Blog do Pannunzio

A queda dos deuses do Olimpo

PATRÍCIA SANCHES, de Cuiabá

Nos imensos e gélidos corredores do Tribunal de Justiça o silêncio reina. Funcionários falam o menos possível, quase não se escutam os passos apressados dos poucos que se aventuram andar pelos pisos de mármore e quando encontram jornalistas então a reação é sempre a mesma: um misto de apreensão e medo. Há alguns dias estive no lugar que era quase o templo de Zeus, lá me deparei com uma situação inusitada. Uma servidora, que aparentemente não faz parte do grande escalão do “templo” empalideceu ao ver meu crachá de jornalista. Rapidamente perguntou de onde eu era e se vinha da “nacional”. Sorri e respondi que era de Cuiabá. Ela respirou fundo e saiu dizendo: tomara que não publique meu nome. Praticamente se benzeu como se o problema fosse eu, mas não era. O fato é que o templo dos Deuses não está acostumado com tantos holofotes, principalmente negativos. O episódio é simples, quase corriqueiro, mas retrata a profundidade dos impactos no Olímpio dos deuses de Mato Grosso, que hoje se tornaram simples mortais.

Dantes estavam acima do bem e do mal, mas agora se tornam seres humanos de carne e osso, com vicissitudes expostas dia após dia, numa sequência triste e que parece uma história sem fim. O próprio “chefe” do Olímpio José Silvério Gomes, eleito para moralizar e recuperar a imagem dos deuses, admite que o caminho será cheio de espinhos. Seria injusto dizer que todos estão na mesma situação, afinal, numa imensidão de servidores da Justiça seria injusto crer ou afirmar que todos tenham se rendido ao clima de impunidade para prática de atos ilícitos. Entretanto, alguns deuses deram prova de que é preciso repensar os “poderes” dados àqueles que estão no Olímpio. Valores foram confundidos e o cidadão já não sabe em quem confiar.

Bastou uma simples auditoria para revelar a existência de supostos esquemas que entraram para a história como o maior escândalo do judiciário de Mato Grosso. Onze magistrados e desembargadores foram aposentados compulsoriamente e uma imensidão de fatos, relatos, investigações, afirmações e até boatos surgiram em todos os rincões do Estado. Fala-se em filhos de Deuses, advogados, servidores, enfim um sistema de corrupção supostamente montado no interior do sistema, que em tese, julga e pune àqueles que desrespeitam os contratos sociais que regem nossa sociedade e permitem que vivamos respeitando os direitos de cada cidadão. Então quem sobra para cuidar dos interesses do povo? Das pessoas que mesmo com pouco se negam a pegar o que não é seu?

Enquanto as perguntas brotam, os fatos “pipocam” e alguns supostamente correm e até viajam para fugir das punições. Já as colunas do tempo balançam. Muitos tentam prever o futuro da antes inabalável instituição. Sonham, acreditam e até rezam para que elas parem e voltem a ser intocáveis e imponentes. Já outros, mais céticos, têm absoluta certeza de que às investigações do STJ, CNJ, Polícia Federal, Ministério Público Federal e tantos outros vão dar luz a novos fatos que devem atingir novos “deuses”. A resposta para esta pergunta é uma incógnita que só será respondida quando a “roda” girar outra vez e o tabuleiro se reorganizar, levando sempre em consideração as forças que regem o fundo, àquelas que não podemos ver, mas sentimos.

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