Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

Archive for the tag “Paraguai”

Chanceler paraguaio diz que entrada da Venezuela no Mercosul é ‘inaceitável’

Roberto Simon

“Inaceitável” foi a palavra que o chanceler paraguaio, José Félix Estigarribia, escolheu em entrevista exclusiva ao Estado para qualificar a entrada da Venezuela ontem no Mercosul, à revelia do Paraguai. Estigarribia afirma que seu ministério está tentando lutar contra setores importantes da sociedade paraguaia que querem bater a porta e sair do Mercosul.

Ao fim da entrevista, o diplomata de carreira desabafou. Disse que essa é a missão mais difícil à frente da chancelaria paraguaia desde os tempos de José Bérges, ministro durante a Guerra do Paraguai (1864-1870) – que acabou executado.

Leia a íntegra da entrevista em Chanceler paraguaio diz que entrada da Venezuela no Mercosul é ‘inaceitável’ – internacional – versaoimpressa – Estadão.

Paraguai exibe “provas” de ação de Chávez

O novo governo paraguaio apresentou ontem vídeos que, segundo ele, comprovam que o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, se reuniu com o alto comando militar do Paraguai antes da deposição de Fernando Lugo da Presidência.

Além do ministro do governo Hugo Chávez, o embaixador equatoriano Julio Prado estaria no encontro.

“Tenho certeza de que serão entregues [cópias das gravações] aos órgãos responsáveis”, afirmou a ministra da Defesa do Paraguai, María Liz García, durante entrevista.

Ela e o presidente Federico Franco acusaram na semana passada os governos da Venezuela e do Equador de tentar promover levante dos militares paraguaios para que Lugo permanecesse no poder.

As imagens divulgadas ontem mostram que os comandantes das Forças Armadas paraguaias e o chanceler venezuelano estavam presentes no palácio do governo, em Assunção, no dia 22 de junho, momentos antes de o Congresso aprovar o impeachment, em processo que durou pouco mais de 30 horas.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Mundo – Paraguai exibe “provas” de ação de Chávez – 04/07/2012.

A ilegalidade da incorporação da Venezuela

Celso Lafer

A exigência da aprovação do Paraguai à incorporação da Venezuela no Mercosul me parece indiscutível à luz dos termos do Tratado de Assunção e de seu objeto e finalidade.

A decisão de incorporar a Venezuela, como foi feita, não atende a obrigações relacionadas à observância de tratados previstas na Convenção de Viena. Carece de boa-fé, seja na acepção subjetiva de uma disposição do espírito de lealdade e honestidade, seja na acepção objetiva de conduta norteada para esta disposição.

Trata-se, em síntese, de uma ilegalidade. Contrapõe-se ao que ensinava Rio Branco: “O nosso Brasil do futuro há de continuar invariavelmente a confiar acima de tudo na força do Direito e no bom senso”.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – A ilegalidade da incorporação da Venezuela – 04/07/2012.

Venezuela entrou graças a Brasil, diz Uruguai

O ministro das Relações Exteriores do Uruguai, Luis Almagro, afirmou que seu país era contrário ao ingresso da Venezuela no Mercosul e que ele só foi aprovado pela intervenção da presidente brasileira, Dilma Rousseff.

Segundo a imprensa uruguaia, não só Almagro como o chanceler brasileiro, Antonio Patriota, se opuseram na reunião da semana passada em Mendoza (Argentina) à entrada da Venezuela. O argentino Héctor Timerman teria defendido a proposta.

O ingresso da Venezuela no bloco foi possível por causa da suspensão do Paraguai -que decretou o impeachment de Fernando Lugo na semana retrasada.

“Isso [entrada da Venezuela] foi resolvido em uma reunião fechada dos presidentes [Dilma, Cristina Kirchner e José Mujica]. Dilma disse que precisava falar politicamente com os outros dois, e os chanceleres saíram da sala. Dessa reunião saiu a decisão”, disse o ministro.

“A iniciativa foi mais brasileira, a posição do Brasil foi decisiva nessa história”, afirmou Almagro, que disse não saber o que foi negociado.

Patriota disse, via assessoria, que o governo brasileiro foi favorável à entrada da Venezuela durante todo o debate em Mendoza.

Ele ressaltou que o Brasil apenas acatou uma ponderação do Uruguai, expressa na reunião de chanceleres: a de que a decisão do ingresso precisava de um respaldo jurídico sólido, como forma de evitar questionamentos futuros.

Por isso a decisão de Dilma de convocar o advogado-geral da União, Luis Inácio Adams, para a cúpula.

Segundo Patriota, as posições defendidas por chanceleres (na véspera da cúpula) e pelos presidentes(na última sexta) foram consensuais, sem votação. De acordo com ele, nenhum dos países, nem o Uruguai, apresentou questionamentos à entrada do novo sócio permanente.

O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse que não houve pressão do governo. “Isso não corresponde ao estilo da política externa brasileira e menos ainda da presidente Dilma.”

O Planalto avaliza a versão de Patriota e diz que as declarações do chanceler uruguaio miravam o “público interno” -ou seja, o Congresso e os setores empresariais do país que não veem a Venezuela de Chávez com bons olhos.

O chanceler uruguaio havia manifestado publicamente antes do encontro ser contra o ingresso da Venezuela enquanto o Paraguai estiver suspenso do bloco -até a eleição presidencial em 2013.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Mundo – Venezuela entrou graças a Brasil, diz Uruguai – 03/07/2012.

Carta do EPP faz ameaça a fazendeiros e promete “pena de morte” para trabalhadores

 

Carta do EPP. Foto: La Nación

A carta (ou panfleto) manuscrita encontrada pela polícia paraguaia em que o EPP reivindica o assassinato de um trabalhador rural brasileiro contém várias ameaças e uma promessa de vingança contra as mortes de 11 camponeses em Curuguaty. O autor do documento assinala que o assassinato do camponês Osni Olveira ocorreu porque “em diversas ocasiões advertimos  que tratoristas surpreendidos derrubando matas serão condenados à pena máxima (de morte) pelos crimes que cometem”

No documento, o EPP promete “vingar a morte dos valentes camponeses que em uma demonstração de valor e heroísmo enfrentaram de forma desigual a força repressiva”.

Governo paraguaio culpa EPP por ataque com morte a fazenda de brasileiros

Tratores queimados na invasão. Foto: ABC Color

Um panfleto encontrado na Fazenda Terrado, situada no Departamento de Concepción, no Paraguai, levou o governo daquele país a afirmar que o ataque à fazenda foi promovido pelo Exército do Povo Paraguaio (EPP), organização criminosa implicada em uma série de crimes de sequestro e homicídios.

