Não costumo escrever posts de caráter pessoal. Mas hoje não resisti à tentação e quero dividir com vocês algumas agruras que quase me deixam...

Não costumo escrever posts de caráter pessoal. Mas hoje não resisti à tentação e quero dividir com vocês algumas agruras que quase me deixam louco — e poderiam ter levado meu emprego embora.

Fui pautado para participar da entrevista que a presidente eleita Dilma Roussef deu ontem ao Jornal da Band. Foram dois dias de muita negociação entre a Direção de Jornalismo e a equipe de Dilma para que finalmente os telespectadores do nosso principal telejornal fossem brindados com a palavra da futura governante.

Fiz todo o dever de casa. Revi as propostas da campanha, preparei um esboço temático na véspera. Eu deveria chegar à emissora, em Brasília, às 18 horas para ultimar os preparativos. Moro perto, era feriado, o domingo chuvoso inspirava a comelança de sempre. Minha namorada, que mora em São Paulo, estava aqui. Ela é ótima cozinheira. Preparamos um risoto inesquecível, arrematado por uma sobremesa especialíssima e regado por um ótimo chianti. Sem exageros, é claro.

Luciana tinha um vôo marcado para o fim da tarde. Fui me despedir dela e de minha filha Bruna no hall de entrada. De repente, a porta atrás de nós, empurrada pelo vento, fechou sozinha.

Ficamos trancados do lado de fora. Eu de calça, camisa e sem sapatos. Também sem gravata, paletó, nada dessas coisas fundamentais quando se vai entrevistar uma presidente recém-eleita.

Por sorte meu amigo Flávio, com quem divido um apartamento em Brasília, estava dormindo no quarto dele. Pensei: “Vi ser moleza. É só tocar a campainha e acordar o Flávio”.

Que nada. derrubado pelo chianti, pela gordura deliciosa do risoto e pela disgestão obrigatória da carne, Fávio não ouviu a campainha. também não ouviu o interfone, nem o telefone fixo, nem as 250 chamadas para o celular dele, que estava na cozinha, do outro lado do apartamento.

Deixei recados desesperados na secretária eletrônica. O problema é que a tal secretária fica trancada dentro do nosso escritório. ele não ouviu. decidimos, eu e meu genro, tacar pedras na janela. Foi difícil acertar a vidraça porque moramos no quarto andar. E depois que acertamos também não adiantou nada, porque o Flávio estava praticamente desmaiado, catatônico, incomunicável.

A Luciana já estava desesperada. Não queria me deixar sozinho, especialmente na iminência de perder o horário, a entrevista e o emprego. O desespero também começou a bater na emissora, onde eu não chegava. Entre um telefonema e outro para os números do Flávio e da casa, alguém da TV me ligava. Um inferno.

Resolvi fazer o que me restava: arrombar a porta. Ocorre que o prédio tem uns 40 anos de idade. Foi construído quando ainda não havia MDF, compensado, aglomerado e tudo era feito com madeira de lei.

Depois de vários golpes, a porta finalmente cedeu. Entrei em casa, peguei o que faltava da minha indumentária e saí pulando em uma perna só enquanto colocava os sapatos.

Cheguei a tempo, embora um pouco atrasado. Não perdi o emprego, nem a entrevista, nem nada. Ufa, foi por pouco!.

Hoje chamei um marceneiro para arrumar a fechadura e a porta avariadas. Não vou dizer o preço do conserto para não instigar a concorrência. Mas fico bem perto de afirmar que talvez ter perdido o emprego não fosse um negócio de todo ruim.


  • Madrasta do texto ruim

    03/11/2010 #1 Author

    Faça como eu fiz: deixe uma cópia de sua chave com o tio Mário e a tia Vera, no 302. Invariavelmente vai ter alguém em casa, e eles te salvam do perrengue… ;o)

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