Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

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O estupro moral coletivo de Vanessa, a escrivã

Comentário do leitor Marcelo G sobre o caso da escrivã

O vídeo é repulsivo. Se ela errou, deve ser julgada. Todos somos passíveis de erros e temos direito a um julgamento e pena justos. Pagamos pelos nossos crimes (os descritos em códigos ou não) e seguimos nossas erráticas vidas.
Essa moça não teve nem essa chance – a de ser julgada e pagar pelo seu suposto crime segundo as regras do Estado Democrático e de Direito.
Infelizmente, ainda existem países como o Paquistão, aonde funcionam tribunais informais em que mulheres podem ser condenadas a penas como estupros coletivos. A grande maioria se suicida após essa tortura inimaginável.
Não é exagero dizer pelas imagens que essa moça foi vítima de violência sexual. Não houve o ato em si, é verdade, mas a humilhação, impossibilidade de defesa e coação psicológica estavam presentes.
Ela não se negou a ser revistada em nenhum momento. Ela só implorou desesperadamente para que o ato fosse conduzido por uma mulher.
Tenho certeza que a Vanessa vai dar continuidade à vida dela, independente do resultado do julgamento e de qualquer erro que tenha cometido na condição falível de ser humano. Vai criar seu filho e superar esses traumas.

Depressão, tentativa de suicídio, isolamento: assim são os dias da escrivã Vanessa

Foto: Isto É“Quando a porta da cela se fechou, minha vida acabou. Acabou naquele dia. Eles ofereceram um calmante. Um comprimido por dia. Eu fui guardando. Quando já havia muitos, tomei todos de uma vez só. Eu queria morrer”.

O depoimento cortante, entremeado por lágrimas doloridas, é da escrivã Vanessa Lopes, uma moça de 30 anos de idade que viu o futuro lhe fugir das mãos quando uma equipe da Corregedoria da Polícia Civil de são Paulo entrou na sala onde ela trabalhava para prendê-la sob a acusação de concussão.

A acusação que a empurrou para seu seu cubículo particular no reino de Hades foi a de cobrar propina para ajudar um motoboy, flagrado com munição em casa, a se livrar de problemas legais. O rapaz, um vida-torta com passagens anteriores pela polícia, queria que o pai fosse ouvido no inquérito em que ele fora indiciado.

O Blog do Pannunzio cobriu extensivamente o caso. Em nenhum dos documentos produzidos pela chamada Operação Pelada, que culminou com a prisão de Vanessa, há qualquer pedido de dinheiro. A rigor, não há, no processo, nenhuma prova de concussão. Mas é fato inquestionável que com ela foram encontradas quatro cédulas de R$ 50 previamente marcadas pela equipe da Corregedoria. A questão que se coloca, e que será objeto de julgamento na esfera criminal em quatro meses, é como esse dinheiro foi parar no cós da calça que ela vestia —  que foi arrancada na marra pelos delegados-corregedores.

No dia da prisão, 11 de junho de 2009, Vanessa estava trabalhando normalmente no Distrito Policial de Parelheiros, na Zona Sul de são Paulo. Tudo o que ela conversou com o motoboy está transcrito no processo — e não há nenhuma menção a dinheiro. O garoto, que havia informado ser seu pai o dono da munição, queria que ele fosse ouvido no inquérito. Foi à delegacia para buscar a intimação, no que foi atendido pela escrivã. Até aí, nada de anormal.

Antes de sair, segundo Vanessa, ele largou as quatro notas sobre a mesa. Aqui as versões da Corregedoria e da escrivã entram em conflito inconciliável. A polícia da polícia diz que o denunciante esteve lá apenas para acertar o suborno, pago a título de quê não se sabe. A escrivã o acusa de estar a serviço da Corregedoria na preparação do flagrante que, não fosse pela missão conferida pelos investigadores ao investigado, jamais teria ocorrido.

Vanessa diz que ficou atônita quando viu o dinheiro sobre a mesa. Teria pego as quatro cédulas para entregar ao delegado-titular do 25º Distrito Policial. Foi presa na porta da sala do chefe, que não estava nas dependências da delegacia, dois minutos após a saída do motoboy, numa cena que ela descreve assim:

“Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo. Eu estava saindo do corredor onde fica a sala do titular. Ia entregar aquele dinheiro pra ele porque não sabia o que fazer. O chefe disse que ele havia saído para uma diligência. Tanto que fui abordada em frente à sala dele. Pra mim era surreal. Eu gritava pra eles: não sei o que acontecendo…”.

É possível que jamais se saiba ao certo se Vanessa recebeu o dinheiro para prestar algum serviço para o motoboy ou se ele plantou o dinheiro ali seguindo ordens dos corregedores na preparação do flagrante. As cenas que se seguiram, no entanto, tornam esse detalhe irrelevante para justificar a violência que os delegados empregaram contra ela.

Vanessa foi algemada e despida na marra. Quem fez o serviço sujo foi o delegado  Eduardo Henrique de Carvalho Filho. Apesar da presença de uma policial da Guarda Civil Metropolitana na sala, ele desprezou acintosamente o que determina o Código de Processo Penal e impediu que sua presa fosse revistada por uma mulher.  Preferiu impor a humilhação de arrancar a calça e a calcinha da escrivã diante de uma câmera da Corregedoria e de uma grande platéia masculina. As imagens foram reveladas em primeira mão por este Blog e pela Rede Bandeirantes.

Horas depois, a porta da cela se fechava nas costas de Vanessa enterrando-a numa depressão enorme. O futuro ficou do lado de fora. Talvez para sempre. Ali ela permaneceu um mês, período gasto quase  integralmente na preparação da própria morte. Que só não aconteceu porque as colegas de cárcere a encontraram desfalecida ainda em tempo da desintoxicação feita no Hospital de Pirituba, na Zona Norte de São Paulo.

Um mês depois,  foi libertada pela generosidade de seu primeiro advogado, Asdrúbal Pedroso, que pagou do próprio bolso a fiança. Estava dez quilos mais magra. Muito abatida, não teve força para retomar a rotina.

Apesar de ter concluído o curso de direito,  jamais prestou o exame da OAB porque não consegue se concentrar em nada. Tentou estudar para um concurso público até ser advertida  de que, mesmo que fosse aprovada, jamais tomaria posse porque fora demitida a bem do serviço público.

Imersa na depressão, Vanessa acabou perdendo o companheiro com quem vivia até o ano retrasado. Ficou sem trabalho, sem seu marido e sem dinheiro. Passou a viver da ajuda da avó que a criou e de alguns amigos. E da generosidade de gente como os advogados que a assistiram sem cobrar nada porque foram seus professores. Fábio Guedes da Silveira a representa até hoje. Nunca cobrou um centavo.

A penitência de Vanessa só poderia ficar mais complicada se acontecesse uma coisa: engravidar. Aconteceu quatro meses atrás .

E quanto ao pai da criança? “No começo…”, diz Vanessa,  ”…no começo, o pai da criança não aceitou, desapareceu. Agora foi se reaproximando, já passa algum tempo conversando comigo…  Ele já está conversando!”

Ao longo desse três anos ela seguiu aprendendo lentamente o  significado mais perverso da palavra abandono. As primeiras experiências práticas desse duro aprendizado ocorreram quando ela passou a recorrer a gente de muito prestígio — e pouquíssima boa vontade — para tentar denunciar o caso. Deu tudo errado.

“Passei um ano sozinha até que isso fosse divulgado. Procurei um monte de políticos, mas ninguém quis me ajudar. Depois, um monte de gente quis aproveitar o embalo”. Entenda-se por embalo a popularidade deletéria que ganhou quando o caso foi publicado aqui no Blog do Pannunzio e na Band pelo repórter Sandro Barboza.

Popular, sim, mas da pior maneira. E passou rápido pois, logo depois, Vanessa foi abandonada de novo em sua fossa existencial.  E também judicial. Não fosse por isso, pelo abandono, Vanessa  já poderia ter encerrado — para o bem ou para o mal — a batalha que trava para provar que é inocente da acusação de concussão. Poderia ter sido julgada, estaria condenada ou absolvida. Mas os amigos que iriam depor em seu favor, colegas da delegacia que testemunharam a prisão, não compareceram ao Forum.

“Eu chorei bastante porque não conseguiu resolver na última audiência. Eu estou passando uma gravidez sozinha. O caso só vai ser resolvido quando eu estiver com oito meses de gravidez. Eu só queria que acabasse logo, mesmo não sabendo qual vai ser o resultado”, lamenta entre soluços.

A única coisa que parece dar vigor à ex-escrivã é acompanhar o modorrento arrastar dos vários processos que decorreram do caso. Um deles corre em instância administrativa e diz respeito ao futuro imediato dos delegados que a prenderam daquela forma. “Eu não consegui perdoar. Acho que ser mandada embora é uma coisa. Mas o que eu passei, nenhum homem aguentaria. O que eu passei eles não aguentariam passar”.

Não é à privação da liberdade nem à perda do emprego que ela se refere. É ao sofrimento moral que teve que enfrentar ao ser exposta daquela forma,  subjugada, despida e humilhada. Para isso simplesmente não há reparação possível.

Seu único sonho hoje é o de se reintegrar à polícia. Antes, precisa ser absolvida e obter da Justiça a anulação do ato do secretário de segurança que a demitiu.Acha que isso iria reabilitá-la moral e espiritualmente. Ma o atual secretário, Antônio Ferreira Pinto, é durão. Já foi obrigado a reintegrar policiais injustiçados e voltou a demiti-los.

Enquanto não consegue — talvez não consiga nunca — aferra-se a uma igreja e em busca de explicações cármicas para o que está lhe acontecendo. Não encontrou ainda, mas segue buscando, agora na condição de devota fervorosa.

Pelo menos é um conforto.

Blog publica o parecer que pede demissão do delegado da Operação Pelada

Leia abaixo o parecer que encerrou o Procedimento Administrativo 11/2011, em que foi investigado comportamento dos delegados da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo que despiram à força uma escrivã de polícia acusada de concussão. Como antecipou o blog do Pannunzio neste domingo, o relatório recomenda a demissão do delegado Eduardo Henrique de Carvalho Filho, que arrancou as roupas da escrivã, e a suspensão por 90 dias do também delegado Gustavo Henrique Gonçalves, o colega que o auxiliou na desastrada operação.

O relatório aponta que que “as condutas dos delegados ficaram caracterizadas, em tese, como um porcedimento irregular de natureza grave, além do cometimento de transgressão disciplinar e descumprimento do dever”.

O relatório deve ainda ser votado pelo Conselho da Polícia Civil para depois seguir para o Secretário de Segurança Pública antônio Ferreira Pinto. Ele é quem decidirá o futuro dos dois delegados. Na época dos fatos, Ferreira Pinto, de posse de todos os detalhes da Operação Pelada, chamou os delegados ao seu gabinete para cumprimentá-los pelo “sucesso” da operação.

E mandou arquivar o caso.

Abandonada pelos amigos, escrivã despida à força por corregedores ainda aguarda julgamento

Um ano e três meses após a publicação do video em que aparece sendo despida à força por uma equipe da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, a escrivã V. ainda não foi julgada na esfera criminal. Na última audiência, as testemunhas de defesa — amigos de V. — faltaram, atrasando o desfecho do caso. V. é acusada de cometer crime de concussão por ter supostamente recebido R$ 200 de suborno para ajudar um motoboy acusado de porte ilegal de munição a se livrar de problemas judiciais.

A escrivã chegou a ficar presa por cerca de dois meses em 2010. A prisão decorreu do flagrante preparado pelo policiais da Corregedoria, que encontraram na calcinha dela quatro notas de R$ 50 previamente marcadas. V. nega que tenha recebido suborno. Segundo ela, o denunciante teria jogado o dinheiro sobre sua mesa segundos antes da entrada no local da equipe de corregedores.

O episódio transformou a vida de V. num inferno. Ela tentou se matar duas vezes, perdeu o emprego e enfrentou um longo período de recolhimento provocado por uma depressão severa. Agora está grávida do primeiro filho. A gravidez devolveu-lho o ânimo para enfrentar a rotina.

A escrivã, que cursava Direito numa faculdade privada, teve que abandonar o curso. Passou a se preparar para um concurso público, apesar do alerta de seu advogado de que, mesmo que fosse aprovada, não poderia tomar posse por ter sido demitida a bem do serviço público.  Sem dinheiro, vinha sendo sustentada pela ajuda solidária de  amigos que faziam doações de pequena monta. Agora, nem isso acontece mais.

Procedimento Administrativo também aguarda julgamento

O futuro dos policiais que a despiram na marra também está por ser definido. O procedimento administrativo que recomenda a demissão do condutor da ação, o delegado Eduardo Henrique de Carvalho Filho, está parado no Conselho da Polícia Civil. O relatório  já entrou em votação, mas o processo foi paralisado quando um dos conselheiros pediu vista.

Para o outro delegado que participou da operação, Gustavo Henrique Gonçalves, a pena indicada é de suspensão por 90 dias. Para todos os demais é recomendada a absolvição.

Mesmo que seja aprovada pelos demais conselheiros, a punição só será aplicada se o Secretário de Segurança Pública Antônio Ferreira Pinto assim decidir. Logo depois da chamada Operação Pelada, de posse de todos os detalhes do comportamento de sua equipe de corregedores, Ferreira Pinto cumprimentou os delegados e mandou arquivar um procedimento administrativo instaurado contra eles a pedido da vítima.

A ordem foi prontamente atendida pela então Corregedora-Geral Maria Inês Trefiglio, que perdeu o cargo após a divulgação do caso pelo Blog do Pannunzio e pela Rede Bandeirantes

Relembrando a Operação Pelada: Polícia X polícia — um flagrante de coação moral

Reproduzo abaixo o post de de 18 de fevereiro de 2011 que abriu a série de denúncias publicadas pelo Blog sobre a chamada Operação Pelada

As cenas que você vai ver abaixo foram registradas nas dependências do Vigésimo-quinto Distrito Policial de São Paulo no dia 15 de junho de 2009. Mais do que chocantes, são emblemáticas do desrespeito com que policiais costumam tratar pessoas que estão sob investigação. Até quando os investigados são colegas de corporação.

As imagens que o Blog do Pannunzio e o Jornal da Band publicam em primeira mão foram feitas por ordem dos delegados Eduardo Henrique de Carvalho Filho e Gustavo Henrique Gonçalves, ambos da Corregedoria da Polícia Civil — curiosamente os protagonistas desse thriller moral. Eles foram à delegaciade Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, para prender flagrante a escrivã V.F.S.L. Ela acabara de livrar da cadeia um homem supostamente deveria sr autuado por porte ilegal de arma que, em contrapartida, teria pago R$ 200 de propina.

Quando a equipe da Corregedoria chegou, V.F.S.L., acuada, tentou entregar o dinheiro ao delegado titular. Tarde demais. Além de estar de posse das quatro notas de R$ 50,  não conseguiu explicar por que não deu voz prisão ao suspeito por tentativa de suborno, o que seria suficiente para mantê-lo trancafiado durante alguns dias. Os delegados-corregedores sabiam de absolutamente tudo o que havia se passado minutos antes . Tinham, inclusive, informações precisas do local onde a escrivã havia ocultado o suposto suborno: dentro da calcinha.

Tudo o que aconteceu a partir desse momento está registrado no vídeo abaixo. Durante quase 13 minutos os delegados tentaram convencê-la a se despir para passar por uma revista íntima. Em momento algum V.F.S.L. tentou resistir. Sua única exigência foi a de que a busca fosse feita por policiais do sexo feminino, como prescreve o Artigo 249 do Código de Processo Penal.

A sala onde tudo a prisão em flagrante foi feita estava cheia de policiais do sexo masculino. Havia, também, pelo menos duas PMs no local. Mas os corregedores foram inflexíveis. Diante da exigência da escrivã, mandaram alge25má-la, jogaram-na no chão e arrancaram sua calça na marra. Humilhada, ela foi despida por colegas, no chão da sala lotada de homens.

A prova do suborno foi abtida e o flagrante, lavrado. V.F.S.L. foi presa. O advogado Fábio Guedes Garcia da Silveira foi contratado e conseguiu livrá-la do cárcere até o julgamento. Até hoje ela aguarda a realização da primeira audiência, marcada para meados de junho deste ano, quando o caso completa seu segundo aniversário.

O defensor da escrivã apresentou uma denúncia contra os policiais à Corregedoria. Mas ambos foram absolvidos no curso de uma sindicância administrativa. Os pares que os julgaram entenderam que eles usaram  “meios moderados” para a obtenção da prova.