A propriedade rural pertence ao brasileiro Pedro Pinto. Um funcionário dele, o também brasileiro Osni Oliveira, foi assassinado pelos invasores. Três tratores foram incendiados e ficaram completamente inutilizados.

O ataque aconteceu na quarta-feira da semana passada. De acordo com um correspondente do jornal ABC Collor enviado à região, no panfleto o EPP se auto-atribui o atentado e protesta contra as mortes de 11 camponeses na batalha de Curuguaty, episódio que detonou o processo de impeachment de Lugo na semana passada.

Brazilians, go home!

21 de Setembro de 2009. Eu e uma porção de jornalistas brasileiros estávamos em Nova Iorque para cobrir a Assembléia Geral da ONU, que seria aberta no dia seguinte. No fim da tarde, um diplomata que coordenava a cobertura da imprensa brasileira pelo Itamaraty nos convocou para uma entrevista coletiva que o então chanceler Celso Amorim concederia em poucos minutos. “É uma informação importante”, avisou o assessor.

Antes de chegar à sala de imprensa montada na suíte de um hotel, pensávamos que a convocação se referia a algo envolvendo a polêmica posição do presidente Lula, que naquele momento se empenhava em defender o direito do Irã ao uso da energia nuclear. Lula havia se transformado numa espécie de embaixador informal de Ahmadinejad, posição que manteve até o último de seus dias no governo, e que terminou por ensejar um dos maiores micos que o Brasil já havia protagonizado ao longo de sua nobre história diplomática: a tentativa de acabar com a crise no Oriente Médio com uma conversa de pé-de-ouvido, um sanduíche de mortadela e uma caipirinha.

Ao chegar ao hotel, Celso Amorim comunicou que Manuel Zelaya, deposto dias antes da presidência de Honduras, acabara de entrar na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Havia sido acolhido de bom grado e permaneceria por ali o tempo que quisesse. Zelaya fora apeado do Poder porque tentou mudar a constituição para conseguir um novo mandato, uma manobra nos moldes do que Hugo Chavez já havia feito duas outras vezes na Venezuela.

Ocorre que a própria constituição hondurenha criminaliza esse tipo de iniciativa  para respaldar o pressuposto mais elementar de qualquer democracia: a definição do tempo do mandato. Além disso, Zelaya respondia a 18 processos em que era acusado de corrupção.

Encerrado o evento da ONU, a maior parte dos jornalistas que estavam em Nova Iorque tomou o rumo de Tegucigalpa. Cheguei lá três dias depois  do intróito do presidente deposto na embaixada brasileira. A capital estava convulsionada pela volta do degredado, que havia trocado a prisão por um exílio na vizinha Costa Rica e voltara pelas mãos de Chavez, numa operação coordenada pelo próprio Celso Amorim e pelo assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia. Tudo feito com consulta prévia e a bênção do governo Lula.

Nas ruas da capital, um grupo pequeno, de cerca de duas mil pessoas, promovia atos públicos que invariavelmente terminavam com bombas de efeito moral e tiros de bala de borracha disparados pelas tropas federais. Com o passar dos dias, os manifestantes pró-Zelaya foram minguando. Restaram cerca de 200 ao cabo de duas semanas — a maior parte composta por pelegos do sindicalismo local que, lá como aqui, o governo tratava de engordar com cargos, dinheiro e favores oficiais.

No dia 14 de outubro, Honduras parou, ficou em silêncio por duas horas e depois explodiu numa festa genuína. Milhares de pessoas foram para as ruas com suas camisetas azuis e brancas para cantar o hino nacional e reacender a chama do patriotismo num momento de catarse nacionalista. A festa foi provocada pela classificação da seleção de Honduras para o Copa do Mundo de Futebol do ano seguinte. Contrariando todas as previsões, o time havia conseguido derrotar El Salvador — e ainda contou com a ajuda da seleção da Costa Rica, que não conseguiu vencer os Estados Unidos e perdeu a vaga.

Estávamos hospedados num dos melhores hotéis de Honduras. Um telão foi montado num saguão para que os torcedores endinheirados de Tegucigalpa pudessem acompanhar a partida entre uma dose e outra de uísque. Nós, jornalistas estrangeiros, torcíamos desabridamente por Honduras. Quando a Costa Rica empatou com os EUA, aos 50 minutos do segundo tempo, pulamos e nos abraçamos, fizemos um brinde e comemoramos a classificação daquele pequeno país, que jamais havia disputado um mundial de futebol. “Somos mundialistas, somos mundialistas”, gritavam os hondurenhos com a autoestima lustrada.

Mas logo percebemos que nossa torcida provocava constrangimento aos torcedores locais. Nas mesas vizinhas, nossa alegria gerava olhares de reprovação. Inibia mesmo os torcedores locais. Até que um deles se levantou, caminhou até a nossa mesa e perguntou de onde éramos.

“A maior parte de nós é brasileira” respondi. “Então, por favor, respeitem o nosso momento e deixem que festejamos nós mesmo a nossa conquista”, disse o homem, de maneira rude e assertiva.

Logo o saguão estava vazio. Os hondurenhos se levantaram e saíram em silêncio levando suas bandeiras enroladas. O telão foi desligado. As luzes, apagadas. Contrastando com a festa que explodia nas ruas, o bar do hotel  se transformou numa caverna erma e soturna. Culpa nossa, exclusivamente nossa, que estávamos ali de penetras numa celebração para a qual não fôramos convidados.

Nos dias que se seguiram, as manifestações de hostilidade viraram rotina. O que mais ouvíamos na capital, sempre que abordávamos populares, eram pedidos agressivos para que deixássemos o país e voltássemos ao Brasil. E não foram poucas as vezes em que isso aconteceu. A hostilidade à nossa presença ia aumentando na mesma medida em que as declarações da diplomacia brasileira subiam de tom.

Havia boatos, muitos boatos dispersos no ar. Falava-se que o Brasil estaria enviando tropas para defender a soberania de sua embaixada, que aviões brasileiros foram vistos sobrevoando bases militares próximas à capital do país. O presidente Lula só se referia ao presidente recém-empossado pelo Congresso como “golpista”. Nem sei se chegou a mencionar alguma vez o nome de Roberto Micheletti. Era apenas “o golpista”. Aquilo foi irritando os brios da população de Honduras.

O Brasil não mandou aviões nem soldados, mas transformou a diplomacia num claro instrumento de intervenção na soberania hondurenha. Moveu batalhas enormes para tentar elevar o problema da pequena república centro-americana ao status de grande evento multilateral. Fracassou em todas as tentativas. A primeira delas representou o fracasso mais retumbante: a proposta de reunir o Conselho de Segurança da ONU para discutir uma intervenção mais drástica. A ONU deu uma banana a Celso Amorim.

