e fantasioso” e, ao final, que Genoíno foi “arrastado pela irresponsabilidade de alguns”. “Irresponsabilidade” é tradução para mensalão?

Os quatro advogados de ontem contaram uma mesma história, com um mesmo enredo, variando apenas quanto à importância dos personagens -ou clientes. No fim, todos induziram à mesma conclusão: foi tudo caixa dois. E a culpa é do Delúbio? Os 11 ministros podem ou não acreditar.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – O crível e o incrível – 07/08/2012.

Um relator na berlinda

Vera Magalhães

O relator do mensalão no STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Joaquim Barbosa, virou o inimigo número um do PT.

A berlinda começou quando, ainda em 2007, Barbosa deu um voto duríssimo recebendo a denúncia dos então 40 réus do mensalão, que foi acompanhada, nos principais pontos, pelos demais ministros da corte.

Mas nem sempre foi assim. A nomeação do primeiro negro para o Supremo foi propagandeada como grande avanço institucional do governo Lula. A cor da pele foi condição preliminar estabelecida pelo próprio Lula, que pediu aos conselheiros, Márcio Thomaz Bastos à frente, currículos de negros com notório saber jurídico e reputação ilibada.

Quem participou do processo lembra que os títulos de Joaquim Barbosa e sua carreira acadêmica internacional o colocaram quilômetros à frente dos demais nomes levantados.

Ele ainda foi festejado pelo PT pelos embates que travou com Gilmar Mendes, um dos alvos preferenciais do partido, por ter sido nomeado por Fernando Henrique Cardoso.

Setores do petismo consideram a indicação para a mais alta corte da Justiça do país equivalente à colocação de “companheiros” em postos do governo. Não lhes passa pela cabeça que, uma vez investido da toga, o indicado passa a ser magistrado, membro de um Poder independente.

Ao afirmar a existência do mensalão e, ao que tudo indica, se preparar para pedir a condenação da grande maioria dos réus, Barbosa passa a ser vítima de campanha difamatória.

O acadêmico brilhante de antes vira “despreparado”, um “promotor em pele de juiz”. Advogados e políticos dizem que o ministro só chegou ao STF graças ao “sistema de cotas”.

Caberá ao relator manter o sangue frio para fundamentar seu voto e driblar a tentativa de desestabilizá-lo.

Episódios como o embate com Ricardo Lewandowski na abertura do julgamento, dizem seus pares, não ajudará a legitimar sua posição no caso ao qual se dedica há sete anos.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Um relator na berlinda – 04/08/2012.

O Mensalão de Ravel

Sandro Vaia, no Blog do Noblat

O dia da estréia do julgamento do Mensalão no STF foi mais emocionante do que a estréia de Rafinha Bastos no Saturday Night Live.

O ministro Lewandowski – que nao se perca pelo nome – gastou uns bons 70 minutos para executar o seu Bolero de Ravel, uma variação longa e mortalmente entediante sobre um mesmo tema: a defesa do desdobramento do julgamento, que havia acabado de ser pedido pela milionária verve do ex-ministro da Justiça Márcio Thomas Bastos, defensor de alguns réus do mensalão, e agora livre dos incômodos liames com o contraventor Cachoeira.

Detalhe: o próprio Lewandovski, o que foi lembrado com inusitada irritação pelo relator Joaquim Barbosa, já havia votado anteriormente contra o desdobramento do processo.

O truque era tão engenhoso quanto barato: o desdobramento, se aprovado, significaria mandar para a primeira instância o julgamento de todos os réus que não dispõem de mandato parlamentar e consequente direito a foro especial: ou seja, dos 38 réus, 35 seriam julgados em primeira instância, inclusive o denominado (pelo Procurador- Geral da República) “chefe da quadrilha”, José Dirceu.

O que isso significaria em termos de prescrição, de adiamento, de procrastinação, de recursos e de enrolações em geral, é incalculável. Para os réus, seria simplesmente algo parecido com o paraíso.

A decisão, que em condições normais de temperatura poderia ser tomada em meia hora, com os ministros respondendo à questão com um simples “sim” ou “não”, foi soterrada por uma avalanche de bacharelismo mais entediante do que uma partida de biriba com a sogra surda.

