Blog do Pannunzio

Polí­tica, economia, cultura segundo o jornalista Fábio Pannunzio

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Agradecimento

Agradeço aos leitores Big Head e Jotavê, que prontamente atenderam ao desafio do Blog e produziram  resenhas sobre as edições de Veja nominadas por Mino Carta com o propósito de demonstrar que não houve atrelamento da revista sob sua supervisão ao governo Médici. Os texto estão disponíveis para a consulta e a crítica na página principal do blog.

As conclusões de ambos, como eu previa, divergem frontalmente. Nelas estão contidos elementos de crítica e informação que certamente irão contribuir para ampliar a abordagem do que se passou na imprensa no ambiente tenso dos anos 60/70.

Louvo a iniciativa e o trabalho que ambos tiveram. Certamente deram uma grande contribuição,ampliando o horizonte da disucssão.

A vocês dois, muito obrigado.

Desafio ao leitor II: A reencarnação do servilismo, pelo leitor Big Head

Resenha produzida pelo leitor Big Head sobre as edições de Veja que Mino Carta cita para provar que não houve atrelamento da revista aos governos militares.

Crescimento econômico alicerçado na explosão do consumo e na fartura do crédito.

 Copa do Mundo.

 Críticas virulentas à imprensa por parte do governo.Anestesia ufanista.

Pra frente, Brasil!

Quem reclama “se volta contra sua pátria, na estratégia do quanto pior melhor”, diz o presidente.

 “Mino, o chefe quer uma imprensa livre, mas com responsabilidade” – diz um assessor.

Não, não estou a falar sobre os tempos lulistas. Retrocedam, por favor. Mais precisamente até a década de 70. O chefe do proto-Franklin Martins que proferiu traiçoeira frase acima deu nome a um dos bois cantados pelos Titãs, quase vinte anos depois: Emílio Garrastazu Médici.

“Veja não receia cometer um grande engano ao acreditar que não se trata de limitação alguma, mas apenas justa referência, de oportuno lembrete, de um generoso pedido de colaboração – a imprensa não pode e não deve esquecer suas responsabilidades” – aquiesceu o editor de Veja.

Qualquer semelhança entre este diálogo e o discurso que hoje sai da boca dos apoiadores do controle “social” da imprensa não é mera coincidência.    

Corte para hoje.

Consumismo insuflado e crédito expandido são os pilares da economia.  

Copa do Mundo e Olimpíadas.

Ataques à imprensa, que teria se juntado à zelite para tramar um golpe contra o Governo Operário e seu projeto de Brasil Gigante.

Torpor patriótico.

Nunca-antes-na-história-deste-país!

Quem critica o governo é direitista, reacionário, entreguista, elitista, fascista, preconceituoso, anti-isso, anti-aquilo.

Mais uma vez, de que lado está o Mino?

Com a comprovação de que sua sabujice atual remonta ao século passado, vitimizando-se, aponta a capa da edição número 1 da revista como prova de não alinhamento. Por exibir uma foice e um martelo? Não julguemos um livro pela capa. Lá dentro apenas uma reportagem descrevendo as fissuras do monólito comunista, como se isso não fosse do conhecimento geral pelo menos desde Kruschev, mais de uma década atrás. A propósito, por que isso incomodaria os milicos?

Ah, mas tem a corajosa edição de nº 66, recheada de denúncias! Como é que é? Como bem reconhece a reportagem, os rumores sobre tortura no Governo Médici – talvez o mais emblemático representante da ditadura – já ultrapassavam o sussurro das alcovas e partiam de todos os lados, órgãos da imprensa e da sociedade civil. O servilismo altivo de Mino Carta entrou no debate mais para abrir as páginas da revista para a versão governista e, obliquamente, rebater a tese de que a prática estaria institucionalizada, não passando de desvios pontuais e indesejáveis, que seriam combatidos pelo Governo Revolucionário (sic).

“A tortura constitui uma prática intolerável pelos homens de bem do mundo moderno”, disse o chefe do 3º Governo da Revolução.

Médici queria construir e não reprimir, e teria iniciado uma campanha contra tais práticas condenáveis. O problema é que não poderia as extinguir por decreto, tendo que lutar contra campos férteis e contra sementes prontas para a tortura.

Sei…

Folheando a edição mais para frente, nais uma coincidência, topo com  uma reportagem sobre mais que emprestou o nome para os bois titânicos: Antônio Delfim Netto. Ministro da Fazenda de então, hoje guru do governo em temas econômicos, espécie de ministro sem pasta e, não pasmem!, atual colunista do panfleto minocartiano.

 Até a schadenfreude com os problemas econômicos dos Istêites está lá, igualzinha a de hoje?  Quanta coincidência, não?

 Aristóteles afirmou que alguns homens são escravos por natureza, pois nasceram com espírito servil e nada poderá curá-los.

 Marx, por sua vez, tem uma frase que já virou clichê: a história se repete como farsa.

 Só mesmo o Mino Carta, com sua epopeia de operador de países baixos de inúmeros governos, conseguiria juntar estes dois pensamentos, afinal sua trajetória de servilismo ao Governo Lula nada mais é do que a reencarnação farsesca de sua atuação como jornalista nos tempos de Médici.

 Brasil, ame-o ou deixe-o. 

Desafio ao leitor: não houve atrelamento de Veja à Ditadura, pelo leitor Jotavê

Contribuição do leitor Jotavê em resposta ao desafio do Blog, que solicitou a dois comentaristas muito ativos uma resenha das edições de Veja que Mino Carta evoca como prova de que não houve atrelamento da revista à ditadura militar brasileira.

O primeiro número da revista Veja tem um caráter emblemático. Sinaliza claramente — no tom, no estilo e no conteúdo de suas matérias — a linha editorial que Mino Carta pretendia imprimir ao semanário. A matéria de capa fala sobre o esfacelamento do bloco soviético e o fracasso da economia planificada. Na seção de política nacional, o foco recai sobre uma ação repressiva da polícia contra estudantes universitários em Brasília, alegando (ao menos na superfície do texto) que houve excessos “dos dois lados”. Se retiramos a revista de seu contexto original, a impressão que fica é a de uma revista conservadora, subserviente mesmo à orientação marcadamente anticomunista da ditadura e leniente diante da brutalidade cada vez maior e mais descontrolada do aparato militar de repressão. Inserida em seu contexto original, no entanto, o retrato que emerge é completamente diverso.

Uma parte da equação é tão óbvia que deveria dispensar apresentações. Como, no entanto, vivemos tempinhos ideologicamente difíceis, em que as obviedades são desafiadas com insistência, valerá a pena dar-lhes uma acolhida protocolar. Toda ditadura impõe às oposições um mínimo de disfarce. Em 1968, ninguém saía por aí falando abertamente contra o regime sem sofrer conseqüências imediatas. Isso afetava o cinema, o teatro, a literatura, a música popular — os artistas passaram a desenvolver técnicas de embalar suas críticas em metáforas cada vez mais abstrusas, na tentativa de driblar os zelos da censura. No caso de um periódico de grande porte e circulação nacional, o problema ficava muitíssimo mais agudo. Algum grau de transigência era condição sine qua non para a sustentação do projeto. É isso que explica, por exemplo, menções quase elogiosas ao general Medici no contexto de uma matéria que, do começo até o fim, pisava diretamente no principal calo do regime: a tortura de presos políticos. Leiam este trecho, publicado no número 66 da revista: “Como Garrastazu Medici é o presidente da Revolução que quer ‘construir e não reprimir’, como é o homem que pretende lançar as bases para o ‘Brasil Grande’, para uma pátria mais generosa no ano 2000, ele iniciou a inevitável campanha contra as torturas.” O que é isso? Bajulação do regime militar? Puxação de saco do general que comandava um aparelho de repressão responsável por inúmeros assassinatos e torturas? Fora do contexto original, sem dúvida. Quando lemos a reportagem toda, no entanto, a resultante é claramente desfavorável ao regime, e o “elogio” ao presidente Medici transforma-se numa cobrança de coerência: “O senhor não diz que a revolução quer construir e não reprimir? Por que então permite que ocorram no país os fatos relatados nesta reportagem? Não é o senhor que fala num Brasil mais generoso? Que generosidade é essa que se traduz no pau-de-arara e na cadeira-do-dragão?”

Até aqui, o óbvio — aquilo que, se você não percebe sozinho, não há quem possa fazê-lo perceber. Mas há outra camada a ser descoberta nesses textos antigos, e esta é talvez a mais importante. A revista Veja trazia para o centro da discussão política um modo alternativo de ver o mundo, que não se confundia com o conservadorismo brucutu de Medici, nem com as alternativas tradicionais da esquerda que, poucas semanas depois da publicação daquele número inaugural, vaiaria o “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, e aclamaria histericamente o hino extra-oficial da guerrilha urbana composto por Geraldo Vandré. É nesse contexto — no contexto dessas oposições radicais, que hoje estão mais ou menos perdidas — que a manchete de capa do primeiro número (“O Grande Duelo no Mundo Comunista”) deve ser entendida. O que Mino Carta sinaliza, numa longa e bem documentada reportagem, é um novo rumo para a esquerda, desvinculado dos tradicionais alinhamentos com o “socialismo real”, e de maneira especial com o socialismo soviético. Denunciando o imperialismo russo no contexto da “União” das “Repúblicas” “Socialistas” Soviéticas, e a gritante ineficiência da economia planificada, ele não estava simplesmente fazendo eco ao anticomunismo vigente no Brasil de então. Estava dando razões “de esquerda”, digamos assim, para ser contra aquele modelo. O texto não fala a partir da perspectiva da política externa norte-americana. Dá voz a líderes de esquerda no interior de repúblicas rebeladas, e também a teóricos italianos, como Palmiro Togliatti, mostrando que havia alternativas interessantes fora da oposição diametral entre Garrastazu Medici e Carlos Marighella.

Essa talvez tenha sido a contribuição mais duradoura da revista para o debate nacional. Navegando como podia pelos mares procelosos da ditadura, Mino Carta arejou o debate político de um modo que só pode ser compreendido se não olhamos para o passado com os olhos do presente. Não estou dizendo que qualquer dessas idéias fosse nova. Nova era apenas a disposição de traçar novos limites ideológicos a partir de um órgão da grande imprensa com penetração nacional. E isso não foi pouco. Foi fundamental para formar toda uma geração que, anos mais tarde, formularia projetos políticos como os do PT e o do PSDB.

Encerro dizendo que é triste constatar que, hoje, voltamos a cultuar oposições diametrais superficialmente semelhantes àquelas que a revista Veja, em seus primeiros tempos, buscou superar. Digo que são apenas semelhantes na superfície porque as oposições de hoje, apesar de igualmente empobrecedoras, carecem até mesmo da base material sobre a qual floresceram suas antepassadas, durante a Guerra Fria. A diferença, hoje, entre o projeto político do PT e do PSDB diz respeito única e exclusivamente aos NOMES que deveriam ocupar o poder. Não há discordância significativa de fundo, ou, para ser mais exato, as discordâncias existentes entre um José Serra e um Pedro Malan são muitíssimo mais importantes e profundas do que as existentes entre José Serra e Dilma Rousseff, por exemplo. Como bem disse o ex-presidente Fernando Henrique, a briga não é ideológica; é pelo controle do Estado. Só isso. Nada mais. Nos idos de 68, a oposição era absolutamente real. Dizia respeito ao projeto de país que cada grupo tinha em mente. O controle do Estado era simplesmente o MEIO para derrotar o PROJETO adversário. Fazia todo sentido que, naquela época, as pessoas se xingarem, se ofenderem, atirarem pedras umas nas outras, lutarem pela destruição total do inimigo. Hoje, essa luta, reeditada por jornalistas que descem ao nível de animadores de auditório, tem um quê da história que se repete como farsa. É ridícula, pois é vazia. Por ser vazia, necessita de gritos cada vez mais altos, de palavras cada vez mais fortes, que mal disfarçam com a virulência sua própria falta de conteúdo. Pessoas inteligentes não se sujeitam a ser massa de manobra de chefes de torcida. Pensam. Refletem. Acima de tudo, DESPREZAM qualquer tentativa de manipulação ideológica. Quando você tem alguma coisa a dizer, diz em voz baixa. E quando você tem realmente capacidade de pensar, gosta de argumentos, e não de palavras de ordem.

Desafio aos leitores

Quero fazer um convite aos dois leitores mais ativos da área de comentários do blog: Big Head e Jotavê. Os dois têm uma visão política antagônica e duelam vigorosamente em torno das questões abordadas neste espaço.

Gostaria que ambos lessme as edições de Veja apontadas por Mino Carta como prova de que não houve alinhamento à ditadura militar brasileira. Estão no Arquivo Digital de Veja. As edições são as de número 1 (com a foice e o martelo na capa, de 11/09/68) e 66 (sobre a tortura, de 10/12/69).

Prometo publicar integralmente as conclusões de ambos. Vou sugerir um limite de 2 mil caracteres para que os textos se equivalham em tamanho.

Como tenho certeza de que eles vão topar o desafio, aguardo com ansiedade suas impressões para estampar aqui na página do blog.

 

Comissão da Verdade — Os arquivos demonstram o que Mino Carta fez em verões passados. Ou: O entusiasta da ditadura e da Oban

Reinaldo Azevedo

Paulo Henrique Amorim, o notório, de braços dados com Mino Carta, da mesma estatura, escreveu ao menos uma verdade na vida para exaltar o seu amigo, a saber:

“Como é de conhecimento do mundo mineral, quem fez a VEJA, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

De fato, nunca houve dúvidas de que era Mino quem mandava. Era Mino quem decidia. A função de patrão, para ele, era pagar as contas de seu brilho incomparável.

Hoje Mino é um “progressista”, um verdadeiro guia a orientar o jornalismo de esquerda. E odeia VEJA, como é sabido. Cumpre, então, deixar claro quais eram as escolhas do chefe inconteste enquanto esteve no comando da revista — aquela na qual ele não deixava Roberto Civita dar palpite. Enquanto escrevo, assobio mentalmente: “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei…”.

Na edição de 4 de fevereiro de 1970, a revista publicava uma reportagem, exaltada pelo diretor de Redação na Carta ao Leitor, devidamente assinada, sobre o famoso “roubo do cofre do Adhemar”. Na mesma edição, sob o pulso firme de Mino Carta, um outro texto detalhava os bastidores do desmantelamento dos grupos de esquerda.

Com o seu conhecido porte imperial e a notória intolerância com os que pensam de modo diferente — tanto é assim que não deixava nem mesmo o patrão dar pitaco na revista —, Mino cantou as glórias da Operação Bandeirantes, conhecida por torturar prisioneiros. Seguem alguns trechos verdadeiramente encantadores da obra deste que é hoje um oráculo do jornalismo que se quer “progressista” e de esquerda — desde que devidamente recompensado pelo estado, é claro.

Peço que vocês leiam atentamente estes dois trechos, um sequência do outro, em que Mino Carta exalta a eficiência da Oban. Volto em seguida:

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Voltei
Como este mundo pode ser pateticamente engraçado! Duas das organizações que estão no radar deste Colosso de Rhodes do jornalismo no texto acima são  o Colina e a VAR-Palmares, justamente os grupos a que pertenceu Dilma Rousseff, que havia sido presa 20 dias antes da publicação da reportagem — 16 de janeiro.Em 1970, com Dilma na cadeia, Mino vestia uniforme e batia continência para “tranquilizar a nação”. Quarenta e dois anos depois, com Dilma na cadeira presidencial, Mino põe no peito a estrela do PT e…, bem, continua a bater continência para o poder. Que talento inigualável para servir!

Grave
Não deve lhes escapar um detalhe: Mino elogia a decisão da Oban, conhecida por torturar prisioneiros, de esperar algum tempo para anunciar as detenções. Será que ele não se perguntava por quê? Enquanto as prisões eram mantidas na surdina, o que será que ofereciam aos detidos? Sorvete Chicabon? Vocês merecem ler mais algumas coisas, tudo absolutamente disponível no arquivo digital de VEJA. Era o tempo em que Mino mandava!

Mino ironiza os presos
Leiam estes dois fragmentos na sequência. Na legenda da segunda imagem, explico as circunstâncias.

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Como vocês leram, trata-se do relato de prisão por engano de um tenor. Teve de cantar para provar que falava a verdade. Mino achou a situação espirituosa e a usou como metáfora: afirmou que os presos pela Oban tiveram de “cantar música completamente diferente”. Como ele se acha dono de um humor sutilíssimo, deve ter achado um chiste engraçado. Está na edição de 17 de abril de 1969


Mino faz o elogio da Junta Militar

 

Sempre sem consultar ninguém, na mesma edição de abril de 1969, o hoje principal representante do “progressismo” elogia a Junta Militar e suas graves responsabilidades, inclusive a adoção da pena de morte.Sempre sem consultar ninguém, na mesma edição de abril de 1969, o hoje principal representante do “progressismo” elogia a Junta Militar e suas graves responsabilidades, inclusive a adoção da pena de morte.

Mino faz a apologia da democradura

Leiam os três textos em sequência. Na legenda do terceiro, explico as circunstâncias. Volto em seguida para encerrar.

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Notem que todo o encadeamento dado pelo maior gigante do jornalismo de todos os tempos flerta abertamente com a ideia de que a democracia, nos moldes tradicionais, não é muito adequada à realidade brasileira. Até porque o país tinha outra urgência: combater a subversão. Mino nunca foi partidário da ditamole. Ele gostava mesmo era de uma democradura.

 Voltei

A alguns desses trechos, o jornalista Fábio Pannunzio já deu destaque em seu blogue. A ditadura de Mino Carta em VEJA, felizmente, chegou ao fim nos primórdios de 1976, quando a revista, apesar da censura ainda vigente, inicia seu esforço para exercer a sua vocação original, penosamente distorcida pelo cesarismo cartiano. Refiro-me à defesa dos valores que a transformaram na maior revista do país e numa das maiores do mundo: a defesa da democracia e do estado democrático e de direito.