“Isso não seria normal nem no Iraque, nem no Iran”, diz o advogado. Para ele, a corregedoria agiu com corporativismo em defesa dos colegas. Agora, espera anular a prova que cinsidera ter sido obtida mediante coação e por meios ilícitos.

Em outra frente, Fábio da Silveira fez uma representação ao Ministério Público e agora espera ver os delegados condenados por abuso de autoridade. “Ainda mais que isso pode caracterizar prática de tortura”, diz ele, certo de que agora os abusos serão reconhecidos  pela Justiça.

O video revela, ainda, que o flagrante pode ser sido armado. Ao mostrar o dinheiro para a camera, um dos delegados diz claramente que  “tá tudo aqui. Notas xerocopiadas”. Se isso restar comprovado, de acordo com uma fonte do Ministério Público, o flagrante será necessariamente anulado. “Isso equivale a induzir ao comentimento do crime, o que é proibido pela legislação”.

As imagens falam por si e deixam um alerta: se delegados de polícia agem com tanta arbitrariedade contra os  colegas, o que esperar de seu comportamento perante a clientela habitual dos distritos, em sua maioria desvalidos, pobres, vulneráveis e desinformados sobre seus próprios direitos ?

Corregedoria vai pedir expulsão do delegado que despiu escrivã na marra

[vimeo]http://vimeo.com/20070600[/vimeo]

O delegado Eduardo Henrique de Carvalho Filho deve ser expulso da Polícia Civil do Estado de São Paulo.  Foi ele quem conduziu a desastrada Operação Pelada, que tinha por objetivo produzir um flagrante de concussão e terminou com as cenas constrangedoras, reveladas pelo Blog do Pannunzio e pela Rede Bandeirantes, em que uma escrivã de polícia é despida de maneira brutal pela equipe de corregedores comandada por Eduardo Filho.

A recomendação de que seja demitido consta do procedimento administrativo instaurado pela Corregedoria, que já está pronto para ser enviado ao secretário de Segurança Pública Antônio Ferreira Pinto. É ele quem vai decidir se demite ou não o policial.  Na época, no entanto, Ferreira Pinto foi informado dos detalhes da Operação Pelada e mandou engavetá-la. Chegou a convocar o delegado a seu gabinete para cumprimentá-lo pela “ação bem-sucedida”.

Orientada pelo SSP, a manobra para acobertar os delegados foi executada pela ex-corregedora-geral Maria Inês Trefiglio. Além de arquivar o procedimento investigatório instaurado para apurar o comportamento dos delegados, ela saiu em defesa aberta dos subordinados. Perdeu o emprego uma semana depois que o o Blog do Pannunzio e a Band expuseram as imagens das sevícias, reproduzidas no vídeo que abre este post.

Os corregedores, no entanto, foram transferidos para o DENARC (Departamento de Narcóticos), o que o Sindicato dos Policiais Civis do Estado de São Paulo considerou como uma promoção, não uma punição.

O caso abriu uma crise na cúpula da segurança pública paulista. O governador Geraldo Alckmin cogitou até substituir o secretário, mas recuou em seguida. Na sequência da Operação Pelada, Ferreira Pinto foi flagrado dias depois entregando a um repórter do jornal Folha de São Paulo um dossiê com informações contra o sociólogo Túlio Kahn, demitido sob suspeita de comercializar dados estatísticos classificados como sigilosas  sobre as áreas de risco de São Paulo. As informações não eram abertas para o público.

O secretário só não caiu porque se descobriu que três delegados, entre eles Marco Antônio Desgualdo, um dos “cardeais” proeminentes da Polícia Civil de São Paulo — na época na chefia do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) –, estavam envolvidos na desastrada operação que tinha por fim obter, do setor de segurança do Shopping Higienópolis, a fita em que Ferreira Pinto aparecia entregando o dossiê ao repórter da Folha.

Apresentado ao público como uma “conspiração da banda podre da Polícia civil” contra o secretário, o fato deu a Ferreira Pinto a condição política necessária para permanecer à frente da pasta, onde está até hoje.

O inquérito instaurado para apurar o abuso de autoridade dos corregedores foi arquivado pelo juiz Octávio Augusto de Barros Filho, titular da Vara Especial do Forum de Parelheiros, a pedido do promotor de justiça Lee Robert Kahn. A despeito de todas as provas apresentadas, o representante do Ministério Público encontrou no espetáculo de brutalidade dos policiais “apenas o rigor necessário” na condução da correição.

O Grupo Especial de Controle Externo da Atividade Policial (GECEP) do MP tentou promover o desarquivamento do inquérito, mas não encontrou provas novas, requisito imposto pelo Código de Processo Penal para a reabertura das investigações.

Para ler a íntegra das reportagens publicadas pelo Blog do Pannunzio sobre a Operação Pelada, clique aqui.

Secretário de segurança protegeu policiais que seviciaram escrivã na ‘Operação Pelada’

Polícia X Polícia: cenas de sevícias morais numa delegacia paulista from Blog do Pannunzio on Vimeo.

18 de fevereiro de 2011. Um video explosivo divulgado pelo Jornal da Band e pelo Blog do Pannunzio causou repulsa e postração ao País. As cenas mostravam o ataque brutal de uma equipe da Corregedoria da Polícia Civil de são Paulo a uma escrivã acusada de concussão. As imagens insólitas eram o registro de um flagrante preparado com requintes de crueldade.

O Blog do Pannunzio cobriu extensivamente o assunto. O episódio culminou com a demissão da então corregedora Marinês Trefiglio que, além de não punir, ainda defendeu os métodos truculentos e ilegais de seus subordinados. Os jagunços da Corregedoria também foram cumprimentados pessoalmente pelo secretário Antônio Ferreira Pinto, que consegui, não se sabe como, safar-se da degola.

O Blog relembra agora esse episódio com a publicação de alguns post retirados do arquivo. Eles servem para ilustrar a crise crônica, com episódios agudos, decorrentes da decisão do governador Geraldo Alkmin de mantê-lo no cargo, a despeito de todos os sintomas da crise que há muito debilita a segurança pública de São Paulo. Ao fazê-lo, o governador chama para si a responsabilidade de tudo o que decorre dessa administração desastrosa.

Coação, humilhação, perseguição. Saiba como a escrivã V. se tornou a estrela das cenas de nudez da Corregedoria

“Isso é a cena de um estupro. Faltou apenas a conjunção carnal”. Foi assim, com um ar de incredulidade, que um promotor de justiça reagiu ao ver as imagens da violência perpretada por dois delegados de polícia contra uma escrivã neste Blog. O video, que acabara de ser veiculado, selaria os destino de duas mulheres. A escrivã V.F.S.L., humilhada, arrasada, seria expulsa da polícia como uma ladra, no curso de uma investigação eivada de falhas processuais; e  a chefe de seus algozes, a corregedora Maria Inês Trefiglio Valente, que perderia um dos postos mais importantes da Polícia Civil por ocultar e apoiar a truculência de seus agentes.

A história que levou a isso tudo começa no dia 1 de novembro de 2008, às 15 horas, quando o Centro de Operações da Polícia Militar recebeu um chamado para atender a uma ocorrência trivial na Rua Henrique Albertus, 1, em Parelheiros, na Zona Sul da cidade de São Paulo.

Ao chegar ao local, os policiais encontraram o assistente judiciário José Geraldo de Souza, 53 anos de idade, com marcas visíveis de espancamento pelo corpo. A surra fora aplicada pelo filho dele após uma discussão. Descontrolado,  o motoboy Alex Alves de Souza, de 27 anos,  não se contentou em arrancar sangue do pai. Fez-lhe, também, uma ameaça de morte. Com uma caixa de munição nas mãos, gritou “isso é pra você”.

Alex não estava mais em casa quando os PMs chegaram. Com autorização do pai agredido, fizeram uma busca e encontraram a caixa de munição dentro em uma armário da área de serviço. Eram 27 cápsulas de cartuchos calibre .30 marca CBC. José Geraldo não quis representar contra o filho pelas agressões sofridas. Mas motoboy passou a ser investigado pela posse ilegal da munição.

No dia 5 de junho de 2009, pela primeira vez, Alex e V.F.S.L. se encontraram no cartório do Vigésimo-quinto Distrito Policial. Ela na condição de escrivã, ele, na de depoente. Alex, como todo frequentador habitual de delegacias de polícia, inventou uma história qualquer para justificar a posse da munição. Ela já havia sido preso em flagrante três anos antes pelo mesmo crime, porte ilegal de arma.

Contou ao delegado que encontrou os cartuchos no fundo do quintal de sua casa quando capinava o mato. Alguém teria perdido a caixa e ele a guardou por oito longos meses, sempre pretendendo se livrar dela. Explicou que brigou com o pai quando este agrediu sua filha. Quanto ao ferimento no rosto de José Geraldo, teria sido produzido por acidente — o pai, na versão do agressor, se desequilibrou quando ele o agarrou pelo braço e bateu a cabeça num beliche.

Quatro dias depois, o motoboy procurou o Grupo de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público para denunciar a escrivã. No dia seguinte, foi encaminhado à Corregedoria da Polícia Civil, onde prestou declarações afirmando que a policial “foi logo dizendo que o declarante ‘estava enrolado’, ‘estaca complicado’, e que poderia ajudá-lo mediante o pagamento de R$ 1 mil; que o declarante disse que não tinha a referida quantia, (…) sendo dito pela escrivã que o acordo ficaria em R$ 600, caso contrário ela acabaria com a vida do declarante”.

Começava aí a produção de uma das peças mais insólitas da crônica policial.  Alex tinha uma mãos uma gravação feita com seu telefone celular que supostamente registraria o momento em que V. lhe exigiria o dinheiro. Eramentira — pelo menos em relação à afirmação de que havia, na gravação, o registro de uma exigência de propina feita pela escrivã.Ao contrário do que afirmou aos delegados, não havia sequer uma insinuação, uma menção a dinheiro.

O diálogo gravado, cuja transcrição pode ser lida na íntegra aqui, refere-se apenas a questões de praxe na tomada de um depoimento. Todas as respostas foram formalmente assentadas.

Preparação do flagrante: “declarante deve seguir todas as orientação” para pegar a escrivã

Apesar de estarem cientes disso, os delegados incumbidos de apurar a denúncia trazida por Alex decidiram iniciar uma investigação tortuosa. No mesmo dia em que tomaram seu depoimento, passaram a ele instruções precisas de como  deveria agir dali em diante para produzir, armar o flagrante. E o mais impressionante é que tudo isso ficou registrado no termo de declarações resultante do primeiro depoimento do motoboy à Corregedoria.

O documento, que o Blog do Pannunzio revela em primeira mão (veja fac-símile à esquerda), detalha as instruções para a montagem do flagrante:

“Que nesta oportunidade, o declarante esta sendo orientado de que devera seguir totalmente as
orientações que ora lhe estão sendo passadas, no sentido de que devera comparecer ao 25.0 Distrito Policial no período da tarde, sob vigilância de Policiais Corregedores, ocasião na qual ira adentrar no cartório da referida Escrivã, conforme combinado pela própria, anteriormente, sendo que irá cumprir com a exigência imposta pela Escrivã, realizando efetivamente a entrega de R$200,00 (Duzentos reais), sendo esta a quantia
levantada pelo declarante; Que, após, efetivamente entregar a aludida quantia, odeclarante iFáefetuar uma ligação telefônica, do seu próprio telefone (O            11-6780-9726      ), ao telefone (O             11-7817 -7296      ), sinalizando ao policiais para que possam adentrar as dependências da aludida Unidade Policial, para efetuar a prisão em flagrante da Escrivã “Vanessa”, Que o pagamento será efetuado com quatro notas de–R$50,OO (Cinqüenta- reais), as – quais foram previamente apresentadas pelo declarante nesta Divisão e xerocopiadas, e instruem o presente  procedimento”.

Qualquer estudante  de direito sabe que induzir ao cometimento do crime produz provas viciadas. Para os delegados da Corregedoria, no entanto, bastaram as declarações de um homem com passado criminal, munido de uma gravação que não dizia nada, para dar início a um procedimento completamente irregular. E que tinha por objetivo incriminar, por meios espúrios, uma servidora contra quem não havia nada além da palavra do denunciante.

A falta de provas responde a pergunta que ninguém fez à ex-corregedora-geral Maria Inês Trefiglio quando ela afirmou que o procedimento vexatório de seus agentes era “necessário”. Na verdade, eles não tinham a prova da concussão, e sem o vale-tudo circense armado nas dependências de Parelheiros não seria possível execrar a funcionária. Inadmissível num ambiente acostumado à coação e aos julgamentos sumários, acostumado ao arbítrio e imbuído de uma caça às bruxas que, em nome de “limpar a polícia”,  justificava todo tipo de abuso e desrespeito.

Outra lição que todo candidato ao bacharelado em direito sabe: a concussão é um crime formal, que se consuma no momento em que o servidor público exige dinheiro. Todo o restante da cena montada é inútil do ponto-de-vista da instrução do inquérito. Ou seja: não é necessário comprovar que houve o pagamento, como no crime de corrupção. A isso se chama exaurimento — não agrava a pena, não altera o tipo penal, é simplesmente inócuo.

A partir daí, Alex passa a agir como um títere dos delegados. Nas conversas seguintes, ele tenta, sem sucesso, insinuar-se para a escrivã, que rechaça as investidas.

Operação Pelada prescreve esta semana. Delegados que abusaram de escrivã vão ficar impunes

Nas primeiras horas do dia 15, quarta-feira, os delegados que imobilizaram, algemaram e despiram uma escrivã nas instalações da Delegacia de Parelheiros, em São Paulo, vão ficar definitivamente livres de qualquer punição pelos abusos que praticaram. Depois de amanhã o caso completa dois anos e estará prescrito. Assim, os policiais ficarão  fora do alcance de qualquer tipo de punição por sua conduta.

O caso foi denunciado pelo Blog do Pannunzio e pela Rede Bandeirantes em fevereiro passado. O Ministério Público encontrou provas novas que permitiriam, em tese, reabrir as invetigações. Mas até agora o juiz responsável não se manifestou no processo — e é certo que não o fará, pois concedeu, num procedimento que não é comum, prazo de vista para que a defesa se manifeste.

A Operação Pelada é uma desses  emblemas de um Estado que se empenha com sofreguidão para acobertar a burla dos limites legais e o comportamento criminoso de seu agentes. Na quarta-feira, caso o prognóstico se confirme e a prescrição ocorra, o Blog do Pannunzio vai contar em detalhes como agiu cada uma das instituições e pessoas que atuaram no processo para que o caso chegasse onde chegou — a lugar nenhum.

Para relembrar o caso, clique aqui.

 

MP busca elementos para reabrir Operação Pelada

O Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (GECEP) do Ministério Público ainda busca elementos para reabrir as investigações da prática de abuso por parte dos delegados e investigadores que conduziram a chamada Operação Pelada. O caso foi denunciado pelo Blog e pela Rede Bandeirantes no dia 18 de fevereiro com a divulgação de um video no qual uma equipe da Corregedoria da Polícia Civil algema, imobiliza e despe à força uma escrivã acusada de concussão (leia mais aqui).

Os dois promotores encarregados do caso trabalham em silêncio e evitam contato com jornalistas. O principal elemento para pleitear a reabertua do caso ainda é o exame de corpo de delito que atesta que a policial sofreu lesões corporais ao ser detida pelos corregedores. A existência dessa prova foi revelada pelo Blog do Pannunzio cino semanas atrás (leia post sobre isso aqui).O laudo pericial, que faz parte do inquérito que apura o crime de concussão, não foi juntado ao processo que investigava o comportamento dos corregedores.

Na semana passada, eles tomaram o depoimento da delegada Patrícia Vaiano Mauad, que presidiu a investigação dos crimes atribuídos à escrivã. V.F.S.L. declarou ao GECEP que testemunhou uma discussão entre Patrícia e os dois delegados que conduziram a desastrosa operação para prendê-la. O motivo do embate seriam os métodos violentos empregados pelos colegas. Ao contrário do que se esperava, o depoimento da delegada não acrescentou novos elementos à investigação.

A prova nova: laudo que atesta lesões corporais ainda é a peça mais importante.

A ordem no Ministério Público é correr contra o tempo. No dia 15 de junho, quando completa dois anos, o caso estará prescrito e os delegados, livres de qualquer sanção. Ainda não há data para a apresentação da nova denúncia. Não se sabe também que caminho será escolhido pelos promotores. Seja qual for a solução processual encontrada, a reabertura do inquérito vai ter que passar pelo crivo do juiz da Vara Distrital de Parelheiros — o mesmo que no ano passado arquivou, a pedido do promotor Lee Robert Khan, a denúncia de abuso de autoridade contra os corregedores.