Depois, no âmbito da OEA, houve resistências até à ida de uma comissão negociadora para mediar a discussão com os atores da crise. Mal-humorados, os representantes da OEA já sabiam que o povo de Honduras é que iria resolver seus problemas. Por isso não vingaram as propostas brasileiras de aplicar sanções comerciais e isolar diplomaticamente o país. Aos poucos, assim que conseguiram entender o que se passava, governos de todo o mundo — os Estados Unidos à frente — foram colocando água fria sobre a fogueira da crise . Só o Brasil insistiu no erro da posição intervencionista.

Mas o tempo seguiu seu curso saneador. E Zelaya, que não desistia do bunker armado na embaixada do Brasil, acabou se transformando num enorme problema. Quatro meses se passaram até que viesse  uma ordem de despejo para aquele inquilino incômodo e seu pequeno séquito. Em dezembro, o Itamaraty deu o ultimato, solicitando a Zelaya que desocupasse a sede diplomática. Foi cumprido no último dia, encerrando de maneira desastrosa a articulação intervencionista de Lula e Chavez para levar de volta ao coração de Tegucigalpa o homem que havia sido banido por abuso de suas prerrogativas constitucionais.

Enquanto Lula, Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim inventavam uma maneira de se livrar do imbroglio, o “golpista” Michelletti tratava de colocar a casa em ordem. Convocou eleições — às quais o partido de Zelaya concorreu — e restabeleceu a ordem pública. A democracia hondurenha deu uma prova inequívoca de maturidade. A institucionalidade seguiu incólume, em benefício da vontade legítima e soberana do povo daquele País.

Para nós, que de certa forma encarnávamos a presença indigesta do governo brasileiro diante da população humilhada e ultrajada de Honduras, restou a experiência amarga de vestir o estereótipo deletério do imperialismo caboclo. Sim, o Brasil, a potência emergente do Cone Sul, aposentava a isenção quase suíça da tradição diplomática e adotava uma postura arrogante e desrespeitosa.

A ponto de os populares nos hostilizarem nas poucas manifestações pró e contra Zelaya com o mesmo bordão, repetido sempre em inglês: “brazilians, go home!”. Éramos os yankees dos hondurenhos. E éramos mesmo. Por isso, a multidão inflava o peito pedindo que deixássemos, nós, brasileiros, seu território e seu desiderato. “Tirem suas patas do nosso destino”. Era isso o que eles nos diziam o tempo todo.

Agora, algo muito parecido se repete no Paraguai. O parceiro de primeiro hora, o País que sediou a primeira reunião do Mercosul, foi escanteado por uma jogada matreira do acordo regional porque resolveu, seguindo os ditames da constituição, demitir por justa causa um presidente incompetente e fraco. Como se viu, a indignação do vizinhos briosos foi apenas um pretexto. O que importa é que a esquerda sulamericana cravou mais um tento, afastando o sócio fundador do Mercosul para impor a presença plena da Venezuela no tratado.

Pagar um golpe com outro é moral ? É lícito ? É éticamente defensável ?

Não, não é. Mas no tabuleiro da política, o que conta mesmo é ocupar espaço e vencer sempre. É essa a lógica da retórica que condena a decisão do Congresso e do judiciário paraguaios, mas a utiliza como pretexto para enfiar Hugo Chavez goela abaixo a um sócio que, supostamente, afrontou a democracia. No plano moral, na pior hipótese, o golpe perpetrado contra Lugo só encontra paralelo no golpe perpetrado a favor de Chavez no âmbito do Mercosul.

Logo, logo vão aparecer nacionalistas nas ruas de Assunção bradando “brazilians, go home” — ou um bordão análogo em guarani ou espanhol. Pode até parecer folclórico em Tegucigalpa, mas com certeza não será sem consequências do lado de lá da fronteira, onde 350 mil brasileiros são hositilizados todos os dias como ladrões de terras paraguaias.

Apressada e determinadamente, vamos perdendo a candura conciliadora da diplomacia de Osvaldo Aranha para nos transformarmos no vizinho temido, atrevido e desrespeitoso — o País imperialista que, mais do que respeitado, é temido.

Três anos atrás, éramos os yankees de Honduras. Agora, somos os yankees do Paraguai.

Paraguai deveria fazer como o Chile e dar uma banana para o Mercosul

Está explicado o motivo que levou os democráticos presidentes dos países que integram o Mercosul a promover a suspensão do Paraguai. Como era o único membro a se opor ao ingresso pleno da Venezuela no tratado, nada mais providencial do que utilizar a deposição de Lugo para afastar o entrave representado pela objeção do Senado daquele país.

A humilhação imposta ao vizinho mais frágil poderia ser paga com a mesma moeda que o Chile utiliza para desprezar os dinossauros sulamericanos e seguir adiante: dar uma banana ao acordo regional, que nunca representou grande coisa mesmo, e partir para as prolíficas alianças com o Norte.

Sem intermediários ideológicos, sem a dependência desses vizinhos mala-sem-alça, sem o patrulhamento nem a desonestidade de quem usa um suposto atentado contra a democracia continental para abrigar parceiros que não têm nenhum zelo por ela.

O verdadeiro golpe no Paraguai

Por Sandro Vaia, no Blog do Noblat

A TV estatal do Paraguai ficou 26 minutos fora do ar por falta de energia elétrica e os alucinados constitucionalistas da Constituição alheia que cresceram como erva daninha nas redes sociais, viram isso como um sintoma de “repressão” e atentado às liberdades públicas.

Nunca se viu um golpe de Estado tão modorrento. Fora dos protestos protocolares de partidários do presidente deposto, o Paraguai continuou levando a sua vida de rotina.

O microfone da TV pública ficou aberto, o ex-presidente protestou diante de suas câmeras, o Congresso fez tudo dentro da normalidade, a Suprema Corte disse que tudo foi feito dentro da normalidade e até o advogado do deposto disse que tudo foi feito dentro da normalidade.

Mas muita gente não gosta da normalidade paraguaia e insiste em chamar de golpe uma decisão tomada por mais de 90% dos parlamentares, que se basearam rigorosamente na letra do artigo 225 da Constituição de seu país.

Dizem que foi tudo muito rápido e surpreendente. Que não houve tempo para defesa. Que o rito foi muito sumário. Mas tudo está previsto na Constituição, que dá ao Senado a atribuição de fixar o rito para o julgamento, o que foi feito através da Resolução 878.

O que resta dizer? Que a Constituição é de mau gosto e “disgusting” ao fixar um etéreo “mau desempenho” como motivo de impeachment?

Que o Legislativo paraguaio não tem polidez, educação e bons modos ao dar tão pouco prazo para a defesa do acusado?

É um pouco de cinismo e hipocrisia achar que dar mais tempo de defesa ao presidente destituído poderia salvá-lo do impeachment.