Algumas pantomimas só prosperam hoje em dia porque o passado de certos gigantes morais fica debaixo do tapete. O arquivo digital de VEJA já está há tempos no ar. O Estadão acaba de lançar o seu. É chegada a hora de revermos o passado de certos “progressistas” que andam por aí. Vocês nem imaginam quantas são as supostas “referências morais do jornalismo” que serviram de escribas entusiasmados do golpe militar de 1964. Alguns deles, ora, ora, pediriam mais tarde indenização ao estado porque supostamente “perseguidos”. E hoje, curiosamente, tentam esconder esse passado defendedo a revisão da Lei da Anistia. Eu, por exemplo, sou diferente: levei borrachada, fui fichado e sou contra a revisão. Mundo engraçado, né?

E para que não reste a menor dúvida: a censura impedia, sim, a publicação de muita coisa, mas não obrigava a publicar elogios. Os feitos por Mino Carta eram coisa de coração, de vocação, de gosto, de adesão a uma causa. E, como ele sempre fez questão de deixar claro, nunca deixou ninguém “dar palpite”. Foi obra de autor, como não cansa de se autoelogiar.

Collor volta a atacar revista e cobra comparecimento de editor à CPI

Integrante da CPI do Cachoeira, o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) fez ontem no plenário do Senado ataques à revista “Veja” e ao empresário Roberto Civita, editor do Grupo Abril.

Ao citar o jornalista Policarpo Júnior, chefe da sucursal de “Veja” em Brasília, o senador disse que a publicação utilizou-se do empresário Carlinhos Cachoeira “para obter informações e lhe prestar favores de toda ordem”.

Nas escutas legais da Operação Monte Carlo da PF, há diversas citações ao jornalista. Conversas diretas de Policarpo com o grupo de Cachoeira são duas. Segundo o delegado que conduziu a investigação, não há indícios de ligações que ultrapassem o contato entre jornalista e fonte.

Num ataque direto a Policarpo, o senador afirmou que “quando uma pessoa adere ao intento criminoso de outrem, torna-se coautor do crime”.

E prosseguiu: “Desafio o chefe maior desse grupelho, o senhor Roberto Civita, a comparecer também à CPMI para falar da coabitação que, a seu mando, a revista de sua propriedade e alguns de seus jornalistas mantem com o crime organizado”.

Procurada, a Editora Abril disse que não iria comentar.

Apesar das críticas, Collor disse ser um “defensor da liberdade de imprensa”.

Hoje senador, ele deixou a Presidência da República em 1992 devido a acusações de corrupção que surgiram na imprensa e que foram apuradas por uma CPI.

Beba na fonte: Folha de S.Paulo – Poder – Collor volta a atacar revista e cobra comparecimento de editor à CPI – 15/05/2012.

Cadê a provas da “conspiração golpista” da “velha mídia” ?

Quase dois meses já se passaram desde que vieram à baila as primeiras “informações” de que a Revista Veja e seu editor Policarpo Jr. estariam comprometidos com a quadrilha de Carlinhos Cachoeira em uma conspiração permanente com os governos petistas. A alegação chegou a desnortear os primeiros trabalhos da CPI instalada para investigar o bicheiro e foi usada como arma de ataque por gente como Fernando Collor, apeado do Poder, em boa medida, por uma reportagem da revista agora sob ataque severo.

Aos ressentidos com a imprensa formal se juntaram áulicos do movimento para melar o Mensalão. Foi um desastre: além de colocar na pauta diária a necessidade de julgar José Dirceu e seus quase 40 quadrilheiros, nada se comprovou sobre o envolvimento do “velha mídia” com os negócios da contravenção, como queria o chefe da gangue dos mensaleiros.

No arrasto da falsa crise aberta pela banda de música da BESTA na internet, os comentaristas pagos pelo governo para lustrar as teses de José Dirceu dediciram arrastar para a lama o Procurador-Geral da República Roberto Gurgel. É ele quem vai fazer a acusação contra o bando petista que arregimentava parlamentares corruptos com generosas mesadas desviadas dos cofres públicos. A manobra também se revelou desastrada: foi capaz de alinhar adversários na Corte Constitucional brasileira como Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa.

Sobre a campanha contra o jornalismo formal, o Blog do Pannunzio firmou posição no post intitulado As penas alugadas ao petismo e a máquina de demolir reputações. O que se seguiu desde a publicação desse texto só fez referendá-lo.

Ao mesmo tempo, a malha de blogs infamantes — aqui tratada como BESTA (Blogosfera Estatal) –, a despeito de sua desmoralização, continua se locupletando com o dinheiro que paga o aluguel de suas almas ao discurso do pior do petismo. Entes públicos como a ANP abriram a burra para a BESTA continuar amealhando umaa fração da renda que o contribuinte entrega ao fisco. Pode não ter havido nenhum ganho político para os detratores profissionais, mas com certeza  a pistolagem eletrônica seguiu auferindo lucros financeiros.

Nisso, a gendarmeria articulada por José Dirceu é, sem nenhuma dúvida, muito eficiente: em tomar dinheiro do governo.

Depoimentos à CPI do Cachoeira desmontam ofensiva de mensaleiros contra a imprensa

Daniel Pereira, Otavio Cabral e Laura Diniz, da Revista Veja

Fim da mentira: O delegado da PF Raul Marques (à esq.) em sessão secreta na CPI do Cachoeira: a relação entre o redator-chefe de VEJA e o contraventor era de jornalista e sua fonte de informaçõesFim da mentira: O delegado da PF Raul Marques (à esq.) em sessão secreta na CPI do Cachoeira: a relação entre o redator-chefe de VEJA e o contraventor era de jornalista e sua fonte de informações

Há vinte anos Pedro Collor deu uma entrevista a VEJA. As revelações originaram um processo que, sete meses mais tarde, obrigou seu irmão, Fernando Collor, a deixar a Presidência da República. Há sete anos, VEJA flagrou um diretor dos Correios embolsando uma propina. O episódio foi o ponto de partida para a descoberta do escândalo do mensalão, que atingiu em cheio o governo passado e o PT. Agora, Collor e os mensaleiros se unem contra a imprensa num mesmo front, a CPI do Cachoeira. Criada com o nobre e necessário propósito de investigar os tentáculos de uma organização criminosa comandada pelo contraventor Carlos Cachoeira, ela seria usada, de acordo com o roteiro traçado pelo ex-presidente Lula e pelo deputado cassado José Dirceu, como cortina de fumaça para o julgamento do mensalão. O plano era lançar no descrédito as instituições que contribuíram para revelar, investigar e levar à Justiça os responsáveis pelo maior esquema de corrupção da história do país. Tamanha era a confiança no sucesso da empreitada que o presidente do partido, Rui Falcão, falou publicamente dela e de sua meta principal: atacar os responsáveis pela “farsa do mensalão”. Tudo ia bem – até que os fatos se incumbiram de jogar o projeto petista por terra.

Na semana passada, dois delegados da Polícia Federal prestaram depoimento à CPI do Cachoeira. Eles foram responsáveis pelas operações Vegas e Monte Carlo, que investigaram a quadrilha do contraventor. A ideia dos radicais petistas e seus aliados era utilizar a fala dos policiais para comprometer o procurador-geral da República, Roberto Gurgel (que defenderá a condenação dos mensaleiros no julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal), o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo (transformado em inimigo figadal de Lula desde que declarou que o ex-presidente tinha conhecimento da existência do esquema) e a imprensa, que revelou o escândalo. Nesse último setor, como deixou clara a performance do ex-presidente Collor, encarnado na triste figura de office boy do partido que ajudou a tirá-lo do poder, o alvo imediato era o jornalista Policarpo Junior, diretor da sucursal de VEJA em Brasília e um dos redatores-chefes da revista. O primeiro depoimento foi do delegado Raul Alexandre Marques, que dirigiu a Operação Vegas. Marques disse aos parlamentares que entregou ao procurador Roberto Gurgel, em setembro de 2009, indícios de envolvimento de três parlamentares – incluindo o senador Demóstenes Torres – com a quadrilha de Cachoeira. Gurgel, conforme o delegado, não teria determinado a abertura do inquérito nem dado prosseguimento à apuração. Foi a deixa para que petistas dissessem que ele tentou impedir o desmantelamento de uma organização criminosa e, por isso, deveria ser convocado para depor na CPI. O procurador-geral da República reagiu. Na seara técnica, disse que não abriu inquérito a fim de permitir a realização da Operação Monte Carlo, que desbaratou o esquema de Cachoeira no início deste ano. No campo político, foi ainda mais incisivo. “O que nós temos são críticas de pessoas que estão morrendo de medo do julgamento do mensalão”, afirmou. Ao fustigarem o procurador na CPI do Cachoeira e venderem a tese de que ele não mereceria crédito por ter uma atuação política, mensaleiros e aliados levaram procuradores e ministros do STF a sair em sua defesa.

 

Ataque aos acusadores - Mensaleiros, que têm no petista Vaccarezza o seu porta-voz na CPI, queriam convocar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Ele defenderá a condenação dos réus do processo do mensalãoATAQUE AOS ACUSADORES – Mensaleiros, que têm no petista Vaccarezza o seu porta-voz na CPI, queriam convocar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Ele defenderá a condenação dos réus do processo do mensalão

Petistas, que chegaram a comemorar o resultado da primeira etapa do plano, agora já não demonstram o mesmo empenho para convocar Gurgel. Em uma conversa recente, o ex-ministro José Dirceu contou ao seu interlocutor o motivo do recuo. “O efeito foi o contrário do imaginado. A única consequência da CPI foi acelerar o processo do mensalão”, afirmou. Lula, o idealizador do plano, também já faz leitura semelhante. Para ele, a CPI do Cachoeira “tem de ficar do tamanho que está” – ou seja, limitar-se a investigar Cachoeira e seus tentáculos no Congresso e em governos estaduais. Da mesma forma, a ofensiva para desqualificar o trabalho da imprensa já não seria uma prioridade. “Não podemos fazer dessa CPI um debate político ou um acerto de contas entre desafetos”, afirmou o deputado Cândido Vaccarezza, do PT de São Paulo, espécie de porta-voz do grupo dos radicais. A declaração é uma guinada de 180 graus no discurso – guinada essa decidida apenas depois que os fatos, com sua persistente impertinência, se sobrepuseram aos interesses do partido.

Desde a prisão de Cachoeira, a falconaria petista seguiu a tática de disseminar mentiras e omitir uma parte, sempre a mais importante, da verdade. Para isso, não hesitou nem mesmo em recorrer a fraudes e manipulações nas redes sociais da internet . O grupo imputou à equipe de VEJA toda sorte de crimes, os quais, esperava, seriam pontuados pelos delegados da PF. E o que disseram os policiais em depoimentos à CPI? Que o jornalista Policarpo Junior aparece lateralmente nas interceptações telefônicas sempre no exercício da profissão, apurando e investigando informações, que não cometeu crime nem trocou favores com a quadrilha (veja o quadro na pág. 65) e que não trocou “mais de 200 ligações com Cachoeira”. Na Operação Monte Carlo, apenas dois telefonemas aparecem, segundo o delegado Matheus Rodrigues. Outros ingredientes fizeram a estratégia petista fracassar. O primeiro foi a dificuldade para encontrar aliados que se dispusessem a levar adiante os propósitos meramente políticos e revanchistas do partido. Diversas siglas, incluindo o PMDB, se negaram a aderir à trama. Como disse o senador Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais: “O que está em jogo é a democracia. No momento em que nós tivermos o Ministério Público Federal fragilizado e a imprensa cerceada, teremos a democracia em xeque”. Houve ainda a firme condução dos trabalhos da CPI pelo relator Odair Cunha (PT-MG), que não se dobrou às pressões de facções do seu partido, e a oposição contundente de Dilma Rousseff à estratégia dos radicais. A presidente considera que, a continuar na direção em que estava, a CPI poderá virar uma disputa de políticos corruptos contra seus acusadores. Dilma está irritada com o presidente do PT, Rui Falcão, que vem defendendo publicamente o ataque à imprensa. Na terça-feira, disse a um auxiliar: “Se algum ministro falar algo parecido com o que o Rui vem dizendo, vai para a rua na hora”.

Fotos: Orlando Brito, Bia Parreiras, Claudio Versiani, Roberto Stuckert/Ag. O Globo e Marcos Rosa

O ano em que o presidente caiu: Pedro Collor deu o pontapé inicial e os fatos fizeram o resto: PC Farias recolhia propina de empresários para cobrir os gastos de Collor, como no caso do famoso Fiat Elba; vinte anos depois do processo que o levou a renunciar ao mandato, o ex-presidente (à dir., com a ex-mulher Rosane, a "madame que gastava demais", nas palavras de PC) quer se vingar de quem o investigouO ANO EM QUE O PRESIDENTE CAIU - Pedro Collor deu o pontapé inicial e os fatos fizeram o resto: PC Farias recolhia propina de empresários para cobrir os gastos de Collor, como no caso do famoso Fiat Elba; vinte anos depois do processo que o levou a renunciar ao mandato, o ex-presidente (à dir., com a ex-mulher Rosane, a “madame que gastava demais”, nas palavras de PC) quer se vingar de quem o investigou

Que forças aparentemente tão antagônicas quanto Collor e os falcões do PT se juntem na CPI com o mesmo e nefasto propósito de desqualificar a imprensa livre pode parecer assustador, mas não deixa de ser também natural. Na política, as convicções balançam facilmente ao sabor das conveniências – para o bem ou para o mal, sendo que a segunda opção é mais frequente. Já na imprensa livre, os princípios não se sujeitam às circunstâncias. O dever de fiscalizar os governos vale para quaisquer governos. E, no caso de VEJA, ele foi levado a cabo com o mesmo rigor tanto na gestão lulo-petista quanto na cleptocracia de Collor. Em 2009, no julgamento que derrubou a Lei de Imprensa, o ministro Carlos Ayres Britto, hoje presidente do STF, usou uma frase de Roberto Civita, presidente do Conselho de Administração do Grupo Abril e editor da revista VEJA, para descrever a natureza da relação entre jornalistas e homens públicos: “Contrariar os que estão no poder é a contrapartida quase inevitável do compromisso com a verdade da imprensa responsável”.

Foi essa parte da imprensa, a responsável, que, diante do ataque perpetrado contra VEJA, ergueu a voz na semana passada na defesa dos princípios basilares do jornalismo. O jornal O Globo, em um editorial corajoso, criticou o que chamou de “campanha organizada contra a revista VEJA” feita por “blogs e veículos de imprensa chapa-branca que atuam como linha auxiliar de setores radicais do PT”. Escreveu O Globo: “A operação tem todas as características de retaliação pelas várias reportagens da revista das quais biografias de figuras estreladas do partido saíram manchadas, e de denúncias de esquemas de corrupção urdidos em Brasília por partidos da base aliada do governo”.

Fiscalizar os atos de governo foi uma função que surgiu praticamente junto com a imprensa. Durante a revolução inglesa, no século XVII, comerciantes e industriais insurgiram- se contra o poder absolutista dos reis. Defendiam a supremacia das leis em relação à vontade do monarca e o fortalecimento do Parlamento como forma de diminuir a corrupção na corte. Nascia assim o conceito de accountability, ou o dever dos governantes de prestar contas à população. Para divulgarem suas ideias, os insurgentes ingleses usavam papéis impressos em uma máquina inventada dois séculos antes, a prensa tipográfica, que passou a produzir os primeiros jornais.

Ailton de Freitas/ Ag. O Globo, Tasso Marcelo/AE, Beto Barata/AE

Os réus: Jefferson, Dirceu, Delúbio e Valério devem ser julgados em breve pelo STF. A denúncia que deu origem ao processo partiu de VEJA, com prova em vídeoOs réus: Jefferson, Dirceu, Delúbio e Valério devem ser julgados em breve pelo STF. A denúncia que deu origem ao processo partiu de VEJA, com prova em vídeo

No que se refere às suas instâncias fiscalizatórias, o Brasil já atingiu um patamar seguro. É uma situação diferente da que existia no tempo do processo de impeachment de Collor, quando o país vivia uma espécie de “lacuna fiscalizatória”. A Constituição havia sido promulgada recentemente e o aparato estatal de autodepuração era ainda incipiente. O Ministério Público, por exemplo, estava assimilando seu novo papel de representante da sociedade, e não do estado, e a Polícia Federal apenas começava a se livrar da poeira autoritária que a recobria. Mas, ainda que as instituições tenham amadurecido, elas sozinhas não bastam para assegurar a vigilância constante sobre os governos e os homens públicos. Sua natureza as obriga a se mover vagarosamente. “Por esse motivo, o papel de precursor das denúncias não costuma ser das instituições públicas, mas da imprensa”, diz Alexandre Camanho, presidente da Associação Nacional de Procuradores da República.

O jornalismo brasileiro vem cumprindo com vigor sua missão de revelar os casos de desídia e corrupção na esfera pública. Nos últimos anos, têm sido inúmeros os registros de parlamentares, prefeitos, governadores e ministros obrigados a deixar o cargo em razão de revelações feitas pela imprensa e comprovadas pelas autoridades. A imprensa livre não é ideológica. Não persegue indivíduos nem empreende cruzadas contra partidos ou administrações. Ela se volta, sim, contra os que, no poder, se dedicam à prática de espoliar o bem público, guiados pela presunção da impunidade e pela convicção de estarem acima do bem e do mal. Se alguma lição pode ser tirada até agora do último escândalo em curso na República, ela pode ser resumida em mais uma frase do ministro Ayres Britto: “À imprensa cabe vigiar o estado – nunca o contrário”.

Fatos e fitas

ELIANE CANTANHÊDE

Se alguém está entendendo a aliança entre Fernando Collor e o PT para transformar a CPI do Cachoeira em CPI da imprensa, por favor, explique. “Se a mídia quer guerra, vai ter guerra”, ameaça um senador petista, segundo o Painel. Afinal, quem quer guerra?

