Notí­cias Polí­tica

Um Despertar de Corno — Assim Alvorece no Alvorada

O sol traz de volta as primeiras cores do dia e começa a despontar no horizonte do Alvorada. Bolsonaro está ainda imerso em sonhos plenipotenciários. É o grande herói nacional. Livrou o País dos comunistas, dos viados, das sapatonas, do pessoal dos direitos humanos; devolveu os negros ao seu devido lugar, restaurou a grande função social do elevador de serviço. Enforcou o último indígena nas tripas da última jornalista. E finalmente conseguiu acabar com a tomada de três pinos.

Mas logo o despertador toca trazendo-o de volta à realidade. Bolsonaro abre os olhos. A primeira coisa que faz é se certificar de que o grande amor de sua vida, sua companheira inseparável e fiel, passou a noite incólume. Sim, ali está a pistola de grafeno que a Taurus lhe deu de presente, intocada, sobre a mesa de cabeceira que ele insiste em chamar de criado-mudo.

Do outro lado da cama, a primeira-dama ressona sonhando outros sonhos.

Bolsonaro olha para Dona Michelle e pensa “que bom que não é a Ana Cristina”. A ex-mulher o deixou em situação muito delicada com aquela história do bombeiro. Ainda que se esteja acostumado, ser traído não é a coisa mais prazerosa que possa acontecer a ninguém. Muito menos ser elevado à condição de pai dos cornos da Pátria. Fascista, genocida, nazista, tudo bem; mas chamá-lo de corno, aí já estão ultrapassando as quatro linhas da Constituição.

Ele pega o celular para saber o que estão falando a seu respeito nas redes sociais. Tudo bem no Whatsapp, mas o Twitter está um inferno. Agora quem está sendo massacrado é o quase imberbe 04. O garoto Renan, tão novinho, já tão popular entre os críticos do pai!… “Sifudê, porra!”

É uma perseguição implacável. Uns jornalistas comunistas logo cedo destilam vitupérios contra a Primeira-Família na internet. Será que essa gente não dorme? Um tuíte pede a prisão do 02, Carlos, o Carluxo . Outro fala que o processo das rachadinhas do Flávio pode voltar a andar, apesar dos gestos de boa vontade dos amigos Aras e Noronha.

“Porra!” pensa, “mas a Ana Cristina não precisava ir morar naquela mansão agora. Não bastava o Flávio com esse gosto desmedido por coisas de luxo? Custava esperar? De novo ela, Ana Cristina, criando problemas”.

O telefone toca. É o General Heleno. Imagine como deve ser difícil a vida de alguém que começa o dia com uma chamada do General Heleno.

“Liga a Globo”, diz o chefe do GSI. Lá está um repórter comunista relatando que a Polícia Federal mandou prender mais alguém da turma dele. Bolsonaro não consegue prestar atenção, não porque esteja alienado, mas porque o repórter tem um jeito meio efeminado, é gaysista, não há nenhuma dúvida.

Suprema sacanagem: convocaram até a Carla Zambelli para prestar depoimento à PF .”Onde essa gente pensa que vai? Que puta atrevimento!”, exclama, mas não incomodado com a convocação em si, e sim por ter ficado sabendo daquilo na Globo. É a morte em vida para ele. “Preciso encher esse Alexandre de Moraes de porrada”.

Seu estômago já está tomado pela bile cinco minutos depois de acordar. Então ele se consola pensando que muita gente teve uma noite pior do que a sua. O Roberto Jefferson, por exemplo. Fica ressentido. A pulsação vai a 171 batimentos por minuto. A lembrança do Barroso e do Alexandre de Moraes , que insistem em não reconhecer que ele é quem manda, enche seu coração de ódio.

No banheiro, a imagem tenebrosa refletida no espalho o assusta. A pele está ficando flácida, o verde nos olhos agora é indefinido e opaco — um verde amazônico, mais para o cinza das queimadas do que para a cor das esmeraldas. cujo garimpo ele pretende liberar Mas não há tempo a perder com os sinais de senescência. O dia ainda não começou e ele tem um País por destruir.

A agenda é quase sempre curta, mas os compromissos são muitos. Uma motociata em Arapiraca, a inauguração de uma ponte de madeira em algum ponto distante da Amazônia, uma reunião com o Malafaia. Pobre do Presidente que tem que começar o dia pensando em se reunir com o Malafaia.

Ele também tem que provocar três aglomerações para xingar o Barroso e o Moraes. Não vai ser fácil. Até porque o Congresso, na véspera, mandou para o arquivo sua proposta de reforma trabalhista que os adversários apelidaram de restauração da escravidão. Sem falar da sacanagem que fizeram com o projeto do voto impresso. Gente ingrata! Mas e o Ciro Nogueira? E a Flávia Arruda? Cadê o Centrão, meu Deus do céu? Vende, recebe mas não entrega.

Um site qualquer anuncia mais um escândalo. Um deputadinho de merda aparece na TV dizendo que avisou Bolsonaro de que havia corrupção na compra de vacinas. Avisar, avisou, mas aquilo era um negócio do Ricardo Barros, como é que ele ia botar a Polícia Federal no meio?

Na mesa do café há um sanduíche de pão com leite condensado adredemente preparado para Sua Excelência. Bolsonaro está inseguro, acha que vão assassiná-lo envenenando a comida. E só se permite deleitar o desjejum depois que o primeiro-cozinheiro come um pedaço da iguaria e não morre.