Cinco delegados de polícia, entre eles a ex-Corregedoria-Geral da Polícia civil, foram afastados dos cargos que ocupavam quando o caso veio à tona. Mas nenhum deles sofreu qualquer tipo de punição. A ação exorbitante foi aplaudida pela ex-corregedora e há informações de que o próprio secretário Antônio Ferreira Pinto elogiou a equipe pela prisão. Ferreira Pinto nega que tivesse visto as cenas, a despeito de admitir que recebeu ofício da OAB denunciando o caso com uma cópia do video divulgado pelo Blog do Pannunzio. Na época, nenhuma providência foi tomada.

Perseguição: SSP demite pela segunda vez investigador reintegrado à Polícia por ordem da Justiça

O Secretário de Segurança Pública Antônio Ferreira Pinto demitiu pela segunda vez, de maneira arbitrária, um investigador inocentado no curso de um processo criminal instaurado para apurar uma denúncia de prática de concussão. O ato está publicado na edição desta terça-feira do Diário Oficial do Estado de São Paulo.

Elison Riziolli havia sido reintegrado onze dias atrás por força de uma liminar expedida pela Primeira Vara da Fazenda Pública do Estado de São Paulo. No despacho publicado hoje, Antônio Ferriera Pinto embasa a decisão de demitir novamente o ex-policial  em um parecer da Consultoria da pasta, segundo a qual, a despeito da decretação de nulidade da demissão, “não tendo ocorrido a prescrição da pretensão punitiva do Estado, novo ato de demissão poderá ser emitido pelo Titular da Pasta”.

Na prática,o que Ferreira Pinto fez foi desconhecer a liminar que ordenou a reintegração de Elison ao trabalho. O secretário é acusado por delegados e investigadores de perseguir a Polícia civil e de mover uma verdadeira “caça às bruxas” contra todos os que sofrem acusações graves, impossibilitando-lhes a defesa.

Em fevereiro, uma reportagem do Blog do Pannunzio e da Rede Bandeirantes revelou a existência da chamada Operação Pelada, procedimento arbitrário registrado em video em que uma equipe da Corregedoria aparece despindo à força uma escrivã igualmente acusada de concussão (veja post sobre isso aqui). O comportamento dos corregedores chegou a ser elogiado por Ferreria Pinto. O caso abriu uma crise sem precedentes na cúpula da Segurança e motivou a exoneração da então Corregedora-Geral da Polícia Civil, Maria Inês Trefiglio Valente, e de quatro delegados que participaram da operação.

A decisão do secretário contraria recomendações do Conselho da Polícia Civil, que opinou várias vezes pelo sobrestamento da demissão até que o processo criminal instaurado para apurar a mesma denúncia transitasse em julgado. Em outubro passado Elison foi absolvido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

A decisão sobre decidir ou não um policial investigado pela Corregedoria é ato de monocrático do Secretário de Segurança Pública. Não há vinculação entre o que ocorre na esfera penal e no âmbito administrativo,conforme o Artigo 41 da Constituição. Ele prescreve que  “o servidor público estável só perderá o cargo em virtude de sentença judicial transitada em julgado ou “mediante processo administrativo em que lhe seja assegurada ampla defesa”. O Parágrafo Segundo do mesmo artigo determina que “invalidada por sentença judicial a demissão do servidor estável, será ele reintegrado, e o eventual ocupante da vaga, se estável, reconduzido ao cargo de origem, sem direito a indenização, aproveitado em outro cargo ou posto em disponibilidade com remuneração proporcional ao tempo de serviço”.

Conheça o caso

Elison e dois outros investigadores foram acusados de concussão supostamente praticada contra um comerciante da periferia de Campinas. O Blog teve acesso à íntegra dos processos judiciais e do procedimento administrativo. A leitura atenta deixa claro que a demissão contrariou posição unânime do Conselho da Polícia civil, que por diversas vezes opinou pela suspensão das sanções administrativas até o trânsito em julgado do processo criminal instaurado para apurar a denúncia.

O fato que deu origem ao processo aconteceu em fevereiro de 2003. Elison, aprovado quatro anos antes em segundo lugar no concurso para ingressar na PC, acabava de ser transferido do GARRA para a delegacia de roubos de autos. Ele e dois colegas faziam uma ronda quando localizaram um caminhão descarregando 200 dúzias de cerveja em um bar na periferia de Campinas.

O dono do estabelecimento não tinha a nota fiscal do produto. O motorista do caminhão levou dois dos três policiais até o depósito onde havia carregado o veículo. Elison permanceu o tempo todo no local da ocorrência vigiando o caminhão. Uma hora depois, os policiais trouxeram ao local o fornecedor da bebida com as notas fiscais de origem. O carregamento foi então liberado.

No mesmo dia, o fornecedor da bebida foi à Corregedoria e prestou queixa de concussão. Segundo ele, os dois policiais que estiveram no depósito exigiram dele R$ 4 mil ameaçando prendê-lo como suspeito de roubo de carga. Parte do dinheiro — R$ 1 mil — teria sido emprestada por um borracheiro vizinho.

O empréstimo foi confirmado pelo borracheiro e todas as testemunhas ouvidas na investigação aberta pela Corregedoria declararam ter procurado a polícia a pedido do comerciante. Ninguém, no entanto, afirmou haver testemunhado a entrega ou sequer a exigência do suborno, que estranhamente teria sido devolvido no mesmo dia por um vizinho do comerciante supostamente achacado.

Dias depois, quando foi ouvido pela segunda vez, o dono do depósito passou a negar o fato. Disse que havia mentido porque teria se desentendido com um dos investigadores e queria “prejudicar” intencionalmente os policiais.

Elison não estava no local onde teria sido tramada a concussão. Todas as peças afirmam que ele se encontrava a  quilômetros de distância, no bar onde a bebida era descarregada, enquanto os colegas permaneciam com o empresário.

A investigação da corregedoria, no entanto, não individualizou as condutas dos três policiais. Não levou em consideração que o dia em que se deu o episódio era o primeiro dia de trabalho de Elison na Delegacia de Roubos de Carros. Até a véspera, ele continuava no GARRA, nas mesmas funções em que foi lotado desde que foi aprovado — em segundo lugar, diga-se — no concurso da Polícia civil.

As contradições nos depoimentos das testemunhas não passaram desperbercidas ao delegado Luís Eduardo Carneiro, que presidiu o procedimento administrativo. Em 25 de agosto de 2003 ele oficiou ao delegado-geral alertando que “há alguma divergência no depoimento das testemunhas”, e que seria necessário “aguardar o desenrolar do processo-crime, onde o denunciante poderá apresentar nova versão, ou confirmar uma delas”.

O delegado também opinou pelo sobrestamento da sindicância e a suspensão de todas as medidas punitivas que já haviam sido aplicadas  até que a Primeira Vara Criminal de Campinas julgasse o processo criminal instaurado para apurar a denúncia.

O delegado-geral encaminhou o assunto ao Conselho da Polícia Civil. Este, por sua vez, acolheu por unamidade o voto do relator, delegado José Laerte Goffi Macedo, que determinou o sobrestamento do procedimento administrativo até o julgamento do processo-crime em 25 de outubro do mesmo ano. Consultado, o Ministério Público também se manifestou favoravelmente à suspensão temporária das investigações na instância administrativa, que foi determinado pelo então secretário de Segurança Pública Saulo de Castro Abreu.

No dia 9 de outubro de 2.007, Elison e os dois ocmpanheiros foram condenados em primeira instância. Os advogados dos policiais impetraram recurso ao Tribunal de Justiça e pediram novo sobrestamento do processo admnistrativo. Mas o recurso foi negado pelo então secretário de Segurança Pública Roberto Marzagão resolveu desconhecer a recomendação unânime do Conselho da Polícia Civil de aguardar o julgamento do recurso e demitiu os policiais a bem do serviço público.

O relator do caso na reunião do conselho asseverou, em seu voto, que “eventual reforma decisória poderia relfetir na decisão deste persecutório administrativo, que no sentido condenatório, quer no absolutório, haja vista a tempestividade de se aventurar num devisório sem a clareza necessária do conjunto probante”, no que foi acompanhado pelos demais conselheiros.

A senteça da primeira instância foi reformada em no ano passado. Elison e os colegas foram absolvidos pela Décima-Quinta Turma do Tribunal de Justiça. Quando o acórdão foi publicado, ingressaram com um pedido de reconsideração da demissão. Mas o Secretário de Segurança Pública Antônio Ferreira Pinto decidiu desconhecer a absolvição na esfera criminal e manteve a pena aplicada por seu antecessor(veja fac-símile do despacho ao lado). Agora, reitera a decisão e demite novamente o investigador. 

O Blog do Pannunzio ouviu três delegados a respeito do assunto. Inconformados, eles dizem que Ferreira Pinto está agindo novamente de forma arbitrária e truculenta. Uma das fontes do Blog disse que a decisão do secretário comprova que existe um processo de perseguição movido contra policiais que respondem a qualquer tipo de acusação perante a Corregedoria. “O Ferreira Pinto transformou a vida desse rapaz em um inferno por causa de uma birra pessoal”, diz a fonte. “Só vai conseguir irritar ainda mais a Polícia Civil porque a justiça certamente prevalecerá nesse caso”, arremata.

O que dizem os companheiros do investigador reintegrado à Polícia Civil por determinação judicial

No dia 18 de março o blog publicou uma reportem dando conta da reintegração à Polícia civil do um investigador Elison Rozziolli, demitido no curso de um processo em que são patentes as dúvidas sobre a ocorrência do fato que gerou a punição. No post, afirmei ser plausível que  dois companheiros desse investigador  tenham tentado achacar um comerciante que vendera cerveja sem emitir a nota fiscal. Todos foram demitidos a bem do serviço público. Elison Rizziolli foi o primeiro a obter a reintegração .

Um dos policiais que participaram da operação se sentiu ofendido com o texto. Em função disso, esclareço  que em nenhum momento afirmei que de fato ocorreu a concussão. O que eu disse, e reitero,  é que a versão do denunciante, modificada tantas vezes, não alcança nem compromete o investigador Elison Rizziolli mesmo quando guarda alguma verossimilhança. Ele estava longe da cena em que, apenas para argumentar, poderia ter se dado o achaque.

Como acho justas as ponderações, publico integralmente a carta enviada por Artur Dória de Oliveira, um dos companheiros de Elison na operação que deu origem ao processo. Ele reivindica espaço para se contrapor à afirmação  de que há alguma verossimilhança  hipótese de concussão, e o espaçoi está concedido.

Para que não haja necessidade de esclarecer novamente o que foi dito, saliento que considerar plausível não equivale a afirmar a existência de algo.

O Blog também não divulgou os nomes dos outros dois acusados para resguardar sua identidade, uma vez que eles não foram consultados antes da publicação da reportagem. Se o faz agora, é a pedido expresso da pessoa que se sentiu ofendida.

Segue agora a íntegra da carta de Artur Dória de Oliveira.

 

Caro Pannunzio

 

Leitor assíduo de seu Blog, venho  externar e parabenizar pelo excelente serviço prestado a população, divulgando fatos e denuncias de interesse geral de pessoas que acompanham seu Blog.

Sinto-me feliz por poder desfrutar e compartilhar da alegria do Elison (amigo muito querido) por ter, após longa luta (08 anos), ter alcançado o reconhecimento de sua conduta IMPAR E HONESTA no trato da coisa publica enquanto Funcionário Publica Estadual (POLICIAL CIVIL).”Pena que nossos julgadores abriram mão da Lisura e Honestidade no trato com nosso Processo Administrativo”.  Graças a DEUS isso já faz parte do  passado, o erro já foi reparado, mas o preço pago jamais será esquecido.

Caro Pannunzio, quando você emite opinião com base em acesso à integra dos Processos Judiciais e Administrativos, fico a imaginar se falamos do mesmo Elison (cotonete) e dos mesmos Processos apuratórios. Nas copias que tenho,  por ser parte integrante dos mesmos, nunca foi mencionado que a possível vitima ( um charlatão de marca maior) teria efetuado  as denuncias por ter sido agredido por um dos investigadores, fato este que, além de não ter ocorrido, teria sido alvo de apuração pela casa censora (ela adora punir policiais) e isso seria de fácil constatação com consequente punição.

A hipótese de que a vitima contrariou denúncia inicial nas oitivas de apuração por ter sofrido algum tipo de ameaça, foi exaustivamente investigada pelo Juiz da 1ª Vara Criminal de Campinas e pelo Sr.

Presidente do referido P.A.D. e nada foi comprovado que que pudesse ter havido tais ameaças.

Quando você diz  ” Na cena descrita nos depoimentos cabe a hipótese — pausível, no entendimento do Blog — de que a dupla tenha tentado extorquir o fornecedor da cerveja. “  tal fato nunca ficou suficientemente evidente, razão pela qual o julgador pede sucessivos sobrestamentos por não ter convicção sequer que  o fato tenha existido.  No campo das suposições, NADA é valido para se condenar ou absolver qualquer pessoa, levando a crer que sua fala foi no mínimo

precipitado.   Por causa de hipóteses ou  indícios    (  Escreveu o

Douto Juiz Eliézer Rosa, no seu Dicionário de Processo Penal:

“no manejo dos indícios, o Juiz Criminal tem de ter cuidados extremos, porque, de todas as provas, a mais desgraçada, a mais enganosa, a mais satânica é, sem dúvida, a prova indiciária. O indício, na eterna ironia das coisas, é a prova predileta da vida contra os inocentes.

Com indícios, se chega a qualquer conclusão; imprime-se ao raciocínio a direção que se quiser. Condenar ou absolver é o que há de mais fácil e simples, quando o julgador aposta com os indícios o destino do processo. Julgar só mediante indícios e, com eles, condenar, é o

adultério da razão com o acaso, nos jardins de Júpiter”.   )    três

pais de  família passaram as maiores atrocidades, foram humilhados, execrados do convívio profissional, os amigos os viam como ameaça, a sociedade os rotulou como frutos da banda podre da policia, enfim foram privados do sentimento mais nobre de um ser humano  LHES FOI ARRANCADA A DIGUINIDADE, fato que, aconteça o que acontecer,  jamais sentiremos em sua plenitude novamente, pois é uma ferida que jamais cicatrizará. Volto a afirmar, VOCE FOI, NO MINIMO PRECIPITADO enveredando no mundo da hipótese plausível. , o que leve a crer que não esta familiarizado com os procedimentos  apuratórios  como escrito no inicio de seu texto.

Será que você realmente teve acesso a integra dos dois processos?

Acredito que não,  pois se o tivesse tenho certeza que sua  opinião seria de que o único erro dos policiais foi participarem de uma diligencia legitima, agido com lisura no trato da coisa publica e foram vitimas de um LOUCO, FANFARÃO E INCONSEQUENTE.

A inocência dos três policiais esta explicita  nos vários pedidos de sobrestamentos solicitados pelo Presidente do P.A.D. quando diz: “ Haver razoável duvida se o fato tenha existido…”.

Quanto ao fato dos desmandos na Secretaria da Segurança Publica e Corregedoria da Policia Civil estão cada vez mais latentes, sendo que a frase que mais gostam é “ processo saneado, mero inconformismo” . É quantos pedidos impetrados na Secretaria apontando de 08 a 10 nulidades  relativas ou absolutas e a resposta sempre a mesma,”

processo saneado, mero inconformismo” .  Eles se acham acima do bem e do mal, se dando ao luxo de não darem importância às decisões judiciais, cumprindo-as quando bem entenderem.

Diante do quadro de desespero que nos encontrávamos, fomos buscar alento na Vara da Fazenda Publica do Estado de São Paulo, a qual recebeu de braços abertos os filhos execrados injustamente de uma secretaria a qual diríamos nossas vidas em honra-la.

Graças a DEUS existem nesse mundo pessoas compromissadas com a verdade, doa a quem doer, cosa do juiz da 1ª Vara da Fazenda Publica de São Paulo, que isentou Elison  Rizziolli de um sofrimento maior, reconduzindo-o ao Cargo que injustamente lhe foi tomado.

Foram muitas noites sem dormir, muitas lagrimas, discussões sobre teses, aborrecimentos, luta, sofrimento familiar;  é amigo curtimos tudo isso juntos e valeu a pena .

Também busco na Fazenda Publica amparo para minhas angustias, e estou muito próximo de êxito, questão de dias.

