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As mentiras do governo Lugo sobre o EPP — Exército Popular do Paraguai

cartilha_eppDezessete rostos ilustram o cartaz ao lado que o governo do Paraguai mandou imprimir. Os “enemigos del pueblo paraguaio” seriam perigosos agentes subsersivos que lutam contra a débil democracia instalada no País. Seu objetivo seria instaurar uma ditadura marxista-leninista cujo genótipo ideológico vem modelo bolivariano sustentado pelas FARC, a guerrilha colombiana que inspirou a criação e sustenta o EPP — Exército Popular Paraguaio. O governo do bispo Lugo oferece uma recompanesa de 500 milhões de guaranis, equivalente a US$ 100 mil, por “información útil que lleve a la captura”.

O cartaz é obra da mais absoluta engenharia de dissimulação política. É uma peça de ficção, retrato de um governo débil, atolado em contradições, que luta para sobreviver aos seus próprios antagonismos.

Os três últimos “terroristas” relacionados na peça são Juan Arrom, Anuncio Marti e Victor Colman. Todo mundo sabe onde eles se encontram. Estão no Brasil, onde vivem regularmente sob a condição de refugiados políticos, condição que lhes foi concedida em 2003 pelo CONARE por unanimidade.

A história desse trio é um dos esqueletos emparedados do governo Lugo. Começa no fim de 2001, quando a mulher de um dos empresários mais ricos do País foi sequestrada. Maria Edith Debernardi teria passado 62 dias em cativeiro, tendo reaparecido após o pagamento de US$ 1 milhão de resgate.

A história desse sequestro deu origem a uma das tramas mais covardes e macabras da incipiente democracia paraguaia. Dois dias antes do reaparecimento da Sra. Debernadi, dois supostos terroristas foram atraídos até a Calle Lugano, no centro de Assunção, onde foram presos ilegalmente e espancados. A captura do trio foi testemunhada por 37 pessoas da vizinhança. O que nenhuma delas sabia é que na casa ocupada por agentes policiais funcionava um aparelho clandestino da Polícia Judiciária.

Os dois homens presos eram o poeta e escritor Juan Arrom e o jornalista Anuncio Marti. O vínculo de ambos era o Movimento Pátria Libre. No passado, o MPL se opôs à ditadura do General Alfredo Stroessner, que por 30 anos governou o Paraguai com mão de ferro. Era um movimento composto por jovens idealistas e diletantes que teve uma importante participação na reinstitucionalização paraguaia.

Juan e Anuncio foram colocados no interior de um carro sem placas e desapareceram durante 14 dias. Tiveram os olhos vendados, foram algemados e encapuzados diante da turba que se reunia no local onde eles foram capurados. Os policiais tentaram dissolver a multidão alegando que os homens tinham sido presos porque tentaram assaltar a delegacia, para estranheza dos vizinhos que testemunharam a cena.

Durante as duas semanas em que estiveram desaparecidos, Juan e Anuncio foram sistematicamente submetidos a intermináveis sessões de tortura. Os golpes eram aplicados preferenciamente na bacia e nas vértebras da lombar com o objetivo de criar sequelas ósseas irreversíveis. Sequelas que quase tiraram os movimentos de Juan, revertidas em parte por uma cirurgia realizada por médicos do Hospital Sarah Kubisticheck de Brasília.

Eles passaram por três cativeiros: uma chácara na periferia de Assunção e duas casas em um bairro periférico. Enquanto a família os procurava, estiveram pessoalmente com duas altas autoridades do governo paraguaio. Uma noite, depois de uma sessão de tortura, foram levados a um descampado. Lá estava o Ministro da Justiça Sílvio Ferreira, que lhes pediu para assinar um termo de confissão assumindo a autoria do sequestro contra a garantia de que seriam levados para fora das fronteiras do País. Em seguida, conversaram por telefone com o Mnistro do Interior Julio Cesar Faniago, que lhes fez o mesmo pedido e ofereceu as mesmas garantias. Ambos caíram no arrasto das investigações que se seguiram, quando o encontro e o telefonema restaram comprovados.

Juan e Anuncio foram salvos pela obstinação e coragem das irmãs do primeiro.Cristina, Carmen, Marina, Maria Auxiliadora e Rossana Arrom  moveram uma cruzada pela localização dos desaparecidos. Foram elas que identificaram a casa onde eles eram mantidos prisioneiros. Foram elas que acionaram a imprensa e conseguiram libertá-los, a despeito das tentativas da polícia de impedir a libertação.

Os irmãos Arrom conseguiram evitar o assassinato e a tentativa despudorada das forças de segurança de sequestrá-los novamente, diante de centenas de pessoas. Conduziram as duas vítimas a um hospital particular e criaram condição para que uma comissão de peritos fizesse um laudo atestando a prática da tortura. E depois, quando perceberam que não havia como enfrentar um processo justo, deram um jeito de fazer com que os perseguidos atravessassem a Ponte da Amizade para tentar o asilo político no Brasil, onde estariam em segurança.

As agruras da família Arrom renderiam um excelente roteiro para o cinema. Um filme que só poderia se passar mesmo no Paraguai pós-Stressner, num contexto político como o que se instalou e se perpetuou até os dias de hoje.

Amanhã, quando o presidente Fernando Lugo se encontrar na fronteira com o presidente Lula, o destino de Juan Arrom, Anuncio Marti e Victor Colmán estará sobre a mesa de negociação. Lugo pretende repatriar o trio para julgá-lo sob as mesmas condições em que eles foram abduzidos e torturados. As forças de segurança, o ministério público e o Judiciário paraguaios são os mesmos dos anos Stroessner.

O atual presidente do Paraguai comprou a causa de seus algozes porque não fez o que deveria — reformar a estrutura de segurança, afastar juízes, delegados e procuradores corruptos, reestruturar o judiciário de seu país. Vê-se na obrigação de dar uma satisfação aos inimigos e, covardemente, não se importa de sacrificar os amigos inocentes que se transformaram em vítimas do ranço corrupto que ainda governa o Paraguai.

Se o presidente Lula ceder à tentação de rever os refúgios, talvez entre para a história como o Getúlio que ele tanto persegue –não o do petróleo, da industrialização, mas o Getúlio Vargas de Olga Benário Prestes.

Logo mais, no Blog, você vai conhecer detalhes sobre a perseguição movida contra os três refugiados paraguaios acolhidos pelo governo brasileiro. E vai poder assistir a um video chocante, que registra o momento dramático da libertação de Juan Arrom e Anuncio Marti.

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