Blog do Pannunzio

Um raciocínio simples no Oriente Médio

Artigo postado pelo Psicólogo Clínico Mário Lunardi, de Curitiba, PR

 

E lá foi Lula com sua comitiva para o Oriente Médio. Desde então chovem críticas aos seus atos, palavras e gestos nessa viagem. Como nenhum de nós sequer sonha o que é morar na região, resolvi me informar. Procurarei aqui colocar algumas impressões baseadas nos discursos de Lula e em suas ações. Falarei de alguns fatos que me chamaram a atenção, quer seja pela ausência de repercussão, ou por sua banalidade mesmo.

Lula chega a Israel com o incrível status de ser o primeiro presidente brasileiro a visitar o país. Incrível, pois dada sua importância geopolítica e econômica isso deveria ter acontecido há muito tempo. E chega como?

Falando de paz como não poderia deixar de ser. Mas, em seu discurso ao Knesset, levantou uma questão que sempre é encoberta pelo ensurdecedor barulho da mídia que nos cerca. “Por detrás das terríveis estatísticas de mortos, feridos e banidos estão dramas humanos, diante dos quais ninguém pode ficar insensível.” Não acharam importante? Pois pare e pense o quanto as estatísticas nos insensibilizam. O quanto estamos acostumados a aceitar a morte quando ela nos é mostrada em números. E o quanto isso nos impede de procurarmos a ação mantendo nossa posição conformada e medíocre diante do bombardeio diário das desgraças cotidianas – dos outros. É o saber sem conseqüência, sem impacto, acompanhado de um sacudir de ombros característico.

É um passo necessário, diria fundamental em qualquer negociação de paz, passar da estatística para o drama humano em sua dor mais profunda manifestada pela perda do ente querido. Foi só quando chegaram as imagens, terríveis daqueles judeus esquálidos sobreviventes dos campos de concentração, que o mundo passou a exigir que aquele mal fosse reparado. Como se fosse possível reparar algo como aquilo. Ao fazer esse movimento, Lula sai da posição de mais um chefe de estado a falar de paz e passa à condição de uma pessoa lançando o diálogo com cada um que sofreu uma perda. Nada de novo para ele, pois é justamente nessa possibilidade de passagem que está o centro de sua enorme popularidade.

Lança, no mesmo discurso, o aviso que não é muito sensato termos a prosperidade cercada pela pobreza. Peça fundamental do que será seu discurso aos palestinos.

Mas há um fantasma acompanhando Lula em sua viagem. Seu nome é Mahmoud Ahmadinejad — e nele repousam as maiores críticas ao posicionamento brasileiro. Pessoalmente não tenho opinião formada sobre o personagem. Nem posso ter, por não falar árabe e ter na mídia um elemento pouco confiável para informação.

Mas nesse caso as vozes clamam quase em uníssono o absurdo de o Brasil manter relações abertas com alguém tão perigoso e evidentemente descomprometido com o processo de paz. Teimosamente e claro, porque não entende nada de política internacional, Lula mantém a porta aberta com o Irã. E, no meio de todos os sábios uma voz discorda do senso comum. Qual voz? Simplesmente o ex chefe do Rabinato de Israel e hoje um dos diretores do Museu do Holocausto, rabino Meir Lau.

Quem conhece um pouco de cultura judaica sabe qual a força moral de um Chefe do rabinato de Israel. Ele disse, segundo o Ynetnews, o seguinte: “Ouvi que você vai se encontrar com Ahmadinejad. Você é o primeiro presidente do Brasil a visitar Israel e peço que leve a ele uma mensagem minha, como sobrevivente do Holocausto, e não como político. Peço que diga a ele que estou disposto a encontrá-lo a qualquer momento e que vou conseguir fazê-lo mudar de opinião quanto à sua negação ao Holocausto”. Por Lula não entender nada de política internacional o rabino tem agora alguém com um canal direto com o inimigo para até desafiá-lo, com a autoridade de um sobrevivente, a sentar e conversar. Portas trancadas não produzem caminhos.

Na Palestina a conversa é bem outra. E como seria diferente? Vale lembrar que com Israel, desde Oswaldo Aranha, o Brasil tem um crédito acumulado. Já com a Palestina não. Indo ao lado mais fraco da questão, ou alguém duvida que os palestinos são os mais fracos, Lula muda de ênfase. Primeiro , hospeda-se em um hotel ao lado do Muro. Depois abrindo seu discurso vai dizer que esse muro tem que ser derrubado. As coisas, não entendo muito, em diplomacia são primeiramente simbólicas. Ao falar em derrubada do Muro está falando de um símbolo odiado por todos na Palestina. Está de novo saindo da posição de chefe de estado para falar com o povo. E o faz de várias maneiras. Como, por exemplo, criticar os Estados Unidos e seu comportamento comercial em relação ao Brasil. Está dizendo, nós também lutamos contra eles. Enfim vai se identificando com a luta e o sofrimento do cidadão comum e, por isso, jamais poderia, como não foi, visitar o túmulo de Theodor Herzl, fundador do sionismo. Se o fizesse comprometeria toda sua estratégia. Falando em túmulos, foi noticiado que em frente ao Mausoléu de Yasser Arafat estava sendo inaugurada uma rua chamada Brasil? Não? Que estranho.

De novo a porta aberta ao Irã se mostrou útil. Em outro recado, Mahmoud Abbas, Presidente Palestino, pediu a Lula que o Irã cesse de financiar o Hamas. Agora eu do alto da minha enorme, sem ironia, ignorância pergunto: Qual líder mundial hoje pode, ao mesmo tempo, com eqüidistância, conversar com Israel, Irã e Palestina dessa maneira? Qual?

Vai dar certo? O futuro dirá. Mas em uma era sem nenhuma liderança que sequer lembre os estadistas do passado, talvez seja a hora dos simples resolverem seus problemas. Conversando.

Isso me faz lembrar o título de um livro de um psicanalista francês, Moustapha Safouan. O título do livro é: A palavra ou a morte. Lula escolheu a palavra.

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