Especial Ditadura Notí­cias Polí­tica

Uma história dos Anos de Chumbo

Vou contar o que fui fazer neste fim-de-semana — e uso a oportunidade como pretexto para contar um pouco da minha história. Há alguns leitores que pedem isso há muito tempo — uns por curiosidade sobre a minha biografia, outros buscando elementos para atacá-la. Vou saciar as duas partes.

Fui visitar minha família em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Meu irmão mais novo, Eduardo, comemorou um feito incrível: bodas de prata, 25 anos de casamento feliz com sua grande companheira Patrícia. Fizeram uma festa singela no meio de um campo de girassóis. Linda mesmo.

O lugar onde houve a festa é uma fazenda que está em com minha família desde 1902, 110 anos atrás. É uma propriedade  pequena onde Eduardo e a minha mãe  ganham a vida plantando todo tipo de coisa: soja, milho, ervilha, feijão… e girassóis, a lavoura mais linda que eu já vi. O  relevo é muito plano. Fica a mais de 800 metros de altitude. No outono o por-do-sol é espetacular.

A vegetação nativa é baixa e retorcida. Um cerrado ralo que, num primeiro momento, assusta quem está acostumado com a exuberância da Mata Atlântica. A beleza do cerrado só se descobre observado os detalhes. As flores, por exemplo, são minúsculas, mas são espetacularmente bonitas.

Foi observando detalhes assim que minha mãe, que se chama Martha Pannunzio, colheu material para compor uma linda e premiada obra literária infanto-juvenil. São dela ‘Veludinho’, ‘Os Três Capetinhas’, ‘Bicho do Mato’, ‘Era Uma Vez Um Rio’, ‘Bruxa de Pano e ‘Você Já Viu Gata Parir’. Esses livros lhe valeram os prêmios mais prestigados do País: INL, APCA, Jabuti.

Ela e minha irmã caçula, Lavínia, tocam também um projeto teatral muito bacana. Fazem montagens adaptadas dos livros da Dona Martha. Concebem os espetáculos, conseguem patrocínio privado e fazem encenações profissionalíssimas. O público são os alunos de escolas públicas, que não pagam ingresso e têm o transporte garantido pelo projeto. Mais de 80 mil crianças tiveram assim seu primeiro contato com o teatro.

Hoje as coisas parecem ordeiras e harmônicas em Uberlândia. A vida é simples, alegre e produtiva. Mas houve uma data, 1º de abril de 1964, em que elas começaram a ficar bem difíceis.

Meu avô se chamava Afrânio Francisco Azevedo. Era comunista e espírita kardecista, uma coisa que muita gente não entende até hoje.  Mas nos anos 40 a 60 era perfeitamente possível. Tanto que ele era  amicíssimo de Chico Xavier e Luis Carlos Prestes — que foi padrinho de casamento da minha mãe.

O velho Afrânio era um sujeito notável. Dessa mescla de espiritismo e comunismo nasceu um grande filantropo. Teve uma passagem efêmera pela política — elegeu-se deputado estadual em Goiás pelo Partidão em 1946 e foi cassado em 1948. Nunca mais se candidatou a nada.

Em 1958, mandou os quatro filhos mais velhos (o caçula, Chico Humberto, era recém-nascido) à União Soviética para o Festival da Juventude daquele ano. Ficaram lá seis meses e se encantaram com a Revolução. A correspondência entre eles e meu avô foi compilada em um livro chamado “Cartas de Dois Mundos”, assinado em coautoria pelos quatro irmãos.

Bem, chega o dia 1º de abril de 1964. Todo mundo sabe o que aconteceu.

Quando o Banco do Brasil reabriu, meu avô correu até a agência para fazer um saque. Por precaução, era melhor ter algum dinheiro ao alcance da mão para enfrentar alguma eventualidade política.