A queda dele foi resolvida por razões políticas, e nem 400 dias de prazo de defesa poderiam salvá-lo. Ele simplesmente perdeu catastroficamente o apoio político de sua base de sustentação e a votação do processo de impeachment apenas confirmou que ele perdeu as condições mínimas de governabilidade.

Se a Constituição do Paraguai tem um defeito, ele é de concepção: fixou critérios quase parlamentaristas para julgar um governo presidencialista. O presidente ganhou um voto de desconfiança – que apelidaram de “mau desempenho”- e caiu.

Como provar alguma coisa como “mau desempenho” se não através de critérios puramente políticos?

Essa é a Constituição que o Paraguai tem, não a que os palpiteiros da UNASUL acham que deveria ter.

Na Venezuela, por exemplo, casuísticas normas eleitorais permitem que 51% dos eleitores elejam 66 deputados enquanto 49% elegem 96 deputados- do partido do governo, claro. Alguém reclamou?

Enquanto a normalidade da vida democrática foi mantida no Paraguai e o próprio Lugo anunciou que pretende candidatar-se de novo nas eleições de abril de 2013, além de manifestar-se contra sanções econômicas contra seu país, a UNASUL e o Mercosul afastam o Paraguai de seu convívio, com a aquiescência bovina da diplomacia brasileira, a reboque do ativismo “bolivariano”.

É fácil concluir qual é o verdadeiro golpe no Paraguai e qual é seu objetivo: afastar o único obstáculo à entrada da Venezuela no Mercosul.

As tais “cláusulas democráticas” só valem para enquadrar os inimigos. Para os amigos, nem a lei.

Beba na fonte: O verdadeiro golpe no Paraguai, por Sandro Vaia – Ricardo Noblat: O Globo.

Mercosul suspende Paraguai, mas sem sanções

CAROLINA VILA-NOVA
ENVIADA ESPECIAL A MENDOZA
Os chanceleres dos países do Mercosul, reunidos ontem em Mendoza, concordaram em manter a suspensão do Paraguai do bloco, mas descartaram sanções econômicas contra o país. O pré-acordo deve ser referendado hoje, em encontro de chefes de Estado na cidade argentina.

O Mercosul havia suspendido o Paraguai no domingo, dias após o presidente Fernando Lugo ter sido destituído do poder em um processo sumário de impeachment.

O chanceler brasileiro, Antonio Patriota, evitou falar de prazos para a suspensão. Fontes diplomáticas citavam ontem que ela se estenderia até as eleições no Paraguai, previstas para abril de 2013.

“O Protocolo de Ushuaia, do qual são signatários Paraguai, Uruguai e Argentina, além de Chile e Bolívia, preconiza que a plena vigência democrática é uma condição essencial para o processo de integração. Foi nesse sentido que se tomou a decisão no domingo passado e que deverá ser tomada amanhã”, afirmou. “Não existe plena vigência democrática.”

Antes da conferência, o bloco parecia estar dividido entre aqueles que defendiam a aplicação de punições econômicas ao Paraguai, conforme está previsto nos acordos que constituem o organismo, e aqueles que, como o Brasil, buscavam sanções apenas de ordem diplomática e política.

Segundo Patriota, porém, nenhum chanceler defendeu punições econômicas.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Mundo – Bloco suspende Paraguai, mas sem sanções – 29/06/2012.

A leviana diplomacia do espetáculo, por Elio Gaspari

Elio Gaspari, na Folha de São Paulo

POUCAS VEZES a diplomacia brasileira meteu-se numa estudantada semelhante à truculenta intervenção nos assuntos internos do Paraguai. O presidente Fernando Lugo foi impedido por 39 votos a 4, num ato soberano do Senado.

Nenhum soldado foi à rua, nenhuma linha de noticiário foi censurada, o ex-bispo promíscuo aceitou o resultado, continua vivendo na sua casa de Assunção e foi substituído pelo vice-presidente, seu companheiro de chapa.

Nada a ver com o golpe hondurenho de 2009, durante o qual o presidente Zelaya foi embarcado para o exílio no meio da noite.

Quando começou a crise que levou ao impedimento de Lugo, a diplomacia de eventos da doutora Dilma estava ocupada com a cenografia da Rio+20.

Pode-se supor que a embaixada brasileira em Assunção houvesse alertado Brasília para a gravidade da crise, mas foi a inquietação da presidente argentina Cristina Kirchner que mobilizou o Brasil.

A doutora achou conveniente mobilizar os chanceleres da Unasul, uma entidade ectoplásmica, filha da fantasia do multilateralismo que encanta o chanceler Antonio Patriota.

As relações do Brasil com o Paraguai não podem ser regidas por critérios multilaterais. Foi no mano a mano que o presidente Fernando Henrique Cardoso impediu um golpe contra o presidente Juan Carlos Wasmosy em 1996. Fez isso sem espetacularização da crise. A decisão de excluir o Paraguai da reunião do Mercosul é prepotente e inútil. Quando se vê que o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, cortou o fornecimento de petróleo ao Paraguai e que a Argentina foi além nas suas sanções, percebe-se quem está a reboque de quem. Multilateralismo no qual cada um faz o que quer é novidade. Existe uma coisa chamada Mercosul, banem o Paraguai, mas querem incluir nele a Venezuela, que não está na região e muito menos é exemplo de democracia.

Baniu-se o Paraguai porque Lugo foi submetido a um rito sumário. O impedimento seguiu o rito constitucional. Ao novo governo paraguaio não foi dada nem sequer a palavra na reunião que decidiu o banimento.

Lugo aceitou a decisão do Congresso e agora diz que liderará uma oposição baseada na mobilização dos movimentos sociais. Direito dele, mas se o Brasil se associa a esse tipo de política, transforma suas relações diplomáticas numa espécie de Cúpula dos Povos. Vai todo mundo para o aterro do Flamengo, organiza-se um grande evento, não dá em nada, mas reconheça-se que se fez um bonito espetáculo.

O multilateralismo da diplomacia da doutora Dilma é uma perigosa parolagem. Quando ela se aborreceu, com razão, porque um burocrata da Organização dos Estados Americanos condenou as obras da hidrelétrica de Belo Monte, simplesmente retirou do foro o embaixador brasileiro. A OEA é uma irrelevância, mas para quem gosta de multilateralismo, merece respeito.

A diplomacia brasileira teve um ataque de nervos na bacia do Prata. O multilateralismo que instrui a estudantada em defesa de Lugo é típico de uma política externa biruta. O chanceler Antonio Patriota poderia ter se reunido com o então vice-presidente paraguaio Federico Franco 20 vezes, mas se a Argentina queria tomar medidas mais duras, ele não deveria ter ido para uma reunião conjunta, arriscando-se ao papel de adorno.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – A leviana diplomacia do espetáculo – 27/06/2012.

