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Repassando a história: Veja de Mino Carta enalteceu a famigerada OBAN em 1970

OBAN: ação "tranquilizadora" e "eficiente".

Para quem quer desvendar o comportamento dos jornalistas nos piores anos da ditadura militar brasileira, a edição de Veja do dia 4/2/1970 é esclarecedora. Nela, Mino Carta, ao assinar a Carta ao Leitor,  anuncia uma reportagem “difícil e perigosa” sobre o famoso roubo do cofre da Mansão dos Schiller, no Rio de Janeiro. O caso ficou conhecido como o roubo do Cofre do Ademar. Na apresentação, Carta qualifica os guerrilheiros com o adjetivo da moda: ” um grupo de terroristas”.

No corpo da reportagem, lê-se o seguinte:

“Como foram os terroristas descobrir que era exatamente aquele o cofre do dinheiro de Ana Capriglione ? (…) Por intermédio de um sobrinho de Ana, o estudante Gustavo Buarque Schiller, na época com 22 anos (…) Um rapaz de boa família, considerado o mais inteligente de sua casa e que soube esconder de todos os parentes suas ligações com os terroristas, principalmente com Juarez Guimarães Brito, um dos organizadores da COLINA, grupo subversivo de Minas”. A COLINA, como todos sabem, era uma das organizações a que pertenceu a presidente Dilma, na sua luta contra a ditadura.

Na mesma edição, a reportagem seguinte à do cofre leva o nome de “Os rachas do Terror”, e dá conta do esfacelamento dos grupos que pegaram em armas para combater a ditadura. É preciso recordar o que Paulo Henrique Amorim sempre faz questão de dizer: “Como é conhecimento do mundo mineral, quem fez a Veja, quando podia ser lida, foi o Mino Carta. O Robert(o) lia a Veja na segunda feira, depois de impressa, porque o Mino não deixava ele dar palpite ANTES de a revista rodar.”

Pois bem, a revista que Mino editava, diante da desgraça que se abateu sobre os jovens que pegaram em armas, comemora: “Cresce contra as tentativas de reorganização a bem montada máquina antiterrorismo em funcionamento perfeito em Belo Horizonte (onde o COLINA foi inteiramente desfeito), em São Paulo e no Rio. Hoje, em todo o país, as forças do governo aprimoram uma mentalidade de combate à guerra revolucionária. E, se os terroristas reveem as falhas cometidas, policiais e militares sabem agora evitar melhor os erros. As notícias de prisões e confissões de terroristas não são mais anunciadas com tanta pressa, como antes.”

Como vêem, Veja, orientada por Mino, comemorava como acertada a tática não democrática de esconder do público que prisões tinham sido feitas, o que era o desespero das famílias e dos presos. Todos sabem que os democratas daquela época, na imprensa, faziam todo o esforço para noticiar prisões, porque, com elas divulgadas, diminuíam muito as chances de a ditadura simplesmente sumir para sempre com os presos. E todos também sabem como eram conseguidas as “confissões”: com torturas. Era o que acontecia com os presos políticos no intervalo entre a captura, via de regra ilegal, e a revelação da prisão. Defender esse hiato é rigorosamente coonestar a tortura, conhecida por todos.

Mas a reportagem vai mais longe em seu exercício de louvação aos métodos dos porões da ditadura. Pode parecer inacreditável à luz da democracia dos dias de hoje, mas Veja se prestou a enaltecer a famigerada OBAN (Operação Bandeirante).

“Na semana passada, a Organização Bandeirante, que coordena o combate ao terror em São Paulo, divulgou todo o trabalho feito para desarticular no Estado a Var-Palmares, a Aliança Nacional Libertadora (a ALN, de Marighela) e outros grupos terroristas. Foi uma notícia dada em momento oportuno, tranqüilizando o povo e, ao mesmo tempo, evitando prestar serviço ao terrorismo. Pelo contrário, só pode ter servido para mostrar a eficiência adquirida pelas forças policiais e militares.