Caro Pannunzio, gostaria de ver publicado meu desabafo, uma vez que o seu entendimento acerca dos atos praticados na fatídica diligencia policial, não corresponde com o que efetivamente aconteceu colocando-me a disposição para sanar qualquer duvida (mereço isso).

 

Forte Abraço

Artur Dória de Oliveira

Folha de S.Paulo: SP reestrutura polícia e fecha delegacias

ROGÉRIO PAGNAN e VENCESLAU BORLINA FILHO, da Folha de São Paulo – O governo de São Paulo deu início a um pacote de mudanças na estrutura da segurança pública no Estado que deve afetar praticamente todas as 645 cidades paulistas e a forma de trabalhar das duas polícias estaduais.

A “reengenharia” do governo prevê o fechamento de delegacias nas cidades com menos de 10 mil habitantes e a aglutinação de distritos nas cidades de maior porte, o que inclui a capital.

Nas cidades pequenas, 43% dos municípios paulistas, a PM vai registrar boletins de casos de menor gravidade -que dispensam ação imediata dos investigadores.

Policiais civis que ficarão nas grandes cidades serão acionados quando houver crimes mais graves, como homicídios e flagrantes.

A reestruturação prevê a criação de polos -como se fossem superdelegacias- para atender a população.

Com o fechamento de pelo menos 96 delegacias no interior, 279 cidades ficarão sem unidades da Polícia Civil. O governo quer completar as mudanças até o final do ano.

“Há cidades que registram 80 ocorrências num ano”, disse o delegado-geral, Marcos Carneiro Lima. “Isso não significa que elas deixarão de ser prestigiadas.”

O plano incluiu a transferência do Detran para a Secretaria de Gestão Pública e a transferência de 1.349 policiais do órgão para a pasta da Segurança Pública.

O objetivo do governo, é otimizar o emprego dos recursos públicos e melhorar a qualidade do serviço de seus 35 mil policiais civis.

O governo iniciou a reestruturação em pelo menos 12 cidades. São João da Boa Vista, por exemplo, com 83 mil habitantes, ficará com apenas uma das seis delegacias existentes. Até agora, quatro já foram fechadas, inclusive a Delegacia da Mulher.

REGISTRO INTEGRADO

Dentro dessa “reengenharia”, o policial militar passará a registrar ocorrências num sistema integrado que os delegados acessarão.

Segundo o comandante da PM, coronel Álvaro Camilo, “num futuro próximo”, todos os policiais militares registrarão BOs no carro oficial.

O presidente do Sindicato dos Delegados, Jorge Melão, disse ser favorável à aglutinação. Para ele, a instalação de delegacias nunca havia atendido critérios técnicos.

“Agora, sobre a falta de policiais, não resta outra alternativa a não ser contratar mais”, disse.

O governo agora tenta convencer lideranças políticas e a sociedade da importância dessas mudanças. “Vamos fazer um trabalho de convencimento e de conscientização. Todos vão ganhar”, disse Carneiro.

via Folha de S.Paulo – SP reestrutura polícia e fecha delegacias – 18/03/2011.

Justiça manda reintegrar policial civil demitido sumariamente pela SSP

Por decisão da Primeira Vara da Fazenda Pública do Estado de São Paulo, a Secretaria de Segurança Pública terá que reintegrar à Polícia Civil o investigador Elison Rozziolli, demitido no curso de um procedimento administrativo cheio de contradições. A decisão foi publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo desta quinta-feira, 17 de março.

Elison e dois outros investigadores foram acusados de concussão supostamente praticada contra um comerciante da periferia de Campinas. O Blog teve acesso à íntegra dos processos judiciais e do procedimento administrativo. A leitura atenta deixa claro que a demissão contrariou posição unânime do Conselho da Polícia civil, que por diversas vezes opinou pela suspensão das sanções administrativas até o trânsito em julgado do processo criminal instaurado para apurar a denúncia.

O fato que deu origem ao processo aconteceu em fevereiro de 2003. Elison, aprovado quatro anos antes em segundo lugar no concurso para ingressar na PC, acabava de ser transferido do GARRA para a delegacia de roubos de autos. Ele e dois colegas faziam uma ronda quando localizaram um caminhão descarregando 200 dúzias de cerveja em um bar na periferia de Campinas.

O dono do estabelecimento não tinha a nota fiscal do produto. O motorista do caminhão levou dois dos três policiais até o depósito onde havia carregado o veículo. Elison permanceu o tempo todo no local da ocorrência vigiando o caminhão. Uma hora depois, os policiais trouxeram ao local o fornecedor da bebida com as notas fiscais de origem. O carregamento foi então liberado.

No mesmo dia, o fornecedor da bebida foi à Corregedoria e prestou queixa de concussão. Segundo ele, os dois policiais que estiveram no depósito exigiram dele R$ 4 mil ameaçando prendê-lo como suspeito de roubo de carga. Parte do dinheiro — R$ 1 mil — teria sido emprestada por um borracheiro vizinho.

O empréstimo foi confirmado pelo borracheiro e todas as testemunhas ouvidas na investigação aberta pela Corregedoria declararam ter procurado a polícia a pedido do comerciante. Ninguém, no entanto, afirmou haver testemunhado a entrega ou sequer a exigência do suborno, que estranhamente teria sido devolvido no mesmo dia por um vizinho do comerciante supostamente achacado.

Dias depois, quando foi ouvido pela segunda vez, o dono do depósito passou a negar o fato. Disse que havia mentido porque teria sido agredido por um dos investigadores e queria “prejudicar” intencionalmente os policiais.

Quem lê o processo fica com a impressão de que há várias inverossimilhanças na história. A primeira delas são as razões apresentadas para o arrependimento do denunciante. No campo das suposições, cabe, para argumentar, a possibilidade de que ele tenha sido coagido a mudar sua versão. Ainda assim, algumas anotações são inquestionáveis.

A primeira delas é a que dá conta de que Elison não estava no local onde teria sido tramada a concussão. Todas as peças afirmam que ele não estava no depósito, e sim a quilômetros de distância, no bar onde a bebida era descarregada, enquanto os colegas permaneciam com o empresário.

Na cena descrita nos depoimentos cabe a hipótese — pausível, no entendimento do Blog — de que a dupla tenha tentado extorquir o fornecedor da cerveja. Mas é certo que nela não aparece o investigador Elison.

A investigação da corregedoria, no entanto, não individualizou as condutas dos três policiais. Não levou em consideração que o dia em que se deu o episódio era o primeiro dia de trabalho de Elison na Delegacia de Roubos de Carros. Até a véspera, ele continuava no GARRA, nas mesmas funções em que foi lotado desde que foi aprovado — em segundo lugar, diga-se — no concurso da Polícia civil.

As contradições nos depoimentos das testemunhas não passaram desperbercidas ao delegado Luís Eduardo Carneiro, que presidiu o procedimento administrativo. Emm 25 de agosto de 2003 ele oficiou ao delegado-geral alertando que “há alguma divergência no depoimento das testemunhas”, e que seria necessário “aguardar o desenrolar do processo-crime, onde o denunciante poderá apresentar nova versão, ou confirmar uma delas”.

O delegado também opinou pelo sobrestamento da sindicância e a suspensão de todas as medidas punitivas que já haviam sido aplicadas  até que a Primeira Vara Criminal de Campinas julgasse o processo criminal instaurado para apurar a denúncia.

O primeiro sobrestamento: reiterado diversas vezes, já alertava para a falta de consistência das provas.

O delegado-geral encaminhou o assunto ao Conselho da Polícia Civil. Este, por sua vez, acolheu por unamidade o voto do relator, delegado José Laerte Goffi Macedo, que determinou o sobrestamento do procedimento administrativo até o julgamento do processo-crime em 25 de outubro do mesmo ano. Consultado, o Ministério Público também se manifestou favoravelmente à suspensão temporária das investigações na instância administrativa, que foi determinado pelo então secretário de Segurança Pública Saulo de Castro Abreu.

No dia 9 de outubro de 2.007, Elison e os dois companheiros foram condenados em primeira instância. Os advogados dos policiais impetraram recurso ao Tribunal de Justiça e pediram novo sobrestamento do processo admnistrativo. Mas o recurso foi negado pelo então secretário de Segurança Pública Roberto Marzagão resolveu desconhecer a recomendação unânime do Conselho da Polícia Civil de aguardar o julgamento do recurso e demitiu os policiais a bem do serviço público.

O relator do caso na reunião do conselho asseverou, em seu voto, que “eventual reforma decisória poderia relfetir na decisão deste persecutório administrativo, que no sentido condenatório, quer no absolutório, haja vista a tempestividade de se aventurar num devisório sem a clareza necessária do conjunto probante”, no que foi acompanhado pelos demais conselheiros.

Despacho em que Antônio Ferreira Pinto decide manter a decisão de demitir os policiais, a despeito da decisão do TJ de absolvê-los.

A senteça da primeira instância foi reformada em no ano passado. Elison e os colegas foram absolvidos pela Décima-Quinta Turma do Tribunal de Justiça. Quando o acórdão foi publicado, ingressaram com um pedido de reconsideração da demissão. Mas o Secretário de Segurança Pública Antônio Ferreira Pinto decidiu desconhecer a absolvição na esfera criminal e manteve a pena aplicada por seu antecessor(veja fac-símile do despacho ao lado).

Durante os dois anos que se passaram, Elison experimentou todo tipo de privação. Perdeu o salário, os amigos e a dignidade. Ele disse ao Blog do Pannunzio que chegou a se sentir “como um leproso”, estigmatizado e sem perspectivas.

Sem renda para se manter, sobreviveu às custas da ex-mulher, uma advogada que lhe deu apoio incondicional. Enquanto isso, cursou direito e administração de empresas para tentar mudar seu campo de atuação profissional.

A angústia só teve fim quando ele viu publicada no Diário Oficial deo ontem a determinação de queseja reincorporado às mesmas funções que ocupava antes na Polícia Civil. Emocionado, com os olhos encharcados de lágrimas, ele jura que não fez o que lhe imputaram. Ainda não está certo sobre se continuará ou não como investigador. Mas agora ostenta com orgulho a carteirinha da OAB recém conquistada.

A consequência da  decisão da Secretaria de Segurança Pública de manter a demissão vai custar caro ao contribuinte do Estado de São Paulo. Ele fará jus ao pagamento de todos os salário que não recebeu. E a sociedade foi onerada ainda mais, uma vez que o policial, caso prevalecesse o bom-senso, poderia estar ajudando a movimentar a máquina da segurança pública.

O caso encerra um emblema: até que seja condenado com sentença transitada em julgado, nenhum ciddão pode ser apenado. Nem na instância administrativa, nem em qualquer outra esfera.

Cúpula da Segurança muda mais dois diretores da polícia de São Paulo

Marcelo Godoy – Mais mudanças na polícia paulista. Um dia depois da queda do ex-diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Marco Antônio Desgualdo, a Delegacia Geral resolveu promover o que está chamando de “ajustes na cúpula”. Perderam seus lugares no Conselho da Polícia Civil os delegados Luiz Maurício Souza Blazeck, que dirigia o Departamento de Administração e Planejamento da Polícia Civil (Dap), e Elson Alexandre Sayão, até então responsável pelo Departamento de Identificação e Registros Diversos (Dird).

A cúpula da Segurança Pública também decidiu quem vai substituir Desgualdo no DHPP. Trata-se do delegado Jorge Carlos Carrasco, que dirigia a Polícia Civil em Carapicuíba, na Grande São Paulo.

As mudanças na Polícia Civil começaram após depois da revelação de que o próprio secretário da Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto, havia sido espionado por policiais. Desgaldo é suspeito de ter participado do esquema de espionagem. Ele teria sido flagrado entre os homens que foram ao Shopping Pátio Higienópolis obter, por meio de suposta fraude, a fita de um encontro que secretário da Segurança teve com um jornalista.

Foi o centro de compras que revelou a existência do esquema de espionagem contra o secretário. Depois que o vídeo foi divulgado na internet, o shopping informou que havia entregue as imagens a policiais civis que diziam estar investigando “uma ocorrência de outra natureza”. Não havia nada, entretanto, a ser investigado, a não ser o próprio chefe da Segurança do Estado.

via Cúpula da Segurança muda mais dois diretores da polícia de São Paulo – saopaulo – Estadao.com.br.

Chefe de Departamento de Homicídios de SP é afastado do cargo

André Caramante – Marco Antonio Desgualdo, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo e homem de confiança do governador Geraldo Alckmin (PSDB), foi afastado do cargo de chefe do DHPP (departamento de homicídios) na manhã desta segunda-feira.

A saída de Desgualdo ocorreu por “quebra de lealdade”, segundo a Delegacia Geral da Polícia Civil. O nome do novo diretor do DHPP ainda não foi definido.

A Folha apurou que o ex-chefe da Polícia Civil de SP teria sido identificado como um dos policiais com participação no episódio do vazamento das imagens do circuito de câmeras do shopping Pátio Higienópolis (região central de SP) em que o secretário da Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto, foi filmado durante um encontro com o repórter da Folha Mario Cesar Carvalho.

As imagens foram divulgadas em sites e blogs –um deles ligado a policiais civis–, que relacionaram o encontro à reportagem do jornalista sobre a venda de dados sigilosos por um funcionário da Segurança, o sociólogo Túlio Kahn, que foi demitido.

Desgualdo teria admitido aos seus chefes ter sido chamado por um grupo de policiais para obter as imagens no Pátio Higienópolis, mas teria afirmado que não quis participar de nada e preferido ficar quieto. Como não teria comunicado a seus superiores que havia sido procurado para ir atrás da gravação, ele acabou afastado por “falta de lealdade administrativa”.

A reportagem não conseguiu falar com Desgualdo, que é investigado pela Corregedoria-Geral da Polícia Civil e também pela CGA (Corregedoria Geral da Administração), órgão vinculado diretamente ao Palácio dos Bandeirantes.

Clique aqui para ler a íntegra no site da Folha

Repercutindo o Blog: Operação Pelada chega ao Global Voices

On February 18, journalist Fábio Pannunzio’s blog [pt] and the TV station Rede Band [pt] released a 13-minute video in which a female desk officer with the state police of São Paulo was discharged and strip searched by male investigators from the statewide Office of Internal Affairs.

Screenshot from the video in which a female desk officer is being handcuffed and stripped by police officers

The case goes back to 2009. At the time, according to Pannunzio and Rede Band, the desk officer had received money from a person accused of carrying a weapon as a bribe for not formally imprisoning the accused. When the delegation of all male representatives from the state police’s Office of Internal Affairs showed up at the precinct, they obligated the female desk officer to submit to a strip search in order to find the money. She did not object to submitting herself to a full search.

To the contrary; she merely asked that she be searched by female police officers. But her cries were in vain. Handcuffed and thrown to the ground, she quickly had her underwear and lingerie ripped off by a representative who subsequently affirmed that he had indeed found the supposed bribe money on the desk officer’s person. On account of the cash found, the desk officer was discharged and now faces criminal bribery charges.

The full video of the incident can be viewed on Vimeo.

The blogosphere immediately expressed its repudiation of the Office of Internal Affairs’ attitude, stressing the illegality of the measures taken and the office’s disregard for the basic principles of a democratic state of law.

A policial sendo despida por delegadosVladimir Aras’ Blog do Vlad states that the search performed by the representatives of the Office of Internal Affairs and the aggression taken towards the desk officer were the true crimes documented in the video [pt]:

Ao desnudarem à força uma mulher algemada e humilhada no chão de uma delegacia, esses agentes da lei não expuseram apenas “as vergonhas” da suspeita. Exibiram de forma exuberante o vexaminoso cotidiano de parte da Polícia brasileira, useira e vezeira em afrontar direitos humanos dos cidadãos.

When the representatives of the Office of Internal Affairs forcefully stripped a handcuffed women who had been humiliatingly thrown onto the precinct’s floor, these officers of the law did more than merely expose the suspect’s “shameful actions.” They exaggeratedly brought to light the Brazilian police force’s shameful, commonplace and frequent disregard for human rights.