A eventualidade surgiu ali mesmo. Apresentou-se como tenente do Exército e entregou uma lista de nomes ao gerente. Queria as fichas cadastrais de todos aqueles clientes. O nome do meu avô, Afrânio, era o primeiro da lista, organizada em ordem alfabética. Teve a sorte de estar entre amigos: foi um dos fundadores da agência de Uberlândia. Funcionário de carreira, trabalhou anos ali e deixou bons amigos.

Esse gerente era um deles. Ao ver seu nome na relação, chamou meu avô de lado e entregou-lhe todo o  saldo da conta. Dali, meu avô saiu direto para o exílio no Peru.

A notícia pulverizou a família. Meu pai, Gilberto, que a rigor não tinha nada a ver com aquilo, botou umas provisões num caminhão e ajeitou a família na boléia. Fomos viver na sede da fazenda onde agora meu irmão mais novo celebrou as bodas de prata. A casa devia ter dois séculos de idade. Um casarão colonial construído com adobe e umbrais de aroeira que desafiavam o tempo. Eu tinha três anos de idade. Adriana, minha outra irmã, ia fazer dois. Pedro Paulo, o terceiro da turma, nascera dois meses antes.

Um dia apareceu por lá meu tio Célio Borges. Tio-avô. Sabe essas pessoas de quem todo mundo gosta ? Pois esse era o Tio Célio. Sempre disponível, solidário, pronto para ajudar.

Chegou no meio da tarde e mandou chamar minha mãe. Tinha uma caixa cheia de latas de Leite Ninho. Disse:” Martha, pegue essa caixa, mande o Gilberto por na camionete, pegue os meninos e sumam daqui já. 

Como os milicos não encontraram ninguém — mas viram a comida no fogão, as roupas no varal, brinquedos no meio da sala — ficaram com muita raiva. Queimaram tudo o que havia ali. Documentos, roupas, camas… tudo! O casarão de dois séculos ardeu.

O leite do peito da minha mãe secou antes que as brasas do casarão virassem cinza. Bendito Tio Célio: salvou Pedro Paulo, o recém-nascido, da inanição.

Tenho algumas lembranças dessa época, mas elas não são confiáveis. Lembro-me com clareza que vivíamos de fazenda em fazenda de amigos e parentes que se dispunham a nos receber.

As coisas se acalmaram e a família voltou à cidade porque era preciso dar andamento à educação formal dos filhos. Meus pais decidiram correr o risco.

Tudo ia mais ou menos tranquilo até o começo de 1970. Foi quando a foto do meu tio Afrânio Marciliano começou a aparecer em cartazes ao lado das palavras “terrorista” e “procurado”. Vi aquilo uma única vez num show da Esquadrilha da fumaça.  O cartaz estava estampado no saguão do aeroporto. Havia outros na rodoviária e nas praças da cidade.Os pais dos colegas comentavam.

É estranho para uma criança de sete anos ver um tio querido rotulado como terrorista. Os adultos diziam apenas que aquilo era mentira, não revelavam o motivo. Por isso,  só vim a entender o problema muito mais tarde, quando fiquei sabendo que o tio Afrânio Marciliano foi o cirurgião-plástico que mudou o rosto de Carlos Lamarca. Ele amargou uma cadeia brava.

A vida, depois disso, virou um inferno para todo mundo. Negaram à minha mãe uma cópia do diploma que queimou no incêndio da fazenda. Por isso ela nunca pode lecionar em uma universidade. Virou professora de francês do que era o equivalente ao ciclo básico dos nossos dias. Formou uma legião de alunos.

Meu pai foi trabalhar como representante comercial de uma empresa que vendia peças de tratores. Ele viajava toda semana, entre terça e quinta-feira, percorrendo as barragens que estavam sendo construídas nos rios Paranaíba e Grande. Sempre trazia uns doces glassados na volta. Eu só conseguia dormir quando ele chegava em casa, o que acontecia sempre de madrugada, entre quinta e sexta-feira.