O impeachment de Collor foi por causa da imprensa, do PT ou dos dois? Será que ele não tinha culpa no cartório nem ficou isolado no Congresso e na sociedade?

O mensalão foi fruto da imaginação coletiva da imprensa? Ninguém estava comprando e vendendo votos no Congresso e nos partidos? E nunca houve “aloprados”?

Waldomiro Diniz, então braço direito do braço direito de Lula, José Dirceu, foi ou não foi filmado pedindo propina justamente para o agora famoso Carlinhos Cachoeira?

Antonio Palocci dividia ou não uma casa esquisitona com uma gente mais esquisitona ainda no bairro mais nobre de Brasília? Usou ou não o seu poder de governo para violentar o sigilo bancário de um caseiro?

Palocci multiplicou ou não o seu patrimônio muitas vezes no ano em que era coordenador da candidatura de Dilma? E comprou ou não um apartamento de quase R$ 7 milhões em São Paulo?

E a Erenice? E os ministros todos que ruíram como num castelo de cartas? Foi culpa da imprensa? Eles não fizeram nada de errado? Então por que Dilma acatou a demissão e ainda capitalizou a imagem da “faxina”?

Afinal, Collor e o PT estão guerreando contra que mídia, e por quê? A não ser que tentem descontar nos outros as próprias culpas. Vá saber.

Se jornalistas ganharam dinheiro, vantagens e favores de Cachoeira, que sejam investigados e punidos. Mas, se usaram fitas verdadeiras do esquema, por exemplo, mostrando Waldomiro com a boca na botija, apenas fizeram jornalismo.

Contra fatos -e fitas- não há argumentos. O resto é chiadeira, retaliação e guerra, com mensalão e morte de Celso Daniel em julgamento…

via Folha de S.Paulo – Opinião – Fatos e fitas – 10/05/2012.

O repórter e o promotor, por Carlos Brickmann

Carlos Brickmann, no Blog do Noblat

Grupos empresariais e jornalistas que se intitulam progressistas vislumbram na CPI uma oportunidade de atingir a revista Veja e seu diretor de Redação em Brasília, Policarpo Jr.

O motivo é curioso: nas gravações dos telefonemas de Carlinhos Cachoeira, o bicheiro afirma que foi o fornecedor de várias notícias divulgadas por Policarpo. Mas afirma também que Policarpo não é gente sua: só publica o que confirma e acha que vale a pena.

O ex-ministro José Dirceu tem dito que frases desse tipo indicam que Policarpo Jr. e a Veja têm relações com o crime organizado. “Jornalistas progressistas”, seja lá isso o que for, afirmam que a Folha de S.Paulo e O Globo blindam a Veja nas investigações.

Besteira: se algum jornalista ou alguma empresa tem relações com o crime organizado, o caminho não é esse. Jornalista se relaciona com todo tipo de gente para obter informações; e esse relacionamento só é incorreto se envolver subordinação à fonte (e, no caso, é incorreto mesmo que a fonte seja um Prêmio Nobel) ou o recebimento de favores, presentes ou pagamentos.

Quem quiser informações de bandidos, para elaborar o noticiário, tem de relacionar-se com bandidos. Não é o caso de um promotor, ou de um juiz, cujos contatos precisam ser cuidadosamente selecionados, e que podem perfeitamente encontrar-se com autores de malfeitos na sala do tribunal.

Personalizando, Policarpo Jr. pode, sem problemas, ter relacionamento com Carlinhos Cachoeira; já Demóstenes Torres não podia. Aliás, há mais gente que não deveria relacionar-se com empresários zoológicos e o fez. Se a CPI correr solta, se a Polícia Federal abrir de vez o inquérito, o Brasil vai ferver.

A propósito, este colunista não acredita que o Brasil vá ferver.

via O repórter e o promotor, por Carlos Brickmann – Ricardo Noblat: O Globo.

Delegados diz em depoimento que relação entre Cachoeira e Veja é “de fonte”

O delegado Raul Souza respondeu ontem a questionamentos de petistas e do senador Fernando Collor (PTB-AL) sobre a relação de Carlinhos Cachoeira e a mídia.

Questionado se havia “matérias encomendadas” por Cachoeira na revista “Veja”, o delegado disse que há várias conversas entre o empresário e o diretor da publicação em Brasília, Policarpo Júnior, mas que elas denotam apenas relação entre repórter e fonte.

Souza também citou grampo na qual Cachoeira diz que vai entregar uma gravação provando compra de votos numa cidade de Goiás à Rede Globo, sem outra referência sobre o que ocorreu.

Por fim, o delegado relatou que há conversas em que Cachoeira cita pagamentos a dois jornais de Goiás, o “Opção” e o “Diário da Manhã”, mas não fica claro do que se trata.

Um jornalista da segunda publicação, disse o empresário, estaria em sua folha de pagamento. O delegado disse não saber a veracidade do relato. Os dois jornais, procurados, não responderam.

Setores do PT têm como estratégia a tentativa de desqualificar órgãos de imprensa às vésperas do julgamento do mensalão. Já Collor, que sofreu impeachment em 92 após reportagens que alimentaram uma CPI, tem feitos seguidos ataques à imprensa.

via Folha de S.Paulo – Poder – Relação da mídia com Cachoeira é alvo de perguntas – 09/05/2012.

Roberto Civita não é Rupert Murdoch

Editorial do jornal O Globo

Reprodução do Blog do Noblat

Blogs e veículos de imprensa chapa branca que atuam como linha auxiliar de setores radicais do PT desfecharam uma campanha organizada contra a revista “Veja”, na esteira do escândalo Cachoeira/Demóstenes/Delta.

A operação tem todas as características de retaliação pelas várias reportagens da revista das quais biografias de figuras estreladas do partido saíram manchadas, e de denúncias de esquemas de corrupção urdidos em Brasília por partidos da base aliada do governo.

É indisfarçável, ainda, a tentativa de atemorização da imprensa profissional como um todo, algo que esses mesmos setores radicais do PT têm tentado transformar em rotina nos últimos nove anos, sem sucesso, graças ao compromisso, antes do presidente Lula e agora da presidente Dilma Roussef, com a liberdade de expressão.

A manobra se baseia em fragmentos de grampos legais feitos pela Polícia Federal na investigação das atividades do bicheiro Carlinhos Cachoeira, pela qual se descobriu a verdadeira face do senador Demóstenes Torres, outrora bastião da moralidade, e, entre outros achados, ligações espúrias de Cachoeira com a construtora Delta.

As gravações registraram vários contatos entre o diretor da Sucursal de “Veja” em Brasília, Policarpo Jr, e Cachoeira. O bicheiro municiou a reportagem da revista com informações e material de vídeo/gravações sobre o baixo mundo da política, de que alguns políticos petistas e aliados fazem parte.

A constatação animou alas radicais do partido a dar o troco. O presidente petista, Rui Falcão, chegou a declarar formalmente que a CPI do Cachoeira iria “desmascarar o mensalão”.

Aos poucos, os tais blogs começaram a soltar notas sobre uma suposta conspiração de “Veja” com o bicheiro. E, no fim de semana, reportagens de TV e na mídia impressa chapas brancas, devidamente replicados na internet, compararam Roberto Civita, da Abril, editora da revista, a Rupert Murdoch, o australiano-americano sob cerrada pressão na Inglaterra, devido aos crimes cometidos pelo seu jornal “News of the World”, fechado pelo próprio Murdoch.

Comparar Civita a Murdoch é tosco exercício de má-fé, pois o jornal inglês invadiu, ele próprio, a privacidade alheia.

Quer-se produzir um escândalo de imprensa sobre um contato repórter-fonte. Cada organização jornalística tem códigos, em que as regras sobre este relacionamento — sem o qual não existe notícia — têm destaque, pela sua importância.

Como inexiste notícia passada de forma desinteressada, é preciso extremo cuidado principalmente no tratamento de informações vazadas por fontes no anonimato.

Até aqui, nenhuma das gravações divulgadas indica que o diretor de “Veja” estivesse a serviço do bicheiro, como afirmam os blogs, ou com ele trocasse favores espúrios. Ao contrário, numa das gravações, o bicheiro se irrita com o fato de municiar o jornalista com informações e dele nada receber em troca.

Estabelecem as Organizações Globo em um dos itens de seus Princípios Editoriais: “(…) é altamente recomendável que a relação com a fonte, por mais próxima que seja, não se transforme em relação de amizade. A lealdade do jornalista é com a notícia”.

E em busca da notícia o repórter não pode escolher fontes. Mas as informações que vêm delas devem ser analisadas e confirmadas, antes da publicação. E nada pode ser oferecido em troca, com a óbvia exceção do anonimato, quando necessário.

O próprio braço sindical do PT, durante a CPI de PC/Collor, abasteceu a imprensa com informações vazadas ilegalmente, a partir da quebra do sigilo bancário e fiscal de PC e outros.

O “Washington Post” só pôde elucidar a invasão de um escritório democrata no conjunto Watergate porque um alto funcionário do FBI, o “Garganta Profunda”, repassou a seus jornalistas, ilegalmente, informações sigilosas.

Só alguém de dentro do esquema do mensalão poderia denunciá-lo. Coube a Roberto Jefferson esta tarefa.

A questão é como processar as informações obtidas da fonte, a partir do interesse público que elas tenham. E não houve desmentidos das reportagens de “Veja” que irritaram alas do PT.

Ao contrário, a maior parte delas resultou em atitudes firmes da presidente Dilma Roussef, que demitiu ministros e funcionários, no que ficou conhecido no início do governo como uma faxina ética.

via Roberto Civita não é Rupert Murdoch (Editorial) – Ricardo Noblat: O Globo.

Veja: Uma CPI para investigar a farra entre o público e o privado

Daniel Pereira, Otávio Cabral e Rodrigo Rangel

A CPI para investigar as relações do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlos Cachoeira, com políticos e empresas que têm contratos com a administração pública saiu do papel em alta velocidade. A gravidade dos fatos levantados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público — o pagamento de propina a autoridades, a troca de favores entre a máfia do jogo e parlamentares e a assinatura de contratos públicos azeitados à base de tráfico de influência — produziu um fato raríssimo: a instalação da CPI contou com o apoio de governistas e oposicionistas. O Congresso deu mostras de disposição para fiscalizar a aplicação dos recursos públicos, uma de suas mais nobres missões. Se nasceu sem dores, a CPI começou a caminhar com dificuldades. Aprovado na quarta-feira passada, o plano de trabalho da comissão apenas tangencia o epicentro das irregularidades apontadas pelos policiais federais e pelos procuradores. A CPI decidiu ouvir os coadjuvantes das malfeitorias, mas, por enquanto, vacila em chamar para depor deputados e governadores suspeitos de manter relações promíscuas com Cachoeira e a empreiteira Delta, um colosso da construção civil com obras contratadas por governos do PT, do PSDB e do PMDB.

A desenvoltura multipartidária da Delta explica o começo claudicante da CPI que nasceu com o potencial de fazer uma faxina pública como não se via desde que o escândalo do mensalão foi destrinchado, em 2005, com o indiciamento de cerca de uma centena de pessoas. O deputado petista Odair Cunha, relator da CPI, tentou limitar geograficamente as investigações sobre a Delta e suas obras no Centro-Oeste. O ex-diretor da empreiteira para aquela região, Cláudio Abreu, está preso. O plenário da comissão, no entanto, arrancou do relator a promessa de investigar a atuação da Delta em todo o território nacional. Está pronto para votação o requerimento de convocação do dono da Delta, Fernando Cavendish, e de diretores regionais da empresa.

“A base governista foi derrotada. Vamos investigar os aditivos nos contratos da Delta com o Dnit, principalmente aqueles assinados em períodos eleitorais”, avisa o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS). Quando isso será feito — e se realmente será feito, devido às ligações também multipartidárias de Cavendish — ainda não está definido. A comissão ouvirá neste mês os depoimentos de delegados e procuradores envolvidos na investigação, seguidos de Cachoeira e seus comparsas presos. O único político com depoimento marcado é o senador goiano Demóstenes Torres, o, por enquanto, mais notório membro do esquema de Cachoeira. O Senado abriu um processo por quebra de decoro contra ele, que pode comparecer à comissão já na condição de parlamentar cassado (leia a reportagem aqui). Ou seja: tem-se definida apenas a primeira fase da investigação, que tratará de temas e personagens cujos feitos e malfeitos são de conhecimento público. Nada além disso. Segundo o presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), a segunda fase aumentará a temperatura dos trabalhos. Nela, será travada a “grande batalha” pela convocação das autoridades de maior calibre. “O vazamento das informações impede a costura de acordões para abafar a investigação ou poupar autoridades”, diz Vital.

Além de Fernando Cavendish, os governadores Sérgio Cabral (PMDB-RJ), Marconi Perillo (PSDB-GO) e Agnelo Queiroz (PT-DF) e pelo menos cinco deputados federais ainda não foram convocados para prestar esclarecimentos. Sobre muitos deles há uma fartura de indícios de envolvimento com o esquema. Por enquanto, a CPI vai se concentrar no que já foi revelado. Mas não há garantia de que o universo da apuração fique restrito. O plano de trabalho de Odair Cunha deixa brechas para investir sobre qualquer tema: políticos, procuradores, empreiteiras e até a imprensa. Não está fechada, portanto, a porta aberta pelo PT para desqualificar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, defensor da condenação dos mensaleiros no Supremo Tribunal Federal, e a parte da imprensa que, segundo o ex-presidente Lula, ajudou a montar a “farsa do mensalão”. “Todas as pessoas que foram corrompidas ou cooptadas pela organização criminosa têm de ser investigadas. Não haverá blindagem nem proteção a quem quer que seja”, disse Odair.

Hoje, há pelo menos duas ofensivas em marcha para pôr cabresto na CPI. A presidente Dilma Rousseff não quer que a comissão seja usada com os fins estritamente políticos planejados pela falconaria petista. Ela tem dito que teme que a comissão domine a agenda política, paralise o Congresso e prejudique ações do governo. Além disso, afirma não ter receio de que as investigações atinjam seu governo e lembra que, se atingirem, não se furtará a demitir os envolvidos com culpa provada — aliás, como vem agindo desde o início do mandato, o que é um dos motivos de sua expressiva aprovação popular.

A Delta tem contratos com governos de todas as cores. Algumas dessas relações já foram reveladas, o que deixou na berlinda políticos de primeira grandeza do PT, PMDB, PSDB e DEM. O campo já era fértil para um acordo velado, que vinha sendo costurado às sombras. Mas a entrada de Sérgio Cabral no palco das investigações tornou as negociações para abafar o escândalo político mais explícitas. Há dez dias, o blog do deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), adversário político de Cabral, publica fotos e vídeos de viagens do governador, sua mulher e seus secretários mais próximos com Fernando Cavendish a Paris e Mônaco. Em hotéis e restaurantes de luxo, o grupo comemora aniversários, noivados, casamentos e conquistas políticas e comerciais. Cabral, considerado um estranho no ninho do PMDB, teve de procurar a cúpula do partido na semana passada para pedir socorro. Em conversas com o presidente do Senado, José Sarney, e com os líderes Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves, ele disse não estar preocupado com uma investigação policial, pois os vídeos não comprovam irregularidades. Mas deixou claro que teme o estrago político que uma exibição desse material, seguida de um depoimento à CPI, possa provocar. “Preciso da ajuda do partido. Se eu tiver de depor na CPI, não será bom para ninguém”, ponderou Cabral. A cúpula do PMDB aproveitou o pedido do governador para tentar negociar um armistício com o PT e o PSDB.

Nas conversas, já surgiu até uma manobra jurídica para empastelar as investigações. A tese que será levantada é a de que uma CPI do Congresso não tem poder legal para investigar governadores. Os foros para esse tipo de apuração seriam as assembleias legislativas, não por acaso controladas pelos governadores. É pouco provável que uma argumentação tão frágil prospere se a CPI tiver mesmo disposição de elucidar os fatos denunciados. Muito provavelmente, o fator de diminuição do escopo da CPI virá não da Justiça, mas da política. O senador José Sarney já recomendou ao PT que “controle os radicais”, argumentando que “ninguém tem a ganhar se essa CPI começar a sair do controle”. O recado tem endereço certo: a turma que vê na CPI uma chance única de desmoralizar o julgamento do mensalão. A primeira ofensiva desse grupo foi dada na sessão da semana passada, com a tentativa de convocação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, para depor na CPI. Sob o argumento de que ele deve explicar por que retardou a abertura de uma investigação contra Demóstenes Torres, os petistas querem colocá-lo no banco dos réus da CPI para tentar desmoralizá-lo. A imprensa é outro alvo que, na estratégia dos radicais, precisa sair chamuscada da CPI. O presidente do PT, Rui Falcão, deixou mais uma vez clara essa convicção na sexta-feira quando, em discurso feito em São Paulo, voltou a defender o projeto de regulamentação dos meios de comunicação, um eufemismo para a tentativa de controlar a imprensa idealizado pelo ex-ministro da Comunicação Social Franklin Martins. Para Falcão, “a mídia é um poder que está conjugado ao sistema bancário e financeiro” e “produz matérias e comentários não para polarizar o país, mas para atacar o PT e nossas lideranças”.