Mas, enfim, é a vida. O primeiro truque que o imbatível Thomaz Bastos tirou de sua inesgotável cartola foi soterrado por 9 votos a 2, o que comprova que nem no Olimpo do Direito os deuses são infalíveis.

O strike visivelmente combinado com o parceiro Lewandowski falhou, mas a dupla ainda pode tentar ganhar o jogo com algum “spare”.

O ministro Dias Toffoli, cuja isenção é arguida em off pelo Procurador-Geral da República e em “on” por vários advogados judiciosos, acabou votando contra os interesses de quem em tese estaria inclinado a defender, e deu uma demonstração de independência – que por sinal não é a primeira – mas estará, justamente ou não, sob suspeição até o final do julgamento, e agiria com correção e lisura se se abstivesse de participar.

Logo depois, Joaquim Barbosa leu um resumo de seu relatório e o primeiro dia de julgamento perdeu-se num vácuo de inutilidade que promete estender-se numa interminável procissão de filigranas jurídicas.

Isso quer dizer que levará ainda um bom tempo até que possamos medir a profundidade das cicatrizes que o mensalão deixou tatuadas nas instituições políticas brasileiras.

Beba na fonte: Blog de Ricardo Noblat: colunista do jornal O Globo com notícias sobre política direto de Brasília – Ricardo Noblat: O Globo.

Lula, sobre o julgamento do Mensalão: ‘Tenho mais o que fazer!’

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não vai assistir pela TV ao julgamento do mensalão, maior escândalo político de seu governo. Além da negativa, Lula não quis comentar o caso.

“Tenho mais coisa para fazer. Quem tem de assistir são os advogados”, disse Lula, durante solenidade em um hotel na zona sul de São Paulo, onde recebeu homenagem de produtores de biodiesel.

Diante da insistência dos repórteres sobre o motivo de deixar o processo em segundo plano, o ex-presidente respondeu: “Porque tenho que trabalhar, meu filho”.

Após a solenidade, foi para o Instituto Lula, onde se reuniu por duas horas com o marqueteiro João Santana, responsável pela campanha de Fernando Haddad (PT), que patina nas pesquisas.

PRIMEIRO ESCALÃO

Ministros petistas de Dilma Rousseff começaram o dia disparando telefonemas aos correligionários réus.

O deputado João Paulo Cunha (SP) soltou um “que Deus nos proteja” numa conversa. José Dirceu, maior personalidade do julgamento, não atendeu ao telefone.

Professor Luizinho, líder do governo na época do mensalão, foi convencido a deixar Brasília horas antes do julgamento. A exemplo dele, o ex-deputado Paulo Rocha (PT-PA) não passou perto do Supremo, embora estivesse na cidade. Também foi aconselhado a não sair de casa.

Militantes petistas foram orientados a não fazer manifestação na porta do tribunal.

Do outro lado da praça dos Três Poderes, Dilma cumpriu agenda e deu espiadelas na transmissão pela TV.

Nos corredores do Palácio do Planalto, dizia-se que setores da mídia exigem a condenação do PT e o impedimento do ministro José Antonio Dias Toffoli, ex-advogado do partido.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – ‘Tenho mais o que fazer’, afirma Lula – 03/08/2012.

Quadrilhas e coautores

Eliane Cantanhêde

A estreia não deixa dúvidas: além dos réus do mensalão, estarão em julgamento também os onze ministros do Supremo. Sem falar no constrangimento da participação de Dias Toffoli.

Ao tentar “ressuscitar” (o verbo é do ex-presidente Cezar Peluso) a tese do desmembramento, talvez o advogado Márcio Thomaz Bastos não quisesse, de fato, que os três deputados federais fossem julgados pelo Supremo, e os demais 35 réus, pela primeira instância. Talvez sua intenção fosse protelar o processo e mostrar quem é quem na corte.

Por 9 a 2 os ministros decidiram o óbvio: a questão já havia sido votada pelo tribunal. Mas eles expuseram fragilidades. Rompantes e termos inadequados do relator Joaquim Barbosa não são novidade. O que surpreendeu foi o voto do revisor Ricardo Lewandowski, por escrito e longuíssimo, para corroborar a tese da defesa, pelo desmembramento.