In the blog Flit Paralisant, police officer Guerra reminded readers that the desk officer had filed a complaint with the Attorney General’s Office in 2009 to investigate the abuse of power but that the claim had been swiftly dismissed. The state attorney in the case saw no indication of any crimes committed by investigators from the Office of Internal Affairs. Copies of the request for dismissal are available on the blog as is an e-mail relating the case sent by the desk officer that same year [pt]:

O Dr. Eduardo então mandou que eu me despisse por inteira, passei a ficar indignada pois jamais tiraria minhas vestes na frente de oito homens desconhecidos e cheguei a solicitar de joelhos que fosse acionada uma delegada, investigadora ou escriva da corregedoria, visto que propus retirar a roupa somente na frente da policial feminina, respondendo o delegado que não confiava na policial e dizendo com tom ameaçador que só sairia dali ao me ver “pelada” (…)

Dr. Eduardo then ordered me to strip down entirely; and I was offended because I would never take off my clothes in front of eight unknown men. So I begged them on my knees that they call in a female officer, investigator or desk officer from the Office of Internal Affairs since I offered to take off my clothes only in front of a policewoman; the male investigator responded that he did not trust a police woman and threatened that he would only leave the office after seeing me “in the flesh.”

The inspector for the state police of Rio de Janeiro, Eduardo Stein, who also edits the blog Caso de Polícia (Police Case), vented his frustration [pt]:

Infelizmente já vi em vídeos do Youtube centenas de cenas de violência policial praticadas contra cidadãos inocentes ou criminosos. São momentos em que sinto grande e verdadeira vergonha de compartilhar de um cargo policial com determinadas pessoas.

Mas, verdadeiramente, hoje não fiquei só enojado ou envergonhado. Senti na verdade uma ânsia de vômito. Desgosto. Abominável.

Unfortunately, I have seen hundreds of Youtube videos documenting police violence against both innocent citizens and criminals. Every time I feel such immense and profound shame at sharing a profession with certain individuals.

But, truthfully, today I did not feel just disgusted or ashamed. I actually felt sick to my stomach. Nauseated. It’s abominable.

Danillo Ferreira, a police officer with the military police of Bahia, in his blog Abordagem Policial (Police Approach), states that the behavior of the investigators from the Office of Internal Affairs is not proper and is not what one would expect of an officer [pt]:

Um ato que merece o repúdio público, mesmo que haja provas que atestem o crime da ex-policial.

These actions merit public objection, even if there is proof of the former desk officer’s having committed a crime.

After the video was released, the Office of Internal Affairs, cowering from the public outcry, held that is officers committed no irregularities. The blog Escreva, Lola, Escreva (Write, Lola, Write) [pt], by Lola Aronovich, stressed that the incident may be rooted in police officer’s sexual satisfaction:

Isso me fez lembrar o que Susan Brownmiller conta em seu clássico dos anos 70, Contra a Nossa Vontade. Era comum vítimas terem que narrar nos mínimos detalhes o seu estupro para policiais homens que ora não acreditavam nelas, ora pareciam se excitar com a narrativa. Isso quando essas vítimas não ouviam do policial: “Mas quem iria querer te estuprar?”

This reminds me of what Susan Brownmiller recounts in her 1970s classic Against Our Will. It was common for victims to have to narrate their rape down to the most minute detail either because male police officers did not believe them or because the officers seemed to become sexually aroused by the narrative. The victims were subject to this humiliation, of course, when they were faced with male officers’ goading, “But who would want to rape you?”

According to blogger Luka of Bidê Brasil, violence is run of the mill for the Brazilian police force, which assumed its current structure during the years of the military dictatorship:

O caso da ex-escrivã só mostra o quanto os direitos das mulheres são colocados de lado em diversas ocasiões, ainda mais quando vemos que havia 2 policiais femininas no local e que nada fizeram para não acontecer tal afronta, fora a lastimável declaração da Corregedora e do Governador dando razão a ação dos policiais. No final das contas este caso acaba sendo apenas mais uma ilustração de como o tucanato trata os direitos humanos e em especial os direitos humanos das mulheres, como se fossem descartáveis.

The case of the former desk officer simply shows the extent to which women’s human rights are pushed aside on multiple occasions, even more glaring given the fact that two female officers were present and did nothing to prevent the incident. Not to mention the pitiful statement by the Office of Internal Affairs and the governor condoning the male investigators’ actions. In the end, this case is yet another example of how the centrist Brazilian Social Democratic Party views human rights, and especially women’s human rights, as disposable.

Many twitterers defended the female desk officer, but, even more surprising were those who supported the male investigative officers:

@fabioninja [DJ Fabio Ninja]
Pessoal fala em abuso de poder (quanto ao caso da escrivã nua), mas ninguém menciona que, de fato, o delegado estava correto.

@fabioninja [DJ Fabio Ninja] Everyone’s talking about the abuse of power (in the case of the naked desk officer), but nobody’s mentioning the fact that the investigator was actually right.

@rodaabaiana [Iemai]
Sobre o caso da escrivã: se ela não tivesse cometido o crime, o ato não seria necessário. Criminoso tentando sair de vítima me cansa.

@rodaabaiana [Iemai]
As for the case of the desk officer: if she hadn’t committed the crime, this incident wouldn’t even be necessary. The criminal trying to play victim wears me out.

@allandematos [Allan Matos]
Sobre o caso da ex-escrivã nua: Acho que realmente houve exagero, mas a atitude dos delegados foi digna. Corrupção deve sempre ser combatida.

@allandematos [Allan Matos]
As for the case of the naked former desk officer: I think they really did go overboard, but the investigators’ attitude was dignified. Corruption should be fought.
Maria do Rosário, Ministra de Direitos HumanosMaria do Rosário, the Minister of Human Rights Photo by Agência Brasil, distributed under a Creative Commons — Attribution 2.5 Brazil license. 

In a message to the press, Human Rights Minister Maria do Rosário called for the discharge of all police officers responsible [pt]. Fearing that the case would head to the federal courts, Governor Geraldo Alckmin, in addition to honoring the minister’s request, discharged the director of the Office of Internal Affairs as well [pt] and further indicated that the state security secretary might also be discharged.

Oddly enough, the investigators had been complaining of the harsh measures [pt] adopted by the state police’s Office of Internal Affairs for some time and had fought to discharge the office’s directors.

The security secretary was appointed by former Governor José Serra, unlike the political group under the current Governor Alckmin, who wished to appoint someone of his personal trust to the post [pt]. Considering the consequences of this case, it will be very difficult to discover who was responsible for releasing the video.

O secretário espionado, a direção do shopping e os jabutis em cima das árvores

Do Blog do Reinaldo Azevedo – O shopping Pátio Higienópolis disse ontem que “policiais” solicitaram imagens do secretário da Segurança Pública de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto, no local. O vídeo, no qual Ferreira Pinto se encontra com o repórter da Folha Mario Cesar Carvalho, foi divulgado em sites e blogs-um deles ligado a policiais civis-, que relacionaram o encontro à reportagem escrita por Carvalho sobre a venda de dados sigilosos por um funcionário da Segurança, o sociólogo Túlio Kahn, que foi demitido. A Segurança Pública vê “forte indício de que grupos criminosos utilizaram [as imagens] para espionar o primeiro escalão do Estado e o trabalho da imprensa”. O procurador-geral de Justiça, Fernando Grella Vieira, disse que investigará a divulgação das imagens. Ele classificou o caso como “grave”. Anteontem, o Pátio Higienópolis havia dito ter entregue o vídeo a “órgãos oficiais”, sem especificar quais.

A direção do shopping passou a dizer que entregou o material a “policiais” após Geraldo Alckmin (PSDB) declarar ontem que ninguém do governo pediu o vídeo. “Ninguém do governo, autorizado pelo governo, solicitou fita. O shopping precisa explicar melhor isso. Se alguém usou o nome do governo, o shopping não deveria ter fornecido [a fita]“, disse. A Secretaria da Segurança disse que pedirá hoje ao shopping a identidade dos policiais. Questionado pela Folha, o shopping se recusou a dizer quem eram eles. Desde o início da sua gestão, ainda no governo Serra (PSDB), Ferreira Pinto abriu investigação contra mais de 800 delegados (de um total de 3.300), o que gerou uma crise na polícia paulista. A secretaria ressaltou que, “desde a recondução do secretário Ferreira Pinto ao cargo, o inconformismo de uma pequena parcela de policiais prejudicados com a austeridade da política atual de segurança se intensificou”.

O primeiro a divulgar as cenas foi o radialista João Alkimin, no site “Veja São José”. Apesar de não haver indicação no vídeo, ele disse que o encontro ocorreu às 19h30 de 25 de fevereiro. A reportagem da Folha sobre Túlio Kahn saiu em 1º de março. A mulher do radialista, Tânia Nogueira, é advogada de Ivaney Cayres de Souza e Everardo Tanganelli, dois delegados que perderam espaço na gestão Ferreira Pinto. O radialista nega relação entre o vídeo e sua mulher. O delegado Souza estava no shopping, com uma jornalista da Folha, no momento em que Ferreira Pinto se encontrava com Carvalho. Souza diz ter visto o secretário, mas nega ligação com a divulgação das imagens.

via O secretário espionado, a direção do shopping e os jabutis em cima das árvores | Reinaldo Azevedo – Blog – VEJA.com.

Intrigas, arapucas e camas-de-gato: assim correm os dias na SSP-SP

Um inferno. É assim que os espectadores definem o clima na sede da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. A tensão crescente entre as polícias civil e militar e, mais acima, nas relações entre o governador Geraldo Aclkmin e o secretário Antônio Ferreira Pinto dão o mote do  delicado momento político. Egresso do Ministério Público e da Polícia Militar, Ferreira Pinto tem sido responsabilizado por manobras políticas desastradas para tentar sobreviver às tempestades que cercam a pasta desde a posse do governador, em janeiro último.

“A batata do secretário foi colocada no forno quando a casa do ex-secretário Saulo de Castro foi assaltada; assou quando se descobriu que ele havia sido informado, por ofício, dos abusos dos corregedores [que despiram na marra uma escrivã] e nada fez para puni-los; e agora está gratinando com a revelação do vídeo em que ele aparece vazando informações para derrubar o Túlio Kahn, um dos homens de confiança de Alckmin”, disse uma fonte ao Blog do Pannunzio.

A tentiva de caracterizar a série de trapalhadas como “manobras da banda podre da polícia civil” não prosperou. No Bandeirantes, Ferreira Pinto tem sido responsabilizado pelo aumento das hostilidades entre policiais militares e civis. O governador teme que a radicalização possa provocar uma situação de caos e descontrole caso a promessa de uma greve dos agentes e delegados ganhe corpo e se efetive. “Ninguém sabe o que poderia acontecer numa situação como essa, já que as duas corporações estão no limiar do ódio recíproco”, assevera a fonte.

Alckmin, por seu turno, está encurralado entre a necessidade de substituir seu assessor mais problemático e a inconveniência de fazê-lo agora. “Isso poderia parecer capitulação diante das afrontas dos policiais civis”, pondera o informante do Blog. “O problema é que essa situação acaba gerando ainda mais instabilidade”.

O estopim da crise remonta ao mês de agosto de 2009. Foi quando o atual secretário, que havia sido recentemente transferido da Secretaria de Administração Penitenciária para a SSP, editou o decreto nº 54.710, que subordinou a Corregedoria da Polícia Civil diretamente a seu gabinete. “Foi um erro. Assim, Ferreira Pinto passou a assumir toda a responsabilidade também pelos excessos dos corregedores”, avalia a fonte.

O decisão do secretário foi tomada para que ele se acercasse de que todo o rigor seria empregado na apuração de desvios de conduta praticados por policiais civis. Mas logo pipocaram denúncias que Ferreira Pinto estaria ciente dos excessos cometidos na “limpeza” da Polícia Civil sem nada fazer para contê-los.

O caso que gerou mais comoção foi denunciando por este Blog (leia aqui) e pela Rede Bandeirantes há três semanas: a imposição de sevícias morais à escrivã V.F.L.S., acusada de concussão. Ela foi algemada e despida à força nas dependências do 25º DP por uma equipe de corregedores.

O escândalo resvalou no Secretário, que conseguiu administrá-lo quando exonoerou, a contragosto, a corregedora-geral Maria Inês Trefiglio Valente. Mas as sequelas do episódio ainda são como feridas abertas pelo onus político imposto ao governo estadual. Antes de sair, ela afirmou, de maneira incisiva, que o secretário havia sido informado do caso. Testemunhas do episódio asseguram que Ferreira Pinto chegou a cumprimentá-la pela ação destemperada de seus homens. Nada disso foi esquecido.

[vimeo]http://vimeo.com/20905292[/vimeo]

Paradoxalmente, casos ainda mais rumorosos protagonizados por policiais militares permanecem impunes. O mais notório envolve 14 PMs da ROTA, a temida tropa de choque paulista, que plantaram drogas em um galpão na Zona Leste da cidade em outubro de 2009. Assim como no caso da escrivã, a farsa da ROTA também filmada — não por corregedores, e sim por cameras de segurança que os PMs localizaram, mas não conseguiram destruir.

O video, que teve trechos amplamente divulgados pela imprensa no fim do ano passado, pode ser integralmente assistido acima. Apesar do registro das imagens, até hoje um Inquérito Policial Militar se arrasta enquanto os policiais permanecem em atividade, como se nada tivesse acontecido.

De acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública, 13PMs que participaram da fraude foram afastados das ruas. Estariam agora prestando serviços internos enquanto aguardam a conclusão do IPM . Mas a própria SSP admite que pelo menos um deles, o sub-tenente Helder Antônio de Freitas, comandante de uma das três viaturas que estiveram no barracão, já foi reincoporado às patrulhas. O assesor que atendeu o Blog afirmou que a reincorporação aconteceu porque “não há evidências claras de que tenha participado diretamente da operação”.

O Blog do Pannunzio solicitou, na quinta-feira da semana passada, informações à assessoria de imprensa da SSP sobre a data do afastamento dos policiais,  mas ainda não obteve resposta.

O Secretário de Segurança Pública Antônio Ferreira Pinto foi informado por ofício, pelo comando da PM, dos nomes de todos os policiais plantadores de drogas. Em seguida, encaminhou, também por ofício, os nomes dos PMs à justiça, como se pode ver no destaque ao lado.

O Blog teve acesso ao inquérito que corre em segredo de justiça. E decidiu não publicar os documentos na íntegra para não molestar o direito de defesa dos envolvidos, a despeito da convicção de que apenas criminosos perigosos poderiam protagonizar cenas como essas.

O que chama a atenção quando os dois casos são comparados é a diferença no rito adotado em processos contra policiais civis e militares. A escrivã seviciada pelos corregedores foi expulsa da Polícia civil menos de 15 meses após ter sido presa em flagrante. Os PMs, no entanto, permencem trabalhando e recebendo do Estado, apesar das evidências cabais dos  crimes gravíssimos por eles cometidos.

Quando forem a julgamento, fatalmente serão condenados por tráfico de drogas e abuso de autoridade. Só essa presunção  já justificaria seu isolamento de um tropa que não está imune aos péssimos exemplos de companhias assim tão deletérias.

Não cabe aqui responsabilizar o secretário pela diferenças no rito. Mas há evidências de erros políticos absurdos que deram causa a todo o movimento de confrontação que se vê hoje nas delegacias de São Paulo.

Antônio Ferreira Pinto, apesar das trapalhadas das últimas semanas, é considerado por todos um homem honrado. Enfrentou com coragem a máfia do DETRAN, atuou com firmeza para extirpar funcionários públicos corruptos das corporações que têm como prerrogativa o exercício da vilência legítima. Salvo os que acreditam apenas na manipulação dolosa das estatísticas da violência, é notório o reflexo da limpeza da polícia  sobre os índices de criminalidade, que foram drasticamente reduzidos nos últimos anos.

Suas credenciais, no entanto, não lhe dão o direito de acobertar exorbitâncias como a Operação Pelada. Também não é aceitável que um assessor direito do governador traia a confiança do chefe e busque resolver nos jornais aquilo que deveria fazer de ofício — caso da demissão de Túlio Kahn da Coordenadoria de Análise e Planejamento. Tudo isso contribui apenas para acirrar o corporativismo e as desconfianças das duas instituições que, desde sua formação, foram marcadas por diferenças aparentemente insanáveis.

Ainda estão frescas na memória dos paulistanos as cenas de horror e a violência que eclodiram no entorno do Estádio do Morumbi em outubro de 2.008, quando a tropa de choque tentou conter uma manifestação de policiais civis em greve que ameaçavam sitiar o Palácio dos Bandeirantes. Dois anos e meio atrás, a selvageria de ambas as partes produziu mais de duas dezenas de feridos.

Hoje, com o clima de conturbação agravado pelas insatisfações com a política salarial, ninguém sabe qual seria o saldo de um confronto como aquele. E, acredite, as condições para a repetição da tragédia anunciada estão dadas. Há tanta gasolina dispersa no ar que a menor fagulha poderá provocar uma explosão de efeitos inimagináveis.