A atividade na fazenda — essa mesma dos girassóis do Edu e Patrícia — ficou paralisada. Não havia crédito. O cerrado era chamado de “deserto”. Servia apenas para a pecuária extensiva. A massa verde ficava calcinada na seca. Dava para criar um boi por alqueire mineiro, ou um boi para cada cinco hectares. Não havia tantos alqueires assim, consequentemente não havia bois suficientes para dar conta do sustento da família.

Meu avô mandou oferecer a terra ao governo para o programa de reforma agrária do general Castelo Branco. O governo mandou devolver, pois não aceitava terra de comunista.

Ainda bem!

Não fosse a recusa malcriada, não haveria um campo de girassóis para as bodas de prata do meu irmão.

 

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59 comments

Caio Graco 29/06/2012 at 00:57

Oi Fábio, mt bom o seu texto, só achei agora, adorei as fotos das bodas do Edu e Patrícia, fica aqui um pedido do primo que ia todo sábado cheio de amigos da água limpa ao panga para ouvir as histórias da sua mãe, e agora tem acesso escasso as mesmas devido a distância. Escreva mais que a gente vai adorar. Abraços

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Ralph Rosário Solimeo 23/06/2012 at 14:39

Fabinho, não poderia naquele tempo,Cásper Líbero 82/83, imaginar o excelente jornalista é hoje. A sua isenção é impar na nessa categoria: você relata os fatos como eles são ou foram, sem distorcê-los ou “torcer” para um dos lados.
Você sabe que, na época em que seu avô teve que fugir, eu estava do outro lado: por profissão e convicção, por isso mais razão ainda tenho, de elogiar a sua crônica familiar, escrita sem ódio e nem rancor.
Acompanhei o seu excelente trabalho na Rede Band, de desmitificação do terrorismo climático, que alguns fanáticos, inocentes inúteis, outros radicais ideológicos e tantos muitos aproveitadores, querem impor à opinião pública.

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Simone 05/06/2012 at 18:14

Fabio maravilhosa a história, a sua família ,todos vcs!!!amo muitoooo bjos

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Sergio Canella 05/06/2012 at 14:40

Oi Pannunzio. Acabou que você não disse quando o seu avô voltou para o Brasil. A história de vida dele merecia ser contada com mais detalhes. Quem sabe você ainda não escreve um livro? Tive conhecidos com parentes exilados naqueles tempo por motivos idênticos e consigo avaliar a dor de seu pai e de seu avô por conta da separação forçada.
Abraços

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Lucas 04/06/2012 at 23:16

Que beleza de história!
E, não senti nenhum ressentimento, nenhum desejo de vingança por parte do autor. Isso sim diferencia as pessoas.
Basta ver um monte de gente, que na época ainda era espermatozóide, querendo cantar de galo com comi$$ão da verdade.
Podemos aguardar um romance contando essa saga toda Pannunzio?

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Antonio 04/06/2012 at 22:32

Caro Pannunzio e demais, sempre ouvi dos mais velhos a seguinte frase, “essa revolução começou como bromil* e tá virando um purgante de rícino*”, mas, ainda assim é melhor que a doença braba que tava pra acontecer.
Hoje porém, eu digo sem medo de errar que o CONTRA GOLPE de 64, foi uma quimioterapia forte para um cancer terrivelmente agressivo.

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viva galt! 04/06/2012 at 22:19

Fábio, finalmente a versão tupiniquim: “The Catcher In The Sunflower”.
Agora sei de onde vem essa sapiência no uso da navalha. Independentemente da saga da família, das escolhas, resta claro a tua liberdade de pensamento.
Sucesso!

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Mônica Waldvogel 04/06/2012 at 20:18

Querido Fábio,
Li seu lindo texto ouvindo, ao mesmo tempo, sua voz, esse seu sotaque mineiro e caipira. Foi outro dia mesmo que você contou essa história para uma roda de amigos em que tive o privilégio de ser acolhida. Conhecendo você há tanto tempo não tinha a menor ideia dessa saga familiar, deste ‘incidente’ de fogo e violência impresso na retina do menininho de três anos. Como disse o Heraldo Pereira lá em cima, o passado está sempre atrás da porta vigiando com quanta diginidade a gente faz a vida no presente. E explicando as trajetórias e escolhas, não é mesmo? Aprecio imensamente ver o amigo tão querido assim maduro e sereno, confiante e corajoso, sensível e amoroso por suas raízes. Dá pra ver pelos textos do seu blog que suas posições são muito seguras, ancoradas em boas convicções e moralmente tão bem orientadas. Parabéns. Siga escrevendo para nós, fiéis leitores. E, de vez em quando, cozinhe para os amigos! Beijos.