Essa polaridade Joaquim-Lewandowski certamente permeará todo o julgamento -que vai longe.

Joaquim considerou “irresponsável” discutir o desmembramento mais uma vez, acusou Lewandowski de “deslealdade” e disse que tudo isso poderia afetar “a legitimidade do processo” e a própria “credibilidade da corte”. Destempero inútil.

O presidente Ayres Britto demorou a aprumar. Apesar de prometerem que seriam sucintos, Gilmar Mendes e Celso de Mello deram aula ao vivo. Marco Aurélio, como sempre, provocador. Rosa Weber, Cármen Lúcia e Luiz Fux, rápidos, despretensiosos.

Em bom português, Peluso argumentou que é impossível julgar coautorias e quadrilhas com os réus pulverizados em instâncias diferentes. Não estão em julgamento atos isolados de um Dirceu, de um Delúbio, mas, sim, todo um intrincado esquema em que cada um e todos tinham responsabilidade.

PS – Apesar de Padilha (Saúde) dizer que Marta Suplicy gravou para o programa de Haddad, ela nega.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Quadrilhas e coautores – 03/08/2012.

Julgamento do Mensalão começa com discussão e mal-estar entre Joaquim Barbosa e Levandowski

“Apregoo o julgamento da ação penal 470″.

Com essas plavras, o ministro Ayres Britto, presidente do STF, deu início à histórica sessão de julgamento dos crimes imputados aos mensaleiros — membro do primeiro escalão da administração do primeiro governo Lula, executivos financeiros, deputados e líderes e partidos que se associaram para trocar votos a favor do Planalto por um rio de dinheiro desviado de estatais como o Banco do Brasil.

Ayres Britto teve dificuldade para ler os nomes dos 38 réus, lista aberta com o nome do ex-ministro José Dirceu, a quem o Ministério Público qualifica como chefe da “sofisticada organização criminosa”. Chegou a chamar Delúbio Soares de “Doutor Delúbio”.

O advogado Márcio Thomaz Bastos pediu a palavra para uma questão preliminar: questionar a legitimidade do STF para julgar para réus que não são detentores da prerrogativa do foro privilegiado. O advogado reclama que nunca obteve resposta para seu questionamento.

“Essa matéria pela primeira vez é colocada para apreciação desta egrégia Corte. Não se trata de expediente para adiar o julgamento”, disse o advogado. “O que vai acontecer [se a preliminar for aceita] é que o processo segue pronto para ser julgado por um juiz singular” . “A Constituição quer é que pessoas sem foro especial tenham direito ao duplo grua de jurisdição”, justificou Thomaz Bastos, que representa o réu José Roberto Salgado.

Em seguida, vários advogados ocuparam a tribuna com o mesmo fim: arguir a competência do Tribunal Constitucional para julgar seus clientes.

O Procurador-Geral da República opinou pelo indeferimento da questão de ordem. O Ministro Joaquim Barbosa, relator do processo, disse que a questão foi debatida por iniciativa dele próprio. “Gastamos quase uma tarde inteira a debater o desmembramento do processo a pedido do réu Marcos Valério”. Segundo ele, foi a troca do advogado de um dos acusados que trouxe de volta o problema. “Me parece até irresponsável voltar a discutir essa questão”,  opinou o ministro, pedindo igualmente o indeferimento. “A questão está desenganadamente preclusa”.

Ricardo Levandowski, o ministro-revisor, opinou contrariamente ao relator. Ele disse que já havia se manifestado a favor do desmembramento no curso do processo.

“Causa espécie o senhor se manifestar desta forma quando poderia ter se maifestado há seis meses, um ano”, retrucou Joaquim Barbosa. “É deslealdade!”.

“A questão de ordem foi arguida por um dos maiores advogados deste País”, interveio Celso de Mello, o decano do STF. “Entendo que esta Suprema Corte precisa enfrentar o problema também para balisar futuras decisões a serem aplicadas em situações análogas”.

A decisão da preliminar levantada por Márcio Thomaz Bastos deve ser deliberada pelos demais ministros. O blog voltará a informar assim que houve uma decisão.

