Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

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Como a Delta e Cacheira pagaram propina a Marconi Perillo

DIEGO ESCOSTEGUY, COM MURILO RAMOS E MARCELO ROCHA

capitulo 1 (Foto: reprodução)

 

No dia 27 de junho, o Núcleo de Inteligência da Polícia Federal remeteu à Procuradoria-Geral da República um relatório sigiloso, contendo todas as evidências de envolvimento do governador Marconi Perillo com o esquema da construtora Delta e do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Como governador de Estado, Perillo só pode ser investigado pelo procurador-geral da República – e processado no Superior Tribunal de Justiça. O relatório, a que ÉPOCA teve acesso com exclusividade, tem 73 páginas, 169 diálogos telefônicos e um tema: corrupção.

O documento está sob os cuidados da subprocuradora Lindora de Araújo, uma das investigadoras mais experientes do Ministério Público. Ela analisará que providências tomar e terá trabalho: são contundentes os indícios de que a Delta deu dinheiro a Perillo.

Alguns desses 169 diálogos já vieram a público; a vasta maioria ainda não. Encontram-se nesses trechos inéditos as provas que faltavam para confirmar a simbiose entre os interesses comerciais da Delta em Goiás e os interesses financeiros de Perillo. Explica-se, finalmente, o estranho episódio da venda da casa de Perillo para Cachoeira, que não foi bem entendido. Perillo nega até hoje que tenha vendido o imóvel a Cachoeira; diz apenas que vendeu a um amigo. O exame dos diálogos interceptados fez a Polícia Federal, baseada em fortes evidências, concluir que:

1) assim que assumiu o governo de Goiás, no ano passado, Perillo e a Delta fecharam, diz a PF, um “compromisso”, com a intermediação do bicheiro Carlinhos Cachoeira: para que a Delta recebesse em dia o que o governo de Goiás lhe devia, a construtora teria de pagar Perillo;

2) o primeiro acerto envolveu a casa onde Perillo morava. Ele queria vender o imóvel e receber uma “diferença” de R$ 500 mil. Houve regateio, mas Cachoei¬ra e a Delta toparam. Pagariam com cheques de laranjas, em três parcelas;

3) Perillo recebeu os cheques de Cachoeira. O dinheiro para os pagamentos – efetuados entre março e maio do ano passado – saía das contas da Delta, era lavado por empresas fantasmas de Cachoeira e, em seguida, repassado a Perillo. Ato contínuo, o governo de Goiás pagava as faturas devidas à Delta;

4) a Delta entregou a um assessor de Perillo a “diferença” de R$ 500 mil;

5) a direção nacional da Delta tinha conhecimento do acerto e autorizou os pagamentos.

Para compreender as negociações, é necessário conhecer dois personagens, que chegaram a ser presos pela PF. Um é o tucano Wladmir Garcez, amigo de Perillo e ex-presidente da Câmara de Vereadores de Goiânia. Garcez atua como uma espécie de embaixador de Perillo junto à Delta e à turma de Cachoeira: faz pedidos, cobra valores, entrega recados. O segundo personagem é Cláudio Abreu, diretor da Delta no Centro-Oeste e parceiro de Cachoeira no ataque aos cofres públicos de Goiás. Na hierarquia da Delta, Abreu detinha a responsabilidade de obter contratos públicos para a construtora e – o mais difícil, custoso – assegurar que os governantes liberassem os pagamentos em dia. A corrupção neste caso, como em tantos outros, nasce na oportunidade que o Poder Público oferece: um detém a caneta que pode liberar o dinheiro; outro detém o dinheiro que pode mover a caneta. Na simbiose entre a Delta e o governo de Goiás, Garcez e Abreu eram os sujeitos que se dedicavam a fazer o dinheiro girar, multiplicar-se. Não há caixa de campanha ou questiúncula política nessa história. O objetivo era ganhar dinheiro.

