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Clima: 2020 foi ruim, mas o pior ainda está por vir.

Apesar da fumaça, do calor infernal dos últimos dias, da seca prolongada no Centro-Oeste brasileiro, do fogo descontrolado no Pantanal e dos incêndios na Califórnia o planeta conseguiu superar o pico do verão no Hemisfério Norte sem tangenciar o recorde negativo de 2017 — o pior ano nas mais de quatro décadas de monitoramento climático pelos satélites da NSDIC (National Snow and Ice Data Center) e NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration).

Gaia tem resistido aos ataques predatórios aumentando um pouco seus estoques de gelo nos polos, o que fez com que os oceanos permaneçam no mesmo nível, visto que o volume de água líquida tem uma relação inexorável com a extensão do gelo polar — especialmente no sul do planeta.

O verão  está terminando sua fase crítica em situação um pouco mais favorável do que a verificada em 2017, o pior de todos os anos desde 1978, quando os registros da extensão da superfície de gelo passaram a ser feitos.

De acordo com os dados coletados pelas agências norte-americanas, a menor extensão do gelo ao sul da esfera terrestre em 2020 foi registrada em 15 de setembro, quando a banquisa chegou a 3,737 milhões de km2.

Sozinho, esse número diz pouco sobre o clima no planeta. Para que faça sentido é preciso compará-lo com os registros de outros anos. No fatídico 2017, a banquisa antártica ficou exatos 350 mil km menor do que este ano no pico do verão — uma área do tamanho da Itália ou das Filipinas. Em termos percentuais, temos hoje ao sul do planeta 10,3% mais gelo do que tínhamos no auge do verão austral de 2017.

O problema é que estamos ainda muito abaixo da média dos últimos 39 anos. Como se pode ver no destaque ao lado, a superfície gelada na parte meridional do planeta teve, em média, 6,34 milhões de km2 ao longo das últimas quatro décadas. Ou seja: em 2020, a perda da área de gelo em relação à média histórica foi de 53% no pico da temporada de máxima insolação no Hemisfério Sul.

Afirmar que isso se deve à atividade humana e à queima de carbono não explica todo o problema. Embora tenha dobrado desde a revolução industrial, passando de 200 para 400 PPM (partes por milhão) , a concentração atual de CO na atmosfera tem variado lentamente  e não justificaria, por si só, a manutenção do calor atmosférico em níveis altos o suficiente para derreter metade da camada média do gelo austral.

‘Solar flares’: labaredas calcinantes podem ter dezenas de vezes o tamanho da Terra.

A explicação para esse fenômeno pode estar a 150 milhões de quilômetros de distância. Em maio passado a NASA anunciou a descoberta de uma série de novos pontos escuros na superfície do sol.

As manchas solares são criadas por fenômenos magnéticos na nossa estrela, cujos polos se invertem a cada 11 anos. Elas funcionam como enormes lança-chamas que disparam labaredas de altura equivalente a  30, 40 vezes o diâmetro da Terra,  e têm uma quantidade de energia capaz de calcinar corpos celestes muito maiores do que nosso planetinha azul.

O gelo no Ártico

A maior parte do gelo que compõe a calota polar Norte se forma sobre a superfície do mar. Ela não está apoiada no solo, como no continente antártico. A água congelada tem uma densidade menor do que a água em estado líquido. Por isto, a banquisa no Ártico flutua sobre o mar como se fosse uma gigantesca rolha branca. O mesmo efeito faz com que o gelo em cubo flutue sobre a água num copo ou numa jarra.

Ainda que viesse a derreter, esse gelo que está sobre o Oceano Ártico pouco interferiria no nível dos oceanos, assim como o derretimento do gelo não faria a nossa jarra hipotética transbordar.

Ocorre que nem toda a banquisa flutua sobre o mar. A Groenlândia, por exemplo, tem sistematicamente perdido mais gelo do que na média das últimas quatro décadas. Gelo que está apoiado em blocos continentais. Neste 2020, o derretimento alcançou 551 mil km2  no dia 10 de julho, o mais quente do ano naquela localidade.

É muito. A média histórica não chega a 300 mil km2. Mas ainda assim é bem melhor do que o quadro registrado no pico do verão de 2012, o pior ano para a parte branca do território da Terra Verde. O meltdown foi três vezes maior há oito anos — a área ‘derretida’ chegou a inacreditáveis 1,464 milhão de km2  no dia 11 de julho de 2012, quase três vezes mais do que o pior registro deste ano.