Com a animosidade crescente, cabe ao governador Gerlado Alckmin resolver com celeridade o problema. É difícil imaginar uma sobrevida longa no cargo do atual secretário Antônio Ferreira Pinto. É de fato um homem honrado. Mas não demonstrou a menor habilidade para lidar com as suscetbilidadades.

Há que se considerar também que Ferreira Pinto é parte de um espólio político indesejável legado do governo anterior, de José Serra, do qual o atual governador ainda não conseguiu se livrar. Entre o governador atual e seu antecessor, como se sabe, há diferenças que ultrapassam os limites da simples divergência e extrapolam os da animosidade civilizada. De certa forma, a guerra não declarada entre delegados e coronéis é um subproduto da guerra fratricida no ninho tucano.

Do outro lado, acuada e assustada, a sociedade espera ações que possam devolver a tranquilidade à rotina da segurança. O que o cidadão que vive em são Paulo espera das autoridades que elegeu para representá-lo é competência para resolver os problemas, e não que seus melindres agravem os temores e ajudem a inflar ainda mais a situação de insegurança de uma das metrópoles mais violentas do planeta.

O que não é possível é admitir que o governo cruze os braços aguardando que delegados batam continência para os coronéis e que coronéis prestem continência a delegados, dada a cultura de desconfiança que permeia as relações entre as duas corporações.  Muito menos aceitável ainda é ver o governo imóvel, catatônico, enquanto as duas polícias caminham a passos largos para o confronto iminente.

Folha de S.Paulo: Site divulga vídeo e foto de Ferreira Pinto em shopping

Vídeo divulgado na internet mostra o secretário da Segurança de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto, encontrando-se com o repórter da Folha Mario Cesar Carvalho.

As imagens são do circuito de segurança do shopping Pátio Higienópolis, na região central da capital, e têm um minuto e nove segundos de duração. No vídeo, há imagens de duas câmeras.

As cenas mostram o secretário caminhando próximo à entrada principal segurando um envelope pardo. Instantes depois o jornalista chega.

Eles se cumprimentam e seguem para uma área do prédio sem monitoramento de câmeras de vídeo. Carvalho também leva uma pasta.

O primeiro a divulgar as imagens foi o radialista João Alkimin, de São José dos Campos, no site “Veja São José”. O vídeo foi repercutido em vários blogs, um deles ligado a policiais civis.

O Palácio dos Bandeirantes diz não haver parentesco entre o radialista e o governador Geraldo Alckmin (PSDB).

A página do radialista também traz uma foto de baixa qualidade que diz ser do repórter e do secretário em um café do shopping.

O site e alguns blogs relacionam o encontro à reportagem escrita por Carvalho sobre a venda de dados sigilosos por um funcionário da Segurança, o sociólogo Túlio Kahn, que acabou demitido.

Esses sites dizem que o encontro se deu às 19h30 de 25 de fevereiro. No vídeo não há tal registro. A reportagem da Folha saiu em 1º de março.

Em nota, a Secretaria da Segurança afirma considerar “grave a obtenção e a divulgação das imagens”. “Não por seu conteúdo, mas pelo forte indício de que grupos criminosos as utilizaram para espionar o primeiro escalão do Estado e o trabalho legítimo da imprensa”, diz.

Também em nota, o Pátio Higienópolis afirma ter entregado as imagens “a órgãos oficiais por solicitação dos mesmos visando atender e colaborar na investigação de ocorrência de outra natureza”. O shopping não diz quais são os “órgãos oficiais” nem se há determinação judicial para isso.

NOTA DA REDAÇÃO – O repórter Mario Cesar Carvalho se encontrou em local público com o secretário da Segurança, Antônio Ferreira Pinto, autoridade da área de especialização do jornalista. A Folha lamenta que imagens colhidas no circuito interno de um shopping center tenham sido utilizadas na tentativa de coibir o trabalho da imprensa.

via Folha de S.Paulo – Site divulga vídeo e foto de Ferreira Pinto em shopping – 10/03/2011.

Site divulga video que provaria que Sec. de Segurança de SP vazou informações que derrubaram assessor

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=3DEwznjAI_w[/youtube]

Um video de 1 minutos e 8 segundos, divulgado hoje na internet, poderia ser a prova de que o Secretário de Segurança Pública Antônio Ferreira Pinto vazou para o jornal Folha de São Paulo os documentos que causaram a demissão do ex-chefe da CAP (Coordenadoria de Análise e Planejamento), o sociólogo Túlio Kahn. Kahn foi acusado de vender informações sigilosas da SSP a clientes de sua empresa de consultoria, a Angra Consultoria e Representação Comercial.

A reportagem da Folha, publicada na edição de 1º de março deste ano (assinantes podem ler a íntegra aqui), afirmava que o sociólogo mantinha contratos cujo preço variava entre R$ 80 mil e R$ 250 mil para fornececer dados detalhados de estatísticas sigilosas da SSP . Empresas estatais paulistas teriam comprado as informações, que são públicas.

Assim que a reportagem foi publicada, o governador Geraldo Alkmin demitiu Túlio Kahn por considerar incompatível sua atividade de consultor com o cargo que ocupava na estrutura da segurança pública. Desde então, policiais vêm sustentando que o próprio secretário passou os documentos que embasaram a matéria ao repórter Mário Cezar Carvalho. Seu objetivo seria o de provocar a demissão de Kahn, homem de confiança do governador Gerlado Alkmin.

A cenas teriam sido registradas no começo da noite de 25 de fevereiro, três dias antes da divulgação da reportagem, pelas cameras de segurança do centro comercial, que é vizinho da sede da SSP. No video, Antônio Ferreira Pinto aparece no hall de entrada do Shopping Pátio Higienópolis segurando um envelope de papel pardo. Em seguida, o repórter chega e cumprimenta o secretário. Depois ambos seguem caminhando em direção ao café Stairbucks, onde teriam se reunido para, segundo os policiais que dizem ter testemunhado a cena, trocar documentos e informações sobre os negócios de Kahn.

O Blog do Pannunzio está em contato com  a assessoria de imprensa do secretário para confirmar se as imagens tratam mesmo de um encontro entre Ferreira Pinto e o repórter da Folha e qual o objetivo da reunião fora do ambiente do gabinete. A rigor, as imagens não provam o vazamento. Mas deixam claro que houve pelo menos uma conversa entre a fonte e o jornalista na antevéspera da publicação da reportagem.

Caso se confirme que o encontro ocorreu e o objetivo era mesmo o de entregar o dossiê que derrubou Kahn ao repórter da Folha, a situação do secretário pode se complicar. Não é novidade para ninguém que o clima na SSP está tenso desde os primeiros dias da gestão de Alkmin.

Farreira Pinto, ex-procurador e ex-oficial da Polícia Militar, já esteve em situação delicada em pelo menos duas oportunidades nos últimos dois meses. A primeira foi quando do assalto à residência do ex-secretário de segurança pública Saulo de Castro Abreu. Em seguida, Antônio Ferreira Pinto quase foi exonerado quando o Blog do Pannunzio e a Rede Bandeirantes divulgaram as imagens da chamada Operação Pelada, video em que uma equipe da Corregedoria da Polícia Civil aparecem despindo à força uma escrivã acusada de concussão (veja post que abriu o caso aqui). O Secretário tinha conhecimento das sevícias e nada fez para apurar e punir os abusos cometidos pelos delegados-corregedores. A chefe da Corregedoria, Maria Inês Trefiglio Valente, foi demitida no arrasto do escândalo.

As imagens do suposto encontro entre o jornalista e o secretário foram divulgadas pelo radialista João Alkimin, do site São José Dia e Noite, e tiveram ampla repercussão do blog Flit Paralisante, comunidade que reune policiais civis de São Paulo. A duas páginas eletrônicas são enfáticas ao afirmar que foi o secretário quem vazou os documentos com o objetivo de dar causa à demissão de Kahn.

Delegados da Operação Pelada vão para o DENARC. Colegas dizem que não é punição, é prêmio

Dois dias atrás o Delegado-Geral de Polícia de São Paulo, Marco Carneiro Lima, apresentou pessoalmente aos colegas da Delegacia Especializada de Narcóticos dois novos colegas que foram incoporados ao time de elite. Além da apresentação formal, os novatos receberam elogios do chefe, que os recomendou e pediu colaboração.

Eduardo Henrique de Carvalho Filho e Gustavo Henrique Gonçalves, os agraciados com a recomendação, foram os protagonistas da chamada Operação Pelada. Foram eles que despiram à força a escrivã V., acusada de concussão, no cartório da Delegacia de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo. As imagens das sevícias foram reveladas duas semans atrás pelo Blog do Pannunzio (veja aqui) e pelo Jornal da Band.

A chegada de ambos causou mal-estar, especialmente entre as mulheres. Eles vão passar a dar plantões no DENARC  somente depois do cumprimento de um período de férias. Para os colegas, a transferência é  prêmio, não uma punição, já que o DENARC abriga a elite da elite da polícia civil paulistana.

As manifestações de indignação não se resumem aos futuros colegas dos dois delegados. Na manhã desta quarta-feira o SINDPESP — Sindicato dos Policiais Civis do Estado de São Paulo — enviuou uma carta ao governador Geraldo Alkmin reiterando as críticas ao comportamento dos protagonistas da Operação Pelada e peindo a demissão do Secretário de Segurança Antônio Ferreira Pinto.

Os policiais civis reclama de discriminação. Segundo eles, o secretário, que tem como origem a Polícia Militar, subordinou diretamente a ele a Corregedoria da Polícia Civil, mas manteve a dos pliciais militares sob o comando da PM.

Leia, abaixo, a íntegra da carta enviada ao governador.

Fechando o caso: A opinião do Blog sobre a Operação Pelada

Dez dias se passaram desde que o Blog do Pannunzio e a Rede Bandeirantes denunciaram as atrocidades perpetradas por uma equipe de delegados-corregedores contra uma escrivã acusada de concussão. Até agora, todo o material jornalístico publicado nesta página eletrônica foi orientado pela objetividade. Apesar da gravidade da denúncia, tentei ao máximo não permitir a contaminação dos conteúdos pela minha própria indignação. Agora chegou o momento de expressar o que pensamos.

As atrocidades contidas no video gravado pela Corregedoria chocaram o País, provocaram comoção e produziram uma série de repercussões políticas e institucionais. No ambiente do Blog, despertaram uma discussão saudável entre leitores horrorizados com os múltiplos desrespeitos evidenciados pelas cenas. A discussão se materializou na forma de centenas de comentários, em sua maioria serenos e bem embasados. Quero dar os parabéns aos leitores pela lucidez na abordagem madura do problema e agradecê-los pela maneira correta com que divergiram, somaram, acrescentaram elementos de análise ao conteúdo do Blog.

No universo maior, naquele que se costuma chamar de “vida real”, os post que desvelaram o caso provocaram um eco saneador. Quatro delegados foram afastados de suas funções na Corregedoria. A própria Corregedora-Geral foi transferida para outro posto depois de cometer um erro fatal: apoiar a truculência de seus sobordinados.

Sobre a queda de Maria Inês Trefiglio Valente, um parágrafo à parte, que talvez venha a causar algum espanto entre os leitores. Fiquei compadecido com o que lhe aconteceu, embora eu tenha a convicção de que contribuí ativamente para que isso acontecesse. Goste-se ou não de seus métodos, é preciso reconhecer que a delegada realizou um grande trabalho à frente da Corregedoria, onde atuou com firmeza para extirpar da Polícia Civil o cancer da corrupção, que já fizera metástases e ameaçava tomar todo o organismo. Não por acaso, Maria Inês amealhou inimigos viscerais e soube resistir a  eles. Caiu vítima da soberba institucional da qual se investiu a Corregedoria.

Para os futuros chefes da polícia da polícia paulista, fica a lição de que não se pode pretender justicar o mal como uma necessidade para a imposição do bem. Numa democracia como a nossa, o respeito à lei é um imperativo inalienável. E a sociedade grita quando percebe que está sendo ameaçada.

Nesse caso, a ameaça era ainda mais grave. Os abusos denunciados certamente iriam formar novos padrões de comportamento abusivo. A pergunta que os policiais que foram alvo de ações dessa natureza se fazem é: se quem tem por dever de ofício coibir o desrespeito pode agir assim, por que todos os demais policiais que integram a corporação teriam que se comportar de maneira distinta ?

A partir de agora é possível antecipar que nunca mais a Corregedoria, ou a polícia como um todo, irá submeter alguém a tamanha humilhação. Se isso de fato acontecer, terá sido uma grande mudança. Nunca mais se verão cenas como a da escrivã sendo despida na marra por delegados prepotentes, em completa dessitonia com o que está prescrito no Artigo 249 do Código de Processo Penal. E, caso isso venha novamente a acontecer, os chefes dos tiranos não estarão tão à vontade para defender o mau comportamento.

Quero ressaltar que ainda há muito o que investigar. Mas essa é uma tarefa que deve ser compartilhada por todos os agentes que atuam em defesa da manuteção dos direitos e na fiscalização do Estado. As instituições têm que cumprir sua parte. Cabe ao Ministério Público explicar o parecer esdrúxulo do promotor de justiça que pediu o arquivamento do caso. A decisão do juiz que acatou esse parecer também precisa ser analisada pelo Conselho Nacional de Justiça. As dezenas de denúncias de procedimentos arbitrários que se seguiram à revelação das sevícias contra a escrivã igualmente precisam ser consideradas, investigadas e punidas. É necessário puxar o fio do novelo desatado pelo Blog e pela Band, tarefa que é, por definição, uma construção coletiva.

Ao Estado, por delegação constitucional, cabe o exercício da violência legítima. Quando não encontra limites, esse mesmo Estado se transforma em uma ameaça permanente contra os cidadãos que lhe delegaram tanto poder. Daí a importância de abrir espaço para o desvelar de situações aviltantes, vexatórias e humilhantes como o que se viu nas páginas deste Blog.

As múltiplas repercussões que a denúncia gerou reafirmam a percepção de que a cidadania ganhou muito com o advento da internet. Não é exagero afirmar que, aliada ao bom exercício do jornalismo nos veículos da imprensa formal, a internet se transformou num novo locus para a realização da cidadania.

Fábio Pannunzio, editor do Blog do Pannunzio.

Blog publica a íntegra das perícias do caso da escrivã

A repercussão do caso que o Blog do Pannunzio trata como Operação Pelada gerou diversos pedidos de leitores para que a íntegra dos documentos que embasaram a investigação fosse publicada. As peças mais importantes são as degravações dos diálogos que o denunciante  Alex Alves de Souza manteve com a escrivã V. A partir de agora, elas estão disponíveis para download em formato PDF.

O Blog tem sustentado que o conteúdo dos documentos se contrapõe às conclusões dos vários delegados que investigaram o caso, especialmente no que diz respeito à informação, reiterada diversas vezes nos autos, de que havia o registro da exigência de dinheiro por parte da escrivã, o que seria suficiente para provar materialmente o crime de concussão.

O primeiro diálogo pode ser lido aqui. A gravação, segundo o laudo pericial, foi feita pelo celular de Alex. Ela registra o momento em que o denunciante prestou declarações no procedimento instaurado para apurar a posse ilegal de munição. Foi o primeiro contato pessoal entre ambos.

De acordo com a cronologia estabelecida pelo motoboy, a exigência da escrivã teria sido feita nessa oportunidade. Mas na degravação não há, como o Blog tem reiterado, nenhum indício de crime. Não há menção a dinheiro nem nada do gênero que se possa inferir. O teor do diálogo coincide inteiramente como o que foi registrado no Termo de Declarações lavrado por V., que pode ser lido aqui.

A partir de então, Alex passou a agir de acordo com as instruções da Corregedoria. Um dia depois de ter formalizado a denúncia, em 11 de junho de 2009 — data provável — , Alex liga para o Vigésimo-quinto DP e tenta induzir a escrivã a falar sobre um suposto acordo financeiro entre ambos. Mas a conversa não prospera. Igualmente, não há menção a propina. A degravação pode ser acessada aqui.

O terceiro documento contém a degravação do diálogo que aconteceu dentro da delegacia no dia em que a escrivã foi presa em flagrante, 15 de junho de 2009. Alex vai à delegacia para buscar uma intimação que deveria ser entregue ao pai dele. Do lado de fora, a equipe da Corregedoria, que o havia instruído sobre como proceder, aguarda um sinal do denunciante para efetuar a prisão.