O cenário inicial da CPI do Cachoeira é muito semelhante ao da CPI dos Correios, instalada em 2005 a partir da gravação na qual Maurício Marinho, diretor da estatal, cobrava 3 000 reais de propina, o que deu origem à descoberta de novos fatos envolvendo dinheiro público e compra de apoios pelo governo. Aquela CPI nasceu com o intuito de blindar os aliados do governo e era controlada por parlamentares fiéis ao Palácio do Planalto. Exatamente como agora. Também tinha o mesmo prazo de atuação: 180 dias. Mas, logo no início dos trabalhos, depoimentos bombásticos, como o do deputado Roberto Jefferson e o do marqueteiro Duda Mendonça, incendiaram a comissão e provocaram uma indignação popular que impediu qualquer tipo de acordo. A atual comissão também tem fios desencapados e personagens que podem contar muita coisa. Cachoeira e Cavendish, por exemplo. Com uma matéria-prima mais modesta do que a produzida pelas operações da PF, a CPI dos Correios produziu a denúncia do mensalão, a cassação de José Dirceu e Roberto Jefferson e a renúncia de meia dúzia de políticos, além de tisnar a imagem imaculada de virgem ética do PT. A CPI do Cachoeira, com seu farto material, tem potencial ainda maior. Basta que não se torne refém de arranjos políticos.

Leia a íntegra no site de Veja

As penas alugadas ao petismo e a máquina de demolir reputações

O leitor que se quer bem-informado deve estar atônito com a lama que escorre no entorno da CPI do Cachoeira. A imprensa brasileira — aí compreendidas todas as publicações, nos veículos formais e também na internet — parece ter sido tomada por escribas ora a serviço da quadrilha do bicheiro Cachoeira, ora a serviço da quadrilha do mensaleiro Zé Dirceu.  A disputa nas várias mídias parece ser em torno de quem representa melhor os interesses espúrios das hordas de bandidos que se acercaram do Poder.

O grande esforço da BESTA (Blogosfera Estatal), neste momento, é para comprovar que a Revista Veja, na pessoa de seu editor Policarpo Jr., estava a serviço do submundo da espionagem e à disposição da interface parlamentar da organização, capitaneada pelo ainda senador Demóstenes Torres.

Do outro lado, jornalistas de grandes veículos e blogues a eles vinculados (chamados de PIG pela BESTA) tentam desmontar o jogo de manipulação de colegas regiamente pagos — e isso é inquestionável — pelo dinheiro público para mover uma campanha de desmonte da “velha mídia”, ou do jornalismo formal, como queiram.

Em meio a essa confusão, surgem outros atores, que passam a duelar publicamente, difundindo informações que põe em xeque a lisura das apurações e das intenções de seus contendores. Na contradita, os injuriados do outro lado apresentam argumentos de que seus novos desafetos estão igualmente comprometidos com uma ou outra vertente derivada do problema. E isso faz com que todos os jornalsitas pareçam iguais aos olhos do público, o que não é verdade.

Vou tratar aqui do caso Policarpo. Há cerca de um mês o editor de Veja em Brasília está sob fogo cerrado. Primeiro, falava-se que ele tinha trocado cerca de 200 telefonemas com os arapongas de Carlinhos Cachoeira. Se não serviu para condená-lo definitivamente, a quantidade de conversas apresentadas o incriminava de maneira contundente. Nada, além de suposições perniciosas, demonstrava que havia algo errado na relação entre o jornalista e suas fontes.

Quando a íntegra do inquérito contra Demóstenes vazou, uma vez mais não havia ali qualquer indício de anomalia nessas relações. O que ficou comprovado, entao, foi que Policarpo recebeu informações dos arapongas de cachoeira e as utilizou em benefício do interesse público. Foi assim com a cena da propina paga a um dirigente dos Correios que despertou a fúria de Roberto Jefferson, e que serviu para desbaratar a quadrilha dos mensaleiros arregimentada por José Dirceu. Foi assim mais tarde, quando se descobriu que o “chefe da quadrilha” havia transformado a suíte de um hotel de Brasília em gabinete do governo paralelo que, sob Lula, o mesmo Dirceu continuava comandando.

A esta altura, sabe-se que os arapongas de Cachoeira comentavam em suas conversas pornográficas os resultados que esperavam advir da publicação do material que haviam fornecido ao jornalista. Isso, nem de longe, leva a qualquer indício de atrelamento entre o repórter e o esquema que os inimigos da liberdade de imprensa pretendem implodir. Apesar disso, a BESTA continua tentando colecionar elementos que possam referendar sua teoria conspiratória com recortes das gravações vazadas do inquérito da PF.

Ao mesmo tempo, o que se pode comprovar é que o time que ataca o jornalismo formal — ele mesmo composto por jornalistas que perderam espaço da grande imprensa e ocupam hoje posições terciárias em veículos aparelhados pelo pior do petismo — está claramente comprometido com um lado do problema.

E os interesses podem ser vistos a olhos nus, sem a necessidade de lentes ideológicas ou doutrinárias. É o caso notório do chefe da claque da BESTA na internet, Paulo Henrique Amorim, cujo discurso paranoico é financiado por empresas estatais como o Banco do Brasil, a CEF e a PETROBRAS. A respeito disso, o Blog do Pannunzio descobriu que, só em contratos  firmados com a CEF, o governo Tarso Genro e os Correios, Paulo Henrique Amorim se transformou num gênio financeiro da “nova mídia”, com faturamento de quase R$ 1 milhão desde o ano passado. As informações foram confirmadas por fontes oficiais e não houve nenhuma contestação ou desmentido.

O trabalho a que se propõem os arautos do fim do jornalismo, no entanto, não se limita ao ataque institucional. Para demolir a Imprensa, é preciso dinamitar reputações. É a isso que se dedicam com muito afinco os atores secundários do esquema da BESTA nesse dias de conturbação absoluta.

A investida não constitui propriamente uma novidade. O método é o mesmo de 2009, quando a organização que chamo de BESTA criou seu know-how de injuriar em série. A estratégica consiste em repercutir ao máximo “informações reveladoras” que um dos militantes “descobre” invariavelmente na internet, em investigações pífias e cheias de problemas éticos, até que o assunto “denunciado”se transforme em “verdade absoluta” e, em seguida, em fato político. É sempre assim, não importando se o objeto da denúncia é ou não verdadeiro — ou quiça verossímil.

Uma das primeiras vítimas do esquema dos detratores profissionais da BESTA foi o jornalista Heraldo Pereira. Em maio de 2009, ele ocupou a posição em que hoje está Policarpo Jr. A história vem sendo contanda por este blog desde então. Sinteticamente, Heraldo foi acusado de trabalhar para o então presidente do STF, Gilmar Mendes, que era a quem se pretendia atingir. As “provas”contra ele foram coletadas pelo site Cloaca News, organizadas em formato de reportagem por Luis Carlos Azenha e, na sequência, passaram a servir como munição para Paulo Henrique Amorim atacá-lo até a insanidade das injúrias raciais, que já lhe custaram uma indenização de R$ 30 mil e um recalcitrante pedido de desculpas publicado em dois grandes jornais brasileiros.

Para construir a série de injúrias, a BESTA ignorou pressupostos elementares do Código de Ética dos jornalistas, como ouvir o outro lado. Isso apesar de Heraldo ter sido muito próximo de um de seus detratores — foi ele quem indicou Azenha para a Rede Manchete,  onde consolidou sua carreira. A história é contada pelo próprio Azenha, em julho de 2010, conforme o trecho que reproduzo abaixo:

Um dia, estudante em São Paulo e desempregado, passei pela entrada do Hospital das Clínicas, onde Tancredo Neves estava moribundo, e encontrei o Heraldo Pereira, então repórter da TV Manchete, que me disse que a emissora tinha vaga para repórter (àquela altura eu já tinha quatro anos de experiência em TV, o que incluia longos meses cobrindo férias na Globo de São Paulo, com muitas reportagens em jornais de rede e algumas no Jornal Nacional).

Fui contratado.

Vinte e cinco anos depois, nem a gratidão motivou Azenha a cumprir o dever ético de ouvir o outro lado antes de condenar o colega. Em seu blog, depois de apresentar como verdades as denúncias falsas dos outros blogues coligados à BESTA, Azenha escreveu o seguinte:

“Tendo em vista que Gilmar Mendes teve participação direta e decisiva na polêmica que levou ao afastamento de Paulo Lacerda da ABIN, você considera que Heraldo Pereira deveria ter revelado que é funcionário de Gilmar antes ou depois do comentário que fez a respeito de Lacerda no Jornal da Globo?”

Aí está a soma de mentiras rematadas transformada em verdade absoluta pelos inimigos da imprensa livre. O post sumiu do site de Azenha, mas ainda pode ser lido no webarchive.org. O link está aqui. As aleivosias jamais foram objeto de um desmentido. Heraldo suportou um período terrível de provações até conseguir a primeira reparação — a sentença que obrigou PHA a se retratar e a indenizá-lo. E ainda aguarda a condenação do editor do Conversa Afiada por crime de racismo, que deve acontecer antes do recesso forense.

Hoje, é Policarpo Jr. quem está no alvo das penas alugadas da BESTA. Contra ele erguem-se suspeitas infundadas construídas sobre falaciosos recortes da investigação. Até agora, no entanto, não há uma evidência sequer de que o editor de Veja tenha oferecido qualquer contrapartida a suas fontes, muito menos que tenha de alguma forma auferido qualquer  tipo de vantagem pessoal a partir das relações com o submundo da espionagem de Cachoeira.

Para quem prometia revelações bombásticas nos “200 telefonemas”, o resultado do frenético CTRL-C/CTRL-V nos inquéritos vazados é pífio. Onde estão os elementos que levam à suposição de que Veja planejava golpear o governo Lula ? Onde estão as provas de que Policarpo era parte do esquema Cachoeira, como muitas vezes a BESTA tem sugerido e afirmado em suas copiosas páginas de aleivosias ? Simplesmente não há.

Em compensação, repito, há evidências de sobra de que a Blogosfera Estatal acumula privilégios e vantagens no acesso aos cofres da União e seus prepostos. Vantagens checadas e confirmadas por fontes limpas, que não foram nem serão objeto de contestação porque simplesmente não podem ser contestadas. Ao contrário dos sofismas da BESTA, as informações sobre o comprometimento dos escribas a mando de José Dirceu são verdadeiras e cristalinas.

Ao leitor, antes de entrar em desespero com tantas versões antagônicas sobre os mesmos fatos políticos, recomendo que façam uma triagem dessas fontes de informação. Antes de elaborar juízos de valor a partir do que se escreve, é preciso saber quem escreve e com que propósitos escreve.

Só assim será possível separar o joio da imprensa de aluguel do trigo da informação genuína.

Veja: Querem apagar os crimes do Mensalão

Daniel Pereira e Hugo Marques, reproduzido do site da Revista Veja

Josef Stalin, o ditador soviético ídolo de muitos petistas, considerava as ideias mais perigosas do que as armas e, por isso, suprimiu-as, matando quem teimava em manifestá-las. O PT até que tenta se arejar, exercitar certo pluralismo, mostrar respeito às leis e conduzir as instituições do país que ele governa não como propriedade particular do partido, mas reconhecendo-as como conquistas da sociedade brasileira. Mas basta uma contrariedade maior para que o espírito de papai Stalin baixe e rasgue a fantasia democrática dos petistas parcialmente convertidos ao convívio civilizado. A contrariedade de agora é a proximidade do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da maior lambança promovida pelos petistas com dinheiro sujo, que produziu o escândalo entronizado no topo do panteão da corrupção oficial brasileira com o nome de mensalão. Sussurre esse nome aos ouvidos de um petista nos dias que correm e ele vai reagir como se uma buzina de ar comprimido tivesse sido acionada a centímetros de seus tímpanos. A palavra de ordem emanada do comitê central sairá automaticamente: “Isso é invenção da oposição e da imprensa!”.

Como formigas guiadas por feromônios, os militantes de todos os escalões, de ministros de estado aos mais deploráveis capangas pagos com dinheiro público na internet, vão repetir disciplinadamente o mantra de que o mensalão “foi uma farsa”. Ele vai ser martelado sobre os cinco sentidos dos brasileiros na tentativa de apagar os crimes cometidos pelos petistas e, seguindo a cartilha stalinista, fazer valer as versões sobre os fatos, transmutar culpados em inocentes e, claro, apontar bodes expiatórios como responsáveis pelas próprias misérias morais que eles infligiram ao país, a si próprios e a sua reputação, firmada quando na oposição, de paladinos da ética. Esse processo perverso de reescrever a história está em curso em Brasília, em pleno século XXI. Sua mais recente iniciativa é a iminente instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista do Congresso Nacional, a primeira do governo Dilma Rousseff. O objetivo declarado — e desejável — da CPI é elucidar os limites da atuação no mundo oficial do contraventor Carlos Cachoeira, que explorava o bingo ilegal em Goiás e se encontra trancafiado em presídio de alta segurança. Acusado de receber dinheiro para defender os interesses do contraventor no governo e no Legislativo, o senador Demóstenes Torres, do DEM, está a caminho de perder o mandato. Razões para uma investigação republicana, portanto, não faltam. O problema está nos objetivos subalternos da CPI, que os petistas e seus aliados mal conseguem esconder nas conversas: criar um fato novo e, assim, desviar o foco da atenção da opinião pública do julgamento do mensalão. Eles esperam que as investigações produzam imagens que ajudem a demonstrar a tese central do presidente Lula sobre o mensalão, a de que o PT fez apenas o que todo partido político sempre fez. Esperam também criminalizar jornalistas para quem Carlos Cachoeira serviu de fonte sobre o que ia nos subterrâneos da corrupção no mundo oficial em Brasília, terreno que ele frequentava com especial desenvoltura.

Em resumo, o PT espera desmoralizar na CPI todos que considera pessoal ou institucionalmente responsáveis pela apuração e divulgação dos crimes cometidos pelos correlegionários no mensalão — em especial a imprensa. Por quê? Principalmente porque o esquema de compra de apoio parlamentar pelo governo do PT começou a ser desbaratado em 2005, após uma reportagem de VEJA mostrar um funcionário dos Correios cobrando e recebendo propina em nome do PTB. Depois disso, o presidente do partido, o ex-deputado Roberto Jefferson, revelou ao país que parlamentares recebiam dinheiro na boca do caixa para votar com o Planalto. O chefe do esquema era o então ministro da Casa Civil José Dirceu, que vivia repetindo o bordão segundo o qual não fazia nada sem o conhecimento do presidente Lula. Tanto a CPI dos Correios quanto a Procuradoria-Geral da República deixaram claro que parte do dinheiro que financiou o mensalão saiu dos cofres públicos. Durante as investigações, o então marqueteiro de Lula, Duda Mendonça, admitiu ter recebido dólares por fora, no exterior, por serviços prestados na campanha do presidente. Foi tão grave e acintosa a agressão dos petistas às leis brasileiras no mensalão que, tecnicamente, o presidente Lula poderia ter sofrido um processo de impeachment. Seu mandato foi preservado por falta de apetite da oposição e pelo cálculo, que se mostraria redondamente equivocado, de que Lula definharia no poder, sangrando pouco a pouco em consequência do mensalão. Nada disso ocorreu. Lula deu uma magnífica volta por cima, reelegeu-se, fez a sucessora e saiu do Palácio do Planalto da mesma forma que entrou — nos braços do povo.

Agora o fantasma do mensalão volta a ameaçar a hagiografia do líder petista — e a ordem de cima é atropelar quaisquer escrúpulos para preservar Lula. “A bancada do PT defende uma CPI para apurar esse escândalo dos autores da farsa do mensalão. É preciso que a sociedade organizada, movimentos populares, partidos políticos comprometidos com a luta contra a corrupção, como é o PT, mobilizem-se para impedir a operação-abafa e para desvendar todo o esquema montado por esses criminosos, falsos moralistas que se diziam defensores da moral e dos bons costumes”, declarou Rui Falcão, deputado paulista, presidente nacional do PT. A forma cristalina pela qual Falcão explica os objetivos do partido na CPI parece a transcrição perfeita de uma cartilha de propaganda soviética. Dado que os companheiros cometeram crimes no mensalão e que esse fato é devastador para o partido que no passado empunhou a bandeira da ética para vencer a antipatia e a desconfiança da classe média brasileira, vamos tentar mudar a percepção da realidade e acionar os companheiros para ver se cola a ideia de que o mensalão foi uma armação cujos responsáveis, vejam só que coincidência, estão todos orbitando em torno de um contraventor cujas atividades vão ser investigadas por uma CPI.

A lógica política de Falcão é irretocável — até certo ponto. Esse truque funcionou na União Soviética, funcionou na Alemanha nazista, funcionou na Itália fascista de Mussolini, por que não funcionaria no Brasil? Bem, ao contrário dos laboratórios sociais totalitários tão admirados por petistas, o Brasil é uma democracia, tem uma imprensa livre e vigilante, um Congresso eleito pelo voto popular e um Judiciário que, apesar de fortemente criticado recentemente, tem demonstrado independência e vigor doutrinário. Isso significa que para o delírio de Falcão se materializar é preciso neutralizar as instâncias democráticas, calando-as ou garantindo que a estridência radical petista supere as vozes da razão e do bom-senso.

Uma CPI dominada pelo PT e seus mais retrógrados e despudorados aliados é o melhor instrumento de que a falconaria petista poderia dispor — pelo menos na impossibilidade, certamente temporária para os falcões, de suprimir logo a imprensa livre, o Judiciário independente e o Parlamento, fósseis de um sistema burguês de dominação que está passando da hora de ser superado pelo lulopetismo, essa formidável invenção tropical diante da qual empalidecem todos os demais arranjos político-sociais do mundo atual. Mas, enquanto o triunfo final não vem, os falcões petistas vão se contentar em usar a CPI para desmoralizar todos os personagens e forças que ousem se colocar no caminho da marcha arrasadora da história, que vai lançar ao lixo todos os que atacaram o PT e, principalmente, seu maior líder, o ex-presidente Lula.