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Luciano 04/06/2012 at 20:06

Pannunzio, sinceramente, lamento o ocorrido com sua família, por isso é que você assim como eu somos contra qualquer tipo de ditadura. Contudo, ao olharmos para o passado, constata-se que seria muito pior cairmos nas mãos de uma ditadura de esquerda , como era sem sombra de dúvidas, a intenção daqueles, sem excessão, que pegaram em armas contra o regime militar. Se fizermos uma comparação com o regime castrista cuja linha de pensamento servia de farol para nossos revolucionários, casos similares a estes, em situações inversas, é claro, seriam solucionados com execução sumária e a exproprição dos bens. Aplaudo quando você expõem as mazelas de nossa ditadura, no entanto, lamento que você não haja da mesma forma quando aborda as atividades da esquerda naquele período turbulento em nosso país. Não entendo como alguém possa ficar alheio às ações desses grupos armados que sob falsa motivação de defender a democracia cometeram crimes até mesmo mais repulsivos do que os cometidos por agentes da repressão. Como se pode ficar alheio a essas organizações revolucionárias de cunho marxista cujo único propósito era implantar em nosso país um regime similar ao cubano, que caracterizou-se pela extrema violência, provocando a morte de mais pessoas do que todas as ditaduras militares sul-americanas juntas, com cerca de cem mil cadáveres(dezessete mil execuções), e o êxodo extraordinário de seu povo. Não! Não se pode cair nessa estratégia ardilosa montada pela esquerda de que, ao se condenar seus métodos e objetivos estamos defendendo a ditadura militar.

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GERÔNIMO 04/06/2012 at 19:22

… Uma bela história seo Pannunzio.

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Carlos Alberto Amorim Jr. 04/06/2012 at 18:34

Que belo texto. Tocante e sensível. Parabéns.

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euclydes de cerqueira cintra filho 04/06/2012 at 17:56

Meu caro Fábio,

Sou filho da Anita, irmã do seu pai.

Meus cumprimentos pelo belíssimo texto.
Pedro Paulo alertou-me para dar uma olhada no blog onde estava escrito e suas palavras, lembrando algumas passagens que eu já conhecia, trouxeram-me ótimas recordações.
Um grade abraço

Euclydes

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Adriana Rolando 04/06/2012 at 13:56

Caro Fábio,
admiro seu trabalho há mto tempo.
Gostaria de entrevistá-lo para meu site. Se puder, de uma olhada.
História emocionante, e, com certeza o influenciou na escolha da profissão, um material como esse é invejável.

Abs

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Fábio Pannunzio 04/06/2012 at 14:01

Com muito prazer, Adriana. Vou mandar meu telefone por email e fico aguardando seu contato., Neste momento, o celular estásem bateria. MAs dentro de uma hora ele voltará ao ar. Obrigado.

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Guca Domenico 04/06/2012 at 13:25

Fábio, conte-nos de sua aldeia.
Apesar de sermos contemporâneos de Cásper Líbero, eu não sabia de sua origem mineira. Imaginava que você era sorocabano.
Como conheço vosmecê desde os tempos em que éramos gaiatos, não consigo dissociar sua imagem daquele garoto que se divertia com minhas barbaridades musicais, hoje um avô recente.
Tenho lido seu blog amiúde e, ainda que não comente, compartilho alguns textos que considero primorosos.
Porém, esse aqui é de uma beleza que me emocionou (sou duro na queda, mas não resisti) e me deixou sem palavras. Agora estou me recuperando, por isso pedi que você continuasse. Tenho certeza que é o desejo de seus leitores. Não é, pessoal?
Grande abraço.