Isolamento calculado

Eline Cantanhêde

A Argentina está na presidência do Mercosul, será a anfitriã da reunião do bloco com associados na próxima sexta e aproveita a crise no Paraguai para sair em desabalada carreira em busca de protagonismo regional.

Cristina Kirchner tem sido cada vez mais chavista e menos lulista (ou seja, mais radical, menos negociadora), e adere ao eixo Venezuela-Equador-Bolívia justamente quando ele parece mais vulnerável. Confronta a imprensa, bate de frente com a Espanha, assusta os já parcos investimentos internacionais. Mas Cristina não está com essa bola toda: a economia vai mal, as greves pipocam.

O Brasil corre atrás na crise do Paraguai, tentando uma “ação pedagógica”, não uma declaração de guerra: nem deixar a deposição de Lugo passar em branco, até para não estimular golpismos por aí afora, nem asfixiar o país vizinho, já tão sofrido.

Enquanto os chavistas retiram seus embaixadores de Assunção, e Chávez já corta o fornecimento de petróleo, o Brasil chama o embaixador Eduardo Santos para consultas e adia qualquer sanção prática para a reunião de sexta. Defende soluções conjuntas, não isoladas e afoitas, como as venezuelanas.

Dilma não irá a Mendoza com ganas de jogar o novo governo Federico Franco na lona, mas disposta a aplicar, além da “ação pedagógica”, um “isolamento calculado” até as eleições de abril de 2013. Leia-se: ela quer um Paraguai isolado politicamente, mas funcionando economicamente. Não só para preservar os paraguaios, mas principalmente para garantir os interesses brasileiros no país -que não são poucos.

Também pesa na cautela brasileira o fato de as instituições paraguaias terem aprovado a deposição: o Congresso votou de forma acachapante, Lugo aceitou no primeiro momento, a Suprema Corte avalizou e a igreja abençoou. Quem, no Paraguai, está pedindo ingerência externa para manter sua democracia?

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Opinião – Isolamento calculado – 26/06/2012.

Paraguai cumpre sua tradição de depor presidentes e encerra hoje a Era Lugo

O Senado paraguaio deve depor hoje o presidente  Fernando Lugo. Apesar da drasticidade, o processo está embasado em prerrogativas constitucionais do Congresso e nem de longe se confunde com um golpe de Estado. É uma situação análoga à que apeou do poder o ex-presidente de Honduras, o corrupto Manoel Zelaya, em 2009. Na época, o Brasil interveio de maneira equivocada, cedendo o espaço de sua embaixada para que o presidente deposto pudesse fazer seu proselitismo pós-golpe e tentasse a volta “pelos braços do povo”, manobra que não prosperou.

Eleito pela esquerda, Lugo tentou governar pela direita sem fazer as reformas de que o Paraguai necessitava para consolidar sua jovem democracia. Desde o princípio, negou-se a confrontar as oligarquias corruptas que mandam no país desde os tempos do governo Stroessner. Abduzido pelo inimigo, contava com a adesão do Partido Colorado, seu oposto no campo ideológico, ao qual permitiu manter intactos e ainda fortalecer os esquemas de poder que terminarão por atalhar seu mandato.

Lugo encampou causas de seus adversário históricos porque não conseguiu fazer o que se comprometeu: mudar o Poder Judiciário, as polícias e o Ministério Público. Sem isso, ficou refém da nata da corrupção que move o País desde os tempos imemoriais da ditadura militar. Encastelados em cargos-chaves, corruptos notórios transformam o narcotráfico em mola-mestra da economia paraguaia, tendo como único paralelo o poder dos contrabandistas. Estes, Lugo não quis saber de enfrentar.

Uma das maiores contradições de seu governo foi a tolerância para com torturadores que agiram durante a longa ditadura paraguaia. Foi o caso do comissário Saturnino Antônio Gamarra, promovido por ele apesar das denúncias de que havia participado das sessões de tortura aplicadas a três ex-militantes do Movimento Pátria Livre que foram depois acolhidos no Brasil como refugiados políticos. O assunto foi tratado pelo blog no post Lugo promove torturadores de militantes refugiados no Brasil, de maio de 2010.

Parece inacreditável que um ex-bispo socialista esteja encerrando sua carreira como mandante da execução de 17 pessoas, vítimas do confronto entre a polícia e camponeses do MST local. Mas a crise não se resume apenas a isso. A deposição que deve acontecer hoje é o ponto final da carreira de um personagem cuja biografia começou a se despedaçar quando se descobriu que sua praxis política era tão hipócrita quanto seu voto de castidade. Assim que foi eleito, o bispo Lugo teve que se defrontar com seis processos de investigação de paternidade.

Governantes de países vizinhos tentaram ontem se articular para impedir a ação fulminante do Congresso, que em apenas dois dias abriu e votou um processo de impeachment. A reação internacional foi encampada e liderada pela presidente brasileira Dilma Rousseff, que rapidamente mobilizou outros chefes de estado alinhados com a esquerda latino-americana.
É compreensível que governantes tenham ojeriza de situações como esta e engendrem reações solidárias. Mas seria impensável uma articulação nos moldes do desastre diplomático protagonizado pelo governo Lula, que interveio claramente em assunto afeto à autodeterminação do povo hondurenho quando da deposição de Zelaya.

Ainda estão frescas na memória dos nossos vizinhos as lembranças de três intervenções recentes do governo brasileiro em episódios agudos de crise institucional no Paraguai: o acolhimento do ex-ditador Alfredo Strossner, que terminou seus dias isolado em uma mansão do Lago Norte, em Brasília; o asilo dado ao presidente deposto Raul Cubas em 1999, deposto sob a acusação de encomendar o assassinato de seu vice-presidente Luis Maria Argaña; e o refúgio concedido ao general golpista Lino Oviedo.

Refugiados temem sequestro. Paraguai oferece US$ 170 mil de recompensa

O governo paraguaio aumentou de 500 mil para 800 mil guaranis — cerca de US$ 170 mil — a recompensa pela captura dos três militantes do Movimento Pátria Livre que foram acolhidos como refugiados pelo governo brasileiro.  A oferta tem sido publicada nos maiores jornais do País e também em cartazes espalhados em prédios públicos e rodovias paraguais.

Juan Arrom, Anuncio Marti e Victor Colman residem em Curitiba, PR, e temem ser sequestrados por aventureiros em busca da recompensa.

A ordem de captura foi expedida no bojo de um processo em que eles são acusados do sequestro de Maria Debernardi, mulher de um dos empresários mais ricos do país vizinho.

As provas que existem contra eles foram forjadas pela policia judiciária e pelo ministério público, órgãos que ainda se encontram contaminados ideologicamente por simpatizantes da ditadura Stroessner.