A mensagem
Para a Justiça
O relatório da PF traz indícios de que a Delta transferiu dinheiro a Perillo, e eles devem ser investigados
Para o eleitor
A investigação pode dar um novo norte à CPI do Cachoeira

A PF começou a monitorar as atividades ilegais das duas turmas, de Perillo e da Delta, em 27 de fevereiro do ano passado. Naquele momento, Perillo cobrava o pagamento do “compromisso” da Delta. Num diálogo interceptado pela PF às 20h06, Cachoeira pede pressa a Abreu. Disse Cachoeira: “E aquele trem (dinheiro) do Marconi(governador), hein? Marconi já falou com o Wladmir (Garcez), viu”. Abreu chora miséria, como bom negociante. “Vou falar amanhã que não tem jeito”, diz Cachoeira. “Mas não é 2 milhões e meio, não. Ele (Marconi) quer só a diferença.” Cachoeira refere-se, aqui, à operação de venda da casa, o assunto mais urgente naquele momento. Abreu faz jogo duro: “Pois é, doutor, eu não tenho como. Do mesmo jeito que o Estado tá com o orçamento fechado, eu também tô”. O jogo é simples: uma parte quer que a outra aja antes. Perillo quer o dinheiro antes de liberar a fatura; Abreu, da Delta, quer a fatura paga antes de liberar o dinheiro para Perillo.

Capítulo 2 (Foto: reprodução)

As negociações prosseguem, emperradas em alguns momentos por desconfianças mútuas. Numa ligação na mesma noite, Cachoeira certifica Abreu de que Garcez, o interlocutor de Perillo, não está pressionando a Delta sem motivos. “Não é o Wladmir, não. É ele(Marconi) que tem esse trem na cabeça, da diferença e não sei o quê, viu?”, diz. No dia seguinte, preocupado com a demora da Delta em liberar o dinheiro, Cachoeira pede a Garcez que dê “um aperto” em Abreu, de modo a garantir o negócio. Garcez liga para Abreu e reforça que a Delta deve pagar logo o “compromisso” com Perillo. Garcez explicara a Perillo que a Delta não conseguiria quitar o acerto logo. Diz Garcez, no diálogo com Abreu: “Tive lá no Palácio, conversei com o governador lá. Falei… ‘Olha, o compromisso que ele (Abreu) tinha feito com o senhor faltava 1 milhão e meio. (…) Ele (Abreu) vai ver se cumpre aquele compromisso com o senhor”. Diante da pressão, Abreu diz que tem “outros compromissos” em Mato Grosso e em Mato Grosso do Sul. Pede tempo.

Nervoso com a lentidão de Abreu, Cachoeira resolve dar prosseguimento ao negócio com Perillo – e cobrar depois da Delta. A partir daí, o acerto realiza-se com rapidez. Ainda no dia 28, Garcez informa a Cachoeira que Perillo quer cheques nominais. Combinam a entrega de três cheques para o dia seguinte, às 14 horas: dois de R$ 500 mil e um de R$ 400 mil, depositados no dia 1o de cada mês. Em seguida, no dia 1o de março, Cachoeira faz a operação: pede ao sobrinho que assine os cheques, avisa a Delta e manda entregar os cheques no Palácio das Esmeraldas, sede do governo de Goiás. Às 14h53, Garcez, que estava no Palácio, confirma a Cachoeira que os cheques foram entregues e avisa que levará a escritura do imóvel no dia seguinte. Doze minutos depois, Cachoei-ra já pede a contrapartida a Garcez: “O trem da Delta, aqueles 9 milhões que o Estado tem de pagar… Você levou para mostrar para ele (Perillo)?”. Garcez confirma: “Tá comigo aqui. Oito milhões, quinhentos e noventa e dois, zero quarenta e três”. Às 16h37, Garcez informa a Cachoeira que está no gabinete do governador, entregando os cheques. Em seguida, Garcez comunica a Abreu que os problemas da Delta acabaram. “(Perillo)falou que vai resolver: ‘Não, pode deixar que isso aqui eu resolvo’”. E resolveu: ainda no dia 1o de março, o governo de Goiás liberou R$ 3,2 milhões para a conta da Delta. No dia seguinte, o cheque de R$ 500 mil foi depositado na conta de Perillo.