As “conquistas” da OBAN, a casa dos piores horrores promovidos pela ditadura, são então traduzidas em números. “Em cinco meses, de setembro de 1969 a janeiro de 1970, 320 terroristas foram presos, 66 ‘aparelhos’ foram vasculhados, e foram apreendidos setenta fuzis , 33 metralhadoras, 170 bombas, 68 revólveres, dois morteiros e outras armas e grande número de munição.Para alguns policiais e militares, o terrorismo está totalmente desbaratado. Lamarca, Nóbrega, Câmara Ferreira, Marise Farhi, Juarez, Fujimori e outros nomes maiores e menores ainda continuam em ação. Mas as forças legais também agem, com métodos cada dia mais aperfeiçoados – e apertam cada vez mais o cerco”.

Ninguém que viveu essa período triste pode alegar desconhecimento do que se passava nos calabouços do regime. A história, de há muito, registra que os “métodos aperfeiçoados” eram os sequestros, as prisões ilegais, os desaparecimentos, assassinatos e a tortura. Mas, à época, Mino e sua revista eram só elogios à perfeição do combate desigual movidos pela força de um Estado com instituições caladas por atos de exceção.

Com certeza estudantes de jornalismo e historiadores poderão fazer bom proveito da publicação. Além da repulsa que provoca, o texto certamente conduzirá a um questionamento saudável e democrático. Serve, principalmente, para estabelecer uma clara distinção entre o que é jornalismo e o que é história. Como se vê, são duas coisas distintas. Escrever o que se lê ali é entender como se fazia o jornalismo no Brasil Grande dos Anos de Chumbo. Reler, hoje, é compreender a história.

Este blog tem como política não descontextualizar informações para promover a crítica política. por esta razão, publico abaixo a íntegra das reportagens, que também podem ser lidas no Acervo Digital de Veja.

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21 comments

Roberto 28/05/2012 at 01:51

Parabéns por relembrar o que parece ser o costume do senhor Mino Carta em elogiar os poderosos e tentar agradar o poder do momento.

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Fernando Borba 27/05/2012 at 15:05

O Mino Carta é relmente um farsante, um camaleão, esta matéria prova isto,

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Péricles 27/05/2012 at 12:01

Parece que andas nervoso e decepcionado pelo post não estar atingindo o objetivo…

Nota do Editor: seu comentário não conseguiu ultrapassar o mata-burro eletrônico do Blog. Lamento.

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Péricles 27/05/2012 at 22:23

Blog frágil demais para querer estar à frente de um debate político. Quando falta argumentação passa a agredir os leitores.

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Fábio Pannunzio 27/05/2012 at 22:55

Outros simplesmente vetariam críticas como esta. Você pelo menos não pode negar que este espaço é plural e democrático. Daí a aceitar passivamente besteiras e aleivosias vai um distância enorme.

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Fabio Figueiredo 17/06/2012 at 04:12

Desculpe mas faltou bom argumento.

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Miguel 25/05/2012 at 17:03

Caro Pannunzio,

Compartilho com vc a revolta quanto ao texto, da defesa que é feita da suposta eficiência da Oban em “tranquilizar o povo” e “nos defender dos terroristas”. Sim, concordo que o texto é repugnante e indefensável.

Porém, ao contrário de você, não sou jornalista e coloco uma dúvida que tenho com relação ao papel do editor: sei que existem editores que controlam, com mão de ferro, as reportagens escritas por sua equipe de jornalistas – inclusive fazendo alterações. Já me mostraram exemplos desse tipo edição, com enxertos que muitas vezes produzem textos anacrônicos, inconsistentes.

Pergunto: seria prática normal esse tipo de interferência no trabalho dos jornalistas subordinados? E mais: esta é uma prática adotada pelo Mino Carta? Não deve ser difícil encontrar alguém que já tenha trabalhado com ele para elucidar essa questão. O jornalista tem autonomia para escrever a reportagem ou terá o seu texto editado antes da publicação?

No mais, a afirmação do Demétrio é falsa (o editorial NÃO fala da Oban) e infelizmente ele se apoia nos seus posts para chegar a esta conclusão. E depois você ainda republicou o texto dele. O fato de eu ter chamado “dobradinha” não implica que seja premeditado ou intencional, pode ser apenas uma dobradinha “de fato”.