De repente, Dona Michelle surge do nada com uma expressão colérica. “Você já viu o que estão falando da Laurinha na internet, Jair?” Não, Laurinha, não. Aí é sacanagem. O que foi que a Laurinha fez? “Você é um personagem, Jair. Podia ter aqui em casa a energia que tem na rua”, reclama a primeira-dama. Bolsonaro não consegue entender o motivo da queixa e segue adiante. “Mulheres!…”

Antes de chegar ao Planalto, o presidente tem que parar para cumprimentar os fanáticos que o aguardam na porta do Alvorada. “Mito, mito!” É um ritual que ele cumpre com prazer. Vai pautar os jornais que abomina, xingar as jornalistas e ameaçar de novo um golpe de Estado. Disso ele gosta mais do que de pão com leite condensado sem veneno.

O cercadinho é o palco em que o macho tonitruante surge e a besta mostra os dentes. O leão que habita Bolsonaro não pode apenas rugir — tem que ressoar, parecer apavorante. Ele sabe que tem que ser rude, usar todos os seus predicados físicos e retóricos. Faz uma careta, bem feia, como se precisasse, e mostra os dentes. Quer parecer um Júlio Cesar prestes a cruzar o Rubicão quando alguém sopra em seu ouvido que o Rodrigo Maia acaba de chamá-lo de gay enrustido numa live .

Filho da puta! Como assim? Ser chamado de corno já é insuportável. Corno e gay, o caralho! Agora ultrapassaram as oito linhas da Constituição. E Bolsonaro diz para a pequena horda aboletada no chiqueirinho: “a hora vai chegar. A tendência é a de que haja uma ruptura”.

A caminho do Planalto, liga para o Onyx. “Que porra é essa do Rodrigo Maia dizer que eu sou viado? Você é do partido dele, sabe se ele tem alguma prova?” Mas o ministro lembra que o Rodrigo Maia já deixou o DEM e que, mesmo antes disso, pouco se falavam ultimamente.

De tudo o que pega, o que incomoda de verdade são esses epítetos que maculam a macheza da família. Bolsonaro se irrita muito quando dizem, sem provas, que Carluxo é gay; que o Eduardo tem virtudes ínfimas entre as pernas; que ele, Bolsonaro, foi traído por todas as suas mulheres — todas, não, porque ele crê piamente que o que se fala sobre Osmar Terra na internet é tão inverossímil que simplesmente não pode ter acontecido.

Do Flávio não falam nada além de chamá-lo de peculatário. Menos mal! Ladrão, tudo bem, afinal eles todos pertencem desde sempre ao Centrão e estão acostumados. Mas viado é o caralho!

Uma hora e meia depois de sair do leito presidencial, dentro do carro oficial, Bolsonaro enxerga ao longe uma fumaça vindo da Esplanada. Pensa que é outro desfile militar e se pergunta se pediu à Marinha uma nova prova de que “seu Exército” ainda está com ele.

Mas não, não são os tanques por trás da fumaceira. Agora são os indígenas que queimam na Praça dos Três Poderes um enorme caixão preto onde se lê a expressão ‘fora genocida’ pintada em letras maiúsculas. Gentinha, gentalha, bando de mortadelas.

Duas horas depois de sair da cama, o Presidente da República enverga sua poderosa caneta Bic para começar a governar. Tem diante de su um decreto alterando o rastreamento das munições e uma medida provisória negando água tratada aos indígenas. Agora sim, Bolsonaro se sente empoderado, cheio de tesão, imbrochável mesmo.

Mas logo vem o ajudante de ordens avisar que Paulo Guedes quer uma reunião extraordinária para contar por que a inflação explodiu e o PIB foi negativo. Mas não era o contrário do que tinha que acontecer? Que posto Ipiranga é esse que só serve gasolina batizada?

O mercado financeiro e a FEBRABAN resolveram virar comunistas e fizeram um manifesto contra ele. Até o Salim Mattar assinou a porra de um documento da Internacional Socialista dos banqueiros e capitães de indústria de Minas Gerais. Dessa laia, só dá mesmo para contar com o Paulo Skaf, este sim, um homem de palavra!

Para piorar tudo, uma notificação do Twitter o leva a uma fotografia em que Lula aparece iluminado pelo luar com coxas que deveriam ser dele, Bolsonaro, porque é ele quem tem um histórico de atleta. Mas o bilau, já diria Merval, só pode ser Photoshop — é coisa do intrigante Stuckinha para provocar mal-estar entre bolsonaristas.

E então seus pensamentos se elevam para si mesmo. Bolsonaro se lembra de novo de que é o presidente “dessa porra toda”, é o homem mais poderoso do País. Que sensação maravilhosa! Como é bom ser amado, respeitado e admirado pela população brasileira.

Felizmente seu dia está apenas no começo e lhe promete mais 15 horas tão intensas e prazerosas como as duas que já se passaram. E como ser presidente é uma delícia e não vai ser fácil renovar o mandato, então vamos parar com essa correria toda para fazer eleições em 2022.

Comentários

Related posts

Portal IMPRENSA – Técnico alemão de futebol escala assessor de imprensa por falta de jogadores

Com pouco trabalho, distritais torram R$ 1,8 milhão da verba idenizatória

Fábio Pannunzio

O estupro moral coletivo de Vanessa, a escrivã