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Alex 04/06/2012 at 13:20

A extrema direita que às vezes frequenta por aqui já se pronunciou?

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Guca Domenico 04/06/2012 at 12:57

Você está proibido de colocar ponto final nesse texto.
Queremos a continuação.
Escolha o caminhos, nós o seguiremos pelos campos dos girassóis.

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Fábio Pannunzio 04/06/2012 at 13:10

Grande Guca! Obrigado, amigo. Vou escrever mais um contando o que aconteceu depois disso. Espero que a minha mãe se anime a escrever essa história. Ela tem um final muito feliz pra todo mundo. E explica, em boa medida, a antipatia que eu tenho por ditadores e ditaduras. Um abraço e obrigado.

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Luis Chacon 04/06/2012 at 12:29

Essas experiências nos fazem grandes pessoas. Espero que teu irmão complete milhares de bodas e você escreva milhares de textos como este. Mas diga o que aconteceu com seu tio depois da prisão? Transforme isso em livro, vai ser bem legal. Abraço

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Roland Brooks Cooke 04/06/2012 at 12:29

Bela crônica de uma história pessoal, pelos olhos de uma criança. Só quem viveu aqueles tempos para saber. Eu mesmo cheguei ao Brasil (de volta de meia-infância vivida nos EUA) no Natal de 1966. Criança ainda, via a soldadesca pelas ruas, achava aquilo tudo normal, coisa do “General Costa e Selva”, com o meu pai o chamava… As lembranças não eram de repressão, eram do casarão do meu avô em Niterói, cercado de orquídeas.

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Heraldo Pereira 04/06/2012 at 12:19

Que carta emocionante e bela, Fábio!. A gente se conhece faz muito tempo, décadas certamente. E hoje, pela primeira vez, pude ter, com os leitores deste seu notável espaço, um relato abrangente sobre ti. E sobre a sua história, sobre os seus…
Vivemos, como jornalistas, contanto histórias. Acabamos, infelizmente, nos esquecendo dos nossos “causos” de vida que, no seu caso está claro, podem ser indispensáveis nesses tempos em que, até dada a multiplicidade da comunicação, alguns mais “espertos”, tentam, até criminosamente, desvirtuar ou mostrar que não existiram. Só os incautos caem nestes contos!
A história de cada um parece ser uma “perseguidora implacável” a nos vigiar atrás das portas da vida. A sua história daquele período difícil para todos nós, meninos do interior do Brasil, é muito triste e, ao mesmo tempo, importante para ser contada. Você o faz com brilho, caráter e honradez, ingredientes que deveriam ser menos raros em nosso meio.
Saudade da dona Martha. Um abraço fraterno de admiração do Heraldo Pereira.

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Cassio Curvo (Cuiabá) 04/06/2012 at 12:15

Parabéns pelo belo texto! Legal também ler sua irmã dizendo que você está escrevendo cada vez melhor, rssss. Ah, e completar 25 anos de casado é para os bravos, e diga ao seu irmão que me solidarizo com ele.
Abração daqui de Cuiabá.

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RAFAEL D'AMICO 04/06/2012 at 12:09

Fábio, valeu sua breve retirada. Muito linda sua narrativa.
Vale um livro, mesclando realidade e ficção. Más não perca tempo, este velho pode ir antes encontrar-se com o seu Afrânio.
um grande abraço, valeu.

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foraPTbandido 04/06/2012 at 12:02

Como já expus em comentário recente, vejo a golpe militar como um mal necessário ante a tentativa dos subversivos de esquerda em implantar uma ditadura sangrenta aos moldes cubano. É evidente que em conflitos desta natureza , há perseguições de ambas as partes, principalmente dos militares, no entanto, tal perseguição é indiscriminavelmente aumentada pela mídia esquerdista. Sinto muito pelo seu avo; qualquer pessoa deve ter o direito a escolha de uma posição politica ideológica sem que seja coagida a se retirar da nação por causa dela. Contudo, em certos momentos da história isso não é possível, lamentavelmente.