No dia 3 de março, Cachoeira comemora com Abreu a “porta aberta” com Perillo. “Ele (Perillo)engoliu aqueles 500 mil… Ele (Perillo) responde em tudo, deu as contas para pagar”, afirma Cachoeira. Cachoeira pediu a seu sobrinho Leonardo Ramos, que costuma assessorá-lo, para que preparasse um contrato de compra e venda no nome de um laranja – e começou a chamar amigos para conhecer a linda casa que comprara de Perillo. No dia 25 de março, o governo de Goiás liberou mais um pagamento de R$ 3,2 milhões para a conta da Delta. Enquanto os pagamentos caíam nas contas da Delta, a Delta cobria, por meio de uma empresa laranja, os cheques dados por Cachoeira.

O segundo cheque de R$ 500 mil foi compensado no dia 4 de abril. Cachoeira, sempre zeloso, checava tudo com seu contador. No dia 29 de abril, antes da compensação do último cheque, no valor de R$ 400 mil, Abreu voltou a reclamar com Cachoeira que as faturas da Delta haviam sido retidas novamente. Abreu foi claríssimo na contrapartida necessária para pagar o último cheque: “Deixa eu te contar uma amarelada que eu dei aqui. Wladmir (Garcez) tá me rodeando aqui. Eu falei: ‘Wladmir, tá bom: que dia vai me pagar? Tá prometido até sexta que vem, tá? Então vamos fazer o seguinte: eu pago os 400. Se ele (Perillo) não me pagar até sexta (…) você me devolve os 400’. Aí ele amarelou aqui”. Os dois reclamaram da demora de Perillo. Cachoeira disse: “Agora tem de tolerar porque nós já pusemos o pé na jaca”. Eles reclamam, reclamam, reclamam… mas no fim pagam. No dia 2 de maio, Cachoeira ordenou a seu contador que contatasse o pessoal de Perillo e descontasse o último cheque. “Aquele lá (o cheque) não podia falhar de jeito nenhum, né?”, diz o contador. O cheque foi descontado. E o que aconteceu? O governo de Goiás liberou mais uma parcela de R$ 3,2 milhões para a conta da Delta.

Não demorou para Cachoeira perceber que morar na antiga casa do governador de Goiás lhe traria problemas. Num diálogo com sua mulher, Andressa Mendonça, em 17 de maio (leia na página ao lado), Cachoeira compartilhou seu temor por telefone: “Esse trem não vai dar certo (da casa). Vão acabar sabendo que é minha”. Cachoeira começou, então, a procurar um modo de se desfazer do imóvel, apesar dos protestos de Andressa, que já decorara a casa e adorava o lugar. As conversas interceptadas pela PF mostram em detalhes como Cachoeira repassou a casa para um terceiro, o empresário Walter Santiago, sem aparecer. Para isso, recorreu à ajuda de Garcez, que coordenou a transação. Garcez assegurou ao empresário que a casa era de Perillo. No dia 12 de julho, Walter Santiago, rodando num carro blindado, encontrou-se com Garcez e lhe entregou R$ 2,1 milhões em dinheiro vivo. Cachoeira orientou Garcez pelo telefone: “Manda trazer o dinheiro aqui no Excalibur (prédio onde mora Cachoeira), entendeu? Manda o professor(Walter Santiago) trazer no Excalibur, porque ele tá com carro blindado”.

CONFORTO A casa onde  moraram o  governador Marconi  Perillo e o bicheiro Carlinhos Cachoeira.   Ela foi vendida  por R$ 2,1 milhões  em dinheiro vivo  (Foto: Fernando Gallo/AE)

Em seguida, Garcez informou a Cachoeira que Lúcio Fiúza, então assessor especial de Perillo, estava com eles no carro. Responde Cachoeira: “Então pega tudo e vem para casa. Dá só os quinhentos na viagem para o doutor Lúcio. (…) Já fala para o doutor Lúcio pegar os cem também (parte do assessor de Perillo). É dois e cem, viu (R$ 2,1 milhões, o dinheiro a ser entregue)? Pega os cem logo e já mata ele, ou então já fala a data que ele tem de entregar”. Não fica claro se os R$ 500 mil para Fiúza referem-se à parte de Perillo nessa segunda operação – ou se era um pagamento pendente por outra razão. Também nessa segunda operação, Cachoeira recebeu – e distribuiu a gente próxima a Perillo – mais dinheiro do que valia o imóvel.