Arrom, Marti e Colman foram sequestrados e torturados durante 14 dias na antevéspera da libertação da Sra. Debernardi. A família de Arrom conseguiu localizar o cativeiro e libertá-los sem nenhuma ajuda das forças policiais.

Desde que os três militantes foram acolhidos no Brasil como refugiados o governo paraguaio tenta provocar sua extradição. Para isso, valeu-se de documentos falsos — especialmente supostos e-mails que teriam sido encontrados no notebook do comandante Raul Reyes, o segundo na hierarquia das FARC, morto em território equatoriano há dois anos.

As provas, como já se suspeitava, são falsas. De acordo com o Ministério Público da Colômbia (leia o post abaixo ou clique aqui), na memória do computador que pertencia a Reyes não havia e-mails, apenas documentos elaborados em um processador de textos.

O CONARE, órgão federal que delibera sobre pedidos de asilo e refúgio, já negou duas vezes a extradição. Um terceiro pedido ainda depende de avaliação. Um dos membro do Comitê, no entanto, assegura que não haverá mudança de posição.

Apesar de se sentirem aliviados pela comprovação da falsificação das provas, os familiares dos refugiados temem pela segurança deles. Embora estejam certos de que o governo brasileiro não irá patrocinar sua extradição, temem que algum aventureiro tente sequestrá-los e levá-los de volta ao Paraguai para receber a polpuda recompensa.

Paraguai mentiu ao governo brasileiro para tentar repatriar refugiados

cartilha_epp

furo

O governo do Paraguai mentiu e apresentou provas falsas para tentar obter a extradição dos três supostos guerrilheiros daquele país que foram acolhidos como asilados pelo governo brasileiro.

Juan Arrom, Anuncio Marti e Victor Colman são alvo de um processo de perseguição explícita movida pelo governo Lugo. Ex-militantes do Movimento Pátria Livre, que se opôs à ditadura Stroessner, os três foram acusados do sequestro de Maria Edith Debernardi, mulher de um dos empresários mais ricos e controvertidos do País.

Por duas vezes, autoridades da diplomacia do governo Lugo encaminharam dossiês volumosos com informações falsas vinculando os três perseguidos aos guerrilheirtos das FARC.

A fraude foi confirmada pelo investigador antiterrorismo da polícia judiciária da Colômbia Ronald Coy, que declarou ao Ministério Público daquele país não terem sido encontrados e-mails no computador que pertencia ao comandante Raul Reyes, morto no ano passado. De acordo com o policial, havia apenas documentos elaborados em um processador de texto.

Centenas de e-mails que supostamente comprovariam contatos frequentes entre os  ”guerrilheiros” paraguaios e o comando da guerrilha colombiana foram anexados como prova ao pedido de reconsideração feito ao governo brasileiro pelas autoridades paraguaias.

Arrom, Marti e Cólman foram sequestrados em Asunción por agentes de segurança paraguaios dois dias antes da libertação da Sra. Debernardi. Durante 14 dias foram sistematicamente torturados — e jamais confessaram qualquer tipo de participação no sequestro.

O local utilizado como cativeiro, a casa de um policiais militar, foi descoberto pelas irmãs de Juan Arrom. Dias depois de libertados, os três deixaram o país pela Ponte da Amizade e ingressaram em território brasileiro. Meses depois, por unanimidade, o CONARE concedeu a eles o status de refugiados políticos. Desde então o governo do Paraguai tentam convencer as autoridades brasileiras a repatriá-los para que sejam julgados segundo as leis paraguaias.

A perseguição aos três militantes do Movimento Pátria Livre, que jamais teve qualquer tipo de ação armada ou violenta. foi denunciada em primeira mão por este Blog. Para obter mais informações sobre o assunto basta clicar aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

Lugo pediu a Lula para manter refugiados paraguaios no Brasil

furoO presidente do Paraguai, Fernando Lugo, pediu ao presidente Lula que não repatrie os três militantes paraguaios que aqui se encontram refugiados. O pedido foi feito durante o último encontro dos dois chefes-de-Estado em Ponta-Porã, MS, no último dia 3 de maio.

Juan Arrom, Anuncio Marti e Victor Colman são alvo de um processo de perseguição explícita movida pelo governo Lugo. Ex-militantes do Movimento Pátria Livre, que se opôs à ditadura Stroessner, os três foram acusados do sequestro de Maria Edith Debernardi, mulher de um dos empresários mais ricos e controvertidos do País.

Arrom, Marti e Cólman foram sequestrados por agentes de segurança paraguaios dois dias antes da libertação da Sra. Debernardi. Durante 14 dias foram sistematicamente torturados — e jamais confessaram qualquer tipo de participação no sequestro.

O local utilizado como cativeiro, a casa de um policiais militar, foi descoberto pelas irmãs de Juan Arrom. Dias depois de libertados, os três deixaram o país pela Ponte da Amizade e ingressaram em território brasileiro. Meses depois, por unanimidade, o CONARE concedeu a eles o status de refugiados políticos. Desde então o governo do Paraguai tentam convencer as autoridades brasileiras a repatriá-los para que sejam julgados segundo as leis paraguaias.

O refúgio político concedido pelo governo brasileiro tomou boa parte da agenda dos dois presidente durante o último encontro de ambos, no Mato Grosso do Sul. Contrariando a posição oficial de seu governo, Lugo deixou claro para Lula que a volta de Arrom, Marti e Colman não é prioridade de seu governo nem interessa a ele.

“Não será problema se eles (os refugiados) permanecerem no Brasil”, teria dito Lugo durante a reunião de trabalho. “Não se pode assegurar que um julgamento hoje (pela Justiça paraguaia) será justo e isento porque esse caso ainda desperta muitas paixões em Assunção”, reiterou o presidente da República vizinha diante de um Lula surpreso com a manifestação.

A iniciativa, confirmada por três fontes diferentes do governo brasileiro, deixa claro o antagonismo das posições emanadas de Assunção. De um lado, autoridades vinculadas a núcleos de poder remanescentes da ditadura Stroessner movem uma guerra diplomática contra o Brasil pelo repatriamento dos três militantes. De outro, o presidente, pessoalmente, se movimenta em sentido contrário, endossando o refúgio concedido pelo CONARE por unanimidade.

Dois ministros do governo Lugo tiveram uma importante participação na elucidação do processo de perseguição que os refugiados sofreram. Chegaram a assinar o laudo que atestou as sevícias das sessões de tortura impostas aos militantes do MPL.

Tortura e sevícias de uma democracia ‘made in paraguay’

O Estado Paraguaio é o protagonista de um fraude de grande envergadura: a invenção de um grupo guerrilheiro que não existe com o propósito de assentar o atual governo, do bispo Fernando Lugo, em um patamar que não desperte suspeitas da comunidade internacional. A fraude em questão é a invenção do EPP — Exército Popular do Paraguai.