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Alex 04/06/2012 at 13:26

Já.

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Nivaldo Castanheira 04/06/2012 at 10:52

Fabio, li e gostei muito. Fico pensando quantas famílias e quantos Fábios existem no nosso país. Quantas histórias nunca serão contadas e foram (estão sendo acontecendo e acontecerão para sempre) belíssimas. Nestes momentos vale a pena saber-se brasileiro. Ô terra boa sô! Que gente é essa … Um abraço a todo o clã! Valeria a pena juntar-se tudo num bom livro … Já pensou? Várias famílias, no norte no sul no centro oeste etc etc etc …

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LuizMS 04/06/2012 at 10:50

Parabéns pelo emocionante texto. Foram anos difíceis aqueles. Espero que nunca mais nos falte a liberdade, alimento da nossa alma e da nossa vida.

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Sergio Canella 04/06/2012 at 10:45

Comovente a história que você narra, Pannunzio.
Uma demonstração que não precisava a pessoa estar envolvida com a Luta Armada, como seu pai e sua mãe para serem perseguidos e prejudicados pela ditadura.
O que houve com seu avô? Ele chegou a retornar ao Brasil com a Anistia de 1979?
Abraços

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regina cintra 04/06/2012 at 10:29

Pelo menos o Castelo Branco recusou a terra que lhe foi oferecida. O que acha se fosse oferecida hoje uma terra ao Lula ou ao PT , amigo?

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Candango 04/06/2012 at 10:03

Pannunzio,

Volto a comentar porque me esqueci de abordar, no comentário anterior, o envolvimento do seu avô com o Movimento de 1935 (Intentona). Seria muito interessante, do ponto de vista histórico, que você escrevesse sobre o assunto e quem sabe resolver um enigma: O Banco do Triângulo Mineiro financiou o levante?

Obs. Também nasci no Triângulo (Monte Carmelo)

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Robson de Oliveira 04/06/2012 at 09:58

Bom dia Pannunzio. Lindo relato.

Que as lembranças amargas de tempos difíceis sejam como aquelas flores pequenas do serrado. E que as perspectivas de futuro sejam grandes e exuberantes como o campo iluminado de girassóis.

Parabéns por mostrar que nem todos os que sofreram naqueles tempos, mantém uma chama da vingança ainda acessa.

Robson de Oliveira

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Cris Azevedo 04/06/2012 at 09:57

Não me entenda mal, Fábio, mas o que você nos conta poderia se chamar “Um homem e suas escolhas”. Se, se um lado, seu avô e seu tio fez escolhas e pagaram por elas, inclusive colocando sua familia em risco, de outro havia todo um contexto historico, que ia muito além dos dramas familiares de cada um. Vocês tiveram os seus dramas e outros, do lado de lá, tiveram os deles, muitos dos últimos sequer sabendo porque tiveram filhos trucidados ou pais eliminados.
Se formos ouvir as histórias dramáticas deles, Fábio, talvez tenhamos mais motivos para revolta.

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Candango 04/06/2012 at 09:28

Parabéns, Pannunzio.

O grande jornalista se revelando um grande cronista, um excelente escritor. Um homem que mostra que teve berço. A cada dia seu blog se firma como referência no debate político sério e independente.

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Sergio Rubim 04/06/2012 at 08:11

Belíssimo e emocionante relato Fábio. Quando pequeno passei por situações semelhantes com militares invadindo a minha casa, levando documentos, fotografias e meu pai. Tomei a liberdade de publicar parte de seu texto em meu blog (Cangablog), com o devido crédito, é claro.
Grande abraço
Canga

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Fábio Pannunzio 04/06/2012 at 08:14

Muito obrigado, Rubim.

