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Cloroquina e Covid: como um fetiche de 500 dias ajudou a matar meio milhão de brasileiros

Faz 467 dias que o difosfato de cloroquina foi apresentado ao público brasileiro associado ao tratamento da COVID-19. 467 dias de fetichismo científico, controvérsias de araque e culto a um composto que pode quase tudo – mas contra outras pragas que não o Coronavírus.

O idílio da panaceia que se criou em torno do remédio contra malária pode ter sido herdado da Gripe Espanhola, epidemia que devastou o planeta um século atrás. Na época, a ciência ainda especulava com a existência dos vírus, uma descoberta recente.

A fórmula utilizada hoje, aliás, sequer existia então. Mas as historiadoras Leila Schwarcz e Heloísa Starling lembram, em “A Bailarina da Morte”, que “não há apenas semelhança, coincidência ou mero acaso se compararmos, por exemplo, o uso do sal de quinino e do comprimido cloroquinino, vendido nas farmácias em 1918, e o uso da cloroquina em 2020”.

Nos jornais brasileiros, o uso da cloroquina no enfrentamento da pandemia foi mencionado pela primeira vez no dia 25 de fevereiro de 2020. A doença começava a devastar a Europa. “Itália tem 11 mortes por coronavírus; Suíça, Croácia, Áustria e Espanha registram primeiros casos”, informava a Folha de São Paulo.

Àquela altura, havia apenas 320 casos confirmados na Itália. O problema parecia ter se concentrado na cidade de Módena, onde falhas em procedimentos de proteção no hospital que recebeu o primeiro doente no País permitiram que o vírus contaminasse o corpo clínico e outros pacientes.

A menção à cloroquina, no entanto, era imprecisa e não fazia referência a qualquer fonte crível. “De acordo com um estudo chinês, a cloroquina, agente geralmente usado no combate à malária, mostrou-se eficaz contra o coronavírus”, informava o jornal, sem especificar que estudo seria esse nem que instituição o patrocinava.

Uma semana mais tarde, no dia 4 de março de 2020, a droga foi novamente mencionada em matéria da BBC News reproduzida pela Folha. A reportagem, no entanto, teve o cuidado de alertar para o  fato de que a cloroquina tinha efeito antiviral ‘in vitro’, e não na clínica médica.

“Está provado que este composto bloqueia o novo coronavírus in vitro e já está sendo usado em pacientes que tiveram pneumonia devido ao vírus”, afirmava o texto, que apresentou corretamente o medicamento como “antimalárico com atividade antiviral potente”.

Prescrição política

A julgar pela cronologia da disseminação do meme, o negacionismo que se utilizou do difosfato de cloroquina para o proselitismo político foi forjado em algum momento no começo de março do ano passado. Do completo desconhecimento à primeira prescrição de natureza ideológica, apenas duas semanas se passaram.

No dia 19 de março, a Folha trazia a seguinte manchete: “Trump diz que hidroxicloroquina, droga para malária, pode ser testada contra coronavírus”. No intertítulo, o jornal assinalava que “ainda não é possível afirmar que o uso do medicamento seja eficaz no tratamento da Covid-19”.

Estava criada a fórmula que iria orientar as ações do novo fascismo planetário e disseminar o meme do charlatanismo para fazer a população a adoecer em prol de uma suposta imunidade coletiva, ou de rebanho, estratégia que levou ao morticínio em massa onde foi adotada – especialmente nos EUA e no Brasil.

No mesmo dia em que a notícia foi publicada, a cloroquina começou a desaparecer das farmácias brasileiras. Em função disso, já no dia seguinte, 21 de março, os jornais informavam que a ANVISA havia vetado a exportação da droga, que começava a desaparecer das prateleiras das drogarias.

A partir de então, a droga entrou no inconsciente coletivo do País ao ser adotada pelo capitão Jair Bolsonaro como a principal estratégia oficial de abordagem da pandemia. No dia 21 de março, a Folha informava que “Bolsonaro manda Exército produzir mais cloroquina mesmo sem ação comprovada contra Covid-19”.  Estava formalmente criada a controvérsia que seria apresentada e reiterada aos brasileiros como solução (de araque) para um problema gigantesco do qual ela não tratava.

Definia-se, assim, o papel ideológico que caberia à droga cumprir no contextos das injunções para a articulação do novo fascismo. Enquanto isso, o antimalárico começava a ser fustigado pelos cientistas, desconfiados de que o alarde em torno da cloroquina estava se pautando não pela ciência, e sim pela política.

De lá para cá, 16 meses já se passaram. A ciência não tardou a esclarecer que a aposta dos políticos não se confirmava na prática de hospitais e centros de pesquisa.

Paradoxalmente, impulsionada por protoditadores que fizeram a aposta errada, a cloroquina se transformou no engodo que é hoje, permanecendo entranhada como um dogma do charlatanismo político muito popular em ambientes crédulos como a extrema-direita brasileira.

Desmoralizada pela constatação estatística de que além de não ajudar ainda atrapalha, a cloroquina sobrevive nos delírios oficiais como a panaceia não de uma doença mortal, e sim de uma crise política que decorreu de uma aposta ruim sem qualquer base fática feita por tiranos em busca de uma saída fácil para um problema sanitário gigantesco.

Banido dos protocolos de todo o planeta, o remédio contra malária ainda é receitado em milhares de consultórios médicos do SUS e das clínicas particulares para doentes desesperados e desorientados pelo mau uso político da prescrição.

Quase 500 dias se passaram. Um genocídio foi urdido e já produziu meio milhão de mortos – mil para cada dia do fetiche. A crônica do absurdo que o charlatanismo escreveu no Brasil a partir da retórica oficial prova que, como o Coronavírus, o idílio da cloroquina segue firme como o vírus em organismo imunes à boa informação, que são cada vez mais resistentes à racionalidade e à boa prática científica.

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