Não por acaso, a estratégia que a falconaria petista está executando disciplinadamente em Brasília saiu da cabeça de Lula. Em novembro de 2010, a menos de dois meses do término de seu segundo mandato, o então presidente recebeu o ex-ministro e deputado cassado José Dirceu para um café da manhã no Palácio da Alvorada. À mesa, Lula prometeu a Dirceu, o mais influente quadro da engrenagem petista, que lançaria uma ofensiva para desmontar “a farsa do mensalão” tão logo deixasse o cargo. Não era bravata. Conforme prometido, essa cruzada para abafar o maior escândalo de corrupção da história recente do país começou a se materializar em pequenos movimentos. Foi ela que levou à eleição do petista João Paulo Cunha, um dos 36 réus no processo do mensalão, para a presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara em 2011, o que garantiu a ele uma posição privilegiada para dialogar com a cúpula do Poder Judiciário. Foi ela também que resultou na nomeação do petista José Genoíno, outro réu no processo, para o cargo de assessor especial do então ministro da Defesa, Nelson Jobim, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), justamente a corte que julgará o caso.

O esquema: O então deputado Roberto Jefferson contou ao Congresso como o governo do PT criou o mensalão, o esquema de suborno de parlamentares que era operado pelo publicitário Marcos Valério. As revelações provocaram decepção e choro de alguns parlamentares petistas, ameaçaram a continuidade do governo Lula e resultaram no processo que acusa 36 pessoas de crimes de formação de quadrilha, corrupção ativa, peculato, evasão de divisas e lavagem de dinheiro

Esses dois movimentos da reação capitaneada por Lula foram costurados nos bastidores. Fizeram parte de uma estratégia silenciosa destinada a reabilitar publicamente as estrelas petistas envolvidas até o pescoço com os desvios de dinheiro público para abastecer o caixa partidário. Uma tática deixada de lado na semana passada, quando o PT partiu para uma espécie de vale-tudo a fim de varrer para debaixo do tapete o esquema de compra de apoio parlamentar que funcionou durante o governo passado. A estratégia evoluiu para o uso da Operação Monte Carlo da Polícia Federal, que deu origem à CPI. A ação da PF desbaratou um esquema de exploração de jogos ilegais comandado por Carlinhos Cachoeira e revelou uma rede suprapartidária de políticos envolvidos com ele. Além do senador Demóstenes, as investigações atingiram o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, desafeto de Lula desde que declarou, em 2005, que alertara o então presidente da existência do mensalão.

Lula viu na CPI a oportunidade política de mostrar que todos os partidos pecam. Que todos são farinha do mesmo saco e, por isso mesmo, o mensalão não seria um esquema de corrupção inaudito, muito menos merecedor de um rigor maior por parte do Judiciário e da sociedade. Para os petistas, apagar a história neste momento é uma questão de sobrevivência. Seus caciques sustentam que, com a aproximação da data prevista para o julgamento do mensalão e diante da hipótese de uma condenação, não há o que perder na arriscada aposta em tentar menosprezar a inteligência das pessoas, zombar das autoridades que investigaram o caso durante anos, impor constrangimentos aos ministros do Supremo que se preparam para julgar o processo. É tamanha a ânsia de Lula e dos mensaleiros para enterrar o escândalo que, se preciso, o PT rifará o governador do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz, que também aparece no arco de influência dos trambiques da máfia do jogo.

Lula e os falcões petistas viram também abrir-se para eles a retomada de um antigo, acalentado e nunca abandonado projeto de emascular a imprensa independente no Brasil. Os projetos de censura da imprensa que tramitaram no PT foram derrotados não por falta de vontade, mas porque o obscurantismo cobriria a imagem do Brasil de vergonha no cenário mundial. Surge agora uma oportunidade tão eficiente quanto a censura, com a vantagem de se obter a servidão acrítica da imprensa sem recorrer a nenhum mecanismo legal que possa vir a ser identificado com a supressão da liberdade de expressão. Não por coincidência, na semana passada a Executiva Nacional do PT divulgou uma resolução pedindo a regulamentação dos meios de comunicação diante “da associação de parte da imprensa com a organização criminosa da dupla Cachoeira-Demóstenes”. Dando sequência à diretriz do comitê central do partido, o comissário Marco Maia, presidente da Câmara, complementou: “Todas as informações dão conta de que há uma participação significativa de alguns veículos de comunicação nesse esquema montado pelo Cachoeira. A boa imprensa, que está comprometida com a informação e a verdade, vai auxiliar para que a gente possa fazer uma purificação, separar o joio do trigo”.

 

A oportunidade liberticida que apareceu agora no horizonte político é tentar igualar repórteres que tiveram Carlos Cachoeira como fonte de informações relevantes e verdadeiras com políticos e outras autoridades que formaram com o contraventor associações destinadas a fraudar o Erário. A nota da Executiva Nacional do PT e a fala do comissário Maia traem o vezo totalitário daquela parte do PT que não tem a mínima noção do papel de uma imprensa livre em uma sociedade aberta, democrática e que tenha como base material a economia de mercado. Papai Stalin ficaria orgulhoso dos pupilos. Caberá a eles agora, aos “tropicastalinistas” do PT auxiliados pelos impolutos José Sarney e Fernando Collor, “purificar” a imprensa, decidir qual é a boa e a ruim, o que é joio e o que é trigo nas páginas dos órgãos de informação e apontar que repórteres estão comprometidos com a informação e a verdade. Alguém com mais juízo deveria, a bem do comissário Maia, informá-lo de que quando governos se arvoram a “purificar” seja o que for — a população, a imprensa ou a literatura — estão abrindo caminho para o totalitarismo. Quem diria, comissário, que atrás de óculos modernosos se esconde uma mente tão arcaica.

Os petistas acham que atacar o mensageiro vai diminuir o impacto da mensagem. Pelo que disse Marco Maia, eles vão tentar mostrar que obter informações relevantes, verdadeiras e de interesse nacional lança suspeita sobre um jornalista. Maia não poderia estar mais equivocado. Qualquer repórter iniciante sabe que maus cidadãos podem ser portadores de boas informações. As chances de um repórter obter informações verdadeiras sobre um ato de corrupção com quem participou dele são muito maiores do que com quem nunca esteve envolvido. A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Isso é básico. Disso sabem os promotores que, valendo-se do mecanismo da delação premiada, obtêm informações valiosas de um criminoso, oferecendo-lhe em troca recompensas como o abrandamento da pena. Esses são conceitos de difícil digestão para os petistas acostumados a receber do comitê central as instruções completas sobre o que devem achar certo ou errado, bom ou ruim, baixo ou alto. Fora da bolha ideológica, porém, a vida exige que bons jornalistas falem com maus cidadãos em busca de informações verdadeiras. Motivo mesmo para uma CPI seria investigar os milionários repasses de dinheiro público que o governo e suas estatais fazem a notórios achacadores, chantagistas e manipuladores profissionais na internet. Fica a sugestão.

“Armação” de Cachoeira e Demóstenes não contamina nem invalida denúncia do Mensalão

Os tambores da BESTA vão rufar, os comentaristas pagos da Blogosfera Estatal vão vibrar, os crentes de José Dirceu vão abrir uma garrafa de vinho esta noite. Tudo para comemorar a informação que põe em xeque as intenções que permearam — e podem ter efetivamente motivado — a gravação que deu origem ao maior escândalo político da história brasileira.

Trata-se da reportagem publicada hoje pelo site Brasil_247 revelando que o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o ainda senador Demóstenes Torres, o repórter da revista Veja Policarpo Jr. e um ex-prefeito de Anápolis orquestraram a cena em que um funcionário dos Correios recebe R$ 3 mil de propina para facilitar a contratação de uma empresa.

A despeito da verossimilhança da hipótese sustentada pelo ex-prefeito de Anápolis Ernani de Paula, é preciso lembrar que a conexão entre a reportagem de Veja e as denúncias de Roberto Jéfferson, que efetivamente deram origem ao caso do Mensão, há uma distância segura.

O Mensalão foi revelado pelo então deputado federal à Folha de São Paulo no dia 6 de junho de 2006, em reportagem assinada pela jornalista Renata Lo Prete — e não pela Veja. Abandonado pelo governo Lula, Jefferson agiu movido pelo desejo de se vingar do episódio que expôs o esquema de arrecadação de suborno enxertado na máquina dos Correios. Foi, portanto, um efeito secundário da armação tramada pelo senador, pelo repórter de Veja e pelo bicheiro. As conexões terminam aí.

Apesar de seu conteúdo explosivo, a versão agora conhecida não desqualifica nem contamina os desdobramentos do caso. Milhares de documentos foram produzidos pela CPI do Mensalão. Eles demonstram com clareza que o PT, ao chegar ao Poder, instalou nele uma poderosa engrenagem para amealhar dinheiro oriundo da corrupção– segundo o denunciante, com a complacência de Lula, a quem comunicou pessoalmente a existência do esquema de compra de votos de deputados aliados com o pagamento de generosas mesadas transportadas em malas de viagem.

Os elementos de informação agora conhecidos sobre a gênese do escândalo servem, no entanto, para uma reflexão necessária e urgente sobre a promiscuidade na relação entre os jornalistas, os interesses mesquuinhos de políticos minúsculos e os contraventores a serviço destes. O submundo do jornalismo que permite esse tipo de associação espúria desafia a Teoria do Agenda Setting, segundo a qual a imprensa, mesmo que não forme a opinião do leitor, coloca na ordem do dia os assunto sobre os quais a sociedade deve relfetir.

É inconcebível que Carlinhos Cachoeira tenha pautado a Veja e, por intermédio dela, o País. É absolutamente imoral e antiético que um jornalista se coloque a serviço de um criminoso — no caso, uma quadrilha completa — e a fazer a defesa indireta dos negócios da contravenção. É nauseante saber que uma nomeação para o segundo escalão da República — a de Demóstenes para a Secretaria Nacional de Segurança — possa ter sido ser objeto de uma vindita aceita pela maior revista do País.

Ainda assim, os meios institucionais de correição souberam se apropriar do episódio para estirpar uma parte do câncer da corrupção generalizada que o PT instalou na Esplanada dos Ministérios, com metástases que iam da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos ao gabinete de José Dirceu.

Para refrescar a memória dos leitores atordoados, republico a entrevista que Jéfferson concedeu a Renata Lo Prete, publicada na edição de 5 de junho de 2006 da Folha de São Paulo. Esta, sim, a verdadeira gênese do Mensalão.

Contei a Lula do “mensalão”, diz deputado

DO PAINEL 

Em sua entrevista à Folha, Roberto Jefferson afirma que levou a questão do “mensalão” a vários ministros do governo Lula e ao próprio presidente. Ele acredita que a prática só foi interrompida após Lula ser informado por ele, o que teria acontecido em duas conversas no princípio deste ano.
(RENATA LO PRETE)  

Folha – Na tribuna da Câmara, o sr. disse ter sido procurado por pessoas que lhe pediam para resolver pendências nos Correios, que teria se recusado a traficar influência e que interesses contrariados estariam na origem da denúncia da revista “Veja”. Por que o sr. não denunciou essas pessoas?
Roberto Jefferson - 
Não se faz isso. Se você for denunciar todo lobista que se aproxima de você, vai viver denunciando lobista.

Folha – O consultor Arlindo Molina, uma das pessoas que o procuraram para tratar dos Correios, afirma que, ao contrário do que o sr. disse no pronunciamento, o conhece há anos. Essa versão procede?
Jefferson - 
A entrevista dele está completamente equivocada, até nas datas. Eu o conheci em março de 2005. Não é verdade que nos conhecíamos antes disso.

Folha – O sr. fala em guerra comercial. Mas não está em curso nos Correios, também, uma guerra por espaço entre os partidos?
Jefferson - 
Não. Mas eu entendo o Fernando Bezerra [senador pelo PTB e líder do governo no Congresso] porque, na primeira matéria da “Veja”, está dito que ele indicou o Ezequiel Ferreira para a diretoria de Tecnologia dos Correios. Mas o Ezequiel nunca assumiu. Por que não mostraram quem está no cargo, se 60% daquela fita [a que registra a cobrança de propina] se refere às operações da diretoria de Tecnologia? Esconderam o atual, indicado pelo Silvio Pereira [secretário-geral do PT]. O Policarpo [Júnior, repórter de "Veja"] protegeu o PT.

Folha – Na contramão do que declarou à PF, o ex-presidente do IRB Lídio Duarte diz em gravação [divulgada pela "Veja"] que, enquanto esteve no cargo, foi pressionado a destinar mesada de R$ 400 mil ao PTB. O que o sr. tem a dizer?
Jefferson - 
É algo que ele terá de esclarecer à PF. Eu tenho dele uma carta em que ele nega ter dado a entrevista. Em carta à “Veja”, disse que não disse. Na PF, sob juramento, disse que não disse. Quem tem de decidir é a Justiça.
Conheci o doutor Lídio no princípio de 2003, na casa do José Carlos Martinez [presidente do PTB morto em outubro daquele ano em acidente aéreo]. Sabendo que o PTB indicaria o presidente do IRB, ele veio para se apresentar. Tive excelente impressão.
Depois da morte do Martinez ele se distanciou completamente do PTB. Por volta de agosto de 2004, eu o chamei ao meu escritório no Rio e disse: quero que você me ajude, procurando essas empresas que trabalham com o IRB, para fazerem doações ao partido nesta eleição, porque estamos em situação muito difícil. Ele ficou de tentar. Em setembro, ele voltou a mim e disse: deputado, não consegui que as doações sejam “por dentro”, com recibo; querem dar por fora, e isso eu não quero fazer. Eu falei: então não faça.
Na conversa, o Lídio avisou que estava perto de se aposentar. Eu então avisei que iniciaria um processo para substituí-lo. Levei aos ministros José Dirceu [Casa Civil] e Antonio Palocci [Fazenda] o nome do doutor Murilo Barbosa Lima, diretor técnico do IRB. O nome ficou meses em aberto. A imprensa começou a dizer que havia dossiê contra ele. E o doutor Lídio, que dissera que iria se aposentar, se agarra com o doutor Luiz Eduardo de Lucena, que é o diretor comercial indicado pelo José Janene [líder do PP na Câmara], para ficar na presidência.
Aí se instala uma queda-de-braço entre o PTB e o PP. O Palocci conversa comigo e diz o seguinte: Roberto, vamos fazer uma saída por cima. Nós temos o diretor administrativo, um homem de altíssimo gabarito, o Appolonio Neto, sobrinho do Delfim Netto, fez um dos melhores trabalhos de modernização do IRB. A gente passa o Appolonio como sendo do PTB, e ele sendo sobrinho do Delfim, que é do PP, e a gente resolve a situação. Eu falei: não sou problema, está dada a solução. O doutor Appolonio foi uma indicação salomônica do ministro Palocci.

Folha – O sr. considera correta, legítima, essa forma de partilha dos cargos do governo?
Jefferson - 
Você entrega aos administradores dos partidos que compõem o governo a administração do governo. O PT tem participação muito maior que a dos outros partidos da base. Tem 20% da base e 80% dos cargos.
Mesmo o IRB: o PTB tem a presidência, mas todos os cargos abaixo são do PT. A Eletronorte: o presidente, doutor Roberto Salmeron, é um dos melhores quadros do PTB. Mas, de novo, toda estrutura abaixo é do PT. O diretor mais importante, o de Engenharia, é o irmão do ministro Palocci. O doutor Salmeron é uma espécie de rainha da Inglaterra. A ministra [Dilma Rousseff, das Minas e Energia] despacha com o irmão do Palocci. Tudo isso foi construído lá atrás, com o Silvio Pereira, o negociador do governo.

Folha – Qual é a sua relação com Henrique Brandão, da corretora de seguros Assurê?
Jefferson - 
Pessoal. Meu amigo fraterno há 30 anos. Era um homem pobre. Por seu mérito, transformou-se no maior corretor privado do Brasil. O Henrique é grande há muito tempo. Está em Furnas há 12, 15 anos.

Folha – De volta à gravação, o sr. rejeita a afirmação de que Henrique Brandão pedia contribuições em seu nome no IRB?
Jefferson - 
Nunca foi feito tal pedido. Volto a dizer: a única coisa que houve foi um pedido, feito por mim ao Lídio, de ajuda para o PTB na eleição. E eu compreendi as razões de ele não poder ajudar.
Eu quero contar um episódio. Na véspera de eu fazer meu discurso no plenário da Câmara, havia uma apreensão muito grande dos partidos da base, em especial o PL e o PP, e do próprio governo.
Dez minutos antes de eu sair para falar chega aqui, esbaforido, Pedro Corrêa (PE), presidente do PP: “Bob, cuidado com o que você vai falar. O governo interceptou uma fita de você exigindo do Lídio dinheiro para o PTB”. Eu dei um sorriso e disse: “Pedrinho, se era essa a sua preocupação, pode ficar tranqüilo, essa conversa nunca existiu. Não sou assim, nem o doutor Lídio é assim”. Aí ele rebateu: “Mas pode ter sido seu genro [Marcus Vinícius Ferreira]“. Eu falei: “Meu genro é um homem de bem. E eu vejo, Pedrinho, que você não tem convicção de fita nenhuma. Fica calmo que eu não vou contar nada do que eu sei a respeito de “mensalão’”.

Folha – E o que o sr. sabe?
Jefferson - 
Um pouco antes de o Martinez morrer, ele me procurou e disse: “Roberto, o Delúbio [Soares, tesoureiro do PT] está fazendo um esquema de mesada, um “mensalão”, para os parlamentares da base. O PP, o PL, e quer que o PTB também receba. R$ 30 mil para cada deputado. O que você me diz disso?”. Eu digo: “Sou contra. Isso é coisa de Câmara de Vereadores de quinta categoria. Vai nos escravizar e vai nos desmoralizar”. O Martinez decidiu não aceitar essa mesada que, segundo ele, o doutor Delúbio já passava ao PP e ao PL.
Morto o Martinez, o PTB elege como líder na Câmara o deputado José Múcio (PE). Final de dezembro, início de janeiro, o doutor Delúbio o procura: “O Roberto é um homem difícil. Eu quero falar com você. O PP e o PL têm uma participação, uma mesada, eu queria ver se vocês aceitam isso”. O Múcio respondeu que não poderia tomar atitude sem falar com o presidente do partido.
Aí reúnem-se os deputados Bispo Rodrigues (PL-RJ), Valdemar Costa Neto [SP, presidente do PL] e Pedro Henry (PP-MT) para pressionar o Múcio: “Que que é isso? Vocês não vão receber? Que conversa é essa? Vão dar uma de melhores que a gente?”. Aí o Múcio voltou a mim. Eu respondi: “Isso desmoraliza. Tenho 22 anos de mandato e nunca vi isso acontecer no Congresso Nacional”.