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Jayme Guedes 04/06/2012 at 07:47

Ainda mais verdadeira do que a afirmativa segundo a qual somos o que comemos é a constatação de que somos o que vivenciamos. Incorporamos nossas experiências de vida e elas passam a fazer parte de nós. Assim, os envolvidos nas circunstâncias descritas na narrativa que tiveram sua têmpera enriquecida no cadinho do sofrimento certamente saíram dela como pessoas muito melhores. Todos, de certa forma, são devedores do avô sonhador. Sonho sim pois o comunismo, por contrariar a natureza humana, é inviável. Como ensina a história recente, só se sustenta pela força. Egoístas, competitivos e acumuladores, estamos mais para Wall Street. Parabéns aos que fizeram parte dessa travessia.

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João José da Silva Neto 04/06/2012 at 07:25

Muito lindo Pannunzio. Moro em Goiás, retirado a 220 Km de Uberlândia e como vc, aprendi a admiriar a particular beleza do cerrado. Por minha origem ser do Estado de São Paulo, à mais de 30 anos atravesso todo o Triangulo Mineiro para ver meus parentes paulista, além de possuir muitos amigos na sua cidade natal. Bonita familia e história.

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Nelson Cid. 04/06/2012 at 07:15

Ia comentar, Fábio, mas a leitora Denise (obrigado) disse tudo o que eu pretendia escrever. Só resta o abraço, que aqui deixo!

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pinna 04/06/2012 at 06:12

Olá!
Parece o Eden, mas e a água? Num tinha/tem nem um riachinho, um córrego já servia.
No mais, inveja… das boas “visse ?”

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Oswaldo 04/06/2012 at 02:37

Muitíssimo obrigado por compartilhar sua história, Fabio. Não tenho como superestimar o impacto que me causou.
Acabo de assinar o seu blog. Continue sempre o bom combate. Saúde!

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Mariangela Porto 04/06/2012 at 01:45

Bela e triste história!
Abs

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Lavinia Pannunzio 04/06/2012 at 01:37

bonito seu texto
sua pena está ficando cada vez melhor, Fábio!
como você se parece com a mamãe…
jogando luz e uma lente de aumento sobre alguns detalhes…
queria ter estado nessa festa!
Deve ter sido incrível!
beijos, saudades de você e tudo isso

Reply
Ivan Jun Nakamae 04/06/2012 at 01:00

Li com emoção seu post. E prazer em melhor conhecê-los, você e sua família, eu que tive a oportunidade (e a satisfação) de um trabalho conjunto há uns quinze anos no estreante Canal Rural. Agora compreendo bem a familiaridade com que você enfrentava os assuntos e tocava o jornalismo do canal naquela época!! Descubro também que tem uma bela história de base a linha de coerência de seu trabalho jornalístico. Minhas homenagens.

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DENISE 04/06/2012 at 00:55

Caro Pannunzio, mesmo na impessoalidade da TV já o admirava pela serenidade, clareza e independência tão marcantes em sua atuação como repórter e mais recentemente como apresentador. Descobri por acaso seu blog e a partir desse dia sempre passo por aqui. No blog encontrei o grande homem, reconheci o cidadão comprometido com seu tempo e, nesse último post ,fui supreendida com essa pessoa sensível, otimista, generosa na demonstração de afeto a sua família e que apreende sua história e a dos seus sem fantasias, sem apelação, sem tintas de heroísmo. Vejo em você valores com os quais me identifico e não surpreende que de uma mãe escritora infanto-juvenil e professora saia alguém tão iluminado. PARABÉNS E GRANDE ABRAÇO!!

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Thomaz Magalhães 04/06/2012 at 00:48

Você é jornalista, dos bons, o tempo todo, não pára nunca.

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Jotavê 04/06/2012 at 00:32

Texto lindo, Fábio.

Um de meus melhores amigos é do ramo sorocabano de sua família – Márcio, artista plástico que está morando hoje em Ilhabela. Conhecemo-nos desde os seis anos de idade. O pai, Dino, tinha uma pedreira, onde brincávamos. O tio, Armando, foi um dos melhores prefeitos que a cidade já teve. Homem honestíssimo, filiado à Arena, como meu pai e muitos outros homens de bem daquele tempo.