Blog vai transmitir ao vivo julgamento do Mensalão e debates da Band

Quem quiser acompanhar este importante dia político instantaneamente vai poder fazê-lo sem sair das páginas do Blog do Pannunzio. As transmissões vão contemplar o julgamento do Mensalão e os debates promovidos pela Rede Bandeirantes entre candidatos a prefeito em várias capitais brasileiras.
O sinal das transmissões ao vivo da TV Justiça já está disponível para no blog. Um ‘widget’foi introduzido no alto da barra lateral direita da página principal para que os leitores possam acompanhar a sessão de julgamento do Mensalão.
A transmissão do julgamento começa às 14 horas de hoje.
Para assistir, basta clicar sobre o video que se encontra logo abaixo da inscrição “Tv do Blog – Mensalão ao vivo”.
A partir do início e até o encerramento da sessão, um post passará a ocupar o alto da página principal. Nele será possível ampliar o quadro e acompanhar o julgamento em alta definição.

TV Justiça inova com Google Hangout e blogues poderão retransmitir julgamento do Mensalão ao vivo

O Blog do Pannunzio vai transmitir ao vivo o julgamento do Mensalão com imagens geradas pela TV Justiça. A transmissão começa às 14 horas de hoje.

O sinal está aberto para todos os blogues que desejem retransmitir a sessão. A TV Justiça vai utilizar a ferramenta HangOut, do Google, que permite a distribuição de áudio e video pelo Youtube, numa iniciativa que deveria ser adotada por todas as TVs públicas do País. O endereço para quem quiser aderir ou assistir diretamente no Youtube é http://www.youtube.com/user/STF?v=_40YW4ezZOk .

Saiba como será o o julgamento dos mensaleiros

O primeiro dia do julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF) começa com a leitura do relatório do relator, ministro Joaquim Barbosa. Depois, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, terá cinco horas para acusar 36 réus. Apesar de serem 38, Gurgel recomendou no processo que dois sejam absolvidos por falta de provas: Antônio Lamas, ex-assessor do PL, e Luiz Gushiken, ex-ministro da Secretaria de Comunicação.
A partir de sexta-feira, cada um dos advogados terá uma hora para defesa. A fase se estenderá até o dia 15. No dia 16, Barbosa começará a ler seu voto, com cerca de mil páginas. Ele deve interromper a leitura para o julgamento de cada um dos réus. O primeiro a ter o futuro definido deve ser José Dirceu. A expectativa é que o julgamento vá até setembro.
Na véspera do julgamento, o aparato montado na Corte denunciava a comoção em torno do processo. Às 14h, horário marcado para o início da primeira sessão do semestre, dezenas de seguranças de terno preto e gravata da mesma cor se postaram diante do prédio do STF, na porta de acesso ao plenário.
Após encarar a fileira de homens de preto, o visitante precisava passar por dois detectores de metal antes de entrar no plenário. Também era necessário fazer um cadastro, com documento de identidade, como de praxe. O julgamento afetou também a vida de quem não pensou em ir ao tribunal nesses dias: o ponto de ônibus na frente do STF foi desativado temporariamente.
Nesta quarta-feira, a ação penal contabilizava 50.624 páginas, divididas em 235 volumes e 500 apensos. Conforme o planejamento aprovado pelos ministros em junho, a primeira fase do julgamento começa hoje e vai até 15 de agosto. Haverá sessões plenárias diárias com cinco horas de duração.
O Supremo Tribunal Federal (STF) vai transmitir ao vivo, a partir das 14h desta quinta-feira, pela TV e pela internet, o julgamento do mensalão. A íntegra das sessões poderá ser acompanhada ao vivo no site do GLOBO, com comentários de especialistas da Fundação Getúlio Vargas.
O julgamento será transmitido pela TV Justiça, tanto em seu canal a cabo como também em seu site. Além disso, o sinal da transmissão será disponibilizado via satélite a todas as emissoras do país. A Globonews transmitirá o julgamento. Pelo canal do Supremo no YouTube e pela Rádio Justiça (104.7 FM) também será possível acompanhar as defesas dos acusados até o voto dos ministros.
A expectativa do STF ao diversificar a transmissão do julgamento é atingir o máximo de lares brasileiros.