A delegada Patrícia Vaiano Mauad afirma que “a gravação feita pela vítima no momento da entrega do dinheiro, já que portava um gravador cedido pela corregedoria, também foi apreendida, transcrita e encaminhada para a perícia (fls 156/161)”. Mas aqui também não se encontra nenhuma referência ao suposto pagamento da propina, apesar de haver uma referência a algo que não poderia ser tratado por telefone. O documento pode ser lido aqui.

Caso o leitor queira conhecer outras peças que integram o inquérito, basta enviar e-mail para o Blogo do Pannunzio clicando aqui.

Leiam a ótima reportagem da Isto É sobre o caso da escrivã despida

Barbárie na delegacia

O caso da escrivã despida à força por delegados de São Paulo mostra que a truculência da polícia não tem limites

Solange Azevedo, Patrícia Diguê e Claudia Jordão
VIOLÊNCIA


img3.jpgPerdi a paciência com você”, gritava o delegado Eduardo Henrique de Carvalho Filho. “Ela vai ficar pelada na frente de todo mundo.” Esse show de horror e truculência aconteceu em junho de 2009, dentro de um distrito policial de Parelheiros, no extremo sul da capital paulista. Mas só veio à tona agora, quando as imagens da diligência foram divulgadas na internet e na televisão. A vítima, uma escrivã acusada de receber R$ 200 para favorecer um rapaz investigado no bairro e ocultar o dinheiro sob a roupa, implorava para que não a deixassem nua na frente de seis homens da Corregedoria da Polícia Civil. Suplicou, mais de 20 vezes, para que a revista íntima fosse feita por mulheres – como manda a lei. Não adiantou. Ela foi algemada, jogada no chão e teve as calças e a calcinha arrancadas à força por Carvalho Filho. “Eu sou o condutor da tua cana. Você está presa em flagrante”, bradava o delegado. “Eles ficaram comigo em torno de 50 minutos. Me ameaçavam o tempo todo”, afirmou a moça à ISTOÉ. “Fui humilhada e tratada como um animal por ser mulher.”

A ação, filmada pela própria Corregedoria, mostra que a brutalidade da polícia não tem limites. “Se fizeram isso comigo, uma colega, dentro de um prédio público, imagine o que pode acontecer nas periferias, nas ruas escuras?”, reclama a vítima. Quando Carvalho Filho expôs violentamente o sexo dela, quatro cédulas de R$ 50 caíram no chão. Para o delegado, aquela seria a prova de que a funcionária se corrompera. Ela permaneceu encarcerada durante 20 dias e, em outubro do ano passado, acabou demitida. A ex-escrivã nega ter pedido dinheiro. Diz que o rapaz deixou as notas em cima da mesa e, como ela não sabia o que fazer, saiu da própria sala para consultar seus superiores quando foi surpreendida pelos agentes da Corregedoria. Eles chegaram com armas em punho, berrando e lhe dando voz de prisão. A ex-escrivã alega que escondeu o dinheiro sob as vestes porque ficou com medo. O processo, que definirá se ela cometeu o crime de concussão, ainda não foi concluído. A questão que emerge desse caso, no entanto, não é se a ex-escrivã é ou não é corrupta, porque sobre isso nem mesmo a Justiça deu a palavra final, mas por que os policiais agiram daquela maneira.

“Foi uma história escabrosa de violência de gênero. Os agentes tinham tanta convicção de que o que faziam era correto que gravaram tudo. Me espanta a falta de percepção deles sobre o próprio papel, sobre o que é certo ou errado e sobre os direitos da moça”, afirma a procuradora de Justiça Luiza Nagib Eluf, estudiosa do tema. “Ela foi torturada como nos tempos da ditadura, quando os militares tiravam as roupas das presas e as expunham com a intenção de apavorá-las.” Luiza afirma que as cenas da ex-escrivã berrando para que a ajudassem lembram o que acontecia de pior nos porões do Deops e do DOI-Codi. “O delegado ficou nervosinho porque foi desafiado por uma mulher. Ele quis se vingar, mostrar quem manda”, acredita o cientista social Guaracy Mingardi, ex-subsecretário Nacional da Segurança Pública. “Boa parte das besteiras praticadas pela polícia acontece porque o policial quer mostrar que é ele que está no comando.”Nos corredores da polícia paulista, o delegado Carvalho Filho é descrito como um homem truculento. Certa vez, teria se desentendido com a mulher de um investigador e dado um tapa na cara dela. Em 2009, quando coordenou a barbárie contra a ex-escrivã, Carvalho Filho tinha 27 anos – a mesma idade da vítima. Estava no estágio probatório e louco para mostrar serviço. Trabalhava havia apenas um mês na Divisão de Operações Policiais (DOP) da Corregedoria da Polícia Civil e nunca havia estado à frente de uma operação vultosa. “Aquela foi a primeira prisão que ele fez”, revela o delegado-corregedor Emilio Antônio Pascoal, chefe de Carvalho Filho naquela época. Embora Carvalho Filho tenha dito que a ordem para deixar a escrivã “pelada na frente de todo mundo” tenha partido do chefe, Pascoal nega. “Sempre orientei toda a equipe para agir de forma absolutamente escorreita”, afirma Pascoal. O delegado lembra que, antes de integrar a DOP, Carvalho Filho atuou como plantonista do presídio da Polícia Civil. Antes disso, fora do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra).

O governo de São Paulo só se mostrou indignado com a ação da equipe comandada por Carvalho Filho depois que o escândalo se tornou público. Mais de um ano e meio depois do ocorrido. Antes, as imagens da escrivã implorando para não ficar nua na frente de um bando de homens não foram consideradas abusivas – nem pela polícia, nem pelo Ministério Público, nem pelo Judiciário. Tanto que houve uma sindicância interna na Corregedoria e os policiais não receberam nenhuma punição. Quando o caso chegou ao Ministério Público, o promotor Lee Robert Kahn da Silveira elogiou a atuação dos agentes e escreveu, em sua fundamentação, que “à Polícia será sempre permitido relativo arbítrio, certa liberdade de ação, caso contrário esta se tornaria inútil, ensejando vença e impunidade, ante os obstáculos que surgem para a apuração e descoberta de fatos delituosos”. Baseado nesses argumentos, o juiz Octávio Augusto de Barros Filho (leia quadro abaixo) decidiu arquivar o inquérito por abuso de autoridade.

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BRIGA
Chefe da escrivã, Engler quase saiu no
tapa com Carvalho Filho tentando defendê-la

Como se diz no jargão policial, a casa só começou a cair na segunda-feira 21, quando o secretário da Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto, anunciou o afastamento de Carvalho Filho, de outros dois delegados que participaram daquela diligência – Gustavo Henrique Gonçalves e Renzo Santi Barbin – e de Pascoal, então chefe da equipe, da Corregedoria. “Fui escalado para a operação, mas não estava na sala na hora em que fizeram aquilo com a moça”, afirma Barbin. “Eu estava presente no início da discussão. Mas, quando percebi que o rapaz que acusou a escrivã estava no pátio da delegacia com a namorada, fui vigiá-lo para que nenhum policial que trabalhava naquele distrito tentasse intimidá-lo.” Barbin se sente injustiçado. Disse à ISTOÉ que atuou como delegado na zona leste de São Paulo, mas pedira transferência para a Corregedoria porque pretendia melhorar a corporação.

Nem a corregedora-geral da Polícia Civil resistiu à pressão. Maria Inês Trefiglio Valente, que estava na função desde abril de 2009, foi tirada do cargo na tarde da quinta-feira 24. Apesar de policiais afirmarem que, na prática, quem sempre comandou de verdade a Corregedoria foi o próprio secretário Ferreira Pinto. Logo depois que o escândalo eclodiu, Maria Inês explicou a violência de seus subordinados de maneira desastrada. “Se fez necessária, depois de 48 minutos de atuação”, justificou. “Como mulher, ela poderia ter se sentido constrangida. E, como corregedora, deveria ter feito valer a lei do nosso país”, reclama a ex-escrivã. “Todo mundo errou. O delegado, que não tinha vivência e fez tudo errado, a Corregedoria, que deixou passar, e o Ministério Público e a Ordem dos Advogados do Brasil, que não ficaram em cima”, acredita Mingardi.

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QUEDA
Maria Inês perdeu o comando da Corregedoria-Geral

Em novembro do ano passado, o advogado da ex-escrivã, Fábio Guedes Garcia da Silveira, comunicou a OAB sobre o abuso e o presidente da entidade, Luiz Flávio Borges D’Urso, enviou ofícios ao então governador, Alberto Goldman, ao secretário Ferreira Pinto, ao procurador-geral de Justiça, Fernando Grella, e ao então presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Antonio Carlos Vianna Santos. Até o caso chegar à tevê, porém, ninguém havia tomado providências. “Aquela ação foi absurda, não concordamos com ela. Mas, para que o inquérito de abuso de autoridade (arquivado a pedido do promotor Lee Robert Kahn da Silveira) seja reaberto, é preciso que haja um fato novo”, afirma a promotora Luciana Frugiuele, do Grupo de Ação Especial para o Controle Externo da Atividade Policial (Gecep). Além de o Gecep estar reexaminando o inquérito, a Promotoria do Patrimônio Público e Social vai apurar se os delegados devem responder por improbidade administrativa.

As imagens da operação que durou 48 minutos, obtidas na íntegra por ISTOÉ, deixam claro que os chamados “fatos novos” não passam de filigranas jurídicas que podem favorecer os criminosos. Elas mostram que Carvalho Filho e o delegado titular de Parelheiros, Renato Luiz Engler, quase se agrediram fisicamente porque o delegado-corregedor insistia em acompanhar pessoalmente a revista íntima da ex-escrivã. Uma policial militar e uma guarda civil metropolitana foram chamadas, mas Carvalho Filho se recusou a deixá-las sozinhas na sala com a moça, alegando que era o responsável pela operação. “Ele veio pra cima de mim, dizendo ‘você tá me chamando de moleque?’”, contou Engler. “Tenho 30 anos de polícia, ele é iniciante. Chegou lá e falava comigo como se eu fosse um faxineiro, tal a arrogância e petulância dele.” Quando Engler saiu da sala, os agentes da Corregedoria trancaram a porta e partiram para cima da escrivã. A moça berrava desesperada pedindo ajuda, mas foi jogada no chão e o próprio Carvalho Filho, com a ajuda da guarda civil, puxou violentamente as calças e a calcinha dela. Depois, ficou mostrando o dinheiro para a câmera e gritando: “Você está presa em flagrante.”

“No vídeo, o delegado (Carvalho Filho) parece ser passional demais”, avalia Vanessa Fonseca, psicóloga do Instituto Promundo, ONG que defende a igualdade de gêneros. “Ele demonstra insegurança sobre o que fazer e, com o passar do tempo, perde a paciência.” Ainda que desconfiasse da policial militar e da guarda civil, em vez de deixar a escrivã nua, Carvalho Filho poderia ter levado a moça para ser revistada na Corregedoria, já que, naquela época, não havia mulheres lotadas na Divisão de Operações Policiais para acompanhá-lo até Parelheiros. “Ela poderia ser revistada pela faxineira do DP, mas nunca por homens e daquela maneira”, afirma George Melão, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo. “Conheci o Eduardo (Carvalho Filho) e tive uma ótima impressão. Ele me pareceu um homem inteligente, profundo conhecedor do meio jurídico. Sabia muito de legislação, de direitos e deveres.”

No dia 15 de junho de 2009, no entanto, Carvalho Filho passou por cima do que aprendera na faculdade de direito e cometeu um desatino que pode lhe custar a carreira. “Vou provocar o procurador-geral da República para que a apuração desse crime seja federalizada porque se trata de uma violação de direitos humanos. Só faltou colocarem o saco plástico na cabeça da minha cliente”, diz Silveira, advogado da ex-escrivã. “Mas não foi só o delegado Eduardo que errou. Os outros agentes que estavam na sala pecaram, no mínimo, por omissão.” Esse episódio mancha a reputação de um órgão que deveria servir de exemplo para toda a corporação. “O delegado queria humilhá-la, feriu a dignidade dela como mulher e ninguém que estava na sala teve a decência de acudi-la”, afirma a procuradora Luiza Nagib Eluf. “Se aconteceu isso com essa moça, dentro de uma delegacia, devemos pensar: quem será a próxima vítima?”

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Operação Pelada: como a Corregedoria preparou o flagrante contra a escrivã e mentiu para incriminá-la

Os vícios do rumoroso caso da escrivã despida à força numa delegacia da Zona Sul de São Paulo começaram assim que o Ministério Público encaminhou o motoboyAlex Alves de Souza, de 27 anos, à Corregedoria da Polícia Civil, no dia 9 de junho de 2.008.  Como o Blog do Pannunzio revelou nesta sexta-feira, ao prestar declarações sobre a suposta tentativa de suborno, Alex passou recebeu instruções detalhadas dos delegados sobre o que deveria fazer para comprovar a acusação (leia post sobre o assunto aqui).

Cinco dias se passaram até que a prisão em flagrante de V.F.S.L,. fosse consumada. Nesse período, o motoboy tentou contato, em duas oportunidades diferentes, com a escrivã por telefone. A degravação dos diálogos, juntada ao inquérito policial, deixa claro que é o denunciante quem insinua a existência de um acerto prévio. Para materializar o crime de conussão, V. teria que ter exigido dinheiro, situação que não se verifica em nenhum dos registros.

Os dois telefonemas foram feitos por Alex. Os documentos anexados ao inquérito não indicam com precisão a data em que o primeiro deles aconteceu. É provável que a ligação tenha ocorrido no dia 11 de junho, um dia depois de Alex foi ouvido pela primeira vez pela Corregedoria. É certo que a iniciativa de falar implicitamente sobre algo previamente combinado, que não podia ser  discutido por telefone, foi do denunciante, e não da escrivã.

- “Então, Vanessa, é consegui só… uma parte”, diz o motoboy.

- “Isso aí não se fala, entendeu ? Telefone é embaçado”, responde a policial.

Apesar da cautela recomendada por V. na abordagem, é literalmente impossível saber exatamente a que ambos estavam se referindo. O certo é que o diálogo (veja fac-símile à esquerda), a exemplo do que foi anteriormente revelado pelo Blog, nem de longe denota a condição exigida para a tipificação do crime de concussão: exigir, em razão do cargo que ocupa, vantagem indevida, como prescrito pelo Artigo 316 do Código Penal.

O segundo telefonema foi disparado por Alex no dia 15, data em que V. foi presa em flagrante. A conversa foi registrada num gravador microcassete da Corregedoria e estava sendo monitorada — e provavelmente instruída — pela equipe de delegados. É clara a intenção de incriminar V. Mas, ao final, a expectativa nã ose materializou.

Na degravação, é possível depreender que Alex e a escrivã tratam da intimação do pai do denunciante. A iniciativa de insinuar um suposto acordo financeiro, mais uma vez, é do motoboy. E não encontra eco na resposta da escrivã.

- “Deixa eu te falar. Eu arrumei só uma parte daquele negócio”, diz Alex.

- “Então dá uma passadinha aqui que a gente conversa, tá bom?”, responde a policial.

“É uma conversar suspeita”, diz um advogado criminalista consultado pelo Blog do Pannunzio, mas insuficiente para caracterizar concussão ou corrupção. “Eles podiam estar falando sobre rojões, confeitos ou qualquer outra coisa. E ninguém pode ser condenado com base em suposições”, arremata a fonte.

A afirmação inverídica de que a exigência de suborno foi gravada consta de várias peças do inquérito. O Blog teve acesso a todo o processo, que tem 269 páginas, distribuídas em dois volumes, e não encontrou nenhum documento, trancrição ou lado pericial que comprove isso.

No relatório do inquérito encaminhado à Justiça quando a investigação foi concluída, a delegada Patrícia Vaiano Mauad afirma que “a fita da gravação da ligação [ em que teria havido o pedido de R$ 1 mil] efetuada na data dos fatos foi devidamente apreendida em auto próprio e encaminhada à perícia pra degravação”. Não há registro dessa perícia nos autos — e o que há nas degravações não confirma aquilo que é descrito no relatório.

Conforme se pode ver no trecho destacado no fac-símile ao lado, a mesma delegada afirma que a conversa onde houve a exigência de propina foi “gravada em seu telefone celular [do denunciante]“. Mais adiante, na mesma página, lê-se que no dia 15 de junho houve “um novo contato telefônico entre entre Alex e a escrivã Vanessa, o qual foi gravado pelos Delegados da Corregedoria, onde foi marcado um encontro pessoal no cartório do VigésimoQuinto DP (…) para a entrega de parte da quantia exigida, estipulada pela vítima e policiais civis da Corregedoria em R$ 200,00″. Tampouco há, na perícia das gravações, qualquer menção à entrega de propina.

