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Às véspera dos cinquentenário de Brasília, Catetinho está abandonado e decadente

Dá até pena ver. O Catetinho, a primeira construção de Brasília, está apodrecendo em meio a um matagal, abandonado pelo Governo do Distrito Federal. A construção de madeira serviu como casa e gabinente de Jucelino Kubitscheck a partir de dezembro de 1.956. Foi projetada por Oscar Niemeyer e erguida em apenas dez dias. Se nada for feito para restaurá-lo com urgência, corre o risco de se perder para sempre.

O Catetinho passou pela última restauração em 1.997, há 13 anos. Desde então a manutenção é precária. Os reflexos do descaso são evidentes. As tábuas que estão ao rés-do-chão apodrecem com a infiltração. Uma das paredes da cozinha, ao lado do fogão de lenha, está completamente carcomida por cupins, que grassam nas tábuas de madeira-de-lei. O rombo em uma delas tem dois palmos de largura por um de altura. E permite a entrada de água da chuva, que vai contaminando o madeiramento.

Os soquetes que sustentam as lâmpadas do vão livre térreo se desprenderam do forro. As arandelas ficam precariamente dependuradas no vidro das luzes e caem quando elas se quebram. O madeiramento do forro também está em estado lastimável. As ripas, muitas delas podres, começam a se soltar, estofadas pela umidade.

Mas o pior de tudo é o matagal que tomou conta do entorno prédio histórico. As roçaderias passaram longe do Catetinho durante boa parte da estação das chuvas. O resultado são viçosas touceiras de capim brachiaria, algumas delas com mais de um metro de altura. “Isso aqui está um perigo. Outro dia uma jiboia ia pegando o aluno de uma escola pública que veio aqui em excursão”, diz um funcionário do GDF que toma conta do local.

Se houvesse apenas jiboias, que são cobras sem peçonha, é pouco provável que ocorresse algo além de um susto para os poucos excursionistas que se aventuram a ir até lá. A maior parte das cobras encontradas é da espécie cascavel e jararaca, o que traz sempre o risco de que uma inocente caravana de estudantes se transforme em uma expedição arriscada e trágica.

Não é de hoje que o Distrito Federal trata o local com descaso. Arruda e Paulo Octávio, por exemplo, viveram sua ascensão e queda sem pisar no Catetinho. O último governante que esteve lá foi Maria de Lourdes Abadia, no fim da era Roriz. “Mas naquele tempo havia o Dr. ernesto Silva, que era a única pessoa que ligava para isso aqui”, diz uma pessoa que prefere não se identificar. Os que não foram perderam a oportunidade de testar uma tradição que diz que quem bebe água da fonte que jorra aos fundos, como Jucelino, jamais perde uma eleição.

Ernesto Silva era o pioneiro da fundação que mais tinha apreço pelo valor histórico do Catetinho. Após a morte dele, em fevereiro passado, o primeiro Palácio do Planalto Central parece ter começado a definhar.

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