A ficção de Lugo está sendo caçada em cinco províncias, sem nenhum resultado até agora. Quase metado do território está sob estado de sítio, com as garantias constitucionais suspensas, e cerca de cinco mil miltares trabalham incansavelmente perseguindo um mito, o tal grupo guerrilheiro inexistente.

Lugo encampou causas de seus adversário históricos porque não conseguiu fazzer o que se comprometeu: mudar o Poder Judiciário, as polícias e o Ministério Público. Sem isso, ficou refém da nata da corrupção que move o País desde os tempos imemoriais da ditadura Stroessner. Encastelados em cargos-chaves, corruptos notórios transformam o narcotráfico em mola-mestra da economia paraguaia, tendo como único paralelo o poder dos contrabandistas. Estes, Lugo não quer saber de enfrentar.

O tal EPP, a ficção paranóica do bispo garanhão, não passa de um bando de delinquentes comuns, que nada a vem com um grupo de guerrilha nos moldes convencionais. Na verdade, é um pequeno agrupamento de bandidos sem cargos públicos nos mesmos moldes do PCC — só que muito menor — não chegam a três dezenas de meliantes e de traficantes.

O que desafia o governo Lugo é sua própria ineficiência. A frustração gerada por expectaivas que não se cumpriram é que está pondo abaixo o astral dos paraguaios. E será ela o fato determinante de sua sobrevivência institucional ou não. Aliada a inimigos históricos, a presidência de Lugo não terá a longevidade que seu mandado inspira.

Esta aliança espúria é que faz com que Lugo se alinhe com ex-torturadores, algozes da ditadura militar paragauaia e empresários nutridos das sombras de oportunidades escusas como as geradas pela construção da usina de Itaipu.

Em sua última basófia, Lugo se alinhou aos terroristas de Estado que torturaram três jovens intelectuais fundadores do Movimento Pátria Libre, hoje transformado em partido político. Sem dó nem piedade, o bispo que preside o Paraguai quer levar de volta a sua republiqueta Juan Arrom, Anuncio Marti e Victor Colman para que eles sejam capturados e seviciados pelos mesmos agentes que os sequestraram e torturaram em janeiro de 2002.

O trio está abrigado no Brasil sob o status de refugiados. Lugo ofereceu uma recompansa de cem mil dólares a quem capturá-los. Se isso acontecer, vai ser muito difícil para ele evitar a vergonha de ver seu país condenado por cortes internacionais por abrigar o proteger terroristas, ao mesmo tempo em que conspurca a cidadania e a vida de seus adversários políticos.

Veja só o que um governo fraco e covarde é capaz de fazer no vídeo abaixo, que demonstra de maneira cabal que torura, cárcere privado e sofrimento ainda têm lugar na pífia democracia paraguaia.

Lugo, quem te viu, quem te vê.

Fernando Lugo. Quando ele foi eleito presidente do Paraguai, eu e meio mundo de imbecis bem-intencionados vibramos bastante. Foi como no dia em que Lula chegou à presidência do Brasil. Parecia que todos os defeitos da histórias estavam prestes a ser redimidos. Ledo engano.

Vendo-o hoje acuado diante das perguntas que eu mesmo formulei, pensei com meus botões “quem será esse cara ?”. A figura altiva do homem que iria mitigar as desigualdades sociais, acabar com a roubalheira, reformar o judiciário, banir a corrupção, enterrar definitivamente o cadáver da ditadura Stroessner não passa de mais um títere nas mãos dos mesmos de sempre.

Incapaz de fazer o que se propôs, o ex-bispo hoje é refém de sua tibieza. Sequer consegue uma resposta autêntica para questionamentos triviais feitos por repórteres estrangeiros que nem são tão atrvidos assim.

Perguntei-lhe três coisas na entrevista que se seguiu ao encontro que ele manteve com Lula aqui em Ponta Porã, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Primeiro, se ele admitia que houve perseguição política do Estado que ele mesmo governa aos militantes Juan Arrom, Anuncio Martí e Victor Colman, alvos de uma das campanhas mais abjetas de que se tem notícia em tempos recentes. Depois, se ele confirmava que os três foram sequestrados por agentes de segurança paraguaios, fato comprovado de maneira inquestionável por documentos e arquivos de video. E, por último, quis saber por que o governo não prende os narcotraficantes de seu País que, segundo o presidente do Congresso, todos sabem quem são.

Não vou me dar ao trabalho de transcrever aqui as aspas das declarações do presidente do Paraguai. Seria uma perda de tempo para mim e para você, leitor deste texto. Ele não disse nada de importante. Tergiversou, engoliu algumas frases e encerrou o assunto.

É triste constar que um País que se pretende altivo, que ainda está por sublimar suas contradições políticas e institucionais, tem oligarcas capazes de abduzir o caráter de um homem que parecia ser rígido e firme.

Antes de escrever este post, reli alguns artigos que postei aqui no Blog sobre Fernando Lugo. Fazia tempo que não escrevia nada sobre ele. O que vi reforçou minha convicção. Lugo tem sido tão fiel às suas bandeiras e aos seus compromissos políticos quanto foi ao juramento do celibato.

O que fez de sua vida sexual e religiosa é problema dele. Mas o que faz de seus votos políticos afeta toda uma nação.

As mentiras do governo Lugo sobre o EPP — Exército Popular do Paraguai

cartilha_eppDezessete rostos ilustram o cartaz ao lado que o governo do Paraguai mandou imprimir. Os “enemigos del pueblo paraguaio” seriam perigosos agentes subsersivos que lutam contra a débil democracia instalada no País. Seu objetivo seria instaurar uma ditadura marxista-leninista cujo genótipo ideológico vem modelo bolivariano sustentado pelas FARC, a guerrilha colombiana que inspirou a criação e sustenta o EPP — Exército Popular Paraguaio. O governo do bispo Lugo oferece uma recompanesa de 500 milhões de guaranis, equivalente a US$ 100 mil, por “información útil que lleve a la captura”.

O cartaz é obra da mais absoluta engenharia de dissimulação política. É uma peça de ficção, retrato de um governo débil, atolado em contradições, que luta para sobreviver aos seus próprios antagonismos.

Os três últimos “terroristas” relacionados na peça são Juan Arrom, Anuncio Marti e Victor Colman. Todo mundo sabe onde eles se encontram. Estão no Brasil, onde vivem regularmente sob a condição de refugiados políticos, condição que lhes foi concedida em 2003 pelo CONARE por unanimidade.