Cachoeira confirma isso num diálogo com Andressa, ainda no dia 12. Andressa pergunta por quanto ele vendeu a casa. “Dois e cem”, diz Cachoeira. “Esse trem é do Marconi e não ia dar certo, não. Tem de passar logo esse trem para o nome dele (possivelmente o empresário Walter). Porque eu vou perder um trem de bilhões por causa de um negócio à toa.” Andressa não quer saber de negócios ou dinheiro. Quer saber da prataria da casa e das coisas bonitas e caras que comprou para decorá-la. “Você explicou para ele (empresário Walter) que roupa de cama, coisa pessoal, acessório de banheiro, nada disso vai, né?”, diz Andressa. Cachoeira se irrita: “Deixa a roupa de cama do jeito que tá lá. Não faça isso, não. Pega as pratarias que o Wladmir escondeu lá dentro”. “Eu não vou deixar roupa de cama de 400 fios para ele, não. Cê tá louco?”, diz Andressa. Cachoeira, então, confessa o preço real da casa e revela a existência da “diferença”. “Deixa do jeito que tá. Aquilo lá custou quanto? Afinal, eu comprei ela (a casa) por mil(R$ 1 milhão), vendi por mil e quinhentos (R$ 1,5 milhão). Tá bom, me ajudou a vender.” A conta é a seguinte, segundo a PF: o empresário Walter Santiago pagou R$ 2,1 milhões pela casa. Destes, R$ 100 mil foram para Fiúza, o assessor de Perillo, R$ 500 mil para Perillo, levados por Fiúza – e o restante, R$ 1,5 milhão, para Cachoeira.

Segundo Perillo, a Receita Federal atestou que seu patrimônio é compatível com seus rendimentos

O que Cachoeira fez depois de receber o R$ 1,5 milhão? Ligou para a Delta. Confirmou o recebimento do dinheiro e perguntou a Abreu se o contador da Delta já fora avisado. Abreu disse que estava ao lado de Carlos Pacheco, principal executivo da Delta, a quem Abreu chama de “chefe”. Abreu disse: “Eu falei com o chefe aqui, viu, amigo? Ele falou que era para você guardar esse dinheiro, era para você aplicar lá no entorno (entre Brasília e Goiás), no projeto. Que o projeto lá vai exigir uns 4 milhões e meio, mas eu falo com você pessoalmente”. A PF não descobriu que projeto seria esse. Mas a fala de Abreu deixa claro o que outros diálogos confirmam: a direção da Delta nacional não só sabia das operações de Cachoeira no Centro-Oeste, como coordenava algumas negociações. Até agora, a Delta insiste na versão segundo a qual Abreu agia sozinho.

E manteve sua linha de defesa, após ÉPOCA questionar a empresa sobre as novas evidências. Por meio de uma nota, a Delta afirma não ter conhecimento da apresentação de uma fatura da empresa ao governador Marconi Perillo, nem da visita de Wladmir Garcez ao Palácio de governo para resolver um assunto da empreiteira. A nota também afirma: “Empresas de construção civil que atuam no setor público, como a Delta, precisam zelar e velar pelo recebimento pontual e em dia dos compromissos assumidos a fim de não ocorrer solução de descontinuidade nas obras”. A empresa diz ainda que o ex-presidente Carlos Pacheco nunca teve relação comercial com Cachoeira e que a empresa tem prestado esclarecimentos necessários aos órgãos instituídos.

