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O bobalhão e o guerreiro

“Quem acredita nos princípios do individualismo, do empreendedorismo, da acumulação de capital, que são os preceitos do pensamento de direita, pode se espelhar em José Alencar. Não precisa ter medo de se associar às boçalidades de Jair Bolsonaro”

Rudolfo Lago, no site Congresso em Foco*

No Brasil, praticamente nenhum político costuma classificar-se como de direita. O sujeito é o mais empedernido conservador e jura que é de centro-esquerda. Instala-se o paradoxo: uma multidão de autoridades ditas de esquerda e centro-esquerda produz uma das sociedades mais desiguais do planeta. É a faceta política da nossa costumeira hipocrisia.

Essa tendência tem uma explicação: ao não se declarar de direita, o político quer evitar a todo custo ver a sua imagem associada à ditadura militar, que nos castigou por mais de vinte anos. Porque foi um período marcado pela intolerância, pela absoluta falta de respeito às diferenças, pela truculência, pela violência como resposta às divergências, pela falta de modos, pela falta de educação. Enfim, pela boçalidade.

Há um político brasileiro que não se importa em se classificar como de direita: o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). E, ao ver seu comportamento, é preciso dar razão aos demais conservadores que se esquivam da classificação ideológica. Porque Bolsonaro faz questão de demarcar em seu comportamento todas essas características descritas acima da ditadura militar. Intolerante, despido de qualquer respeito às diferenças, truculento, sem educação, violento – com as armas que lhe dispõe a democracia, que às vezes podem não machucar menos. Enfim, um boçal.

A técnica da caricatura consiste em destacar no desenho o que a pessoa tem de mais feio para imprimir humor ao traço. Se a pessoa é orelhuda, a orelha desenhada será incomensurável. Bolsonaro é uma caricatura de soldado. Faz questão de representar o que se costuma enxergar de mais feio naquele que enverga farda, arma e coturno. Não se faz respeitar. Prefere ameaçar e agredir. Tomando Bolsonaro como referência, ninguém vai mesmo querer se dizer de direita.

Morto na terça-feira, o ex-vice-presidente José Alencar pode ser uma boa referência a se seguir como exemplo bem melhor de um homem conservador e de direita. Ele até podia pessoalmente seguir a tendência comum de evitar o rótulo. Mas era inegavelmente um homem de direita. Aliás, nada melhor como propaganda de direita que o seu exemplo e a sua trajetória.

Não há nada mais furado que a ideia de que a dicotomia esquerda/direita seja uma coisa ultrapassada. Essa ideia, após a queda do Muro de Berlim, veio associada a outra ideia igualmente furada: a de que o capitalismo havia, enfim, triunfado na sua disputa com o socialismo. A crise na Europa e nos Estados Unidos são a prova mais veemente de que o capitalismo não triunfou coisa nenhuma. A dicotomia esquerda/direita é a briga entre a acumulação ou a distribuição social da riqueza. Entre o direito individual em contraposição ao direito coletivo. Está, por exemplo, na decisão do STF sobre a Lei da Ficha Limpa: a vitória do interesse individual sobre o interesse coletivo no STF foi a vitória da direita do Supremo contra a esquerda do Supremo.

Meu colega de coluna, Marcelo Soares, tem razão quando diz que Alencar não sobreviveria tanto tempo se fosse paciente do SUS. Mas, com todo respeito ao Marcelo, creio que não é aí que reside o exemplo de José Alencar. O dinheiro pode ter prolongado a vida de Alencar, mas também prolongou seu sofrimento. Porque, com relação a uma doença como o câncer, o dinheiro ainda não conseguiu eliminar a dor e o sofrimento. Alencar pagou para ter sua vida prolongada, mas pagou também pelas dores e enjôos da quimioterapia, pelos inconvenientes de colostomias e cirurgias que chegaram a durar mais de 20 horas. Se algum dia ele reclamou disso, só viram seus parentes e amigos mais íntimos. Porque, publicamente, Alencar enfrentava tudo com um sorriso nos lábios, bom humor e otimismo.

A marca do exemplo de Alencar está aí. É a ideia de que nós devemos enfrentar as adversidades da vida com coragem sempre. Sem se abater e sem cair na desculpa de que o destino, ou o sistema, nos impedem de avançar. O que Alencar fez com o câncer é o que ele fez com a vida: nasceu paupérrimo, estudou só até o fim do primário, mas ficou milionário. Existe melhor propaganda capitalista, de direita, do que essa?

Quem acredita nos princípios do individualismo, do empreendedorismo, da acumulação de capital, que são os preceitos do pensamento de direita, pode, portanto, se espelhar em José Alencar, o guerreiro. Não precisa ter medo de se associar às boçalidades da caricatura de soldado Jair Bolsonaro, o bobalhão.

 

*É o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, Rudolfo Lago atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultaram na cassação do senador Luiz Estevão

via O bobalhão e o guerreiro.

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