Beba na fonte: O Globo acompanha em tempo real julgamento do mensalão no STF – O Globo.

Falsa dicotomia

DORA KRAMER

Demandas em favor de um julgamento no qual o Supremo Tribunal Federal leve em conta a opinião do público sobre o caso do mensalão têm tanta validade factual quanto cobranças por um exame exclusivamente “técnico” do processo.

As duas alegações se igualam em impropriedade e implicam juízo prévio de valor: os advogados da oitiva social querem a condenação dos réus e os defensores da tecnicalidade reivindicam a absolvição.

Nada contra juízos e valores, mas no que tange ao julgamento com início marcado para amanhã ambas as posições são inócuas. Expressam correntes de pensamento, mas disso não passam porque na ação penal não estão em jogo costumes, vontades, avanços ou retrocessos sociais, mas a realidade tal como a veem o Código Penal e a Constituição.

Em falta de substância podem ser comparadas às recentes petições de advogados ao Tribunal Superior Eleitoral para tentar adiar o julgamento para data distante de período eleitoral ou para instar o TSE a examinar “com atenção” o uso do assunto nas propagandas obrigatórias no rádio e na televisão.

Por essa ótica a Justiça teria obrigação de olhar o quadro da perspectiva dos eventuais prejudicados ou beneficiados e tratar o mensalão como um tabu, pautando-se pelas conveniências e inconveniências eleitorais das forças políticas envolvidas em disputas de poder.

A se aceitar essa argumentação não se poderia deixar de aplicar a ela o princípio da isonomia que levaria a Justiça à absurda situação de estabelecer a seguinte regra: questões polêmicas relacionadas a partidos e a políticos não podem ser julgadas em anos eleitorais, só na entressafra.

Ano sim, ano não a agenda judicial estaria interditada a fim de que não houvesse “judicialização da política” nem “politização da Justiça”. Ainda que o resultado impusesse retardamentos e tornasse o Judiciário mais lento do que já é.

Sem contar que afastar julgamentos das eleições implica a adoção de conceito semelhante a marcá-los propositadamente em épocas de campanha. Aí troca-se apenas o sinal, mas não se tem uma solução. Pelo simples fato de que não há nada a solucionar nem condicionantes a discutir.

Do mesmo modo não há dicotomia entre julgamento “técnico” e julgamento “político” a não ser na cabeça de uma animada arquibancada que, seja qual for o resultado, sairá decepcionada porque as coisas são como são e não como os torcedores gostariam que fosse.

A diferenciação correta a ser feita diz respeito à maneira como cada ministro verá os fatos: se a partir da ação isolada de cada réu ou se examinará o contexto de um esquema articulado de corrupção em que cada um deles cumpriu um papel na execução de um projeto comum, mediante práticas criminosas.

Meia volta. Réus distantes do palco, governo sob a imposição do toque de silêncio, ex-presidente Lula calado, sindicatos e movimentos sociais recolhidos, PT acuado.

Na véspera do julgamento do mensalão, o cenário em nada lembra as anunciadas batalhas em prol do “desmonte da farsa” e em tudo remete ao temor reverencial do exame público, diário e prolongado do conteúdo dos autos.

No caso dos réus, os advogados alegam que a presença não é praxe. Mas há uma justificativa mais objetiva para as ausências: nenhum deles, notadamente os políticos, quer aparecer na televisão durante as sessões em que será repetida uma narrativa de acusações que por si desmontam a versão de que há sete anos nada houve no Brasil além de uma ardilosa conspiração contra o governo baseada em invencionices da oposição.

Assim é. Por enquanto ninguém se habilitou, mas daqui a pouco aparece alguém para dizer que julgamentos, assim como CPIs, sabe-se como começam, mas nunca como terminam.

Como se não fosse tudo na vida assim. Ou o leitor e a leitora sabem como terminará hoje seu dia?

Beba na fonte: Falsa dicotomia – politica – versaoimpressa – Estadão.

