Apenas 240 quilômetros separam os 12 milhões de habitantes de Tóquio, a cidade mais populosa do Japão, do complexo nuclear de Fukushima, onde quatro...

Apenas 240 quilômetros separam os 12 milhões de habitantes de Tóquio, a cidade mais populosa do Japão, do complexo nuclear de Fukushima, onde quatro reatores estão em colpaso desde o terremoto do dia 11. Mais do que os terremotos, os japoneses temem a possibilidade de contaminação pela radiação emanada para a atmosfera, que já provocou um aumento de dez vezes no índice de radioatividade da atmosfera na capital do país.

O medo tem fundamento. Até agora, nada indica que os técnicos responsáveis pelas centrais termonucleares tenham controle sobre o processo desencadeado com a falência dos sistemas de refrigeração dos reatores.

Uma central nuclear é como uma caldeira gigantesca em cujo núcleo, ao invés de lenha ou carvão, há uma placa com centenas de quilos de material radiotivo enriquecido. Para impedir o vazamento do combustível, o núcleo é isolado do ambiente por dois sistemas fechados de refrigeração.

A água pesada, adicionada com boro, é o líquido que circula entre as varetas de urânio enriquecido sob alta pressão e em temperatura elevadíssima. Aquecida, ela é bombeada por um circuito de serpentinas que, por sua vez, é refrigerada por outro sistema fechado. O calor emanado por esse segundo sistema é que vai aquecer uma terceira serpetina, pela qual circula água do mar. É ela que gera o vapor que alimenta as turbinas dos geradores de eletricidade.

Sem o funcionamento dos sistemas secundário e terciário, a temperatura no interior do reator começa a se elevar de maneira incontrolável. É o que está acontecendo agora em Fukushima — e também o que ocorreu em Three Miles Island e Cherbonil. As varetas de urânio eneiruqecido começam, então, a derreter e se fundir, aumentando ainda mais a produção de calor e radiação.

Se o processo não for interrompido antes do derretimento do núcleo, o imponderável acontece. É isso o que ainda está sendo tentado no complexo termonuclear japonês. Em Fukushima, o desespero dos técnicos se materializou no momento em que a última alternativa para evitar o pior foi tentar inundar os núcleos afetados com a água do mar. Como se viu, a medida parece ter sido insuficiente para impedir a cadeia de eventos iniciada com as avarias provocadas pelo terremoto e pelo tsunami.

O quadro instalado neste momento provoca calafrios nos especialistas. Sem ter como conter o derretimento dos núcleos, não há o que fazer. O risco, o calor e a radiação impedem a aproximação de trabalhadores. Os volumes de água necessários para resfriar os reatores candentes são gigantescos. Não há, pelo menos em tese, nenhum técnica que permita, num átimo, atender a essa emergência.Ninguém sabe ao certo qual é a resposta para uma pergunta simples: o que fazer agora ?

As dimensões do território japonês, a topografia acidentada e o fato de Tóquio situar a maior concentração urbana do mundo só aumentam a aflição. Até agora, de maneira acertada e transparente, as autoridades encarregadas de mitigar os efeitos e de agir profilaticamente têm tido êxito.

A primeira medida foi isolar uma área de 10 km. ao redor da usina. Depois, o raio foi ampliado para 20 km. Agora, todas as pessoas a até 30 quilômetros de distância da usina estão sendo evacuadas. A partir daí, não é insensato imaginar que o círculo de proteção poderá ser enormemente ampliado nas próximas horas.

A mesma solução, no entanto, não pode ser aplicada à capital japonesa. Evacuar um cidade com quase 13 milhões de habitantes é uma operação sem precedentes na história da humanidade. Ninguém sabe como isso seria feito caso a necessidade se instale. E ainda há outras complicações. Caso a radioatividade se espalhe, o número de pessoas sujeitas à remoção compulsória seria inestimavelmente maior porque outras cidades populosas seriam igualmente afetadas.

O quadro descrito acima é o cenário dos pesadelos que vividos esta noite pelo 130 milhões de japoneses. Calmos e habituados aos movimentos da terra, eles começam a de desesperar com a falta de perspectivas claras de solução da crise nuclear.  O castigo é ainda maior por causa das evocações de Hiroshima e Kagasaki, as duas cidades bombardeadas pelos Estados Unidos com ogivas nuclares em agosto de 1945.

Sessente e cinco anos atrás, a radiação emanada das bombas atômicas provocou a rendição incondicional do Japão na Segunda Grande Guerra. Hoje, com os vapores do césio e do urânio contaminando o país, nem essa alternativa resta aos japoneses caso seus piores pesadelso se confirmem.

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