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A energia nuclear é mesmo perigosa ?

O acidente nuclear de Fukushima, consequência do terremoto e do tsunami que atingiram a costa leste do Japão, reacendeu a discussão sobre os riscos representados pela utilização de isótopos radioativos como combustível para a geração de energia elétrica. Governos de países europeus se anteciparam em anunciar o fechamento de usinas mais antigas e os ambientalistas, que nos últimos anos transitaram da rejeição absoluta à aceitação entusiasmada da energia termonuclear, voltaram a rever posições.

Em meio à comoção e à sensação de impotência diante dos reatores que soltam nuvens de fumaça radioativa, parece ter-se consolidado a certeza (leiga) de que essa forma de energia precisa ser banida do planeta. O que ninguém fez, até o momento, foi contextualizar o sentido da ameaça.

Diante da catástrofe japonesa, o Brasil aparece novamente como referência em geração de energia limpa, com 80% de sua matriz assentada sobre grandes hidrelétricas, o que o tornaria praticamente imune a tragédias como as que maracaram Cherbonil e Three Miles Island. Mas será que isso é verdade ?

Imagine o que teria acontecido se o epicentro de um terremoto de 9 graus Richter estivesse localizado em Araguari, no Triângulo Mineiro.  A região, como se sabe, concentra a maior parte das hidrelétricas brasileiras. São quinze barragens somente na Bacia do Rio Paranaíba. Os rios Grande e Paranaíba, com seu potencial hídrico totalmente aproveitado, são verdadeiras escadas de usinas geradoras. Ambos se fundem no rio Paraná, outra enorme escada de hidrolétricas. O último degrau é gigantersco: o Lago de Itaipú, a segunda maior hidrelétrica do planeta.

Voltemos ao terremoto mineiro. Com um sismo da mesma magnitude do terremoto no Japão, é provável que as barragens dessas represas não resistissem. Bastaria o rompimenjto de uma delss para criar um “tsunami fluvial” de consequências imprevisíveis. A onda que se seguiria varreria os diques à jusante, num monstruoso efeito dominó.

O pior aconteceria quando o tsunami fluvial chegasse aos diques de Itaipu. O lago da hidrtelétrica tem quasw 1,5 mil quilômetros quadrados de espelho d’água. A barragem principal tem a altura de um prédio de 65 andares.

O rompimento dos diques de Itaipu geraria uma onda tão devastadora quanto o tsunami que destruiu Sendai e outras cidades japoneses. Duas capitais sucumbiriam integralmente a ela — Buenos Aires e Montevideo, metrópoles que concentram praticamente metade da população do Uruguai e da Argentina. São aproximadamente 20 milhões de pessoas somente nessas duas cidades.

Os consensos que se formam a partir de Fukushima — e as evocações do temor provocado pelos demais acidentes — criam terreno fértil para o renascimento de um debate estéril sobre o uso da energia nuclear e desatam um pavor histérico, produto do milenarismo segundo o qual uma hecatombe nuclear fará cessar a vida humana na Terra.E o mais interessante é que a maior parte das pessoas sequer sabe diferenciar radioatividade (ondas de radiação) de material radioativo (matéria composta por isótopos radioativos).

A radiação é como as ondas de luz. Produz efeitos apenas no momento em que algo ou alguém é exposto a ela. Não é preciso ir longe para se perceber que o material radioativo é que representa um grande perigo para a humanidade. Basta lembrar do que aconteceu em Goiânia, em 1987, quando o roubo de um equipamento de radiologia abandonado em uma clínica pôs o mundo em alerta. Não foi necessário uma pane num grande reator para dar causa ao maior acidente radiológico do planeta. Bastaram 17 gramas de césio-137.

Os ambientalistas tendem a supertestimar a possibilidade de ocorrência de erros operacionais que poderia provocar um colapso nas centrais termonucleares. Erros de operação e a ocorrência de fatores políticos não apenas determinaram, mas também ajudaram a amplificar as consequências dos dois maiores desastres do tipo.

No primeiro, ocorrido em setembro de 1979, gases radioativos foram liberados para atmosfera quando a usina de Three Miles Island, nos EUA, sofreu uma pane no sistema de geração de vapor. Sete anos dpeois, em 1986, uma experiência mal-sucedida em Chernobil produziu a pior catástrofe da história. Os técnicos da usina tentavam saber se a inércia das turbinas seria capaz de gerar energia suficiente para alimentar os condensadores de vapor até a entrada em operação dos geradores elétricos. Deu no que deu.