Perillo também preferiu não prestar esclarecimentos a ÉPOCA. Não respondeu às perguntas sobre eventuais conversas para discutir pagamentos da Delta e sobre a relação desses pagamentos com a venda da casa. Em nota, limitou-se a dizer que “prestou, por meses a fio, todos os esclarecimentos solicitados pela imprensa, pela sociedade e pela CPI”. Perillo criticou ainda o deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da CPI do Cachoeira. Disse que o deputado quer transformar a CPI numa “comissão de investigação do governador Marconi Perillo”. Diz ainda a nota: “No exaustivo crivo a que foi submetido, nenhum fato se encontrou que possa desabonar sua biografia (de Marconi Perillo) de cidadão ou de homem público. Ao contrário, a Receita Federal, por exemplo, emitiu nota técnica na qual atesta que o patrimônio do governador é compatível com seus rendimentos. Portanto, o governador Marconi Perillo informa que, considerando já devidamente esclarecidos os assuntos de fato relevantes, não se pronunciará mais a respeito de questões atinentes a sua vida privada, reservando essa providência, como é natural, unicamente para os assuntos relacionados a suas atividades como governador do Estado”.

Perillo depôs na CPI do Cachoeira há um mês, quando começavam a se acumular evidências de que ele mantinha relações com a empreiteira Delta e com Cachoeira. Na ocasião, foi claro: “O senhor Carlos Cachoeira não teve a menor participação na venda da casa. (A venda da casa) foi feita de forma transparente ao atual empresário Walter Paulo. (…) Os valores (da venda da casa)foram de acordo com o mercado”. Até agora, desconfiava-se que as três afirmações não eram verdadeiras. Agora, com o relatório da PF, sabe-se que são falsas: Cachoeira participou da compra da casa, a operação aconteceu na sombra e o valor da venda foi superior ao de mercado.

Perillo também disse à CPI: “De forma desavisada ou maldosa, vejo, aqui ou acolá, afirmações de que o senhor Carlos Augusto, o Cachoeira, teria influência em meu governo”. Os diálogos interceptados pela PF e a cronologia do pagamento das faturas à Delta revelam que Cachoeira tinha, sim, influência. Outra frase de Perillo: “Falaram (nos diálogos até então divulgados) sobre seus planos (da turma de Cachoeira), mas nada se concretizou. Nada! Reafirmo: nada se concretizou”. Aqui, mais uma vez, as cobranças da Delta ao amigo de Perillo, os cheques compensados nas contas de Perillo e o consequente pagamento das faturas da Delta apontam o contrário. Por fim, Perillo bradou na CPI: “Não tem propina no meu Estado”. É uma afirmação ousada. Os delegados da Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, ao que parece, discordam.

Leia a íntegra no site de Época

Ricardo Teixeira e João Havelange receberam R$ 45,5 milhões de suborno

RODRIGO MATTOS

O ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira e o presidente de honra da Fifa, João Havelange, receberam R$ 45,5 milhões em subornos para facilitar a negociação de contratos de Copas do Mundo.

A informação consta em documento da Justiça suíça tornado público ontem e que relata acordo para encerrar um processo criminal contra os cartolas brasileiros. Ambos não comentaram o fato.

É o chamado dossiê ISL, ex-parceira comercial da Fifa e pivô do maior caso de corrupção da história do futebol. O jornal suíço “Handelszeitung” obteve o documento e o divulgou. A Fifa também o publicou em seu site ontem.

Na década de 90, a ISL fechou contratos com a Fifa por direitos de televisão e marketing do Mundial. Para isso, a Internacional Sports Leisure e suas subsidiárias pagaram 158 milhões de francos suíços (R$ 329 milhões) para dirigentes da cúpula da Fifa.

Do total, 21,9 milhões de francos suíços (R$ 45,5 milhões) foram dados a empresas ou diretamente para Teixeira e Havelange. O documento suíço lista 30 pagamentos feitos aos cartolas de 1992 a 2000, quando Teixeira era da cúpula da Fifa e Havelange presidia a entidade.

Um total de 12,74 milhões de francos suíços foi para a Sanud, empresa em Liechtenstein que foi de Teixeira, como mostrou a CPI do Futebol. Outros 7,664 milhões de francos suíços foram pagos à Redford Investments Ltd, de Teixeira e Havelange. Outro 1,55 milhão de francos suíços foi dado diretamente ao ex-presidente da Fifa.

“O acusado Ricardo Teixeira ilegalmente usou valores confiados a ele em seu enriquecimento pessoal por várias vezes”, afirmou o procurador suíço Thomas Hildbrand, no documento. “Ele agiu com intenção de enriquecer ilegalmente.”