Folha – O sr. deu ciência dessas conversas ao governo?
Jefferson - 
No princípio de 2004, liguei para o ministro Walfrido [Mares Guia, Turismo, PTB] e disse que precisava relatar algo grave. Conversamos num vôo para Belo Horizonte. “Walfrido, está havendo essa história de “mensalão”.” Contei desde o Martinez até as últimas conversas. “Em hipótese alguma. Eu não terei coragem de olhar nos olhos do presidente Lula. Nós não vamos aceitar.”
E eu passei a viver uma brutal pressão. Porque deputados do meu partido sabiam que os deputados do PL e do PP recebiam.
As informações que eu tenho são que o PMDB estava fora. Não teve “mensalão” no PMDB.
Fui ao ministro Zé Dirceu, ainda no início de 2004, e contei: “Está havendo essa história de mensalão. Alguns deputados do PTB estão me cobrando. E eu não vou pegar. Não tem jeito”. O Zé deu um soco na mesa: “O Delúbio está errado. Isso não pode acontecer. Eu falei para não fazer”. Eu pensei: vai acabar. Mas continuou.
Me lembro de uma ocasião em que o Pedro Henry tentou cooptar dois deputados do PTB oferecendo a eles “mensalão”, que ele recebia de repasse do doutor Delúbio. E eu pedi ao deputado Iris Simões (PTB-PR) que dissesse a ele: se fizer, eu vou para a tribuna e denuncio. Morreu o assunto.
Lá para junho eu fui ao Ciro Gomes. Falei: “Ciro, vai dar uma zebra neste governo. Tem um “mensalão”. Hoje eu sei que são R$ 3 mi, R$ 1,5 mi de mensal para o PL e para o PP. Isso vai explodir”. O Ciro falou: “Roberto, é muito dinheiro, eu não acredito nisso”.
Aí fui ao ministro Miro Teixeira, nas Comunicações. Levei comigo os deputados João Lyra (PTB-AL) e José Múcio. Falei: “Conte ao presidente Lula que está havendo o “mensalão’”. Nessa época o presidente não nos recebia. Falei isso ao Aldo Rebelo, que então era líder do governo na Câmara.

Folha – A quem mais no governo o sr. denunciou a situação?
Jefferson - 
Disse ao ministro Palocci: “Tem isso e é uma bomba”. Fui informando a todos do governo a respeito do “mensalão”. Me recordo inclusive de que, quando o Miro Teixeira, depois de ser ministro, deixou a liderança do governo na Câmara, ele me chamou e falou: “Roberto, eu vou denunciar o “mensalão”. Você me dá estofo?”. Eu falei: “Não posso fazer isso. Vamos abortar esse negócio sem jogar o governo no meio da rua. Vamos falar com o presidente Lula que está havendo isso”. Me recordo até que o Miro deu uma entrevista ao “Jornal do Brasil” denunciando o “mensalão” e depois voltou atrás.
No princípio deste ano, em duas conversas com o presidente Lula, na presença do ministro Walfrido, do líder Arlindo Chinaglia, do ministro Aldo Rebelo, do ministro José Dirceu, eu disse ao presidente: “Presidente, o Delúbio vai botar uma dinamite na sua cadeira. Ele continua dando “mensalão” aos deputados”. “Que “mensalão’?, perguntou o presidente. Aí eu expliquei ao presidente.

Folha – Qual foi a reação dele?
Jefferson - 
O presidente Lula chorou. Falou: “Não é possível isso”. E chorou. Eu falei: É possível sim, presidente. Estava presente ainda o Gilberto Carvalho [chefe-de-gabinete do presidente].
Toda a pressão que recebi neste governo, como presidente do PTB, por dinheiro, foi em função desse “mensalão”, que contaminou a base parlamentar. Tudo o que você está vendo aí nessa queda-de-braço é que o “mensalão” tem que passar para R$ 50 mil, R$ 60 mil. Essa paralisia resulta da maldição que é o “mensalão”.

Folha – Isso não existia também no governo passado?
Jefferson - 
Nunca aconteceu. Eu tenho 23 anos de mandato. Nunca antes ouvi dizer que houvesse repasse mensal para deputados federais por parte de membros do partido do governo.

Folha – O que, em sua opinião, levou a essa situação?
Jefferson - 
É mais barato pagar o exército mercenário do que dividir o poder. É mais fácil alugar um deputado do que discutir um projeto de governo. É por isso. Quem é pago não pensa.

Folha – O que fez o presidente Lula diante de seu relato?
Jefferson - 
Depois disso [da conversa] parou. Tenho certeza de que parou, por isso está essa insatisfação aí [na base parlamentar]. Ele meteu o pé no breque. Eu vi ele muito indignado.
Pressão, pressão, pressão, pressão. Dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, todo mundo tem, todo mundo tem. Acho que foi o maior erro que o Delúbio cometeu.
E o presidente agora, desde janeiro, quando soube, eu garanto a você [que o "mensalão" foi suspenso]. A insatisfação está brutal porque a mesada acabou.
Serenamente eu já tenho o caminho traçado: não me preocupa mais o mandato, não vou brigar por ele. Só não vou sair disso como um canalha, porque não sou.

 

247: Cachoeira e Demóstenes podem ter armado gravação que deu origem ao Mensalão

Marco Damiani, do Brasil 247 – O Mensalão, maior escândalo político dos últimos anos, que pode ser julgado ainda este ano pelo Supremo Tribunal Federal, acaba de receber novas luzes. Elas partem do empresário Ernani de Paula, ex-prefeito de Anápolis, cidade natal do contraventor Carlinhos Cachoeira e base eleitoral do senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

“Estou convicto que Cachoeira e Demóstenes fabricaram a primeira denúncia do mensalão”, disse o ex-prefeito em entrevista ao 247. Para quem não se lembra, trata-se da fita em que um funcionário dos Correios, Maurício Marinho, aparece recebendo uma propina de R$ 5 mil dentro da estatal. A fita foi gravada pelo araponga Jairo Martins e divulgada numa reportagem assinada pelo jornalista Policarpo Júnior. Hoje, sabe-se que Jairo, além de fonte habitual da revista Veja, era remunerado por Cachoeira – ambos estão presos pela Operação Monte Carlo. “O Policarpo vivia lá na Vitapan”, disse Ernani de Paula ao 247.

O ingrediente novo na história é a trama que unia três personagens: Cachoeira, Demóstenes e o próprio Ernani. No início do governo Lula, em 2003, o senador Demóstenes era cotado para se tornar Secretário Nacional de Segurança Pública. Teria apenas que mudar de partido, ingressando no PMDB. “Eu era o maior interessado, porque minha ex-mulher se tornaria senadora da República”, diz Ernani de Paula. Cachoeira também era um entusiasta da ideia, porque pretendia nacionalizar o jogo no País – atividade que já explorava livremente em Goiás.

Segundo o ex-prefeito, houve um veto à indicação de Demóstenes. “Acho que partiu do Zé Dirceu”, diz o ex-prefeito. A partir daí, segundo ele, o senador goiano e seu amigo Carlos Cachoeira começaram a articular o troco.

O primeiro disparo foi a fita que derrubou Waldomiro Diniz, ex-assessor de Dirceu, da Casa Civil. A fita também foi gravada por Cachoeira. O segundo, muito mais forte, foi a fita dos Correios, na reportagem de Policarpo Júnior, que desencadeou todo o enredo do Mensalão, em 2005.

Agora, sete anos depois, na operação Monte Carlo, o jornalista de Veja aparece gravado em 200 conversas com o bicheiro Cachoeira, nas quais, supostamente, anteciparia matérias publicadas na revista de maior circulação do País.

Até o presente momento, Veja não se pronunciou sobre as relações de seu redator-chefe com o bicheiro. E, agora, as informações prestadas ao 247 pelo ex-prefeito Ernani de Paula contribuem para completar o quadro a respeito da proximidade entre um bicheiro, um senador e a maior revista do País. Demonstram que o pano de fundo para essa relação frequente era o interesse de Cachoeira e Demóstenes em colocar um governo contra a parede. Veja foi usada ou fez parte da trama?

Como os “cães de guarda” da imprensa ladravam para a caravana da ditadura passar em 1970

Do nada, um certo site da nova, novíssima esquerda, começa a derramar posts em série sobre a ditadura brasileira. Chama de “cães de guarda” dos milicos os jornalistas que apoiaram descaradamente a ditadura militar brasileira. O nome desse site é Conversa Afiada. Poderia se chamar mesmo Conversa Fiada, uma vez que seu editor, Paulo Henrique Amorim, foi um dos mais dóceis cãezinhos de guarda da ditadura nos anos 70. Para o desespero dele, não é difícil demonstrar.

Alguns leitores bem-intencionados têm se mostrado surpresos com a série de revelações. Acreditavam, de bom coração, na sinceridade de PHA em sua defesa do governo Lula, do governo da Dilma, do governo FHC, … até de gente como o Zé ‘empate’ Dirceu, na sua retórica a favor dos pobres e oprimidos. Acreditavam até que PHA nasceu na esquerda. Até que ele agora é líder do movimento negro.

Aos fatos.

Muito jovem, quando todos costumam ser de esquerda, PHA já era uma espécie de poodle dos homens de farda. Naquele tempo, a revista Veja não assinava a maior parte das reportagens e, por isso, não é fácil encontrar o nome de PHA em muitas delas. De  70 a 74, foi o editor de economia da revista, segundo atesta o próprio currículo que ele publica em seu site.

Nessa condição, pode-se dizer, com segurança, que todas as reportagens econômicas ufanistas, de apoio á ditadura, têm o dedo dele. Convido o leitor a passear pelas páginas de economia da revista naquele período, consultando o arquivo digital, aberto a todos na internet (mas se preparem para o enjoo, diante de tanta propaganda pró-ditadura). Alguma vezes, porém, o editor da revista, Mino Carta,  na seção “Carta ao Leitor”, denunciava a autoria das reportagens. E, quando isso acontece, não há como se esconder.

Foi o caso da edição de 26/08/70. Mino Carta escreve na Carta ao Leitor: “O anúncio do Programa de Integração Social [o PIS], o assunto da reportagem de capa daquela edição (página 28, texto final de Paulo Henrique Amorim e Emilio Matsumoto), confirma uma antecipação de Veja.”

O enjôo, caro leitor, começa pelo título: “Um programa à brasileira”.  Assim mesmo, com esse ufanismo patriótico de conveniência a serviço da farda e do coturno. A ânsia de vômito aparece no subtítulo grandiloqüente: “ A integração social através de um fundo sem igual”.

Poucos leitores não passarão mal com o texto em si. Começa com uma rematada mentira: “Quem ganhar pelo menos dois salários mínimos por mês receberá, na pior das hipóteses, seu ordenado multiplicado por 36, ao se aposentar depois de trinta anos de serviços.”

Prossegue com um delíro fascista, o do fim das tensões, naturais, entre patrões e empregados, algo que a ditadura perseguia a ferro, fogo e pau-de-arara. Eis aí o fulcro da questão, o que francamente interessava ao regime — e a seu lulu adestrado — na época: afastar as discussões sobre a participação nos lucros, esta sim, a verdadeira reivindicação dos operários.   “Estão evitadas na mensagem presidencial todas as possibilidades de tensão entre patrões e empregados. Não se fala em participação nos lucros. Ao contrário, criou-se uma fórmula original, retirada da famosa inventividade brasileira. Os empregados participarão, através de um fundo, do faturamento (ou seja, das receitas) das empresas e não de seus lucros (o que significa tecnicamente o resultado da diferença entre receita e despesa).”

E, claro, acaba por bajular o ditador Médici, mentindo para os brasileiros ao dizer que o general tinha como objetivo uma sociedade próspera e aberta, tudo o que o Brasil não era à época:  “‘O segredo mais bem guardado é o que todos imaginam’. A frase de Bernard Shaw, sábio dramaturgo irlandês, aplica-se inteiramente ao PIS. A notícia explodiu na semana passada com o impacto das grandes revelações. No entanto, analistas mais observadores já podiam prevê-la desde o dia 7 de outubro do ano passado, quando o Presidente Médici, pela televisão, comunicou que aceitava sua indicação para presidente da República. Naquele dia, mencionou seu desejo e promover uma revisão da distribuição da riqueza numa sociedade próspera e aberta. Na primeira reunião ministerial pediu aos seus auxiliares imediatos que estudassem medidas que viessem a marcar seu governo com as intenções reformistas a que se propunha.”

Não é segredo para ninguém que o lulu da economia de Veja se empenhava — e como! — em sua função de propagandista dos feitos homéricos do pior presidente que o País já teve. Pior no sentido de mais cruel, desumano. Aqui mesmo, neste espaço, publiquei outro dia um post revelando que PHA certa vez, nos idos dos 70, ganhou um prêmio Esso ao contestar o Censo, que acabara sair com algo que não convinha ao comando da quartelada. O IBGE, que não era propriamente um bunker do PIG de então, constatou que havia, como a história provou, uma enorme concentração de renda no tal Milagre Econômico. PHA, no entanto, se fiou a um estudo assinado por Carlos Langoni para desqualificar o censo e provar que o Brasil Grande era maior e mais justo do que realmente era. Maior e mais justo. Au-au!

Volto ao assunto anterior. Na descrição do PIS, PHA não poupa adjetivos para vender aos brasileiros a falsa imagem de que o programa era uma coisa genial. Para isso, adula todos os czares da ditadura da época, para que nenhum deles se sentisse enciumado:  “Acabou surgindo a fórmula do PIS, árvore de muitas sementes, depositadas com cuidado por Delfim, Barata, Leitão de Abreu, chefe do gabinete civil, e poucos assessores. (…) Fecha-se assim o círculo desse engenhoso mecanismo”. Engenhoso, diga-se de passagem, a ponto de ser anunciada desta forma: “Afastada a solução da participação nos lucros, o presidente apelou para a imaginação criativa de seus ministros“. Só elogios!

Não se esqueçam, ele estava falando do PIS, que vocês conhecem tão bem.

Para não haver dúvidas sobre a grandiloquência do projeto do recém-empossado ditador Médici, fecha com uma declaração de Delfim, com o objetivo de anestesiar os trabalhadores de então, vítimas do que, na época, chamavam de arrocho salarial: “‘O fundo demonstra claramente a preocupação do governo com os trabalhadores. Além disso, significa também uma verdadeira abertura política, já que as lideranças parlamentares foram convocadas pelo Presidente Médici para conhecerem com antecedência o conteúdo do programa’, disse Delfim. Para o ministro, porém, o PIS tem uma inestimável vantagem adicional, não fosse ele um de seus idealizadores: ‘Essa fórmula é brasileira. Não há no mundo sistema idêntico ou semelhante.’”

Verdadeira abertura política no governo Médici, cara pálida? Au-au!

Ora, em 1970, o Brasil vivia o auge da ditadura militar, com Dilma presa, torturada, assim como milhares de outros. Não havia sociedade próspera e aberta coisa nenhuma. E também nenhuma integração entre patrões e empregados. A reportagem, na verdade, é uma peça de propaganda da ditadura. Escrita pelo PHA.

Por que relembro todos esses casos? Porque acho que os jornalistas devem viver da verdade. Não à toa, conheço poucas pessoas que sejam contra a Comissão da Verdade. Os brasileiros, sem prejuízo da Lei da Anistia, devem conhecer a sua história. Mas esse conhecimento tem de ser completo. Se devemos conhecer quem eram os torturadores e golpistas, devemos saber quem eram os jornalistas que os apoiaram — a verdadeira imprensa golpista, que propagandeou sem nenhum constrangimento o golpe militar. A Comissão da Verdade pode começar por aí.

Para que você não se perca nesse emaranhado diáfano da história, publico na íntegra a reportagem ufanista que Paulo Henrique Amorim produziu. Reiterando que o Blog do Pannunzio não descontextualiza declarações para construir a crítica política, prática comum em certos canis virtuais contemporâneos.

Repassando a história: Veja de Mino Carta enalteceu a famigerada OBAN em 1970

OBAN: ação "tranquilizadora" e "eficiente".

Para quem quer desvendar o comportamento dos jornalistas nos piores anos da ditadura militar brasileira, a edição de Veja do dia 4/2/1970 é esclarecedora. Nela, Mino Carta, ao assinar a Carta ao Leitor,  anuncia uma reportagem “difícil e perigosa” sobre o famoso roubo do cofre da Mansão dos Schiller, no Rio de Janeiro. O caso ficou conhecido como o roubo do Cofre do Ademar. Na apresentação, Carta qualifica os guerrilheiros com o adjetivo da moda: ” um grupo de terroristas”.

No corpo da reportagem, lê-se o seguinte:

“Como foram os terroristas descobrir que era exatamente aquele o cofre do dinheiro de Ana Capriglione ? (…) Por intermédio de um sobrinho de Ana, o estudante Gustavo Buarque Schiller, na época com 22 anos (…) Um rapaz de boa família, considerado o mais inteligente de sua casa e que soube esconder de todos os parentes suas ligações com os terroristas, principalmente com Juarez Guimarães Brito, um dos organizadores da COLINA, grupo subversivo de Minas”. A COLINA, como todos sabem, era uma das organizações a que pertenceu a presidente Dilma, na sua luta contra a ditadura.