Os críticos da energia nuclear argumentam que a presença de um reator próximo de grandes núcleos populacionais representa um perigo permanente, o que é verdade. Mas usinas nucleares têm trabalhado com margens mais do que razoáveis de segurança nos últimos 60 anos, pruzindo energia com baixíssimas quantidades de rejeitos.

Os que insistem em comparar os impactos potenciais dos sistemas hidrelétrico e convencional se esquecem das alterações provocadas nos terrenos alagados pelos lagos das represas, que alteram todo o ecossistema das bacias hidrográficas. A energia elétrica gerada pela água só é limpa depois que as centrais geradoras são instaladas.

Quem conhece a usina de Serra da Mesa, construída a partir de 1993 próximo à nascente do Rio Tocantins, sabe o quanto a região lindeira ainda sofre com os impactos decorrentes da formação do lago. Muitas espécies de peixes foram extintas. Outras, mais adaptáveis a ambientes de menor oxigenação, se proliferaram e passaram a eliminar a fauna. É o caso do Tutunaré, um dos predadores mais vorazes dos rios da Bacia Amazônica. A vegetação que ficou sob o espelho d’água continua se decompondo lentamente, processo que libera CO² na atmosfera.  Suspeita-se que o microclima também foi alterado, provocando um aumento nos índices de pluviosidade.

Isso sem falar nos reflexos fundiários decorrentes da desapropriação de vastas áreas que serão alagadas. Passadas praticametne quatro décadas do início das obras de Itaipu, Brasil e Paraguai ainda não resolveram o problema dos Brasiguaios, agricultores que tiveram suas sterras confiscadas pelo Estado, emigraram para o outro ladro da fronteira e até hoje formam uma malta de apátridas rejeitados pelos dois países.

A imagem tétrica já povoou os mais tenebrosos calafrios dos ditadores que na década de 70 governavam os países que poderiam ser afetados — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Nos anos que antecederam a construção da usina, Brasil e Argentina quase foram à guerra por causa dos riscos estratégicos representados por esse reservatório.

Apesar disso tudo, é a imagem do núcleo fundente de um reator nuclear descontrolado provoca  temores e calafrios. Diante da fumaça que emana de Fukushima, a perspectiva de rompimento de um dique parece uma premonição pessimista e distante. Estamos tão acostumados à hidreletricidade que não sentimos os perigos, embora eles existam.

Assim como numa central termonuclear, há sempre o risco de a manutençao deficiente, a falta de investimentos e os erros na operação provocarem tragédias terríveis numa usina hidrelétridca. Mas ninguém se dá conta de que basta um operador de Furnas esquecer de abrir uma comporta para que uma cheia eventual se transforme numa catástrofe. Felizmente elas não têm acontecido na nossa vizinhança.

O fato inquestionável é que praticamente todas as formas de produção de energia deixam algum resíduo, provocam alterações ambientais, expõem a algum tipo de risco a vizinhança. A única exceção talvez seja a energia eólica, que representa hoje 3% da matriz energética brasileira. O problema é que sua instalação depende de condições climáticas ideais, que não se encontram em todos os grotões do planeta.

Outra questão cuja discussão sequer foi iniciada: como substituir as centrais nucleares ? Hoje, a maior parte da energia consumida na Terra é oriunda de usinas termelétricas. O carvão e o diesel que as alimentam saturam a atmosfera de gás carbônico e enxofre. O potencial de geração hídrica está alcançando o limite do possível. Por enquanto, não há tecnologia disponível para o aproveitamento em larga escala dos ventos, movimento das marés e luz solar na escala necessária para suplantar os malefícios causados pelas outras formas de gerção de energia.

A despeito da comoção e dos pavores despertados pelo “meltdown” de Fukushima, o mundo ainda vai ter que conviver por muito tempo com as usinas nucleares. Melhor fariam os especialistas e todos os outros chamados a dar opiniões sobre a energia atômica se colocassem claramente o problema — e ajudassem o público a entender que, apesar de todos os perigos, talvez ainda não haja nenhuma alternativa a não ser o aprimoramento da segurança em instalações, a adoção de medidas concretas de redução de danos em face de acidentes e a transparência das informações quando ocorre alguma emergência.

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2 comments

Rose 07/04/2013 at 12:57

Realmente foi uma grande trágedia. Por isso deve-se pensar em energia nuclear, utilizando outros tipos de energias mais saudáveis para a humanidade.

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Rose 07/04/2013 at 12:54

Realmente foi uma grande trágedia. Por isso deve-se pensar em enrgia nuclear, utilizando outros tipos de energias mais saudáveis para a humanidade.

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