Um outro mundo.

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Fábio Pannunzio 04/06/2012 at 00:49

Puxa, que coincidência boa! Quando puder, mande um abração pro Márcio. Qualquer dia eu vou visitá-lo na Ilha. Sim, ele eram homens muito dignos. Era outro momento da história, Jotavê.

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Big Head 04/06/2012 at 01:29

Emocionante mesmo, Jotavê. Parabéns, Pannunzio.

Reply
Henrique 04/06/2012 at 00:13

Belo post! Só ficou devendo uma foto dos campos de girassol.

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Rezende 04/06/2012 at 00:12

Nada como história de gente de verdade! Belo texto!

Reply
Vivaldi 04/06/2012 at 00:04

Fábio,

te enviei um comentário em algum outro post que não sei se você respondeu, saudando minha descoberta de seu blog e mais ainda, a clareza de sua visão política, a qual compartilho. Agora esta crônica, para mim tão íntima, por conhecer os personagens ainda vivos, me incita a este comentário pessoal só para mandar um grande abraço. Sou seu 87 assinante. Vivaldi.

Reply
Fábio Pannunzio 04/06/2012 at 00:05

Vivaldi, muito obrigado. Fico honrado e grato. Um abraço.

Reply
Vivi 03/06/2012 at 23:52

Adorei ler o seu relato!!
Tempos absurdos, aqueles!! Ainda bem que passaram.
Fico imaginando como deve ser a plantação de girassois.
Deve ser um espetáculo, de tão linda!
Agradeço por você compartilhar essa história conosco, Pannunzio!

Reply
Big Head 04/06/2012 at 01:25

Bolo Souza Leão

Ingredientes:

•1kg de massa de mandioca lavada e peneirada.
•2 vidros de leite de coco mais duas vezes a mesma medida de água
•2 vidros de leite de coco mais duas vezes a mesma medida de água.
•800g de açúcar
•3 copos americanos de água
•10 gemas
•1 pacote de margarina (250g)
•Uma pitada de sal

Modo de preparo:

1.Junte a massa de mandioca com o leite de coco e o sal
2.A parte, faça o mel com o açúcar com os três copos de água
3.Leve ao fogo
4.Quando soltar bolhas, está no ponto certo
5.Retire do fogo e junta-se a margarina aos poucos
6.Quando estiver morno, coloque as gemas uma a uma batendo bem
7.Junte este mel à massa que se formou com a mandioca e o leite de côco
8.Passe esta mistura em uma peneira fina de uma a duas vezes
9.Forma untada só com margarina
10.Leva-se ao forno por aproximadamente 35 minutos

Reply
Vivi 04/06/2012 at 13:14

Pannunzio, tem um fã da Palmirinha perdido aqui no seu blog!!

Reply
Soninha Francine 03/06/2012 at 23:42

Quanta tristeza… Quanta cureldade…. O proprio Prestes cometeu erros gravissimos… Mas ai esta o campo de girassois para dar alento aos que ficaram. Parabens para o seu irmao.

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Fábio Pannunzio 04/06/2012 at 00:07

Obrigado, Soninha. Um beijo pra você.

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Adriana Pannunzio 04/06/2012 at 10:09

Fábio, muito lindo o seu texto. Recentemente reli o livro Cartas de 2 mundos. É muito bom, especialmente se considerarmos as idades de nossos tio e mãe. Releia que você vai gostar. Beijos, Adriana

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Eliana Marquez de Oliveira 11/05/2013 at 22:44

Ola Fabio. Lendo seu post você me remeteu a rua Cipriano Del Fávero onde morei até 1956. Sempre ouvia as histórias de seu avô. Você tem ainda muito mais a contar. As perseguições, os descalabros, as dores, ainda tem muita coisa. Este post foi só uma pincelada. Tenho ótimas lembranças de vocês todos e nossa família acompanhou de perto toda a trajetória da sua. Parabéns pelo texto.

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