As mesmas palavras são usadas para descrever as acusações contra Havelange. Os pagamentos são chamados de “imorais” e “ilegais”.

O procurador relata que a ISL os subornou pela influência que tinham na Fifa. Testemunhos de executivos da empresa relatam que pagamentos a dirigentes da Fifa eram essenciais para efetivar os contratos. Outros dirigentes também foram subornados, mas não são nomeados por não serem objeto da ação.

A investigação da Justiça suíça começou no início da década passada, quando a ISL faliu. Durante o processo de falência, os pagamentos foram detectados e uma ação contra Teixeira e Havelange foi aberta em 2008. Em 2010, a Procuradoria fechou acordo com os acusados e com a Fifa para encerrar o processo e tornar seus dados sigilosos.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Esporte – Riqueza ilegal – 12/07/2012.

Cachoeira repassou R$ 3 milhões a Demóstenes, diz procurador-geral da República

João Domingos e Mariângela Gallucci

No pedido de instauração de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar as ligações do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, diz que é “expressamente referido” que “R$ 1 milhão foi depositado na conta” do parlamentar. O documento aponta um valor total repassado para o parlamentar de R$ 3,1 milhões.

A afirmação do procurador está no item 36, página 40 do inquérito encaminhado ao Supremo. Toda essa documentação foi liberada ontem pelo ministro Ricardo Lewandowski para a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira, e para o Conselho de Ética do Senado, que está apreciando pedido de cassação do mandato do senador Demóstenes.

“Em diálogo no dia 22 de março de 2011, às 11:18:00, entre Carlos Cachoeira e Cláudio Abreu, não degravado pela autoridade policial, é expressamente referido que o valor de um milhão foi depositado na conta do Senador Demóstenes e que o valor total repassado para o Parlamentar foi de R$ 3.100.000,00 (três milhões e cem mil reais)”, escreveu o procurador da República no inquérito, após analisar documentos da Operação Monte Carlo, que desmontou o esquema de ocupação de poder por parte de Cachoeira em todas as esferas do Estado.

Sigilo. Em despacho assinado ontem à tarde, Lewandowski deixou claro que a CPI, o Conselho do Senado e a Comissão da Câmara devem preservar o segredo das informações do inquérito, em especial as interceptações telefônicas.

A publicação ontem da íntegra do inquérito relacionado ao senador pelo site 247 poderá gerar uma investigação no STF.

O ministro lembrou, neste caso, uma lei de 1996 que regulamentou as interceptações telefônicas, pela qual é crime quebrar segredo de Justiça sem autorização judicial. A pena inclui multa e reclusão de dois a quatro anos.

Para autorizar a liberação de cópias do inquérito, Lewandowski baseou-se em decisões anteriores do STF.

via Cachoeira repassou R$ 3 milhões a Demóstenes, diz procurador-geral da República – politica – versaoimpressa – Estadão.

Cachoeira mandou entregar dinheiro ‘para o governador’

ANDREZA MATAIS, RUBENS VALENTE e NATUZA NERY

O empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, orientou um de seus operadores a entregar dinheiro a um assessor do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), em julho de 2011.

Escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal durante investigações sobre os negócios de Cachoeira mostram-no tratando do assunto com o ex-vereador Wladimir Garcez, um de seus operadores.

“É pro governador”, disse Cachoeira a Garcez. “Vamos lá pagar logo pra ele no palácio lá. Chega lá, paga pro Jayme. Já manda ele levar o dinheiro, já entrega a chave aí pra ele, depois tira os trem que tem que tirar aqui.”

Jayme Rincon é um dos principais auxiliares de Perillo no governo de Goiás. Ele preside a Agência Goiânia de Transporte e Obras Públicas e foi um dos responsáveis pela arrecadação de fundos para a campanha de Perillo.

À Folha o governador negou ter feito negócios com Cachoeira, mas reconheceu que seu operador atuou como intermediário na transação. Perillo afirma que vendeu o imóvel por R$ 1,4 milhão para outro empresário, Walter Paulo Santiago.

A Folha não conseguiu localizar Santiago ontem. Na campanha eleitoral de 2008, ele se candidatou a vereador em Goiânia e declarou à Justiça Eleitoral que não tinha renda nem patrimônio.