Embora os delegados-corregedores afirmem o tempo todo que o momento da entrega do suborno foi gravado, não há registro dessa gravação no inquérito. A rigor, ninguém sabe o que se passou enquanto enquanto Alex e V. estavam a sós no cartório da Delegacia. Se esse momento foi efetivamente gravado, tal gravação foi suprimida dos autos por iniciativa da própria Corregedoria.

Causa estranheza também que o video gravado pelos delegados-corregedores, em que se pode ver a humilhação imposta à escrivã, não tenha sido juntado ao inquérito, apesar das diversas requisições feitas pelos advogados de V. nas instâncias criminal e administrativa. A peça só passou a ser considerada depois que  o Blog do Pannunzio e a Rede Bandeirantes divulgaram o material, no último dia 18.

Folha critica Operação Pelada em editorial

Em junho de 2009, policiais da corregedoria arrancaram à força as vestes de uma escrivã acusada de receber propina em uma delegacia na zona sul de São Paulo. Uma investigação para apurar se houve excessos foi arquivada. A delegada Marina Inês Trefiglio Valente, por ironia a primeira mulher na história a ocupar o cargo de corregedora-geral, defendeu a ação dos subordinados.

Apenas depois do vazamento de um vídeo, na semana passada, que registra a ação, o caso tomou novo rumo. Os policiais envolvidos acabaram afastados, e o inquérito foi reaberto. A delegada, nomeada em março de 2009, foi retirada do cargo.

Assistir à gravação, feita pelos próprios policiais, é testemunhar um abuso. Contra a violência que se anuncia, ouvem-se apelos da escrivã, suspeita de esconder propina sob a roupa para escapar do flagrante. “Você está dificultando nosso trabalho”, diz um agente.

Havia duas policiais femininas na sala, e a escrivã dizia concordar em ser revistada por elas. Exigia apenas que os homens saíssem. Em vão. Depois de arrancados os trajes à força, um deles mostra quatro notas de R$ 50 à câmera. “Está presa em flagrante”, diz. Expulsa em 2010, a funcionária agora recorre da decisão.

Não se trata de discutir se a suspeita era culpada, mas o modo como o caso foi conduzido. É óbvio, mas cumpre ressaltar, que ilegalidades não podem servir de caminho para expor outros ilícitos.

O combate à corrupção policial é uma das principais bandeiras do atual secretário da Segurança Pública de São Paulo, Antonio Ferreira Pinto. Em sua gestão, cerca de um quarto dos pouco mais de 3.000 delegados do Estado tornaram-se alvo de investigações da Corregedoria da Polícia Civil.

Um dos maiores problemas enfrentados pelo órgão é justamente o corporativismo, um tipo de comportamento que não deveria contaminar autoridades graduadas. O vídeo tinha chegado à secretaria em novembro, mas a reação só veio após seu vazamento.

via Folha de S.Paulo – Editoriais: Abuso policial – 26/02/2011.

Coação, humilhação, perseguição. Saiba como a escrivã V. se tornou a estrela das cenas de nudez da Corregedoria

“Isso é a cena de um estupro. Faltou apenas a conjunção carnal”. Foi assim, com um ar de incredulidade, que um promotor de justiça reagiu ao ver as imagens da violência perpretada por dois delegados de polícia contra uma escrivã neste Blog. O video, que acabara de ser veiculado, selaria os destino de duas mulheres. A escrivã V.F.S.L., humilhada, arrasada, seria expulsa da polícia como uma ladra, no curso de uma investigação eivada de falhas processuais; e  a chefe de seus algozes, a corregedora Maria Inês Trefiglio Valente, que perderia um dos postos mais importantes da Polícia Civil por ocultar e apoiar a truculência de seus agentes.

A história que levou a isso tudo começa no dia 1 de novembro de 2008, às 15 horas, quando o Centro de Operações da Polícia Militar recebeu um chamado para atender a uma ocorrência trivial na Rua Henrique Albertus, 1, em Parelheiros, na Zona Sul da cidade de São Paulo.

Ao chegar ao local, os policiais encontraram o assistente judiciário José Geraldo de Souza, 53 anos de idade, com marcas visíveis de espancamento pelo corpo. A surra fora aplicada pelo filho dele após uma discussão. Descontrolado,  o motoboy Alex Alves de Souza, de 27 anos,  não se contentou em arrancar sangue do pai. Fez-lhe, também, uma ameaça de morte. Com uma caixa de munição nas mãos, gritou “isso é pra você”.

Alex não estava mais em casa quando os PMs chegaram. Com autorização do pai agredido, fizeram uma busca e encontraram a caixa de munição dentro em uma armário da área de serviço. Eram 27 cápsulas de cartuchos calibre .30 marca CBC. José Geraldo não quis representar contra o filho pelas agressões sofridas. Mas motoboy passou a ser investigado pela posse ilegal da munição.

No dia 5 de junho de 2009, pela primeira vez, Alex e V.F.S.L. se encontraram no cartório do Vigésimo-quinto Distrito Policial. Ela na condição de escrivã, ele, na de depoente. Alex, como todo frequentador habitual de delegacias de polícia, inventou uma história qualquer para justificar a posse da munição. Ela já havia sido preso em flagrante três anos antes pelo mesmo crime, porte ilegal de arma.

Contou ao delegado que encontrou os cartuchos no fundo do quintal de sua casa quando capinava o mato. Alguém teria perdido a caixa e ele a guardou por oito longos meses, sempre pretendendo se livrar dela. Explicou que brigou com o pai quando este agrediu sua filha. Quanto ao ferimento no rosto de José Geraldo, teria sido produzido por acidente — o pai, na versão do agressor, se desequilibrou quando ele o agarrou pelo braço e bateu a cabeça num beliche.

Quatro dias depois, o motoboy procurou o Grupo de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público para denunciar a escrivã. No dia seguinte, foi encaminhado à Corregedoria da Polícia Civil, onde prestou declarações afirmando que a policial “foi logo dizendo que o declarante ‘estava enrolado’, ‘estaca complicado’, e que poderia ajudá-lo mediante o pagamento de R$ 1 mil; que o declarante disse que não tinha a referida quantia, (…) sendo dito pela escrivã que o acordo ficaria em R$ 600, caso contrário ela acabaria com a vida do declarante”.

Começava aí a produção de uma das peças mais insólitas da crônica policial.  Alex tinha uma mãos uma gravação feita com seu telefone celular que supostamente registraria o momento em que V. lhe exigiria o dinheiro. Eramentira — pelo menos em relação à afirmação de que havia, na gravação, o registro de uma exigência de propina feita pela escrivã.Ao contrário do que afirmou aos delegados, não havia seuqer uma insinuação, uma menção a dinheiro.

O diálogo gravado, cuja transcrição pode ser lida na íntegra aqui, refere-se apenas a questões de praxe na tomada de um depoimento. Todas as respostas foram formalmente assentadas.

Preparação do flagrante: "declarante deve seguir todas as orientação" para pegar a escrivã

Apesar de estarem cientes disso, os delegados incumbidos de apurar a denúncia trazida por Alex decidiram iniciar uma investigação tortuosa. No mesmo dia em que tomaram seu depoimento, passaram a ele instruções precisas de como  deveria agir dali em diante para produzir, armar o flagrante. E o mais impressionante é que tudo isso ficou registrado no termo de declarações resultante do primeiro depoimento do motoboy à Corregedoria.

O documento, que o Blog do Pannunzio revela em primeira mão (veja fac-símile à esquerda), detalha as instruções para a montagem do flagrante:

“Que nesta oportunidade, o declarante esta sendo orientado de que devera seguir totalmente as
orientações que ora lhe estão sendo passadas, no sentido de que devera comparecer ao 25.0 Distrito Policial no período da tarde, sob vigilância de Policiais Corregedores, ocasião na qual ira adentrar no cartório da referida Escrivã, conforme combinado pela própria, anteriormente, sendo que irá cumprir com a exigência imposta pela Escrivã, realizando efetivamente a entrega de R$200,00 (Duzentos reais), sendo esta a quantia
levantada pelo declarante; Que, após, efetivamente entregar a aludida quantia, o declarante iFáefetuar uma ligação telefônica, do seu próprio telefone (O 11-6780-9726), ao telefone (O 11-7817 -7296), sinalizando ao policiais para que possam adentrar as dependências da aludida Unidade Policial, para efetuar a prisão em flagrante da Escrivã “Vanessa”, Que o pagamento será efetuado com quatro notas de–R$50,OO (Cinqüenta- reais), as – quais foram previamente apresentadas pelo declarante nesta Divisão e xerocopiadas, e instruem o presente  procedimento”.

Qualquer estudante  de direito sabe que induzir ao cometimento do crime produz provas viciadas. Para os delegados da Corregedoria, no entanto, bastaram as declarações de um homem com passado criminal, munido de uma gravação que não dizia nada, para dar início a um procedimento completamente irregular. E que tinha por objetivo incriminar, por meios espúrios, uma servidora contra quem não havia nada além da palavra do denunciante.

A falta de provas responde a pergunta que ninguém fez à ex-corregedora-geral Maria Inês Trefiglio quando ela afirmou que o procedimento vexatório de seus agentes era “necessário”. Na verdade, eles não tinham a prova da concussão, e sem o vale-tudo circense armado nas dependências de Parelheiros não seria possível execrar a funcionária. Inadmissível num ambiente acostumado à coação e aos julgamentos sumários, acostumado ao arbítrio e imbuído de uma caça às bruxas que, em nome de “limpar a polícia”,  justificava todo tipo de abuso e desrespeito.

Outra lição que todo candidato ao bacharelado em direito sabe: a concussão é um crime formal, que se consuma no momento em que o servidor público exige dinheiro. Todo o restante da cena montada é inútil do ponto-de-vista da instrução do inquérito. Ou seja: não é necessário comprovar que houve o pagamento, como no crime de corrupção. A isso se chama exaurimento — não agrava a pena, não altera o tipo penal, é simplesmente inócuo.

A partir daí, Alex passa a agir como um títere dos delegados. Nas conversas seguintes, ele tenta, sem sucesso, insinuar-se para a escrivã, que rechaça as investidas. Mas isso será assunto da próxima reportagem, amanhã, aqui no Blog.

Operação Pelada: flagrante contra escrivã foi preparado. Não há provas de concussão no inquérito

Ao contrário do que afirmou a ex-corregedora-geral da Polícia Civil de São Paulo, Maria Inês Trefiglio Valente, não há nenhuma prova de prática de crime de concussão no inquérito criminal aberto para investigar a escrivã V.S.L.F. Ela foi vítima de humilhação e abuso de autoridade por parte de uma equipe da Corregedoria que investigava a denúncia de um homem que se dizia achacado pela policial.

No inquérito há o registro de três diálogos entre a escrivã e o denunciante — dois deles feitos por instrução e com o acompanhamento dos delegados que despiram à força e humilharam a escrivã. Em nenhum deles V. exige dinheiro de seu interlocutor, o que seria necessário para a materialização do crime a ela imputado.

Dois criminalistas consultados pelo Blog disseram que há evidências sobejas de que o flagrante foi preparado, o que fatalmente irá desqualificar as provas no curso da ação penal. O procedimento desastrado, batizado pelo Blog de “Operação Pelada”, foi denunciado em primeira mão pelo Blog do Pannunzio e pela Rede Bandeirantes. O video que registra as sevícias, feito pelos próprios agentes da Corregedoria, pode ser visto aqui. A repercussão do caso levou à demissão de Trefiglio da Corregedoria.

O caso vinha sendo acobertado há um ano e meio pela corregedoria. A ex-corregedora afirmou que a brutalidade dos policiais “foi necessária”, mas não explicou o por quê. O Blog obteve acesso à íntegra do processo, sobre o qual não foi decretado segredo de justiça. A ação tramita na Vigésima-Sétima Vara Criminal do Forum da Barra Funda. A leitura do material deixa claro que a escrivã jamais exigiu dinheiro do denunciante, contrariando frontalmente as afirmações da Corregedoria.

Dentro de instantes, o Blog do Pannunzio vai publicar uma compilação da degravação dos diálogos mantidos pelo denunciante com a escrivã.

Corregedora cai após crise na Polícia Civil

André Camarante – Após a crise causada na Polícia Civil de São Paulo pela divulgação de vídeo em que uma escrivã é despida à força por integrantes da Corregedoria, o secretário de Estado da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, exonerou ontem a delegada Marina Inês Trefiglio Valente do posto de corregedora-geral.

Maria Inês havia sido nomeada para o cargo pelo próprio Ferreira Pinto, em março de 2009. Foi a primeira mulher na história da Polícia Civil paulista a chefiar o órgão.

O delegado Délio Marcos Montrezoro, que cuidava de processos administrativos na Corregedoria, comandará provisoriamente o órgão.

Maria Inês ficará na Delegacia Geral Adjunta à espera de uma nova função. “Saio de cabeça erguida, com a certeza de que fiz um trabalho justo. Será melhor para mim e minha família”, afirmou.

Em junho de 2009, a escrivã foi alvo de ação da Corregedoria-Geral no 25º DP (Parelheiros) sob suspeita de cobrar R$ 200 para favorecer suspeito de portar munição.

O vídeo em que delegados subordinados a Maria Inês aparecem tirando à força a calça e a calcinha da escrivã foi divulgado há uma semana -desde então, a delegada sempre defendeu a equipe.

A escrivã foi expulsa da polícia e tenta reverter a decisão. A Justiça ainda vai julgar a acusação de concussão.

CRISE

O caso abriu uma crise na polícia. Na segunda-feira, após classificar o episódio como “grave”, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e Ferreira Pinto afastaram três dos quatro delegados envolvidos diretamente na revista.

Na quarta-feira, durante a reunião semanal do Conselho da Polícia Civil, Maria Inês foi pressionada a deixar o cargo por 5 dos 23 delegados da cúpula da instituição.

A Folha apurou que a insatisfação atingiu o próprio Ferreira Pinto, responsável por colocar a Corregedoria sob o comando direto da secretaria, em agosto de 2009.

“Desde a vinda da Corregedoria para o gabinete, houve um salto de qualidade. Vamos seguir na mesma linha. A Corregedoria tem aprimorado os trabalhos e, ao contrário do que foi dito, sempre atuou com imparcialidade.”

Ele negou qualquer tipo de pressão política para a saída de Maria Inês. “Ela saiu por causa da gravidade dos fatos que envolveram a operação contra a escrivã. Nada mais.”

Apesar da crise aberta na Polícia Civil, ele também rejeitou estar pressionado. “Eu não sofro nenhum tipo de pressão aqui e não tenho porque sair também”, afirmou.

via Folha de S.Paulo – Corregedora cai após crise na Polícia Civil – 25/02/2011.

Sevícias contra escrivã foram constatadas em perícia. Prova não foi usada em inquérito que inocentou delegados

As sevícias decorrentes da violência empregada na humilhante “revista íntima”  feita na escrivã V.F.S.L. por dois delegados da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo foram constatadas pelo Insituto Médico Legal. O exame de corpo de delito foi realizado em 16 de junho de 2009,  dia seguinte à sua prisão em flagrante.

O laudo, assinado pelo médico-legista Marcus A. P. Telles, atesta que ela sofreu “lesões de natureza leve”. Foram encontradas equimoses no tornozelo direito e no punho esquerdo. O legista também anotou que V. “não quis retirar a calça para exame das pernas pois estava muito abalada emocionalmente”. A Corregedoria havia afirmado que os métodos empregados na lavratura do flagrante foram “adequados”. As imagens da humilhação imposta à servidora foram divulgadas em primeira mão pelo Blog do Pannunzio e pela Rede Bandeirantes (veja aqui na íntegra).

Apesar da constatação, o promotor Lee Robert Kahn da Silveira, que esteve a cargo do inquérito policial instaurado para apurar os excessos dos delegados-corregedores, desprezou a prova em seu parecer, que resultou no arquivamento do inquérito. Não há uma menção sequer anotada no texto a qualquer tipo de marca ou ferimento. Os advogados de V. não sabem se a peça foi juntada ao inquérito.

Caso não tenha sido juntado, o laudo pericial pode provocar a reabertura do caso, como desejam os pormotores do GECEP (Grupo Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial) do Ministério Público paulista. De acordo com o Artigo 18 do Código de Procesos Penal, só é possível reabrir um processo arquivado por determinação judicial quando surgem novas provas, que não foram consideradas no curso da primeirai investigação.

Veja abaixo o fac-símile da perícia.

 

 

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