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Valet-tudo

Em São Paulo e outros grandes centros, onde há mais carros do que espaço na rua para estacioná-los, os motoristas se tornaram reféns dos valets. O prolífico mercado nasceu da institucionalização da flanelagem, ou da privatização das vagas públicas por aproveitadores que, não raro, atuam à margem de qualquer regulamentação — e muitas vezes contra ela.

Ao entregar o carro a um manobrista, seu proprietário não tem a menor ideia do que vai se passar com ele nos minutos em que estiver num restaurante, cinema ou teatro. Muitas vezes, o “motorista” a quem você dá a chave aproveita a oportunidade para vasculhar o interior e furtar objetos de valor .

Quando isso se tornou evidente demais, com a queixa reiterada de pessoas que descobriram o golpe na volta do veículo, os gatunos encontraram um meio de furtar algo cuja subtração raramente é percebida: o pneu de estepe.

Aí, a gatunagem só vai se revelar em situações que provocam muito aborrecimento e expõem as vítimas a situações de risco: o momento em que um dos pneus estoura ou fura e tem que ser substituído. O aborrecimento costuma tomar horas na espera do guincho e impõe um prejuízo enorme. Não raro é impossível adquirir apenas uma roda nova porque as empresas sérias costumam vender somente o jogo completo, com cinco rodas.

O recurso alternativo pode ajudar a retroalimentar a outra vertente desse mercado da pilantragem. A roda que você não encontra no comércio pode ser adquirida em borracharias que atuam como receptadoras. É para elas que os ladrões destinam o produto do furto. Ao recorrer a elas, você vai estar fortalecendo o pródigo mercado dos ladrões de estepe.

Há, no entanto, um procedimento simples que o motorista deve adotar como cautela: exigir que o valet inventarie o estepe e conferir na volta se ele está lá. Ou ao menos declarar que o carro possui o equipamento e verificar na volta se ele continua no lugar.

Essa exigência toma alguns minutos a mais e pode provocar aborrecimentos. Mas é bem melhor proceder assim do que ficar parado na beira de uma rodovia por causa de um pneu furado que não pode ser substituído.

Se todos fizerem assim, os ladrões disfarçados de valets vão ter que arranjar outra ocupação — o mesmo com os borracheiros que cumprem  o papel de vender a você a mesma roda que os manobristas furtaram do seu carro.

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