Quem ocupa o imóvel desdesde a sua venda é o próprio Cachoeira. Ele estava na casa quando foi preso em fevereiro, acusado de explorar jogos ilegais e outros crimes.

O diálogo entre Cachoeira e Garcez é mais um indício de que Perillo manteve com o empresário nos últimos anos um relacionamento bem mais próximo do que ele tem admitido em suas entrevistas.

A revista “Época” publicou outro diálogo em que Cachoeira trata da venda do imóvel com Cláudio Abreu, ex-diretor da construtora Delta na região Centro-Oeste. Ele se irrita quando questionado pelo telefone sobre o negócio.

“Você [ininteligível] de falar para os outros que eu tenho casa para vender no Alphaville… do Marconi, rapaz?”, diz Cachoeira. “Pode de jeito nenhum falar que eu que tenho casa para vender.”

No início da semana, o blog QuidNovi divulgou o conteúdo de outro diálogo, em que o grupo de Cachoeira fala de uma entrega de dinheiro no palácio do governador, escondido numa caixa de computador.

A PF interceptou 12 conversas entre Cachoeira e seus assessores na qual tratam do assunto. Todas de junho de 2011. A PF desconfia que o dinheiro teria como destino final o governador Perillo.

“Cê contou?”, pergunta Cachoeira ao assessor. “Então lacra aí, entrega pro Gleybão entregar pro Wladimir lá na praça lá. Ele está lá na praça perto de palácio. Fala pra ele passar lá e deixar”, orienta o empresário.

Dois assessores de Perillo já foram afastados do governo por causa de suas relações com Cachoeira. A chefe de gabinete dele e o presidente do Detran também foram mencionados em conversas com o empresário.

via Folha de S.Paulo – Poder – Cachoeira mandou entregar dinheiro ‘para o governador’ – 28/04/2012.

Cachoeira deu dinheiro a assessor de senador, diz PF

FERNANDO MELLO, LEANDRO COLON e BRENO COSTA

Seis dias antes de sua prisão pela Polícia Federal, o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, entregou R$ 100 mil em dinheiro vivo a um assessor do senador Demóstenes Torres (ex-DEM), indicam relatórios da PF obtidos pela Folha.

Quem recebeu o montante foi o policial militar Hrillner Ananias, cedido pelo governo de Goiás para assessorar Demóstenes, a pedido do parlamentar -o que é permitido por lei. O policial deixou a função de assessor logo após a prisão de Cachoeira.

Os relatórios da PF e as escutas telefônicas em que são baseados oferecem os primeiros indícios de que Demóstenes recebeu dinheiro de Cachoeira, cujas relações com políticos e empresários são objeto de uma CPI instalada nesta semana no Congresso.

Por causa de sua ligação com Cachoeira, Demóstenes é alvo de uma investigação conduzida pela Procuradoria-Geral da República no Supremo Tribunal Federal e de um processo por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética do Senado, que pode levar à sua cassação.

A PF gravou quatro diálogos em que a entrega do dinheiro foi discutida, no dia 23 de fevereiro, das 12h39 às 13h18. As escutas, feitas com autorização judicial, indicam que Ananias foi à casa de Cachoeira buscar o dinheiro, entregue pela mulher do empresário, Andressa Mendonça.

“O Hrillner vai aí, dá 100, tá? Pra ele”, diz Cachoeira à mulher. Ao analisar o diálogo, o relatório da PF concluiu que “100″ são “R$ 100 mil”. Logo depois, Cachoeira fala com o assessor de Demóstenes: “Doutor Hrillner, vai lá com a Andressa lá, em casa, você vai lá? Fala com ela lá”.

O policial responde que estava resolvendo “um negócio pro chefe”, mas que depois pegaria o dinheiro.

Segundo resumo feito pela PF de outro diálogo ocorrido 15 minutos depois, “Cachoeira pede para Andressa contar o dinheiro na frente de Hillner” e “Andressa diz que vai dar a ele o dinheiro em notas de 50 que está embalado em plástico”. Na gravação, Cachoeira fala para a mulher contar as notas a serem entregues ao policial.

