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Até a vista, Zé Paulo

Zé Paulo de Andrade e eu pensávamos o mundo de maneira completamente diferente. Ele era reaça, avesso à descriminalização da maconha e muito religioso. Eu, ateu militante e completamente identificado com o pensamento progressista.

Tivemos inúmeras divergências no ar, nos programas da Rádio Bandeirantes dos quais tive a honra de participar junto com ele. Era digno e honesto.

Jamais o vi defender uma ideia que não fosse sua. Ele resistia como um touro a tudo o que considerava insensato e inaceitável. Jamais foi um cumpridor de ordens. Era um jornalista honrado e tinha um amor enorme por seu mister. E nisso, até seus detratores hão de concordar.

O Zé Paulo de Andrade que conheci era um grande democrata. Da mesma maneira apaixonada com que defendia suas posições, defendia também o direito de seus contendores de discordar dele. Por trás de seu jeito durão havia uma pessoa terna e afetuosa, sempre com uma palavra amiga depois das contendas públicas.

Foi com ele que eu aprendi a discutir sem odiar. Aprendi que se pode divergir sem estigmatizar. E que ganhar uma discussão não significa anular o outro, desqualificar o outro, massacrar o outro.

O Zé com quem tive o prazer de conviver foi um grande professor. Um professor do tolerância, de resignação. Uma vez ele me disse que o importante na vida é saber perder, porque ganhar, é moleza. Um bom conselho para um ‘jovem’ que, aos 55 anos de idade, contava de vida o tempo que ele tinha de profissão.

Ele vinha acumulando derrotas para a DPOC há muito tempo. Subir uma escada ou fazer um comentário era um desafio em alguns dias ruins.  A doença minou seu corpo para a sentença mortal decretada pelo coronavírus. E o derrotou na madrugada passada. Ele perdeu para o tabagismo que o escravizou por quase toda a vida. Foi vítima de uma conjunção horrenda: as sequelas do vício mais adictivo e a doença mais sorrateira.

Fiquei muito triste com a notícia de que ele não resistiu. Vai fazer uma falta gigantesca. Tanto para nós que gostávamos dele quanto para os jornalistas que estão saindo do forno das faculdades e que jamais terão oportunidade de estar ao lado de uma lenda da magnitude de Zé Paulo.

Lamento também não pode dizer a lhe ‘até a vista’ por não ter em perspectiva a possibilidade um reencontro póstumo — por razões óbvias. Mas ainda existe uma chance de eu estar errado e ele certo quanto a isto, a conferir sem pressa.

Mas mesmo considerando essa hipótese, o reencontro seria improvável. Quando se irritava comigo, ele costumava encerrar o assunto bradando um sonoro e divertido ‘vá para o inferno’, imprecação que sabia  não me assustar.

E lá certamente ele não estará.

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