Felizmente a banquisa do Ártico se regenerou e consegui manter-se acima da média histórica. No pico do inverno setentrional, sua área chegou a 18,95 milhões de km2, 4,7% maior do que a média histórica de 18,1 milhões de km2.

Ainda que esse dado possa ser visto como positivo, climatologistas de todo o mundo chamam a atenção para a tendência que vem se acentuando de declínio das reservas de gelo planetárias.

Ainda que seja lícito questionar as causas que estão a provocar esse fenômeno, os dados coletados pela NOAA e pela NSDIC não permitem mais nenhuma dúvida acerca do aquecimento global. O negacionismo climático não encontra amparo nos registros dos sensores satelitais, ao passo em que fenômenos meteorológicos extremos ocorrem cada vez mais amiúde. Ou seja: Não cabe mais discussão sobre se a Terra passa por um período de aquecimento ou não, embora não haja consenso sobre as causas desse fenômeno.

É bem provável que o atividade solar esteja amplificando os efeitos do aquecimento provocado pelo efeito-estufa decorrente da atividade antrópica. É nesse sentido que a destruição da floresta patrocinada pelo governo brasileiro traz mais um elemento de preocupação planetária.

O problema é que a destruição da floresta provoca uma mudança do chamado Efeito Albedo — a propriedade que faz com que a luz do sol seja refletida ou absorvida , dependendo do material que forma a superfície que ela atinge. Superfícies geladas são extremamente brancas e reflexivas. 90% da energia proveniente do sol é devolvida para o espaço nas regiões cobertas de gelo e neve.

Nas áreas de floresta, o albedo é muito menor. Climatologistas estimam que o albedo na Amazônia, situada na linha do Equador, a região com maior insolação do planeta, seja de 10%. Ou seja: 90% da energia recebida do sol é absorvida pelas copas das árvores, que refletem quase que exclusivamente o espectro verde.

Se mais energia é absorvida, mais vapor de água será necessário para repor o equilíbrio térmico no ecossistema amazônico. E quanto mais vapor é lançado na atmosfera pelas árvores, mais nuvens se formam sobre o continente. Essas nuvens, ou mesmo o ar úmido que ainda não se encontra condensado na atmosfera, vão influenciar o microclima no continente sul-americano ao resfriar a superfície com sua sombra e aumentar a pluviosidade a leste da cordilheira dos Andes. São os chamados rios voadores da Amazônia.

De acordo com o INPE, ao menos 18% da cobertura florestal amazônica desapareceram nas duas últimas décadas. Os problemas decorrentes dessa destruição não se resumem às insofismáveis perdas da biodiversidade.

Nas áreas desmatadas, o albedo médio é de cerca de 30%. Isso significa que, de cada 10 fótons de energia térmica/luminosa que chegam ao solo devastado, 7 são devolvido ao espaço. Se há menos energia absorvida, menos evapotranspiração; menos evaporação, menos nuvens; menos nuvens, menos chuvas nos trópicos.

Não é por acaso que o mundo todo está preocupado com a índole devastadora do governo Bolsonaro. As consequências da atuação criminosa do atual ministro do Ambiente, Ricardo Salles, uma espécie de General Custer do antiambientalismo brasileiro, apavoram a opinião pública mundial, pois afetam todos os seres humanos, indistintamente do local em que estejam.

Os cruzados de Brasília parecem não ter entendido ainda o enorme equívoco que cometem ao se colocar na contramão da história com seu espirito bandeirante. Levada a efeito, a política de “passar a boiada” para permitir a destruição do planeta parece desprovida de qualquer racionalidade econométrica.

O Brasil vem acumulando perdas expressivas e terminará completamente isolado na condição de pária global e inimigo do meio-ambiente. Para quem acha que não, basta lembrar que já perdemos US$ 35 milhões do Fundo Amazônia e inviabilizamos um acordo que o MERCOSUL vinha construindo há mais de 20 anos com a União Europeia.

Nunca é tarde para lembrar que nosso produtos estão passando pelo escrutínio de consumidores cada dia mais exigentes e empoderados. O comércio já não é mais uma atividade que compreenda a simples troca de mercadorias parametrizadas apenas por  seu valor financeiro. Quem compra um produto, compra também a reputação de quem o vende ou fabrica.

E ninguém num mundo cada vez mais intoxicado pelos poluentes, mais devastado pela incúria, mais atacado pela fúria da meteorologia vai querer a companhia dos vilões do clima em que Bolsonaro tão rapidamente nos transformou.

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