Com apoio de Lula e aval de colegas do STF, Toffoli vai julgar mensalão

Vera Rosa, Felipe Recondo e Mariângela Galucci

O ministro do Supremo Tribunal Federal José Antônio Dias Toffoli vai participar do julgamento do mensalão, que começa na quinta-feira, 2, e deve durar mais de um mês. Em conversas reservadas, Toffoli disse não ver motivos para se declarar impedido. Acrescentou que a pressão para ficar de fora só o estimulou a atuar no caso.

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André Dusek/AE
Toffoli, ministro do STF participará do julgamento do mensalão
Amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem também não há motivos de impedimento, e do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu – apontado pelo Ministério Público como “chefe da quadrilha” do mensalão –, Toffoli construiu sua carreira jurídica dentro do PT. Ele foi advogado do partido – destacando-se na liderança petista na Câmara dos Deputados nos anos 1990, e na consultoria de campanhas eleitorais –, assessor jurídico da Casa Civil quando o ministro era Dirceu e advogado-geral da União do governo Lula.

Antes de assumir a cadeira no Supremo, Toffoli também atuou como advogado do próprio Dirceu em algumas ocasiões. Até 2009, ele era sócio no escritório da advogada Roberta Maria Rangel, hoje sua namorada, que defendeu outros acusados de envolvimento no mensalão, como os deputados Professor Luizinho (PT-SP), então líder do governo, e Paulo Rocha (PT-PA).

Indicado para assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral em 2014, Toffoli se diz contrariado com as dúvidas lançadas sobre sua isenção – questionamentos são feitos desde que tomou posse no STF em 2009. “Eu já estou participando desse processo. Não vou sair de jeito nenhum”, disse o ministro, segundo relato de um interlocutor.

Toffoli já analisou, por exemplo, recursos de advogados de defesa dos réus nessa fase anterior ao início do julgamento de fato.

Sinalização. O presidente do STF, Carlos Ayres Britto, afirmou na segunda-feira, 30, que a participação do colega na análise de questões relativas ao processo do mensalão indica que ele não vai se declarar impedido. “Não me compete opinar sobre nada, se ele vai ou se não vai (julgar o mensalão), e não quero ser mal interpretado. Agora, isso (participar de etapas anteriores) sinaliza participação. Sem dúvida”, disse na segunda em Brasília o presidente do Supremo.

Não há pressão na Corte para que ele não julgue o caso. Nos bastidores, os comentários são de que o Supremo é movido “por espírito de corpo” e, portanto, outros integrantes da Corte, também com ligações políticas, poderiam ser alvos de suspeição e sofrer o mesmo constrangimento caso Toffoli fique fora.

Beba na fonte: Com apoio de Lula e aval de colegas do STF, Toffoli vai julgar mensalão – politica – politica – Estadão.

O julgamento na imprensa

Janio de Freitas

O julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal é desnecessário. Entre a insinuação mal disfarçada e a condenação explícita, a massa de reportagens e comentários lançados agora, sobre o mensalão, contém uma evidência condenatória que equivale à dispensa dos magistrados e das leis a que devem servir os seus saberes.

Os trabalhos jornalísticos com esforço de equilíbrio estão em minoria quase comovente.

Na hipótese mais complacente com a imprensa, aí considerados também o rádio e a TV, o sentido e a massa de reportagens e comentários resulta em pressão forte, com duas direções.

Uma, sobre o Supremo. Sobre a liberdade dos magistrados de exercerem sua concepção de justiça, sem influências, inconscientes mesmo, de fatores externos ao julgamento, qualquer que seja.

Essa é a condição que os regimes autoritários negam aos magistrados e a democracia lhes oferece.

Dicotomia que permite pesar e medir o quanto há de apego à democracia em determinados modos de tratar o julgamento do mensalão, seus réus e até o papel da defesa.

O outro rumo da pressão é, claro, a opinião pública que se forma sob as influências do que lhe ofereçam os meios de comunicação.

Se há indução de animosidade contra os réus e os advogados, na hora de um julgamento, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações a granel e, no resultado alternativo, decepção exaltada. Com a consequência de louvação ou de repulsa à instituição judicial.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, reforça o sentido das reportagens e dos comentários mais numerosos, ao achar que “o mensalão é o maior escândalo da história” -do Brasil, subentende-se.

