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Maus dias para a casa de Rio Branco

Por Sandro Vaia, no Blog do Noblat

Punhos de renda é uma boa metáfora para a diplomacia.

Significa suavidade, bons modos, boa educação, lhaneza de trato e acima de tudo fidelidade a compromissos assumidos.

Durante muitos anos o Itamaraty carregou essa classificação como se punho de renda fosse um arabesco sem significado para definir um enfeite comportamental supérfluo.

Mas não é.

A diplomacia de um país carrega o significado da atitude que ele assume diante da realidade cultural e política das nações com as quais esse país se relaciona.

Durante décadas, a casa de Rio Branco, como o Itamaraty se tornou conhecido, construiu uma reputação impecável no universo diplomático internacional graças à coerência com a qual administrou a inserção civilizada do Brasil na tarefa de administrar a convivência entre as nações.

A diplomacia brasileira defendeu durante anos o princípio de não-intervenção como um dos seus conceitos fundadores e através dele marcou a sua inserção no jogo diplomático internacional independentemente de quem estivesse ocasionalmente ocupando o poder.

Uma diplomacia profissional e ideologicamente neutra construiu um histórico sólido de independência em relação aos ocupantes ocasionais do poder.

Até no regime militar o Itamaraty se manteve distante do mood ideológico dominante e tomou decisões contrárias aos interesses geopolíticos imediatos dos militares.

O histórico de anos de altivez do Itamaraty começou a ser manchado nos últimos anos de diplomacia oportunista do governo petista, quando a confusão entre política de Estado e de governo começou a se sobrepor aos princípios institucionais do Itamaraty.

E mais do que uma política de governo – o que em si já seria uma anomalia – o ministério de Relaçoes Exteriores passou a praticar uma política de partido, deixando os interesses nacionais a reboque dos interesses ideológicos do partido no poder.

Foi assim com a crise em Honduras, foi assim na relação com o governo teocrático do Irã, foi assim na condescendência com o regime autoritário de Cuba, e foi escandalosamente afrontoso no episódio da condenação do suposto “golpe” no Paraguai, usado como pretexto para romper com todos os tratados internacionais, permitindo a entrada da Venezuela no Mercosul pela porta dos fundos.

O artigo 32 do Tratado de Ouro Preto, que trata do ritual de admissão de novos membros do Mercosul, exige a concordância de todos os membros.

O truque da “suspensão” do Paraguai foi um golpe baixo e a pressão denunciada pelo chanceler e pelo vice-presidente do Uruguai pela entrada forçada da Venezuela foi vergonhosa.

Ou seja: deixa-se artificialmente um membro do Mercosul a nocaute, provisoriamente, a pretexto de um golpe que não houve, pressiona-se o outro, a ponto de ele denunciar o incômodo com a pressão, e consegue-se a inserção do novo membro, que era vetado até então.

Nem é porque o Mercosul, como união aduaneira, valha uma missa em termos econômicos ou estratégicos. É pura birra ideológica, para dar ao bolivarianismo uma aparência de poder que ele não tem pelo consenso, mas só pela força.

A política de não-ingerência nos assuntos de outros países foi relativizada por uma não-ingerência de acordo com a cara do freguês.

Usar o Itamaraty para uma manobra tão rasteira como essa é uma humilhação para a casa de Rio Branco.

Beba na fonte: Maus dias para a casa de Rio Branco, por Sandro Vaia – Ricardo Noblat: O Globo.

Comentários

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7 comments

Alexandre Fonseca 06/07/2012 at 19:15

Um aspecto paradoxal desse imbroglio é que, alegadamente por não conceder tempo suficiente de defesa a Lugo, o Paraguai foi punido por seus parceiros no Mercosul sem nenhum direito de defesa.

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MarceloF 06/07/2012 at 18:23

Aplausos para o Vaia!!
Certíssimo. O Itamaraty se abastardou. Obra de Amorim e do PT!!
Sds.,
de MarceloF.

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Sadan Luizão 06/07/2012 at 14:35

Talvez tenha que viver de lugar comum para reforçar a corrente anti-petralha. O termo “Perólas aos porcos” aplica-se quase na totalidade a horda petista. Ultimamente tal qual a pata do cavalo de Átila, por onde passa nem grama nasce (Itamarati, Justiça, Senado, Câmara, Ministérios, Estatais, etc.). Deus abençoe a América e extermine os petralhas, chavistas, etc.

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Marcjaguar 06/07/2012 at 14:06

Analise perfeita!
Todo o texto poderia ser resumido numa unica frase, que jah seria suficiente para encher de vergonha os nossos diplomatas de carreira: “a confusão entre política de Estado e de governo começou a se sobrepor aos princípios institucionais do Itamaraty”.
Samuel Pinheiro Guimaraes eh um dos responsaveis pelo rebaixamento moral de nossa politica externa. Ele e o “ratito” Amorim tem contribuido de maneira sistematica para que o Brasil esteja se tornando um pais com credibilidade em baixa no concerto das nacoes!

abraco, Pannunzio! 🙂

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Nelson Cid. 06/07/2012 at 13:54

Caro Teo, uma correção: o texto é do jornalista Jundiaiense Sandro Vaia.
Abraços.

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Teo 06/07/2012 at 14:18

Verdade. Desculpem. Boa sorte ao jornalista Sandro, agora será rotulado de PiG forever.

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Teo 06/07/2012 at 13:09

Excelente o artigo do Noblat. Vai valer vários posts no sites sustentados pelo governo, onde Noblat será espezinhado e chamado de reacionário.

Alias, não concordar com algo do PT hoje em dia eh o suficiente para ser chamado de reacionário. Como o próprio Pannunzio sabe muito bem.

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