Logo depois, o policial liga para Cachoeira para dizer que estava a caminho. “Professor, só para informar, já estou a caminho tá?” O empresário responde a ele que “a Andressa já disponibilizou lá”.

O policial recebeu uma homenagem pública do ex-chefe em 2009, quando Demóstenes deu uma palestra a maçons de Goiânia num evento chamado “A Favor da Moralidade – contra a Corrupção”.

O site da loja maçônica onde ocorreu a palestra diz que Ananias, que é maçon, foi “muito bem referenciado” por Demóstenes no evento, em que o senador discursou sobre corrupção. “Temos que analisar a corrupção não só como o ato, que merece a pena, mas como aquele também que frusta o desejo de muitos.”

via Folha de S.Paulo – Poder – Cachoeira deu dinheiro a assessor de senador, diz PF – 27/04/2012.

A versão de Mino Pedrosa sobre o suborno que teria sido pago a Perillo

Mino Pedrosa, do site QuidNovi

Foi no Palácio das Esmeraldas que o governador de Goiás Marconi Perillo (PDSB) recebeu de Carlos Cachoeira um pacote de dinheiro com R$ 500 mil,numa caixa de computador,como parte do pagamento de “negócios” com o bicheiro.O dinheiro foi entregue por Wladimir Garcês, reconhecido por Perillo como amigo e presidente da Assembléia, só que Garcês se refere a Cachoeira como “chefe”.Fechamos o elo entre governador e contraventor.

Os agentes da polícia federal monitoraram todos os passos da entrega do dinheiro. Com áudio e vídeos.

O Quidnovi revela, com exclusividade, parte dos áudios  que flagram, a ligação entre o governador de Goiás  e o contraventor Carlos Cachoeira. O contraventor monitorou por telefone a entrega dos R$ 500 mil para Marconi, pedindo em tom de brincadeira que os comparsas tomassem cuidado para não se envolverem em acidentes de transito ” que possam incendiar e queimar as notas”

Enquanto isso, o governador de Goiás Marconi Perillo aguardava no Palácio das Esmeraldas ansioso.

Tudo isso e muito mais está dentro do processo da Operação Monte Carlo. O curioso é que o procurador geral da República Roberto Gurgel em nenhum momento pensa em denunciar governador de Goiás. Mas comentou com um dos procuradores do caso que está cada vez mais difícil deixar Perillo fora disso, por conta deste episódio no Palácio das Esmeraldas.

O inquérito que era extremamente sigiloso, hoje circula livremente nas mãos da imprensa e de políticos com interesse em pinçar adversários envolvidos no escândalo.

Leia a íntegra no Quid Novi.

Grupo enviou dinheiro a governo de GO, diz PF

Gravações feitas pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo levantam a suspeita de que o empresário Carlos Cachoeira enviou dinheiro, escondido numa caixa, para um integrante de seu grupo que estava na sede do governo de Goiás, comandado pelo tucano Marconi Perillo.

Segundo o site do jornalista Mino Pedrosa e a edição de ontem do “Jornal da Globo”, o valor enviado ao Palácio das Esmeraldas foi de R$ 500 mil.

As gravações foram feitas em junho do ano passado. Nelas, aparecem Cachoeira, Gleyb Ferreira da Cruz, um dos principais auxiliares do empresário, e Wladimir Garcez, ex-vereador de Goiânia e apontado como elo do grupo com políticos.

Nos diálogos, Cachoeira diz que mandará o “negócio” por Gleyb até Garcez, que estaria no palácio esperando por uma audiência com Perillo. Pelos áudios, não fica clara o dinheiro de fato chegou às mãos de qualquer pessoa do governo goiano.

O relatório da Polícia Federal apresenta os diálogos com o título: “Entrega de dinheiro no Palácio do governo de Goiás”.

Em nota divulgada ao “Jornal da Globo”, Perillo classificou a história como “irresponsável, leviana, inverídica e despropositada” e negou qualquer encontro no Palácio.

via Folha de S.Paulo – Poder – Grupo enviou dinheiro a governo de GO, diz PF – 26/04/2012.

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