O procurador-geral há de ter lido, ao menos isso, sobre o escândalo arquitetado pelo brilho agitador de Carlos Lacerda em 1954, que levou à República do Galeão, constituída por oficiais da FAB, e ao golpe iniciado contra Getúlio Vargas e interrompido à custa da vida do presidente.

Foi um escândalo de alegada corrupção que pôs multidões na rua contra Getúlio vivo e as fez retornar à rua, em lágrimas, por Getúlio morto.

Como desdobramento, uma série de tentativas de golpes militares e dois golpes consumados em 1955.

O procurador Roberto Gurgel não precisou ler sobre o escândalo de corrupção que levou multidões à rua contra Fernando Collor e, caso único na República, ao impeachment de um presidente. Nem esse episódio de corrupção foi escândalo maior?

E atenção, para não dizer, depois, que não recebemos a advertência de um certo e incerto historiador, em artigo publicado no Rio: “Vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana”.

Dois inícios de guerra civil em 1930 e 1932, insurreição militar-comunista em 1935, golpe integralista abortado em 1937, levante gaúcho de defesa da legalidade em 1961, dezenas de tentativas e de golpes militares desde a década de 1920.

E agora, à espera do julgamento do mensalão, é que “vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana”.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – O julgamento na imprensa – 31/07/2012.

STF discute estratégia para evitar atraso no mensalão

FELIPE SELIGMAN, VALDO CRUZ e MÔNICA BERGAMO

Em meio a um clima de pressão, ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) tentam definir uma estratégia para evitar que medidas dos advogados dos réus provoquem atrasos no julgamento do mensalão, marcado para começar na quinta-feira.

Uma alteração significativa no cronograma já estabelecido pode impossibilitar a participação do ministro Cezar Peluso, que pela lei tem que se aposentar obrigatoriamente até 3 de setembro, quando completa 70 anos.

Os ministros discutirão o que fazer com possíveis questionamentos da defesa em sessão administrativa do STF amanhã, véspera do início do julgamento. Uma das decisões que os ministros devem tomar é a de que nenhum deles apresentará pedidos de vista durante o julgamento.

Ontem, os advogados e ex-ministros da Justiça Márcio Thomaz Bastos e José Carlos Dias, que defendem ex-diretores do Banco Rural que são réus na ação, protocolaram pedido de acesso aos autos para examinar documentos entregues na semana passada pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Os documentos resumem as teses da acusação e destacam as principais evidências apresentadas contra os réus. Bastos e Dias argumentam que a defesa tem direito à última palavra no processo e por isso pediram acesso aos documentos do procurador.

O ministro Joaquim Barbosa, relator do processo, decidiu dar acesso aos documentos a todos os advogados dos réus a partir de hoje. Em nota divulgada na tarde de ontem, Bastos e Dias disseram que seu pedido de vista “não ensejará qualquer tipo de adiamento do julgamento”.

Mas existe entre os 11 ministros que compõem o STF o receio de que pedidos como esse prolonguem o julgamento ou até mesmo adiem seu desfecho para o próximo ano.

Eles avaliam que a presença de Peluso é importante porque, independentemente de sua posição sobre o caso, o ministro é um dos que mais entendem de direito penal.

Há também muita expectativa com o que pode acontecer nos primeiros dias do julgamento. A principal dúvida é sobre o voto do ministro Ricardo Lewandowski, que é o revisor do processo.

Desde que ele prometeu fazer um “contraponto” ao relatório de Barbosa, colegas de Lewandowski temem que ele use seu voto para rebater as conclusões do relator do processo, acirrando as posições no início da votação.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – STF discute estratégia para evitar atraso no mensalão – 31/07/2012.

Sorrisos amarelos

Eliane Cantanhêde

Não se sabe se é para rir ou para chorar, mas o que os candidatos e os principais líderes e candidatos do PT vão fazer durante todo o mês de agosto, enquanto o julgamento do mensalão vai expor ao país os podres do partido? Aliás, quando se fala dos principais líderes, fala-se dos atuais. Os antigos encabeçam a lista de 38 réus.