Na mesma edição, a reportagem seguinte à do cofre leva o nome de “Os rachas do Terror”, e dá conta do esfacelamento dos grupos que pegaram em armas para combater a ditadura. É preciso recordar o que Paulo Henrique Amorim sempre faz questão de dizer: “Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

Pois bem, a revista que Mino editava, diante da desgraça que se abateu sobre os jovens que pegaram em armas, comemora: “Cresce contra as tentativas de reorganização a bem montada máquina antiterrorismo em funcionamento perfeito em Belo Horizonte (onde o COLINA foi inteiramente desfeito), em São Paulo e no Rio. Hoje, em todo o país, as forças do governo aprimoram uma mentalidade de combate à guerra revolucionária. E, se os terroristas reveem as falhas cometidas, policiais e militares sabem agora evitar melhor os erros. As notícias de prisões e confissões de terroristas não são mais anunciadas com tanta pressa, como antes.”

Como vêem, Veja, orientada por Mino, comemorava como acertada a tática não democrática de esconder do público que prisões tinham sido feitas, o que era o desespero das famílias e dos presos. Todos sabem que os democratas daquela época, na imprensa, faziam todo o esforço para noticiar prisões, porque, com elas divulgadas, diminuíam muito as chances de a ditadura simplesmente sumir para sempre com os presos. E todos também sabem como eram conseguidas as “confissões”: com torturas. Era o que acontecia com os presos políticos no intervalo entre a captura, via de regra ilegal, e a revelação da prisão. Defender esse hiato é rigorosamente coonestar a tortura, conhecida por todos.

Mas a reportagem vai mais longe em seu exercício de louvação aos métodos dos porões da ditadura. Pode parecer inacreditável à luz da democracia dos dias de hoje, mas Veja se prestou a enaltecer a famigerada OBAN (Operação Bandeirante).

“Na semana passada, a Organização Bandeirante, que coordena o combate ao terror em São Paulo, divulgou todo o trabalho feito para desarticular no Estado a Var-Palmares, a Aliança Nacional Libertadora (a ALN, de Marighela) e outros grupos terroristas. Foi uma notícia dada em momento oportuno, tranqüilizando o povo e, ao mesmo tempo, evitando prestar serviço ao terrorismo. Pelo contrário, só pode ter servido para mostrar a eficiência adquirida pelas forças policiais e militares.

As “conquistas” da OBAN, a casa dos piores horrores promovidos pela ditadura, são então traduzidas em números. “Em cinco meses, de setembro de 1969 a janeiro de 1970, 320 terroristas foram presos, 66 ‘aparelhos’ foram vasculhados, e foram apreendidos setenta fuzis , 33 metralhadoras, 170 bombas, 68 revólveres, dois morteiros e outras armas e grande número de munição.Para alguns policiais e militares, o terrorismo está totalmente desbaratado. Lamarca, Nóbrega, Câmara Ferreira, Marise Farhi, Juarez, Fujimori e outros nomes maiores e menores ainda continuam em ação. Mas as forças legais também agem, com métodos cada dia mais aperfeiçoados – e apertam cada vez mais o cerco”.

Ninguém que viveu essa período triste pode alegar desconhecimento do que se passava nos calabouços do regime. A história, de há muito, registra que os “métodos aperfeiçoados” eram os sequestros, as prisões ilegais, os desaparecimentos, assassinatos e a tortura. Mas, à época, Mino e sua revista eram só elogios à perfeição do combate desigual movidos pela força de um Estado com instituições caladas por atos de exceção.

Com certeza estudantes de jornalismo e historiadores poderão fazer bom proveito da publicação. Além da repulsa que provoca, o texto certamente conduzirá a um questionamento saudável e democrático. Serve, principalmente, para estabelecer uma clara distinção entre o que é jornalismo e o que é história. Como se vê, são duas coisas distintas. Escrever o que se lê ali é entender como se fazia o jornalismo no Brasil Grande dos Anos de Chumbo. Reler, hoje, é compreender a história.

Este blog tem como política não descontextualizar informações para promover a crítica política. por esta razão, publico abaixo a íntegra das reportagens, que também podem ser lidas no Acervo Digital de Veja.

O dia em que Paulo Henrique Amorim confrontou a ditadura para… Enaltecer a ditadura!

Paulo Henrique Amorim esconde o seu passado. Até mesmo quando ele tenta revelá-lo. Por exemplo, em seu site, Conversa Afiada, ele faz um longo retrospecto de seus empregos e feitos passados. A certa altura, ele conta que entre 1970 e 1974, foi editor de Economia da Revista Veja. E acrescenta, orgulhoso, referindo-se a si próprio na terceira pessoa: “Recebe o ‘Prêmio Esso’ de reportagem Econômica por um trabalho na Veja sobre a distribuição de renda.” Bonito. O site do Prêmio Esso confirma. Ganhou CR$ 5 mil (para os mais jovens, cinco mil cruzeiros, a moeda de então) pela reportagem “A renda dos brasileiros”, publicada na edição de 7/6/1972.

O Prêmio Esso não mente: a reportagem é mesmo de PHA. Isso pode ser comprovado pela leitura da “Carta ao leitor”, assinada por Mino Carta, que editava a revista, segundo o próprio PHA, com total independência, sem dar ciência aos patrões sobre o que publicava. Na carta, está dito que PHA “conseguiu a mais autorizada análise dos dados essenciais do estudo do professor Langoni e, em geral, das questões mais importantes da renda dos brasileiros”. A reportagem é dele mesmo. E, como não poderia deixar de ser, é vergonhosamente uma reportagem chapa branca. Uma tristeza.

Apesar de ter conseguido destroçar aqueles que pegaram em armas para combatê-la e de se orgulhar de um crescimento econômico de dois dígitos, a ditadura sentia um desconforto enorme: números do Censo de 1970 mostravam uma brutal concentração de renda. A oposição, quando podia, não deixava de apontar para essa ferida. O que fez então a ditadura, com o apoio de jornalistas como PHA? Encomendou um estudo para desmentir os números do Censo, que havia sido divulgado no início daquele ano.

E PHA escreveu uma reportagem como que a indagar: “Concentração de renda? Dores do parto de nossa grandeza!” São nove páginas para provar que a concentração existia, mas era transitória e até um bom sinal. Quando a ditadura, pela primeira vez, se sentia no corner, acusada de enriquecer os ricos e empobrecer os pobres, Paulo Henrique Amorim lançou uma tábua de salvação. Fez, não uma reportagem, mas uma peça de propaganda da ditadura, como se verá.

PHA, como sempre, começa tortuoso:

“A expressão ‘distribuição de renda’ adquiriu mágicos poderes de persuasão. Bastava enunciá-la para subitamente surgir um poderoso arsenal de dúvidas e suspeitas sobre os sucessos da economia brasileira. Principalmente depois da divulgação dos dados preliminares do Censo de 1970, no início deste ano, quando, sem sofismas ou malabarismos estatísticos, ficou possível localizar uma desagradável concentração.  (…) Um economia que atribui a 28% de sua população uma renda inferior a 99 cruzeiros, como mostra a tabela acima, seria certamente uma economia frágil. Porém, um recente estudo encomendado pelo Ministério da Fazenda e que se utiliza, inclusive, de dados do Censo, mostra que o adjetivo frágil no caso é impróprio.” (…)

Ou seja, de cara, PHA já repudia a tese de que a economia do Brasil era frágil. A seguir, já parte para acuar a oposição de então:

(…) “Também no Brasil, a questão da distribuição da renda deixou, inevitavelmente, de ser um tema apenas econômico para engrossar os cáusticos argumentos dos que alimentam insatisfações políticas. No caso, o argumento era ainda mais contundente porque se sustentava em números insuspeitos do Censo – um trabalho do Instituto Brasileiro de Estatística, vinculado ao Ministério do Planejamento. Há pouco tempo, Roberto de Oliveira Campos, ex-ministro do Planejamento,escreveu um artigo sobre distribuição de renda e utilizou como epígrafe um frase que ele mesmo já recorrera em vários artigos: ‘As estatísticas são como biquíni: o que revelam é importante; o que ocultam, essencial’. O economista Mario Henrique Simonsen, em discurso recente, inventariou, então, os motivos por que as estatísticas do Censo sobre a distribuição de renda poderiam estar ocultando o essencial. Os censos distribuem a população remunerada – explica Simonsen – em apenas oito classes de renda. As duas extremas, as do que ganham menos e mais, são abertas, isto é, indicam o número de indivíduos com renda menor do que x e maior do que y. Para estimar a renda média dessas classes, costuma-se apelar para o ajustamento de certas curvas estatísticas, o que provoca muitas vezes erros graves.”
E, então, a reportagem nos traz um momento curioso. Há pouco tempo PHA tripudiou do conceito de renda não monetária, e disse que é um absurdo supor que um pobre é um pouco menos pobre por ter uns porcos no quintal, um roçado. Em 1972, quando adulava a Ditadura, ele não pensava assim. Veja o que PHA escreveu para explicar os erros a que Simonsen se referia:

“Simonsen mostra ainda que os dados dos censos se referem à renda monetária recebida pelos indivíduos, e isso, de alguma forma, distorce as comparações, pois não são computados os serviços gratuitos prestados pelo governo, as diferenças regionais de renda e, ainda, a renda não monetária derivada do autoconsumo – as roças do fundo do quintal, onde algumas famílias plantam o mínimo necessário para a subsistência.”

E PHA prossegue:

“Finalmente, Mário Henrique Simonsem fornece outro argumento para se desconfiar de que o Censo está ocultando demais: os dados classificam as rendas por indivíduos Se classificassem as rendas por famílias, os resultados nas camadas mais pobres seria provavelmente melhores, pois exatamente entre os mais pobres há um número maior de pessoas trabalhando numa mesma família. Já que o Censo era muito sovina com suas informações, o governo decidiu patrocinar estudos mais completos. O Ministério da Fazenda financiou o Instituto de Pesquisas Econômicas da Faculdade de Economia e Administração da USP, que incumbiu Carlos Geraldo Langoni, 27 anos, um de seus mais jovens e talentosos professores, de realizar a tarefa.” (…)

E quem divulgou na capa de uma grande revista esse estudo contra o Censo, acolhendo-o como verdadeiro? Paulo Henrique Amorim! Ele enumera os achados do estudo do Governo:

“Foi bastante expressiva a redução da população economicamente ativa (os que trabalham e têm algum tipo de renda) que vive no campo e, paralelamente, houve um aumento dos que foram para as cidades; em nenhuma das categorias chegou a haver diminuição dos rendimentos – ou seja, todos, com exceção dos analfabetos, que ficaram praticamente onde estavam em 1960, melhoraram de renda; aumentou drasticamente a proporção dos que na população economicamente ativa têm um nível de instrução superior ao primário (além da diminuição do número de analfabetos); quanto mais alto o nível de instrução, maiores os ganhos em renda;e, finalmente, uma descoberta de valor inestimável – a renda é pior distribuída na cidades que no campo e vai ficando mais concentrada à medida que se passa dos analfabetos para melhores níveis de instrução. (…) Porém, parece sintomático que nenhum dos setores da população tenha perdido dinheiro na década.”

E para confirmar o estudo da ditadura, PHA foi buscar, distorcendo-o, um estudo de um economista que, anos depois, se tornaria um de seus maiores desafetos: José Serra. Seria engraçado, se não causasse enjôo (mas mostra, pelo menos nesse ponto, coerência, com PHA no campo oposto de Serra):

“Aliás, até um estudo, ‘Além da Estagnação” de autoria de M.C.Tavares e J. Serra [isso mesmo, José Serra], economistas da Cepal, com sede em Santiago do Chile, tradicional opositora da política econômica brasileira, admite: ‘O esquema de distribuição de renda em 1970 mostraria uma maior taxa global de desigualdade, uma maior concentração na cúpula, se comparado com 1960; em compensação, tanto os grupos médios alto quanto os médios em seu conjunto aumentaram significativamente sua participação na renda.’”

E, então, PHA dá a grande notícia: se houve concentração de renda, ela era apenas transitória. Por quê? Porque a educação oferecida ao povo pela ditadura não parava de melhorar. Querem piada melhor? Pois leiam:

“Outro dado revelador é que aumentou brutalmente a oferta de educação para os níveis ginasial, colegial e superior. (…) Conclui-se daí que a concentração de renda é maior nas cidades e entre os universitários porque a agricultura não faz grandes distinções entre os qualificados e não qualificados; e porque a rápida evolução da economia exigiu uma mão de obra qualificada. Como não havia suficiente oferta para essa demanda no primeiro momento, ocorreu uma valorização brusca dos que tinham diploma universitário, colegial ou ginasial. A educação parece ser, portanto, a maior causa da diferenciação da renda e do aumento da desigualdade na década de 60. (…) A situação brasileira seria grave se a concentração da renda estivesse aumentando ao mesmo tempo que diminuíssem as possibilidades de acesso à educação. O que acontece é exatamente o contrário. Parece estar havendo uma ampliação das oportunidades, pois a base de lançamento – o acesso á educação – é cada vez mais ampla. (…) No momento em que a oferta [de educação] for se ajustando à demanda, haverá ma redução das desigualdades – o país será mais qualificado e a renda melhor distribuída.”

E PHA termina triunfante, para a alegria da ditadura:

“Os números sobre a distribuição de renda indicam que o Brasil está apenas pagando o preço do seu desenvolvimento.(…)”

A reportagem, para cumprir tabela, traz também um artigo de Albert Fishlow, já na época, aos 36 anos, um especialista em Brasil (hoje ele é diretor do Instituto de Estudos Latinos Americanos e do Centro para Estudos Brasileiros da Universidade de Columbia). Fishlow era dos maiores críticos da política econômica dos militares, pondo o dedo na ferida: ela era desgraçadamente concentradora de renda. Mas Paulo Henrique Amorim, ao introduzir o artigo, trata de antecipar que não concorda com ele: “Veja considera poucos realistas muitas teses de Fishlow – mas encomendou o seguinte artigo para permitir uma visão mais completa dos argumentos que alimentam o debate em torno da distribuição da renda dos brasileiros.” Argumentos, evidentemente, desmentidos pela reportagem de PHA.

Aquela edição traz também uma entrevista de PHA com Delfim Netto, o todo-poderoso ministro da Fazenda da ditadura. Para um desavisado, a entrevista pode parecer correta, com perguntas que vocalizam os argumentos da oposição de então. Mas, na verdade, para usar uma metáfora inspirada no vôlei, PHA levanta para que Delfim cortar. E, o mais importante, Delfim convenceu PHA de cabo a rabo, pois todas as teses do então czar da Fazenda foram acolhidas na reportagem que ele publicou. Basta verificar que o fecho da reportagem de PHA é quase integralmente uma cópia de uma das respostas de Delfim:

PHA: “(…) Não seria justo exigir uma distribuição melhor de uma economia que cresce tanto?”

Delfim: “Não creio. O que se pode exigir é o seguinte: um processo de rápido crescimento tende a gerar um processo de melhor distribuição. Essa experiência é universal. O que eu acho é que não é possível colocar essa distribuição como objetivo superior ao da produção. Se não, você acaba querendo distribuir o que não existe.”

Em outra resposta, Delfim disse:

“Os dados agora levantados [por Langoni] não dão ao Brasil nenhuma grandeza maior. É apenas um caso típico de desenvolvimento econômico. Mas os dados também não deixam o Brasil numa posição incômoda quanto à dua distribuição de renda.”

Ou como disse PHA no fim de sua reportagem, acolhendo integralmente as teses de Delfim:

“Os números sobre a distribuição de renda indicam que o Brasil está apenas pagando o preço do seu desenvolvimento.(…)”

Taí um Prêmio Esso que não dá orgulho a ninguém. Em vez de deixar a ditadura acuada, com os inequívocos dados do Censo, PHA preferiu dar guarida a um estudo cujo objetivo foi servir de bóia de salvação. Só PHA mesmo.

Abaixo, a íntegra da reportagem, reproduzida do Acervo Digital da revista Veja

A edição em que Mino Carta pugnou pela pena de morte para os “terroristas”

Prometi ontem publicar a íntegra da edição da revista Veja nº 54. Ela chegou às bancas em 17 de abril de 1969, ao fim de uma semana agitada pelo sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick e pela adoção da pena morte, que seria apicada contra os “terroristas” — termo usado para qualificar a guerrilha de esquerda. A edição constitui um importante documento histórico. Revela como jornalistas se dispunham a prestar apoio aos mais cruéis métodos de perseguição e constrangimento  na luta suja contra a subversão.

A revista era chefiada por Mino Carta. A autonomia do editor plenipotenciário é atestada por um homem que logo depois se integraria à equipe: Paulo Henrique Amorim. Segundo ele,  “como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

A revista não fazia questão de esconder seu engajamento ao governo que protagonizou o mais bárbaro período da ditadura militar. Chegou ao descalabro de publicar, nessa edição, um trecho do relatório de um repórter que deixa claro  a serviço de quem realmente estava . No texto, que reproduzo ao lado,o repórter diz o seguinte: ”Se for outra semana como esta, meu velho, não sei onde vou parar, eu, guerreiro cansado de uma luta particular contra a subversão“. Numa alusão implícita à tortura, o jornalista se confessa assaltado por sonhos com “presos gritando em volta da minha cama”.

A publicação desse relatório explicita de que lado estavam Mino e seus áulicos da ditadura. A revista aceitava e propalava seu engajamento ao absorver a observação do repórter, endossá-la a publicá-la.

Os absurdos decorrentes desse engajamento produziram aquela que é talvez a página mais abjeta do jornalismo da imprensa golpista de então — goslpista porque se prestava não apenas a apoiar, mas também a funcionar como peça de propaganda da ditadura.

A releitura dos textos de Veja, disponíveis gratuitamente no Acervo Digital do site da revista, revela que o engajamento não se limitava à cobertura. Ele se expandia também para a propaganda da doutrina sobre a qual o regime se sustentava. “Os episódios [da semana anterior] se avolumam e empurram a junta militar para decisões inevitáveis mas, ao mesmo tempo, de altíssima responsabilidade: a pena de morte, o banimento e a prisão perpétua contra os subversivos”, é o que se pode ler no corpo da reportagem de capa.