Fico feliz que vc tenha publicado o comentário. Sinal de que podemos manter um debate civilizado e de alto nível.

abraços

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Sergio Canella 25/05/2012 at 11:46

Caro Pannunzio
Você só esquece de informar que as redações da época estavam sob supervisão da censura. O que você queria, que VEJA da época informasse que as informações obtidas dos presos, cujas prisões não eram informadas, eram obtidas sob tortura?
VEJA poderia, abertamente, criticar o fato de as prisões serem feitas e não informadas, ato ao arrepio de qualquer norma legal?
Ela já fez muito em informar isso.
Mais uma vez repito, o ambiente da época permitiria que uma revista como a VEJA publicasse algo diferente?
Desculpe, mas achei que você forçou a barra. A reportagem é meramente informativa. Não vi nenhuma louvação à Oban.
Abraços

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Fábio Pannunzio 25/05/2012 at 11:57

Permitira sim, Sérgio. Os jornalistas da época corriam para noticiar as prisões porque isso obrigava À formalização das prisões e funcionava como um elemento limitador das atrocidades da caserna. Celebrar o retardamento da formalização equivalia a aumentar o tempo da tortura e ampliar a capacidade dos algozes de eliminar os inimigos do regime.

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Sergio Canella 25/05/2012 at 12:11

Concordo com você que o tempo sem informação sobre as prisões aumentava o sofrimento dos presos. Mas a VEJA, sob censura, poderia publicar isso? Jornais alternativos até conseguiam, mas a revista da Abril não. Lembro de um editorial da revista em 1976, já durante o governo Geisel, (não me lembro se era o Mino do Diretor de Redação pois ele saiu da revista nessa ano), onde ela informava que fazia um ano que ela estava fora da “supervisão” da censura, que ocorria desde 1969.
Desculpe, mas acho que faltou você informar isso.
Abraços

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Fábio Pannunzio 25/05/2012 at 12:25

Poderia sim, Sérgio. Assim como noticiou centenas de prisões — imagino que muitas vezes para cumprir op sacrossanto dever de defender a vida de quem estava me perigo só porque pensava diferente do que a oficialidade permitia. E tem mais um elemento nessa história toda. Você pode obtê-lo no posto “Mino Carta por Mino Carta”. Aí, quem fala não sou eu, é o próprio Mino Carta.

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Fabio Figueiredo 17/06/2012 at 04:19

Porque a imprensa se esforça tanto na discução da tortura no regime militar e não defende “os que estão em perigo” nos dias de hoje, por exemplo. O movimento “tortura nunca mais” não está mais funcionando? Era só para ajudar nas indenizações dos torturados da época? Sabem que ainda há tortura em nossas cadeias. No norte e nordeste o não torturado é uma excessão. Mas não dá IBOPE denunciar, e fazer campanha.
Quanto ao Mino ele defende quem for conveniente.

A Verdade Dói 01/08/2013 at 19:08

Você mesmo respondeu: O Movimento Tortura Nunca Mais é apenas para conseguir indenizacao por ocorridos na época.
Ele nao está nem aí para os presos, que nao os de companheiros dos atuais integrantes.

Rodrigo Prado 24/05/2012 at 14:50

A reportagem foi escrita pelos repórteres Carlos e Carmo. E não pelo Mino Carta, como o título do post dá a entender.

Até o jogo de parágrafos dá essa impressão:

“Repassando a história: Veja de

Mino Carta enalteceu a famigerada OBAN em 1970”

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Ricardo Feltrin Costa 24/05/2012 at 14:07

Entrei no arquivo de Veja e a Carta ao Leitor do dia mencionado, 4/2/1970, assinada por MC (Mino Carta) NÃO TEM o texto citado. Trata-se de uma calúnia contra o diretor de CartaCapital, prezado Pannunzio. Aguardo seus esclarecimentos aqui. Cordialmente, Ricardo.

Reply
Fábio Pannunzio 24/05/2012 at 16:00

Aprenda a ler, sr. Ricardo Feltrin. Vou facilitar as coisas pra você: na primeira coluna da página 20, abaixo da foto, no corpo da reportagem principal, exatamente como eu digo no post. Não sei se o sr. sabe, mas calúnia é crime. E imputar o crime a outrem é calúnia. Dê-se pelo menos ao trabalho de ler o que pretende criticar antes de falar bobagens.

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Miguel 25/05/2012 at 09:05

Muito bem sr. Pannunzio! Mandei um comentário falando da sua dobradinha com o Demétrio e o meu comentário foi censurado. Uma beleza.

