Blog do Pannunzio

As noites em que um repórter ateu incorporou um demônio Vodu no Haiti

Antes de começar, relembro que sou ateu. Ateu militante, de carteirinha, com comunidade no Orkut e tudo mais. Mas aconteceu de verdade. E foi comigo mesmo.

Tudo começou na noite de 12 de janeiro. Embora a experiência tenha sido inesquecível, só me dei conta do que havia se passado dois dias depois.

Era pouco depois da meia-noite. O dia fora exaustivo  para todos os jornalistas que cobriam o terremoto do Haiti.

Quando atinei para o horário, confesso que fiquei com preguiça de levar em casa meu tradutor, um menino de 13 anos chamado Junior (isso é o prenome dele).

Junior dormitava no sofá do QG do Exército Brasileiro em Porto Príncipe. O calor estava infernal e na sala ocupada pela imprensa o ar-condicionado funcionava bem. Tinha acabado de comer uma pratada generosa de arroz com feijão e se esfalfara no conforto das almofadas macias.

Acordei-o. Ele limpou a baba que escorria do canto direito da boca. Tinha os olhos vermelhos e esbugalhados. Depois me contou que jamais havia sido despertado naquele horário.

“Vamos para casa ?”, perguntei. “Mas agora ?”, retrucou ele. “Sim, vamos agora”, respondi, enquanto seu rosto era tomado por uma expressão de espanto.

Como sempre acontece quando um haitiano é contrariado, Junior seguiu resignado até o carro e emudeceu no banco de trás. Pouco depois eu dirigia para Citée Militaire, um bairro muito pobre perto do centro da cidade. Pobre e violento.

A dois quarteirões da casa dele não havia mais como prosseguir com o automóvel. O leito da rua estava tomado por centenas de pessoas que dormiam no chão de terra batida. Era o mesmo cenário de quase todas as vias públicas de Porto Príncipe — uma tristeza infinita ver aquilo.

Abri a trava da porta. Disse a ele que havíamos chegado até onde era possível. Pedi-lhe que saísse e fosse descansar em paz. Paguei os US$ 20 combinados pelo dia de trabalho e agradeci. Prometi voltar para buscá-lo às seis horas da manhã seguinte. Mas ele não descia. Nem falava nada. Estava simplesmente paralisado, catatônico.

“Não dá para ir”, disse ele, afinal. “Tem polícia com pistola que atira na gente”, falou antes de se fechar de novo. Não pediu minha companhia, não disse mais nada.

Gastei uns cinco minutos pensando numa saída para aquela situação antes de intuir que talvez ele apenas quisesse companhia para percorrer os 200 metros que faltavam.

“Se eu for com você, você vai ?”

“Vou!”, respondeu enfaticamente.

Fomos.

Caminhamos os dois quarteirões adivinhando onde podíamos e onde não podíamos pisar. A escuridão era completa por causa do terremoto que arrasou as linhas de transmissào. Havia apenas um halo de luz da Lua nova que aparecera naquela noite. E mais nada.

“É aqui”, disse ele, mostrando-me o portão do terreno onde ficava a casa desmoronada da família. Seus pais, como quase todas as vítimas do terremoto, também dormiam na rua amontoados num denso aglomerado humano. Era impossível contar quantas pessoas embaraçavam braços e pernas. Só sei que todos eram parentes diretos.

Fiz o caminho de volta convencido de que não havia o menor perigo em andar por aquelas ruas transformadas em dormitório, ao contrário do que me alertara o comando militar brasileiro.

Como minhas retinas já haviam se acostumado à escuridão, pude perceber um certo farfalhar de lençóis e edredons. Em certo momento, olhei fixamente. Vi de relance o brilho de olhos que se esgueiravam sob as cobertas puídas. Fiquei com a impressão de que aquelas pessoas tinham medo de mim. Só não entendi  a razão.

Dois dias depois, já com outro tradutor, aquela imagem dos olhos brilhando no escuro voltou à minha mente. Perguntei a Luis (isso é sobrenome), estudante de engenharia que falava muito bem o inglês, por que nunca havia gente à noite nas ruas de Porto Príncipe.

Nunca, nesse caso, não é um eufemismo. Não vi ninguém caminhando em lugar nenhum das dezenas por onde peregrinei nos começos de madrugada. Nada. Um contraste enorme com a imagem vibrante que se tem do dia, quando todos vão para a rua para caminhar sem direção.

“É por causa da tadição vodu”, disse ele.

Luis me contou que, embora a maioria dos haitianos se declare católica ou protestante, todos na verdade têm laços culturais fortes com o voduísmo.

Todos, portanto, acreditam que há um demônio de um metro de altura que sai zanzando pelas ruas à noite. Seu nome seria Rará (não sei se é isso proque não entendo nada de religião, especialmente da reiligião vodu).

Rará teria o dom de matar os caminhantes solitários que acaso tiverem o azar de se deparar com ele. Ou de transformar qualquer pessoa em animais como vacas, cavalos e cobras. O corpo seria do animal, mas o cérebro continuaria humano.

Reconhece-se um humano transformado em vaca, por exemplo, apenas quando ela, no momento do abate, pede em bom creuolle que sua vida seja poupada porque tem três filhos para cuidar.

Rará é poderoso, mas não consegue atacar ninguém que esteja dentro de um carro ou no santuário de seu lar. A casa é invulnerável às suas maldades. Ele também nada poderia contra grupos numerosos. É por isso que as pessoas se recolhem quando a madrugada se aproxima.

Mas agora ninguém tem mais casa. “Dormimos amontoados na rua para proteger nossos familiares”, conta Luis. “E estamos apavorados porque Rará pode pegar qualquer um durante o sono. Enquanto estivermos juntos com nossa família, ele não poderá fazer nenhum mal”.

Entendi, afinal, por que Junior, o tradutor que se recusava a descer do carro, não queria fazer a pé o percurso de 200 metros até a porta de sua casa. Temia Rará, seu mimetismo zoomórfico, a morte que o esperava na próxima esquina.

Mas ainda continuava sem entender por que as pessoas fingiam que dormiam. Por que se escondiam debaixo dos lençóis quando eu passava. Até Luis me explicar uma coisinha mais.

Rará pode assumir a forma de qualquer coisa. De uma pessoa, por exemplo. A  minha forma tão incomum para aquela cultura — altura acima da média, pele clara, cabelo liso.

No universo mítico da crença vodu, sempre que alguém caminha sozinho alguma coisa muito ruim está por acontecer. Ou é uma prostituta (não se aplica ao meu caso específico), ou é ladrão (idem), ou é Rará, o demônio baixinho.

“Os ladrões sabem quem são os outros ladrões”, assegura Luis. “E sabem que você não é ladrão. Portanto, você, quando caminha sozinho, só pode ser um demônio. Eles te temem e fogem de você”.

Daí a minha sensação de tranquilidade ao caminhar de madrugada pelas ruas mais perigosas da capital do Haiti. Eu era o diabo, o demônio travestido de homem branco. E contra Rará — no caso eu — ninguém podia fazer nada. Nem os ladrões, nem as putas, nem a polícia.

Sem saber de nada disso, cheguei tranquilo à base militar brasileira. E intacto, incólume.

Dois dias depois, quando soube que eu encarnara o terrível Rará, entendi o motivo daquela tranquilidade aparente.

Fui dormir dando graças a Deus por seu ateu.

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