Este Blog tem por política não descontextualizar declarações para construir a crítica política. Por esta razão, publico a íntegra das reportagens do número 54 de Veja, conforme havia prometido ontem.

No link abaixo você vai encontrar as doze páginas com três reportagens. Vale a pena lê-las do começo ao fim. Talvez, depois disso, seja possível entender outra manifestação do próprio Mino Carta, em entrevista ao programa Provocações, da TV Cultura no ano passado. A entrevista está publicada integralmente neste blog e pode ser acessada aqui.

Nela, Mino Carta assume que  ”por um certo período eu agi como um mercenário (…). Quem me pagava, me tinha”. A frase, que poderia representar o epitáfio moral de qualquer  jornalista, talvez ajude a entender o comportamento de Mino Carta nos anos mais sangrentos da ditadura militar.

Sob Mino,Veja defendeu em editorial a pena de morte, o banimento e a prisão perpétua dos “subversivos” em 1969

“Syzeno Sarmento, Jarbas Passarinho, Garrastazu Médici, Orlando Geisel, Albuquerque Lima, Lyra Tavares – entre meia dúzia de personalidades que aparecem na capa desta edição pode estar um novo presidente da República. Além destes, há muitos outros nomes de prestígio e responsabilidade que, por sua própria projeção, ganham condições de candidatos a candidato.”

Era assim, de forma elogiosa e subserviente, que Mino Cara assinava (literalmente) a Carta de Leitores como editor da revista Veja, em 17/9/1969, quando especulava sobre quem substituiria Artur da Costa e Silva, o marechal abatido por uma trombose em agosto daquele ano e, desde então, substituído no poder por uma junta militar. Na reportagem, intitulada “Discute-se a sucessão”, Mino defendia medidas horripilantes. Não, não era a revista que ele editava que defendia os atos que serão narrados a seguir. A confiar no seu admirador, que com ele trabalhava à época, Mino escondia a revista dos patrões, para poder escrever nela o que bem entendesse. Paulo Henrique Amorim escreveu solene em seu blog: “Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.” Acreditamos nele. E o que Mino escreveu ou mandou escrever na reportagem? Leiam a seguir:

“ A Junta, além de desde o início se ter qualificado como solução temporária, tem outros problemas.. De acordo com os propósitos  do Ato Institucional nº 12, reafirmados no comunicado de quarta-feira passada, a Junta se comprometeu a aplicar os planos de governo de Costa e Silva, que previam a reabertura do Congresso e uma nova Constituição. Mas desde o seqüestro do embaixador americano o combate à subversão ficou sendo o primeiro objetivo da Revolução. Os três ministros não se sentem autorizados a ordenar meia-volta no caminho traçado e percorrido pelo Presidente. Como ministros militares, têm de tomar providências contra a subversão, as mais drásticas, como as que marcaram a semana passada. Os acontecimentos, até por obra de coincidências, se avolumam e empurram a Junta para decisões inevitáveis, mas, ao mesmo tempo, de altíssima responsabilidade: a pena de morte, o banimento e prisão perpétua contra subversivos, confisco de bens contra corruptos e cassações contra políticos, sem poupar até mesmo um ex-ministro de João Goulart, Oliveira Brito, secretário de Minas do Governador Luís Viana Filho. Tão inevitável como essas decisões é a necessidade de ao país um governo normal, não temporário.”

É Mino Carta, e seus escribas, por ordem sua, defendendo a pena de morte, o banimento e a prisão perpétua de brasileiros. Atos horripilantes. Repulsivos. Mas que saíram da pena dele, sem dó nem piedade, porque, para ele, eram inevitáveis, soluções as mais drásticas, que precisavam ser tomadas. Esse é o Mino que posa agora de democrata. Na entrevista à Antônio Abujamra, no programa Provocações, de março do ano passado, na TV Cultura, Mino disse que não chega perto de um computador, porque teme ser comido por aquela ‘bocarra’. Hoje, sabemos por quê. Ele temia ser comido pelos arquivos digitais de Veja, abertos ao público, que denunciam o seu passado trevoso (um adjetivo que ele gosta muito de usar).

Nota do blogueiro: vou publicar a íntegra da reportagem mencionada mais tarde. Ela está disponível no Acervo Digital da revista Veja.

Imprensa Golpista: Como os editores de Veja comemoram o sexto aniversário da “Revolução” de 64

Reprodução do livro "A Vida Quer é Coragem, de Ricardo Amaral

Dilma enfrenta seus algozes com dignidade...

A foto acima, descoberta pelo jornalista Ricardo Amaral e publicada em seu livro “A Vida Quer é Coragem”, é o emblema de um dos período mais tristes da história brasileira. Aos 22 anos de idade, a militante Dilma Rousseff enfrenta a corte militar com altivez  e dignidade — enquanto seus algozes, envergonhados, escondem o rosto. Os signos aí expostos denotam de maneira contundente o embaraço moral reservado aos que tinham, por ofício, o dever de defender (ainda que no contexto das instituições golpeadas) a ditadura brutal que se instalara no País seis anos antes.

Reprodução do Acervo Digital de Veja

... enquanto o editor de Veja enaltecia o "único antídoto de seguro efeito contra a subversão".

Mas nem todos os brasileiros se sentiam constrangidos em apoiar enfaticamente o regime dos quartéis que aposentou a política, calou a imprensa e perseguiu de maneira atroz e determinada os que a ele se opunham. Naquele momento da história , a revista Veja, a exemplo de vários outros órgãos da imprensa brasileira, apoiava declaradamente o golpe de 64. Alguns jornalistas que lá trabalhavam faziam uma defesa entusiasmada do regime. O texto que reproduzo ao lado é parte da Carta ao leitor da edição número 82, de 1º de abril de 1970. Foi escrito e assinado pelo jornalista Mino Carta.

Deve-se reconhecer que, anos depois, Mino se lançou de corpo e alma nas várias campanhas pela reinstitucionalização do Brasil. Mas, naquele momento complicado da vida institucional de País, ele e a revista que dirigia estavam em outra condição — a de áulicos do regime militar. Não é necessário mais do que uma releitura dos arquivos do Acervo Digital de Veja, que podem ser consultados gratuitamente por qualquer um, para a checagem da veracidade desta afirmação.

Pode-se argumentar que os jornalistas eram acossados pelos censores. Eram mesmo. Quando Vladimir Herzog foi morto, anos depois, Veja saiu sem a seção Brasil. Imagino que todo o material que se pretendia publicar tenha sido  censurado. Porque era exatamente isso o que  censura oficial fazia: suprimir.

Não obstante, não há registro de que a vigilância do Estado sobre a imprensa tenha feito com que um jornalista escrevesse, contra suas convicções e o universo fático,  elogios ao regime.

Nas páginas da edição 82, os militares (como os que escondem a cara na foto que antecede este post) são descritos desta forma: “Esses homens saídos dos quartéis destrincharam aos poucos as sutis malhas da crise brasileira. Para enfrentá-la dispunham da formação idealista e combativa que receberam nas escolas e unidades e da unidade de objetivos que cultivaram na vida da tropa”. Longe dos olhos da opinião pública, outra ala de “idealistas combativos” submetia a atual Presidente às mais abjetas formas de tortura durante 22 dias consecutivos.

A matéria descreve os milicos dos anos 70 como homens que, “entre o apego às origens [humildes] e o fascínio pela pompa que revestia o poder, preferiram desmistificar a importância dos cargos” . E segue enaltecendo os hábitos austeros da nova burocracia de farda. Homens que “perceberam que havia outras tarefas, além do combate à subversão e à corrupção — e pensaram no futuro”, como se pode ler na Carta ao Leitor.

A linha-dura do regime mereceu menções elogiosas à parte.  Veja afirma que “o militar que em 1964 lutava contra a subversão e a corrupção, hoje, sem transigir com nenhum dos seus antigos inimigos, está empenhado ao mesmo tempo na construção de uma nova política social e econômica para o País”. Seria uma referência velada ao militar de 68 em diante, quando o monstro da ditadura se apresentou com sua pior face após o fechamento do Congresso,  a edição do AI-5 e a supressão do habeas-corpus?

Sem esboçar a mais dócil crítica ao governo, a reportagem foi prodigiosa em apontar as conquistas do regime. “A ação dos militares em cargos técnicos deu resultados surpreendentes em muitos casos”, pontifica o texto. Um dos personagens enaltecidos é o então Coronel Cesar Cals Filho, que “mora em casa alugada, não tira férias de 1958 e só janta em restaurantes aos domingos, em companhia de toda a família”.

Ao final da reportagem, Veja assevera que “para alguns setores, os militares representam uma intromissão estranha, que modifica radicalmente o jogo social, econômico e político; para outros, ao contrário, a intervenção dos militares é recebida como a última — e única — alternativa à preservação do regime”. Para concluir que, até a chegada do momento de devolver o Poder aos civis, “os militares continuarão a exercer o poder político com o mesmo sentido de missão a cumprir que um jovem oficial cultiva, comandando uma companhia de fronteira, ou que um velho general aplica no último posto de comando”.

Imagino o que teria sentido aquela menina de 22 anos da foto ao ler essa reportagem entre um choque elétrico e uma sessão no pau-de-arara. Imagino também que a farsa engendrada pela Imprensa Golpista de então — aquela que idolatrava o golpe — tenha relação com a altivez dos olhos da prisioneira Dilma Rousseff. E que o o contraste entre o mundo dourado  da oficialidade, projetado por reportagens como essa, e o mundo real dos porões, seja a causa da vergonha que deve ter levado os juízes da ditadura a esconder o rosto do fotógrafo. Os homens sem rosto sabiam o que estavam fazendo.

Os editores de vejam, também.

abaixo, a íntegra do texto, que pode ser lido também no Acervo Digital da Revista Veja.

Bajulação, ausência de crítica, subserviência e propaganda da ditadura. Era assim a Veja de Mino Carta e PHA em 1970

1º de julho de 1970. Naquele dia, quando chegou às bancas a edição de número 95 da Revista Veja, o País ainda purgava o delírio coletivo produzido pela conquista da Taça Jules Rimet na Copa do México. Em 12 página recheadas de fotos ufanistas, Veja pintou um quadro magnífico da situação política do País, enalteceu o patriotismo do presidente de então, o General Emílio Garrastazu Médici, e teceu loas à propaganda oficial.

Nas três reportagens publicadas sobre o assunto,  nenhuma menção à tortura, às prisões arbitrárias e aos desaparecimentos. O objetivo implícito do material editado não poderia ser outro que não o de promover a ditadura, o ditador e seus ditames.

A primeira das três retrancas tinha como título “A Imagem do Sucesso”, manchete da reportagem principal. Ela dava conta da generosidade do general que, contraiando conselhos de seus assessores, decidiu abrir o Palácio do Planalto aos torcedores em vez de receber os jogadores no Alvorada.

No texto há elogios em profusão. E também demonstrações ostensivas de subordinação e submissão ao regime. Começa descrevendo a “solenidade” da chegada de Médici ao Planalto na terça-feira anterior. “70.000 pessoas estavam concentradas desde cedo” quando o general chegou “erguendo os braços num gesto largo e instintivo para agradecer os aplausos que vinham da multidão”. ”Quando o General Médici entrou, foi recebido por outra salva de palmas. ‘Ele estava alegre e descontraído’, comentou um ministro”, prossegue a reportagem, para concluir que “surgia naquele momento uma evidente demonstração de simpatia popular ao governo”. Puxa-saquismo explícito.

Para a Veja de Mino Carta, a concessão feita por Emílio Médici ao abrir o Palácio para o povão era produto de vários fatores. Principalmente de sua identificação como torcedor sincero, mas também por atitudes  como as que ele protagonizara em face do problema da seca do Nordeste, que o ditador fora conhecer pessoalmente na semana anterior, oportunidade em que teria atuado “com a sensibilidade de um político interessado na conquista da opinião pública”. A isso, Mino Carta e seus editores chamaram de “feliz associação”.

A propaganda da ditadura foi qualificada como um “trabalho cuidadoso e aparentemente econômico” para a construção de uma imagem positiva. Não mereceu nenhuma ressalva o fato de que os filmetes produzidos para o cinema e a televisão tinham como alvo as crianças em idade escolar.

Veja engoliu do Coronel Otávio Costa, que chefiava a Assessoria de Relações Públicas da Presidência, a afirmação de que as peças não poderiam ser encaradas como propaganda convencional, e sim como “uma tentativa de de criação de um clima de otimismo, (…) colaborando com a educação moral e cívica do povo e sobretudo dos jovens”.

A terceira reportagem aparece sob o título “A Maioria Silenciosa”. Ela tenta explicar o surgimento daquele que se transformaria no mais cruento bordão produzido pela ditadura militar: “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”. A edição 95 dedica uma página inteira à gênese da campanha odiosa. Atribui a origem do slogan a uma iniciativa análoga do Governo Nixon para enfrentar o movimento pacifista que se opunha à Guerra do Vietnã. O dístico “passou a ser visto com frequência em para-choques e para-brisas de carros e ônibus” dirigidos pelos operariado urbano e pela classe média, cansados “das agitações estudantis, das rebeliões dos negros e das críticas à posição do governo em relação à guerra”.

Reproduzo, abaixo, a íntegra das reportagens. Sua releitura atenta pode não ajudar a enterder o que de fato se passava no Brasil de 1970 pelo simples fato de que a revista havia adotado um lado — o lado da farda. Mas constitui uma ferramenta fundamental para explicar como jornalistas engajados trabalharam como peças auxiliares para a conformação da imagem positiva do governo na pior fase da longa ditadura brasileira, transformando-se em áulicos do regime de exceção.

As responsabilidades pelas posições equivocadas, pelas posições evidentemente engajadas, neste caso não podem ser reputadas nem à censura oficial, nem à censura patronal. Recorro à afirmação que encontrei hoje no site de Paulo Henrique Amorim para embasar essa afirmação. Segundo ele, “Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) [Civita, dono da Editora Abril] lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar”.

O mais incrível é que esses mesmos áulicos se arvoram em defensores de governos contra uma paranoica conspiração da imprensa indepentente, por eles batizada de PIG — Partido da Imprensa Golpista.

O doce vai para Paulo Henrique Amorim. Acertou em cheio o nome do autor do texto de Veja que só não chamou Médici de bonito

Vários leitores do Blog acertaram o nome do autor da “Carta ao Leitor” da edição 95 de Veja. Oliveira Neto, Cláudio e Álvaro foram os primeiros. Mas o doce prometido no post “Imprensa Golpista: quem, afinal, apoiou a ditadura militar brasileira ?” vai para o ínclito Paulo Henrique Amorim. Em seu blog, o apresentador do bispo Edir Macedo afirmou hoje (clique aqui e aumente a audiência do site dele se quiser beber na fonte):

“Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) [Civita, dono daEditora Abril] lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar”.

Com a assertividade habitual, Paulo Henrique Amorim cumpre um importante papel histórico: o de estabelecer de quem era a responsabilidade pela linha editorial da revista nos Anos de Chumbo. O testemunho do blogueiro não pode ser desprezado. Na época, ele era um dos editores de Veja. Portanto, pelo menos desta vez, PHA fala sobre o que viu e viveu.

Publico daqui a pouco a reportagem à qual a Carta de Mino remete. E um texto histórico. Só não chama o general Emílio Garrastazu Médici de bonito. Mas enaltece sua obra — e até o emblema fascista “Ame-o ou Deixe-o”, que acabava de se transformar no mantra dos milicos, torturadores e sabujos do pior ditador brasileiro.

Imprensa Golpista: quem, afinal, apoiou a ditadura militar brasileira ?

Em 1970 o País estava em convulsão. O regime era conduzido com mão de ferro pelo general Emílio Garrastazu Médici. Foi o mais severo dos ditadores. Ele movimentou uma máquina repressiva sem precedentes na história da República. Seu governo será lembrado para sempre pelas crueldades contra quem ousasse divergir, criticar ou combate-lo. Prisões, assassinatos, desaparecimentos e tortura aconteciam diante de uma sociedade anestesiada pelo crescimento da economia e emudecida pela censura.

A imprensa brasileira se dividia em duas alas: a que apoiava descaradamente a ditadura, outra que decidiu se insurgir contra os horrores protagonizados pelos milicos e seus algozes civis. E não foram poucos. No DOPS da polícia Paulista, por exemplo, uma jovem militante de um grupo guerrilheiro chegou a ser torturada durante 22 longos dias consecutivos com todo tipo de instrumento que pudesse provocar dor extrema e sofrimento psicológico. Seu nome: Dilma Rousseff.

Entre os veículos que apoiavam explicitamente a ditadura militar e se calavam obsequiosamente sobre a tortura, a revista Veja foi talvez o mais assanhado e prestativo. Na edição de 1º de julho de 1970, Veja dedicou sua capa ao fenômeno que catapultava para o alto a popularidade do ditador. A revista se desdobrava em elogios aos generais. Havia a Copa do Mundo, a conquista do tricampeonato, e pouco importava o que se passava nos porões.

Reproduzo, abaixo, a seção “Carta ao Leitor” da edição de número 95 de Veja. Lê-la é quase como cumprir um dever cívico de reparação histórica.  É um documento público de valor inestimável, assim como outros textos da revista do mesmo período. Serve para demonstrar como jornalistas engajados se transformaram em áulicos da ditadura militar brasileira.

O mais chocante, no entanto, é perceber que esses áulicos, hoje, travestem-se de democratas aguerridos. Incumbem-se do papel de defensores do governo diante de uma conspiração atroz da “mídia golpista” contra o governante de plantão. E se colocam lado a lado com aquela que, em outros tempos, não mereceria outro rótulo que não o de terrorista nas páginas produzidas por suas penas sempre dóceis a qualquer regime, qualquer governo.

Ganha um doce aquele que adivinhar quem foi o autor do texto. Palpites podem ser enviados para a área de comentários do blog.

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