Lula saiu da toca ontem, a três dias do início do julgamento, como quem não quer nada: não viu, não ouviu, não soube nem quer saber. Num hotel em São Paulo, tirou fotos com mais de cem candidatos de cidades consideradas prioritárias pelo PT. Depois do clique coletivo, os individuais -de 30 segundos a um minuto para cada um.

Enquanto isso, Dilma cuidava dos preparativos finais da cerimônia da entrada triunfal da Venezuela no Mercosul, que será hoje, em Brasília, com Hugo Chávez estrelando e com participações especiais de Cristina Kirchner e José Mujica. Foto para as primeiras páginas nos jornais da véspera do julgamento histórico. Aliás, como seria mensalão em espanhol? El mensalón? Chávez vai dizer que el mensalón nunca existiu?

E os candidatos, como é que vão se virar? Fernando Haddad, em São Paulo, precisa muito aparecer, para poder crescer e sair dos atuais 7% das pesquisas antes do início do horário eleitoral gratuito -que é sua grande chance, ou grande esperança.

Mas como vai aparecer, com o noticiário tomado por entrevistas e documentos de procuradores, advogados, réus? Difícil alguém se interessar por programa fajuto de candidato com um filmaço desses na TV, dia e noite. O mensalão é como um fantasma que paira não só sobre o governo Lula, mas, especialmente agora, sobre a foto de Lula com candidatos, das gentilezas de Dilma com Chávez, das pedaladas de Haddad, às voltas com “um chopes e dois pastel” num bairro onde ele nunca pisara antes.

Agosto começa com Lula, Dilma e Haddad se esforçando para sorrir. Mas sorrindo amarelo.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Sorrisos amarelos – 31/07/2012.

Manifestantes comemoram em Ipanema julgamento do mensalão – O Globo

Cerca de 60 pessoas fizeram uma passeata na manhã deste domingo na orla de Ipanema, na Zona Sul do Rio, para comemorar o início do processo de julgamento do mensalão. Com faixas e cartazes, com frases como “abaixo a impunidade” e “não à corrupção”, eles caminharam entre os postos 9 e 12 pedindo celeridade no processo.

Durante a passeata, o grupo se encontrou com cabos eleitorais da vereadora Cristiane Brasil, candidata à reeleição e filha do ex-deputado e presidente do PTB Roberto Jefferson, uma das principais figuras do caso.

No final da caminhada, os manifestantes cantaram parabéns, e cortaram um bolo verde e amarelo, e decorado com 11 bonequinhos, representando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
A passeata foi realizada pelo movimento 31 de Julho, que tem como meta o combate à corrupção e impunidade do país.

Em maio deste ano, o movimento recolheu 37 mil assinaturas em vários estados, cobrando uma resposta imediata do STF para o julgamento do processo do mensalão.

Beba na fonte: Manifestantes comemoram em Ipanema julgamento do mensalão – O Globo.

PT sugere à Justiça adiar julgamento do mensalão

Estimulado por integrantes da cúpula do partido, três coordenadores do setor jurídico do PT de São Paulo entraram ontem com representação na Justiça Eleitoral para tentar convencer os ministros do Supremo Tribunal Federal da “inconveniência” de julgar agora o mensalão.

No ofício, encaminhado à presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Cármen Lúcia, que também é ministra do STF, os petistas dizem ser “inoportuno” a ocorrência do julgamento no período eleitoral.

“Tem-se o pior dos mundos: a judicialização da política e a politização do julgamento”, diz o texto, que acrescenta: “É duplamente inoportuno marcar um julgamento criminal na véspera da eleição, em pleno curso da campanha. Sacrificam-se os direitos individuais e desequilibra-se o pleito, do qual o Supremo Tribunal Federal se transformará no principal protagonista”.

O documento foi elaborado por Marco Aurélio Carvalho, coordenador jurídico do PT e ex-sócio do ministro José Eduardo Cardozo (Justiça).

O julgamento do mensalão, marcado para começar no próximo dia 2, decidirá o futuro de 38 réus, incluindo toda a ex-cúpula nacional do PT e o ex-ministro José Dirceu, um dos principais líderes do partido.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – PT sugere à Justiça adiar julgamento do mensalão – 26/07/2012.

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