É isso aí, continue com o bom trabalho! Democrático, mostrando o contraditório e, como você mesmo diz, “sem descontextualizar informações”. Você e o Demétrio estão indo muito bem.

Reply
Fábio Pannunzio 25/05/2012 at 11:44

Seu comentário foi vetado porque continha uma aleivosia e a pessoa qeu o sr. ataca não se defende neste espaço. Quando quiser atacar a mim e tiver argumentos razoáveis, será publicado.

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Miguel 25/05/2012 at 15:41

Caro Pannunzio, você poderia explicar qual seria exatamente a aleivosia?

1) Eu indiquei a página correta do texto referido (25 e não 20).

2) Eu citei a sua própria resposta ao sr. Ricardo Feltrin (“Aprenda a ler”) quando ele disse que vc estava caluniando. De fato vc não afirma que o texto é do Mino. Na verdade vc não informa em lugar nenhum quem é o autor da reportagem.

3) Eu citei ipsis litteris o texto do Demétrio “Os editoriais com a sua assinatura (Mino) eram peças de louvação da ditadura militar e da guerra suja conduzida nos calabouços. Um deles, de 4 de fevereiro de 1970, consagrava-se ao elogio da eficiência da Operação Bandeirante (Oban).”

4) Eu afirmei que o texto do item 3 acima era mentira – o que vc mesmo há de concordar em função da sua resposta ao sr. Feltrin. O editorial do dia 4/2/1970 não fala da Oban. Será que “mentira” é muito pesado? Vamos substituir por “engano” então, pode ser?

5) Eu citei de novo o Demétrio quando ele usou o seu blog como justificativa para o engano dele: “O material documental está disponível no blog do jornalista Fábio Pannunzio (http://www.pannunzio.com.br/), sob a rubrica Quem foi quem na ditadura.”

Qual é o problema então? Vocês fazem realmente uma bela dobradinha! Não sei porque vc ficou envergonhado…

Não creio que seja o caso de fazer um “ataque” a você, mas já que vc pede o melhor que posso te dizer é o seguinte:

O seu post é, na minha opinião (e aparentemente de outros leitores também como o sr. Rodrigo Prado), uma manipulação. Explico: vc leva um leitor apressado a creditar o texto elogioso a Oban ao Mino Carta e acontece que o texto não é dele. A reportagem em si tem seus próprios autores (claramente identificados na revista). O Mino assina apenas o equivalente a um editorial que apresenta/anuncia a reportagem que viria a seguir.

E é claro que o mesmo leitor apressado não vai se dar ao trabalho de folhear a revista original para entender isso. Então o resultado é que sob um manto de imparcialidade vc esconde uma manipulação que vai pegar a maioria dos incautos.

Fábio Pannunzio 25/05/2012 at 15:56

Estou publicando esse seu comentário contra os critérios que eu mesmo adoto para vetar todos os demais.
A aleivosia consiste na afirmação de que há uma “dobradinha” entre mim e o Demétrio. Isso é fazer pouco de um dos maiores intelectuais brasileiros e ainda instila uma desconfiança sobre os meus princípios e propósitos.
A respeito do que você qualifica como mentira, aproveito a oportunidade para dizer que a sua ótica é que provoca efeito de paralaxe interpretativa quando todo o material postado é claro e enfático. Todo o texto da revista é do Minio Carta. Ele era o editor-chefe plenipotenciário de Veja. Nada saía sem passar pelo crivo dele. Ou o que você acha que faz um editor-responsável ?
No mais, estranha-me muito que alguém possa ler essa defesa desbrida dos métodos de terror utilizados pela ditadura brasileira contra seus contendores e achar que isso é normal, honesto e ético. É indefensável, meu caro. É hediondo mesmo. Equivale a pugnar, nos dias de hoje, pelo extermínio de ladrões, assaltantes e traficantes. Equivale a pugnar pela eliminação física do oponente no campo ideológico. Equivale a coonestar a execução sumária. É simplesmente repugnante.
Entendeu agora os motivos que me levaram a vetar seu comentário?

Marisa Cruz 24/05/2012 at 09:34

Fiquei decepcionadissima com Mino Carta.Não imaginava que ele houvesse apoiado uma entidade como a OBAN.
Entretanto, vale ressaltar que ele tinha o respaldo da Revista Veja, para a qual trabalhava.

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