A história desse trio é um dos esqueletos emparedados do governo Lugo. Começa no fim de 2001, quando a mulher de um dos empresários mais ricos do País foi sequestrada. Maria Edith Debernardi teria passado 62 dias em cativeiro, tendo reaparecido após o pagamento de US$ 1 milhão de resgate.

A história desse sequestro deu origem a uma das tramas mais covardes e macabras da incipiente democracia paraguaia. Dois dias antes do reaparecimento da Sra. Debernadi, dois supostos terroristas foram atraídos até a Calle Lugano, no centro de Assunção, onde foram presos ilegalmente e espancados. A captura do trio foi testemunhada por 37 pessoas da vizinhança. O que nenhuma delas sabia é que na casa ocupada por agentes policiais funcionava um aparelho clandestino da Polícia Judiciária.

Os dois homens presos eram o poeta e escritor Juan Arrom e o jornalista Anuncio Marti. O vínculo de ambos era o Movimento Pátria Libre. No passado, o MPL se opôs à ditadura do General Alfredo Stroessner, que por 30 anos governou o Paraguai com mão de ferro. Era um movimento composto por jovens idealistas e diletantes que teve uma importante participação na reinstitucionalização paraguaia.

Juan e Anuncio foram colocados no interior de um carro sem placas e desapareceram durante 14 dias. Tiveram os olhos vendados, foram algemados e encapuzados diante da turba que se reunia no local onde eles foram capurados. Os policiais tentaram dissolver a multidão alegando que os homens tinham sido presos porque tentaram assaltar a delegacia, para estranheza dos vizinhos que testemunharam a cena.

Durante as duas semanas em que estiveram desaparecidos, Juan e Anuncio foram sistematicamente submetidos a intermináveis sessões de tortura. Os golpes eram aplicados preferenciamente na bacia e nas vértebras da lombar com o objetivo de criar sequelas ósseas irreversíveis. Sequelas que quase tiraram os movimentos de Juan, revertidas em parte por uma cirurgia realizada por médicos do Hospital Sarah Kubisticheck de Brasília.

Eles passaram por três cativeiros: uma chácara na periferia de Assunção e duas casas em um bairro periférico. Enquanto a família os procurava, estiveram pessoalmente com duas altas autoridades do governo paraguaio. Uma noite, depois de uma sessão de tortura, foram levados a um descampado. Lá estava o Ministro da Justiça Sílvio Ferreira, que lhes pediu para assinar um termo de confissão assumindo a autoria do sequestro contra a garantia de que seriam levados para fora das fronteiras do País. Em seguida, conversaram por telefone com o Mnistro do Interior Julio Cesar Faniago, que lhes fez o mesmo pedido e ofereceu as mesmas garantias. Ambos caíram no arrasto das investigações que se seguiram, quando o encontro e o telefonema restaram comprovados.

Juan e Anuncio foram salvos pela obstinação e coragem das irmãs do primeiro.Cristina, Carmen, Marina, Maria Auxiliadora e Rossana Arrom  moveram uma cruzada pela localização dos desaparecidos. Foram elas que identificaram a casa onde eles eram mantidos prisioneiros. Foram elas que acionaram a imprensa e conseguiram libertá-los, a despeito das tentativas da polícia de impedir a libertação.

Os irmãos Arrom conseguiram evitar o assassinato e a tentativa despudorada das forças de segurança de sequestrá-los novamente, diante de centenas de pessoas. Conduziram as duas vítimas a um hospital particular e criaram condição para que uma comissão de peritos fizesse um laudo atestando a prática da tortura. E depois, quando perceberam que não havia como enfrentar um processo justo, deram um jeito de fazer com que os perseguidos atravessassem a Ponte da Amizade para tentar o asilo político no Brasil, onde estariam em segurança.

As agruras da família Arrom renderiam um excelente roteiro para o cinema. Um filme que só poderia se passar mesmo no Paraguai pós-Stressner, num contexto político como o que se instalou e se perpetuou até os dias de hoje.

Amanhã, quando o presidente Fernando Lugo se encontrar na fronteira com o presidente Lula, o destino de Juan Arrom, Anuncio Marti e Victor Colmán estará sobre a mesa de negociação. Lugo pretende repatriar o trio para julgá-lo sob as mesmas condições em que eles foram abduzidos e torturados. As forças de segurança, o ministério público e o Judiciário paraguaios são os mesmos dos anos Stroessner.

O atual presidente do Paraguai comprou a causa de seus algozes porque não fez o que deveria — reformar a estrutura de segurança, afastar juízes, delegados e procuradores corruptos, reestruturar o judiciário de seu país. Vê-se na obrigação de dar uma satisfação aos inimigos e, covardemente, não se importa de sacrificar os amigos inocentes que se transformaram em vítimas do ranço corrupto que ainda governa o Paraguai.

Se o presidente Lula ceder à tentação de rever os refúgios, talvez entre para a história como o Getúlio que ele tanto persegue –não o do petróleo, da industrialização, mas o Getúlio Vargas de Olga Benário Prestes.

Logo mais, no Blog, você vai conhecer detalhes sobre a perseguição movida contra os três refugiados paraguaios acolhidos pelo governo brasileiro. E vai poder assistir a um video chocante, que registra o momento dramático da libertação de Juan Arrom e Anuncio Marti.

Um caso de Direitos Humanos made in paraguay

Estou em Asunción, capital do Paraguai, primeira escala de uma viagem que vai terminar em Ponta Porã, Mato Grosso, na próxima segunda-feira. Vim até aqui para conhecer melhor o caso dos três paraguaios que foram recebidos como refugiados pelo governo brasileiro em 2003.

Um ano antes, Juan Arrom, Anúncio Matir e Artur Cólman foram acusados de participar do sequestro de Maria Edith Debernardi, mulher de um executivo da Itaipu Binacional e um dos homens mais ricos do país.

O governo de Fernando Lugo iniciou uma cruzada internacional para repatriá-los. O Paraguai anunciou que vai denunciar o Brasil à ONU por tê-los acolhido. Trazer os três ex-militantes do Partido Pátria Libre de volta vitrou uma questão de honra.

Visto daqui, o caso parece ser de uma enorme má-fé. Os três militantes de esquerda são alvo de uma das mais abjetas e mentirosas campanhas de perseguição política e ideológica de que se tem notícia. É fato que eles foram sequestrados pela polícia paraguaia. é fato que foram mantidos em um cárcere privado — a casa de um policial — onde foram torturados e seviciados para confessar um crime que talvez não tenham cometido.

A agenda de entrevistas das testemunhas aqui é extensa. No final do dia, farei um post informando das minhas observações e conclusões. A importância desse assunto pode ser medida pela agenda do encontro que o presidente Lula terá com seu colega Fernando Lugo na próxima segunda-feira, na fronteira entre os dois países.

Post Navigation