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Gloomy Sunday

Saio da cama aturdido por um telefonema fora de hora. Minha filha Bruna está apavorada porque acordou com tosse, febre baixa e diarreia. E agora? Ela é mãe da minha única neta. Se tiver se contaminado, alguém vai ter que cuidar da Manu, e sou eu mesmo.

Em junho, completo 60 anos e passo oficialmente a integrar o grupo em que a idade se transforma em comorbidade. Mas 36 anos de cigarro e uma vida desregrada anteciparam meu ingresso na esfera dos grupos de risco. Sou cardiopata, tenho um stent no peito e hipertensão crônica. Não posso pegar a ‘gripezinha’.

Uma amiga me liga convidando para o almoço. Ela tem 44 anos e está em ótima forma. Semana passada o filho de oito anos teve sintomas, mas um exame afastou a suspeita.

Moro numa praia isolada. A vontade de quebrar a solidão que o isolamento impõe é grande. Mas declino do convite e explico que ficarei longe de gente enquanto o tsunami não passar. Afinal, mudei-me para a praia onde vivo com este propósito.

Minha amiga parece compadecida. “Poxa, se estivesse no seu lugar, faria o mesmo”, diz ela, tentando me consolar. Sinto-me compelido a refletir sobre qual é o meu lugar – e também qual o lugar dela, já que estamos em lugares supostamente diferentes, separados por uma geração.

Ela é jovem, faz parte de uma geração que tem se aglomerado, lotado festas clandestinas, comemorado o carnaval na Lapa carioca ou em Porto Seguro, São Miguel do Gostoso, qualquer lugar onde haja autoridades indulgentes que não acreditam no isolamento social. Elas estão por todo o País.

Minha amiga não é má pessoa nem insensível às dores do momento. Ela sente que está invulnerável ao Coronavírus porque é protegida pela juventude. Os jovens – ela nem é tão jovem assim,  mas se insere culturalmente no contexto dos jovens – realmente ‘sentem’ que são invulneráveis.

Numa sociedade regida pelo mais absoluto egoísmo, essa invulnerabilidade presumida abre espaço para um certo sentimento de injustiça. “Ora, se os mais velhos são mais vulneráveis, então eles que se cuidem, pois nós temos o direito de aproveitar a blindagem proporcionada pela nossa juventude. Impedir-nos não é justo porque a COVID não é problema nosso! ”.

É assim que eles raciocinam. É por isto que lotam as festas, fazem raves, bailes funk, carnavais e vão semeando a infecção. Assim ampliam a sombra que se projeta sobre a sociedade turvando o debate, instilando dúvidas e instigando o comportamento que não se deve ter.

Um primo que foi meu grande amigo de infância manda uma mensagem num grupo de Whatsapp com um vídeo anexado. Um tio médico que cedeu ao charlatanismo e às crendices religiosas aparece receitando uma bruxaria como ‘preventivo’ para a COVID. Uma nebulização com água oxigenada e bicarbonato de sódio, receita centenária tirada dos porões da gripe espanhola que ele apresenta como uma grande novidade.

Meu primo querido diz que está fazendo a nebulização duas vezes por dia e se sente protegido. Tento explicar a ele que isso não tem nenhum efeito preventivo, que seguir a fórmula do tio charlatão pode levar os velhinhos da família a descuidar do isolamento e até mata-los.

Ao invés de aclarar as coisas, minha admoestação gera um contravapor furioso. Quem sou eu pra chamar de charlatão o tio querido? O fato dele estar ajudando a criar o Aliança, o partido de médicos e verdugos imaginado pelos piores reacionários brasileiros, não tem nada a ver – suas perorações são sempre científicas. E que autoridade tenho eu, reles jornalista, parte de uma imprensa militante e comunista?

Entre mim e meu primo querido há um fosso ideológico escavado por mãos fortes e habilidosas. Mãos que têm força suficiente para destruir a realidade e instalar em seu lugar um simbolismo que faz sentido em si, embora destoe do que se pode observar.

Esse simbolismo impede as pessoas de enxergar os mortos, entender o que são 250 mil vidas perdidas. Elas não são capazes de ver o óbvio: Que o general da nossa tropa está no comandando do exército inimigo. Que a grande aposta do governo é em deixar morrer quem tiver que morrer, não importa que sejam milhões.

Não adianta lembrar que quem está liderando esse ataque é um cultor da morte, tem tesão por morte, é um autêntico tanatocrata com pendores de genocida. Que se opõe diametralmente a tudo o que se recomenda — do uso de máscaras ao recurso a notícias falsas para fundamentar sua realidade paralela.

Fale que ele um dia quis tirar a cadeirinha das crianças do banco traseiro dos carros e eles dirão que é mentira. Fale da epidemia das armas com que ele está inundando o País mais violento do planeta para que ele fique ainda mais violento. E eles te dirão que todo mundo tem o direito de se defender.

A rigor, essa conversa toda, que começa na necessidade do distanciamento social e termina sempre no Bolsonaro, nem deveria existir. Mas ela está implícita em cada gesto das pessoas. Ela contaminou o tecido social  e avança sobre as pessoas com mais virulência do que o agente etiológico da COVID.

Minha manhã termina com um telefonema de uma amiga. O dia está carregado. Ela está apreensiva, pois a mãe, de 83 anos, se recusa a tomar a vacina. “Ela disse que a Coronavc, não toma nem por um caralho”. Prefere morrer a tomar a injeção que poderia salvá-la.

Não existe comunicação entre nós, que estamos deste lado, e eles, que estão do outro lado do muro intransponível que essa ideologia estranha ergueu entre nós. Falamos a mesma língua, mas temos epistemes diferentes. As mesmas palavras têm significados opostos dentro dos mesmos contextos.

Estamos num mundo em que os mais jovens não sabem o que é agir coletivamente porque se sentem blindados. Não entendem o significado prático da palavra solidariedade. Os mais velhos, muitos deles foram abduzidos por crenças exóticas e servem como replicadores dessa estranha cultura da desconfiança que se espalhou entre nós pelos grupos de WhatsApp.

Temos uma pandemia ativa à qual precisamos sobreviver. Precisamos cuidar dos idosos e eventualmente dos mais jovens que vierem a desenvolver quadros graves. Há os incapazes e as crianças, que dependem de adultos saudáveis para seguir adiante.

Temos a economia para resolver e a oposição desmesurada e irresponsável do Poder central. Temos governadores e prefeitos tíbios, sem a coragem necessária para parar todo mundo, que é o que deveria ser feito. E ainda que isso ocorresse, a desobediência civil orientada pelas mais altas esferas criaria um ambiente de guerra civil.

Há juízes, desembargadores, parlamentares e ministros negacionistas. Há um comando mortífero a ser obedecido.

Só não há uma coisa. Uma resposta a uma pergunta simples.

Diante disso tudo, o que nós vamos fazer agora?

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